75ª Semana Paulo Setúbal

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Concurso Paulo Setúbal Mas eu me deixei penetrar pelo seu rápido olhar. Não pude deixar de perceber que um de seus olhos estava baixo, pendente, sugerindo que fora vitimada por um “AVC”, talvez. Passei por ela e continuei meu caminho, mas sem os passos que me acompanhavam. Eu não poderia caminhar da mesma forma depois desse encontro. Sim, encontrei-me não apenas com uma velhinha que se fixara em minha memória desde o primeiro dia em que a vi, há quinze anos. Encontrei-me também com aquele office boy que corria de um banco a outro. Aquele rapaz de uniforme de empresa, muito maior que seu manequim. E percorri mentalmente seus passos até esse encontro. Confesso que tive vontade de ir até ela, perguntar, pelo menos, o seu nome. Mas me contive. Contentei-me em andar pela rua lateral, voltando-me para ela que continuava, parada, segurando o poste. Era a imagem antitética do mundo. Procurei em seus ombros e mãos a sacola com os panos de pratos. Não os vi. Por que eu não os comprei? Estaria ela ainda bordando? Seu sustento continuaria sendo suas minguadas vendas? Não sei. Como não sei dizer o que sinto neste momento. Não consegui compreender. Desculpe. Mas há algo que me inunda, me sufoca e me afoga. Passarei novamente pelo mesmo lugar com a esperança de vê-la ainda. Porém, a pisada do tempo nos retarda, fatalmente. E quando menos imaginarmos, estaremos também segurando o mesmo poste. E se eu a vir novamente, o que farei? Perguntar-lhe o nome? Para quê? O que poderei fazer por ela, ou melhor, o que ela pode esperar desta hora crepuscular da vida? Não sei, sinceramente, não sei. Mas sei que se eu a encontrar novamente – e temo este encontro – tenho o dever de lhe dizer obrigado. Dizer obrigado, apenas, e sair, deixá-la na incógnita, tão próxima está naturalmente de uma. Hoje, encontrei-me com mim mesmo. Estava perdido no tempo que me trouxe a velhinha de volta. Meus passos já não são os mesmos mais. Talvez, um dia, desses em que a gente não espera, eu possa compreender... Se eu vir a velhinha novamente, direi apenas obrigado? Não, tenho competência para ser mais sensível que o poste: segurarei a sua mão e esperarei acontecer o que não digo. Sou agora um de seus bordados. Hoje, revivi.

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lugar

- Roque Aloísio Weschenfelder (Santa Rosa-RS)

“O Rei e sua Cabeça” Análise da comissão julgadora ““Originalidade, jogo com as peripécias e com o uso de pronomes, com a situação dos brasileiros onerados pelos excessos de impostos.”

Lês esta crônica e pensas que falo do rei e da cabeça dele. Estás redondamente enganado. – Por quê? – perguntas. Acontece que a forma minha de iniciar este texto não é o que se faz nos dias de hoje. Ninguém trata o leitor pela segunda pessoa do singular, tu, mas pelo pronome de tratamento você. Desse modo, também já não é possível usar os possessivos teu e tua, mas precisa-se apelar para seu e sua. – E, daí? – vem outra pergunta.

09 de Agosto de 2015

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É o que preciso esclarecer: ao abolir o tratamento pelo pronome pessoal da segunda pessoa do singular e usar o tratamento você, começa a dubiedade com os possessivos seu e sua. – Mas, o que eu e o rei temos a ver com isso? Exatamente a cabeça! De quem é a cabeça mencionada no título? É a do rei ou é a de você? *** O rei tem na sua cabeça uma ideia: ele põe sua cabeça em jogo. O rei precisa aumentar os impostos porque ele tem muitos súditos a quem deve favores e que ele empregou. Acontece que o dinheiro arrecadado já não é suficiente para cobrir todas as despesas com os prestadores de serviços e com as muitas benesses transformadas em obrigações. Para salvar a sua cabeça o rei põe a sua cabeça a prêmio. Você, que não é daqueles a ocupar um cargo na corte e nem amigo de algum palaciano em particular, paga impostos sobre o que ganha com o trabalho, com as compras de suas necessidades, com os passeios de carro, com o uso da energia e do telefone – só para falar alguns itens, pois não caberia citar tudo em apenas três laudas. – Que confusão é essa de sua cabeça? Não se estresse, amigo leitor. A minha cabeça está nada confusa, eu sou todo uma rebeldia só! Acontece que eu sou o você de quem estou falando. A minha cabeça está tanto a prêmio como a sua. Com tudo que pago de impostos, preciso andar em estradas esburacadas, ou suportar horas e horas esperando em aeroporto porque o nevoeiro o fechou; ficar na fila do SUS para conseguir uma cirurgia de extirpar as hemorroidas a manchar as minhas calças, suportar apagão porque deu um temporal que derrubou postes podres da rede de energia elétrica, e por aí segue o baile... A minha rebeldia é porque não aguento mais as notícias sobre os muitos escândalos descobertos, a toda hora, por uma polícia real que investiga, investiga, passa para a justiça real os inquéritos e aí... Ah! é então que minha cabeça vira a sua e a sua vira a minha por não entender que todos os investigados acabam inocentes e nunca devolvem o dinheiro desviado. É o rei e sua cabeça. Nela está tudo bem. Corta gastos diminuindo os direitos dos pagadores de impostos, mas não os dos pagadores de pro messas... Na sua cabeça, o rei encontra saídas para cobrar mais e mais, tudo meio sem mostrar como. Por tudo isso, o rei mira na sua cabeça e acerta a minha, ou resolve definir que a minha está enrolada na burocracia infindável para conceder uma licença ambiental a que possamos instalar um campo de jogar bolinha de gude. – O quê? Precisa licença ambiental para isso? É aonde eu quero chegar! No campo, não só no de jogo, porém, no das exigências. Para tudo há leis de arrecadar. Para arrecadar precisa nomear os amigos e estes já aproveitam para ficar com boa parte do cobrado. Então, o rei precisa nomear outros amigos para fiscalizar esses amigos de antes e aí se criam papeladas e sistemas de computação de quem ninguém pode escapar sem pagar as taxas das licenças. O rei tem sua vida sob o controle e, como sua vida é minha vida, o rei tem na sua cabeça uma ideia: quer cobrar imposto sobre o sono meu e seu. Para dormir na rede, vai ser necessário ter licença ambiental para ocupar os postes ou as árvores onde ela será amarrada; se for dormir na cama, já se pagou licença ambiental para construir a casa em que a cama fica, mas, agora, o rei cisma em sua cabeça que para colocar uma cama na casa, precisa uma licença ambiental lá dentro. – Tu tá me deixando sem palavras! Cuidado! Não volte a usar o Tu, que isso vai lhe custar uma liberação de uso de fala velha, ainda não de domínio público! Melhor você prestar atenção para o rei e sua cabeça: o próximo imposto será sobre o ronco. Sim, se você dormir roncando, terá uma escuta secreta que vai medir a intensidade de seu ronco para emitir a multa pela perturbação do sossego público. Se você não pagar, não mais receberá a certidão de estar quites com a receita real! É o Rei e Sua cabeça!