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OCTÓGONO Revista Capitular Templária

Ordem do Templo

Año V Nº 2

Julho 2020

Ciência e Esoterismo Uma reflexão sobre a natureza do conhecimento e do ser humano. Fr+ David Díaz

Racismo e Religiosidad no Brasil Fr+ Randolpho Radsack

A Roda da Vida Tibetana Fr+ Benjamín Pescio

A Mitologia Egípcia Fr+ José Renato Souza


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ANO V - Nº2

Editorial

humanidade está experimentando o retorno à consciência de sua própria fragilidade. A pandemia desencadeada pelo coronavírus trouxe a questão da morte à porta de todas as casas, não importa o quanto cada uma pudesse ignorar a questão, referindo-se a coisas que sempre "acontecem aos outros", mas nunca a si próprio. A humanidade não apenas se viu diante dessa realidade inexorável, mas para evitá-la, teve que voltar para a caverna de onde veio uma vez. Quais são os frutos que serão colhidos com essa experiência? Muito foi dito sobre o assunto. Para alguns, o ser humano terá entendido algo crucial em seu relacionamento com o mundo ao seu redor. Para outros, tudo continuará o mesmo, pois a memória é frágil e a natureza humana é imutável. Para certos líderes políticos, esta será a oportunidade de construir novas pontes entre suas respectivas nações, enquanto para outros, será a oportunidade de garantir maior controle sobre seus cidadãos. Talvez tenhamos mais chances de assimilar a fragilidade de nossa civilização, de nos entendermos como sociedades que fazem todo o possível para fugir da morte inevitável. Ou também pode não ser. Com isso em mente, muitas perguntas terão que ser feitas quando atingirmos a nova normalidade que nos espera. É possível que essa geração tenha entendido algo importante, mas mesmo assim isso poderia significar apenas uma anedota distante para o que deve acontecer com ela. O importante é aquilo que deveriamos saber elaborar em uma síntese, para que tudo isso não tenha sido em vão. Teremos que saber ensinar às novas gerações o que é transcendental, ou seja, o fruto espiritual do que vivemos em nossa própria solidão.

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Ciência e Esoterismo Fr+ David Díaz 1.- Introdução O Grande Arcano sempre foi codificado, se não oculto, aos olhos do Homem, e essa é precisamente a razão pela qual a humanidade embarcou em grandes caminhos para entender essa codificação. Já nas escolas do mundo antigo, como nos lugares ocultos das cavernas e nos laboratórios medievais, foi delineada a silhueta de uma escuridão deslumbrante que abriu os sentidos aos olhos corporais do indivíduo em direção à compreensão da Grande Obra e dos mistérios que estão incluídos nela. No entanto, como foi bem demonstrado na história, o conhecimento pode tornar seu portador grande, o que nunca foi do agrado daqueles que se apegam ao mundo das formas. Foi assim que a censura e a perseguição levaram muitos desses mistérios revelados a serem perdidos e os segredos disponíveis acabaram cada vez mais reservados. Muitos sobreviveram à nossa era e se manifestaram de várias maneiras, dando origem a novas doutrinas e ferramentas. Os mais comuns, de certa forma universais, são a ciência e o esoterismo.

Segundo a Real Academia Espanhola, a ciência (palavra originária do latim “scientĭa”) é um “conjunto de conhecimentos obtidos por meio da observação e do raciocínio, estruturados sistematicamente e dos quais são deduzidos os princípios e leis gerais com capacidade preditiva e verificável experimentalmente”. Essa definição nos mostra, portanto, que a ciência é um método empírico, que por meio da verificação permite estabelecer resultados demonstráveis e repetíveis em questões específicas no campo do conhecimento. Por outro lado, o esotérico é definido como "dizer uma doutrina da antiguidade: que foi transmitida pelos filósofos apenas a um pequeno número de seus discípulos" (do grego esōterikós, derivação de esōtérō, "mais profundo"). Essa definição nos fala de uma linha de pensamento que não requer necessariamente um processo de verificação de seus métodos, mas apela à recepção e interpretação dos elementos, uma qualidade que, mal explorada, nos deu a visão do charlatanismo em nossos dias.

2.- Conceitos Mas em que consistem esses campos? Bem, são ferramentas poderosas que nos ajudam a entender e superar os obstáculos que a porta da suspeita e da ignorância nos impõe, a fim de se desconectar da relação natural que temos com o universo e da qual o iniciado está ciente desde os tempos antigos. Se tentarmos estudá-los pelo seu aspecto técnico, encontraremos apenas definições que, por si só, os limitam, contaminando-os com aspectos banais. Mesmo assim, apenas como exemplo, apresento a você o que é ciência e esoterismo: 3


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Outras definições parecem dar uma tipologia para cada conceito, a fim de reconciliálo o máximo possível com outros campos do conhecimento. Por exemplo, da “ciência” encontramos quatro subclasses diferentes: formal, factual, natural e social. Assim, abrangem as áreas de lógica, matemática, pensamento abstrato, biologia e psicologia, entre outras, para acomodá-las nessa escala classificatória. A verdade é que, apesar de abarcar tantas áreas, isso apenas dá a ela o ar da ciência aplicada em sua base mais simples. Por seu lado, o conceito "esoterismo" recebe variações de acordo com seu estudo e prática, ou seja, de um esoterismo puramente espiritual a uma variante definida como "alternativa" ou não tradicional. Destes, encontramos áreas não reconhecidas pela formalidade acadêmica, mas que ainda fazem parte desse campo, como parapsicologia, Tarô, angelologia, astrologia e ocultismo (apesar de ser considerado um campo separado e não o mesmo esoterismo há classificações que o mostram como parte integrante). Como vemos nessas representações, parece que cada variante do conhecimento precisa se encaixar em um campo específico, a fim de evitar a orfandade que o pensamento moderno dá a todo preceito que aparece em uma corrente ou prática sem precedentes. Há de se ressaltar, que essa tipificação apenas garante um rótulo de materialidade excessiva,

uma vez que o pensamento vai além do plano no qual a matéria parece dominar tudo, dirigido por aqueles que acreditam que podem dar ordem a todas as coisas. Sobre isso, aludiram figuras como Oscar Wilde e Nicolau Maquiavel ao dizerem, uma sobre os médicos e a outra sobre os príncipes, "eles sabem tudo, mas é a única coisa que sabem". O assunto em questão vai além, e tudo isso nem sequer é a ponta do iceberg. É impossível acreditar que essas bordas majestosas do conhecimento sejam tão facilmente identificadas em algo tão independente e segregado. Como se para entender o Todo tivesse que fazer parte de um ou do outro lado. O Todo é harmônico em sua essência complexa e não há contra dificuldades para entendê-lo. Absolutismos apenas nos desviam. E é que as distinções conhecidas hoje são apenas uma invenção recente, pois é necessário esclarecer que, até alguns séculos antes (talvez XVI ou XVII), os campos do conhecimento convergiram em um único ponto, e somente depois surgiram as derivações, separando assim a essência de cada área do conhecimento. Antigamente, o mesmo personagem podia ter o título de cientista, alquimista e mágico, o que não levantava dúvidas sobre seu trabalho. A parte inferior deste trabalho não é julgar a denominação de uma coisa ou outra, mas entender o que a ciência e o esoterismo são em si mesmos.

PROCESSO DE ENTRADA NA ORDEM DO TEMPLO Juntar-se à nossa Nobre Ordem da Cavalaria Cristã e servir a nosso Senhor Jesus Cristo é uma das maiores honras que podemos ter. Nosso Departamento de Pessoal mantém constantemente as inscrições abertas para entrar em nossos Prioratos, você só precisa acessar nossas páginas da Web: www.chileordotempli.cl no Chile e www.ordemdotemplobrasil.com no Brasil, seguindo as etapas indicadas em cada página.

