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Laura Aguiar 7º Período

A caminho da Irlanda... Brasileiros buscam melhores condições de vida

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JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

A n o

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J u n h o

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B e l o

H o r i z o n t e / M G

D I S T R I B U I Ç Ã O G R AT U I TA

Comércio popular afeta comércio formal Os preços mais acessíveis são um chamariz para os centros de comércio popular de Belo Horizonte e atraem pessoas de todas as classes sociais. O problema está na falta de regulamentação desses estabelecimentos, o que acaba prejudicando o comércio formal. As irregularidades nas vendas dos produtos são inúmeras. A maioria deles não emite nota fiscal, não paga impostos e muitos produtos chegam às prateleiras por meio do contrabando. O FeiraShop, comércio popular regulamentado pela prefeitura, é considerado tanto um sintoma quanto a causa do problema econômico. Isso porque ao incentivar esse tipo de comércio são retirados postos de trabalho dos comércios formais, e a maioria não assina a carteira de trabalho dos seus empregados, e nem pagam o ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadoria).

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Em busca de qualificação Estabilidade no emprego e salários melhores levam cada dia mais pessoas a buscarem qualificação profissional para conseguirem uma vaga no mercado de trabalho, porque a concorrência é cada vez maior. A procura por cursos não é garantia de obter um emprego e isso é detectado não só nas classes baixas com pouca escolaridade, mas também na classe média. Mesmo quem já cursou o ensino superior ou está cursando não tem garantia de conseguir um bom emprego. Os concursos públicos são a saída para muitos que querem e buscam uma estabilidade, porém vagas são poucas para muita concorrência.

Surge um novo cidadão: o jornalista

A DS 30 anos e ainda sem cura

“Ilusões Perdidas”: visão pessimista do jornalismo O livro de Honoré de Balzac, “Ilusões Perdidas”, escrito entre 1835 e 1843, é retratado no ensaio “Jornalismo balzaquiano”. O ensaio mostra que essa obra, escrita há mais de 150 anos, mantém uma discussão atual sobre o modo de fazer jornalismo e a forma de organização da sociedade. A obra de Balzac focaliza a relação entre jornalismo, literatura e mercado. O autor critica o crescente poder do jornalismo e a influência do mesmo na sociedade. O surgimento da publicidade como uma nova forma de comunicação é também criticado por Balzac: ele a vê como um poder desmoralizador.

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Mercados sob ameaça Os mercados distritais do Cruzeiro e de Santa Tereza estão ameaçados por um projeto da prefeitura de Belo Horizonte que tem como proposta dar uma nova finalidade para esses espaços. O Mercado Distrital do Cruzeiro vai se tornar um Centro de Gastronomia e Lazer. Seu espaço vai contar com restaurantes, supermercado, bares, barracas de frutas, legumes e verduras. O mercado de Santa Tereza vai ceder lugar para a Guarda Municipal. Várias representações de moradores da região são contra o fechamento. Eles reivindicam que se torne um Centro de Convivência, ou Centro Cultural.

38,6 milhões de pessoas infectadas no mundo

2/3 dessas pessoas estão na África

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Ensaio

A internet abre espaço para a participação de não jornalistas na produção de conteúdo. O chamado jornalismo colaborativo surge em 1999 paralelo ao “Encontro do Milênio" da OMC (Organização Mundial do Comércio). A idéia era criar uma página na internet que pudesse armazenar vídeos, imagens, sons e textos que poderiam ser publicados ou produzidos por qualquer pessoa sem fins lucrativos. O CMI (Centro Mundial de Mídia Independente), o "ohmynews", "Parla", “digg”, "cronicasmoviles", “overmundo”, e, até mesmo o portal de notícias da Rede Globo, o G1, são exemplos de sites de conteúdo colaborativo. Os blogs, flogs e vlogs também são meios de se fazer uma produção amadora. Em entrevista ao jornal O PONTO, Ana Brambilla fala sobre o surgimento do jornalismo cidadão e explica como se porta o profissional, os colaboradores e o papel social que este novo tipo de reportagem apresenta.

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443 mil casos da doença no Brasil

Metrô: melhoria para o trânsito de Belo Horizonte

63% desses casos estão na região sudeste os gastos com remédios importados são cerca de U$ 960 milhões por ano

O metrô de Belo Horizonte formado pela linha 1, Eldorado-Vilarinho, transporta atualmente 107 mil usuários por dia. Possui 28,1 km em via dupla e 19 estações em operação. A ampliação da linha pode ser a solução para melhorar o trânsito da capital. Neste ano devem começar as obras da linha 2, Barreiro-Calafate. Esta obra, que pretende arrastar-se por um período de 20 anos e consumir mais de R$ 500 milhões, deverá ter uma demanda para as três linhas do metrô de 1.470.000 passageiros por dia, até o ano de 2019. Com a realização dessas obras espera-se que o metrô atenda satisfatoriamente toda região metropolitana de Belo Horizonte.

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Editora e diagramadora da página: Lígia Ríspoli - 8º período

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O P I N I Ã O

Belo Horizonte – junho/2007 Cristina Rodrigues - 8º período

Formatura à vista LÍDIA RABELO

8ºPERÍODO Realização de um sonho, sensação de dever cumprido, alívio... É o que vários alunos universitários pensam ao chegar no final de um curso. Mas por outro lado, angústias, dúvidas, tensões, insegurança são a outra parte do sintoma que muitos vivem. É esse o momento de “quebrar a redoma” e ir em busca de um trabalho para colocar em prática tudo o que se aprendeu na sala de aula. Talvez seja um pouco tarde, mas muitas vezes é nesse momento que se descobre que o curso não foi condizente com sua expectativa; e também é nesse mesmo momento que muitos descobrem o seu potencial profissional. São vários anos em uma cadeira de faculdade sem poder prever, ou muitas vezes sem querer enxergar, o que nos espera no mercado de trabalho. O “rei-mercado” en-

STOP: o Brasil parou

contra-se extremamente competitivo e instável, o que assusta ainda mais. Especialização somente não basta, o mercado está com certeza aberto à um profissional dinâmico, que dê conta de assumir várias funções. Está lançado o desafio. Nessa hora, surgem os questionamentos: o que aprendemos foi o suficiente? Não deveríamos ficar mais um pouco? Mas é a hora. Se os anos passados na faculdade não foram suficiente, paciência. O caso é ir atrás de um emprego, ou então fazer um outro curso. Brincadeiras à parte, a situação de quem sai hoje de universidade é complicada, o mercado não suporta o número de pessoas que se formam todos os anos. A resolução desse problema social, vai muito além, não basta criar oportunidades de para que as pessoas tenham acesso à educação superior, é preciso também criar empregos.

Liberdade: cuidado com essa palavra! LEONARDO FERNANDES

7º PERÍODO Há pouco, numa conversa entre amigos, uma discussão me deixou bastante intrigado. Ao comentar que mais cedo eu puxara uma salva de palmas ao fechamento da RCTV, principal canal de televisão privado da Venezuela, uma espécie de “Globo Venezuelana”, que ocorreu no dia sete de maio, algumas pessoas se surpreenderam, e logo me interpelaram: “Você é a favor da censura?” Pois bem, vamos analisar os fatos. Em 2002, após o golpe militar que ocorreu na Venezuela contra o governo de Hugo Chávez, a RCTV exibiu, um dia depois do golpe, um programa de entrevista, em que ela mesma assumia que havia, em conluio com outros veículos privados de comunicação do país, arquitetado o golpe que foi responsável por inúmeras mortes. A PDVSA, principal petroleira estatal venezuelana, antes dominada pela oposição, junto aos militares, claramente articulados com a CIA, também protagonizaram a história suja de golpe contra a vontade do povo, que se manteve firme ao la-

do da Revolução Bolivariana de Hugo Chávez. A estratégia de golpe assumida pela RCTV incluía desde a exibição de imagens claramente manipuladas (fato comprovado; vale conferir o documentário “A revolução não será televisionada” do Centro de Mídia Independente - CMI) até a incitação de violência entre manifestações pacíficas pelas ruas de Caracas. Pois bem, vejo que não é uma questão de censura, mas de responsabilidade com a sociedade venezuelana, mediante o risco que um canal de televisão pode representar a ela. Julgar como censura o ato do governo Chávez, gostem ou não dele, é reproduzir o mesmo discurso daquele que também é um risco à nossa sociedade. A Rede Globo esteve do lado dos militares que governaram e desolaram o nosso país por mais de duas décadas, provando ao longo de sua podre história que representa um perigo iminente à sociedade brasileira. Enquanto a propriedade dos meios de comunicação permanece nas mãos dos grandes barões da informação, o jeito mesmo é desligar a televisão e ler um bom livro.

ou foi o papamóvel?

Bolo do Intercom ANA PAULA CONDESSA

CRISTINA BARROCA

6º PERÍODO Doces, sopa de palmito, nhoque de mandioca, bolo de fubá, pão de nozes. Lençóis com o mais fino algodão do Egito. Xícara personalizada banhada a ouro. Colcha, toalhas, fronha, pratos e objetos únicos confeccionados com exclusividade e cuidado. Todos com o emblema do Vaticano. Ambulância de suporte avançado, 24 horas por dia. Reserva de uma suíte da UTI cardiológica. Helicóptero da PM à disposição.Ah! Que isso? Não se espante. Ainda tem mais. (Sem contar o que não foi divulgado). Mas vamos nessa. O Palácio dos Bandeirantes, onde Lula recebeu o líder da Igreja Católica por pouco mais de 1 hora foi assim decorado: com uma mesa redonda no centro, obras de Tarsila do Amaral e Portinari, tapete persa laranja medindo um pouco mais de 4 metros. O Papa sentará em cadeiras de madeira maciça pertencente ao acervo cultural paulista com o símbolo da República. (oooooooohhhhhhhh!!!) Em volta do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, três avenidas federais receberam novo asfalto. Obra de R$ 2 milhões. Calçadas ampliadas. Nova pista paralela à Via Dutra. Vinte e uma ruas pavimentadas. Instalação de postos de saúde. O esquema de segurança teve 5 mil pessoas. “Quando fores convidado às bodas, não te sentes no primeiro lugar, pois pode ser que seja convidada outra pessoa de mais consideração do que tu, e vindo o que te convidou, te diga: Cede o lugar a este. Terias então a confusão de dever ocupar o último lugar. Mas, quando fores convidado, vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convi-

dou, te diga: Amigo, passa mais para cima. Então serás honrado na presença de todos os convivas. Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado.” (Lucas14:8 a 11). Entre valores municipais, estaduais e federais, a cidade de Aparecida deve ter recebido investimentos que ultrapassam os R$ 6 milhões. Não dá para compreender como um senhor encarregado de pregar a fé cristã e os ensinamentos de Cristos pode ser tão contrário a si. Como aceitar que um país com uma das maiores taxas de miséria do mundo movimente tal quantia para satisfazer caprichos de um homem? “Dizia igualmente ao que o tinha convidado: Quando deres alguma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem os parentes, nem os vizinhos ricos. Porque, por sua vez, eles te convidarão e assim te retribuirão. Mas, quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.(Lucas 14:12 a 14). Para terminar, a Polícia Federal ficou encarregada de afastar da Sé e dos locais por onde Bento XVI passou, todos os moradores de rua. Ah gente! Mas é por pouco tempo. “O sal é uma coisa boa, mas se ele perder o seu sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para adubo, mas lançar-se-á fora”.(Lucas 14:34 e 35). Devemos fazer com que nossas atitudes e valores tenham o mesmo efeito que o sal tem para a comida: preservar o sabor. Ou assim, por fatos tal como este descrito. Comeremos muitos pepinos sem sal. Artigo também publicado no blog da autora: www.piclespicles.blogspot.com

Vampiros engravatados FERNANDO KELISSON

1º PERÍODO O povo brasileiro tem a carótida tão macia e suculenta que quem prova nunca a quer largar. Os vampiros estão aí... Condes engravatados, sempre ávidos pelo sangue desta nação cheia de farturas. Nelson Rodrigues, meu professor de óbvio ululante, dizia que no Brasil, o cretino é venerado. Dizia ele, que se um cretino subir sobre uma lata de querosene “Jacaré” e começar a contar chanchadas das mais vis, logo se aglutinariam pessoas sobre si e lhe ovacionariam em aplausos. Quando vejo esta putaria que é a política nacional com todo o seu cinismo; compra de apoio parlamentar, tráfico de influências, superfaturamento de obras e lavagem de dinheiro e depois vejo o povo reelegendo os mesmos canalhas que os roubaram, chego a conclusão de que o eleitorado é como uma “barregã” que apanha todo dia, mas não consegue se livrar do machão que a sustenta. Queria poder assistir, no camarote celestial é claro, o dramático advento da crise capitalis-

ta brasileira. A água, o oxigênio, as terras cultiváveis, as florestas, a grande fauna, o ambiente, digo não só o ambiente físico, mas o ambiente espiritual estão indo pelo ralo. Já repararam o clima de intolerância? No trânsito, no trabalho, nas instituições, até no lar, sente-se uma sensação de guerra constante. Confesso que não encontro lugar seguro. O dia em que o capitalismo se exaurir e as infinitas formas de demanda sufocarem os recursos de produção, promovendo assim a escassez ,como já previram célebres economistas, as ociosas madames pensionistas comerão a comida de seus poodles. Os magnatas terão de abdicar de suas manias, como o charuto, o schott e as prostitutas. Os playboys perderão o charme da juventude. O dia em que a terrinha para de jorrar leite e mel, irão todos, sem exceção, para o deserto do descontentamento, e talvez reflitam com nostalgia a riqueza que possuíam e perderam, e a pobreza que residiam em si próprios. Nesse momento, ficarão nos corpos palavras vagas em mentes cheias e barriga vazia, e a nação padecerá de anemia.

