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Salário mínimo aumenta,

já qualidade de vida...

O governo federal anunciou um aumento de 8,5% no salário mínimo, o equivalente a 40 reais. Entretanto, a promessa de campanha do governo Lula, que dizia que o valor real do mínimo seria duplicado, ainda não se cumpriu. A reportagem de O Ponto foi às ruas da capital mostrar que trezentos reais são insuficientes para que um trabalhador assalariado consiga suprir suas necessidades básicas como alimentação, moradia, transporte e lazer O artigo 7º da Constituição garante que o salário mínimo é um direito "capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e às de sua família como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e Previdência Social, com reajustes periódicos que lhe preservem seu poder aquisitivo". Porém, essa não é a realidade observada no cotidiano do trabalhador brasileiro.A diferença irrisória de 40 reais ainda não é suficiente para evitar, por exemplo, que Mazel Calisto de Pádua, 48 anos, tenha dois empregos, um à noite como segurança e o outro, durante o dia, como

vendedor de água nos sinais da capital. “Com o salário mínimo de hoje,é impossível sustentar minha família”, denuncia. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), em pesquisa realizada no mês de abril, o valor que atenderia efetivamente às necessidades do trabalhador brasileiro seria de aproximadamente R$1.538,64. [ página 6 e 7 ]

A qualidade de empregos... A falta de emprego atinge índices alarmantes em Minas, no Brasil e no mundo. Com a globalização, a informatização e o surgimento de novas tecnologias, a situação torna-se ainda mais crítica e complicada. O mercado está cada vez mais competitivo, exigente e desmotivador. Hoje, o fantasma do desemprego engloba todas as faixas etárias e classes sociais. Idade, distância, falta de experiência, vagas escassas e falta de incentivo do governo estão entre as principais dificuldades para se arrumar um bom emprego. Inseridas nesse contexto, grande parte das pessoas sobrevivem de trabalhos informais e temporários. As agências de emprego representam uma ajuda significativa para aqueles que

procuram um lugar no mercado, mas deixam claro que qualificação, atualização, confiança e persistência são fundamentais para conseguir esse espaço. A cada ano, milhares de recém formados não absorvidos pelo mercado de trabalho assumem subempregos ou até mesmo o mercado informal que não consideram sua capacitação e preparo. Isso reforça a fragilidade do ensino no país. Entre as principais conseqüências desse mal que atinge quase toda a população, estão a baixa auto-estima, insegurança, indignidade, além de uma sensação de inutilidade para o mundo social. [ página 8 e 9 ]

De transporte... De educação... As empresas de ônibus estão perdendo cada vez mais espaço para os perueiros que atuam em Minas Gerais. O transporte clandestino de passageiros atende quase a totalidade das cidades mineiras, e já ultrapassou o limite estadual em viagens realizadas para outros estados, como Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia. Muitas dessas viagens interestaduais são realizadas para suprir a demanda em períodos de férias e de movimentação comercial. Mas o problema que os órgãos de fiscalização denunciam, é sobre o risco de vida que os passageiros correm, ao usar esse transporte ilegal.

O ensino público tem sido sucateado nos últimos anos devido a falta de investimento por parte do Estado. Faltam equipamentos, os instrumentos de trabalho encontram-se em péssimas condições, as escolas não tem recursos tecnológicos como computadores, multimídias e televisão. Outra questão levantada é a violência que acontece dentro das instituições de ensino.

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Criada a Associação Paradoxo da internet: de Docentes da Fumec uma solidão em rede [ página 4 ]

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Remédios sem receita ameaçam consumidor [ página 3] [ página 11]


Editora e diagramadora da página: Renata Quintão

2 OPINIÃO Quando falamos em qualidade de vida geralmente nos vem a cabeça casas confortáveis, carros luxuosos e bons restaurantes. Na verdade, esquecemos que a qualidade de vida está diretamente ligada a questões de necessidade básica como saúde, educação, moradia e transporte. Nesta edição, o jornal O PONTO procura evidenciar alguns dos âmbitos nos quais falta qualidade de vida e comprometimento governamental. Por isso procuramos tratar de temas como a degradação do ensino público e os efetos causados por ela como por exemplo a violência dentro das esco-

las públicas; o desemprego e as dificuldades impostas pelo mercado de trabalho diante da quantidade excessiva de oferta de mão-de-obra; o parco aumento atribuído ao salário mínimo que ainda não atingiu a meta estipulada na campanha do governo Lula e o sucateamento do transporte público que não atende às necessidades da população e acaba por gerar um mercado paralelo clandestino. Frente a toda problemática levantada por esta edição é possível questionar: mesmo com a economia dando sinais de recuperação, tem melhorado a qualidade de vida para os cidadãos?

ADFumec começa com pé direito Luiza de Sá 3º período Depois de algumas assembléias de fundação marcadas por discussões e divergências, finalmente concretizou-se a Associação dos Docentes da Universidade Fumec (ADFumec), idealizada por um grupo de professores no ano passado e que somente no mês de junho foi formalizada. Esta Associação representa um passo importante para a Fumec, tanto para os docentes como para os discentes.Ao se criar uma associação, cria-se um espaço de discussão e muitas possibilidades de reivindicações por melhorias estruturais;pela capacitação e qualificação dos professores; melhoria do ensino, dos setores de extensão e pesquisa;constroi-se um pensamento congruente entre os professores da universidade. Ao presenciar duas destas as-

sembléias,foi fácil notar a falta de comunicação entre os docentes, a direção e as células da universidade, o que ocasionou um embate truncado por parte de alguns presentes.Tamanha é a falta de comunicação, que existe uma associação de professores há 23 anos na Fumec e muitos professores a desconheciam por completo. O que acarretou o atraso na discussão do estatuto,além da falta de comunicação, foram conflitos de interesses margeados por posturas egoístas e infantis de alguns professores que estavam na assembléia unicamente para colocar empecilhos para sua fundação. Felizmente, a ADFumec passou por cima destes pequenos obstáculos e vem, com a liderança do professor Leovegildo Leal, empossado como presidente, realizar as mudanças necessárias.

Daslu é sinal de desigualdade social Ana Cecília Pimenta 6º período A nova e luxuosa sede da Daslu foi inaugurada em São Paulo, um imponente complexo comercial de 20 mil metros quadrados e clientela ultra segmentada.A Daslu é um símbolo do "apartheid social", constituindo um universo completamente distante da realidade brasileira. Se por um lado há uma minoria de brasileiros que podem usufruir desse luxo, por outro existe uma parcela considerável da população que recebe um salário mínimo por mês ou que encontra-se simplesmente abaixo da linha da miséria. O Brasil ocupa a privilegiada segunda posição em maior concentração de renda do mundo, ficando atrás apenas de Serra Leoa. O Brasil convive com crianças que são desprovidas do direi-

O PONTO Belo Horizonte – Junho/2005

to elementar de brincar e com jovens que abandonam os estudos pois precisam trabalhar para ter o que comer. Convive com mortes por desnutrição.Inaceitável! Morrer por algo que poderia ser perfeitamente evitado, principalmente, em um país, que é um produtor em potencial de produtos agrícolas. Enquanto isso os "detentores do poder" tentam de todos os modos possíveis utilizar a máquina pública para satisfazer os seus interesses pessoais. É o país em que deputados tentam extorquir governador para receber propinas em troca da aprovação dos projetos do executivo, em que prefeitos desviam a verba da educação e da saúde em cidades pobres de Alagoas... É o país do "mensalão" e da corrupção nos Correios. É o Brasil do descompromisso social,da má administração daverba pública e da incompetência.

O caso Michael Jackson

X

A estabilidade financeira gera efetivamente qualidade de vida?

SIM

NÃO

Daniel Gomes 4º período

Por incrível que possa parecer, pode-se defender a idéia tanto de que o dinheiro é,ou traz, qualidade de vida como a idéia contrária. Mas como fazer isso e o que há por trás de cada um desses pontos de vista? É notório que o dinheiro proporciona coisas que realmente contribuem para a melhoria da vida de cada um, mas ele não pode e não deve ser um fim em si mesmo. Na sociedade contemporânea, o acúmulo de capital se tornou um dos grandes elementos medidores de competência e sucesso de cada pessoa, e aí está a grande crítica em relação a esse sistema social. Por uma evolução das relações sociais, o homem passou a necessitar da troca de bens por moeda e vice-versa, mas esse expediente, de mera convenção social, passou a reger a sociedade de forma claustrofóbica. Nesse sentido, o acúmulo de capital, a busca pelo dinheiro a qualquer preço, a deterioração das relações humanas em favor da moeda corrente e outras mazelas decorrentes de uma lógica selvagem de mercantilização da vida humana torna o dinheiro um mal social da pior qualidade. E é nesse sentido que ele não proporciona uma vida mais saudável, tanto física quanto psicologicamente, a ninguém. Por outro lado, ao se considerar o dinheiro um elemento necessário para que as engrenagens sociais corram livres de atrito, faz-se útil a reflexão de como utilizá-lo comedidamente, ao contrário de ser utilizado por ele. O dinheiro é necessário independentemente de vivermos no regime capitalista.A troca entre indivíduos ou comunidades sempre aconteceu, desde as sociedades primitivas, e o dinheiro veio sistematizar essa troca. Para que seja o sustentáculo de uma qualidade de vida decente, ele deve, com o perdão do trocadilho, ser a solução,e não o problema.É óbvio que isso depende de uma série de elementos, principalmente de uma mudança na educação e na cultura de uma sociedade, mas ao considerar o dinheiro uma ponte em direção ao que se almeja, é possível com que proporcione uma qualidade de vida sem par. Basta não encará-lo como a qualidade de vida em si, mas a porta para aquela vida onde ele não é obstáculo para um mundo melhor.

Juliana Morato 5º período

Vivemos em uma sociedade movida por interesses sociais, políticos, econômicos e culturais, conseqüência de um sistema desumanizador e reificador. Nota-se que as relações entre as pessoas estão cada vez mais escassas, frias e calculistas, e que a ganância do homem pelo dinheiro vai além da sua própria satisfação pessoal. Dinheiro compra bens materiais, prazeres, modismos, diversão e há quem diga que sem ele não se vive. Mas, se pararmos para pensar, veremos que a situação não é bem assim. Grande parte das pessoas se "matam" de tanto trabalhar, fazem horas extras, não têm tempo para nada, nem para curtir os amigos e muito menos a família.Tudo é feito na correria do dia-a-dia. Não acham tempo para as refeições, para ler um bom jornal, nem para uma conversa na esquina.Vivem exclusivamente pensando no que vão receber ao fim do mês; o que na maioria das vezes é simbólico perto do sacrifício realizado. De que adianta ter o carro do ano para ficar guardado na garagem? O que importa ter dinheiro para realizar as viagens dos sonhos, freqüentar os melhores restaurantes,não ter limites em um shopping,se não se tem tempo nem disposição, porque o cansaço esgota, para fazer tudo isso? Além do mais,há prazeres que o dinheiro não compra. Um domingo em família, a companhia dos amigos, um conselho na hora certa, um passeio no parque,um beijo na pessoa amada,um carinho para dormir...Enfim,a vida é feita de simples momentos e pequenas recordações, que a tornam grandiosa diante das futilidades desse mundo perverso e mercadológico no qual estamos inseridos. Entretanto, o que define cada nação é o bloco de poder que se apodera dela e a utiliza para construir sua própria hegemonia. Esse capitalismo embrutecedor nos torna dependentes, chega a nos reprimir, nos sufoca, nos torna consumidores assíduos e faz com que objetivemos somente o lucro. É importante que tenhamos liberdade de escolha buscando viver a vida como ela é. Dinheiro, definitivamente, não é qualidade de vida. Ele é apenas um fator que aliena e destrói a cabeça das pessoas,colocando-as à mercê da ambição presente no mundo.