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3.- Estudo

do pensamento transfigurativo. Esta é a ciência principal da química moderna. Por seu lado, a anatomia surgiu como um estudo fisiológico para entender o mistério do corpo e serve de base para muitos métodos alternativos de medicina, como a acupuntura. A psicologia surge para mergulhar nos cantos da mente, entender os sentidos e ordenar ideias, o que dá origem a novos métodos da conhecida meditação. É a base de aplicação doutrinária que separa essas duas áreas. Uma é mais pragmática e procura dados concretos, enquanto a outra se concentra na compreensão do não palpável através de medidas e fórmulas. Em suma, a linha divisória que hoje parece tão latente entre essas áreas parece borrada e dispersa. O interesse de muitos acadêmicos em insistir nesta linha divisória acaba parecendo totalmente desnecessário, uma vez que o melhor entendimento só pode surgir da união do conjunto. É possível afirmar que, do plano iniciático a ciência e o esoterismo se usam e, portanto, são complementos. Um exemplo claro é a astrologia. Sem a observação astronômica, ela não pode ser usada para a interpretação cartomântica dos movimentos planetários no estudo de si mesma. Os caminhos do pensamento podem variar de

Já vimos as diretrizes que definem esses conceitos em sua natureza técnica, mas, como já mencionado, é apenas uma fragmentação. A ciência, por si só, nem sempre foi concebida como uma expressão máxima do pensamento racional ou estritamente determinístico. Anteriormente, era entendida como uma linguagem para ajudar a entender o oculto (daí seu nome base na língua materna, "conhecimento"). Sabemos muito bem que hoje esse conceito se refere a uma "guilda" específica de estudiosos, mas antes se podia identificar e caracterizar um místico ou astrólogo como cientísta, tendo em vista que eram conhecedores de métodos alquímicos. O esoterismo geralmente não está separado de nada, uma vez que sempre esteve presente nos costumes da sociedade. Dos ritos propriamente religiosos às práticas mais simples de adivinhação ou espiritualismo que floresceram tanto nos séculos XVIII e XIX. Por mais que pareçam distantes, a verdade é que hoje a ciência e o esoterismo estão presentes na sociedade, mantendo um pequeno diálogo como linhas de pensamento. Um exemplo é o da alquimia. Em seu tempo, a partir da própria essência da matéria, ela buscava descrever como surge a manifestação

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acordo com o desenvolvimento do método, mas sempre terão um ponto de encontro. Pa r a a f o r m a ç ã o d o i n i c i a d o , a compreensão do método é essencial. Esse método não é outro senão o caminho iniciático. É uma identificação filosófica que procura nos ensinar a entender o Todo em Si Mesmo e, assim, sincronizar-nos com os planos superiores da existência. Em outras palavras, o objetivo é harmonizar as dimensões racional e emocional, a ciência e o esoterismo. O indivíduo comum, em sua intenção de se impor para compreender o Todo de acordo com seus parâmetros limitados, criou desvios através dos quais é vislumbrado um caminho e um conhecimento, cuja melhoria é alcançada através da reflexão.

aquele que une os princípios masculino e feminino. Ambos são o mais e o menos, mas juntos eles são o equilíbrio que constrói o andrógino divino, uma vez que um é apenas o outro e um não existe se o outro não estiver presente. Tudo isso é puro esoterismo, que nos convida a meditar silenciosamente sobre o que é difícil falar, bem como a entender melhor nossa própria natureza consciente. Isso não significa acreditar em fantasias ou permanecer no puramente abstrato, mas abrir uma porta para os cantos ocultos do pensamento, aqueles que transcendem o cálculo e a fórmula exata. Nas palavras de Oswald Wirth: "O simples ignorante está mais próximo da verdade do que o pedante que se orgulha de uma ciência enciclopédica que, na realidade, se baseia apenas em falsas noções". No que diz respeito à doutrina da Ordem do Templo, isso não é ciência nem esoterismo separadamente, mas uma união perfeita entre prática e pensamento. Como a própria história mostrou, o templo é um ponto de equilíbrio para onde convergem os grandes ensinamentos, sem cair no fanatismo que tende a distorcer tradições.

4.- Ordem e sincronia Apesar do que foi dito antes, a linha que separa o conhecimento prático do espiritual ainda persiste. A chave para alcançar o bem perfeito é seguir na direção oposta, buscando a harmonia correta entre as diferentes doutrinas do pensamento. Assim como o homem não pode perpetuar a espécie sozinho, cada ideia separada não pode germinar a semente universal. Os sábios da antiguidade entendiam que a ciência divina era e sempre será a chave para entender o mistério das leis universais. Não é sobre causas e efeitos, mas sobre o próprio arcano que abrange sua presença na existência individual. Como mencionei antes, o homem sem mulher não pode perpetuar a espécie, porque sua individualidade é uma parte conjunta do mistério da dualidade na sincronia. Da mesma forma, o homem e a mulher encarnados não podem existir apenas como uma composição atômica, pois carregam o sopro divino dentro deles. Desse mesmo exercício surge o princípio alquímico do rebis, algo que os alquimistas chamavam de ideal ou dualidade inatingível em um nível de perfeição. Este é o verdadeiro mago,

5.- Conclusão O iniciado é chamado à compreensão da divindade e a se tornar um com ela; para saber tudo, mas nunca ser fuzilado, como diz a carta aos Tessalonicenses: "Examine tudo e guarde o q u e é b o m " ( 1 Ts 5 : 2 1 ) . A n a t u r e z a multidisciplinar que circunda nossa escola nos convida a aplicar uma parte do Todo a cada momento específico, a fim de nos aproximarmos um pouco mais do poder do qual a própria existência é composta. "Na casa de meu pai há muitas moradas" (João 14: 2), são as palavras de Jesus no evangelho. Como a casa é uma só, o mesmo acontece com o conhecimento, mas possui arestas diferentes pelas quais pode ser

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alcançada, sem que nenhuma delas seja a rota exclusiva. Ciência ou esoterismo, qualquer que seja o conceito, a verdade é que ambos formam partes fundamentais desse mistério chamado vida, e as usamos para entendê-lo da melhor maneira possível. O que é realmente importante é que, independentemente da linha que escolhemos seguir em nossas vidas, podemos cooperar harmoniosamente com o resto, como Claude Bernard disse: “Estou convencido de que chegará o dia em que o fisiologista, o poeta e o filósofo falarão a mesma língua e todos se entenderão”.

“Por mais que pareçam distantes, a verdade é que hoje a ciência e o esoterismo estão presentes na sociedade, mantendo um pequeno diálogo como linhas de pensamento”.

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Mensagem do Gran Prior do Gran Priorato Templário do Brasil

Aliado a isso, é um momento em que precisamos confiar na ciência e na sua atuação em busca de soluções no combate à pandemia. No entanto, precisamos compreender que as enfermidades, nem sempre vêm de fora. Precisamos buscar as curas interiores e refletir sobre aquilo que nos torna doentes no cotidiano, nas relações e em nossos pensamentos. O Gran Priorato Templário do Brasil vem se adaptando a uma nova realidade. Uma realidade de reflexões, de meditações e de encontros virtuais. É uma excelente oportunidade de ponderação sobre o nosso compromisso com o Templo. É um momento atípico, mas que nos evidência as atuações e as prioridades destinadas à Ordem. Nesse sentido, estamos trabalhando com afinco e com esperanças futuras de aprimoramento dos trabalhos e de nossas respectivas atuações.

