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ISSN: 2177-6504

SUCROENERGÉTICO: cana, açúcar, etanol & bioeletricidade ano 12 • número 46 • Divisão C • Out-Dez 2015

ainda dá para ver a estrada


ainda dá para ver a estrada

índice

15ª Conferência Internacional Datagro sobre açúcar e etanol

Editorial:

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Celso Torquato Junqueira Franco Presidente da UDOP

Finanças:

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Alexandre Enrico Silva Figliolino Diretor de Agronegócios do Itaú-BBA

Avaliação operacional: Ensaio especial:

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Guilherme Nastari

Diretor da Datagro Consultoria

20 22 25

Otávio Lage de Siqueira Filho Presidente da Jalles Machado

Luiz Francisco L. F. da Silva

36 38 40

Paulo Zancaner Castilho

Diretor da Datagro Alta Performance

Jucelino Oliveira de Sousa Presidente da Usina Coruripe

Pedro Isamu Mizutani

Vice-presidente de etanol, açúcar e bioenergia da Raízen

Jacyr da Silva Costa Filho

Manoel Carlos de Azevedo Ortolan Presidente da Orplana e da Canaoeste

Miguel Rubens Tranin

Presidente da Alcopar, Sialpar, Siapar e Sibiopar

Mário Ferreira Campos Filho Presidente da Siamig

Mercado:

Diretor da Benri - Biomass Energy Research Institute

Competitividade etanol e gasolina:

28 32 34

Estratégia do setor:

8 10 12 14

Plinio Mário Nastari Presidente da Datagro

Arnaldo Luiz Corrêa

Diretor da Archer Consulting

Martinho Seiiti Ono CEO da SCA Etanol

Tarcilo Ricardo Rodrigues Diretor da Bioagência

Diretor Região Brasil do Grupo Tereos

Editora WDS Ltda e Editora VRDS Brasil Ltda: Rua Jerônimo Panazollo, 350 - 14096-430, Ribeirão Preto, SP, Brasil - Pabx: +55 16 3965-4600 - e-Mail Geral: Opinioes@RevistaOpinioes.com.br n Diretor Geral de Operações e Editor Chefe: William Domingues de Souza - 16 3965-4606 - WDS@RevistaOpinioes.com.br nCoordenadora Nacional de Marketing: Valdirene Ribeiro Souza - Fone: 16 3965-4660 - VRDS@RevistaOpinioes.com.br nVendas: Lilian Restino - 16 3965-4696 - LR@RevistaOpinioes.com.br • Priscila Boniceli de Souza Rolo - Fone: 16 99132-9231 - boniceli@ globo.com nApoio de Vendas: Amanda Vaz - 16 3441-4600 - AV@RevistaOpinioes.com.br • Francine da Mata Silva - 16 3441-0343 - FM@RevistaOpinioes. com.br n Assistente do Editor Chefe: Fernanda Aparecida da Silva e Silva - 16 3965-4661 - FS@RevistaOpinioes.com.br nJornalista Responsável: William Domingues de Souza - MTb35088 - jornalismo@RevistaOpinioes.com.br n Edição Fotográfica: Priscila Boniceli de Souza Rolo - Fone: 16 99132-9231 - boniceli@globo.com nProjetos Futuros: Julia Boniceli Rolo - 2604-2006 - JuliaBR@RevistaOpinioes.com.br nProjetos Avançados: Luisa Boniceli Rolo - 2304-2012 - LuisaBR@RevistaOpinioes.com.br nConsultoria Juridica: Priscilla Araujo Rocha nCorrespondente na Europa (Augsburg Alemanha): Sonia LiepoldMai - Fone: +49 821 48-7507 - sl-mai@T-online.de nDesenvolvimento de Mercados na Ásia: Marcelo Gonçalez - MG@RevistaOpinioes.com.br nExpedição: Donizete Souza Mendonça - DSM@ RevistaOpinioes.com.br nCopydesk: Roseli Aparecida de Sousa - RAS@RevistaOpinioes.com.br nTratamento das Imagens: Luis Carlos Rodrigues (Careca) nFinalização: Douglas José de Almeida n Impressão: Grupo Gráfico São Francisco, Ribeirão Preto, SP nArtigos: Os artigos refletem individualmente as opiniões pessoais de seus próprios autores nFoto da Capa: Tadeu Fessel Fotografias - 11 3262-2360 - 11 95606-9777 - tadeu.fessel@gmail.com nFoto do Índice: Tadeu Fessel Fotografias - 11 3262-2360 - 11 95606-9777 - tadeu.fessel@gmail.com nFotos das Ilustrações: Paulo Alfafin Fotografia - 19 3422-2502 - 19 8111-8887 - paulo@pauloaltafin.com.br• Ary Diesendruck Photografer - 11 3814-4644 - 11 99604-5244 - ad@arydiesendruck.com.br • Tadeu Fessel Fotografias - 11 3262-2360 - 11 95606-9777 - tadeu.fessel@gmail.com • Acervo Revista Opiniões e dos específicos articulistas nFotos dos Articulistas: Acervo Pessoal dos Articulistas e de seus fotógrafos pessoais ou corporativos nVeiculação Comprovada: Através da apresentação dos documentos fiscais de pagamento dos serviços de Gráfica e de Postagem dos Correios nTiragem Revista Impressa: 7.000 exemplares nRevista eletrônica: Cadastre-se no Site da Revista Opiniões e receba diretamente em seu computador a edição eletrônica, imagemn fiel da revista impressa nPortal: Estão disponíveis em nosso Site todos os artigos, de todos os articulistas, de todas as edições, de todas as divisões das publicações da Editora WDS, desde os seus respectivos lançamentos nHome-Page: www.RevistaOpinioes.com.br

Conselho Editorial da Revista Opiniões: ISSN - International Standard Serial Number: 2177-6504 Divisão Florestal: • Amantino Ramos de Freitas • Antonio Paulo Mendes Galvão • Celso Edmundo Bochetti Foelkel • João Fernando Borges • Joésio Deoclécio Pierin Siqueira • Jorge Roberto Malinovski • Luiz Ernesto George Barrichelo • Marcio Nahuz • Maria José Brito Zakia • Mario Sant'Anna Junior • Mauro Valdir Schumacher • Moacir José Sales Medrado • Nairam Félix de Barros • Nelson Barboza Leite • Paulo Yoshio Kageyama • Roosevelt de Paula Almado • Rubens Cristiano Damas Garlipp • Sebastião Renato Valverde • Walter de Paula Lima Divisão Sucroenergética: • Carlos Eduardo Cavalcanti • Eduardo Pereira de Carvalho • Evaristo Eduardo de Miranda • Jaime Finguerut • Jairo Menesis Balbo • José Geraldo Eugênio de França • Manoel Carlos de Azevedo Ortolan • Manoel Vicente Fernandes Bertone • Marcos Guimarães Andrade Landell • Marcos Silveira Bernardes • Nilson Zaramella Boeta • Paulo Adalberto Zanetti • Paulo Roberto Gallo • Pedro Robério de Melo Nogueira • Plinio Mário Nastari • Raffaella Rossetto • Roberto Isao Kishinami • Tadeu Luiz Colucci de Andrade • Xico Graziano

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editorial

o futuro do etanol no Brasil As crises que levaram o barril de petróleo de US$ 3,00 para US$ 40,00, durante a década de 1970, impactaram fortemente a balança comercial brasileira, quando somente as importações de petróleo eram equivalentes a toda a exportação nacional. O Governo Federal prontamente buscou, junto à iniciativa privada, uma solução alternativa para a redução da dependência do petróleo importado. Em 1975, foi lançada a primeira fase do programa Proálcool com implantação de destilarias anexas às usinas de açúcar, produzindo álcool anidro para mistura na gasolina. Em 1979, segue o Proálcool na segunda fase, com a implantação de destilarias autônomas, sendo um importante vetor para o desenvolvimento e a distribuição de renda para o interior do Brasil. Dessa vez, o objetivo é produzir álcool hidratado para ser consumido puro nos veículos. A engenharia e a indústria automobilística brasileira superaram o desafio ao desenvolver um motor movido a álcool, pela primeira vez, assumindo um papel protagonista na indústria automobilística mundial. Somente foi possível dar certo pela forte e fundamental intervenção governamental, com: • Lei obrigando todos os postos do Brasil a instalarem ao menos uma bomba de álcool; • Lei de incentivo à produção de carros com motores movido a álcool; • Tabelamento de preços de combustíveis em todo território nacional, criando uma paridade econômica entre álcool e gasolina (65%), com pequena vantagem para uso de álcool; • Programa de financiamento aos empreendedores, com recursos e taxas de juros adequados ao negócio; • Estabelecimento de regras claras para precificação da cana, com o Pagamento de Cana pelo Teor de Sacarose (PCTS), em que a matéria-prima tinha o preço por qualidade; • Criação de mecanismo de regulação do mercado, com estabelecimento de cotas por unidade produtora; • Obrigatoriedade de mistura de álcool anidro na gasolina; • Correção de preços mensalmente, até 1985, por índice de reposição inflacionária do setor calculado pela FGV; • Forte movimento institucional promovido pelo governo a favor do álcool.