Marco Antônio Astoni 6º período Fosse você pai ou mãe de uma criança entre sete e 12 anos e recebesse o convite de um senhor quarentão para deixar seu filho passar um fim-de-semana em sua casa, você deixaria? Fosse esse senhor famoso por ser excêntrico e ter no currículo uma boa conta de acusações de pedofilia,você assim permitiria que sua criança passasse dois ou três dias em sua mansão com parque de diversões? Penso que, como eu, você respondeu não para todas as perguntas. Mas por que ainda chovem processos e acusações contra Michael Jackson nos tribunais americanos? Talvez Michael não seja tão culpado quanto pinta a imprensa mundial. Que teve problemas graves no passado é certo, tanto que os advogados do próprio cantor arranjaram acordos extrajudiciais milionários com pais de adolescentes evitando que algumas acusações de pedofilia chegassem aos tribunais.Mas também é fato que o sistema judicial americano, veloz e severo em casos como esse, estimula acusações dessa natureza. Michael Jackson é negro (sim,pelo menos tecnicamente), é uma celebridade, leva uma vida reclusa, com alguns toques de bizarrice e tem o estranho hábito de gostar de dormir com crianças,ou seja, um prato cheio para casos em que o sensacionalismo às vezes toma proporções maiores do que a razão e a veracidade dos fatos. A absolvição do megastar deve certamente brecar pais oportunistas que entregam a infância e a dignidade dos próprios filhos em troca de alguns milhões de dólares,mas não deve servir para que a cruzada mundial contra a pedofilia arrefeça.Pelo contrário.Toda a sociedade civil deve estar cada vez mais atenta a casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes, inclusive cobrando a criação de uma legislação específica para punição de casos na internet. Um crime que começa virtual, mas que termina com efeitos dramaticamente reais.

Os artigos publicados nesta página não expressam necessariamente a opinião do jornal e visam refletir as diversas tendências do pensamento

Jornal Laboratório do curso de Comunicação Social da Faculdade de Ciências Humanas-Fumec Coordenação Editorial: Prof. Mário Geraldo Rocha da Fonseca (Jornalismo Impresso) e Prof. Leovegildo Pereira Leal (Redação Modelo) Conselho Editorial Profª Ana Paola Valente (Edição), Prof. José Augusto (Proj. Gráfico), Prof. Paulo Nehmy (Publicidade), Prof. Rui Cezar (Fotografia), Prof. Fabrício Marques (Trepj II) e Profª. Adriana Xavier (Infografia)

Monitores da Produção Gráfica: Déborah Arduini e Fernando Almada Monitores do Laboratório de Publicidade e Propaganda: Isabela Rajão e Renato Meireles Projeto Gráfico: Prof. José Augusto da Silveira Filho

Universidade Fumec Rua Cobre, 200 - Cruzeiro BH/MG

Ilustração e charge: Juliano Mendonça

Professor Pedro Arthur Victer Presidente do Conselho Curador

Monitores do Jornalismo Impresso: Carlos Fillipe Azevedo, Rafael Werkema e Renata Quintão

Tiragem desta edição: 6000 exemplares

Profª. Romilda Raquel Soares da Silva Reitora da Universidade Fumec

Monitores da Redação Modelo: Fernanda Melo e Pedro Henrique Penido

Lab. de Jornalismo Impresso: 3228-3127 e-mail: oponto@fch.fumec.br

Prof. Amâncio Fernandes Caixeta Diretor Geral da FCH/Fumec Profª. Audineta Alves de Carvalho de Castro Diretora de Ensino Prof. Benjamin Alves Rabello Filho Diretor Administrativo e Financeiro Prof. Alexandre Freire Coordenador do Curso de Comunicação Social


Editora e diagramadora da página: Gabrielle Costa

CIDADE 3

O PONTO Belo Horizonte – Junho/2005

Transporte clandestino cresce em Minas Gerais

Agnus Moraes

Empresas de ônibus perdem espaço para a concorrência ilegal por causa da comodidade e do baixo preço da tarifa Agnus Morais, João Vitor Viana e Luiz Ciro 7º período Com a transferência da capital mineira de Ouro Preto para Belo Horizonte, em 1897, as outras cidades de Minas se viram na necessidade de uma ligação mais direta com o novo centro do poder. Para isto, novos traçados na geografia do Estado foram criados. E o transporte, que era feito através de muares, cresceu com abertura de linhas férreas e estradas de rodagem que possibilitaram a interligação interiorana com a nova capital.As carroças foram os primeiros veículos coletivos a chegar em Belo Horizonte. Já em 1902, com apenas 12 anos de existência, a capital mineira, implantou o transporte urbano coletivo de bondes, puxados a ca-

valos e logo substituídos pelos bondes elétricos canadenses da General Electric. A partir daí, veio a era desenvolvimentista dos Governos Juscelino Kubitschek, e os meios de transporte de Minas Gerais receberam novos incentivos econômicos, transformando-se no maior complexo rodoviário e ferroviário do País. Diante a essa complexidade, em que se tornou o sistema de transporte do Estado, como a manutenção das rodovias e ferrovias, fiscalização e expansão de novos trajetos de transporte, uma nova situação ganhou espaço nessa conjectura: é o transporte clandestino de passageiros, que do ano de 1988 para cá, intensificou, e é visto pelos órgãos que coordenam o transporte coletivo, como o Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de Minas Gerais, um perigo constante para

Veículos clandestinos fazem transporte de passageiros em viagens intermunicipais

os usuários que buscam essa alternativa de transporte. Os principais destinos do transporte ilegal, em Minas Gerais, são as cidades da Região Metropolitana, Norte de Minas Gerais e Sul do Estado, como Ipatinga, Bocaiúva, Montes Claros e Governador Valadares. Hoje, o transporte clandestino de passageiros atende quase a totalidade das cidades mineiras, e já ultrapassou o limite estadual em viagens realizadas para outros estados,como Espírito Santo,Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Muitas dessas viagens interestaduais são realizadas para suprir a demanda em períodos de férias e de movimentação comercial, como ir às compras em feiras de artesanato. Mas o problema que os órgãos de fiscalização denunciam, é sobre o risco de vida que os passageiros correm, ao usar esse transporte ilegal.

Fiscalização Para conter o crescimento dessa atividade irregular, o DER/MG, em conjunto com as Polícias Rodoviária Estadual e Rodoviária Federal, tem intensificado operações de fiscalização com o objetivo de conscientizar e coibir o transporte clandestino de passageiros na Região Metropolitana de Belo Horizonte e nos principais corredores rodoviários Norte e Leste do Estado. Somente em 2003, foram realizadas 2680 blitze, que abordaram 76.016 veículos, dos quais, 581 foram apreendidos por irregularidades. Mesmo com o alerta das autoridades muitos dos usuários preferem continuar se arriscando nessas aventuras perigosas. “Eu não tenho medo de andar em peruas, mesmo elas sendo irregulares. É mais rápido, deixa a gente onde queremos e é

mais barato”, conta o metalúrgico Rodrigo de Oliveira, que mora em Sete Lagoas e todos os dias vem trabalhar em Belo Horizonte. Outra usuária do transporte clandestino, Cleusa Lúcia, moradora de Igarapé, também prefere o transporte clandestino. “O ônibus pára muito, é mais caro”, diz. Mas os orgãos de fiscalização afirmam que não tem como acabar de vez com o trânsito de veículos de transporte coletivo irregular na capital e no Estado. “Muitos motoristas conseguem autorização para fazer turismo e acabam fazendo linha. Outros ainda conseguem liminar judicial para circular com seus veículos. Muitas dessas liminares nós conseguimos cassar, mas algumas não”, diz o diretor da divisão de Fiscalização Operacional do DER/MG, Lindberg Ribeiro.

Cerco aos clandestinos está formado O Governo Estadual vem fazendo o possível para combater as irregularidades dos veículos. O decreto 44.007, do governador Aécio Neves, está causando verdadeiro rebuliço entre os condutores que fazem transporte intermunicipal. O projeto visa proibir o transporte rodoviário para veículos que possuem menos de 20 lugares, a fim de coibir o transporte clandestino.Autônomos e cooperativas já se mobilizaram para tentar combater tal medida, que deverá entrar em vigor no dia 1º de junho. Uma das justificativas dos cooperados é que muitos estudantes utilizam esses serviços todos os dias para irem para suas faculdades e esse decreto dificultaria muito a vida deles. Outro problema seria em relação aos veículos já credenciados que fazem o transporte intermunicipal. Muitos motoristas que viram no transporte de passageiros o sustento familiar perderiam seus empregos sem justificativa, pois, hoje, transportam legalmente diversos passageiros para o interior do Estado todos os dias. O decreto entraria em vigor no dia 29 de maio, mas uma reunião entre deputados, representantes do segmento de transportes e o secretário do Governo, Danilo de Castro, possibilitou o adiamento para o dia 1º de junho, para que houvesse um estudo maior sobre o caso por parte do Governo Estadual.

Renato Meireles 6H

Projeto

221

95

Numero de Acidentes

Vitrine

285

Vítimas Feridas Vítimas Fatais

26 * dados de janeiro a abril

2003

34 14

28 3

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11

2005 *

O que foi criado pra pensar, deve estar sempre livre para se expressar.