7º PERÍODO Ingredientes: 2 colheres cheias de desorganização/ 1 de falta de assesoria/ 20 xícaras cheias de paulistas/10 de cariocas/ 10 de mineiros de Juiz de Fora/ 1 de mineiros de BH. Modo de preparo: coloque a primeira colher de desorganização antes de tudo. Depois, selecione os melhores: paulistas , cariocas, mineiros cariocas (JF) e mineiros. Misture tudo e junte em Juiz de Fora. Despeje na massa mais desorganização e falta de assessoria. Pós-preparo (Notas): está pronto o XII Congresso da Comunicação da Região Sudeste, sediado este ano em Juiz de Fora nos dias 16, 17 e 18 de maio. No evento foram apresentados os trabalhos do Expocom Sudeste e artigos de alunos de universidades de diversos estados da região, com forte presença paulista. A receita pode funcionar nesse “mixing" meio pendente, pois forma possíveis conexões, contatos e discussões entre alunos e os trabalhos desenvolvidos em outras universidades. No Expocom foi apresentado um Jornal Mural desenvolvido pelos alunos das universidades com comunidades carentes, além da concorrência de sites paulistas na apresentação do o ponto eletrônico da Fumec. Os trabalhos de outros locais me fizeram colocar as coisas em perspectiva e perceber a superfície lisa e os furos que enfrentamos na própria Fumec. Um dos pontos fortes do nosso curso é o Projeto Pedagógico, que nos faz retratar a "realidade" de forma crítica. Só que não é um tempo de brisa e ainda enfrentamos dificuldades para tomar esse caminho. Outro ponto interessante do Congresso foi discutir questões como tecnologias digitais, pensar e questionar se o ativismo lúdico serve a fins políticos e fazer com que os que não estão mobilizados se interessem e se movimentem. Pensar sobre os usos que nós, jornalistas, fazemos da mídia e como gostaríamos de fazer crescer nos meios de comunicação, ou seja, uma maneira de fazer a convergência digital sem que não produza um excesso de fermento (valorização excessiva da idéia de tempo real) e estrague a receita e o caminho da produção conjunta que a tecnologia veio a permitir.

Os artigos publicados nesta página não expressam necessariamente a opinião do jornal e visam refletir as diversas tendências do pensamento

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Jornal Laboratório do curso de Comunicação Social da Faculdade de Ciências Humanas-Fumec Tel: 3228-3127 – e-mail: oponto@fch.fumec.br

Coordenação Editorial Profª Ana Paola Valente (Jornalismo Impresso)

Monitores de Produção Gráfica Eduardo Pônzio e Rafael Barbosa

Coordenação da Redação Modelo Prof. Fabrício Marques

Monitores do Laboratório de Publicidade e Propaganda Alisson Masaharu e Marina Valadas

Conselho Editorial Prof. José Augusto (Proj. Gráfico), Prof. Paulo Nehmy (Publicidade), Prof. Rui Cézar (Fotografia), Prof. Mário Geraldo (TREPJ) e Profª. Adriana Xavier (Infografia)

Projeto Gráfico Prof. José Augusto da Silveira Filho

Monitores de Jornalismo Impresso Henrique Lisboa, Lídia Rabelo e Lígia Ríspoli D’Agostini Monitores da Redação Modelo Daniel Gomes e Leonardo Fernandes

Universidade Fumec Rua Cobre, 200 – Cruzeiro Belo Horizonte – Minas Gerais

Profª. Thaís Estevanato Gestora Geral

Professor Emerson Tardieu de Aguiar Presidente do Conselho Curador

Prof. Bruno de Morais Ribeiro Gestor Administrativo e Financeiro

Profª. Romilda Raquel Soares da Silva Reitora da Universidade Fumec

Prof. Rodrigo Fonseca e Rodrigues Coordenador do Curso de Comunicação Social

Tiragem desta edição 5000 exemplares Consultora em pesquisa iconográfica Profª. Zahira Souki Colaboradoras voluntárias Cristina Rodrigues e Laura Aguiar

Prof. Rosemiro Pereira Leal Gestor de Ensino


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Editor e diagramador da página: Fabrícia Marcolina e Cristina Barroca - 6º período

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M Í D I A 03

Belo Horizonte – junho/2007

Em cada cidadão há um repórter A INTERNET AMPLIA A PARTICIPAÇÃO DIRETA DO SEU PÚBLICO NA PRODUÇÃO DE CONTEÚDO Cristina Barroca - 6º período

CRISTINA BARROCA

6ºPERÍODO Se você tem uma câmera em mãos, um celular, ipod, mp3 player, gravador, ou simplesmente é testemunha ocular de algum acontecimento você pode ser um repórter. Um “cidadão repórter”. Em novembro de 1999, em Seattle, ocorria o "Encontro do Milênio" da OMC (Organização Mundial do Comércio). Pa-

ralelamente e em função deste acontecimento surgiu a idéia de uma página na internet em que pudessem ser armazenados vídeos, imagens, sons e textos que poderiam ser publicados ou produzidos por qualquer pessoa sem fins lucrativos. Então, à medida que os protestos anti-globalização se expandiam, meios de publicações independentes surgiam. Quando o movimento chegou a São Paulo em forma

de um protesto, no dia 26 de setembro de 2000, devido à reunião do FMI com o Banco Mundial em Praga, impulsionou a criação do Centro Mundial de Mídia Independente (CMI) no Brasil. "Muita gente acessou o site durante o evento, postaram fotos, vídeos e textos. Eles tinham um grande material sobre o que aconteceu em Seattle. Então, eles criaram essa rede mundial de multimídia no Brasil, que é um site de publicação aberta onde qualquer um pode publicar alguma coisa. Mas, claro, que dentro de uma política editorial. Não existe a figura do Editor, mas há um moderador que verifica se o conteúdo da publicação não fere essa política", explica Richardson Pontone, moderador voluntário do CMI. Em 15 de janeiro de 2001, um grupo iniciou um experimento na internet de permitir que pessoas ao redor do mundo construíssem uma enciclopédia que ficaria disponível a qualquer outra pessoa. A partir daí houve contribuição de voluntários que escreveram artigos e formularam as políticas e guias para o projeto. A idéia por trás do Wikinotícias foi a mesma. Procuraram criar uma fonte livre de notícias via web, onde toda e qualquer pessoa está convidado a contribuir

com reportagens sobre, também, qualquer tipo de evento relevante, a partir de uma experiência pessoal, ou relatada em algum outro lugar. O Editor Assim como essas homepages de jornalismo cidadão, ou colaborativo, ou ainda chamado de participativo, diversos outros sítios na internet criaram esse espaço de produção para quem não é jornalista, porém, muitos já admitiram a figura do Editor. Os sites "ohmynews", "Parla", “digg”, "cronicasmoviles", “overmundo”, são exemplos, e, até mesmo o portal de notícias da Rede Globo, o G1, lançou neste dia 23 de maio, seu espaço colaborativo. Os blogs, flogs e vlogs também são meios de se fazer uma produção amadora, em que o cidadão conta sua história e adquiri o papel e editor de si mesmo. De acordo com Ana Maria Brambilla, jornalista e mestre em comunicação social, que se dedica a pesquisar sobre jornalismo participativo, "a meta central do jornalismo colaborativo é dar voz a quem não tem voz. E o meio de se fazer isso é transformar o próprio cotidiano em notícias. Quer dizer, contar ao mundo aquilo que está muito próximo de vo-

cê, cidadão repórter, e que por questões de espaço ou editoriais, não recebem espaço nos veículos tradicionais – como mídia impressa e eletrônica." Alguns jornalistas não conseguem admitir a idéia de uma pessoa não qualificada como profissional, assumir um papel de repórter e contador de histórias sem nenhuma técnica e responsabilidades que desenvolveram durante a graduação. “Isso amplia demasiadamente o mercado e o reflexo disso é a total desregulamentação da profissão do jornalista, porque se você tem uma massa de pessoas produzindo um material para os meios de comunicação, não será mais necessário ter profissionais contratados, pagá-los e estabelecer jornadas de trabalho. Minha preocupação é como que esse conceito vai provocar mudanças na realidade dos jornalistas na redação”, explica Alexandre Campello, jornalista e professor da Universidade Fumec. Outros já defendem essa prática como uma forma de democratização da informação. “Não acho que o jornalismo cidadão venha alterar as relações de mercado que existem hoje. Ele veio para se colocar como uma nova alternativa de publicação”, contrapõe Pedro Penido, jornalista for-

mado no segundo semestre de 2006 pela Fumec, que teve como tema de sua monografia “A reconfiguração do papel do jornalista na web: de gatekeeper à cartógrafo da informação”. Ainda que um processo evolucionista, o jornalismo participativo na web encontra dificuldades de aceitação e de credibilidade. Não é nova essa interferência do leitor nos veículos, mas esta participação sempre foi limitada pelo espaço restrito e filtrado pelas editorias. Já com a popularização da internet e o investimento da interferência do público na produção de conteúdo, o jornalista define um novo papel. “Para que o profissional de comunicação possa trabalhar num ambiente de um webjornalismo participativo é preciso ter em mente o processo de interlocução, que faz com que aquela audiência seja participativa da produção e veiculação de um conteúdo informativo em um ambiente interacional. Ele tem de saber dialogar com a audiência e organizar todo o conteúdo de maneira interativa”, afirma Jorge Rocha, jornalista, pesquisador e professor da Universidade Fumec. Colaborou: Fabrícia Marcolina

“Manifestar idéias e ter influência sobre o noticiário” Arquivo ASSCOM

e, em parte, concordo. Algumas emissoras de rádio abriam suas antenas de transmissão para motoristas presos no trânsito passarem boletins informativos por celular. Embora isso já seja um tipo de colaboração, não se trata de um veículo colaborativo. É uma emissora qualquer que, num momento bem específico, abre aquele espaço. Talvez seja como a seção “Cartas do Leitor”, de um jornal convencional. OP: Quem se beneficia com o jornalismo cidadão?

Ana Maria Brambilla é graduada em Jornalismo pela PUC (RS), 2003. Em 2006, concluiu mestrado em Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Hoje dedica-se a pesquisas em mídias digitais e jornalismo colaborativo. Mantém um blog pessoal, o Libellus. Ela é editora assistente de internet da Editora Abril em São Paulo, e colaboradora do noticiário sul-coreano OhmyNews International. Em entrevista ao jornal O PONTO, Ana Brambilla fala sobre o surgimento do jornalismo cidadão e explica como se porta o profissional, os colaboradores e o papel social que este novo tipo de reportagem atribui. O PONTO: Como surgiu a idéia de um jornalismo colaborativo? Ana Brambilla: “Cada cidadão é um repórter” foi o slogan criado pelo primeiro noticiário que se auto-definiu como colaborativo: o OhmyNews. Ele surgiu em fevereiro de 2000, editado em hangul, o alfabeto coreano. Em 2004, com a demanda de povos de outros países, foi criado o OhmyNews International, que hoje reúne cidadãos repórteres de mais de 100 países. Há quem diga que essa colaboração tenha surgido antes disso

AB: Todas as partes envolvidas se beneficiam. Para quem colabora, o benefício é visível: manifestar idéias e ter influência sobre o noticiário. Para o jornalista, o ganho está em contar com um olhar altamente diversificado quanto o de cada cidadão e, sobretudo, em trocar experiências com alguém que sabe muito mais sobre uma pauta porque ela já faz parte de seu cotidiano. OP: Qualquer pessoa pode ser um cidadão colaborativo? Como? AB: Sim, basta ter consciência do que está fazendo. Ser cidadão repórter implica em uma responsabilidade muito grande, que pode culminar com o reconhecimento de uma comunidade inteira quanto aos méritos do sujeito que se esforça para contar ao mundo histórias do seu cotidiano. Sinto que o jornalismo colaborativo funciona muito melhor na web, devido às pecualiaridades do meio. Isso acaba exigindo do cidadão repórter um certo preparo para lidar com ferramentas tecnológicas – ainda que bastante simples – e acesso à rede. De resto, o desafio é contar histórias verdadeiras. Aliás, essa “contação” de histórias sempre foi privilégio do repórter, que é apenas uma

das funções exercidas pelo jornalista profissional. OP: Como o jornalismo participativo se difunde nos meios de comunicação? AB: Alguns veículos tradicionais como o Estadão e O Globo adotaram, em suas versões online, seções de viés colaborativo. No segmento “vida real”, a revista Sou+Eu levou esse modelo para o papel. Vejo isso como prósperos sinais de abertura da mídia em geral para o modelo de colaboração. Há quem diga que essas iniciativas denotam apenas uma necessidade desses veículos “entrarem na onda” do jornalismo colaborativo. Acho que depois que sentem o gostinho, só vão aperfeiçoar suas propostas. OP: Os blogs hoje em dia são mais uma forma de diários virtuais, e percebemos que há inúmeros jornalistas que possuem. Como que os blogs têm ajudado os jornalistas? AB: Discordo que blogs sejam diários virtuais. Isso é reduzir uma ferramenta de publicação que está por trás de uma verdadeira revolução no esquema clássico de comunicação. O blog, enquanto uma interface simples de publicação de conteúdo acessível a qualquer pessoa, quebra com a linearidade do rádio, da TV, do jornal (emissor-meio-mensagem-receptor). Quanto a vários jornalistas terem seus próprios blogs, entendo como uma necessidade de publicarem informações que não cabem nos veículos onde trabalham oficialmente. Por outro lado, esses blogs fazem parte da blogosfera como um todo e, quando trocam links entre si, acabam criando uma comunidade que se auto-referencia, atribui status ao conteúdo do outro, legitima ou destitui o trabalho de outro blogueiro.