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ivemos um momento atípico. Somos parte de uma geração que há tempos vem se engajando em uma rotina de sociabilidade global. No entanto, mesmo que o encurtamento das distâncias já fosse uma realidade, uma parcela significativa da sociedade ainda resistia às novas dinâmicas, principalmente as virtuais. Em um curto espaço de tempo, fomos obrigatoriamente transportados para uma nova realidade de fato. Além do isolamento social, os novos ambientes virtuais foram obrigatórios, tanto para o desempenho profissional, quanto para as relações familiares e interpessoais. As novas realidades oriundas do isolamento nos fazem refletir sobre vários aspectos. São novos desafios e aprendizados. Neste período singular, em decorrência da pandemia do Coronavírus, fazemos parte de uma sociedade que está lidando com pensamentos e emoções que acabam por se intensificar. Estamos aprendendo a lidar, ao mesmo tempo, com as distâncias e com as presenças integrais dos nossos núcleos familiares. Vivemos a angústia sobre o amanhã, sobre as incertezas profissionais e sobre as curas, ainda improváveis. Mesmo com dias difíceis, precisamos compreender que tudo é passageiro, inclusive nós. Precisamos lidar com os temas referentes à aceitação, recolhimento e, principalmente com a desaceleração. Precisamos confiar em Deus, agradecendo diariamente a vida que nos foi oferecida.

Fr+ Randolpho Radsack Corrêa Gran Prior do Gran Priorato Templário do Brasil

Em virtude da pandemia do novo Coronavírus, o Gran Priorato Templário do Brasil passou a realizar seus encontros previamente agendados em reuniões virtuais. Como as ferramentas de transmissão das reuniões facilitam os encontros, o Priorato vem cumprindo o planejamento de suas atividades anuais. Além das reuniões, o priorato continua a realizar as atividades e as entrevistas relacionadas ao recrutamento. Para maiores informações, acesso o site www.ordemdotemplobrasil.com.br

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Racismo e Religiosidade: Uma Realidade na História do Brasil Fr+ Randolpho Radsack 1.- Introdução O presente estudo tem por finalidade apresentar uma pequena reflexão sobre as práticas de intolerância religiosa no Brasil, principalmente no que diz respeito ao preconceito direcionado às religiões de matriz africana no país. Para esta reflexão, vamos nos debruçar sobre o período do Império, que se tornou o marco da primeira fase da história do Brasil independente em 1822. Para que compreendamos as intolerâncias religiosas atuais, é de fundamental importância analisar brevemente o processo histórico que originou tal fenômeno. Cabe a ressalva de que, os dados apresentados e utilizados para a presente reflexão, são oriundos de um trabalho mais amplo que foi divulgado na comunidade científica. A discussão a seguir nos permite compreender uma parcela do fenômeno que, infelizmente, sempre esteve presente na história do Brasil.

novo sistema administrativo, mesmo inspirado por modelos europeus anteriores. C a b e r e s s a l t a r, q u e a p ó s u m a transferência de sistemas governamentais em um acordo “de pai para filho”, muitos debates acerca das características da nova Constituição brasileira foram levantados. Na prática, temos o retorno de Dom João VI para Portugal e a permanência de seu filho Dom Pedro I para realizar o processo de Independência no Brasil. Conforme ressaltou o historiador José Murilo de Carvalho, o que se considerava retrógado em relação ao sistema político, administrativo e econômico na Europa oitocentista, foi a grande novidade no Brasil, tendo em vista a sua suposta autonomia política no início do século XIX. Considerada antiquada aos novos padrões políticos e econômicos da Europa, dada à ampliação da mentalidade industrial e de mercado, a concentração fundiária passou a ser vista no Brasil independente, como fator de riqueza e distinção social. A partir destas reflexões, é importante que tenhamos cautela em relação à generalização de categorias e definições, sobretudo pelas atipicidades na formação das estruturas de um Estado moderno na América. Os cuidados necessários sobre possíveis definições e compreensões acerca do Estado brasileiro e seus fenômenos, surgem, principalmente, pelos modelos até então conhecidos e inspirados a partir do sistema da

2.- Desenvolvimento Compreender os fenômenos de violência e intolerância religiosa em relação à sociedade nos exige um olhar cuidadoso sobre a complexidade de um Estado em formação que, por sua vez, se moldou sobre bases consideradas antiquadas se avaliarmos o contexto industrial europeu do século XIX. O Brasil que se sustentou por séculos em um regime colonial administrado por Portugal, em poucos anos sofreu grandes transformações após o processo de Independência em 1822, condicionando um 9


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colonização ibérica e seus arquétipos. Será importante compreender alguns dos aspectos que interferiram categoricamente nas dinâmicas sociais e suas respectivas diversidades e complexidades. Com relação à religiosidade no Império Brasileiro, a Constituição Imperial de 1824, em seu artigo 5º determinava que: “A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Imperio. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior do Templo”. Sendo o catolicismo a religião oficial do Império Brasileiro, as manifestações religiosas de cunho africano eram tratadas das mais diversas formas. Mesmo que tais manifestações pudessem se enquadrar na forma da lei, as práticas religiosas provenientes da África não eram consideradas oficialmente uma “religião” pelas autoridades, possibilitando um determinado grau de intolerância. Porém, independente desta institucionalização das manifestações religiosas advindas do continente africano, os cultos desta procedência não se configuravam crime segundo a redação da mesma Constituição Imperial. Como se identifica no fim do século XIX, inúmeras leis vinculadas à criminalidade no Brasil foram criadas neste recorte. Porém, no que se refere ao seu efetivo uso, poucas tiveram a eficaz aplicabilidade, tornando a estrutura da

legislação imperial um tanto quanto complexa. Esta situação criava uma espécie de “limbo jurídico”, como afirma o pesquisador João José Reis. No que se referem às manifestações religiosas advindas da África, podemos perceber certo grau de resistência a este tipo de culto. Baseando-se no argumento racista de que tais manifestações atentavam contra a construção da “civilização brasileira”, muitas delas foram perseguidas neste período no país. Um grande expoente do argumento racista no Brasil foi o médico Nina Rodrigues. Destacou-se pela elaboração de teorias raciais que vinculavam a negritude e a miscigenação junto à degenerescência e ao crime. Segundo Nina Rodrigues, a permanência do negro no Brasil e a miscigenação decorrente, eram fatores de risco na construção do perfil do cidadão brasileiro. Além disso, segundo o médico, negros, índios e mestiços deveriam receber tratamento diferenciado, por serem classificados de “origem inferior”. Esse tipo de pensamento relacionado ao “darwinismo social” já vinha ganhando espaço na Europa com os nomes de Joseph Arthur de Gobineau e Cesare Lombroso. Segundo o pesquisador João José Reis, o candomblé em particular, era visado como um poderoso obstáculo contra o processo civilizatório ocidental pensado para o Brasil. Com relação aos “pais-de-santo”, por vezes eram responsabilizados por furtos, estelionatos e

QUAL É A HISTÓRIA DO IMPÉRIO DO BRASIL? Após a ruptura com Portugal, o Brasil passou por três fases: 1º Reinado de Pedro I (1822-1831), Período Regencial (1831-1840) e 2º Reinado de Pedro II (1840 – 1889). A 3ª fase foi considerada a mais gloriosa da monarquia, precisamente até 1870. Com o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870), os militares brasileiros retornaram ao país com muita credibilidade após a vitória, exigindo maior atuação política no governo. Como não foram atendidos, formaram uma contra-elite, propagando o republicanismo no país a partir de 1870. Em 15/11/1889, um grupo liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca instaurou a república no país por meio de um golpe.