16 milhões de passageiros em MG migram para a ilegalidade As empresas de ônibus estão perdendo cada vez mais espaço para os perueiros que atuam em Minas Gerais. Dados do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros, cerca de 9,5 milhões de pessoas utilizam a condução clandestina para destinos intermunicipais. Fatores como rapidez e baixo custo seduzem, cada vez mais, as pessoas que precisam viajar para seus respectivos destinos. Esse crescimento do transporte clandestino trás um verdadeiro rombo nas contas públicas. Desde 1998, o sistema legal de transportes metropolitano e intermunicipal teve uma perda de 80 milhões de passageiros. Isso equivale cerca de R$ 70 milhões por ano. No Brasil, com a queda ano a ano, o transporte público urbano metropolitano, tais como ônibus, trem, metrô, arrecada R$ 15 bilhões em todo o país. De acordo com o levantamento da Associação Nacional de Transporte Público, os 115 mil ônibus que existem, deixaram de transportar,

nesses anos, 16 milhões de pessoas. O número de passageiros caiu de cerca de 75 milhões para 59 milhões de pessoas transportadas no país, por dia. “Os motoristas cobram bem menos que os ônibus regulares, algo em torno de 50%. Eles fazem isso porque ele não recolhe imposto, não dá a manutenção necessária ao veículo e não faz seguro das pessoas que transportam. Assim podem trabalhar com um apelo de preço muito grande”, explica Lindberg Ribeiro, chefe da divisão de Fiscalização Operacional do DER/MG. O crescimento do número de veículos irregulares vem sendo constatado, de acordo com o número de flagrantes feitos nas estradas. Segundo o DER/MG o número de autuações de 2003 foram 60% a mais que em 2002. Isso acaba complicando a fiscalização que não está estruturada o suficiente para combater tamanha clandestinidade. Nas 41 regionais do DER, há somente 177 fiscais atualmente. A maior razão apontada pe-

los motoristas clandestinos para esse aumento é a falta de emprego. Assandino Venâncio da Silva, 50, motorista nesse ramo há cinco anos diz que o desemprego foi fundamental para que ele fizesse esse tipo de transporte. Ele também conta que em relação à manutenção, ela só não é feita regularmente.“Quando estraga uma peça a gente troca”, afirma. As razões apresentadas pelos transportadores clandestinos, segundo a assessora jurídica do Sindicato de Empresas de Transporte de Passageiros do Estado de Minas Gerais, Zaira Carvalho Silveira, não procede. “O que os perueiros fazem é desviar a finalidade do transporte. O Sindpas é totalmente contra esse tipo de serviço clandestino, que prejudica aqueles que fazem o transporte regular”, diz.“Viajar nesses veículos é a mesma coisa de ir a um consultório médico.Você vai ao médico porque ele é habilitado, sabe o que faz e você tem confiança nele”, compara.

14 de julho Dia da Liberdade de Pensamento


Editora e diagramadora da página: Pollyana Palhares

4 CIDADE

O PONTO Belo Horizonte – Junho/2005

Resgate voluntário salva vidas em BH Equipes de salvamento de emergência atuam em conjunto com o Corpo de Bombeiros e o SAMU Guillermo Tângari

Guillermo Tângari, Mariza Procópio e Priscila Pioto 5º período O saldo de mortes em acidentes de trânsito no Brasil é semelhante ao número de baixas em uma guerra. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, em 2004, foram 983 óbitos e 11.605 feridos de um total de 18.051 acidentes nas estradas federais.Esse número poderia ser ainda maior se não fossem as equipes autônomas de resgate e salvamento atuam paralelamente à unidades do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Médico de Urgência, (SAMU), e lutam contra a morte na precária malha rodoviária brasileira.De acordo com o tradutor e intérprete,Marco Antônio Borges Magalhães, 50, que nas horas vagas deixa sua mulher e filhos para colocar em prática seu conhecimento como técnico em emergências médicas,“nem nós sabemos descrever qual é a sensação de salvar uma vida. Sempre que saímos para fazer um plantão rezamos para que não aconteçam ocorrências, mas, caso ocorram estamos de prontidão para atendê-las,”afirma ele. A equipe de resgate voluntário Anjos do Asfalto, deu seu princípio no dia três de outubro de 2004.É composta por oito integrantes de características distintas, que vão desde programador de sistemas à desenhista. O posicionamento da equipe fica estrategicamente situado na rodovia 381, a cerca de 20 Km da Avenida Cristiano Machado, em Belo Horizonte. Deslocamento rápido Para um deslocamento mais rápido, os anjos do asfalto, além de duas ambulâncias,contam com duas motos devidamente caracterizadas com adesivos, giroflex e sirenes. Eles tem como objetivo prestar o atendimento primário às vítimas de acidentes, onde é realizado o suporte básico à vida antes da chegada de uma unidade de resgate. Com suporte para o atendimento ao acidentado, o socorro imediato é essencial, caso contrário, uma pequena demora pode custar a vida do paciente.“As motos são de extrema importância em resgates de difícil acesso ou em caso de congestionamento.Em uma ocasião des-

se tipo, é enviada para o local a moto resgate com dois socorristas, que iniciarão o atendimento primário até a chegada de um veículo mais adequado”, afirma o socorrista da equipe de resgate voluntário Anjos do Asfalto, Jordiney Bráulio de Sousa.“Levando em consideração que o acidentado possa ficar sem respirar, é importante chegarmos em no máximo seis minutos para que não ocorra o óbito, e nesse sentido,temos obtido resultados bastante satisfatórios, pois em situações em que veículos maiores chegariam em 20 minutos, de moto conseguimos baixar esse tempo para cinco minutos”,diz Jordiney. Acionamento Contando com a eficiência e velocidade dos anjos do asfalto, a Polícia Rodoviária Federal e motoristas que presenciam algum acidente acionam os voluntários através do telefone, ou pessoalmente à beira da estrada. Para o Inspetor Chefe do Núcleo de comunicação da Polícia Rodoviária Federal,Aristídes Amaral Júnior, a ajuda é sempre bem vinda.“Em uma sociedade onde as pessoas só pensam nelas mesmas é importante que haja uma mobilização desse tipo onde é exercido um trabalho sério e extremamente profissional. Eles já nos ajudaram em diversas ocasiões A equipe de resgate voluntário, Anjos do Asfalto, prestam o atendimento primário às vítimas de acidentes com um trabalho de ótima qualidade, onde quem sai ganhando é a sociedade,” relata.

Projeto procura financiamento

Qualificação dos médicos É importante que os socorristas sejam bem treinados, e possua algumas características necessárias. Dentre estas, eles precisam ser da área da saúde, ter curso de resgate e técnico em emergências médicas. Pois caso contrário, ao invés de ajudar, um atendimento primário à vitima mal feito pode agravar o quadro do paciente, ou até mesmo matá-lo. Por isso, todos os integrantes do grupo são treinados pelo 3º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais nos cursos de resgate e técnico em emergências médicas. O grupo de Resgate Voluntário Anjos do Asfalto atua aos sábados e domingos entre as dez horas da manhã e seis da tarde, período em que acontecem os maiores números de acidentes.

O Corpo de Bombeiros do Estado de Minas Gerais, representado pelos Capitães Almeida e Jean Carlos, reconhece a importância do trabalho voluntário nas rodovias do estado. Segundo o Capitão Jean Carlos, é necessário que os voluntários estejam bem preparados emocionalmente e tecnicamente para prestar serviço. “Este primeiro socorro é importante para deixar a vítima estável e dar estrutura e apoio para o acidentado,”afirma. Dentro desse trabalho, alguns grupos não especializados vislumbravam o socorro à vítima. O que na maioria das vezes, por desconhecimento das técnicas de resgate o salvamento acarretava na piora do

quadro do acidentado. O capitão Almeida argumenta que “infelizmente, alguns grupos amadores ainda insistem em prestar socorro às pessoas sem ter estrutura adequada. É necessário um curso de primeiros socorros para se habilitarem e só assim depois ajudarem”. Este curso ajuda as vítimas e os socorristas,uma vez que, existe o grande risco de contaminação de doenças perigosas como Hepatite,Aids, entre outras.A falta de domínio e controle emocional dos voluntários são extremamente perigosas, já que não existe órgão oficial que faça este tipo de inspeção.Para Almeida, é muito importante as ajudas do resgate, devido às somas de esforços,

pois não há como o resgate estar em todos os lugares dos acidentes. Os resgates voluntários tentam acumular financiamentos e patrocínios para a continuidade do seu trabalho. Os investimentos são feitos pelos próprios socorristas desde a gasolina, o material utilizado, até manutenção dos carros e equipamentos. O Corpo de Bombeiros se opõe a essa possível ajuda financeira, pois há cinco anos houve a separação desses da Polícia Militar.Consequentemente,os subsídios do governo aumentaram, mas ainda é necessário haver uma melhora.Para o Capitão Jean Carlos qualquer tipo de ajuda desta natureza tem que ser transmi-

tida aos batalhões, com o intuito de arrumaremsua estrutura já que eles são oficialmente habilitados para o socorro de vítimas. Jean Carlos relata também que estão implementando aeronaves e cursos para formação de pilotos tentando diminuir o tempo do resgate e com isso aprimorar seus conhecimentos. Entretanto, o capitão Almeida defende o trabalho voluntário como algo que exige um certo trabalho e dedicação. “Voluntário tem que ter sacrifício físico e financeiro. Sendo patrocinado deixa de ser voluntário, um trabalho de doação, e passa a ser financiado por empresas, confundindo a verdadeira intenção deste trabalho”.

Guillermo Tângari

Satisfação da equipe do resgate voluntário

Integrantes da equipe estão sempre alerta para salvar vidas

Com a intenção de ajudar ao próximo e sem pretensão alguma de lucro, a não ser a gratificação de salvar uma vida, a equipe de resgate voluntário algumas vezes se dedica tanto ao trabalho que são obrigados a deixar suas famílias para segundo plano.“ Tenho uma filhinha de um ano e nove meses, quando estou trabalhando no salvamento fico com o coração apertado, mas sei que estou trabalhando para o bem do próximo e sempre que dá eu ligo para saber se está tudo bem,se ela já almoçou, essas coisas”, diz Andréia Januária de Freitas Silva, de 28 anos, que trabalha com o voluntariado nas estradas já há oito anos.“Olhar para as pessoas que ajudei e ouvir muito obrigado já vale o sacrifício”, completa Andréia. Para o motorista e socorrista, Marcos Campolina,a compreensão da família é essencial,“minha esposa reclama algumas vezes da minha ausência, mas compreen-

de que amo o que faço,e além de tudo pretendo ser motorista do SAMU (Sistema de Atendimento Médico de Urgência), e para isso preciso dessa experiência.” Já para Marco Antônio, que trabalha há 22 anos com resgate voluntário, o serviço de salvamento nos fins de semana não causa problemas,“minha mulher é bastante compreensiva,pois sabe que além de terapia, o resgate para mim é um vício, sem o qual eu não saberia viver.” Além de gratificante, o resgate ensina muito a quem convive com o drama alheio,“nós aprendemos a viver a vida de verdade, a se respeitar e a respeitar o próximo, pois a vida é muito frágil. É triste perceber a burrice do ser humano ao abusar da vida, porque quando se vê na prática que a vida pode acabar numa fração de segundos,passamos a notar que devemos aproveitá-la ao máximo, e que não há do que reclamar,” afirma Marco Anônio.

Dicas do corpo de Bombeiros de como proceder em caso de acidentes • Ao deparar com acidente, mantenha a calma; • Sinalize o local, isso evita outros acidentes; • Se houver vítimas acione o Corpo de Bombeiros; • Mantenha a vítima calma e informe-a que o socorro esta a caminho; • Havendo outros voluntários trabalhe em equipe; • Não execute primeiros socorros se você não for treinado, isso pode agravar a situação da vítima.