Jornalismo Colaborativo participação de todos na difusão de informações


04/05-Ciência - Larissa

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Editores e diagramadores da página: Larissa Carneiro e Rafael Barbosa - 7º Período

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04 C I Ê N C I A

Belo Horizonte – Junho/2007

AIDS: TRINTA ANOS

DIAGNOSTICADA COMO “CÂNCER GAY” NO INÍCIO DA DÉCADA DE 80, A HISTÓRIA DA SÍNDROME DA IMUNO-DEFICIÊNCIA É ANTERIOR E SE CONFUNDE COM A MISÉRIA HUMANA e repente, em 1980 na cidade de San Francisco, vários homossexuais começaram a procurar hospitais. Aparentavam os mesmos sintomas: manchas espalhadas pelo corpo, perda de peso e doenças oportunistas. A coincidência despertou a curiosidade dos médicos. Rastreando a vida desses pacientes, descobriram que muitos haviam tido relações sexuais com um mesmo homem em saunas gays: Gaëtan Dugas, um comissário de bordo franco-canadense que fazia o trajeto Europa – Canadá - Estados Unidos. Dugas era belo, jovem e

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promíscuo. Mesmo alertado que as tais manchas – Sarcoma de Kaposi – poderiam ser transmitidas sexualmente, recusou-se a praticar o sexo seguro, embora admitisse manter cerca de 250 parceiros por ano. Proclamava que somente na América do Norte havia tido mais de 2500 parceiros. Dugas foi denominado o “paciente zero” da AIDS por epidemiologistas do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos e responsabilizado por trazer a doença para Califórnia. E a AIDS adquiriu o estigma do “câncer gay”.Entretanto, em 1983, o médico dinamarquês especialis-

ta em doenças transmissíveis, Ib Bygbjerg, escreveu um artigo para a revista científica britânica The Lancet narrando um outro caso. Esse de uma colega sua e grande amiga, que havia trabalhado na atual República Democrática do Congo (ex-Zaire). A mulher havia morrido com os mesmos sintomas que não foram, na época, diagnosticados por médicos. Afirmou que a doença não colocava sob risco somente homossexuais e que o foco da pesquisa deveria ser alterado. E a dramática história de Margreth Rask veio, finalmente, a público.

Eduardo Pônzio - 5º Período

A triste história de Margrethe Rask LARISSA CARNEIRO 7º PERÍODO Existe uma cidade no noroeste da Dinamarca que se chama Thisted. Com cerca de 15 mil habitantes, tem uma atmosfera intimista com ruas charmosas, parques, jardins e turistas no verão. Tem igrejas com arquitetura simples que foram construídas em séculos longínquos. São feitas de pedra com uma única torre pintada de branco. Em algumas, os sinos ainda tocam pela manhã. Está encravada entre o mar e os fiordes dinamarqueses. Lá, existem dois faróis. Um deles foi construído em 1843 e na época era o mais poderoso do mundo. De seu alto, dá para enxergar o oceano inteiro. É um lugar de horizontes planos, ar puro e natureza intocada. Se for perguntado, cada morador irá dizer que tem um lugar favorito, mas todos irão concordar: não há nada mais aprazível do que fazer uma longa caminhada à beira mar para sentir na pele o vento fresco que vem do oeste. Os olhos se perdem nas planícies verdes onde o gado pasta tranqüilamente às margens das águas geladas do Mar do Norte. Em outros sítios, paredões imensos de pedra chegam até a areia da praia. No verão, o céu de um infinito azul não exibe nenhuma nuvem e rios de águas limpas podem ser apreciados de velhas pontes de madeira. Nas ruas, as casas são coloridas. Veleiros de velas brancas cruzam o mar o tempo todo. O povo é gentil. Não há a menor sombra de dúvida. Thisted é uma bela cidade. A guerra no Zaire Foi lá que nasceu, em 1930, Margreth Rask, médica, que morreria de uma doença desconhecida que havia contraído em um outro lugar, muito distante e diferente dali,onde a natureza não é tão generosa. Um país esfacelado por uma guerra que estava em curso e que ceifou mais de quatro milhões de vida. Um povo que nem imaginava que no norte do globo pudesse existir um lugar como Thisted. Em 1971, um dos maiores países da África central mu-

dou de nome e de bandeira. A República Democrática do Congo, ex-Congo Belga, agora era Zaire e o seu presidente, Mobutu Joseph Désiré, um ditador, empreendeu uma política sanguinária no país. As riquezas naturais abundantes nesta terra não trouxeram nenhuma prosperidade. Nem todo o cobalto extraído, usado pela maior parte da indústria aero-espacial norteamericana, foi suficiente para evitar a guerra, a miséria, a fome e a peste. Ao contrário. Estimulou os vários grupos étnicos a disputarem a posse dessas reservas e o direito de sua comercialização. Os congoleses não conheciam paz. Já haviam sido submetidos a cargas de trabalho desumanas durante o regime do rei Leopoldo II da Bélgica. Haviam passado pela extração desordenada da borracha, paga com salários miseráveis e impostos altíssimos; ao assassinato do líder Patrice Lumumba; a um golpe de Estado; rebeliões pacificadas à força; à guerra fria e à completa deterioração do país e da economia. Ajuda humanitária Razões não faltavam para a presença de ajuda médica humanitária e em 1972, Margreth Rask decidiu viver e trabalhar no Zaire. Alguns afirmam que sua ida à África foi motivada pela possibilidade de dirigir sozinha um hospital ou se encarregar pessoalmente por um departamento médico qualquer. Difícil acreditar que a ambição profissional levasse alguém para tais paragens. Seu primeiro local de trabalho foi em um hospital localizado em uma área rural perto da cidade de Abumombazi. No mapa, quase que um ponto central do continente africano. As condições eram precárias. Agulhas eram reaproveitadas, não havia recursos materiais para a esterilização adequada dos instrumentos de trabalho ou mesmo medicamentos; as luvas cirúrgicas tinham furos e se rasgavam sem que houvesse outra para repor em seu lugar. Faltava todo e qualquer equipamento necessário para um mínimo de segurança profissional e para o mínimo conforto do paciente.

“Razões não faltavam para a presença de ajuda médica humanitária e em 1972, Margreth Rask decidiu viver e trabalhar no Zaire.”

Surto de Ébola Foi nesta época que ela foi trabalhar em uma cidade chamada Miridi, perto do rio Ébola. Ali havia surgido uma das doenças mais terríveis que o mundo já conheceu, de morte dolorosa e impressionante. Uma peste hemorrágica que matava em poucos dias e que foi nomeada com o nome do rio que corria ali perto. Homens, mulheres e crianças se esvaíam em sangue. A doença se espalhou, em um primeiro momento, devido ao uso de agulhas contaminadas. Atingiu 153 pessoas para, finalmente, desaparecer. Em 1976, o vírus Ébola foi finalmente identificado. Nesta região, Rask permaneceu até 1975, quando então se transferiu como cirurgiãchefe para um hospital da Cruz Vermelha dinamarquesa na capital do país, Kinshasa. Sua determinação e capacidade inesgotável de trabalho a fazia respeitada por seus colegas. Pois foi nesta cidade que ela, pela primeira vez, manifestou sintomas estranhos para uma mulher de sua idade: fadiga, nódulos linfáticos inchados, diarréia e perda de peso. Os sintomas Grethe já vinha sofrendo de um quadro de diarréia crônica resistente aos medicamentos conhecidos e disponíveis. Mas a primeira vez que passou muito mal foi durante as comemorações do ano novo de 1977. Com ela, estava o médico recém-chegado e amigo, especialista em doenças transmissíveis, Ib Bygbjerg. A doutora pode ter muito bem imaginado que estava com uma das febres tropicais que assolavam o país. Porém, logo ela começou a apresentar um quadro de várias doenças oportunistas. Seus amigos estavam preocupados com o frágil estado de sua saúde. No Zaire, ela ainda permaneceu mais algum tempo, quando então se sentiu muito doente para continuar. Um dia, confidenciou a Bygbjerg que voltaria à sua terra natal para morrer. Não foi fácil a sua viagem de retorno à Dinamarca. Já em seu país, foi internada no hospital Rigshospitalet, na cidade de Copenhagen, com todos os recursos modernos.

Sem tratamento Não demorou para que os médicos percebessem que Rask não respondia a nenhum tipo de tratamento. Exames de sangue revelaram um baixo índice de células T-cell, pertencentes ao grupo de “células brancas” e responsável pelo sistema imunológico do organismo. Os médicos eram capazes de diagnosticar cada doença que ela tinha, mas incapazes de curá-las. Raios-X revelaram que seus pulmões estavam completamente infectados. Duas semanas mais tarde, uma série de placas brancas, um amontoado de fungos, invadiram sua boca. Quando percebeu que nada mais poderia ser feito, já cansada de tantos novos testes e medicamentos, ela manifestou o desejo de voltar para casa. Ao lado de uma amiga, permaneceu sob cuidados por três meses até ser internada novamente com o corpo tomado por toda sorte de infecções viróticas, bacterianas e fúngicas. A morte Margrethe Rask morreu em dezembro de 1977, aos 47 anos, sufocada por uma espessa camada de microorganismos que haviam invadido os seus dois pulmões. Se em sua autopsia, os médicos puderam identificar os agentes que a haviam matado, era um mistério o que havia impedido que reagisse aos medicamentos. Seis anos mais tarde, seu velho amigo Ib Bygbjerg afirmaria em um artigo, publicado no dia 23 de abril de 1983 na revista científica The Lancet, que Margrethe havia, com toda certeza, contraído o vírus HIV e morrido de AIDS. Ele alertou aos médicos de todo o mundo que eles estavam no caminho errado. Longe das saunas gays, do uso de drogas injetáveis, do comportamento sexual promíscuo que haviam estigmatizado a doença, Grethe havia se contaminado no longínquo Zaire, provavelmente durante o surto de Ébola de 1976 que havia conhecido e ajudado a combater. A AIDS não era um câncer gay; não escolhia moralmente quem atacava. Era uma ameaça a todos e urgia que o mundo fizesse alguma coisa.

“Faltava todo e qualquer equipamento necessário para um mínimo de segurança profissional e para o mínimo conforto do paciente”.


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Editores e diagramadores da página: Larissa Carneiro e Rafael Barbosa - 7º Período

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C I Ê N C I A 05

Belo Horizonte – Junho/2007

SEM CURA Doença cresce mais entre mulheres, afirma Palmira Bonolo, doutora em saúde coletiva pela UFMG A epidemia da AIDS está longe de ser controlada. Somente na cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, 470 novos casos surgem todos os anos. Porém o número estimado de portadores do vírus é cinco vezes maior do que o de pessoas que manifestam a doença. Embora o Brasil seja modelo no controle e prevenção da doença, cerca de 40% dos doentes não seguem a terapia antiretrovital (coquetel anti-AIDS) de maneira adequada. A médica e doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Palmira Bonolo, pesquisou as causas que dificultam a adesão a este tratamento, único no controle da doença. Esbarrou em estigmas, solidão, medo, vergonha, e até o cansaço de viver uma vida pautada por horários, restrições e, muitas vezes, um grande mal estar físico. Bonolo concluiu que a AIDS é um fardo difícil de ser carregado por somente uma pessoa. Aposta na rede social do indivíduo, no apoio familiar e de amigos, como forma de fazer o paciente cumprir todas as regras de um tratamento árduo, mas efetivo. Sua tese, intitulada “Terapia anti-retroviral: o desafio da adesão” recebeu da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (CAPES), menção honrosa nacional pela sua relevância em saúde coletiva. A pesquisadora falou com exclusividade ao jornal O Ponto.

OP: A senhora aponta a necessidade de cumplicidade e responsabilidade entre médico e paciente. PB: A relação entre médico e paciente não deve ser de obediência, mas de negociação. É importante que o paciente tenha adesão ao serviço de saúde, que faça exames regularmente. O soropositivo, mesmo assintomático, não pode abandonar esse serviço e deve ser examinado de seis em seis meses. E aí surge um problema sério. Por não ter os sintomas da doença, às vezes ele fica dois anos sem procurar o serviço. Quando volta, está com perda de peso, uma doença oportunista e tem que começar a fazer imediatamente o tratamento. O serviço de saúde deve estar atento a este tipo de paciente. Para a nossa surpresa, o paciente que faz os exame e diagnostica a doença que logo se manifesta, absorve melhor o choque e tem um risco menor de não aderência.

O PONTO: Quem deve fazer o uso da terapia anti-retroviral - o coquetel? Palmira Bonolo: Somente os pacientes que estão ou com o sistema imunológico baixo que não está combatendo o vírus ou aqueles que já estão com alguma infecção oportunista, uma perda de peso significante. No primeiro caso, se o exame CD4, que aponta o nível de anticorpos, estiver em um nível baixo, mesmo se o paciente for assintomático, ele deve iniciar a terapia. O que tem sido demonstrado é que quando se inicia tardiamente a terapia, o sistema imunológico não se recupera completamente. Existe um ponto que é ideal para começar a terapia e que vai garantir qualidade de vida, menos internações e uma sobrevida prolongada.

OP: Quando a AIDS surgiu, a primeira reação foi de incredulidade. Depois, pânico. E hoje, parece que a AIDS já não assusta. Existir um tratamento provocou um relaxamento na prevenção da doença? PB: Já houve ocasiões de ouvirmos os jovens e eles acharem que o tratamento e a internação são tranqüilos. Não é verdade. Temos dificuldade de internar o paciente e o tratamento é difícil. Um outro fator de não aderência (ao tratamento) são os efeitos colaterais. No início, há muita gastrite, náusea, enjôo e diarréia. Um outro fator complicador: o alcoolismo. O paciente quer saber se pode iniciar o tratamento e beber “um pouco”. Porém, o uso do álcool piora os efeitos colaterais dos remédios. Se a família não sabe, como explicar não beber durante as festas de final de ano? Não dá para interromper o tratamento durante férias, feriados ou finais de semana. Os níveis dos medicamentos devem ser mantidos no organismo. A a prescrição deve ser cumprida à risca.

OP: Como funciona esta terapia no organismo? PB: Temos que fazer com que a carga viral seja indetectável (em exames de sangue). Ou seja, o vírus deve estar intracelular e não ser detectado na corrente sanguínea do paciente. Por que não existe a cura? Uma das razões é justamente por causa dessa forma de agir do vírus. Uma vez que ele está dentro da célula, a gente não consegue eliminar todos eles.

OP: Qual foi a proporção de não adesão ao tratamento? PB: Um total de 36,9%. Uma média alta. A maneira como chegávamos a esse dado,era perguntando ao paciente como ele tinha se comportado nos últimos três dias em relação ao tratamento. Cerca de 37% das pessoas não tomavam os medicamentos corretamente. E isso no início do tratamento, porque sabemos que com o decorrer do tempo, as pessoas tendem a piorar.