O Brasil e os brasileiros acreditaram no álcool. Em 1988, 90% da frota vendida era movida exclusivamente a álcool. O desenvolvimento tecnológico foi extraordinário. Por duas décadas, os ganhos de produtividade foram de 3% ao ano, ou 80% no período, saindo de 4 mil litros/hectare, para 7,2 mil litros/hectare. Na área industrial, passamos de 75% para 90% na eficiência fermentativa. Na área agrícola, a produtividade de 60 ton/hectare, com 138 kg sacarose/tonelada de cana, passa para 82 ton/hectare, com 150 kg sacarose/ton. Assim, o álcool passou a ser competitivo com a gasolina. Por sua vez, a Petrobras também cumpre seu papel no aumento da produção nacional, passando de 170 mil barris/dia (1975) para 1,5 milhão barril/dia (2002), reduzindo drasticamente as importações de petróleo e derivados, de 85% (1979) para 12,8% (2002), conseguindo a autossuficiência de petróleo pela primeira vez em 2006 (e perdida em 2011). A partir da Constituição de 1988, inicia-se o processo de redução da intervenção do Estado sobre o setor sucroenergético. A liberação de produção de açúcar sem necessidade de cotas nivela as condições de competitividade entre os dois grupos de produtores, usinas de açúcar e destilarias autônomas. Começa uma forte expansão da produção e da exportação de açúcar pelo Brasil, aproveitando a alta competitividade econômica do País em escala mundial. O Brasil passa de 3 milhões/ton em 1993 (13,3%) para 11,17 milhões/ton em 2001 (36,6% do comércio mundial). Em 1997, com a liberação dos preços do álcool anidro e, em 1999, do álcool hidratado, conclui-se a fase de maior intervenção do Estado no mercado de açúcar e álcool. A partir de então, o setor passa a praticar livremente preços de mercado, inicialmente, com forte redução do mercado de hidratado. A partir de 2003, com a introdução do motor flex, o hidratado retoma o crescimento de mercado.

O planejamento energético de longo prazo é uma questão de Estado, não de governo, exigindo uma continuidade de execução, independentemente da ideologia do partido do governo. "

Celso Torquato Junqueira Franco

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Presidente da UDOP


Opiniões A flexibilidade de produção entre açúcar para mercado externo e etanol para mercado interno passa a ser utilizada pelos produtores para garantir o abastecimento do mercado, com ajuste do mix de produção. Em 2008, tem início a pior crise do setor, que se estende até os dias de hoje. O Brasil lança o plano decenal de energia, contemplando necessidade de 1,126 bilhão de toneladas de cana em 2020, estimulando os investimentos. O custo do capital do setor sofre forte impacto, com elevação da taxa de juros e restrição de crédito. Com a inflação em alta, taxa de câmbio defasada e preços do etanol congelados, ano a ano o setor perdeu competitividade, passou a operar com margens negativas e endividamento crescente. Sem capacidade de investimentos, tanto em tecnologia quanto em capacidade produtiva, perdemos espaço no mercado internacional de açúcar e no mercado interno de combustíveis. O crescimento de consumo de gasolina levou o Brasil a importar gasolina a preços superiores aos praticados para venda às distribuidoras, corroendo também o resultado da Petrobras. A regulação do setor energético é necessária para garantir o abastecimento e a previsibilidade do custo da energia. O planejamento energético de longo prazo é uma questão de Estado, não de governo, exigindo uma continuidade de execução, independentemente da ideologia do partido do governo. Vivemos um período de falta de confiança entre as partes, ora por excesso de intervenção do Governo, ora por falta de definição de regras claras e transparentes. A qualidade do diálogo do setor com o Governo fica prejudicada pela falta de definição da coordenação da interlocução por parte do Governo, exigindo diálogos com 5 ou 6 ministérios, nem sempre alinhados com os demais. Fica evidente a falta de planejamento de longo prazo no Brasil, com relação à política energética, gerando insegurança e imprevisibilidade no mercado, tanto com relação ao fornecimento quanto ao custo dos combustíveis líquidos e da energia elétrica. O setor sucroenergético tem potencial para fornecer ao SIN, Sistema Integrado Nacional, o equivalente a 18% da energia elétrica consumida atualmente, sem necessidade de queima adicional de combustível fóssil. O setor fornece apenas 17% desse potencial, ou 3% da energia consumida. Caso tivéssemos operando com pleno potencial, o que exige investimentos adicionais de cerca de R$ 50 bilhões, não teríamos necessidade de despachar as térmicas, sujas e caras, que já custaram para a economia brasileira mais de R$ 60 bilhões e não acrescentaram capacidade ao sistema. A principal barreira aos investimentos são os baixos preços teto estabelecidos pelo Ministério de Minas e Energia para a energia da biomassa. Também têm restrição quanto ao custo de conexão com o SIN.

Para eliminar esse problema, a conexão com as usinas deve ser responsabilidade do sistema de transmissão e não do produtor. A geração distribuída, localizada próxima dos centros de consumo, reduz o custo dos investimentos em linhas de transmissão e apresenta baixas perdas de energia. As novas hidrelétricas não contam com reservatório, portanto têm grande variação de geração de energia entre o período de chuvas e o período seco. A energia da biomassa da cana é disponibilizada durante o período seco, portanto complementar ao sistema hídrico, predominante no Brasil, permitindo melhor gestão dos reservatórios. O sistema hídrico está atualmente mais vulnerável, com capacidade dos reservatórios para apenas 3 meses de consumo, contra 6 meses, 15 anos atrás. Esse novo modelo exige maior diversificação da matriz, buscando viabilizar novas fontes de energia alternativa, preferencialmente complementares ao hídrico. As térmicas movidas a combustível fóssil devem ser utilizadas apenas em momentos emergenciais e picos de consumo, alguns meses em anos críticos, quando o regime de chuvas seja extremamente prejudicado. Nos últimos anos, a ONS despachou as térmicas para funcionamento por longos períodos para evitar o racionamento, “sujando” a matriz energética e elevando exorbitantemente o custo da energia. Devemos ter uma visão integrada da contribuição energética e estratégica do setor sucroenergético para o Brasil, observando: • Saldo positivo da balança comercial, com exportação de açúcar e etanol e importação evitada de gasolina; • Sustentação da política nacional energética e compromissos internacionais com redução de emissões, tanto com o etanol quanto com bioeletricidade, viabilizando a matriz mais limpa e sustentável do mundo; • A geração e distribuição de renda, com impacto em diversas regiões do Brasil; • Valorização da indústria de base nacional, preservando o domínio e o desenvolvimento tecnológico, capaz de suprir toda necessidade de investimento do setor; • Garantir o suprimento energético, com previsibilidade de custos, equiparada às condições internacionais; • Viabilizar economicamente o consumo de etanol na maior parte do território nacional. Há cerca de 40 anos, o mundo busca soluções alternativas de energia, preferencialmente, limpas e renováveis, que reduzam a dependência do petróleo e emissões de CO2. Reconhecido mundialmente, o etanol brasileiro é a solução de maior contribuição. Vencidas as barreiras tecnológicas, já era tempo de reconhecermos internamente toda a contribuição do etanol e estabelecer um papel mínimo na matriz energética brasileira, reservando também um espaço para a bioeletricidade. Os novos desafios devem focar no desenvolvimento de variedades e tecnologia de mecanização das operações de plantio e colheita, buscando aumento de produtividade e melhoria da qualidade da matéria-prima que abastece a usina, sempre com foco em maximizar a energia disponível. O Brasil já mostrou ao mundo sua criatividade, capacidade empreendedora e competência para vencer os desafios tecnológicos. Resta-nos demonstrar nossa capacidade de vencer os preconceitos do passado e buscar soluções sinérgicas entre a iniciativa privada e o interesse público, sustentado por modelos apoiados na inovação e na meritocracia. Devemos buscar junto à comunidade internacional apoio financeiro e político para o aproveitamento de todo o potencial de energia limpa e renovável e, através de acordos internacionais, minimizar os impactos na economia interna, com compensações de fundos internacionais.

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mercado mundial

mercado mundial em transformação Não só o Brasil tem oferecido elementos para uma recuperação dos preços de etanol e do açúcar. Outros importantes participantes do mercado, como os Estados Unidos, a União Europeia, a Índia, a Tailândia, o México, a África do Sul e a Guatemala têm contribuído para esse cenário. No Brasil, o vigor do consumo de etanol e a perspectiva de novos aumentos na Cide e no preço da gasolina na refinaria para recuperar o caixa da Petrobras, que foi ceifado, juntamente com o das usinas de cana, nos últimos 6 anos, têm sido elementos fundamentais para o aumento nos preços do etanol e do açúcar. Nos Estados Unidos, a readoção do Programa de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS) na Califórnia fez com que o valor da tonelada de carbono passasse de US$ 24 para US$ 82 entre os meses de junho e outubro último. Isso fez com que o prêmio atribuído às diferentes classificações do etanol de cana produzido no Brasil subisse, e o do mais comum, com intensidade de carbono de 58,4 gCO2/MJ (gramas de dióxido de carbono por megajoule), atingisse, segundo os cálculos da Datagro, mais de US$ 66.40/m3, ou R$ 0,26/l. O etanol de cana de segunda geração, com IC de 7,49 gCO2/MJ, recebe prêmio de US$ 152.00/m3, ou R$ 0,59/l.

Cabe ao governo explicar à sociedade que essa medida (reajuste da Cide sobre a gasolina) apenas recupera o nível praticado no passado e que o consumidor não está obrigado a pagar o tributo ao optar pelo uso do etanol. "

Plinio Mário Nastari Presidente da Datagro

Esses valores têm feito com que o preço do etanol anidro exportado para esses mercados tenha subido para a faixa de R$ 1,85 a R$ 2,00 por litro ao produtor, posto, veículo, usina, base Ribeirão Preto, o que denota a valorização do etanol no mercado externo. Essa valorização não ocorre apenas nos EUA. O preço do etanol b-grade na Coreia do Sul e do etanol em Rotterdam também tem subido, apesar da percepção de preço ainda baixo nos mercados de petróleo e gasolina.