Fonte: Corpo de Bombeiro de Minas Gerais


Editor e diagramador da página: Douglas Vieira / Colaboração: Carlos Fillipe Azevedo

EDUCAÇÃO 5 Falta de investimento piora ensino O PONTO Belo Horizonte – Junho/2005

Escolas públicas deixam de ser referência já que não contam com uma políltica educacional eficiente Bruna Bauer

Ana Carolina Rocha, Bruna Bauer, Marina Leão, Paula Caetano e Rafaela Andrade 7º período

um modelo baseado nos padrões espanhóis de educação. Chegou com propósito de solucionar demandas como a exclusão escolar, a diversidade de alunos, o tempo de aprendizagem e a realidade sócio-econômica e cultural das escolas e alunos municipais. A metodologia é aplicada através de ciclos de formação, ou seja, o primeiro corresponde ao da infância, que engloba crianças de 6 a 8 anos. O segundo, da pré-adolescência, engloba crianças de 9 a 11 anos.E o terceiro e último,engloba jovens de 12 a 15 anos.Va-

Segundo a chefe de Gabinete da Secretaria Municipal de Educação, Edna Martins Borges, “O eixo central da escola plural é oferecer ensino de qualidade Ao contrário do que geralpara todos.Hoje em dia,todos esmente a população pensa, o protão na escola. Negros, brancos, blema das escolas públicas não se pobres, deficiêntes, evengélicos, restringe apenas a barreiras do encatólicos. O que importa é a insino.A escola é um problema soclusão”.A idéia é muito boa,mas cial, que envolve os mais diversos em um país como o Brasil, antes setores da sociedade.Além dos asde implantar um novo modelo suntos referentes à estrutura físieducacional,é necessário reconsca e violência, as escolas públicas truir as bases da escola e resgatar vivem hoje uma degradação mosua autoridade moral.“É preciso ral. Perderam o respeito e credifazer uma reflexão e pensar na esbilidade diante da sociecola como uma instituição de dade.Ela não cumpre mais ensino.Tem que resgatar sua o seu papel de proporcio- “O eixo central da autoridade perante a sociedanar a seus alunos todos os escola plural é oferecer de,caso contrário,ela fica muicuidados necessários ao to vulnerável” – afirma Jaciapleno desenvolvimento ensino de qualidade ra Cardoso, mãe de aluno de intelectual, físico e moral para todos” escola pública, jornalista e code um ser humano. laboradora de Fapaemg, FeOs problemas das esderação das Associações de Pais colas começaram a apare- Edna Martins, chefe do gabinete da See Alunos das Escolas Públicas cer por volta da década de cretaria de Municipal de educação de Minas Gerais.Para José An80 quando a demanda de tônio Lucas Pereira,diretor da alunos aumentou,o munEscola Municipal Arthur Verdo se modernizou e as institui- le lembrar, que o ensino médio é siani Velloso, o projeto da Escola ções não estavam preparadas pa- responsabilidade do governo do Plural ainda não consegue conra acompanhar estas mudanças.A Estado, que trabalha em parceria vencer.“O resultado é a longo inversão de valores também po- com a Rede Municipal de Ensi- prazo” – conclui. de ser considerada como mais um no. A inexistência de avaliações agravante.As famílias estão mais Nos anos que antecederam convencionais, também é resdesestruturadas, o atual sistema 1995, a rede municipal de ensi- ponsável pela desmotivação dos econômico incentiva uma acir- no de Belo Horizonte apresen- alunos, já que no final do ano lerada busca pelo lucro,gerando de- tava um alto índice de reprova- tivo, todos são aprovados e passigualdade social, violência, divi- ção e repetência, fato responsável sam para a série ou o ciclo sesão de classes e alterações de va- pelo grande número de evasão guinte,sem nenhuma base de colores culturais. Tudo isso contri- escolar. Nesta época, a pedagogia nhecimento.“Aqui na escola, tebui, e muito, para que aluno ca- utilizada era conhecida como mos alunos que chegam à 7ª sérente já chegue com muitos pro- “pedagogia tradicional”, política rie semi-analfabetos, com difiblemas na escola. de aprendizagem que consiste em culdades básicas” – afirma Maria A partir de 1995, as escolas avaliar o aluno somente através Auxiliadora Melo, professora da municipais de Belo Horizonte de provas e exercícios, e não há Escola Municipal Maria das Necomeçaram a funcionar sob o sis- uma avaliação continua, ou seja, ves, na região leste de Belo Hotema de ensino Escola Plural. É realizada no dia a dia do aluno. rizonte. Alunos da rede municipal de ensino se sentem inseguros nas escolas públicas

Carência na infra-estrutura Violência é reflexo da prejudica as instituições degradação das escolas Além da degradação moral e do ensino, as escolas públicas sofrem também com a falta de infra-estrutura.Faltam equipamentos, os instrumentos de trabalho encontram-se em péssimas condições, as escolas não tem recursos tecnológicos como computadores, multimídias, televisão.As salas de aula estão sempre sujas, os prédios são pichados, vidros, portas e janelas quebradas, que não abrem, ventiladores quando há, quebrados, banheiros malcheirosos, quadros quebrados e riscados. Algumas, não dispõem de áreas de recreação, convivência,esporte e lazer.Na escola municipal Artur Verciani Velloso, o diretor denuncia a falta de espaço físico.“O recreio é feito nos

corredores do terceiro e quarto andar” , afirma José Antônio. A falta de espaços físicos adequados dificulta o trabalho docente e desanima no desenvolvimento de sua tarefa dentro da instituição escolar. Os professores se deparam com uma realidade quase que imutável, o que desperta neles sentimentos de desilusão e insatisfação frente à sua profissão. A proposta da inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais nas classes regulares de ensino têm reforçado o quadro, pois os professores sentem-se despreparados para lidar com esses alunos.“Os professores não recebem nenhum incentivo para investirem em sua educação continuada, que os capacite para en-

frentar esta nova demanda” afirma Maria Auxiliadora. Quanto a essa afirmação, a chefe de gabinete rebate:“existem muitos investimentos para qualificar professores. A PBH financia congressos,simpósios,palestras e pósgraduação”. José Antônio mostra que outra dificuldade encontrada é a falta de uma equipe multidisciplinar de suporte para orientar professores e alunos. “Aqui,nós não temos psicólogos, pedagogos para nos treinar e orientar frente estas situações, além de não existir nenhum investimento em educação continuada”. A Rede Municipal de Ensino possui 181 escolas, 220 mil alunos e 10 mil professores. Paula Caetano

Alunos da Escola Arthur Versiani Velloso passam o recreio nos corredores

Diante de uma sociedade tão marginalizada, a escola deixou de ser vista como um universo protegido da violência.A ocorrência de brigas violentas, mortes e crimes no interior das escolas e em suas proximidades apavoram a população e ajuda a abalar a, já tão desgastada, imagem desta instituição. Fica um sentimento de insegurança e medo.“Aqui é muito difícil de estudar.A gente fica com medo. Sempre tem briga. Outro dia mesmo, um aluno do turno da noite baleou seu colega de classe dentro da escola” – afirma Jeferson Rodrigues, 15 anos, estudante do 1º ano do ensino médio da Escola Arthur Versiani Velloso. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Crisp (Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública) no ano de 2002, 67,5% dos estudantes afirmaram que já viram pessoas quebrando janelas, tendo um comportamento de desordem dentro da escola. Outros 27,8%, disseram ter visto, pelo menos uma vez, pessoas amarradas dentro da instituição. Mais de 85% deles já viram, ou ouviram falar de desentendimentos entre pessoas dentro da escola, envolvendo ofensas, xingamentos e, 52% dos alunos já viram ou ficaram sabendo de pessoas consumindo drogas nas escolas. E ainda, quase 16% já foram roubados em sua escola e 18,3% já foram agredidos fisicamente. Para levantar a questão da violência nas escolas públicas, não se deve desvincular os fatores econômicos, social, políticos

e culturais, que fazem parte do cotidiano do aluno. É preciso levar em consideração a condição de moradia do aluno, seu relacionamento com os familiares e comunidade, e ainda onde as escolas públicas se localizam.Todos estes fatores podem ser apontados como influenciadores do comportamento dos alunos em seu cotidiano escolar.A prática da violência pode en-

qüenta, marginal não entra. É preciso capacitar os pais para a participação.Ainda que seja de forma voluntária”. Um bom exemplo é a Escola Municipal Dinorah Magalhães Fabri, na Vila Cemig, região do Barreiro. A escola é uma das atendidas pelo programa Escola Aberta, que transforma as instituições em espaços alternativos de aprendizagem, lazer e cidadania nos finais de semana.“A escola es“A escola está tá situada em uma com altos ínsituada em uma área área dices de violência e com altos índices de sofria com a criminalidade. Desde da violência e sofria implantação deste com a criminalidade. programa, não foi registrado mais neDesde da nhum ato violenimplantação deste to” - diz Edna Martins Borges. programa, não foi É papel da escola registrado mais propiciar meios pauma mudança nenhum ato violento” racultural de atitudes, que se estende desEdna Martins Borges, chefe do gabinete de a casa do aluno até seu envolvida Secretária Municipal de Educação mento com a sociedade. O indivíduo volver o comportamento dos torna-se um cidadão com a conalunos dentro da escola e em to- tribuição de várias instâncias, das as suas relações sociais. destacando-se a escola. Isto não A ausência dos pais dentro significa que ela vá cumprir exada escola colabora para o cres- tamente sua função, já que o cimento da violência. Em al- aluno representa um elemento gumas escolas, a polícia militar social, inserido em inúmeras reé chamada de cinco a dez ve- lações do sistema.A escola é um zes por dia. Para Mário de As- lugar de encontro de culturas, sis, presidente da Fapaemg, a so- de saberes científicos e cotidialução é incentivar os pais e a nos que proporciona aos alunos comunidade a comparecerem uma boa formação imtelectual nas escolas.“Escola que pai fre- que será útil no futuro.


Editor e diagramador da página: Rafael W

6 ESPECIAL

O PO Belo Horizonte

t n e r a u Q L E P O D A V I T E F E O T AUMEN E N S A R I R P U S E D E G N ESTÁ LO Ana Maria Caixeta, Fernanda Chácara, Ricardo Guimarães e Rodrigo Scapolatempore 7º período

Mazel e Gerciel. Pai e filho. Não fosse a dura realidade vivida por estas duas vítimas da exclusão social, eles até que poderiam ter uma perspectiva digna de vida.Porém,o dia-a-dia é reflexo da dificuldade de ser miserável em um país de contrastes.Há 12 anos na economia informal, vendendo água mineral nos semáforos da capital mineira, Mazel Calisto de Pádua, 48, é um exemplo de como um salário mínimo é insuficiente para sustentar uma família.Com mais dois filhos, além de Gerciel, o ambulante diz ser impossível viver apenas com o mínimo,mesmo com o aumento de 40 reais concedido pelo governo federal. Por isso, ele vende águas durante o dia e explora força de trabalho de seu próprio filho,de apenas 15 anos.“Preciso trabalhar de dia como vendedor e à noite como vigia.Não dá pra viver só com 260 reais que recebo como segurança.Só para o aluguel gasto 200 reais. Tenho que tirar uma grana a mais como vendedor”, comenta. Gerciel, que está na segunda série do ensino fundamental, ajuda seu pai diariamente em uma rotina desgastante: de sete às onze da manhã ele vai para a escola.A partir desse horário, enfrenta sob o sol, entre carros, barulho e fumaça, o desafio de garantir o próprio sustento.“Tem dia que tiramos 80 reais com a venda das garrafinhas. Dá bem mais que 300 reais no mês”, projeta. Ciente disso, Mazel Calisto acha que esta é a única forma de manter sua família. Ele acredita que o reajuste de 8,5% no salário mínimo será insignificante dentro da sua realidade de despesas.“Esse aumento não faz diferença nenhuma pra mim.As despesas de luz, água, e telefone, além do aluguel, já são altas demais. Não é essa quantia que resolverá a situação”.