OP: Como está, hoje, a AIDS no Brasil? PB: Existem algumas variações regionais, mas em termos gerais, ela tem crescido mais entre casais que têm relações heterossexuais. Em alguns locais, em regiões

portuárias e cidades interioranas, nós temos a disseminação, principalmente, entre usuários de drogas. Em Belo Horizonte, a principal via de transmissão é sexual e dentro daquilo que se denomina a “feminilização” da epidemia que nada mais é do que a transmissão heterossexual. Isso traz para a mulher uma dificuldade em aceitar o tratamento. Se ela não consegue compartilhar o seu diagnóstico com outras pessoas vai ter dificuldade em prosseguir com a terapia. Se ela vive essa situação sozinha, quem vai ser o suporte necessário para ela? Se não constrói redes sociais de apoio e ainda tem que lidar com problemas comfilhos adolescentes, uma situação econômica desfavorável, revolta com a doença, ela não consegue aderir ao tratamento. A situação para as mulheres é ainda mais delicada.

Síndrome da Imuno-deficiência no tempo 2007 – Ministério da Saúde autoriza a quebra da patente do medicamento Efavirenz. Já são cerca de 433 mil os casos da doença no Brasil; 63% na região sudeste do país.

2006 – No Brasil, cresce o número casos de AIDS entre pessoas com mais de 50 anos. 2005 - Brasil e Argentina concordam quanto à criação de uma fábrica conjunta de medicamentos para produzir anti-retrovirais.

2004 - A África do Sul finalmente promove tratamento gratuito e apropriado em hospitais do país.

2003 – Primeira vacina contra a AIDS a ser testada, fracassa. Calcula-se que no mundo cerca de 40 milhões de pessoas convivem com o vírus HIV.

2002 - O Fuzeon, primeiro de uma nova classe de drogas chamadas de "inibidores de fusão", faz com que o vírus não se reproduza depois de penetrar na célula.

2001 - A empresa indiana Cipla promete desenvolver OP: E as mulheres gestantes que são portadoras? PB: A gente observa que a gestante faz a prevenção por causa da criança. Mas não podemos falar o mesmo da mulher, pois ela não se cuida da mesma forma que cuida do recém-nascido.

genéricos de baixo preço para combater a Aids.

2000 – A região sul do continente africano se torna o epicentro da AIDS. Somente em Botsuana, cerca de um em quatro adultos e 40% das mulheres grávidas têm HIV.

1999 – No Brasil, 155.590 casos de AIDS já haviam surgido, a maioria entre jovens.

OP: A AIDs pode ser caracterizada segundo os seus aspectos sócio-econômicos? PB: A adesão ao tratamento não está ligada ao sexo, idade ou renda, já que no Brasil todos os medicamentos de última linha são encontrados em serviços de saúde pública. Eles chegam para todos.O paciente dá um jeito e então a questão da renda não está muito presente. ºO problema é a questão do desemprego. O paciente que não se sente com autonomia para conseguir um emprego é afetado negativamente. E às vezes, temos que proporcionar um tratamento que permita ao paciente não tomar o medicamento no horário dotrabalho para não ter sua doença revelado e o emprego perdido por isso. OP: Há investimentos em pesquisas voltadas às necessidades dos países mais pobres do mundo? PB: Uma das pesquisas mais recentes diz respeito à circuncisão masculina. A circuncisão diminui o risco da infecção e está sendo colocada em prática na África. Outra medida é o “preservativo pronto”. Uma das falhas do preservativo é a demora e a dificuldade em colocar. E ele se chama “pronto” porque é bem rápido. Quebra-se o invólucro e ele já desenrola. Vários estudos nos países africanos demonstram níveis altíssimos de adesão ao tratamento. Lá, a morte está próxima das pessoas. O sofrimento da perda incentiva a adesão. O problema é o custo alto dos medicamentos.

1998 – Calcula-se que, na América Latina 65 mil indivíduos entre 15 a 24 anos estejam com AIDS.

1997 – Morre Betinho. Há uma estimativa que, no mundo, 30 milhões de pessoas são portadoras do vírus. 1996 – Novas drogas são aprovadas e começam a fazer parte do coquetel. O jogador de basquete, Magic Johnson, portador, retoma sua carreira.

1995 – No Brasil, mais de 80 mil casos de AIDS já haviam sido notificados. 1994 – Começa a ser testada uma combinação de drogas, apelidada de “coquetel”. Há uma diminuição de mortes imediatas, melhora o índice de imunidade e de doenças oportunistas. Tom Hanks ganha o Oscar por sua atuação no filme Philadelphia, onde interpreta um homossexual com AIDS.

1993 – Mais de 3,7 milhões de novos casos ocorrem mundialmente. Cerca de 350 mil crianças nascem infectadas. Morre o bailarino russo Rudolf Nureyev.

1992 – A Food and Drug Administration (FDA) aprova o uso do DDC em combinação com o AZT.

1991 – Morre Freddy Mercury do grupo de rock inglês Queen. Nos EUA, já são 133 mil mortes. 1990 – Mais de 307 mil casos de AIDS são reportados oficialmente pela OMS. Morre o cantor Cazuza.

1988 – Morrem de AIDS os dois irmãos de Betinho: o Henfil e Chico Mário. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declara o dia primeiro de dezembro como o Dia Internacional da AIDS. 1987 – Nos EUA, 20 mil pessoas já haviam morrido de

Custo dos remédios dificulta tratamento No mundo todo, cerca de 38,6 milhões de pessoas estão contaminadas com o vírus HIV, causador da AIDS. Outros 25 milhões já morreram pela doença. Somente no ano de 2004, um aumento de 4,1 milhões de casos. Dos infectados, 2/3 estão em 15 países do continente africano. A AIDS também segue a rota da miséria e da precariedade de condições sócio-econômicas. No Brasil Somente no Brasil, já foram identificados 433 mil casos da doença. Este número refere-se de 1980, quando foi identificado o primeiro caso brasileiro, até junho do ano passado. Hoje, o quadro epidêmico já é maior. A AIDS ainda não tem cura. Somente uma forma de tratamento é disponível ao paciente: a terapia anti-retroviral. O coquetel, como a terapia é conhcecida, combina cerca de 19 drogas a serem tomadas várias vezes por dia. Algumas delas podem causar fortes efeitos colaterais. O tratamento O tratamento não é fácil. O custo destes medicamentos é alto.

No Brasil, que industrializa nove deles, os gastos anuais para a aquisição dos remédios importados é de cerca de U$ 960 milhões. Aqui, o tratamento é público e gratuito. Estima-se que, na África, somente um em cada cinco portadores, receba o tratamento de maneira adequada para o controle da doença. No mundo todo, segundo dados da revista norte-americana Morbidity and Mortality Weekly Report, dos Centers of Disease Control and Prevention (CDC), somente uma em cada dez mulheres grávidas, portadoras do HIV, recebe os medicamentos que impedem a contaminação viral de seus filhos. Mesmo nos EUA, cerca de 45% infectados não se tratam, número menor do que no Brasil, onde 83% dos doentes recebem o tratamento pelos serviços públicos municipais e estaduais de saúde. Modelo para o mundo O programa de prevenção e controle da AIDs no país é modelo para o mundo todo. O fato surpreendeu os países mais ricos que não acreditavam na eficácia da política pública de saúde.

Entretanto, o relatório da Força Tarefa da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado no início de 2005, revela que os países mais pobres ainda estão longe de alcançar as metas de saúde previstas para serem atingidas até o ano de 2015. A AIDS é um dos principais desafios a serem vencidos, segundo o Relatório do Milênio da organização. O crescimento sem controle Seu crescimento assusta e a doença não dá mostras de retroceder em um futuro próximo. Estigmatizada em seus primórdios na década de 80 como uma doença de homossexuais, usuários de drogas e hemofílicos, ela cresce, hoje, entre casais heterossexuais. A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta para o fato de que mulheres casadas, ou que mantém um relacionamento estável com somente um parceiro, representam, hoje, a maioria das infecções pelo HIV. Metade dos casos de AIDS no mundo já é entre mulheres. A AIDS se “feminilizou” e já pertence a todos indiscriminadamente.

AIDS. A princesa Diana causa comoção mundial ao cumprimentar, sem luvas, doentes terminais de AIDS.

1986 – É reportada as primeiras experiências com o AZT que tem o seu uso aprovado. No Brasil, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, confirma ser portador do HIV. 1985 – Chega ao mercado um teste que pode identificar a presença do vírus na corrente sanguínea. O ator norteamericano Rock Hudson admite ser portador do vírus. 1984 - Dois grupos de cientistas, um do Instituto Pasteur de Paris e o outro dos Estados Unidos, reclamam a descoberta do retrovírus transmissor da AIDS.

1983 – Boato de que utensílios domésticos poderiam transmitir a doença leva pânico à população nos Estados Unidos.

1982 – Gaetan Dugas é identificado como “paciente zero” de uma estranha enfermidade. Outros doentes haviam mantido relações sexuais com ele.

1981 – É descrita a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, sem entretanto nomeá-la cientificamente.

1977 - Morre a médica e pesquisadora dinamarquesa Margrethe P. Rask.

Fonte: site Boa Saúde, Associated France Press, Kaiser Family Foundation e Agência Brasil.


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Editora e diagramadora da página: Cristina Barroca - 6º período

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Belo Horizonte – Junho/2007

Era uma vez na Irlanda...

ESTIMA-SE QUE 16 MIL BRASILEIROS OCUPAM OS SOLOS DO PAÍS, QUE JÁ FOI UM DOS MAIS POBRES DO CONTINENTE EUROPEU, PARA TENTAR UMA VIDA ECONOMICAMENTE MELHOR

Brasileiros na Ilha Esmeralda

LAURA AGUIAR 6º PERÍODO Marcus Vinicius, paulistano, 24 anos, levanta todos os dias às 6:30 para trabalhar e volta para casa às 16:30. O salário depende do que ele produz, mas gira em torno de 450 euros por semana. Já João* (nome fictício) de Coronel Fabriciano, 26 anos, não tem rotina nem salário bem definidos. Ele trabalha em construções civis. A semelhança entre ambos é tentar a vida no mais novo pólo de imigração: a Irlanda. A diferença: a situação regulamentar em que se encontram no país. Marcus está legalizado, enquanto João* vive com o constante medo de ser deportado. Segundo Renzo de Morais, vice-cônsul da Embaixada Brasileira no país, ainda não há dados exatos sobre o número de brasileiros vivendo em solos irlandeses ou quantos são deportados diariamente. Há o registro de 1.300, que são aqueles que procuraram os serviços do Setor Consular, mas o mesmo estima que este número já ultrapasse os 16 mil. As principais regiões de imigração são os condados Roscommon, Donegal, Limerick, Cork e Dublin. Na cidade de Gort, no condado de Galway, um em cada quatro habitantes é brasileiro, formando, portanto, a maior comunidade brasileira no país. Para entender melhor a razão pela qual os brasileiros estão abandonando seu país para tentar a sorte nos chuvosos solos irlandeses é necessário entender como que o país, que já foi um dos mais pobres do continente europeu, vive um momento de euforia e crescimento. Hoje, a Irlanda lidera o ranking de melhor qualidade de vida do mundo, segundo a revista The Economist, ficando à frente de países como Suíça, Noruega e EUA (o Brasil ocupa o 35° lugar), além de exibir a quarta taxa mais baixa de desemprego da União Européia, apenas 4,4%. Sua história é marcada por diversas invasões, conflitos com os ingleses e uma Grande Fome no final do século 19, que devastou o país.

Laura Aguiar - 6º período

Cruzes Celta em um cemitério no condado de Donegal: símbolo característico da Ilha Esmeralda

História e Cultura A Barbárie das Invasões Situada a oeste da Inglaterra, a Irlanda foi por séculos recanto da cultura celta que antes abrangia a França e a Inglaterra de hoje. Por volta do ano 432 a ilha entrou no processo de cristianização por St. Patrick (São Patrício) – que hoje é padroeiro do país - e viveu nos séculos seguintes um pleno desenvolvimento nas artes, com os artesãos e a literatura, dentre os mais famosos trabalhos realizados destaca-se o The Book of Kells (Livro de Kells), escrito por monges católicos, que impressiona pela beleza da tipografia e figuras. Em 1175 a Inglaterra co-

meça a ocupação e consequentemente, o martírio dos irlandeses. A partir daí, a história da ilha é marcada por diversos conflitos que duraram mais de 800 anos, devido à medidas como as Leis Penais – que praticamente tornaram o catolicismo um crime - e a proibição de falar e expressar-se em gaélico, ambas já abolidas. A Grande Fome Além da resistência aos ingleses, os irlandeses tiveram de superar a Grande Fome, que se alastrou pelo país entre 1845 a 1849 e reduziu a população quase pela metade. Frederico Engels, em A Si-

tuação da Classe Operária na Inglaterra (1845), analisou a miséria pela qual a Irlanda passava e mostrou que devia-se a uma estrutura social perversa. Os poucos proprietários, a maioria escoceses e ingleses que entre os séculos 16 e 17 receberam terras “arrancadas” dos irlandeses, as arrendava aos camponeses pobres (os próprios nativos) que vivam em péssimos barracões e usavam seus lotes para plantar e colher batatas. Para piorar a situação, um fungo maligno se alastrou nos solos, tornando um dos campos mais férteis da Europa inúteis para alimentar uma população beirando a pobreza absoluta. “Pode-se cogitar que as autoridades inglesas, inconscientemente, cometeram um genocídio contra o povo da Irlan-

da, pois calcula-se que a Grande Fome matou de pauperismo e doenças um milhão de agricultores e seus familiares”, afirma o historiador Voltaire Schilling, do portal de História do site Terra. O restante foi salvo não pela solidariedade da “metrópole”, mas pela imigração para países vizinhos ou para a América, reduzindo a população de oito milhões para apenas 4 milhões. Estado “Livre” Os anos seguintes da Grande Fome foram marcados por diversos conflitos. Em 1916, um grupo de militantes do Irmandade Republicana Irlandesa (precursora do IRA – Exercito Republicano Irlandês) realizou o Levante da Páscoa (Easter Rising), no qual os três mil volun-

