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2A JORNAL DE BELTRÃO Domingo, 9.6.2013 JdeB - No fim dos anos 50, depois que Francisco Beltrão passou a ter em definitivo uma unidade do Exército, o sonho de muitas moças era namorar um milico. Pais e amigos alertavam: “Depois eles vão embora e deixam vocês aí, desiludidas”. Isso aconteceu muitas vezes. Mas também teve o contrário. Teve namoro que deu certo e se perpetuou. É o caso de Edivardo Urbanoviski, paranaense de Joaquim Távora, que aqui encontrou uma gaúcha, Joana Krone, com quem vive até hoje. Nesses 52 anos de casados, têm oito filhas, que já lhes deram 13 netos e uma bisneta. No último dia 28 de maio, Edivardo recebeu, na Prefeitura, uma homenagem, conferida pelo Departamento de Cultura e o 16º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado, por ele ser integrante da turma de soldados que iniciou o serviço militar em Ponta Grossa em junho de 1958 e concluiu em Francisco Beltrão, de agosto de 58 a junho de 1959. Edivardo, filho de João e Ladislava Urbanoviski, nasceu em Joaquim Távora (PR) dia 8 de dezembro de 1939. Ele tem três irmãos. Joana, filha de Romano e Olga Krone, nasceu em Nova Itália (RS) dia 13 de janeiro de 1933. Ela é a mais velha de nove irmãos. Casaram em Beltrão dia 18 de junho de 1961 somente no civil (com o juiz de paz Clementino Petla). O padre não quis casá-los porque não tinha informações sobre o noivo. E o casamento religioso foi realizado na cidade do noivo. Em sua casa do bairro Nova Senhora Aparecida, o casal recebeu o Jornal de Beltrão para esta entrevista. JdeB – Quando falaram que tinha oportunidade pra vir para Beltrão, o senhor diz que levantou logo a mão, por quê? Edivardo – Sim, chamaram toda a companhia. Eu levantei a mão, daí já me chamaram de um lado, fiquei dispensado três dias. Eu já tava dois meses lá e falei pro meu colega “nós já conhecemos Ponta Grossa, não dá pra sair mesmo, vamos conhecer pra frente”, daí viemos pra cá. JdeB – Mas o senhor veio com a intenção de ficar? Edivardo – Não, uns dois meses eu fiquei, depois o tenente e o capitão pediram se eu queria engajar, eu falei “não, vou pra casa, não quero nem saber”. Voltei pro norte, fiquei um ano lá, depois vim pegar ela aí. JdeB – Por que que o senhor voltou pro norte? Edivardo – Porque os pais queriam que eu voltasse, não queriam que eu engajasse no quartel. JdeB – Qual era a cidade? Edivardo – Joaquim Távora, mas nós trabalhava na Colônia São Miguel, dava 10 quilômetros até a cidade. JdeB – Mas nesse ano que o senhor voltou pra Joaquim Távora, o senhor já conhecia a dona Joana? Edivardo – Conhecia, namoramos enquanto eu estava servindo. JdeB – Como vocês se conheceram? Edivardo – No campo do União. Joana – No campo do União não, jogando futebol no campo do hospital. JdeB – O senhor jogava bola? Edivardo – Não, naquele tempo não ainda, que era um time de Beltrão mesmo que formou pra jogar com o time do União, do quartel o time era. Então fizeram aquele time e eu andava pra cá e se encontrei com ela.

Entrevista

ENTREVISTA COM EDIVARDO E JOANA URBANOVISKI

O namoro com milico que deu certo Os amigos alertavam para não namorar com milicos porque depois eles iam embora e, como aconteceu com muitas, deixavam a moça sozinha. Mas o namoro de Edivardo, que era de Joaquim Távora (PR), e Joana, que veio de Nova Itália, deu certo. Em 52 anos de casados, têm oito filhas, 13 netos e uma bisneta, e continuam residindo em Francisco Beltrão.

gamos o ônibus, fomos pra Eneas Marques, já no outro dia viemos dar o nome pra casar. E eu nem conhecia a família dela, nem ela conhecia a minha. JdeB – E daí pra casar que teve o problema que casaram só no civil? O padre não quis casar? Edivardo – Só no civil. Joana – Naquele tempo era exigente, eles queriam saber se o moço não tinha alguma mulher casada, não tinha família. JdeB – Vocês casaram pelo civil e foram casar pelo padre lá no norte? Joana – Lá no norte, lá em Joaquim Távora. JdeB – Os seus primeiros filhos nasceram lá? Joana – Cinco sim, a Rute, que é a senhora do Valmor, a Alice, a Romilda, a Rosane e a Sabina veio bem pequenininha, tinha dois aninhos e pouco, e as outras três nasceram aqui, a Manoela, a Edina, que mora em Cascavel, e a Rosa Maria, que é casada com o veterinário Francisco Gaievski. JdeB – Voltaram pra cá porque a senhora não se acostumou? Joana – É, morei sete anos lá, mas não me acostumei no norte. JdeB – Mas vieram fazer o que aqui? Joana – Ele começou a trabalhar de servente de pedreiro. Edivardo – Acho que um mês depois era formado pedreiro já.