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No mercado de açúcar, a União Europeia reduziu, em 2015, a área cultivada com beterraba açucareira de 1,56 para 1,34 milhão de hectares, além da oferta de açúcar de 19,93 para 18,6 milhões de toneladas de açúcar branco equivalente. A Índia, afetada pelo impacto do El Niño, deve reduzir a sua produção, passando de 28,4 para 26,8 milhões de toneladas de branco equivalente em 2015/2016. A Tailândia deve, temporariamente, interromper a expansão observada nos últimos 5 anos, estabilizando sua produção em 11,3 milhões de toneladas. A China deve reduzir mais uma vez sua produção, de 10,8 para 9,8 milhões de toneladas, enquanto o consumo sobe de 15,9 para 16,4 milhões de toneladas. Na África do Sul, é projetada uma queda de 30% na produção. No México, a produção deve cair de 6,2 para 6milhões de toneladas, e, na Guatemala, a produção deve cair 5% em relação ao ano anterior. Enquanto na safra mundial 2014/2015 (out/set) estimamos um superávit de 3,64 para 2015/2016, estamos estimando um déficit de 2,57 milhões de toneladas, o qual já leva em conta o provável mix mais açucareiro do Brasil na safra 2016/2017, que afeta a safra mundial 2015/2016, que termina em 30 de setembro de 2016. Esses volumes devem fazer com que a relação estoque/consumo caia de 48,3%, em 30 de setembro de 2015, para 45,9%, em 30 de setembro de 2016.


Opiniões Na nossa avaliação, esse percentual ainda é elevado e muito acima do nível de 41% que, na nossa observação da evolução histórica de estoque e preços, levou a preços mais firmes. Para atingir os 41%, seria necessário um déficit acumulado a partir de 1º de outubro de 2016 de aproximadamente 5% sobre um consumo mundial de 180 milhões de toneladas, ou seja, 9 milhões de toneladas adicionais de déficit. Ainda é cedo para anteciparmos cenários para a safra mundial 2016/2017, mas o que explica o fato de que o preço mundial tem se mantido relativamente elevado, quando avaliado em reais por libra-peso? Algumas explicações podem residir no fato de parte do estoque mundial de açúcar estar “esterilizado” na Índia e na China. Estimamos que a Índia tenha encerrado a safra 2014/2015 com estoque de 10,09 milhões de toneladas, bem acima do nível normal de 5-6 milhões de toneladas. Apesar do estoque elevado, até agora, pouco foi efetivamente exportado pelas usinas. Por esse motivo, o governo indiano estuda criar mecanismos que as obriguem a exportar cerca de 2 milhões de toneladas e a destinar um percentual da receita a um fundo que deve ser utilizado para pagar as pendências das usinas com os fornecedores de cana. Na China, os estoques elevados não têm sido suficientes para arrefecer o ritmo de importações, provavelmente por preocupações de segurança alimentar. Uma outra explicação para o nível de preço no merca-

do internacional de açúcar estar se mantendo elevado é a expectativa de que é cada vez mais provável um novo reajuste da Cide sobre a gasolina, que pode chegar a mais R$ 0,30 ou R$ 0,50 por litro. Se isso ocorrer, haverá um novo impulso no preço do etanol no Brasil, que serve de referência para o açúcar. Embora o Governo Federal resista a essa medida, pelo temor que traga para a expectativa de inflação, sem a aprovação da Cpmf, a Cide seria a única solução para evitar o déficit fiscal de 2016. Cabe ao governo explicar à sociedade que essa medida apenas recupera o nível praticado no passado e que o consumidor não está obrigado a pagar o tributo ao optar pelo uso do etanol. Há ainda a possibilidade de que ocorra um reajuste adicional no preço da gasolina, para recuperar a geração de caixa da Petrobras, afetada por anos de contenção artificial de preços. O mercado mundial continua em transformação. Resultados positivos têm sido auferidos por produtores em países como Peru, Colômbia, Tailândia e Austrália. Pela participação que têm no mercado, fatores que afetam o mercado interno brasileiro continuam influenciando a formação de preço internacional, mas não são os únicos. Num mundo cada vez mais integrado e com comunicação imediata, a compreensão do que ocorre simultaneamente nos principais fundamentos é cada vez mais importante para antecipar movimentos de preço.


mercado do açúcar

Opiniões

fim de um ciclo? As únicas coisas que podem mudar o curso de preços mais robustos para o açúcar são a queda brusca do preço do petróleo no mercado internacional ou mais uma das intervenções sem pé nem cabeça do governo petista. "

Arnaldo Luiz Corrêa Diretor da Archer Consulting

O duradouro ciclo de baixa do preço do açúcar no mercado internacional parece estar chegando ao fim. Desde 2010/2011, quando o mercado começou a trabalhar com um superávit mundial inicial de 3 milhões de toneladas de açúcar, batendo acima de 11 milhões de toneladas duas safras depois e a perspectiva de crescente produção brasileira, os preços vieram negociando em níveis cada vez mais baixos. Durante a safra 2011/2012, o contrato futuro de açúcar em NY negociou a um preço médio de 25.61 centavos de dólar por libra-peso; no ano seguinte, caiu para 20.05 centavos de dólar por libra-peso; depois, mais uma queda de 15% na safra 2013/2014, com o preço médio atingindo 16.98 centavos de dólar por libra-peso e, finalmente, a safra 2014/2015, com 15.76 centavos de dólar por libra-peso. Hoje, em plena safra 2015/2016, o preço médio até o final de setembro era de 11.87 centavos de dólar por libra-peso. Ou seja, em cinco safras (e cinco anos seguidos de produção acima do consumo), o preço médio desabou mais de 53%. Na última conferência promovida pela Datagro no final do mês de setembro, em São Paulo, na qual tive a honra de fazer parte em um dos movimentados painéis que discutiam as perspectivas do mercado de açúcar, minha linha de argumentação partia do fato comprovado de que a produção

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de cana no Brasil, e em especial no Centro-Sul, está estagnada desde 2009/2010, após a crise mundial que afetou particularmente o preço do petróleo. Naquela safra, o Brasil moeu pouco mais de 600 milhões de toneladas de cana e produzimos 28,6 milhões de toneladas de açúcar e 23,7 bilhões de litros de etanol. Nesta safra 2015/2016, o Brasil deve moer um total de 640 milhões de toneladas de cana, divididas entre 34,8 milhões de toneladas de açúcar e 28,4 bilhões de litros de etanol. Isso quer dizer que, em seis anos, a produção de cana no Brasil cresceu pouco mais de 1% ao ano. Número tímido se compararmos com aquele divulgado pela Organização Internacional do Açúcar, que aponta o crescimento no consumo médio anual no mundo na ordem de 2,2% ao ano. É ainda mais surpreendente quando constatamos que o crescimento no consumo médio anual de combustível no Brasil, nos últimos dez anos, foi de 7,8% ao ano. O setor sucroalcooleiro perdeu muito com a falta de planejamento do Governo Federal nos últimos anos. Incentivaram a indústria a investir pesadamente sob a promessa infundada e megalomaníaca do então presidente Lula de que o Brasil se tornaria a Arábia Saudita do etanol. O Centro-Sul saiu de uma produção de cana de 300 milhões de toneladas em 2003/2004 para 540 milhões de toneladas em 2009/2010. Depois de virem a produção crescer em ritmo geométrico, o governo foi retirando paulatinamente a Cide, que mantinha a competitividade do etanol vis-à-vis à gasolina, cujo preço era congelado pelo Governo Federal para fins de ajuste fiscal. O resultado dessa tragédia em forma de gestão foi o crescimento estratosférico


da dívida do setor, que, hoje, estimamos em R$ 91 bilhões, a estagnação da indústria que está no seu limite de capacidade, o fechamento de dezenas de unidades produtoras, a entrada em recuperação judicial de outras tantas unidades, além do colapso da Petrobras, que perdeu dezenas de bilhões de reais com o subsídio ao preço da gasolina na bomba. Mesmo sendo conservador no mix de consumo de combustível no Brasil, que hoje está – segundo números da Agência Nacional de Petróleo – 45,6% para o etanol, mas que, para efeito de previsão para os próximos cinco anos, assumimos que apenas 35% dos proprietários de veículos leves optaram pelo etanol, o mínimo que o Brasil vai precisar para crescer na produção de cana até 2021/2022 é 105 milhões de toneladas. Isso apenas para a demanda do etanol. E o açúcar? O consumo doméstico deve crescer, até 2021/2022, mais 1,2 milhão de toneladas de açúcar. E o Brasil vai continuar sendo o principal exportador da commodity. A estimativa da Archer Consulting é de que o volume de exportação de açúcar do Brasil deve crescer, em números absolutos, 3 milhões de toneladas em cinco anos. Ou seja, para atender à demanda interna e externa, um volume adicional de 65 milhões de toneladas de cana. Estamos dizendo que, em 2021/2022, o Brasil vai precisar produzir uma quantidade de cana adicional de 170 milhões de toneladas para atender apenas a essa demanda estagnada que está aí.