Já a empregada doméstica Márcia Cristina da Silva Lopes, 40, revela outro agravante. Para ela, os 260 reais do qual todo trabalhador tem direito, são sua única fonte de renda.“Sempre ganhei salário básico. O aumento para 300 reais ajuda pouco. Seria bom mesmo se quando ele aumentasse, não aumentassem, também, as tarifas de energia elétrica, do gás de cozinha, vale transporte e telefone”, critica. Ela conta que antes de reajustar o ordenado mensal, o governo também reajusta as contas da população. Segundo dados coletados na Internet através da página da Cemig, só a luz aumentou 18,48% para os consumidores residenciais a partir de oito de abril deste ano. Indignada com o valor mínimo de 300 reais que receberá, Márcia diz só ser possível sustentar sua filha e ajudar seu filho casado através de outros trabalhos que faz por fora.“Só com salário não dá pra viver. Eu mesma tenho que fazer uns três a quatro bicos para manter a sobrevivência”. A também empregada doméstica Andréia Maria dos Santos, 34, que trabalha próxima à Márcia, ganha dois salários mínimos trabalhando em uma casa de família. Para ela, um aumento de 80 reais é positivo, mas teme que seja ilusório. “Vamos começar a receber a partir de junho, mas com certeza até lá as despesas já terão subido também”, comenta. Manter um telefone em casa, segundo Andréia, não é mais luxo e sim necessidade. O problema é que, de acordo com ela, as taxas de telefonia são absurdas. Ela relata também que sua mãe é aposentada e vive apenas com a quantia mínima de 260 reais.“Minha mãe não consegue segurar a onda sozinha. É preciso que os filhos ajudem para que ela não morra. Só com remédio o custo já é grande. Não é um aumento de 40 reais que solucionará o problema”, conclui.

Trabalhador busca outros rumos O reajuste no salário básico não atendeu as expectativas do trabalhador brasileiro,que cada vez mais se recusa a viver com ele e a se submeter à relação de exploração entre patrão e empregado. E este, sem alternativas legais, acaba por entrar na informalidade,que passa a ser sua melhor forma de sustento. Catar papel pode parecer uma última alternativa de sobrevivência.Este trabalho, visto de forma preconceituosa, requer força, paciência e coragem para enfrentar o perigo do trânsito e da violência das ruas.Mas,por outro lado,pode dar maior retorno do que um trabalho de carteira assinada que paga remuneração mínima. Exemplo deste paradoxo social, Ulisses Tavares, 42, é catador de papel há um ano e quatro meses e diz que não trocaria seu serviço por um emprego que pague a quantia básica.“Já trabalhei como segurança na Hemominas e na Copasa, mas hoje percebo que não vale a pena ganhar tão pouco e ser mandado”. Com três filhos pra criar, Ulisses tira em seu serviço atual uma média de 150 reais por semana e tem uma rotina diária de seis horas.“Como segurança, eram 12 horas em pé, sem descanso. Não dá pra viver assim”, diz. Além do pequeno ordenado que recebia, Ulisses conta que existem descontos que diminuem ainda mais a renda.Ele afirma que não compensa ser mais uma ‘peça explorada’ e receber apenas 300 reais, sem ter autonomia alguma. É que o também pensa seu companheiro de profissão,Wallace de Campos, de apenas 30 anos. Exgarçom, copeiro, ajudante de cozinha e faxineiro, o catador de sucata e papel acredita que a única maneira de ele conquistar independência é o trabalho autônomo.Ele diz arrecadar na média de 600 a 800 reais mensais, o que dobra e até supera as três notinhas de 100.“Eu trabalho a hora que eu quero, o dia que eu quero, do jeito que eu quero.Faço meu salário.Não tenho patrão nem puxa-saco”, conta com orgulho.

Sobre o salário mínimo, ele diz que o aumento não é proporcional à elevação das tarifas. “Isso não passa de uma desculpa para aumentar o custo de vida. No final das contas, não há ganho para o pobre trabalhador”, ressalta.Wallace ironiza que todos deveriam trabalhar de carteira assinada:“Eu aconselho às pessoas a trabalharem de salário, por que, do contrário, a concorrência aumentaria muito”. Com risadas e jeito de comerciante, ele diz que não trabalharia mais, de forma alguma, por um salário básico.

Quando a esmola paga mais O cenário não é incomum: Avenida Francisco Sá, no bairro Gutierrez, região sul de Belo Horizonte. Por volta das quatro horas da tarde, um flagrante da miséria humana. Um senhor, com os pés inchados, cabelos brancos e grande senso de humor pede esmola com uma pequena vasilha de alumínio em meio à agitação de carros, lojas e pessoas. O personagem, Sebastião Porfílio de Souza, 63, uma vítima inquestionável do quadro de exclusão social. Ele sai de Igarapé, pequena cidade da Região Metropolitana, todos os dias para tentar ganhar algum dinheiro como pedinte. Sentado na rua, cansado e doente, ele argumenta que não há outra forma de “ganhar” a vida na situação em que se encontra. “Já fui motorista, pedreiro e carpinteiro. Mas, hoje em dia, a única forma de pagar minha água e luz é pedindo esmolas”. Conhecido pelos moradores da região, ele recebe donativos e comida. Só em dinheiro, Porfílio diz que arrecada mais que 10 reais por dia.“Às vezes tiro 12 a 15 reais por dia”, conta. Isso representa uma arrecadação próxima ou até superior à renda de um trabalhador que receberá o salário básico padrão de 300 reais. Questiona-se: Será que compensa viver de salário?

c i f u ins


Werkema / Colaboração: Eduardo Klein

ESPECIAL 7

ONTO e – Junho/2005

s i a e r a t

O R I E L I S A R B O N R E V O LO G O Ã Ç A L U P O P A D S E D A D I ECESS Ricardo Guimarães

“Hoje em dia, a única forma de pagar minha água é esmolando” Sebastião Porfílio, desempregado

Ricardo Guimarães

Vivendo no mínimo Para ligar para família e amigos: 38 reais. Para matar a sede: 30 reais. Para iluminar o escuro e ver TV: 60 reais. Para um tira gosto, uma cerveja e o almoço de cada dia: 200 reais.Para não ficar doente:100 reais. Isso equivale a uma quantia de 428 reais. São 128 reais a mais do que a empregada doméstica Maria Madalena vai receber. Com o marido e dois filhos desempregados, Madalena, uma senhora de quase 50 anos, vive o drama de depender de apenas um salário mínimo como fonte única de subsistência para toda família. Ela não vê vantagem alguma no aumento concedido pelo governo e se esforça para conseguir sobreviver. Maria Madalena conta que só com a ajuda de terceiros, que dão cestas básicas e até suporte financeiro, é possível se alimentar, se vestir. “É muito sofrido viver assim.Todo dia é um desafio para conseguirmos o mínimo para nos manter. Quando aperta, diminuímos na comida. O que nos salva, muitas vezes, é a caridade alheia”, desabafa. Ela diz que existe uma Associação de Moradores em seu bairro, o Petrovale,em Betim,na Região Metropolitana de Belo Horizonte que a ajuda em cestas básicas. Em resposta à pergunta “Um salário mínimo basta?”,Madalena apresenta sensação de desgosto e frustração. Em relação ao reajuste, ela mostra indiferença. Re-

vela em seu semblante a fiel condição de mais uma, entre milhões, de pessoas injustiçadas socialmente e que esperam,já há muito,uma real mudança em suas vidas. Planos longe do ideal A promessa de campanha do governo Lula não saiu do papel. A proposta do então candidato Luis Inácio Lula da Silva de duplicar o valor real do salário mínimo esteve em pauta em seus discursos. Mas até agora, o que se viu foi um aumento de 8,5% no bolso dos trabalhadores – de 260 para 300 reais. A diferença de 40 reais ainda não foi suficiente para que os brasileiros conseguissem arcar com as despesas básicas mensais. O governo deixou de aprovar um salário mínimo mais digno, devido ao rombo que isso poderia causar nas contas da Previdência Social. O paradoxo é grande já que o artigo 7º, da Constituição, garante que o salário mínimo é um direito "capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e às de sua família com moradia,alimentação,educação,saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e Previdência Social,com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo". De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos),

o salário mínimo capaz de efetivamente atender a essas necessidades deveria corresponder pelo menos a 1.538,64 reais em abril deste ano,por exemplo. Apesar da sua instituição no início da década de 40, o Salário Mínimo no Brasil passou a ser tema do debate entre a sociedade e o governo nos primeiros anos da década seguinte,. A deterioração de seu valor desde a sua instituição levou o Governo de Getúlio Vargas a decidir pela duplicação de seu valor em 1953. Seu valor real foi incrementado até 1959, quando ele conheceu seu poder de compra mais elevado. Pressões para a atualização do seu valor marcaram os movimentos sociais no início da década de 60. Contudo, o golpe militar adotou uma política salarial que provocou uma desvalorização brutal de seu valor. Somente na metade da década de 70, se restabeleceram condições políticas para a recuperação do poder de compra do Salário Mínimo. Excetuando o período do Governo Collor, todos os demais, desde 1985, prometeram definir uma política de valorização para o salário mínimo. Contudo, ela jamais foi implementada e, portanto, seu valor continua depreciado após 20 anos de governos democráticos.