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crimes em geral, fomentando a “censura” dos mesmos, motivada pelas autoridades. Em um caso ocorrido em 1883, na província de Minas Gerais, a Justiça analisou o crime que vitimou o “preto velho” de nome Jacintho. Cabe ressaltar, que esta denominação se refere a um tipo de função na linha de trabalho da Umbanda. Segundo os critérios desta manifestação religiosa, os homens que exercem a função de “preto velho” incorporam espíritos de velhos africanos que morreram sendo punidos pela condição de escravos. Estas entidades relatam casos passados e são consideradas purificadas e passiveis de purificar os homens. Com base nas pesquisas de Reis, foi possível verificar que esses cultos, por muitas vezes foram motivo de preocupação por parte das autoridades. Termos como “feitiço” e “bruxaria” eram atribuídos às manifestações tradicionalmente realizadas pela Umbanda e pelo Candomblé. O grande medo das autoridades e de uma parcela da sociedade era que estas manifestações religiosas se tornassem organizações subversivas, promovendo a revolta escrava. Evidentemente, havia também o medo do sobrenatural. Jacintho era um “preto velho” com mais de sessenta anos. De acordo com o processo criminal, Jacintho era acusado pelos seus vizinhos de realizar práticas de feitiçaria. Na noite do dia 11 para o dia 12 de agosto de 1883, estando em sua cama, Jacintho foi surpreendido por um tiro disparado fora de sua residência. Segundo o inquérito policial, o tiro foi realizado pelo réu de nome Moizés. O projétil atingiu o maxilar de Jacintho, desfigurando completamente a região bucal, determinando a morte do mesmo, três ou quatro dias depois. No momento em que o referido “preto velho” foi caracterizado como feiticeiro em sua região, alguns indivíduos que residiam nas proximidades, atribuíram os casos particulares de doenças familiares à suposta prática de

feitiçaria realizada por Jacintho. Segundo o relato de algumas testemunhas do processo, Jacintho era considerado um grande feiticeiro e que para o mesmo, “só a morte”. Assim, a possível “feitiçaria” realizada pelo “preto velho” construiu todo um imaginário a partir de sua figura mística. As manifestações religiosas de matriz africana, por vezes foram caracterizadas como “profanas” se comparadas ao tradicionalismo católico apostólico romano. No entanto, é importante destacar que muitas características culturais africanas foram incorporadas ao catolicismo popular brasileiro. Uma parcela significativa dos africanos escravizados trazidos para o Brasil era obrigada a se converter ao cristianismo. Como não tinham poder de escolha, os escravos fingiam venerar imagens católicas, enquanto imaginavam suas divindades chamadas de orixás relacionadas às suas matrizes religiosas. Com isso, os orixás de origem africana acabavam sendo imaginados e adorados na veneração de santos católicos. Alguns exemplos podem ser considerados. 2.1.- Iemanjá

A divindade Iemanjá era idealizada a partir da imagem de Nossa Senhora da Conceição. Esta divindade é considerada rainha dos rios, mares e oceanos.

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2.2.- Iansã

2.4.- Ogum

A divindade Iansã era imaginada na figura de Santa Bárbara. Iansã é considerada deusa dos raios, ventos e tempestades.

Ogum era o orixá relacionado à imagem de São Jorge. É considerado o orixá da guerra. 2.5.- Oxalá

2.3.- Xangô

O orixá Xangô era pensado quando se veneravam as imagens de São Jerônimo e São João. Este orixá é considerado o deus do trovão e da justiça. A divindade Oxalá é o orixá relacionado à figura de Jesus. É a divindade que criou a humanidade.

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Com relação as manifestações culturais negras, Martha Abreu e Larissa Viana, afirmam que “propiciavam caminhos para sujeitos sociais nem sempre valorizados comunicarem-se e exprimirem seus interesses culturais e políticos, seus direitos e patrimônios. (...) Na segunda metade do século XIX, os argumentos da civilização alcançavam as festas negras, religiosas e populares visando preservar a moral pública contra as ‘indecências’ e a ‘licenciosidade’ que supostamente animavam tais divertimentos”. Segundo a publicação das autoras, o Brasil Império foi palco de um vasto território de conflitos e negociações no que se referem às festas e aos cultos religiosos. Estas festividades proporcionavam importantes caminhos para que os sujeitos sociais, nem sempre valorizados, se comunicassem apresentando seus interesses culturais. No entanto, como já mencionamos anteriormente, permitir a realização de festividades negras no fim do Império, por vezes significou abrir brechas para revoltas e motins. Buscando uma negociação, os negros que desejavam exercer seus valores culturais se mostravam dispostos a ousar, defendendo seus direitos de festejar, celebrar e cultuar.

É importante destacar que, o Brasil é um país extremamente plural quando o assunto é religiosidade. O país possui matrizes religiosas distintas e numerosas. Contudo, é relevante ressaltar que grande parte do preconceito e da intolerância é direcionada às religiões de matriz africana. A intolerância, o racismo e os atos de perseguição são originados em um passado que buscamos retratar nesta reflexão. No entanto, ainda hoje, é possível verificar estes mesmos fenômenos no Brasil. Mesmo com leis que resguardam o direito à profissão de fé, a humanidade tende a agir de acordo com o seu próprio interesse, sem respeitar o próximo em sua relação à diversidade de suas crenças e suas respectivas etnias.

“Uma parcela significativa dos africanos escravizados trazidos para o Brasil era obrigada a se converter ao cristianismo. Como não tinham poder de escolha, os escravos fingiam venerar imagens católicas, enquanto imaginavam suas divindades chamadas de orixás relacionadas às suas matrizes religiosas”.

3.- Considerações Finais Além dos fenômenos de intolerância religiosa e de criminalização da negritude no Brasil, o que se percebe ao longo da história do país é a grande preocupação por partes das elites imperiais sobre as camadas pobres e suas respectivas “patologias sociais”. Nesse sentido, além da divulgação de teorias que subjugavam e inferiorizavam as camadas pobres e negras, parte da preocupação das elites dominantes do país se dirigiu para o comportamento da população marginal. Ao longo do século XIX, percebemos a ênfase na tentativa de se considerar a inferioridade de negros e indígenas.

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A Roda da Vida Tibetana Fr+ Benjamín Pescio 1.- Introdução Desde os altos planaltos do sudoeste da China, o Tibete inspirou muitas mentes ocidentais ao longo da história, principalmente devido à maneira como a filosofia de seus mosteiros está presente nos empreendimentos populares. O médico francês André Migo, já se maravilhava com esta nação do Himalaia, fazendo longos comentários sobre o nível de independência que gozava contra o regime Kuomintang, no governo da China na década de 1940. Em seu relato, a cidade de K'ang-ting, conhecida como "o portão do Tibete", marca o trânsito abrupto de uma raça, de uma civilização e de uma religião para outra. É sobre a expedição que o levou a iniciarse em uma das diferentes seitas monásticas aqui presentes e, assim, corroborar com a onipresença da religião entre os habitantes do "país da neve". Tudo isso sob o governo então teocrático de Dalai Lama, que os budistas tibetanos consideram como um mestre conscientemente reencarnado. Este trabalho procura penetrar na filosofia do budismo tibetano através de uma análise da Roda da Vida, que é um de seus símbolos mais importantes.

monarca Sontsen Gampo e foi estabelecido como religião oficial pelo trabalho de seu sucessor, Trisong Detsen. No entanto, quem realmente pode ser considerado o pai espiritual dos budistas tibetanos é Padma Sambhava, que é descrito como um mágico poderoso que subjugou os antigos feiticeiros bonistas em 747. Esse mestre veio da região indiana de Udyâna, centro da doutrina do Tantra (também conhecido como Vajrayāna), que a partir de então é praticada pelos monges do budismo tibetano, conhecidos como "lamas". Conta o Dr. Migot que, graças à tolerância inerente ao budismo, alguns praticantes do Bön ainda podem ser vistos, mas muitos deles são, à primeira vista, indistinguíveis dos lamas. O vínculo é especialmente evidente nas danças rituais destes últimos, onde são frequentes as personificações de deidades folclóricas antigas que hoje ocupam um lugar simbólico e filosófico para o iniciado budista, o que mostra que o Bön deixou suas impressões e suas qualidades xamânicas na imaginação local.