Quais são as condições necessárias para que isso ocorra? Primeiro, um governo comprometido com a política energética do País. Segundo, transparência na formação de preço dos combustíveis. Não haverá novos investimentos no setor sucroalcooleiro se o preço da gasolina não seguir o mercado internacional, condição única para que se criem instrumentos financeiros que mitiguem o risco de variação negativa de preço (hedge) e permita a transformação do etanol numa commodity. Como essas condições no atual momento da política e da economia brasileira são muito difíceis de serem implementadas, a produção de cana deverá se manter no nível atual até o limite de nossa capacidade instalada, o que equivale a dizer que a demanda por açúcar e etanol será extremamente sensível a preços. Para atenuar a demanda, o governo precisará aumentar o preço dos combustíveis, e esse ato refletirá num valor maior para o açúcar no mercado internacional. Real desvalorizado piora o valor de importação da Petrobras, força mais rapidamente o ajuste no preço da gasolina, aumenta a competitividade do etanol e restringe a oferta de açúcar no mercado internacional, aumentando preços. O ciclo de baixa do açúcar no mercado internacional parece que acabou. As únicas coisas que podem mudar o curso de preços mais robustos para o açúcar, neste momento, são a queda brusca do preço do petróleo no mercado internacional (abaixo de US$ 40 por barril) ou mais uma das intervenções sem pé nem cabeça do governo petista.

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mercado de etanol

mudanças necessárias no

mercado de etanol

No começo de 2015, o cenário sucroalcooleiro abriu bullish (otimista) para os preços do etanol, tanto no calendário civil, como no calendário safra. Depois de árduas negociações do setor sucroenergético com o Governo Federal e estadual, e com ajuda da Frente Parlamentar, iniciamos o ano com parte das reivindicações atendidas. Fatores como o aumento da gasolina no final do ano, a volta da Cide em fevereiro, o aumento da tributação da gasolina em vários estados, a importante alteração da carga tributária em Minas Gerais, a cobrança de PIS/Cofins sobre importação de etanol e a expressiva quantidade de automóveis flex vendidos nos últimos anos indicavam um cenário perfeito para boa remuneração do produtor.

Rapidamente, tivemos forte recuperação nas vendas de etanol hidratado, com a volta da paridade em relação à gasolina, aumentando a participação da energia renovável na matriz do ciclo Otto. No estado de São Paulo, onde a paridade esteve presente na maior parte do tempo, o hidratado alcançou 43% de participação. Nos estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, o etanol também é vendido com paridade abaixo dos 70%, porém se percebeu um crescimento da demanda em todos os estados brasileiros. No mês de agosto último, superamos o recorde de vendas de hidratado que havíamos conseguido em 2009. Apesar de tudo isso, os preços do etanol anidro e hidratado praticados até o inicio de setembro mostravam uma remuneração pior ao produtor em relação à safra passada.

ETANOL ANIDRO e ETANOL HIDRATADO SPREAD E PREÇO

R$/m3

% Spread Spread Média Anual

25% Spread 1.600,00

Preço Etanol Hidratado

20%

Preço Etanol Anidro

1.500,00

1.400,00

15%

12,7%

12,5%

12,0% 11,2%

1.300,00

1.300,70 10%

1.200,00

1.175,50 5%

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jul/15

ago/15

jun/15

abr/15

mai/15

média 14/15 .....

fev/15

mar/15

jan/15

dez/14

nov/14

set/14

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Opiniões Apesar de conhecermos a estimativa de produção de etanol, o mercado não soube cadenciar as ofertas, provocando uma depreciação desnecessária – pelos nossos cálculos, da ordem de R$ 150 por m³, o que foi repassado aos consumidores. Ou seja, devolvemos os benefícios que havíamos alcançado com os ajustes efetuados pelos governos estaduais e Federal. Outra distorção é a precificação do etanol anidro. Quando a Resolução 67 da ANP foi editada, convivíamos com 20% de mistura do produto na gasolina, oportunidade em que os contratos foram precificados com prêmios de 13 a 14% sobre o hidratado. No ano seguinte, a mistura aumentou para 25%, e nós reduzimos o prêmio para 12,5%. Nesta safra, após conquistarmos 27% de mistura, as negociações com as distribuidoras sinalizam prêmio de 10% a 11%. Ou seja, também existe um grande desiquilíbrio na atividade comercial na qual o aumento de mistura está inversamente proporcional à remuneração do produtor. Em síntese, o etanol hidratado está sendo comercializado a preços inferiores à safra passada, e o etanol anidro, mesmo com aumento da mistura e falta de arbitragem nas importações, vem apresentando redução do spread sobre o preço do hidratado. Alterações necessárias para um cenário mais competitivo e remunerador. Defendo a necessidade de buscar um novo indicador para precificação do etanol anidro. Um produto nobre, aditivo da gasolina, com poder de melhorar a octanagem e reduzir a emissão de CO2 na atmosfera, não pode ser precificado ao hidratado. A situação crítica de dívidas de muitas unidades produtoras tem encontrado no etanol hidratado a única forma de liquidez, com a venda antecipada da produção para financiar o capital de giro. Nesse ambiente de negócios, o hidratado foi acertado com preços irreais, com substancial deságio, prejudicando o preço médio divulgado semanalmente pela Cepea/Esalq. Por outro lado, a produção de anidro é feita pelas usinas em melhor situação financeira, que se comprometeram com contratos de fornecimento por 12 meses. A manutenção desse indexador desestimulará as usinas produtoras de anidro, em razão de serem obrigadas a entregar volumes expressivos com preços abaixo do custo.

Resumindo, o etanol anidro não pode ser um redutor no preço de gasolina C; ele deveria custar, no mínimo, o valor da gasolina A no Brasil, pelas externalidades positivas que possui, tanto ambiental como social. Hoje, o etanol anidro deveria valer, ao menos, R$ 2,00 por litro. O impacto desse ajuste na gasolina C faria com que o hidratado também recebesse uma remuneração adicional. Percebo uma preocupação constante dos empresários, investindo em busca de maior produtividade agrícola e maior eficiência na indústria, mas, da porteira para fora, especificamente na comercialização, continuamos muito pulverizados, com centenas de agentes vendendo etanol para um mercado altamente concentrado de compradores. Uma disputa desigual, em que a escala do comprador sempre prevalece. Temos três elementos que representam, na prática, os vendedores (as usinas): • As usinas que vendem diretamente, com visão restrita do mercado, e que vendem o etanol sob os argumentos dos compradores. • No meio, as corretoras e corretores, que procuram etanol barato para atender aos compradores, visando vender rápido e garantir a comissão de corretagem. • E, por fim, as usinas que comercializam em grupos, que têm uma visibilidade melhor do mercado e dispõem de informações que lhes agregam valor. Precisamos fortalecer o modelo de comercialização, buscando equilibrar as forças entre os compradores e vendedores, além de precificação que permita olhar o mercado futuro, sem se prender apenas aos indexadores que retratam a média dos preços realizados no passado.

Precisamos fortalecer o modelo de comercialização, buscando equilibrar as forças entre os compradores e vendedores "

Martinho Seiiti Ono CEO da SCA Etanol

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mercado de etanol

os caminhos do etanol Não temos o petróleo de que necessitamos, não temos as refinarias que precisaríamos ter. O déficit de refino do País está igualmente distribuído entre óleo diesel e gasolina. "

Tarcilo Ricardo Rodrigues

Diretor da Bioagência de Fomento de Energia de Biomassa

O ano de 2015 certamente ficará gravado na história do etanol brasileiro. O ano em que produtores, governo e consumidores redescobriram o combustível renovável, presente em nossa matriz energética desde 1976 – ano de lançamento do Proálcool. Após permanecerem seguidos anos negligenciados pelo governo Federal, o consumidor, pressionado pela inflação que exaure seu poder de compra, encontrou as usinas em uma situação econômico-financeira bastante debilitada, propiciando preços altamente atrativos em relação à gasolina. Com a pressão por fazer caixa, os preços caíram muito nas usinas. A consequência imediata foi a forte migração do consumidor, que, cada vez mais, deixa de abastecer com gasolina em quase todos os estados brasileiros, onde o consumo de etanol, até então, era irrisório. Os estados passaram a consumir volumes significativos de etanol, mesmo quando a relação entre os dois produtos não era tecnicamente favorável ao combustível renovável. Uma nova lógica passou a nortear os consumidores. Os recursos disponíveis passaram a conduzir a decisão pelo combustível. A consequência é que o consumo aumentou em mais de 40% na região Centro-Sul, comparado com o consumo observado na safra anterior. A relação de preços entre o etanol e gasolina na bomba alcançou 61%. O consumo disparou, razão pela qual nos foi questionado, no Seminário da Datagro, qual seria a paridade de preços ideal para equilibrar a relação de oferta e demanda. Qualquer relação inferior a 70% deveria fazer com que o consumidor ratificasse a sua preferência pelo etanol, mas o que vemos é a demanda se comportando de forma bastante expressiva em paridades abaixo de 65%.