“Todo dia é um desafio para conseguirmos o mínimo para nos manter. Quando aperta, diminuímos na comida” Maria Madalena Silva, empregada doméstica

s e t cien


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8 ECONOMIA

O PO Belo Horizonte

Rafael Werkema

DESEMPREGO dignidade em jogo A situação é crítica.Diante de um mercado cada vez mais restrito, pessoas de diferentes tipos e classes sociais enfrentam muitas dificuldades na busca por uma oportunidade de trabalho Elisa Magalhães, Juliana Carvalho, Luciana Fuertes e Mariana Hilbert 7º período Cerca de 444 mil trabalhadores estão desempregados só na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Esse número significativo representa a marginalização sofrida por essas pessoas e faz com que tenham que encarar a triste sina de procurar emprego. A princípio, esperava-se que uma boa educação fosse suficiente para sanar as primeiras dificuldades na busca por um emprego. Entretanto, entrar em uma universidade não é mais garantia de um futuro profissional promissor. O mercado de trabalho está cada dia mais exigente, sobretudo por haver uma grande demanda de pessoas para um número reduzido de vagas. Este é o caso da pedagoga recém formada, Juliana de Cássia Dias Araújo, 28. Persistente ela é, porém, como muitos, ainda não conquistou seu espaço. Desempregada há seis meses,já realizou mais de quatro entrevistas e não obteve sucesso. Esperançosa, acredita que esta é só uma fase ruim e revela que poderia até mesmo trabalhar em uma área que não fosse a sua, principalmente por uma remuneração melhor.“É muito triste saber que você tem potencial, desejo de trabalhar e mesmo assim está fora do mercado. Espero que esta fase passe logo porque preciso pagar minhas contas no final do mês”, relata. As dificuldades não param por aí. Muito já foi dito a respeito da discriminação sofrida por algumas pessoas na hora de procurar emprego, referentes a cor,gênero e etnia.Porém o que vem sendo observado é que o fantasma do desemprego persegue, atualmente, todo tipo de classe e faixa etária, as adversidades para conseguir trabalho variam. O jovem, que procura seu primeiro emprego, é cobrado por uma experiência que não tem, mas que, entretanto, nunca lhe possibilitaram ter. Os mais velhos muitas vezes não são aceitos antes mesmo das entrevistas. Já no anúncio fica estabelecido uma idade limite.As mulheres ainda encontram problemas quando almejam cargos de alta remuneração ou que exigem esforço físico. Para aqueles que moram em bairros distantes a dificuldade aparece na hora da entrevista. O empregador não aceita pagar mais que uma passagem de ônibus ao seu empregado. Distância “Um dos grandes problemas na hora de conseguir um emprego é quando a gente mora longe.É a primeira coisa que nos perguntam em uma entrevista, a outra é minha idade”, explica João Carlos Pereira, 46,“Eles já colocam no anúncio do emprego uma idade limite, assim não adianta

nem ir fazer entrevista”,lamenta.João Carlos procura por emprego fixo há 16 anos e consegue se manter porque trabalha constantemente em empregos temporários e informais. Outra que reclama da distância como um fator que dificulta conseguir um emprego é Maria Aparecida Neiva, 36, casada, mãe de três filhos. Residente em Ribeirão da Neves ela também já perdeu oportunidades de emprego por viver distante do centro da capital.“Não me contratam pelo fato de morar longe, além de nunca aparecer uma oportunidade de emprego por aqui”, reclama. Maria esta desempregada há um ano é já pensou em trabalhar informalmente.“Já pensei em partir para o trabalho informal, mas sem ter capital para começar é muito difícil. Fiz até um curso gratuito da prefeitura de salgadeira e doceira, mas não tenho capital para dar início, então não adianta. A triste sina de procurar emprego envolve esperança, autoconfiança e força de vontade. Sem estes fatores o cidadão que procura trabalho fica a mercê de uma realidade cada vez mais exigente e desmotivadora.“Hoje, os empregadores procuram uma série de coisas. Querem qualificação, atualização e confiança do candidato”, explica a psicóloga e diretora administrativa da Estação das Profissões de Belo Horizonte e Minas Gerais, Monalisa Villefort Ladeira. O fato de estar desempregado também afeta a auto-estima das pessoas. Geraldo Marques Fonseca, 34, desempregado há 11 meses, define como se sente.“Eu mesmo me cobro muito, porque não quero ficar parado, sem emprego e isso com certeza afeta minha auto-estima, fico desmotivado com esta situação”, explica. João Paulo Souza, 18, está à procura do primeiro emprego mas já sente desmotivação e tristeza devido a dificuldade desta busca.“Sinto que a falta de experiência prejudica.O ruim é ver meus amigos arrumando emprego, entrando em faculdade e eu não”, reclama. Para João Carlos, que vive essa triste realidade há 16 anos, é preciso ter fé em Deus, esperança e nunca deixar de pensar no amanhã.“Quem entrar num serviço hoje tem que ficar porque senão o bicho pega. Eu queria estar trabalhando todos os dias. E agora, com 46 anos, ainda falta muito tempo para aposentar porque trabalhei poucas vezes com carteira assinada”,constata.João é um dos muitos que,para sustentar uma família,ou se manter, dependem de empregos informais ou temporários. No entanto, ao exercer trabalhos deste tipo o cidadão fica sem apoio de benefícios como plano de saúde, seguro desemprego e não consegue desenvolver um bom histórico na carteira. Por isso demoram mais para aposentar e ficam sem referências anteriores de desempenho.

Quais as maiores dificuldades encontradas para conseguir um emprego que efetivamente melhore a qualidade de vida? Elisa Magalhães

Mariana Hilbert

Mariana Hilbert

Mariana Hilbert

“Um dos obstáculos para conseguir um emprego é o fato de morar longe. O outro é a idade, que dificulta muito”

“Hoje, os empregadores procuram uma série de coisas. Querem qualificação, atualização e confiança do candidato”

“Sinto que a falta de experiência prejudica. O ruim é ver meus amigos arrumando emprego, entrando em faculdade e eu não”

“São várias, mas o pior é que a falta de emprego afeta minha auto-estima e fico desmotivado com essa situação. Não quero ficar parado”

João Carlos Pereira, desempregado

Monalisa Villefort, psicóloga e diretora

João Paulo Souza, desempregado

Geraldo Fonseca, desmpregado


Juliana Morato/ Colaboração: Rafael Werkema

ECONOMIA 9

ONTO e – Junho/2005

Mercado cada vez mais exigente Qualificação, competência e persistência são princípios fundamentais para arrumar emprego Elisa Magalhães

Empresas de recolocação profissional e agências de emprego representam hoje uma ajuda significativa para as pessoas que procuram lugar no mercado.A diretora de atendimento ao trabalhador do Sistema Nacional de Emprego (SINE-BH), Jane Coutinho, expõe outro problema enfrentado por aqueles que procuram emprego.“A maioria dos empresários pensa assim: existem muitos desempregados então eu posso oferecer um salário menor, muitas vezes até mesmo incompatível com as necessidades de uma pessoa qualificada”, esclarece Coutinho. Segundo ela, cerca de 1500 pessoas procuram o SINE diariamente. Para a vice-presidente do grupo Catho de Belo Horizonte, Lizete Araújo, é necessário avaliar por quê os profissionais não estão conseguindo ingressar no mercado. Para ela, a orientação é fundamental na reinserção do profissional no mercado de trabalho e para que ele consiga refletir sobre suas dificuldades.“Nossa orientação de carreira passa exatamente pela análise do perfil do profissional em função da demanda do mercado. Nos baseamos também em uma série de pesquisas sobre como as pessoas são contratadas, as restrições encontradas, enfim, dados atualizados a cada ano para saber como o mercado reage a determinados perfis”, explica. De acordo com Monalisa Villefort,“é fundamental estabelecer uma rede de contatos, participar de grupos de estudos, de eventos promovidos pelos conselhos e sindicatos das profissões e desenvolver contato com professores. Hoje a gente sabe que estatisticamente, a rede de relações é a que mais emprega”, define. Mulheres: novo papel na sociedade A mulher ainda sofre mais na hora de procura emprego e quando o consegue, geralmente fica restrita a trabalhar em cargos subalternos. É o que demonstra uma pesquisa divulgada neste ano pelo Dieese. Em Belo Horizonte a taxa de desemprego entre mulheres teve forte crescimento. Calcula-se que 22,6% desse contingente esteja fora da população ocupada hoje e o setor de serviços é o que mais emprega a força de trabalho feminina. A psicóloga, especialista em atenção ao trabalhador, Denise Cardoso, avalia as diferenças entre mulheres e homens na hora de procurar por uma ocupação. “Quando uma mulher perde o emprego ela demora mais tempo para retornar ao mercado de trabalho porque, por natureza, ela tende a internalizar o fracasso”, explica Denise. De acordo com a psicóloga, as mulheres têm menos autoconfiança do que os homens e este é um fator dificultador da procura por serviço. Essa maior vulnerabilidade do trabalho feminino pode ser explicada, em parte, pela presença da mulher no emprego doméstico, superior a 15% em todas as regiões. Apesar de todas as especificidades e dificuldades encontradas pelas mulheres ao longo dos tempos, esta realidade está em processo de transição. Agora, a mulher se torna, cada vez mais, independente da família, o que configura um cenário onde há mais interesse pelo trabalho fora de casa.A força de trabalho feminina contribui significativamente para o sustento da família, que tende a diminuir consideravelmente, no que se refere, sobretudo, ao número de filhos por casal.

Estação das Profissões de Belo Horizonte e Minas Gerais ajuda na busca pelo emprego

Taxa de desemprego em algumas regiões metropolitanas Juliana Morato 5º período

Belo Horizonte

Será que o problema no país é a falta de empregos ou a escassez de profissionais realmente qualificados? É inadimissível que em pleno século XXI, onde prevalece o desenvolvimento tecnológico e a supremacia da globalização, efeito do capitalismo mundial, nos deparemos com tão altos índices de desemprego. É uma vergonha para qualquer nação viver à mercê de grandes desigualdades e injustiças, além de problemas políticos, sociais, econômicos e culturais, que faz com que temamos a realidade na qual estamos inseridos. O que se percebe é que as empresas, nos processos de seleção, buscam, além de uma formação escolar, profisionais com iniciativa, flexibilidade, facilidade para comunicar e expressar, capacidade de trabalhar em equipe, maturidade e espírito de liderança. Determinação, persistência e força de vontade são fundamentais para ingressar no mercado de trabalho. Entretanto, milhares de pessoas enfrentam a mesma situação: falta de emprego ou de uma simples oportunidade.As vagas estão cada vez mais escassas, as filas de candidatos cada vez maiores, o mercado mais restrito e competitivo, e a população, passando fome. A falta de dinheiro assola todas as classes e hoje em dia, não basta ter um bom diploma. É preciso ser e ter um diferencial. Cabe ao governo, ao mercado e à economia gerar empregos. Cabe à educação gerar pessoas capacitadas para ocupá-los. É aí que mora o perigo.A grande falha de nossas instituições não está no conteúdo programático que oferecem, mas na não preparação dos alunos para lidar com as dificuldades do rigoroso mercado de trabalho, além da “preguiça” que esses têm de aprender e aprimorar seus conhecimentos.