2.- A doutrina do Tantra Nascido na Índia entre os séculos V e IV a.C, o ensinamento de Gautama Buda não chegou ao Tibete até o século VII da era cristã. Até então ali reinava o Bön, uma espécie de xamanismo que promove o culto aos elementos da natureza e inclui vários rituais de natureza mágica, incluindo sacrifícios de animais e humanos. O budismo foi introduzido com a conversão do 14


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Helena Blavatsky, em sua Doutrina Secreta, define o xamanismo antigo como um culto espiritual que postula a imortalidade da alma e sua reencarnação. "As pessoas vulgares chamam os xamãs de feiticeiros, porque dizem que evocam os espíritos dos mortos para exercer necromancia; mas o verdadeiro xamanismo não pode ser julgado por suas ramificações degeneradas na Sibéria, da mesma maneira que a religião Gautama-Buda não pode ser confundida pelo fetichismo de alguns que afirmam serem seus capangas no Sião e na Birmânia. Atualmente, eles têm seus lugares nos principais lamaseria da Mongólia e do Tibete, e o xamanismo, se podemos chamar assim, é praticado no sentido mais amplo de comunicação permitida entre o homem e o espírito ", diz a fundadora da Sociedade Teosófica. Não se sabe muito sobre as práticas que ocorrem nessas lamaserias, uma vez que, por definição, são reservadas para quem aos seus iniciados. Migot afirma que, o Tantra sempre atribuiu um significado mágico aos dibujos (mandala) e entonações rituais (mantra, dhâranî) que estão incorporados em toda parte no Tibete. Como ele explica, o chamado "veículo tântrico" produz confusão na mente ocidental, uma vez que não se entende o simbolismo de suas imagens e frequentemente são distorcidas. Parte da explicação seria que, a oração e a visualização sob essa filosofia escapam

completamente das categorias religiosas do Ocidente, já que “não é mais, então, uma questão de direcionar as orações para uma divindade diferente de nós, mas de realizar nossa união com o Absoluto considerado sob qualquer forma, à nossa escolha ”. Essa concepção de divindade, que somente no Oriente poderia ter tais liberdades, é explicada pelo conceito budista de impermanência, e os lamas usam métodos específicos para levar essa ideia aos seus discípulos. Um exemplo claro disso é que, na varanda de cada lamaseria, você pode ver o Bhavacakra (tibetano, Sipai Khorlo), uma mandala que serve para representar graficamente o ciclo de encarnações (sânscrito, saṃsāra) e o método para a libertação deste (s., moksha). Dizem que foi o próprio Buda quem, usando grãos de arroz na terra, o desenhou pela primeira vez. Três animais no centro, seis mundos no meio e doze pinturas na periferia são seus principais elementos. 3.- O Bhavacakra 3.1.- Os Três Venenos No círculo interno da roda, cada animal simboliza uma disposição que tenta contra a libertação do indivíduo, em sua luta espiritual para transcender os enganos materiais. O porco (s., moha) simboliza a ignorância, enquanto o

¿QUEM É DALAI LAMA? Tenzin Gyatso, nascido em 6 de julho de 1935, é o 14º Dalai Lama, líder espiritual do Tibete. Sendo reconhecido como tal aos dois anos de idade, sua vida não foi fácil. Em 1959, ele fugiu para a Índia para evitar perseguições nas mãos do governo chinês de Mao Zedong. Isso não o impediu de realizar constante ativismo pela libertação pacífica do Tibete, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 1989. A partir de 2011, Dalai Lama renunciou à autoridade política do Tibete, deixando isso nas mãos do governo local, em vista de um regime democrático.

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ANO V - Nº2 Na filosofia budista, cada indivíduo é responsável pela posição em que se encontra, o que é explicado pela doutrina da ação (s., karman). Cada efeito tem uma causa por trás, e esse efeito também gera outros que serão causas em uma faixa tão ampla que excederá nossa percepção. O universo é constituído por uma cadeia causal infinita, mas tudo o que nos envolve nessa cadeia é nossa capacidade de agir no sentido desejado. O budismo não postula glórias e nem punições eternas. Cada ser é trazido para novas formas de existência por causa de suas ações, que podem levar a melhores ou piores condições de vida. Assimilar a condição sempre mutável e nunca estável de todos os elementos, estando sujeito à cadeia de causalidade, permite-nos entender o conceito de sua impermanência. Aceitando os ensinamentos de Buda, segue-se que há um caminho no qual a ação condicionada pelo mundo causal se encerra. Quando o conhecimento é orientado para o que resta por trás das ilusões, a Roda é levada à sua extinção (s., nirvᾱṇa). Pallis considera que tentar explicar esse estado culminante seria uma "perda de tempo", pois não conseguimos imaginá-lo, pois todos os nossos recursos mentais se originam dos elementos da Roda. Pela mesma razão, sua operação deve ser entendida de uma perspectiva elevada.

galo (s., rāga) simboliza o apego aos desejos e a serpente (s., krodha) simboliza a raiva. Eles geralmente aparecem mordendo as caudas entre si na forma de um triângulo, o que aponta para o retorno das paixões como uma armadilha que sujeita o indivíduo a comportamentos persistentemente errôneos e degenerativos, segundo o tibetologista Bryan Cuevas. Por seu lado, o místico inglês Marco Pallis, sustenta que a raiz desse ciclo é a ignorância, entendida não como falta de conhecimento sobre algo, mas como uma disposição geral que inclui credulidade, obscurantismo e a "omissão do dever de tentar ser sincero e inteligente”. O anel que circunda o círculo interno mostra o que é conhecido como caminhos brancos e escuros. No primeiro, os bodhisattvas guiam os seres para os reinos mais elevados, enquanto no segundo, são levados para baixo pela ação violenta dos demônios. O bodhisattva é um ser que, apesar de ter transcendido a Roda, está presente nela com o único propósito de ajudar aqueles que sofrem. Ele é uma figura muito importante para o Vajrayāna. O Tibete reconhece o bodhisattva Avalokiteshvara como sua divindade tutelar, reencarnada em cada um dos sucessivos Dalai Lama. Ele também é definido como o agente de qualquer situação em que ações compassivas são realizadas.

3.2.- Os Seis Reinos Como é fácil observar, a maior parte da superfície do Bhavacakra está dividida em seis grandes áreas cheias de caracteres em diferentes situações. Eles são conhecidos como os Seis Reinos e correspondem a seis formas de existência. Acima dos seres humanos (s., manushyas) estão localizados deuses (s., devas) e titãs (s., asuras), enquanto abaixo estão animais (s., tiryakas), fantasmas famintos (s., pretas) e outros seres do purgatório, como demônios (s., narakas).