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O consumidor sempre buscará uma vantagem além do ponto de equilíbrio, o problema é que essas variações são muito bruscas e incompatíveis com um produto agrícola e sazonal. O objetivo setorial é buscar sempre o crescimento e o aumento da sua participação de mercado. A questão principal é que, dadas as características de nosso produto, isso deve ser feito de uma forma planejada, com muita antecedência. As significativas mudanças ocorridas no curso de uma safra provocarão distorções impossíveis de serem ajustadas, a não ser com alterações bastante radicais, principalmente nos preços. A consequência dessa atitude é ganharmos um inimigo, ou seja, o consumidor, que não entende, e nem tem a obrigação de entender, como funcionam algumas commodities, que, além de tudo, têm seu principal concorrente, no caso a gasolina, até bem pouco tempo atrás, norteando seus reajustes baseados em variáveis políticas e de controle de inflação por parte do Governo Federal. A demanda de combustíveis, que, até 2014, cresceu em níveis de fazer inveja aos chineses, começa a dar sinais de fadiga e crescerá não mais do que 0,5% em 2015. Se repetíssemos o crescimento de 2014 em relação a 2013, da ordem de 7,7%, estaríamos mais perto do abismo do colapso do abastecimento. Não temos o petróleo de que necessitamos, não temos as refinarias que precisaríamos ter. O déficit de refino do País está igualmente distribuído entre óleo diesel e gasolina. As novas e caríssimas refinarias deverão priorizar a produção de óleo diesel, agravando o déficit de refino de gasolina. Passada a instabilidade política e econômica, voltaremos a ter crescimento da ordem de 4% a.a. e demandaremos adicionalmente 12 milhões de m³ de combustível, em gasolina equivalente. Como a frota circulante é predominantemente flexível, esse consumo poderá ser de etanol ou gasolina e dependerá da oferta dos produtos e da relação de preços entre eles. A capacidade de moagem instalada nas usinas da região Centro-Sul, hoje, é de cerca de 600 milhões de toneladas de cana, associada a uma capacidade de produção total de etanol de 30 milhões de m³, incluindo etanol anidro, e de cerca de 36 milhões de toneladas de açúcar.


Opiniões Acima desses valores, há necessidade de pesados investimentos de adequação da moagem e da fabricação de etanol e de açúcar. Mesmo com o aumento do teor de etanol anidro na gasolina, de 25% para 27%, a demanda de gasolina A é maior do que a capacidade instalada de todas as refinarias nacionais, obrigando a Petrobras a complementar a demanda com gasolina importada. Caso a demanda não seja suprida pelo setor sucroalcooleiro, haverá a necessidade de se importar toda essa demanda adicional, compartilhando a limitada infraestrutura de importação e exportação de combustíveis líquidos, agravada pela enorme extensão territorial de nosso País; a consequência natural serão os aumentos dos custos e a desotimização de toda a cadeia. A política de combustíveis do País, ou a falta dela, nos levará a um caos no abastecimento de combustíveis, e, se a demanda não for freada por preços realistas da gasolina, essas distorções só tendem a crescer. Não temos novos projetos de usinas capazes de aumentar a oferta no curto e médio prazo. Não temos mais capacidade de refino de gasolina, razão pela qual continuamos importando gasolina a preços internacionais, que poderão trazer prejuízos insustentáveis à Petrobras, gerando déficits em transações na nossa já combalida balança comercial e nos tornando dependentes do mercado internacional, fato que as refinarias com capacidade ociosa ao redor do planeta agradecem imensamente. A cadeia de suprimentos do etanol é totalmente diferente da gasolina.

A sua produção é pulverizada em diversos estados e municípios do País. Está um pouco mais distante dos grandes centros consumidores. É quase uma logística reversa da gasolina. Por essa razão é que o fomento ao produto, seja ele etanol ou gasolina, não pode ser feito de forma dissociada, mas sim de maneira coordenada. Se começarmos a investir em logística para importação de derivados, em quase nada esses investimentos serão úteis ao escoamento do etanol, caso haja uma mudança ao incentivo do uso do biocombustível. Da mesma forma que investimentos em logística para o escoamento do etanol poderão tornar-se elefantes brancos se a decisão for a prioridade para os combustíveis fósseis. Esse é o grande desafio que vem sendo postergado, imaginando-se que, de forma natural, as forças de mercado serão suficientes para equacionar o problema. Triste engano, trata-se da conjugação, talvez única, de dois modelos de produção: o etanol produzido pela iniciativa privada, com toda a lógica que norteia os investimentos, e, de outro lado, o modelo estatal de produção, em que nem sempre a lógica está associada às decisões. O ponto de convergência desses dois modelos é a bomba de combustível, o qual, pela mais absoluta falta de visão de quem tem a missão de promover o abastecimento do País, poderá tornar uma mercadoria cara e escassa, com consequências danosas a todos os agentes da cadeia de abastecimento.


finanças

Opiniões

uma luz se abriu no

fim do túnel Tenho uma tese de que tudo que prejudicou o setor nos últimos 5 anos criou determinadas situações que, para serem consertadas, vão ajudar bastante a indústria sucroenergética. "

Alexandre Enrico Silva Figliolino Diretor de Agronegócios do Itaú-BBA

A pressão sofrida pelo setor sucroenergético nos últimos anos, fruto de uma série de fatores, provocou um quadro bastante preocupante em relação a uma parte significativa da indústria. Com base em nosso banco de dados, que nos dá informações sobre 65 grupos correspondentes a 427 milhões de toneladas moídas na safra 2014/2015 (ou 75% da moagem do Centro-Sul), fizemos uma divisão das empresas de acordo com a atual situação operacional e econômica/financeira. Essa classificação pode, entre outras coisas, dar algumas indicações do que pode acontecer em termos de movimentos consolidatórios. Pode também orientar e quantificar eventuais ações de políticas públicas e movimentos coordenados de agentes privados, de forma a tentar atenuar os efeitos desta crise sobre a saúde financeira das empresas e, consequentemente, sobre a redução de empregos e contração da produção. Segue a divisão de empresas do setor sucroenergético por grupos, com base na amostra do Itaú-BBA: O restante do setor, que não está na amostra, é composto por 115 empresas – a quase totalidade de pequeno porte –, com moagem conjunta de 144 milhões de toneladas no ano safra 2014/2015.

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Dada a situação, acreditamos que essas companhias encontram-se predominantemente nos grupos C e D. Diante do quadro apresentado, um cenário mais otimista para os preços do açúcar e regras claras para a precificação de combustível no longo prazo poderão disparar um movimento consolidatório face à situação assimétrica do mercado, onde encontramos, de um lado, empresas com musculatura suficiente para iniciar novos ciclos de crescimento e, de outro, companhias que, de alguma forma, não conseguem mais sair do buraco em que se encontram. Acreditamos também que uma ação coordenada de agentes privados, eventualmente apoiados em alguns mecanismos de incentivo governamental, possa, em alguns casos, reorganizar as finanças de empresas que mostrem merecimento. Seriam objetos desse esforço companhias com excelente potencial, na medida em que são operações meritórias e estão fazendo sua lição de casa no que diz respeito à gestão e à governança, adaptando-se aos novos tempos. Como podemos observar, sem a melhora das condições de mercado, não se vai a lugar nenhum.


finanças A recuperação dos preços do açúcar – dependente de condições de mercado –, políticas públicas que deem esperança de remuneração adequada e segurança de regras ao preço dos combustíveis no longo prazo – pode, de fato, mudar completamente o ânimo dos agentes. Tenho uma tese de que tudo que prejudicou o setor nos últimos 5 anos criou determinadas situações que, para serem consertadas, vão ajudar bastante a indústria sucroenergética. 1. Câmbio: os significantes desequilíbrios presentes hoje na economia brasileira, aliados a uma forte mudança nas relações de troca dos produtos que o Brasil importa e exporta, e também à perda do grau de investimento atrelado à destruição da imagem do País junto à comunidade de investidores externos, fazem necessária uma moeda mais desvalorizada por um bom tempo. Para o setor, isso se traduz em uma forte recuperação da competitividade do açúcar brasileiro nos mercados internacionais, que, somado ao aumento do preço da commodity – em função de estar entrando em um período de déficit de oferta em relação à demanda –, produzirá bons frutos aos produtores. 2. Preço dos combustíveis: desmandos, corrupção, investimentos errados e congelamento dos preços de combustíveis levaram a nossa maior empresa a um cenário extremamente grave. Para reverter essa situação, serão necessários cortes nas despesas correntes, drástica redução do ritmo de investimentos, desmobilizações (as condições atuais não poderiam ser pior para isso) e aumento no preço dos combustíveis. A Petrobras possui a maior dívida empresarial do mundo, com altas necessidades de rolagem, o que só será possível se for demonstrado aos investidores que a forma de tomar decisão na empresa mudou para valer e que ela passou a ter condições de ser uma grande geradora de caixa novamente e ter capacidade de reduzir a elevada alavancagem. 3. Emprego: a queda do PIB em 3% este ano e 1,5% em 2016 – para onde apontam as projeções – desencadeará uma taxa de desemprego crescente que deverá atingir, já ao final de 2015, mais de 8%. O setor, mesmo após todo o processo de mecanização agrícola e automação industrial dos últimos anos, continua sendo um grande gerador de empregos. Estímulos ao crescimento neste setor tem condições de dar rápida resposta quanto à criação de vagas de excelente qualidade. 4. Situação fiscal: nosso maior problema, aliás, a mãe de todos os problemas, é o desequilíbrio fiscal. A Cide, pela rapidez com a qual pode ser adotada e sua função de reconhecer, de alguma maneira, as externalidades positivas do combustível renovável em relação ao fóssil, pode prestar uma importante ajuda para as finanças do setor público e, consequentemente, para o setor sucroenergético. 5. Meio Ambiente: a COP21, a se realizar no final do ano, em Paris, implicará que os países assumam metas desafiadoras de emissão de gases de efeito estufa. No Brasil, a redução da queimada de florestas em relação ao passado dará uma grande contribuição, porém a diminuição do consumo de combustíveis fósseis nos meios de transporte e na geração de energia para os quais o etanol e a bioeletricidade são um dos substitutos pode dar uma grande cota de colaboração.

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Opiniões Grupo A: Condição: Campeões nacionais/potenciais consolidadores Quantidade: 10 grupos Moagem Safra 14/15: 119 MM ton Características: Empresas com adequado nível de endividamento/elevado desempenho operacional que, durante estes três últimos anos mesmo sob condições desfavoráveis de mercado, conseguiram reduzir dívida ou continuaram em saudavél processo de crescimento.