Foi a “experiência no corte da carne” que levou o casal paulista de Andradina, Marcus Vinicius e Adriana Coelho, ao condado de Donegal, no norte da Irlanda. Eles foram por intermédio de um irlandês casado com uma brasileira, que trabalha no ramo frigorífico no Brasil. Com o pai morando há dois anos lá, Marcus não pensou duas vezes e após um ano, Adriana se juntou a ele. Morando atualmente em Letterkenny (principal cidade de Donegal), ambos estão empregados e já juntaram dinheiro suficiente para retornar ao Brasil, mas pretendem ficar por mais dois anos. “Aqui temos condições de trabalhar e sermos respeitados como cidadãos. Mesmo sendo um país pequeno, consegue distribuir emprego entre sua população nativa e os demais imigrantes que vêm de vários lugares do mundo. Já o Brasil, cheio de perspectivas de crescimento, não consegue empregar nem seus próprios cidadãos”, lamenta Marcus, que sonha fazer veterinária. Sua esposa Adriana, 26 anos, que antes de sair do país trabalhava em uma fábrica de enlatados, agora é garçonete em um restaurante e se diz muito feliz, mas sente saudades da família e do clima brasileiro. Assim como Marcus, o fato de ter alguém conhecido e a possibilidade de ganhar dinheiro levou a mineira de 32 anos de Coronel Fabriciano Carla* (nome fictício) à Kilkenny (condado ao sul de Dublin), onde vive há quase três anos e trabalha ilegalmente como doméstica. “Sinto muita falta da minha família, do clima quente, da comida. O Brasil é um país alegre, as pessoas são mais carismáticas, mas infelizmente a economia precisa melhorar para todos podermos ter uma vida digna”, se

queixa. Carla* conta que o dinheiro que fazia em um mês no Brasil, ela faz em uma semana na Irlanda. Outros brasileiros ilegais não tiveram a sorte de chegar com um emprego garantido e tiveram de batalhar para conseguir. Mesmo assim, acabam sendo usados como mão-deobra barata. Como é o caso de João*, 26 anos, também de Coronel Fabriciano, onde trabalhava de guia turístico e trocador de ônibus. Sem conhecer a Irlanda, ele chegou ao país há quase um ano para se juntar à sua namorada e seus irmãos e conta que no começo, teve dificuldade para arrumar um emprego, principalmente por não falar inglês e estar ilegal. Atualmente, trabalha em construções civis e freqüenta aulas de inglês. João se diz satisfeito com a vida que leva, e planeja voltar para a casa em três anos. Mesmo empregados e com boas condições financeiras, os brasileiros ilegais vivem com o constante medo de serem deportados para o Brasil. Depois de viver quase dois anos na legalidade, o jovem Euller Senra, 20 anos, também de Coronel Fabriciano conseguiu a Work Permit (permissão para trabalhar), trabalhando como montador de cavalos. “Acho que é mais fácil conseguir a legalização quando se trabalha com cavalos, porque os irlandeses só querem treinar e competir nas corridas e não montar. Como os brasileiros só querem ganhar seu dinheiro, não se importam de ´preparar´ os cavalos e ficar de fora das corridas”, explica Euller. O jovem ainda não fala inglês fluente, mas diz que consegue se comunicar e pretende retornar ao Brasil em quatro anos. Assim como os outros brasileiros, suas maiores dificuldades são o idioma, o frio e a comida.

tários ocuparam diversos pontos estratégicos na capital e proclamaram a República Irlandesa Os ingleses enviaram tropas e combateram o levante, fuzilando os 16 líderes. Mesmo sem contar com o apoio popular, as execuções tiveram uma repercussão negativa, e ingleses perceberam que seu domínio sobre a ilha estava ameaçado. Dentre os voluntários do Levante, dois se destacariam mais tarde: Michael Collins, futuro fundador do IRA e Eamon De Valera, ministro e depois presidente da Irlanda, que utilizaram o partido Sinn Féin (em irlandês “Nós Sozinhos”) como instrumento de luta, ganhando a maioria das votações em 1918, acelerando portanto o processo de independência. Em 1921 foi assi-

nado o Tratado Anglo-Inglês, que declarava a Irlanda independente desde que algumas condições fossem seguidas. A ilha foi dividida em duas: dos 32 condados, seis localizados ao norte ficariam sobre o domínio inglês, formando a Irlanda do Norte, enquanto o restante seria governado pelos próprios irlandeses. Além disso, os membros do novo parlamento deveriam jurar fidelidade ao rei britânico e o país não poderia ser denominado “República”, mas “Estado Livre” dentre outras restrições. De Protestos à Luta Armada O Tratado divide os membros do Sinn Féin e dá-se início a uma guerra civil entre os que apoiaram - liderados por Michael Col-


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Belo Horizonte – Junho/2007

Laura Aguiar - 6º período

Pichações como esta não são mais frequentes após o cessar fogo propospo pelo IRA em 2005

Laura Aguiar - 6º período

Thatched Hous: construção típica, que desde o século 17 sobrevive à modernização do país

Os caminhos que “Estive quatro meses em Donegal, levam ao Tigre Celta o mais irlandês dos condados” Diversas políticas econômicas e os investimentos na educação inverteram a situação da Irlanda, atraiu grandes empresas e absorveu a mão-de-obra imigrante, principalmente do leste europeu, da África e agora, do Brasil. Segundo Cristiano Lopes, criador do site Amigos do Brasil, que presta assistência aos brasileiros que vivem na Irlanda, esta imigração teve três fases. A primeira foi a da ida de profissionais especializados na área de TI (Tecnologia da Informação). A segunda fase é a dos brasileiros de renda mais baixa, que foram para trabalhar especificamente nos frigoríficos, por terem experiência no “corte de carne”. A maioria possue a Work Permit, tem salário médio de 400 a 500 euros por semana, e trabalha 8 horas por dia. E a terceira é a dos estudantes que vão para praticar o inglês, trabalhar e viajar pelo resto do continente. Intercâmbio Quando o motivo é a prática da língua inglesa, muitas vezes aliado com o trabalho, permite que os intercambistas juntem dinheiro para conhecer outros países do continente europeu ou pagar todo o investimento inicial do programa. Segundo Vanessa Aroeira, diretora da Argos Intercâmbio, em belo Horizonte, a Irlanda tem se destacado por ser um dos destinos mais baratos para o estudo de inglês na Europa, por sua localização geográfica, que facilita a locomoção para os demais países europeus e pela fácil obtenção do visto de estudante. Uma lei do governo irlandês em 2005 deu a permissão de trabalhar até 20 horas semanais, desde que o intercambista curse no mínimo 15 horas de aulas e que a estadia tenha a duração de pelo menos 25 semanas (definido como um ano acadêmico). Mas é comum ver brasileiros excedendo as 20 horas permitidas. Márcio Oliveira, estudante de odontologia da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), teve de abandonar o curso de inglês porque arrumou emprego como ajudante de cozinha em um pub, onde trabalhou 60 horas sema-

lins e os que eram contra o tratado – encabeçados por De Valera , estendendo-se por dez meses. O filme Ventos da Liberdade, ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2006, mostra como o fanatismo político fez com que companheiros lutassem em lados opostos. A questão da discriminação e opressão dos católicos na Irlanda do Norte continuou os conflitos, estes frequentemente noticiados pela mídia internacional. Aliados a antigos simpatizantes do IRA, eles resolveram agir por meio de protestos, dentre eles o Bloody Sunday (Domingo Sangrento), episódio imortalizado na letra da banda irlandesa U2, no qual durante uma passeata pacífica na cidade de Derry em 1972, o exército britânico abriu fogo

nais. “Escolhi a Irlanda porque tinha um amigo meu vivendo aqui, então tudo foi mais fácil. Não tive de pagar casa de família e ele me ajudou nas coisas que eu eventualmente tive dificuldade. Até arrumar emprego foi fácil. Tive tudo de mão beijada”, explica Márcio, que morou durante sete meses em Dublin. Já o radialista Tiago Lameiras, do Maranhão, conta que a sua prioridade é estudar inglês. Desde setembro de 2006 na capital, Tiago se diz apaixonado pelo país.. “Há uma forte identidade cultural entre brasileiros e irlandeses. São povos alegres, comunicativos, gostam de música e festa. Os irlandeses são considerados pelos estudantes espanhóis como os latinos do norte da Europa”, explica Vanessa Aroeira, que já enviou 40 brasileiros a Irlanda.

A Irlanda mudou. Mas a herança cultural ficou e está sendo muito bem preservada. São poucos brasileiros que tem a oportunidade de conhecer um pouco mais da cultura desta ilha de menos de cinco milhões de habitantes. Eu, felizmente, sou um deles. Estive quatro meses em Donegal, o mais irlandês dos condados. Digo isso porque conheci outros ao sul – que são mais explorados turisticamente e com igual beleza, como Kerry e Galway, mas parece que Donegal foi esquecido no tempo. Ainda existem minúsculos vilarejos onde o gaélico é falado, as estradas são mal conservadas e estreitas e nos pubs, os irlandeses se divertem tomando uma pint de Guinness, cerveja preta nacional, ao som da música e dança irlandesa. Há obras para todos os lados. Seja na recuperação de estradas ou na construção de casas, o boom econômico do país é evidente em qualquer condado. Dublin, a capital, é o símbolo desse crescimento. Com uma população de cerca de 1,5mi, já é uma cidade cosmopolita e para todos os lados há ofertas de emprego, ou melhor, subemprego.

Curiosamente, há mendigos na rua, muito poucos se comparado ao Brasil. São, em sua maioria, alcoólatras, drogados ou imigrantes ilegais, uma vez que o Governo oferece seguro desemprego a todos os cidadãos. O assistencialismo do governo é evidente, não só por ajudarem os desempregados, mas também as mães- solteiras ou casadas- que recebem um “salário” semanal. Não há, portanto, pobreza no país e com tanta ajuda, os irlandeses vêm se tornando exigentes quanto ao tipo de emprego, principalmente os jovens. A educação é exemplar: gratuita e de qualidade, desde o primário até a universidade. O rugby – pouco conhecido e praticado no Brasil - e o gaelic – uma mistura de futebol com rugby são os esportes nacionais, embora seja inegável a paixão dos irlandeses com o futebol, principalmente com os jogadores brasileiros Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Aliás, não há num irlandês que não goste do Brasil, todos abrem um sorriso quando você diz que é brasileiro, mas também assustam quando você explica que é um país lindo, porém há grande desigualdade social e corrupção.

Ilusões Perdidas O que a maioria dos imigrantes brasileiros – legais e ilegais - tem em comum é o deslumbramento perante a possibilidade de adquirir bens que no Brasil estariam mais distantes da realidade. João, por exemplo, já comprou computador, televisão e videogame, dentre outras coisas, não conseguindo, portanto, juntar dinheiro para retornar para casa. “Com certeza, a condição financeira é que nos faz vir para cá, além da diferença social, que é bem menor na Irlanda. Podemos comer e morar bem e ter muitas coisas que nem sonhávamos no Brasil”, afirma João. O sonho de retornar e montar um negócio próprio também é característico dos brasileiros, mas poucos conseguem. Além disso, alguns não aproveitam a oportunidade para aprender inglês, uma vez que se fecham em comunidades, assistem a canais da TV brasileira (Record ou Globo) e por mais que trabalhem com irlandeses, o contato se restringe ao ambiente de trabalho. Sem a fluência no inglês, alguns brasileiros perdem a chance de se inserir na cultura do país e retornam ao Brasil com a mesma falta de conhecimento que tinham antes de chegar à Irlanda

contra os manifestantes, resultando em centena de feridos e na morte de 13 pessoas. Para os católicos foi uma desilusão. A antiga aliança entre o exército inglês e os protestantes da Irlanda do Norte formara-se novamente e neste quadro adverso, os católicos pensaram que somente a guerrilha urbana e o terrorismo poderiam levar vantagem. Era renascimento do IRA”, explica Voltaire Schilling. A cada ato violento, vinha outro em resposta. Em 2005, o IRA anunciou o fim da "luta armada" e a entrega de armas e em maio deste ano, em uma reunião histórica, os partidos católico Sinn Féin e protestante União Democrática chegaram a um acordo que deu início a divisão de poder, que deve colocar de lado as

Hoje a Irlanda lidera o ranking de melhor qualidade de vida do mundo, ficando à frente de países como Suíça, Noruega e EUA (o Brasil ocupa o 35º lugar) além de exibir a quarta taxa mais baixa de desemprego da União Européia, apenas 4,4%.

Revista The Economist

Mesmo sendo um país pequeno, consegue distribuir emprego entre sua população nativa e os demais imigrantes que vêm de vários lugares do mundo. Já o Brasil, cheio de perspectivas de crescimento, não consegue empregar nem seus próprios cidadãos.