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3.2.1.- Deuses e titãs: qualquer pessoa não familiarizada com o budismo pode pensar que o reino dos deuses, com sua beleza paradisíaca, é o destino mais desejável ao qual se pode aspirar. Para os budistas, não é assim. Os devas tendem a esquecer o desenvolvimento da compaixão e do desapego das ilusões sensoriais. Envoltos nos prazeres de seu mundo idílico, muitas vezes se tornam indiferentes aos que sofrem, pois têm fácil acesso aos frutos da árvore. Isso descreve sua relação com o mundo em que a árvore planta suas raízes, no meio dos asuras que a habitam. Este também é um mundo idílico, mas a eterna ambição dos asuras os impede de desfrutálo plenamente, pois estão determinados a fazer guerra com os devas para elevar-se à sua condição. Como nenhuma dessas formas de existência é permanente, a persistência desses seres em seus vícios característicos, mais cedo ou mais tarde, os leva à perda de seus privilégios.

chamadas Quatro Nobres Verdades. A primeira verdade é que o sofrimento existe, enquanto a segunda verdade afirma que a causa do sofrimento é a ignorância. A terceira nos diz que o sofrimento pode chegar ao fim, e a quarta indica que, para alcançar esse objetivo, existe um caminho, o do Dharma. Em suas palavras, esses princípios são verdadeiros, porque a busca pela felicidade e a superação do sofrimento é uma tendência instintiva que não precisa ser corroborada. 3.2.3.- Animais: O animal ou tiryaka é considerado um ser que não está em boas condições para tomar consciência de si mesmo, pois vive imerso em ignorância, complacência e transe de suas necessidades orgânicas. Além disso, ele não tem senso de humor. Às vezes, sua existência é pacífica, mas é constantemente ameaçada por seus predadores naturais ou pelo próprio homem. No entanto, dos três reinos inferiores, o reino animal é aquele que mantém uma conexão inerente à simpatia e bondade universais.

3.2.2.- Humanos: Embora possa parecer incomum, o ser humano é considerado no budismo como o melhor posicionado para transcender a Roda da Existência. Sua condição terrena o leva a sofrer a escravidão dos apegos, mas ele sempre tem a possibilidade de seguir o caminho do Dharma (escritura que contém a doutrina elementar do budismo) e aprender com as más experiências. Porém, poucos se aproveitam dessa oportunidade. Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama, nos convida a pensar sobre o sofrimento (s., duhkha) de acordo com a cadeia de causa-efeito à qual ele pertence, raciocínio do qual surgem as

3.2.4.- Fantasmas famintos: lamentável é a condição dos pretas, seres que vivem sob constante sofrimento de desejo insatisfeito, pois são incapazes de engolir comida por causa de suas bocas minúsculas, o que explica seu nome como "fantasmas famintos". Como no resto dos reinos, a figura que é exaltada acima do templo corresponde ao boddhisattva Avalokiteshvara, que, como já foi dito, é a divindade tutelar dos tibetanos. O objetivo de sua presença não é

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outro senão aliviar os sofrimentos que ocorrem em cada reino e, assim, guiar seus habitantes ao longo do caminho do Dharma. 3.2.5.- Demônios: O reino mais horrível e que nenhum ocidental hesitaria em classificar como o inferno é o dos narakas, seres que devido à sua malignidade desceram ao nível de maior sofrimento, se sujeitando aos tormentos cruéis por executores com cabeças de animais, cujos elementos de tortura variam do fogo ao gelo, entre muitos outros. Uma figura imponente pode ser vista no centro, que corresponde a um “Defensor do Dharma” (s., dharmapala) cujo nome é Yama (t., Shindjé), conhecido como “Juiz dos Mortos”, cujo único trabalho é operar o mecanismo de causa e efeito. Essa "divindade colérica" é, de fato, quem sustenta a Roda em sua totalidade. Seu rosto medroso realiza a coragem necessária para enfrentar a própria morte e verificar o conceito de impermanência. Os cinco crânios que adornam seus cabelos correspondem aos Cinco Agregados ou Skandhas: forma (s., rupa), sensação (s., vedana), percepção (s., samjna), formação (s., samskara) e consciência (s., vijnana), fenômenos sobre os quais o indivíduo forma a ideia equivocada de "eu". O terceiro olho representa a visão que transcende essas mentiras.

sentimentos (a flecha no olho), desejo (bebedores de chá), apego (mulher pegando uma fruta), devir (casal copulando), nascimento (mulher dando à luz) e morte (cadáver). O Dalai Lama explica esse princípio da seguinte maneira: “Todos os objetos materiais podem ser definidos em função das partes que compõem a totalidade e, consequentemente, pode-se dizer que a ideia de totalidade depende da existência das partes". 4.- Um comentário sobre reencarnação O esoterista Julio Hiriart estabelece uma distinção geral sobre a concepção de vida após a morte: enquanto no setor da Índia se desenvolveu a doutrina da reencarnação, na Ásia Menor emergiu a doutrina da ressurreição, característica das religiões zoroastristas, judaicas, cristãs e islâmicas. Um conceito que remonta à filosofia do Corpus Hermeticum. Neste compêndio, afirma-se que a alma passa por diferentes estados antes de se tornar humana, e que quando se torna piedosa o suficiente, se converte por completo em mente, recebendo um "corpo de fogo" para agir a serviço de Deus, postura com o qual Hiriart concorda quando afirma que o propósito divino da reencarnação é "formar colaboradores eficientes de várias condições". Ao mesmo tempo, ele descreve fortes críticas à classe sacerdotal dos brâmanes indianos e ao uso do ensino de karman como um instrumento para

3.3.- As Doze Origens Interdependentes O anel externo da Roda mostra doze figuras diferentes que correspondem às Doze Origens Interdependentes (s., Pratitya-Samut Pada), e explica o processo de renascimento sob a influência da ignorância, para que possam ser definidas como amplificação do efeito gerado pelos Três Venenos. Representam ignorância (cego), ação voluntária (artesão de jarros), consciência condicionada (macaco), nome e forma (navegadores), sentidos (casa), impressões sensíveis (casal abraçado),

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justificar seus privilégios materiais, aludindo ao que ele considera uma distorção histórica do conceito de reencarnação.

“Quando o conhecimento é orientado para o que resta por trás das ilusões, a Roda é levada à sua extinção (s., nirvᾱna). Pallis considera que tentar explicar esse estado culminante seria uma ‘perda de tempo’, pois não conseguimos imaginá-lo, pois todos os nossos recursos mentais se originam dos elementos da Roda”.

5.- Conclusões A religião cristã fez muitos de seus fiéis pensarem que o Céu é um estado desejável, sendo o melhor possível. Porém, a Roda descreve um mundo análogo a esse Céu imaginário, colocando-o na categoria de ilusão. Por sua parte, é enriquecedor saber que a horrível besta encarregada do inferno é entendida no budismo como uma divindade benéfica, uma concepção que ilumina a visão popular do cristianismo na qual Satanás, apesar de inimigo, parece estar colaborando com Deus na punição de pecadores. Tendo analisado o conceito budista de impermanência como a natureza do samsāra, sabe-se que a reencarnação não é algo desejável para o iniciado na doutrina de Gautama Buda. Em relação à Ordem do Templo este detalhe nos leva a um ponto de confluência, pois este último é baseado no ensino ocidental da filosofia hermética e não sofre com a obsessão das escolas indianas em relação à reencarnação. Isso poderia nos dar a chave para estabelecer um escopo entre a ressurreição e o nirvana, se ambos os conceitos pudessem ser entendidos como algo que está além da nossa compreensão atual. O ponto de vista esotérico do cristianismo nos permite apreciar a ressurreição de acordo com os ensinamentos do Corpus Hermeticum, com base em uma missão que nos transcende. Na qual devemos nos preparar para assistir um Deus piedoso, de maneira que os servos do Dharma desempenhem suas funções entre o sublime e o terreno.