GRUPO B: Condição: Sobreviventes Quantidade: 26 grupos Moagem Safra 14/15: 1.159 MM ton Características: Empresas que apresentaram desempenho equilibrado nos últimos anos, mesmo sob condições desfavoráveis, com ligeiro aumento ou redução de endividamento, que nos fazem crer que são sobreviventes nessa crise na medida em que as condições de mercado tendem a melhorar.

GRUPO C: Condição: Na berlinda Quantidade: 24 grupos Moagem Safra 14/15: 115 MM ton Características: Empresas com endividamento elevado e de má qualidade, desempenho operacional insatisfatório aonde a geração operacional de caixa é insuficiente para cobrir o capex de manutenção e o serviço da dívida. Consequentemente, a dívida tem apresentado forte elevação nos últimos anos.

GRUPO D: Condição: Não retorno Quantidade: 5 grupos Moagem Safra 14/15: 34 MM ton Características: Empresas em recuperação judicial ou em reestruturação de dívida.

Mas não podemos nos esquecer de que nem tudo são flores. Elevadas taxas de juros, restrição de liquidez provocada por um ambiente de elevado grau de aversão ao risco, estão trazendo muita dificuldade ao dia a dia das empresas e tornam extremamente ingrata a gestão de níveis elevados de endividamento, ameaçando a sobrevivência de muitos. Mas, com certeza, uma luz se abriu no fim do túnel, e estamos bastante confiantes de que tempos melhores virão.


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operações agrícola e industrial

a viabilidade da

palha

O processo apresenta inúmeras oportunidades de melhorias e requer novas tecnologias, sendo um campo vasto para pesquisadores da área de cana e também fornecedores de máquinas e equipamentos. "

Otávio Lage de Siqueira Filho Presidente da Jalles Machado

O etanol e o açúcar foram, por muito tempo, os principais produtos da indústria da cana. Mas, nos últimos anos, principalmente devido à crise enfrentada pelo setor sucroenergético, as usinas passaram a buscar outras alternativas e a apostar em novas tecnologias, com uso mais eficiente dos resíduos da produção, como o bagaço, a palha e a vinhaça. O bagaço da cana, que, antes, sobrava nas usinas, era vendido a preços baixos, ou utilizado apenas para cogeração de energia elétrica para consumo próprio, hoje tem grande importância. As usinas conseguiram agregar valor ao transformar o bagaço em energia para exportar para o Sistema Interligado Nacional e em etanol de segunda geração. Impulsionada pela crise energética nacional, a cogeração de energia elétrica proveniente da biomassa da cana tem ganho notoriedade, por proporcionar ganhos econômicos e ambientais, e se tornou uma alternativa viável para as usinas. É uma energia limpa e renovável, que gera créditos de carbono. Pode estruturar um Projeto de Redução de Gases do Efeito Estufa (GEE), enquadrado nas normas do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), integrado ao Protocolo de Kyoto, o qual segue a Metodologia Consolidada para a Geração de Eletricidade Conectada à Rede a partir de Resíduos de Biomassa - ACM0006.

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Essa atividade de projeto consiste em aumentar a eficiência no sistema de cogeração a partir do bagaço de cana-de-açúcar. É considerada uma tecnologia limpa, que emite menos gases causadores do efeito estufa quando comparada às termoelétricas a gás natural ou a óleo. Essa redução pode ser mensurada, e, a cada tonelada de CO2 que deixa de ser emitida, gera-se um crédito de carbono que pode ser comercializado com países que tenham atividades mais poluentes. Pela implementação desse projeto, a usina aumenta a quantia de eletricidade gerada e pode vender eletricidade à grade energética do Brasil, evitando o despacho de uma quantia igual de energia produzida por outras fontes, como as derivadas do petróleo. A iniciativa evita emissões de CO2 e contribui para o desenvolvimento sustentável regional, nacional e global. Além dos ganhos ambientais, a cogeração gera uma receita adicional para as empresas e tem se apresentado como uma solução viável para as usinas, principalmente nesse período de crise econômica. A Jalles Machado e a Unidade Otávio Lage têm conseguido alcançar preços compatíveis nos leilões de energia, e isso nos estimulou a investir mais na cogeração, mesmo na crise. Para incrementar a geração de energia, apostamos na palha da cana, cujo potencial energético é elevado, com grande capacidade térmica, de 1,86 vezes maior que o bagaço. Após estudos de viabilidade técnica e econômica, realizamos investimentos da ordem de R$ 7.170.700,00 em equipamentos, para possibilitar o recolhimento da palha, o transporte para a indústria e a sua adição ao bagaço no processo de cogeração.


Opiniões O projeto entrou em operação no início desta safra na Unidade Otávio Lage e gera 54 empregos diretos. As operações de enleiramento e enfardamento são executadas em dois turnos (das 9h às 22h), pois a umidade da madrugada impossibilidade a atividade. Já o transporte de fardos e a trituração são operados 24 horas por dia. Recolhemos 60% da palha que fica no solo em 30% da nossa área total. Uma tonelada de palha gera 0,93 MW (considerando a palha como energia adicional, gerando somente em turbina de condensação). A nossa expectativa é de recolher 40 mil toneladas de palha por ano, que irão gerar mais 37.200 MW. A sazonalidade da retirada de palha não é a mesma da colheita de cana. Nos meses mais úmidos (abril, outubro e novembro), evita-se o recolhimento, porque a palha retém mais umidade, há maior compactação do solo e aumenta o nível de impurezas minerais. Com o início do recolhimento de palha, observamos os seguintes pontos positivos: melhorias na brotação da soqueira, redução de pragas, principalmente das “cigarrinhas” e diminuição do risco de incêndios no campo. A atividade também apresentou alguns aspectos negativos, como a redução da proteção do solo contra a erosão, o aumento da temperatura do solo em função da radiação solar, o aumento da evaporação no solo e a redução da atividade biológica (fertilização natural). Com esse novo processo, é preciso estar atento aos seguintes aspectos e desafios: • maior desgaste na caldeira em função da queima de biomassa com maior concentração de enxofre, cloro e impurezas minerais; • variação da produtividade nas áreas coletadas; • problemas com pisoteio do solo, em função do aumento no número de máquinas operando no campo; • maior necessidade de irrigação nas áreas com palha coletada.

Apesar de existirem projetos mais completos e tecnicamente mais apurados, optamos por uma implementação mais rápida e simples para aproveitar o bom momento de preços da energia elétrica, visando a um maior retorno do investimento. Mas, com certeza, teremos que aprimorar o nosso projeto ao longo do tempo, para corrigir as deficiências que encontramos no primeiro ano de operação. Serão feitos alguns investimentos para reter a poeira gerada no processo de trituração e para automação da alimentação do triturador. Em relação ao pisoteio, vamos acompanhar o impacto que irá trazer para o canavial nos próximos anos e, se necessário, estudar medidas para diminuí-lo. A utilização da palha na cogeração ainda é um processo novo, em desenvolvimento, que pode ser aprimorado e ter custos de produção reduzidos. É importante fazer um estudo técnico observando as particularidades da cultura da cana na região a ser implantado, para se definir a quantidade de palha a ser retirada. O processo apresenta inúmeras oportunidades de melhorias e requer novas tecnologias, sendo um campo vasto para pesquisadores da área de cana e também fornecedores de máquinas e equipamentos. O governo pode incentivar as usinas a investirem no recolhimento de palha para cogeração, com regras estáveis, preços de energia compatíveis e linha de crédito específica para esse tipo de atividade. É mais barato e traz mais vantagens ambientais apoiar a geração de eletricidade através da biomassa do que, por exemplo, ligar as termoelétricas movidas a diesel. O desafio do setor sucroenergético nos próximos anos é conseguir fazer a ampliação do parque industrial e a expansão da cogeração com projetos tecnicamente mais eficientes e que consumam o excesso de bagaço produzido pelas usinas.

No campo, são recolhidos 60% da palha. Os outros 40% ficam na lavoura para proteger o solo. Após a colheita, é realizado o enleiramento da palha.

Na indústria, os fardos são triturados e misturados ao bagaço.

As enfardadoras recolhem a palha.

Essa mistura abastece a caldeira para geração de vapor.

Cada fardo possui aproximadamente 400 kg.

O vapor movimenta as turbinas dos geradores de energia.

Os fardos são recolhidos e transportados para a indústria.

A energia produzida é exportada para o SIN.

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operações agrícola e industrial

Opiniões

evolução da performance

operacional

Mesmo com a dificuldade dos últimos anos, essa análise evidencia uma evolução nas práticas operacionais dos diversos setores da produção, com ganhos significativos na eficiência das operações agrícolas e industriais "

Luiz Francisco L. F. da Silva

Diretor da Benri - Biomass Energy Research Institute

A performance operacional das unidades produtoras de açúcar e etanol está na pauta do dia, pois a crise que o setor atravessa, causada pelas mais diversas razões, faz com que a busca por eficiência seja a bola da vez. Não queremos dizer que a eficiência só esteja sendo buscada neste momento, mas sim constatar a importância de qualquer redução de custo, principalmente em tempos de crise. Nesse cenário, a principal pergunta que temos que responder é onde devemos focar para obtermos o menor custo de produção. Uma das respostas para essa questão é desenvolver as práticas operacionais nos diversos setores da produção, com a finalidade de melhorar as eficiências. Só será possível a evolução das performances

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operacionais, se soubermos onde estamos e aonde podemos chegar, pois a nada levará, se colocarmos todos os nossos esforços em um setor que já está otimizado e deixar em segundo plano outro que necessite de melhorias. O Benri desenvolveu uma metodologia exatamente para fazer essas medições, e, nesta oportunidade, gostaríamos de mostrar os índices de performance médios de várias unidades produtoras contidas no banco de dados Benri. As informações que seguem são baseadas na comparação da safra 2014/2015 com a safra 2015/2016 até o dia 31/08. Na safra 2015/2016, está ocorrendo uma variação significativa nos índices e nos níveis de precipitação, o que deve continuar até o final da safra em decorrência do fenômeno denominado El Niño. As consequências para a safra mais chuvosa são muitas, desde o campo até a indústria, como listaremos.