Marcus Vinícius, paulista que foi para a Irlanda trabalhar no ramo frigorífico

hostilidades de ambos os movimentos e abrir caminho para uma possível paz na ilha. Tigre Celta Por muitos séculos, a economia irlandesa era de base agrícola familiar, sem características industriais. O domínio inglês, os constantes conflitos, o grande fluxo emigratório, dentre outros fatores atrasaram o crescimento do país. Durante os anos 20 e 30, a Irlanda encontrava-se fechada ao mundo exterior, com uma indústria auto-suficiente e protecionista, que abastecia o mercado interno. Na década de 60, a economia ainda era de base agrícola e a maioria das exportações iam para o Reino Unido. Quando aderiu à Comunidade

Européia (futura União Européia), a Irlanda começou a trilhar um caminho com diversas medidas eficientes, que priorizavam a educação e a atração de investimento estrangeiro. Os EUA foi um dos países que logo investiu no país, devido a alta qualidade da força de trabalho, acesso a 300 milhões de consumidores, juntamente com o inglês como idioma. Assim indústrias de tecnologia e informação e farmacêuticas abriram as portas na Irlanda e empregaram, durante anos, os brasileiros. Na educação, o ensino secundário passou a ser gratuito e no final da década de 90, o governo investia 10% no setor. Além disso, o país tinha uma das maiores taxas de natalidade e um grande número de jovens que absorvem

a necessidade de mão-de-obra. Da queda ao topo Com a crise mundial do petróleo na década de 70 e algumas políticas inadequadas, tal começo promissor foi afetado e a Irlanda se viu mergulhada em um aumento da inflação e de desemprego, forçando muitos jovens com ensino superior a emigrarem novamente. No final dos anos 80, o país passava por acordos salariais e um ajustamento fiscal; as despesas foram reduzidas, trazendo de volta a confiança dos investidores. A década seguinte, a Irlanda passou de um dos países mais pobres do continente europeu para o novo modelo a ser seguido por países emergentes. Isso só foi possível com a União Européia, que

transferia grande parte do que arrecadava para os cofres irlandeses, ajudando a disciplinar e organizar o sistema político. Além disso, o país seguiu uma consistente estratégia político-econômica por um longo período e não hesitou nem investir na educação. De país emigrante, a Irlanda passou a receber de volta os compatriotas, e mesmo assim, eles não foram suficientes para absorver toda mão-de-obra necessária, abrindo as portas para os imigrantes estrangeiros. Dublin, a capital, é hoje uma cidade cosmopolita, apesar de ter em torno de 1 milhão de habitantes, principalmente asiáticos, africanos, europeus do leste e agora, brasileiros.


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Editoras e diagramadoras da página: Juliana Noronha e Laura Aguiar 6º período

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08 E C O N O M I A

Belo Horizonte – junho/2007

O BARATO PODE SAIR CARO CAUSA E SINTOMA DOS PROBLEMAS ECONÔMICOS DO PAÍS, CENTROS DE COMÉRCIO POPULAR CONVIVEM COM DIVERSAS IRREGULARIDADES E AFETAM O COMÉRCIO FORMAL LAURA AGUIAR 6º PERÍODO

No BH Shopping, localizado no bairro de classe alta Belvedere, uma blusa da marca Puma, moda entre os brasileiros, não sai por menos de R$100. Já no Shopping Oiapoque, centro de comércio popular, a mesma blusa – falsificada ou original - não chega a R$70. Tal diferença de preço só é possível devido às diversas irregularidades encontradas nos estabelecimentos populares. Só em maio deste ano, a Operação Cacique, realizada em conjunto pelos Ministérios Públicos Estadual e Federal, Receitas Estadual e Federal e pelas Polícias, apreenderam produtos como cigarros e eletroeletrônicos em mais de 190 lojas do Shopping Oiapoque. A maioria é produto contrabandeado, sem nota fiscal e pagamento de impostos. Com preços mais acessíveis, os centros de comércio popular atingem diversas classes sociais, afetando diretamente o comércio regularizado. Bola de Neve “Quando a prefeitura incentiva esse tipo de feira, ela esquece que está retirando postos de trabalho, porque à medida que o comércio formal não consegue concorrer, ele demite empregados e está, cada vez mais, diminuindo a renda circulante”, explica Cláudia Volpini, empresária e presidente do conselho de comércio da Associação Comercial de Minas (ACMinas). Para Mariana Leão, assessora do Tribunal de Justiça e bacharel em Direito, que elaborou um estudo sobre a situação dos FeiraShop, outro centro de comércio popular da capital, tais shoppings são tanto um sintoma quanto causa do problema econômico do país. “A maioria dos comerciantes dessas feiras não assina carteira de trabalho de seus empregados e nem paga o ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadoria). Assim eles conseguem vender seus produtos de forma mais barata e concorrem de forma desleal com outros estabelecimentos que estão cumprindo com suas obrigações trabalhistas e jurídicas. O comércio regular, por sua vez, não consegue concorrer com eles e reduz o número de seus funcionários ou fecha as portas. Muitos vão para a informalidade; outros

tornam-se desempregados. É uma bola de neve”, explica Mariana. A ACMinas constatou que muitos comerciantes têm deixado seus estabelecimentos formais e optaram por manter boxes nos centros de comércio popular, principalmente os empresários do setor calçadista e de vestuário. Que vença o melhor O FeiraShop, um dos centros de comércio popular da capital, já conta com 13 unidades, cada uma com cerca de 80 boxes, localizadas em bairros de grande apelo comercial, como Savassi e Barro Preto. Flávia Carvalho, diretora geral do FeiraShop, explica que a contratação de funcionários dos boxes não fica a cargo da administração da feira, que é responsável apenas por alugar os boxes e manter luz, água e segurança no local. “Estamos no mercado há 16 anos e nossa atividade é regulamentada pela Prefeitura e a concorrência sempre vai existir. Que vença o melhor! O nosso negócio dá certo devido à conveniência, pois temos várias lojas em um só lugar e as abrimos onde o consumidor já está”, defende Flávia em relação às reclamações dos empresários de estabelecimentos convencionais. Conivência Mariana Leão constatou em seu estudo que a administração dos FeiraSHop está regular, uma vez que paga o imposto ISS (Imposto sobre Serviço), porque presta o serviço de alugar os stands. Quem está irregular é a maioria dos comerciantes, que contrata os funcionários sem carteira assinada, além de não pagar o ICMS. “Mesmo pagando o ISS, a administradora não está tão regular assim porque é conivente com as irregularidades de seus comerciantes e não toma nenhuma providência. Além disso, ela não mantém a segurança do jeito que deveria ser feita, uma vez que há diversas fiações visivelmente soltas. Incêndio como o que ocorreu na FeiraShop da Augusto de Lima em 2000 pode acontecer de novo”, explica a assessora. Mariana conta que quando há fiscalizações nos estabelecimentos, a administradora “finge” que não sabia que havia irregularidades e culpa os comerciantes de estarem fazendo-as “escondido” da administração da feira.

Bruno Augusto 4º período

TRADUZINDO O ECONOMÊS O economista Humberto Caetano, graduado na Universidade Vale do Rio de Cima, em São Leopoldo – RS, esclarece alguns termos específicos da economia.

ICMS É o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e o comerciante é obrigado por lei a recolhê-lo aos cofres do governo. O comerciante o inclui no preço das mercadorias vendidas, isto é, o que consta na nota fiscal emitida após a compra. Quando ele não a emite, está sonegando o ICMS.

Banca de revistas é utilizada indevidamente para a venda de produtos não regulamentados.

Propaganda grito a grito no Hipercentro Ao passar pelo centro de Belo Horizonte, não é raro encontrar pessoas aos gritos oferecendo celulares, cortes de cabelo e até mesmo consultas odontológicas, além de outros produtos e serviços. Este mercado, geralmente informal, é formado em grande parte por jovens e garante a eles uma renda mínima superior a um salário mínimo. Segundo estimativas dos próprios, há cerca de 100 “gritadores” ou plaqueteros na região, que recebem comissões que variam de R$0,20 a R$1 por cliente e o público alvo é o de baixa-renda. Atraindo Clientela Empresas que estão localizadas em lugares “escondidos”, o que dificulta atrair clientes estão, cada vez mais, usando esse tipo de divulgação para literalmente chamar a clientela. Com a contratação de gritadores, o comerciante evita gastar com folhetos de propaganda e ainda economiza com o aluguel, que pode ser até 10 vezes mais caro se a loja for de porta para a rua.

“Os gritadores são fundamentais para as vendas da loja. Se eles não chamassem os clientes até aqui, eu teria de gastar com propagandas que possivelmente não dariam o mesmo resultado pago um salário mínimo mais comissão sobre vendas”. O gerente de uma loja de celulares, localizada no oitavo andar de um prédio na rua Rio de Janeiro, que não quis se identificar. Personagens Warley Costa, estudante de 21 anos, trabalha há três meses na captação de clientela, ou seja, como “gritador”, fazendo em média 51 horas semanais e afirma que sua renda consegue suprir suas necessidades. Outro gritador, Adevaldo dos Santos, de 23 anos, trabalha há um ano nesta profissão e ganha de R$800 a R$1.000 por mês, trabalhando em média 13hr por dia, seis dias por semana. Adevaldo diz que está satisfeito com o seu trabalho, embora às vezes se chateie com transeuntes que hostilizam sua

abordagem.“É importante que esses jovens trabalhem, pelo menos não estão aí roubando, qualquer trabalho honesto traz dignidade ao homem”, defende o transeunte Antonio Luiz, de 36 anos, que diz não se importar com a gritaria. É importante ressaltar que muitos gritadores negaram dar entrevistas ou serem fotografados, uma vez que seus patrões os proíbem de fazêlo, já que, em sua grande maioria, não assinam a carteira de trabalho de seus empregados e seria comprometedor vincular a imagem da loja a eles. Segundo a Prefeitura, não há uma lei que proíbe tais gritos, ainda que sejam dizeres de propaganda. Por outro lado, a distribuição de folhetos e panfletos, a colocação de placas fora do padrão e as vendas em bancas de camelô podem receber multas se não estiverem de acordo com o Código de Posturas. Colaborou Bruno Augusto, do 4º período e Juliana Noronha, do 6º período.

Já está funcionando a 15ª Agência Modelo da Universidade FUMEC. A partir desse semestre, ela atenderá a três clientes externos, possibilitando um contato mais constante e real dos alunos com a realidade do mercado. A Totem Comunicação tem como integrantes: Izabela Myrrha de Paula e Silva Guimarães, atendimento. Camila Vieira Freitas, presidente, planejamento e mídia. Izabela de Brito Soares Silveira, produção gráfica. Lorena Mourão Mesquita, RTVC. Samir

ISS ISS é o Imposto sobre Serviços e é cobrado pelos municípios pela autorização dada ao exercício de atividades definidas em lei, como escritórios, clínicas, feiras diversas, circos, etc.

FORMAL X INFORMAL Comércio formal é aquele que está registrado na Junta Comercial do Estado e regularizado perante aos órgãos públicos. Ele deve emitir nota fiscal, recolher impostos e registrar seus empregados. Já o comércio Informal são aqueles que escapam dessas obrigações, como camelôs, vendedores que não possuem estabelecimento aberto etc.

Duarte Santos, diretor de arte. Priscila Benício Braga, diretora de arte. Gabrielle Corrêa de Alvarenga, redatora. Ana Luiza Peixoto de Campos, redatora. Os alunos são orientados pelos professores Admir Borges e Paulo Nehmy, com o suporte da monitora Priscila Marcenes. O laboratório Agência Modelo é uma extensão das atividades acadêmicas e se fundamenta na produção das atividades de uma agência de Publicidade e Propaganda do mercado.


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Editor e diagramador da página: Vívian Cristina de Freitas Avelar

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Belo Horizonte – junho/2007

Lorena Assis

Logo de manhã diversas pessoas fazem filas nas agências de emprego em Belo Horizonte a Agit é uma das mais procuradas pelos desempregados e por pessoas que procuram novos empregos

O retorno às salas de aula A INSEGURANÇA NO MERCADO DE TRABALHO FAZ PESSOAS BUSCAREM MAIS QUALIFICAÇÃO ENZO MENEZES, MARINA RIGUEIRA, RAFAELA BOSCO E RAQUEL VIANNA 5º E 3º PERÍODOS Arrumar um emprego estável, com um salário satisfatório. Por esse motivo as pessoas procuram se qualificar, em busca de uma vaga no mercado de trabalho. Mas as dificuldades aparecem logo: a competitividade acirrada, as cobranças, a falta de segurança na profissão e a ameaça do desemprego são fantasmas para quem vê na educação a chance de investir em uma carreira profissional sólida. As dificuldades não são encontradas apenas pelas classes mais pobres, com baixa escolaridade e, consequentemente, com menos oportunidades.

Mesmo para quem cursa o ensino superior, buscar uma educação de qualidade não é garantia para arrumar um bom emprego. Ter um diploma pode não se refletir em um profissional valorizado e satisfeito. Para adultos que largaram a escola a situação se complica, pois a defasagem é uma barreira para conseguir uma vaga.. Programas desenvolvidos por voluntários tentam recuperar a condição de trabalhadores desempregados, que, por uma questão de sobrevivência, vêem na requalificação a única saída. Ordilei Vieira da Silva tem 29 anos. Há oito parou de estudar. Trabalhava na construção civil, mas desde novembro não consegue um emprego. Por isso voltou para a escola, no começo de 2007. “Quero terminar o segundo grau ago-

ra, para ter melhores chances de arrumar uma vaga”, afirma. Agora, ele não pensa em parar. “Eu sei das dificuldades, mas meu sonho sempre foi ser engenheiro. Isso me motiva a voltar a estudar”, conclui. Ele está matriculado no Programa de Elevação de Escolaridade, do SINE-BH. Voluntários dão aulas de primeiro e segundo graus para pessoas que largaram a escola e hoje não enxergam oportunidades no mercado de trabalho por falta de qualificação. Teresinha Guilhermina Pereira, de 55 anos, é colega de sala de Ordilei. Ela conta que abandonou os estudos para se casar, e hoje trabalha em casa. “Quero arrumar um emprego na indústria, onde já trabalhei, por isso há um ano voltei a estudar”, afirma.

“Sou bombeiro hidráulico, quero terminar o segundo grau para melhorar meu salário”, afirma Welton Golnçalves Pereira, aluno do Programa. Ele tem 31 anos, trabalha o dia todo e estuda à noite. Jane Maria de Fátima Coutinho, diretora do Atendimento ao Trabalhador do Sine, analisa o contexto dos trabalhadores que voltam às salas de aula. “Atender ao trabalhador sem colocação no mercado ou em vias de perdê-la por falta de qualificação profissional é nosso objetivo”, afirma. Para a socióloga Astréia Soares, professora da FCH, programas de requalificação são importantes e necessários, e têm certa eficácia para a reinserção de trabalhadores no mercado. Isso porque, sem voltar a estudar, praticamente não

têm chances de arrumar um emprego. Mas servem apenas como curativos, pois o descaso das políticas públicas pela educação básica criou uma qualificação mal-feita. “Há uma colonização do mercado sobre a educação. Prova disso é a preocupação com a técnica, e não com a capacidade de abstração e reflexão do aluno”, critica. “O trabalhador aprende meramente a executar uma função repetitiva, e quando perde seu emprego, ou sua função desaparece, não consegue ser qualificado para outro serviço”, lamenta. “Não podemos aceitar a postura neoliberal, que põe a educação como responsável pela transformação social. Educação não sana os problemas do país. A solução é uma mudança sócio-econô-

mica, de estrutura, que passa também pela educação”, afirma Ricardo José Barbosa Bahia, coordenador do curso de pedagogia da FCH e membro do Conselho Curador da FUMEC. Ele destaca o caráter demagógico dos governos, que não dão atenção para a educação básica e superior, e depois buscam vias alternativas para os trabalhadores. “São atitudes interesseiras dos governos, que visam à manutenção da desigualdade porque não combatem o cerne do problema”, analisa Ricardo. “Os voluntários e envolvidos são pessoas dispostas a ajudar. Mas não podemos analisar os programas sem considerar o descaso das políticas públicas e o contexto em que se inserem”, enfatiza.