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A Mitologia Egípcia: Divindades no Imaginário de uma Sociedade Fr+ José Renato Souza 1.- Introdução quilômetros de comprimento e 250 quilômetros de largura, desaguando no mar Mediterrâneo. Nesse Delta, ocorreu a junção do Nilo azul ao Nilo branco, e esse último com parte de seu volume de água proveniente do degelo da África equatorial e dos picos em torno da bacia do lago Vitória. O Rio Nilo proporcionava durante as suas cheias e recuos um vale fértil para produção de grãos e outras culturas, trazendo prosperidade às diversas tribos formadas por clãs de famílias que habitavam suas margens. O Egito, nesse tempo, era dividido em Alto e Baixo Egito, sendo o Alto Egito governado por Menés, um guerreiro que após várias batalhas e vitórias unificou o Egito, sendo o primeiro faraó a iniciar a Primeira Dinastia entre 3032 a 3000 a.C. Esse grande império “africano” construiu inúmeros monumentos enigmáticos (pirâmides), sendo a mais antiga encontrada ao longo da Terceira Dinastia. No entanto, as pirâmides são

Esse estudo tem a finalidade de desenvolver uma breve análise sobre a mitologia egípcia, seus deuses e suas características. No entanto, ao aprofundar nos conhecimentos sobre o tema, torna-se importante descrever, mesmo que brevemente, a história da formação do Egito e seus principais aspectos que evidenciam alguns mistérios desse povo milenar que possui presença marcante nos rumos da humanidade. 2.- O início O vale do Nilo, traçado pelo tempo, inundado pelas águas do mar Mediterrâneo, alimentado por rios com nascente na Etiópia, o Nilo azul, teve seu volume de água também aumentado por numerosos rios temporários da região arábica. Toda essa movimentação de águas, junto aos demais fenômenos da natureza, resultou em aterramentos e obstruções que vieram a formar o Delta do Nilo com 160

JESUS, 3.000 ANOS ANTES DE CRISTO Este é o título do trabalho que Claude-Brigitte Carcenac publicou com base em sua pesquisa sobre as semelhanças entre o cristianismo e o mito egípcio, onde é possível notar vários paralelos entre a história narrada nos Evangelhos e as descrições de como o faraó passou a ocupar o "trono de Hórus". O autor sugere a possibilidade de que a narrativa do Novo Testamento tenha sido escrita por conhecedores das doutrinas egípcias em Alexandria, que deveria ser considerada o berço do que entendemos hoje pela religião cristã.

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as únicas obras que ultrapassaram esse tempo, e que talvez denuncie a busca dos egípcios pela imortalidade. Os egípcios construíram túmulos com o objetivo de contar a história dos faraós pelo resto dos tempos. A arqueologia constata que não se tem achados de cidades preservadas ao longo do Nilo. O que se destaca nos achados arqueológicos, são regiões onde descansam os reis “deuses” daquele tempo. Elas são constituídas de casas comuns que não presavam pela durabilidade. Esses indivíduos tinham como objetivo vencer a morte, preservando seus corpos mumificados para um dia renascer. O Egito viveu seu esplendor, parecendo não ter d a t a p a r a t e r m i n a r. E m b o r a t e n h a s e consolidado e se mantido como uma grande potência entre os povos da antiguidade, o Egito foi apenas um entre tantos impérios que ruíram ao longo da História.

essência o poder de transformar e dar vida a outros seres, apresentando um poder alquímico obtido em suas lagrimas e em seus fluidos corporais. O que se identifica entre as características destas divindades é o antropozoomorfismo. São inúmeras combinações entre aspectos físicos em que parte do corpo é humana e outra animal. 3.2.- Deuses egípcios As características atribuídas aos deuses egípcios permitiam a onipresença e a metamorfose que influenciavam os elementos e possibilitavam o controle da natureza. Como parte considerável da economia do Egito se relacionava com a agricultura, a fertilidade era um aspecto recorrente da relação dos homens com as divindades. Como mencionamos anteriormente, são divindades que possuíam a capacidade de nascer, morrer, de possuir sentimentos e influenciar nos aspectos cotidianos de um povo. Após uma análise específica, relacionamos abaixo as principais características de quatorze divindades de significativa importância na mitologia egípcia.

3.- Mitologia Egípcia Quando passamos a falar sobre a mitologia egípcia e seus deuses, devemos saber que vamos nos deparar com aproximadamente 2000 deuses. Contudo, vamos nos debruçar na análise de 14 divindades conhecidas, sobretudo pela importância atribuída às mesmas. Devemos ainda dizer, que uma parcela significativa desta história ainda se encontra em construção pelo incansável trabalho de arqueólogos e outros profissionais que dedicam uma vida inteira para desvendar um único fato, um único artefato, tornando esse trabalho lento e tão “milenar” na busca de informações históricas.

3.2.1.- Osíris – Deus da vida: Osíris era o filho mais velho de Zeb com Nut, deuses da terra e do céu. É o deus dos mortos, descendente de Rá e pai de Hórus. É também o deus da vida após a morte, da fauna e da flora. É símbolo de mudança, de crescimento. O guardião da fertilidade ao entorno do rio Nilo. Osíris era sábio, bondoso e gentil, ensinou sobre lei e ordem, transformou seu povo, o afastando de práticas consideradas selvagens como sacrifícios humanos e canibalismo. Ensinou ainda a prática da agricultura, civilizando os homens.

3.1.- Religião Evidentemente, os egípcios faziam parte de uma sociedade politeísta com deuses de caraterísticas variadas. Entre tantas características dos deuses egípcios, o aspecto da mortalidade em alguns casos se assemelhava à realidade do homem. Eram mortais poderosos que escondiam em sua

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3.2.2.- Ísis – Deusa da ressurreição: Ísis era a mãe de Hórus, esposa e irmã de Osíris. É considerada a deusa da fertilidade, da maternidade, do amor e da ressureição. É retratada como modelo de mãe, esposa e protetora das crianças. Era representada com um corpo feminino, com cabeça e chifre de vaca. Segundo a mitologia egípcia, Ísis ressuscitou seu marido Osíris, que fora assassinado por Seth. No entanto, Osíris passou a reinar no mundo dos mortos. Ao ressuscitar Osíris, Ísis criou o conceito nesse ato que influenciou algumas religiões, dentre elas o cristianismo. Ísis tinha como função a cura de pessoas doentes, sendo considerada protetora dos valores conjugais.

guarda a biblioteca dos deuses. É um dos autores do livro dos mortos. Teve papel importante quanto aos mitos egípcios, arbitrando e equilibrando as forças do mal e do bem. Era conhecedor de matemática e astrofísica, sendo também considerado como “deus da lua”. 3.2.5.- Rá – Deus sol: Rá ou Ré é um dos mais importantes deuses egípcios. É chamado de “deus da criação”. Retratado com corpo de homem e cabeça de falcão, é também descrito como ave de rapina. Dentre muitas características, Rá detinha o poder de criar deuses. Fundiu a ele dois deuses rivais: deus Ptah (deus dos artesãos e arquitetos) e deus Apep ou Apófis (também criador do caos, tendo como filhos uma horda de demônios).

3.2.3.- Hórus – Deus da vingança: Hórus é um dos mais importantes deuses do Egito. Era filho de Osíris e Ísis. Hórus vingou o assassinato de seu pai Osíris, matando seu tio, o deus Seth. Por esse evento, passou a ser considerado como deus da vingança. Chamado e adorado como deus da luz e do firmamento, é descrito com aparência de um homem com a cabeça de falcão. Muitos antigos governantes egípcios se diziam a encarnação de Hórus e assim eram aceitos e legitimados.