18.3%

Salvador 24,6%

Porto Alegre 14,3%

Distrito Federal 19,4%

Recife 21,2%

São Paulo 17,1%

As políticas governamentais de geração de emprego têm criado mais alternativas de trabalho para a população? Mariana Hilbert

Mariana Hilbert

Mariana Hilbert

“Não. O governo é omisso. Não preocupase com o desemprego, nem com a saúde, nem com a educação. O que se vê é só corrupção”

“O problema não é só do governo em si, é um problema mundial e em vários setores. Não dá para responsabilizar só o poder executivo”

“Não sinto iniciativa por parte do governo, que inclusive deveria criar mais cursos profissionalizantes e investir na educação”

“Não. O desemprego sempre foi base para qualquer sistema capitalista e continuará mantendo essa estrutura”

Vicente Antunes, aposentado

Adriana Torres, estudante

Marilene de Souza, dona de casa

Marcos Soares, advogado

Mariana Hilbert


Editor e diagramador da página: Rodrigo Mascarenhas

10 COMPORTAMENTO

O PONTO Belo Horizonte – Junho/2005

Solidão em A internet permite o contato com as mais diversas pessoas nos mais diferentes lugares, mas acaba por gerar problemas na convivência interpessoal

REDE Déborah Lane

Ana Luiza Gontijo, Carolina Rabelo e Déborah Lane 7º período As relações interpessoais traduzem o novo modelo de vida surgido com a popularização da internet, no qual a integração com o mundo passa a ser muito mais via rede que sensitiva. O isolamento, paralelo às possibilidades de integração ao mundo através de uma tela não é, hoje, uma questão de opção, mas a verdade é que ao mesmo tempo que integra a sociedade limita a sociabilidade. Pessoas que se sentem sozinhas e carentes procuram, diariamente, as salas de bate-papo da Internet em busca de driblar a solidão, mas o que elas não sabem é que essa é uma maneira de afastá-las ainda mais. Psicólogos e estudiosos do assunto se mostram preocupados com essa nova modo de se relacionar. Para eles, casos como esses são uma nítida demonstração do

medo do indivíduo em relação à sociedade. De acordo com a psicóloga Durce Ribeiro, as inovações tecnológicas vêm agravando a questão da falta de contato físico entre as pessoas. “A Internet dá uma falsa sensação de companhia, pois as pessoas que freqüentam salas de bate papo acreditam que não estão sozinhas, quando na verdade estão mais solitárias do que nunca. O que se percebe é que muitas pessoas deixam de sair com os amigos reais para conversar com os amigos virtuais,” observa Durce.A psicóloga salienta ainda que um dos motivos dessa preferência pelo mundo virtual é exatamente a questão da distância. De acordo com os pacientes dela, é mais fácil confidenciar com um estranho, do que se abrir cara a cara com um amigo. Com isso, as pessoas estão se fechando e ficando cada vez mais isoladas. Ana Paula Araújo, 27, estudante e advogada, afirma que possui mais amigos via internet

do que pessoalmente e que já deixou de fazer muitas coisas para ficar “teclando”, como ela mesma gosta de dizer. “Já deixei de ir à academia, barzinhos com amigos e cinema. Considero a internet a minha maior diversão e a melhor maneira de se fazer amigos e relacionar”, observa.A advogada recebe críticas insistentes dos pais que não consideram saudável o tempo que ela dedica ao computador deixando até mesmo assuntos familiares de seu interesse de lado quando chega a hora de se conectar a rede. Além disso, a mãe acredita que a Internet afastou sua filha das pessoas, no entanto, Ana Paula discorda da afirmação da mãe, já que acredita que essa nova maneira de se relacionar só a aproxima dos amigos que estão distantes. Ela conversa via chat, com pessoas que nem mesmo conhece pessoalmente. Quando questionada se existe curiosidade em conhecê-los de fato, ela é categórica: não.

Ana Paula Araújo chegou a deixar de se relacionar com amigos por causa da Internet

Empresas informatizam relações Em pouco mais de uma década, toda as esferas sociais acabaram influenciadas, em maior ou menor intensidade, por esse novo recurso que se transformou em uma ferramenta quase indispensável. As empresas resolveram afastar as pessoas, quem sabe, para aproximar seus empregados de suas metas de produtividade. Até mesmo aqueles que possuem familiaridade com os meios tecnológicos se assustam diante da utilização da internet nas grandes empresas. Diego Meirelles, 27, administrador da Construtora Queiroz Galvão, confessa que nunca imaginou que as relações de trabalho pudessem ser substituídas

por inúmeros correios eletrônicos.“Se por um lado existe a necessidade de formalizar e documentar muita coisa e, nisso, os e-mails são muito eficazes, por outro, me causa riso estar ao lado de um colega que me manda via net providências que devo tomar e que poderiam ser simplesmente ditas”, diz Meirelles. A constatação de que a interação virtual não passa de uma ilusão que é alimentada por uma sociedade cada vez mais dependente dos meios tecnológicos está retratada, indiscutivelmente, em um modelo de vida no qual a individualidade veste-se de egocentrismo e passa a ser in-

dividualismo. Este que somente pode ser resguardado em sua totalidade através de relacionamentos que em um click abre e fecha janelas nos quais é possível bloquear contatos sem que o interlocutor saiba que não há interesse em conversar naquele momento. Através de fantasias que são criadas e alimentadas reciprocamente e que, no entanto acabam sempre por serem desmistificadas a cada logoff. E é nesse momento que as pessoas descobrem que apesar de viverem em uma capital com cerca de dois milhões de habitantes, estão solitárias e insatisfeitas com falsas relações que elas mesmas construíram.

“O Tempo não pára” cazuza

Déborah Lane

Lan Houses fazem parte do cotidiano da vida das pessoas

O Brasil ‘na onda’ da internet De acordo com uma pesquisa realizada pelo Ibope e Ratings, o acesso à internet entre os brasileiros das classes A e B se aproxima do índice observado em países mais ricos, cerca de 80% dessas pessoas já usam a web. Também em relação ao tempo que passam conectados à rede, os internautas no Brasil só perdem para os Estados Unidos, estando à frente até mesmo do Japão e dos países europeus, como França, Espanha e Inglaterra. Essa mesma pesquisa aponta que as pessoas chegam a passar mais tempo na Internet do que na TV, no cinema ou em um barzinho com os amigos. Um estudo divulgado pelo Fórum

Econômico Mundial, FEM, mostrou que o número de usuários de Internet no Brasil quadruplicou nos últimos três anos. Esse aumento coloca o país em 39º lugar no ranking das nações que mais utilizam esse recurso de tecnologia. Com o crescimento do acesso à Internet, houve uma grande explosão de Lan Houses e Cybers Cafés. Estas casas estão se multiplicando em proporções geométricas pelo Brasil e, em especial, por Belo Horizonte. Henrique Lommez, dono da primeira Lan House em Belo Horizonte, diz que o negócio é bastante promissor e lucrativo, por dia passam, em média, 230

pessoas pelo local. Ele conta que os clientes chegam a ficar o dia todo na sua Lan House sem ver o tempo passar e que já houve um cliente que ficou exatamente 24 horas em seu estabelecimento. O comerciante diz ainda que as pessoas não se relacionam entre si. Elas freqüentam o lugar única e exclusivamente para utilizar o computador. João Paulo Barros, estudante, 16 anos, cliente da Lan House, relata que tem computador em casa, mas prefere ir ao estabelecimento porque lá é extremamente silencioso. João até brinca que o silêncio nessas casas é maior do que o da biblioteca de seu colégio.

Não passe em branco pela universidade. Faça! Aconteça! É aqui que você abre portas e caminhos. Você ainda tem muito a aproveitar.


Editora e diagramadora da página: Fernanda Melo

SAÚDE 11

O PONTO Belo Horizonte – Junho/2005

Inimigo em cápsulas Remédios usados sem prescrição e orientação médica são uma ameaça à saúde da população Divulgação: disponível em www.sxc.hu

Bernardo Motta, Carlos Fillipe Azevedo, Daniele Amaral e Maycon Cardoso 7º período

das intoxicações registradas no Brasil. A cada 25 minutos uma pessoa é intoxicada por remédios no país. O coordenador do Serviço de Toxicologia-MG, que “O consumidor, companheiros, funciona no HPS, Délio CamÉ revestido de importância polina, explica que esses númeNão pode ser enganado ros são tão elevados devido a falNem tratado com discrepância ta de informação inadequado. "A Ninguém pode descumprir a lei maioria dos casos que atendeNem por erro ou ignorância” mos são referentes a superdosagem de medicamentos, como alOs versos da poetisa Odila guns anti-depressivos, que são Schiwinel Lange falam do Códi- vendidos livremente”. go de Defesa do Consumidor, Para Waldovânio Cordeiro, que deve proteger o cidadão. E, assessor do Conselho Regional quando o assunto é saúde,os cui- de Farmácia de Minas Gerais dados devem ser ainda maiores. (CRF-MG), "o farmacêutico A utilização correta de medica- tem por obrigação ética não permento exige atenção e informa- mitir a venda sem receita. Mas ção. "Quando sinto alguma dor ele trabalha em uma empresa diferente, vou à farmácia e o bal- privada por isso tem que cumconista me fala o que posso to- prir ordens dos seus superiores, mar. Outras vezes, compro um sendo assim, acaba vendendo". remédio que já funcionou antes". O engenheiro Rogério CuA atitude da empregada domés- nha faz uso do descongestiotica, Creuza nante nasal Ribeiro, de Nasivin, de “O farmacêutico 53 anos, tarja vermeexemplifica tem por obrigação lha, há mais um hábito cinco ética não permitir a de muito coanos. A bula mum entre venda sem receita” alerta que o os brasileiuso contíros: a autonuo desse Waldovânio Cordeiro, assessor do medicação. medicamenA nossa le- CRF-MG to pode caugislação desar depentermina que dência. certos remé"Nunca me dios só podem ser comercializa- exigiram a receita médica para dos mediante a apresentação de comprar esse remédio. E para receita médica. Mas o cotidiano não perder tempo, sempre comdo mercado farmacêutico mos- pro várias caixas de uma só vez". tra que vários medicamentos, inO advogado especialista em cluindo antibióticos, são vendi- Direito do Consumidor, Hênio dos sem prescrição. Andrade explica que se ficar Uma pesquisa realizada pe- comprovado que um medicala Unicamp, a pedido do Mi- mento vendido irregularmente nistério Público da Saúde, mos- sem receita, causou danos à saútrou que 50% das vendas dos de do consumidor, este pode remedicamentos tradicionais do correr à justiça e exigir uma inmercado nacional correspon- denização responsabilizando o dem a automedicação. A mé- farmacêutico e o dono do estadica clínica-geral, Alba Valéria belecimento. alerta que este procedimento Waldovânio Cordeiro explipode ser prejudicial à saúde "os ca que para combater a automemedicamentos podem masca- dicação, a sociedade tem como rar os sintomas de uma doen- um dos desafios enfrentar os poça mais grave e gerar novos derosos donos das indústrias de transtornos ao paciente". remédios que incentivam a venDados do Sistema Nacional da sem a prescrição correta do de Informações Tóxico-Farma- médico. "Muitas vezes os farcológicas da Fiocruz/Ministério macêuticos e balconistas ganham da Saúde mostram que os medi- bônus para vender". camentos são a primeira causa

Lei pode punir a venda ilegal Um projeto de lei, do deputado Luiz Bitencourtt (PMDB-GO), prevê que o fornecimento de remédio sem receita médica seja tipificado como crime, com pena de detenção de três meses a um ano.A penalidade poderá ser aplicada para quem vende,entrega ou fornece.O texto sofreu alterações do deputado Fernando Coruja (PPS-SC) na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. O projeto após ser aprovado deverá ser encaminhado ao Plenário. Tudo o que se refere ao controle sanitário de medicamentos

é regulamentado pela Lei 5.991, inclusive a determinação de que a farmácia e a drogaria deverão ter, obrigatoriamente, a assistência de um farmacêutico inscrito no Conselho Regional de Farmácia.A presença deste técnico é exigida durante todo o horário de funcionamento, assim como a fixação visível de um quadro de horários contendo nome e o número de registro deste profissional. Caso o consumidor perceba que essas regras não estão sendo cumpridas, deve fazer uma denúncia ao Conselho Regional de Farmácia ou a uma das nove re-

gionais daVigilância Sanitária em Belo Horizonte. Waldovânio Cordeiro avisa que "a venda de medicamentos sem receita pode ser punida com multa ou interdição do estabelecimento". O Conselho Regional de Farmácia possui apenas 11 fiscais para atender toda a demanda do estado, além de cinco seções no interior. Outro ponto importante da legislação é que apenas o médico está capacitado para prescrever uma medicação. Ele está autorizado a fornecer uma receita que representa o resultado do diagnóstico obtido através de exa-

mes. O farmacêutico tem a função informar sobre os medicamentos ou sugerir a substituição por um genérico. A lei determina que os remédios de tarja vermelha só podem ser vendidos com apresentação de receita. No caso daqueles de tarja preta, a receita deve ser entregue ao farmacêutico e esta deve ficar retida no estabelecimento. Para o médico Clínico Geral, Leonardo Eustáquio Vaz,” as penalidades para quem vende remédios irregularmente deveriam ser mais rígidas”, afirma.