Fernanda Viterbo

A busca de estabilidade

Sine BH: Cursos de requalificação profissional para inserir pessoas no mercado de trabalho

As barreiras encontradas no mundo do trabalho fazem com que as pessoas busquem alternativas seguras na hora de arrumar um emprego. Por vocação ou necessidade, muitos optam por tentar uma concorrida vaga nos concursos públicos. Uma vaga no serviço público atrai estudantes justamente por ser um emprego garantido no futuro, segurança que as empresas privadas não oferecem mais. Mas para conquistá-la, é necessário uma rotina de estudos desgastante, mais exigente do que a enfrentada nos vestibulares mais concorridos. Isso porque o número de candidatos inscritos sempre supera, em muito, a quantidade de vagas disponíveis. No concurso do TJMG, em 2005, por exemplo, cerca de 180 mil pessoas buscaram uma das 4.400 vagas oferecidas. Lucas da Matta, estudante de direito da Puc – Minas, conseguiu ser aprovado. Ele diz que ter conciliado a faculdade com o cursinho preparatório foi uma tarefa desgastante. “Estudava até dez horas durante o dia, e depois ainda ia para a faculdade. Só descansava nos finais de semana”, afirma. Para ele, a estabilidade oferecida no emprego atrai não só profissionais da área do direito, mas também pessoas que se formaram em outros cursos e,

por falta de oportunidades na carreira, preferiram deixar o diploma na gaveta e tentar uma vaga no serviço público. “Eu tenho muitos colegas que vieram de outras áreas. Praticamente a metade estuda ou já se formou em direito, mas os demais servidores tinham outras profissões, como professores e psicólogos, e não pensam em voltar para a outra carreira”, afirma. Leonardo Bueno é aluno de direito da Fumec. Para ele, a exigência pela qualificação é um reflexo da grande concorrência existente no mercado. Por isso, apenas um diploma não é suficiente para se conseguir um bom emprego. “Por causa da grande disputa enfrentada, muitas pessoas não conseguem espaço na área que escolheram, não por falta de capacidade, mas porque o mercado está saturado”, analisa. Ele já fez provas para dois concursos públicos, mas não foi aprovado. “Concursos são atrativos porque garantem uma segurança que outros empregos não oferecem, mas é preciso dedicar muito tempo até conseguir passar”, afirma. Os melhores salários oferecidos para cargos públicos são para nível superior, distante da realidade da maioria dos brasileiros. Mas a segu-

rança no emprego é um atrativo mesmo para as vagas de nível médio. “O que mais atrai as pessoas é a estabilidade, muitos não conseguem emprego em sua área e passam a tentar concursos”, afirma Lucas da Matta. Para Leonardo Bueno, “a segurança financeira é um fator importante, porque advogar hoje é viver de altos e baixos, sem garantias”. “O setor público abre um leque de oportunidades na carreira para diversas áreas. Além disso, a carga horária adequada e a segurança no emprego dão oportunidades ao servidor para se dedicar aos seus projetos pessoais”, aponta Eduardo Campos, diretor geral do Meritus, curso preparatório para concursos. “Por isso, a maioria dos interessados tem entre 20 e 35 anos, e busca uma carreira com oportunidades de crescimento”, analisa. Mas apesar da estabilidade, ele diz que somente o fato de passar em um concurso não garante uma carreira satisfatória ao servidor. “Quem deseja crescer no emprego não pode parar no tempo, é preciso melhorar sempre sua qualificação”, observa. “As empresas exigem muito dos profissionais porque, na ‘era da informação’, as mudanças ocorrem rapidamente”, afirma.


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Editor e diagramador da página: Adiana Thebit - 6º período

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Belo Horizonte – Junho/2007

Bruno - 4º Período

Segundo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos, a construção de trincheiras e viadutos do trecho Barreiro-Calafate, da linha 2, poderá transportar cerca de 200 mil passageiros por dia

Bruno - 4º Período

METRÔ

uma solução para o trânsito COM A TARIFA MAIS BARATA E MAIOR RAPIDEZ, TORNOU-SE A MELHOR OPÇÃO DE TRANSPORTE DA CAPITAL MINEIRA BRUNO AUGUSTO 4º PERÍODO Iniciada a construção no final dos anos 70, o metrô de Belo Horizonte buscava uma solução para o transporte de cargas e passageiros da região metropolitana. O projeto inicial visava à duplicação da linha de carga já existente, e a criação de duas novas linhas destinadas ao transporte de passageiros, com 22 estações e 25 trens-unidade-elétrico, totalizando 60 km de plataformas ferroviárias com previsão de conclusão das obras em 1986. O primeiro trecho foi colocado em operação parcial em 1987, ligando o Eldorado ao Centro e tinha apenas 12,5 km de linhas férreas, sete estações e uma frota de cinco trens. Devido a crise do petróleo, a situação econômica do país e a falta de apoio político, os cronogramas foram prorrogados. A partir de 1991 foi possível retomar as obras de implantação do metrô e dar prosseguimento à montagem dos 20 trens restantes, modificando-se os objetivos e os projetos originais.

Atualmente o metrô de Belo Horizonte é formado pela linha 1, Eldorado-Vilarinho e transporta 107 mil usuários por dia. Possui 28,1 km em via dupla e 19 estações em operação. Segundo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), a desapropriação e construção de trincheiras e viadutos no trecho BarreiroCalafate, da linha 2 devem começar ainda este ano. Esta obra, que pretende arrastar-se por um período de 20 anos e consumir mais de R$ 500 milhões, deverá ter uma demanda para as três linhas do metrô de 1.470.000 passageiros por dia, até o ano de 2019. Com o término das obras espera-se que o metrô atenda satisfatoriamente toda região metropolitana de Belo Horizonte. A CBTU alerta para o ritmo da liberação das verbas, que, de acordo com o presidente da companhia, João Luiz da Silva Dias, a obra do trecho Calafate/Barreiro não ficará pronta antes de 2018. Quando questionado sobre qual era o modelo de transporte público que desejava para o Brasil, Dias disse que este precisa ser redefinido quanto a forma de financiamento.

Segundo o Presidente da CBTU, as tarifas devem ser calculadas de acordo com a capacidade de pagamento dos usuários, e não baseadas nos custos de operação. “Algumas pessoas da região metropolitana sequer tem condições de arcar com as despesas do transporte coletivo. levandose em conta a remuneração média de R$350 de um trabalhador, a tarifa dos ônibus coletivos deveria custar no máximo R$0,46, ao invés de R$2,00”, ressaltou Dias. De acordo com o departamento de comunicação da BHTRANS, estima-se que com a conclusão das obras do metrô, o número de viagens de ônibus coletivos deverá diminuir cerca de 8% no hipercentro. Além disso, haverá estações de integração com o metrô, facilitando assim a vida dos usuários do transporte coletivo urbano. Belo Horizonte é uma das capitais que mais sofrem com o problema de trânsito. A implantação da linha 2 do metrô seria não só a solução, mas uma alta melhoria nas condições de transporte. Atualmente BH usa meios de transporte alternativos como os táxis

lotação e vans para atender o público que não se enquadra aos usuários de ônibus. A cidade precisa de um sistema de transporte altamente capacitado, para atender os cidadãos e impedir o super congestionamento de carros. Partindo de uma pesquisa realizada pelo Governo do Estado e depois expandida pela BHTRANS, foram analisados os principais corredores de tráfego de Belo Horizonte e região metropolitana, visando novas linhas que atendam não só os bairros mais distantes como Pampulha e Calafate, mas também o hipercentro, Savassi e região hospitalar. O presidente da BHTRANS, Ricardo Medanha Ladeira diz que o país deve acabar com essa idéia de que o transporte público deve ser pago somente pelos usuários. “Assim como a saúde e a educação, o transporte coletivo tem que ser tratado como um serviço público”, explicou. Espera-se que esta nova configuração do metrô de Belo Horizonte promova uma maior racionalização do transporte coletivo, reduzindo os congestionamentos, acidentes e a poluição atmosférica.

Congestionamentos virou rotina no trânsito de Belo Horizonte Bruno - 4º Período

Câmara Municipal investiga obras ADRIANA THEBIT 6º PERIODO Os vereadores da Câmara Municipal de Belo Horizonte temem que as obras do metrô sejam abandonadas definitivamente por causa do alto custo das obras, com prejuízo para a população e cofres públicos. Segundo o presidente da Câmara, Totó Teixeira (PR), a conclusão das obras do metrô é promessa de campanha de Lula. “ As obras do metrô da capital vêm se arrastando desde a década de 80 e , nes-

te ritmo, o metrô somente irá chegar ao Barreiro por volta de 2015. Até agora somente 10% da infra-estrutura foram concluídos na linha 2, Calafate/ Barreiro, iniciada em 1998”. O presidente também afirmou que abandonar uma obra desse porte - para o inicio da construçaão das obras do metrô foram feito investimentos para o pagamento de desapropriações, liberação e vedação da faixa de domínio, por onde deveria estar em circulação o trem metropolitano que poderia aten-

der uma população de mais de 500 mil habitantes - é um contrasenso, é jogar o dinheiro do contribuinte no lixo. O presidente Totó Teixeira prometeu mobilizar a bancada de deputados federais de Minas Gerais, no Congresso Nacional, para tentar reverter a situação. Ele tem esperanças de que o presidente Lula tenha sensibilidade para rever os valores destinados ao metrô de Belo Horizonte e sonha terminar seu mandato de vereador inaugurando o ramal Calafate/Barreiro.

BH precisa de um sistema de transporte altamente capacitado para atender seus cidadãos


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Editora e diagramadora da página: Raquel Brasil

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Belo Horizonte – junho/2007

Clarissa Damas 5º período

O fim dos Mercados Distritais PROJETO DA PREFEITURA ESTUDA NOVA FINALIDADE PARA ESSES ESPAÇOS RAQUEL BRASIL 6º PERÍODO Os Mercados Distritais eram grandes pontos de encontro, de compras e lazer nas décadas de 70 e 80, e tiveram grande contribuição na história da cultura de Belo Horizonte. O cenário nos dias de hoje é bem diferente em relação aos tempos áureos. No Mercado Distrital do bairro Santa Tereza, na Região Leste da capital, a situação é de agonia para os comerciantes e freqüentadores do local, que se deparam com o descaso explícito nos passeios quebrados,no mato que cresce sem capinação regular e nas pichações. No Mercado Distrital do Cruzeiro, na Região Sul, a situação é mais confortante para os comerciantes, que ainda contam com a conservação do ambiente onde trabalham. Mas a trajetória dos mercados, que marcaram a vida de muitas pessoas,está chegando ao fim. Um projeto da Prefeitura de Belo Horizonte em parceria com a iniciativa privada, vai dar nova finalidade ao mercados do Cruzeiro e de Santa Tereza. O Mercado Distrital do Cruzeiro vai se tornar um Centro de Gastronomia e Lazer. Seu espaço vai contar com restaurantes, supermercado, bares,barracas de frutas,legumes e verduras. O maior destaque desta obra vai ser um elevador panorâmico, que vai ligar o corredor principal do local ao Parque Professor Amílcar Vianna Martins. O mercado de Santa Tereza ai ceder lugar para a Guarda Municipal. Várias representações de moradores da região chegaram ao Ministério Público, mas a documentação da Prefeitura relativa ao projeto só chegou para a promotoria no dia 14 de maio, segundo o promotor de Defesa do Patrimônio Público da Capital, João Medeiros Silva Neto. O promotor está investigando quais são as verdadeiras intenções do prefeito, e se os critérios estão dentro da legislação. De acordo com Medeiros, a Prefeitura alega que o mercado de Santa Tereza deve ser fechado, pois não existe mais demanda. O secretário municipal de planejamento, Júlio Pires, declarou que as mudanças são essenciais, já que os mercados

não têm chance de sobreviver diante da concorrência dos supermercados e grandes sacolões. A Presidente da Associação dos Permissionários do Mercado do Cruzeiro discorda da afirmação de Pires. Segundo ela, a solução é o mercado ser revitalizado com a permanência das barracas, sem retirar os comerciantes que tem o trabalho como único meio de sustento. “Com a tecnologia e inteligência dos dias de hoje, é fácil revitalizar o mercado sem prejudicar meus companheiros e a mim também.” Neusa tem uma loja de bebidas no mercado há 33 anos, e foi eleita presidente da associação pelos permissionários. A Prefeitura de Belo Horizonte apresentou a proposta de remanejar os lojistas para a Central de Abastecimento Municipal, no bairro São Paulo, na Região Nordeste da cidade.Mas em uma reunião com Altivio Almeida, Secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Planejamento, a proposta não interessou e foi recusada, de acordo com Neusa.Os comerciantes foram surpreendidos com a notícia, nenhuma reunião formal aconteceu para informar aos permissionários do projeto. “Nós fomos informados através da imprensa.” diz Neusa. Almeida acredita que o mercado de Santa Tereza não pratica mais suas funções, e que o mercado do Cruzeiro passará por uma revitalização e que os comerciantes não atuarão no local durante as obras e que a situação deles será resolvida de forma legal. A população admite que a afirmação da Prefeitura seja coerente, mas não concordam com a instalação da Guarda Municipal, eles querem que o mercado se torne um Centro de Convivência, ou Centro Cultural. Para o projeto ser aprovado dentro das normas legais, deve respeitar as características de ocupação e de dimensão. Deve também passar pela avaliação do ADE (Área de Diretrizes Especiais) e não comprometer o meio ambiente. A ADE criou áreas na região de Belo Horizonte que merecem tratamento diferente na lei, dentre elas está o bairro Santa Tereza. O bairro ganhou atenção especial pela sua história, pela sua ocupação, crescimento, pelos seus aspectos culturais e turísticos.