3.2.6.- Seth – Deus do caos: Seth é conhecido como deus do deserto, das intemperes da natureza, gerador de trevas e da destruição. Por isso, é associado ao caos, à desordem e à traição. Seth era representado como um homem com cabeça de cão. Também é descrito com características de outros animais, dentre eles o escorpião e o crocodilo. Esse deus fora demonizado e por esse motivo suas imagens foram removidas dos templos, continuando a ser adorado em algumas partes do Egito, onde tal informação sobre suas características malignas não havia chegado.

3.2.4.- Thoth – Deus do conhecimento e da sabedoria: Thoth era retratado com um corpo de homem e cabeça de ibis (ave de perna e pescoço longos, com bico comprido e curvado para baixo). É o deus da escrita, do conhecimento, da sabedoria e da magia. Por estas habilidades, Thoth era considerado o escriba dos mundos desconhecidos ou submundos. Mantinha sob sua

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3.2.7.- Ámon – O oculto: Ámon é considerado rei dos deuses e das deusas do Egito. Tem forma humana e, por vezes, era retratado com cabeça de carneiro. Segundo a mitologia, Amón é a fusão com Rá, sendo conhecido como ÁmonRá. Este deus tinha a aparência de vários animais, sendo retratado originalmente na forma de um ganso e com habilidades de mutação. No período ptolomaico, era representado como homem barbudo, com quatro braços, corpo de besouro, asas de ave de rapina, pernas de homem e mãos na forma de patas de leão.

3.2.10.- Anúbis – Embalsamador divino: Anúbis é considerado, descendente de Rá e Néftis. É representado por uma figura com cabeça de chacal que preparava e embalsamava os mortos para o funeral. Era o responsável pelo reino dos mortos. Quando Osíris foi assassinado, Anúbis deixou de ser reconhecido como deus dos mortos. Sua função era mumificar e orientar as almas em seus percursos para o mundo dos mortos. Participava da cerimônia de pesagem dos pecados, quando era decidido o destino dos falecidos. Nesta cerimônia pesava-se o coração contra uma pena. Corações pesados seriam comidos por Ammit, o devorador. O coração deveria ficar em equilíbrio com a pena para que fosse provada a bondade do ser. Somente com esse equilíbrio, o ser poderia percorrer os caminhos para a vida eterna.

3.2.8.- Hathor – Maternidade: Hator é considerada a deusa da dança, da música, da arte, da maternidade e da fertilidade. É retratada como protetora das mulheres durante a gestação e durante o parto. Era caracterizada com o corpo de mulher e com chifres de vaca na cabeça. Por vezes, foi representada como leoa, árvore ou uma cobra.

3.2.11.- Maat – Verdade: Maat é considerada a deusa da verdade e sempre foi associada à justiça, à moralidade, à ordem e à harmonia. Segundo a mitologia egípcia, possuía a aparência de uma mulher com uma pena de avestruz na cabeça. Em oposição ao caos, era símbolo do equilíbrio do universo. A pena que Maat trazia em sua cabeça era utilizada para a pesagem dos pecados dos mortos quando os mesmos se encontravam nos rituais de passagem.

3.2.9.- Sekhmet – Guerra e da cura: Sekhmet é considerada destruidora dos inimigos de Rá. Era conhecida como “A Poderosa”. Auxiliava os faraós contra seus oponentes. É uma deusa com corpo de mulher e cabeça de felino. É associada às artes, à medicina e à cura. Sempre trazia um cetro de papiro em sua mão, simbolizando o Baixo Egito.

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3.2.12.- Mut – Mãe: Mut era venerada como a grande mãe divina. Tem a aparência de mulher e trazia em sua cabeça duas coroas, que representavam o Alto e o Baixo Egito. Já fora retratada também com a forma de um abutre e de uma vaca. Mãe, Mut em egípcio, absorveu as deusas Wadjet e Nekhbet, sendo chamada de duas damas, simbolizando a unificação do Egito.

4.- Considerações finais Podemos considerar que, o estudo de quaisquer características inerentes ao Egito antigo, requer um aprofundamento muito mais amplo do que o apresentado neste trabalho. Contudo, a breve análise de uma pequena parcela das divindades da mitologia egípcia pode nos auxiliar com algumas reflexões. O uso da mitologia como função explicativa possuía a finalidade de buscar as origens e as elucidações sobre o principio de todas as coisas no contexto vivido. A função organizativa utiliza a mitologia para espelhar na sociedade os parâmetros das formalidades em relação às autoridades políticas, às dinâmicas sociais, econômicas e culturais. Por fim, a função compensatória tem por objetivo justificar os eventos indesejáveis, os objetivos não alcançados, através da dinâmica de posicionamentos, das vontades e dos sentimentos dos deuses e suas respectivas funções.

3.2.13.- Wadjet – Protetora do faraó: Wadjet era considerada a protetora do faraó, o Hórus vivo. É retratada como uma cobra naja, sempre pronta para atacar os potenciais inimigos do Faraó. Descrita também com a forma humana, caracterizava-se como uma mulher com duas cabeças de cobra. Com o corpo físico perfeito, era chamada de senhora da chama e deusa da colheita. Protegia o corpo humano e mantinha o solo fértil para o plantio.

“Entre tantas características dos deuses egípcios, o aspecto da mortalidade em alguns casos se assemelhava à realidade do homem. Eram mortais poderosos que escondiam em sua essência o poder de transformar e dar vida a outros seres, apresentando um poder alquímico obtido em suas lagrimas e em seus fluidos corporais”.

3.2.14.- Bastet – Deusa felina: Bastet, a deusa felina, possuía a aparência que retratava o corpo de uma mulher com cabeça de felino. Filha de Rá, era comumente associada ao gato doméstico. Era adorada por sua natureza maternal. Representava as mulheres grávidas, a fertilidade, a feminilidade e a alegria no lar. Inicialmente foi considerada a deusa do sol. Contudo, por influência da cultura Grega se tornou a deusa da lua.

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Processo de Inscrição para a Ordem do Templo Ano 2020 Nossa Augusta Ordem de Cavalaria iniciou seu processo de inscrição, por isso convidamos todos os interessados em nossa Ordem a entrar em nossos sites. Para os chilenos e chilenas, escreva para o endereço www.chileordotempli.cl e faça o download do formulário de inscrição. Para os brasileiros e brasileiras, acesse www.ordemdotemplobrasil.com. Convidamos nossos leitores que tiverem dúvidas sobre o processo, para enviá-los para os e-mails reclutamiento@chileordotempli.cl no Chile e para chancelaria@ordemdotemplobrasil.com no Brasil.

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OCTÓGONO Revista Capitular Templária Gran Prior do Chile:

Fr+ David Moreno da Costa

Gran Prior do Brasil:

Fr+ Randolpho Radsack Corrêa

Editores:

Fr+ Walter Gallegos Cortés Fr+ Benjamín Pescio Andrade

A Revista Octógono é uma publicação trimestral produzida por membros da Ordem do Templo. Todas as informações disponíveis nesta revista são públicas. Qualquer reprodução de seu conteúdo possui a exigência de indicação da fonte original. Se você tiver alguma dúvida ou simplesmente quiser entrar em contato com nossa Ordem, envie uma mensagem para cancilleria@chileordotempli.cl (Chile) ou chancelaria@ordemdotemplobrasil.com (Brasil), bem como através da nossa fanpage do Facebook no Chile ou no Brasil. -Julho 2020-

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Octógono nº 18 Português  

Revista Octógono - Ciência e Esoterismo - Racismo e Religiosidade: Uma Realidade na História do Brasil - A Roda da Vida Tibetana - A Mitolog...

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