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Opiniões


QUEM ESCREVE NA REVISTA OPINIÕES:

Em 12 anos de operação, a Revista Opiniões publicou 2.053 artigos exclusivos, escritos pelos mais respeitados especialistas do Brasil e do mundo, sobre 90 diferentes pautas, tornando-se uma das mais respeitadas mídias dos sistemas sucroenergética e florestal do País. Governo e países estrangeiros: 3 Presidentes da República, 2 Candidatos à Presidência, 29 Ministros de Estado, 20 Senadores e Deputados, 18 Governadores, 59 Secretários de Estado, 9 Promotores, 80 Diretores de Autarquias, e 21 Embaixadores estrangeiros

12% 18% 11%

Fornecedores: 362 desenvolvedores de tecnologia Consultores: 236 desenvolvedores de tecnologia

20% 13% 26%

Usinas, Destilarias e empresas florestais: 107 Presidentes, 155 Diretores, 109 Gerentes e 44 Técnicos Entidades: 190 Presidentes e 74 Diretores Universidades e Centros de P&D: 212 Professores, 119 Pesquisadores, 93 Lideres de projetos, e 111 Chefes-gerais, Diretores e Presidentes de Centros de Pesquisas e Desenvolvimento

QUEM RECEBE A REVISTA OPINIÕES:

A Revista Opiniões é enviada nominal e gratuitamente para todos os níveis de comando de 100% das unidades produtoras – incluindo as em projeto ou em construção; universidades e centros de P&D; entidades e órgãos governamentais interessados nas áreas industrial, agrícola e silvicultural; empresas fornecedoras envolvidas na produção de Cana, Açúcar, Etanol e Bioeletricidade, Celulose, Papel, Carvão, Siderurgia, Painéis e Madeira. Sucroenergético:

Florestal:

Fornecedores: 16% Articulistas: 11%

Fornecedores: 16%

16% 11%

68%

5%

Entidades e Governo: 5%

Produtores: 37%: Diretores 22%: Gerentes 41%: Supervisores

Articulistas: 18% Entidades e Governo: 12%

16% 18%

54%

12%

Produtores: 19%: Diretores 32%: Gerentes 49%: Supervisores

QUAIS SÃO AS REGIÕES GEOGRÁFICAS COBERTAS PELA REVISTA OPINIÕES:

Como prova efetiva da tiragem e distribuição realizada, disponibilizamos ao anunciante, cópias das notas fiscais e dos documentos de cobrança da impressão da Gráfica e do despacho dos Correios, além de relatórios quantitativo e percentual da distribuição por estado da federação e por regiões geográficas do país. Se necessário, disponibilizamos à Auditoria da sua empresa uma visita sem aviso prévio, para avaliação física nos sistemas operacionais da nossa Editora. Sucroenergético: 63%: Sudeste 8%: Sul 1%: Norte 12%: Nordeste 13%: Centro-Oeste 3%: DF

Florestal:

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3%

12% 1% 8%

63%

46%: Sudeste 34%: Sul 5%: Norte 5%: Nordeste 6%: Centro-Oeste 4%: DF

4% 6% 5% 5%

Sudeste

46%

Sul Norte Nordeste Centro-Oeste

34%

DF


operações agrícola e industrial A produtividade agrícola está maior. Passou de 80,41 ton/ha na safra 2014/2015 para 90,68 ton/ha na atual safra, e esta tendência deve se confirmar até o final da safra. Por outro lado, a quantidade de ART - Açúcares Redutores Totais contidos na cana está menor, de 141,60 kg ART/ton de cana na safra 2014/2015 para 139,40 kg ART/ton de cana na safra 2015/2016. Até o momento, a produtividade maior, de 12,77%, está compensando a menor quantidade de açúcar contido na cana (1,55%). Esse balanço indica que, até o dia 31/08/2015, se produziram 11,02% a mais de açúcar por hectare de cana, passando de 11.386 kg ART/ha para 12.640 kg ART/ha na safra 2015/2016. Em consequência dessa maior produtividade e do regime hídrico atual previsto para a safra 2015/2016, é grande o risco de haver maior volume de cana bisada para a safra 2016/2017. Também em decorrência de fatores climáticos, esta safra está com florescimento de cana acentuado. Outro ponto importante a ser considerado nesta safra é a sinergia da alta produtividade agrícola com a incidência de ventos, pois está tombando muita cana. Assim, as dificuldades operacionais da colheita estão maiores. Na busca por ganhos operacionais, não podemos deixar de citar a colheita mecanizada, que ainda tem ajustes operacionais relevantes a buscar, como variedades mais adequadas para o sistema, preparo de solo, treinamento de pessoal e evolução na tecnologia de equipamentos para a colheita e o plantio. O somatório de todos esses fatores levaram a ganhos significativos na eficiência da colheita mecanizada, o que demonstra uma evolução nessa operação. Fatores que devem ser observados, que levam a ganhos de eficiência e diminuição de custos, que não podemos deixar de citar aqui, são: a redução do consumo de mudas no plantio mecanizado, o menor consumo de óleo diesel nas colhedeiras, a utilização de todos os recursos que o equipamento (colhedeira) fornece. O que se observa nas auditorias é que nem todos estão sendo utilizados. Não esquecendo a busca de maior eficiência no rendimento de colhedeiras (tempo efetivo de operação), principalmente com o desenvolvimento do sistema de manutenção preventiva. Focando na operação industrial, o índice que mede a eficiência geral da indústria que utilizaremos é o RTC - Recuperado Total Corrigido. Essa eficiência industrial (RTC) subiu, em média, 0,38% nesta safra, passando de 92,16% na safra 2014/2015 para 92,51% na safra 2015/16. Resultado de melhorias nas etapas do processo de produção, como serão demonstrados mais à frente. No mesmo período desta safra, está ocorrendo uma diferença de 6% entre os maiores RTC e os menores (veja os detalhes no quadro em destaque), variação significativa que diferencia as unidades de menores custos para as que passam por maiores dificuldades. O valor médio do aumento do RTC entre a safra passada e esta parece pequeno, mas, só como ilustração, realizamos a seguinte simulação: uma unidade que processa 3 milhões de toneladas de cana na safra com um mix de 50% (açúcar/etanol) e com perdas

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médias no processo de cerca de 10,40%. Considerando os valores médios do preço de açúcar R$ 55,00/saco e do etanol R$ 1,52/litro, os 0,38% correspondem a R$ 1.440.081,30 na safra, que é faturamento a mais com o mesmo custo. Entre as eficiências dos processos intermediários da indústria, a extração que teve o maior aumento percentual foi 0,20%. A média da safra 2014/2015 foi de 95,70% contra 95,89% na atual safra. O melhor desempenho da extração ocorreu pelas melhorias das condições da matéria-prima, que teve uma quantidade de impurezas minerais e vegetais menores (impureza mineral de 9,79 kg/ton em 2014/2015 foi para 8,9 kg/ton em 2015/2016, e a impureza vegetal foi de 81,1 kg/ton para 76,37 kg/ton em 2015/2016), mesmo em um ano mais chuvoso, reflexo de um cuidado maior nas operações. A fibra da cana também está mais baixa, de 12,76% na safra 2014/2015 passou para 12,52% na safra 2015/2016. Essa diminuição de 1,88% foi fundamental na melhoria da extração. Melhorias também foram observadas nas perdas determinadas 0,20%, consideradas aqui as águas de lavagem de cana ou esteira, multijatos, águas residuais, além da torta de filtro. Também ocorreu uma diminuição das perdas indeterminadas, na ordem de 0,13%, justificada pela diminuição do mix de produção para açúcar que caiu de 53,36% na safra 2014/2015 para 49,90% na atual safra, queda de 6,48%. Essa operação diminui perdas por destruição de açúcar no processo de fabricação. Avaliando o risco do volume de chuvas acima do normal, na indústria, principalmente no início desta safra, verificaram-se casos em que se perdeu toda a levedura na fermentação (devido ao excesso de paradas por um tempo longo, a levedura acaba sofrendo mais). Esse problema está quantificado na diminuição do rendimento da fermentação, que foi na ordem de 0,12%. Mesmo com toda a dificuldade enfrentada pelo setor nos últimos anos, essa análise evidencia uma evolução nas práticas operacionais dos diversos setores da produção, com ganhos significativos na eficiência das operações agrícolas e industriais, necessários para a retomada do crescimento e a lucratividade para o setor sucroenergético. Valores máximos e mínimos do RTC da safra 2015/2016, até 31/08/2015 % RTC 96 95 94 93 92 91 90 89 88 87 86

94,92 92,51 89,52

MÁXIMO

MÍNIMO

MÉDIO


Opiniões

novos desafios da

mecanização o Centro-Sul transportou um peso aproximado de 3 milhões de toneladas de terra junto com a cana, a cada ano, a partir de 2008 "