O promotor João Medeiros acredita que, é muito difícil a Guarda Municipal ocupar o lugar do mercado de Santa Tereza, pela dimensão da construção e pela descaracterização que o bairro vai sofrer. Mas se o projeto não for aprovado não significa que o mercado não vai fechar, a intenção da Prefeitura é clara em relação ao fechamento, ele pode apenas não se tornar espaço da Guarda Municipal, como previsto. “Atuo na observância da legislação, nós somos fiscal da lei, não fazemos a lei.” diz o promotor público. A situação do Mercado do Cruzeiro é diferente, já que não será fechado e sim revitalizado. A promotoria do Ministério Público pediu a Prefeitura que encaminhe o projeto de revitalização, que foi criado em parceria com a Parceria Pública Privada (PPP). Medeiros afirma que os comerciantes do Mercado de Santa Tereza receberam notificação sobre o fechamento, e os comerciantes do Mercado do Cruzeiro ainda não. Os documentos serão investigados e o Ministério Público ainda não tem uma posição final. Distrital Santa Tereza O mercado distrital de Santa Tereza foi fundado em 1974e faz parte da história do bairro. O presidente da Associação dos Permissionários do Santa Tereza, Giovani Laureano Teixeira diz que soube da notícia através da imprensa, “Eles náo tiveram nem a competência de nos comunicar.” afirma Giovani. Ele que é filho de uma das principais fundadoras do distrital,Inês Maria Gomes Teixeira, trabalha na banca de frutas de sua mãe desde os 12 anos de idade, e hoje com 32 anos cuida da barraca e foi eleito presidente da Associação. Trabalham hoje no mercado 115 funcionários, divididos em lojas, boxes, bancas e um supermercado. Giovani afirma que tem conhecimento de 74 cartas de pessoas interessadas em trabalhar no distrital, mas a Prefeitura não promove licitações para ocupar esses espaços. “Sei de muita gente que procura o mercado de Santa Tereza para trabalhar, mas a má vontade da Prefeitura derruba o mercado.”diz Laureano.

“Estamo investigando a documentação da Prefeitura, queremos saber a verdadeira intenção do projeto.” João Medeiros, Promotor de defesa do patrimônio público da capiital

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segunda ter ça q uar t a q uint a se xt a

-feira

sábado e domingo t ambém tem -feira... nos Mer cados Distr it ais de Belo Hor izonte


12-Ensaio - Daniel Gomes

25.06.07

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Editor e diagramador da página: Daniel Gomes - 8º período

o ponto

E N S A I O 12

Belo Horizonte – junho/2007

Jornalismo Honoré de Balzac foi um romancista francês que viveu no século XIX. Uma de suas maiores características como escritor e romancista era sua disciplina para o trabalho. Chegava a escrever 15 horas por dia, regado apenas a xícaras de café. Por ser um dos maiores ícones da literatura realista na França e no mundo, Balzac podia se passar por jornalista. O realismo é um estilo artístico que visa retratar ou representar algo da forma como ele é na vida real, sem floreios ou interpretações. Embora sua obra misturasse ficção e realidade, o apuro com que tratava as informações que conseguia em suas observações da sociedade francesa da época era tamanho que suas obras são conLAURA AGUIAR 6º PERÍODO

sideradas retratos muito precisos dos costumes da França do imperador Napoleão Bonaparte. Verdadeiras crônicas da vida real francesa. Sua obra é editada no Brasil por várias editoras e pode ser encontrada na internet por já ter alcançado domínio público. Nesta edição, O Ponto publica o texto acadêmico de uma estudante de jornalismo da Universidade Fumec, resultado de trabalho feito para a disciplina 'Técnicas de Reportagem, Entrevista, Pesquisa Jornalística' (TREPJ II). O trabalho discute uma das mais importantes obras de Honoré de Balzac, 'Ilusões Perdidas', escrita entre 1835 e 1843. A obra tem como principal foco a relação entre jornalismo, literatura e mercado. O novo comportamento de Luciano nada mais era do que o reflexo das mudanças que a sociedade francesa passava. A Paris do século XIX era o principal centro mundial irradiador da cultura, cidade que atraia artistas, intelectuais, políticos e cientistas de toda parte. Walter Benjamin fez um ensaio intitulado “Paris”, Capital do Século XIX, no qual analisa o nascimento de valores e da destruição de outros tantos que ocorreram durante tal período, em especial em sua primeira metade. A mercantilização acentuada da vida é tratada pelo autor por meio das sutilezas, nuances e dos pequenos acontecimentos, que podemos paralelamente comparar as relações e situações entre jornalistas, livreiros e outros membros da burguesia em “Ilusões Perdidas”. A partir da crise da unidade (histórico, político e cultural) das forças burguesas e populares por volta de 1848 e, portanto, da ruptura desta unidade, que nasce a arte de vanguarda e grande parte do pensamento contemporâneo. Tal conflito é centro da obra de Balzac, onde o espírito transforma-se em mercadoria e não há mais espaços para as Ilusões do humanismo, que leva à frente das manifestações populares e intelectuais no séc. XIX. Tanto o jornalismo quanto a literatura vêem-se envolvidos com uma nova dimensão que os transformará: o mercado editorial em grande escala. É neste momento que ambos começam a adquirir o caráter de massa, virando conseqüência da indústria cultural. Além de criticar o crescente poder do jornalismo e a sua influência na sociedade, Balzac anteviu e desmascarou o poder desmoralizador da publicidade, que nem tinha nome até então, prevendo a que ponto chegaria a simbiose entre capital e empresa jornalística. O autor mostra a importância dos jornais como meio de divulgação do mercado editorial e para ele tudo estava fadado a depender da publicidade. “O anúncio, acessível a todos mediante pagamento, e que converteu a quarta página dos jornais num campo tão fértil para o fisco como para os especuladores, nasceu sob os rigores do selo, do correio e das cauções. Essas restrições (...) que poderia então haver matado os jornais vulgarizando-os, criaram, pelo contrário, uma espécie tal de privilégio que tornava a fundação de um periódico coisa quase impossível” (BALZAC, 1976, p.201). Dentre as novidades já citadas acima, “Ilusões Perdidas”, segundo José Miguel Wisnik, foi a primeira obra que trouxe o jornalismo para dentro da literatura, mesmo que esta já fosse assunto da imprensa há mais tempo. Na verdade, o livro mais do que fala sobre o jornalismo, aborda sua relação com a literatuHonoré de Balzac em ra. O jornalismo é uma paraliretrato da época teratura, ou seja, é uma representação dela mesma, mas que segue outras regras de representação da realidade. Ele é uma forma de ficção, um recorte de uma realidade que depende de fatores como bagagem cultural, instituição ao qual está subordinado, etc, transportando de um contexto (o do próprio fato) e enquadrando em um novo (papel, vídeo, etc). Enquanto a literatura multiplica as ilusões (os recortes), já que é a arte de criticálas, porém desmascarando-as por sua auto referência, o jornalismo parte no sentido oposto. Tem como princípio o esclarecimento de qualquer farsa e, no entanto, sucumbe a uma unidade impossível por ser efêmera a construção dos recortes. “Ilusões Perdidas” nos faz refletir sobre o poder do jornalismo de mediar, fazer e desfazer ilusões, já perdidas na época de Luciano. Balzac não era contra o jornalismo em si, mas contra os rumos que ele estava tomando na época.

“Ilusões Perdidas” de Honoré de Balzac (1799-1850) será objeto desta análise crítica, que mostrará como um livro escrito há mais de 150 anos ainda pode ser considerado atual e provoca reflexões não somente no modo de fazer jornalismo, mas também em como nossa sociedade está organizada. Considerado romance, mas escrito de forma tão realista, Balzac mergulha o leitor no mundo dos jornalistas da metrópole parisiense do século XIX. Ao lermos o livro, percebemos que pouca coisa mudou de 150 anos para cá. “Ilusões Perdidas” poderia ser mais um romance sobre um jovem provinciano que sai de sua cidade para tentar a sorte na cidade grande, se não fosse por diversas “inovações” e “previsões” que o autor retratou no livro. Além dos jornalistas serem personagens principais pela primeira vez, o livro retrata também as relações sociais diante do advento da indústria cultural e antevê os efeitos de uma nova forma de comunicação até então em formação: a publicidade. Escrito entre 1835 e 1843, divido em três partes (Os dois poetas, Um grande homem da província em Paris e Os sofrimentos do inventor) e com 85 capítulos, o livro foi inicialmente publicado na forma de folhetins nos jornais de época, sem ordem cronológica. A obra de Balzac inaugurou uma nova fase na literatura francesa e introduziu o autor entre os maiores romancistas de todos os tempos. “Ilusões Perdidas” conta história do jovem provinciano Luciano de Rubempré, que vai a Paris tentar publicar um romance e um livro de poesias e após algumas tentativas frustradas, vê no jornalismo uma oportunidade para “triunfar”. Logo Luciano se vê mergulhado em um mundo de pessoas interesseiras, chantagistas e vingativas, no qual acaba se inserindo rapidamente. Apesar de ser considerado romance, “Ilusões Perdidas” representa fielmente a realidade da Paris do Século XIX e é considerado o mais balzaquiano de todos os romances, pois nos revela muito acerca do próprio Balzac. Balzac construiu personagens complexos assim como são as próprias relações humanas. Luciano encarna o tipo universal de talento provinciano seduzido pelo brilho da capital, personagem característico da sociedade e época na qual a história se passa. Logo que chega, Luciano já tem a sua primeira ilusão: a decepção de um romance que mal começara. Antes de ir a capital, o poeta já cortejava a Sra de Bargeton, que era casada. Para ficarem juntos, eles se mudam para Paris, mas o provincianismo de ambos acaba por atrapalhar o futuro caso e ele se vê abandonado na cidade grande. No entanto, Luciano logo faz amizade com outros poetas e passa a freqüentar o Cenáculo, lugar onde os romancistas se encontravam, mas já tem a sua segunda ilusão: a tentativa frustrada de vender seus livros. “É difícil ter ilusões sobre o que quer que seja em Paris. Há impostos aqui sobre tudo. Tudo aqui se vende, tudo aqui se fabrica, até mesmo o Êxito” (BALZAC, 1976, p.213), lamenta o poeta ao perceber que a vida na capital não seria tão fácil quanto esperava. Desanimado, ele encontrou no jornalismo uma alternativa para mudar de vida. Os amigos do Cenáculo eram os típicos proletários e repudiavam o luxo e o jornalismo, pois o viam como um espaço de corrupção, suborno, trapaças políticas e artimanhas jurídicas. Quando Luciano anunciou que Conclusão estava decidido a tentar a carreira jornalística, por exemplo, O que mais impressiona em “Ilusões Perdidas” é a sua atualidade, seus amigos se mostraram preocupados em “perder” o mais novo mesmo tendo sido escrito há mais de 150 anos. O provincianismo, a eliamigo. “Seria a sepultura do belo Luciano que amamos e conhecemos. te decadente, o pessimismo com que trata a questão jornalística, as previsões Não resistirás à constante alternativa de prazer e trabalho de que é feito a viReprodução sobre a publicidade, além da vingança, rixas pessoais, calúnias, amizades conveda dos jornalistas e resistir é o fundamento da virtude. Ficarias tão encantando em exercer o poder, por ter direito de vida e morte sobre as obras de pensamento, que te tornarias jor- nientes, troca de favores; tudo isso ainda é presente na nossa sociedade, independente de sua localinalista em dois meses. Quem tudo pode dizer chega a tudo fazer” (BALZAC, 1976, p.129), afirmou Ar- zação. Ainda há a grande metrópole, na qual chegam, todos os dias, jovens com ilusões debaixo do braço; as relações interpessoais estão cada vez mais se baseando em trocas de interesses e de apathez, seu primeiro amigo na capital. O Cenáculo nada mais é do que a própria visão pessimista de Balzac sobre o jornalismo. Os jor- rências, tornando-se mais individualistas e egoístas; enquanto o jornalismo, que deveria ser questionalistas, por sua vez, são retratados pelo autor como profissionais dotados de poder e luxo, baseados nador, crítico e transformador de uma realidade social, adquiriu de vez o caráter de empresa, na qual em relações hedonistas e imediatistas, nas quais a troca de favores, interesses políticos, chantagens a informação é apenas um produto a venda. O jornalismo nada mais é do que o reflexo da sociedade na qual se insere. Ele encerra todas as são inerentes à profissão. Em um diálogo com os amigos do Cenáculo, um deles propõe “publicar um jornal onde jamais a verdade e justiça hão de ser ultrajadas, onde se espalharia as doutrinas úteis à mazelas e contradições típicas do período e da própria estrutura produtiva que o envolve. As duras humanidade” e Luciano maquiavelicamente replica dizendo que tal jornal não teria um só assinante críticas que Balzac faz ao jornalismo, além de exprimirem seu pessimismo diante dos rumos que ese eles precisariam de capital. O amigo, decepcionado, o corrige dizendo que apenas o devotamento ta profissão estava tomando, trazem uma reflexão sobre a forma de fazê-lo. Mais atual do que desseria necessário (BALZAC, 1976, p.184). Com este diálogo, Luciano encerrava sua relação com o Ce- crever e prever o jornalismo e outras questões já citadas, somente a reflexão que o livro nos traz, uma vez que percebemos que de 150 anos para cá pouca coisa mudou. náculo e incorporava, de vez, o espírito do jornalista daquela época. BALZAC, Honoré de. Ilusões Perdidas; tradução de Ernesto Pelanda e Mário Quintana. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1978.


Jornal O Ponto - junho de 2007