Edivardo e Joana quando receberam a reportagem em sua casa, no bairro Nossa Senhora Aparecida. JdeB – Como era Beltrão quando o senhor chegou? Edivardo – Não tinha nada, não tinha luz, nem um poste, eles tiravam a guarda de noite e era tudo no escuro. JdeB – Dona Joana, vocês se conheceram aqui, mas os seus pais moravam em Jaracatiá? Joana – Meus pais moravam no Jaracatiá. JdeB – Mas como é que a senhora veio? Joana – Ah, eu tava trabalhando no hospital do dr. Walter, da dona Manuela. Um dia fui no campo de futebol junto com as minhas colegas e lá encontramos os militares, eles tavam passando de lá pra cá, daí a gente deu a bolinha, eu olhei prum lado, pensei por brincadeira, não por sério, aí ainda ele me acompanhou assim "a senhora me aceita eu junto"? Eu disse “ah, o quê que tem, podemos conversar, que os militar vocês dão baixa, vão embora” e daí ele disse “ah, mas às vezes a gente não sabe, às vezes não é todos que fazem isso”. Foi assim, de vez em quando se conversava. Um dia o dr. Walter falou assim pra mim no hospital “olha, Ana — ele me chamava às vezes de Ana —, se cuida com esses miliquinhos, eu não quero ver...”. Eu disse “eu não tenho medo, a gente sabe o que faz”.

“não, quando eu digo que volto eu volto, vamos se corresponder por carta”. Até a cozinheira do dr. Walter, que era a falecida Piona, uma pretona, ela disse “oh, Ana, vai precisar do lenço”. Eu dizia “eu não, não preciso de lenço nenhum, eu não devo nada pra ele nem ele pra mim”. As outras amigas ficavam chorando pela separação dos milicos namorados delas, naquele tempo nós era em 18 moças que trabalhava no hospital do dr. Walter. E foi assim, se é destino a gente não sabe. JdeB – E aquele tempo que ele ficou no Norte vocês namoravam só por carta? Joana – Só por cartas, ainda a dona Irma dizia “olha, Ana, tu vai deixar de outros moços bom que a gente conhece aí pra achar um lá de longe?” Eu dizia “não me importo, não quero esses aí”.

JdeB – Nas cartas, o que ele dizia? Joana – Dizia “pode me esperar que eu vou pra lá, fim do ano eu vou”. Todos me chateavam, faziam farra, “Ana, mas o que é isso, vai esperar aquele milico, aquele não vem”. Tinha um amigo dele militar, outro do norte, um dia veio lá, falou com a minha amiga “pode falar pra Ana que o polaco não vai vir mais, ele me falou que não vem, que ela nem espere”. Era um outro que estava interessado. Era mentira. Eu não quis nem saber, eu digo se é o destino, Deus que sabe. JdeB – Como foi que o senhor decidiu voltar pra cá? Edivardo – Quando eu vim pra casar, apeei na rodoviária, de noite, fui com um colega no hospital que ela trabalhava, cheguei, proseei com ela, já no outro dia pe-

JdeB – De que construções o senhor participou? Joana – Do Zanata, foi o primeiro lugar que ele trabalhou. Edivardo – Depois no prédio do Rossetto. Depois trabalhamos bastante na borracharia do Antoninho, depois tem umas casas popular, trabalhei uns dois anos na Cibrazem também, na Ovetril trabalhei tempo, me aposentei quando comprei a chácara. Joana – Uma chacrinha lá no Bela Vista do Encantilado. JdeB – Daí passou a trabalhar na chácara. Edivardo – Na chácara, depois ela não ia junto comigo mais fazer comida e tudo, daí vendi a chácara, faz uns dois anos e pouco. JdeB – E a senhora aqui em Beltrão não voltou a trabalhar? Joana – Não. Um tempo eu trabalhei na dona Manuela, na casa deles, cuidava da roupa deles só, passava e guardava tudo.

JdeB – Quantos dias por semana vocês namoravam? Joana – Uma vez só, quando eles tinham folga que vinham, senão era difícil. JdeB – Iam ao cinema? Joana – Uma vez só fomos no cinema, atrás da igreja tinha um pavilhão, era só pulga, horrível. A gente conversou por passatempo. Quando ele deu baixa, ele veio e disse assim pra mim “agora dei baixa, agora vou embora”. Eu disse “então tá bom, você vai voltar ou não? Se não volta mais pode falar que eu não fico esperando, você que sabe”. Ele disse

Casamento civil em Beltrão: Irma e João Werlang, Joana e Edivardo Urbanoviski e Egídio Zanatta.

JornaldeBeltrão-5069_9-6-13.pdf  

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