Comprar na internet pode ser perigoso A internet passou a ser um importante instrumento para a comercialização de diversos produtos até mesmo medicamentos, inclusive os que são controlados. É a venda ilegal atingindo a comodidade da casa dos consumidores. Proporcionalmente, também crescem os riscos na compra desses itens, uma vez que, do lado de quem vende, há sempre aqueles que querem se beneficiar deste negócio. Sem nenhuma fiscalização, sites em operação vendem todos os tipos de remédios e os disponibiliza ao cliente como um cardápio de restaurante. O relatório anual da Junta Internacional de Controle de Narcóticos da ONU, divulgado em março desde ano, mostra que as vendas ilegais de remédios pela internet estão aumentando consideravelmente, "o comércio ilícito pela internet foi identificado como uma das principais fontes de compra de remédios sem receita, que são usados de forma inadequada por crianças e adoles-

centes, em países como os EUA" diz o relatório. No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) diz que,para o remédio entrar legalmente no país, é necessário a apresentação de receita médica, nota fiscal e o pagamento de impostos no momento do recebimento do produto. Como a lei que regula o comércio de medicamentos é de 1973, antes do "boom" da internet, a venda na rede não pode ser fiscalizada de maneira totalmente satisfatória e eficaz.Apesar dos esforços e dos cuidados em controlar a entrada de medicamentos no país, não é difícil encontrar sites ao redor do mundo que despachem os mais diversos medicamentos controlados, sem esclarecer que essa é uma transação sujeita às regras locais. A Anvisa aconselha que o usuário sempre verifique se a farmácia on-line é um estabelecimento registrado e legalizado.No caso das páginas comerciais norte-americanas,o consumidor pode consultar os sites www.fda.gov e www.nabp.net.

Medicamentos de tarja vermelha e preta são vendidos sem prescrição médica em algumas farmácias da capital


Editores e diagramadores da página: Rafael Werkema e Renata Quintão

12 FUMEC Professores da Fumec criam Associação de Docentes

O PONTO Belo Horizonte – Junho/2005

Renata Quintão

Tiago Haddad

A aprovação do estatuto e a eleição da diretoria marcaram os primeiros passos da Associação dos Docentes da Universidade Fumec (ADFumec), que deve lutar por uma maior valorizaração e qualificação do professor

“Qualquer tipo de organização, principalmente dos professores, vai contribuir para o ensino de qualidade na instituição” Alexandre Campelo, coordenador do laboratório de Televisão da FCH-Fumec Renata Quintão

Tiago Haddad

Luciana Ribeiro 4º período Com os objetivos de valorizar e qualificar ainda mais o professor, ampliar as oportunidades no campo da pesquisa e instituir no interior da universidade práticas de seminários e de aperfeiçoamento do saber, tomou posse, no dia 16 de junho, a diretoria da Associação dos Docentes da Universidade Fumec (ADFumec). A assembléia geral marcou a criação da associação que, segundo o presidente da ADFumec, professor Leovegildo Pereira Leal, é um órgão que vai contribuir “criticamente tanto no campo administrativo quanto no acadêmico”. “A associação surge como necessidade essencial à caracterização da Fumec como uma universidade. É inconcebível uma instituição de ensino superior na qual os docentes não têm voz própria, tendo em vista que eles são os principais criadores de bens intelectuais", esclarece Leovegildo Leal. O presidente acrescenta que o docente está ligado à razão de ser da universidade e que, por isso, não pode ter sua voz esquecida nos processos mais amplos de deliberação da instituição. Cunho sindical? A aprovação da ADFumec enfrentou resistências. Um diretor da universidade, que preferiu não ser identificado, entende que a associação tem cunho sindical em alguns itens do seu estatuto.“Na minha opinião, esses itens são improcedentes. É incompreensível, por exemplo, admitir que nós professores tenhamos melhores condições de trabalho, já que a Fumec nos oferece tudo de melhor”, opina o diretor. Entre os benefícios que considera excelentes, o diretor destaca o plano de saúde,a previdência privada e um ambiente tranqüilo no exercício de suas atividades, sem grandes interferências da diretoria.“Visto isso,não justifica criar uma associação de professores.Além do mais, existe o sindicato dos professores para isso”,defende.Apesar das considerações de oposição à associação, o diretor louva a ADFumec na medida em que “ela esteja empenhada junto aos órgãos deliberativos em buscar o crescimento do ambiente acadêmico”. Para o presidente da associação,existe uma distinção entre o papel da associação e o papel de um sindicato.“O sindicato está voltado para interesses imediatos, materiais, salariais e profissionais de determinada categoria trabalhista,e disso a associação não vai cuidar”, afirma. Segundo Leovegildo Leal, a ADFumec vai cuidar das pesquisas de extensão, da qualificação do docente e procurar interferir nos projetos em longo prazo, principalmente no que diz

A nova diretoria da ADFumec, eleita para um mandato de dois anos, é composta pelos seguintes professores: Leovegildo Pereira Leal (presidente), José Boanerges Meira (vicepresidente), João Carlos de Castro Silva (primeiro secretário), Juliana do Couto Benfica (segundo secretário), Thais Estevanato (primeiro tesoureiro), Antônio César Nunes Cruz (segundo tesoureiro), Marco Contili( diretor de assuntos acadêmicos) Jacques Akerman (diretor de relações interistitucionais) e Paulo Nehmy(diretor social)

respeito à definição do perfil da universidade e de sua filosofia.“Queremos traçar um perfil humanista para a Fumec, e não mercadológico”, explica. Ainda segundo o presidente da associação dos docentes,a proposta da ADFumec não é a de formar um poder paralelo e nem de buscar cargos de poder institucional,mas sim de criar uma “força propulsora da universidade”. O professor de fotografia das faculdades de Ciências Humanas (FCH) e de Engenharia e Arquitetura (FEA), e também suplente do Conselho Fiscal da associação, Rui Cezar, acredita que, por os professores terem um papel que vai além das horas de trabalho, no sentido de educar e de servirem como exemplo, o trabalho da ADFumec é algo muito mais amplo que o papel de um sindicato. Essa também é a visão de Hugo Teixeira, também professor da FCH. “O papel da associação tem que ser mais amplo, direcionando esforços para o fortalecimento dos aspectos acadêmicos e científicos de uma instituição de ensino superior”, opina. A ADFumec conta hoje com 60 docentes da FCH e da FEA e, segundo o presidente Leovegildo Leal, será ampliada às demais unidades, a Faculdade de Administração e Ciências Econômicas (FACE) e a Faculdade de Ciências da Saúde (FCS). A polêmica da criação Leovegildo Leal esclarece que havia duas estratégias para a criação da associação e tiveram que optar por uma delas.“Um caminho seria partir com o que tínhamos para a formação da associação e depois buscar sua ampliação. E esse foi o que escolhemos. O outro era criar a ADFumec somente quando tivéssemos representatividade das quatro faculdades, ”, explica. Mas, segundo Leovegildo Leal, a

“A associação será uma instância de contato com os principais setores da universidade” Paulo Nehmy, professor do curso de Comunicação Social da FCH-Fumec Renata Quintão

direção da FACE foi convidada para compor a ADFumec, entretanto não se manifestou. A diretora de ensino da FACE,professora Maria da Conceição Rocha,que participou da assembléia para eleição da diretoria da associação, foi procurada pela equipe de O Ponto para falar sobre o assunto, mas até o fechamento desta edição não estava disponível.Outros professores da FACE também foram procurados para opinarem,mas não aceitaram conceder entrevista. Quanto à FCS, o presidente da ADFumec reconhece que, por ser uma faculdade nova, fora do campus da FCH e FEA, foi mais difícil discutir a criação da associação. “Mas estamos comprometidos em ampliar o quadro de associados com docentes das outras faculdades que ainda não integram a associação”, esclarece. Expectativa dos docentes O professor da FCH Eduardo Martins espera que a associação possa representar os interesses genuínos dos professores e contribuir para o crescimento do ambiente acadêmico. “A ADFumec deve se comprometer com o acompanhamento da carreira docente, com a progressão dos professores, plano de carreira, além de intervir no rumo da construção da universidade”, opina Eduardo. Já o professor Rui Cezar espera que o papel da ADFumec perpassse principalmente quatro pontos: o de construir a universidade; o de contribuir na área de pesquisa e extensão; o de implementar o plano de carreira dos professores; e o de participar na construção do caráter comunitário da Fumec. O diretor de ensino da FACE, professor Luiz Lacerda Júnior, espera que a associação exerça um trabalho dentro das unidades para ter o máximo de

representatividade.“ A Fumec tem em torno de 600 professores e uma associação que tem até o momento 10% desse número como associados deixa a desejar como representatividade”, diz. Para viabilizar a mobilização dos docentes nesse projeto, Lacerda acha que é preciso investir na divulgação da ADFumec.“É preciso enviar cartas aos professores, divulgar no site, fazer um convite corpo a corpo. E este procedimento não deve ser feito somente por parte da diretoria, mas também por parte de todos os integrantes”, finaliza Lacerda. O reflexo nos alunos O presidente da ADFumec, Leovegildo Leal, acredita que, se alcançadas as metas da associação, os alunos serão bastante beneficiados, uma vez que a melhoria da capacitação dos professores refletirá sobre eles. Por isso, defende a participação dos alunos nas assembléias da associação, mas sem que o corpo discente tenha direito a voto.“Ainda estamos estudando a influência dos alunos na ADFumec”, explica. Mas, segundo Leovegildo, já há um envolvimento dos alunos com a associação.“Isso foi visto nas assembléias que realizamos, nas quais os alunos, prinicpalmente de Comunicação Social, deram sugestões e fizeram intervenções favoráveis”, relata. O professor da FCH Hugo Teixeira acha que com essa participação dos estudantes nas assembléias, a ADFumec e seu trabalho terão uma maior repercussão entre o alunos. “Imagino que haverá discussão junto aos estudantes na medida em que a associação fortalecer o vínculo dos professores com a Universidade Fumec, melhorando o bom ambiente acadêmico”, complementa.

“Os professores precisam se integrar mais e a associação é um ótimo motivo para isso” Admir Borges, coordenador do laboratório Agência Modelo da FCH-Fumec Renata Quintão

“Já estava na hora de existir uma associação que representasse o corpo docente da Fumec” Getúlio Neuremberg, coordenador do laboratório de Rádio da FCH-Fumec

Jornal O Ponto - junho de 2005  

Jornal laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Fumec - Belo Horizonte - MG