Paulo Zancaner Castilho Diretor da Datagro Alta Performance

O setor sucroalcooleiro tem sentido, nos últimos anos, como demonstrado no quadro Custo de Produção da Cana-de-açúcar na Região Centro-Sul, que houve um aumento muito forte nos custos de produção de cana e seus derivados. Com a base 100 em 2007, chegamos a atingir o dobro do custo em termos reais e, agora, antes dessa alta absurda do dólar, um leve recuo, mas, mesmo assim, um valor muito elevado. Da mesma curva, procuramos entender um pouco essas variações e suas causas. Inicialmente, tivemos uma elevação dos custos de contratação de áreas agrícolas e máquinas na forte expansão pela qual o setor passou no período que antecede 2008, com reflexos também em 2009. Do final de 2009 até o final de 2011, um constante aumento do custo, muito mais por perda de produtividade das lavouras, do que por aumento dos custos dos fatores de produção. No final desse período, houve uma breve retomada, ou fôlego, pelo qual o setor passou, com a volta dos plantios e tratos culturais de uma forma mais intensa, um forte aumento de preços dos insumos, máquinas, equipamentos, etc. Inicia-se aí, então, em 2012, com a retomada da produtividade naquele ano, mesmo que parcial, uma leve caída desses custos relativos. Com a nova queda de produtividade de 2014, um novo aumento. O que levou a essa queda da performance das empresas? Por que se perdeu a mão na produção de cana? Minha maior pista está no novo patamar de utilização da mecanização, tanto no plantio – praticamente invertendo a ordem percentual de 30-70 em 2009 para 70-30 do

plantio mecânico face ao manual em 2014 – quanto na colheita, uma situação ainda mais radical, quando em 2014, praticamente se colhe toda a cana mecanicamente crua, um aumento vertiginoso na utilização de colhedoras e seus sistemas, em um curtíssimo intervalo de tempo, como demonstrado no quadro Colheita Mecanizada na Região Centro-Sul. O fato ruim é que muito dessa migração ocorreu mais em função das normas trabalhistas, como NR-31, e falta de mão de obra agrícola disponível do que de domínio das operações mecanizadas, e também de forma parcialmente impositiva, pela assinatura do protocolo de eliminação das queimadas no estado de São Paulo, além do início de diversos projetos de greenfield que já partiram com 100% do canavial colhido mecanicamente. E é aí que mora o perigo... Mediante a adoção maciça dessa nova prática, tivemos a alteração de alguns índices, dentre os quais destacamos o de: impurezas minerais, com os valores apurados saindo de um patamar médio de 0,7% para um patamar de 1,2% – quase o dobro – sendo que o benchmark desse índice está em torno de 0,3%. Importante lembrar que esse número é referente à terra na cana, ou seja o Centro-Sul transportou um peso aproximado de 3 milhões de toneladas de terra junto com a cana, a cada ano, a partir de 2008(!) e de impurezas vegetais, uma grande variação, ocorrida em função da proibição da queima da cana. Seus índices passaram de 3,5% para 7%. Hoje, quando analisamos a safra do Centro-Sul, nada menos

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operações agrícola e industrial

Durante décadas, o setor evoluiu positivamente em sua produtividade, e, em anos recentes, houve uma ruptura nessa evolução, também em razão de fatores climáticos, doenças, de crise e suas consequências em tratos culturais e idade do canavial, mas, principalmente, pela alteração no modelo de produção adotado pelas empresas e o desconhecimento do que cada ação incorreta provoca nos campos de produção. Se analisarmos o quadro Produtividade Média na Região Centro-Sul, podemos separar o fator climático na queda de produtividade nos anos de 2010 e 2011 e suas consequências nos anos posteriores dos próximos, que eu considero, sofrendo a partir daqui, apenas fatores gerenciais e operacionais. Uma perda de receita CUSTO DE PRODUção DA CANA-DE-AçúCAR nos últimos 5 anos, pela perda de produtividade, na ordem de região centro-sul US$ 5,2 bilhões. Uma bela fonte de financiamento. Daí então finalmente os desafios da mecanização, de recu200 2007=100% perar isso aí tudo com: redução das perdas da colheita, redução das impurezas minerais e vegetais, redução no custo das ope180 rações, redução no consumo de hp/ha, redução no consumo de mudas/ha plantado e a recuperação da produtividade E como fazer? 160 Algumas ações de longo prazo: conceitualmente, todas as máquinas hoje existentes no mercado brasileiro têm o mesmo 140 conceito de corte, uma vez que derivam, em sua origem, do mesmo projeto dos irmãos Toft, da Austrália. As melhorias que 120 ocorreram, e são muitas, o foram na capacidade, potência, resistência, controles, automação, mas o conceito é o mesmo. Até hoje, a cana, para ser colhida, é jogada no chão e arrastada para 100 dentro da máquina, trazendo os malefícios citados. É um con2009 2010 2011 2012 2013 2014 ceito cuja mudança está sendo trabalhada na universidade, mas que vai demorar um pouco para ser alterado, pois o volume colheita mecanizada de vendas dessas máquinas, em torno de 1.000 máquinas/ano, região centro-sul não atrai a indústria de equipamentos para mudanças em seus 100 projetos. No plantio, por outro lado, há uma grande evolução em curso com a Muda Pré-brotada, um sistema muito mais leve e moderno, que vem apresentando bons resultados e deve se consolidar nos próximos anos. 80 E ações de curto prazo, que todos deveriam adotar para recolocar o Brasil novamente no caminho do crescimento da produtividade e rentabilidade. Como exemplo, entre outras: 60 Uso correto da tecnologia do piloto automático na sulcação e colheita, com o correto planejamento dos talhões. Uso do piloto também nos transbordos, evitando o pisoteio. Planejamento prévio do talhão acabando com manobras no 40 seu interior (ruas mortas). Uso de colhedora, senão exclu2009 2010 2011 2012 2013 2014 sivamente, muito bem preparada e extremamente cuidada para colheita de mudas. Uso de equipamento preparado e cuidado para recebiprodutividade média mento das mudas (transbordos ou camiregião centro-sul nhões e a própria plantadora). Extremo cuidado quanto ao emborrachamento das 100 partes móveis da colhedora de mudas, 87 86 85 83 81 80 lembrando que requerem manutenção 76 75 80 74 72 69 68 constante. Evitar pisoteio nos viveiros. • CLIMA A bitola deve ser adequada, mas há tam57 60 51 • TRATOS bém que se preparar os pneus do trator • DOENçAS para a operação de colheita de mudas e • PRAGAS 40 plantio. Avaliação diária, com equipe • CRISE • ALTERAção NO MODELO DE PRODUção treinada, das perdas na colheita e ação 20 U$ 5,172,995,498 • OPERAção INADEQUADA DOS imediata nas causas. É basicamente um EQUIPAMENTOS disponíveis desafio de gestão, pois as ações são conhecidas de todos, não acarretam custos 0 1970 1990 2005 2007 2009 2011 2013 adicionais e tem benefícios imediatos. 1980 2000 2006 2008 2010 2012 2014

PERCENTUAL

PERCENTUAL

que 24 milhões de toneladas, apontadas como cana, não são cana e sim palha, que, ao ser tratada como cana, retira desta muito de sua qualidade industrial, ainda mais quando polvilhada com a enorme quantidade de terra que vimos anteriormente. Esse resultado é, na minha visão, tão somente o fruto de um planejamento deficiente na adoção da mecanização. São 24 milhões de toneladas que não produzem açúcar, aliás, retiram açúcar do colmo da cana e o transferem para as caldeiras. Estamos literalmente queimando açúcar.

Opiniões

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competitividade do etanol com a gasolina

Opiniões

o consumidor

esse ilustre desconhecido Precisamos mirar o consumidor, trazê-lo para o nosso lado, conquistar sua mente e seu coração, buscar mecanismos que tragam estabilidade de preços e que possam transmitir o real valor agregado de nosso produto. "

Jucelino Oliveira de Sousa Presidente da Usina Coruripe

O etanol, depois de anos de ostracismo e queda nas vendas, voltou finalmente ao noticiário, não necessariamente pelas suas externalidades positivas (vantagens ambientais, auxílio à balança comercial, indutor de desenvolvimento no campo, etc.), mas sim como alternativa de solução para o crescimento incontrolável das importações de gasolina, para auxiliar as contas públicas e para melhorar a saúde financeira da Petrobras. Ou alguém acredita que os recentes aumentos de preço da gasolina e a volta da Cide foram para ajudar o setor? O retorno da paridade com a gasolina, principalmente em MG, onde houve a redução do ICMS do etanol hidratado, catapultou o consumo, trazendo a demanda para patamares nunca antes vistos na história desse País. Infelizmente, o dogma existente era que bastava a paridade na bomba para resolver o problema do etanol; isso se tem mostrado falso, pois, mais importante que o market share (participação de mercado) do etanol no total das vendas de combustíveis do ciclo Otto é o profit share

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competitividade do etanol com a gasolina (participação nos lucros), e, nesse aspecto, o setor tem tomado um verdadeiro 7x1 dos demais elos da cadeia de comercialização. Muito pouco ou quase nada se aproveitou dos aumentos de preço da gasolina, e, sem margens positivas, o setor não vai sair do atoleiro. Os aumentos de preços realizados pela Petrobras, a redução do ICMS em alguns estados e a volta da Cide não significaram aumentos de margem para as usinas, basta se observar o comportamento do índice Esalq na safra 2015/2016 comparativamente à safra 2014/2015: vendemos nessa safra em níveis inferiores ao da safra passada. Nesse “cabo de guerra” entre usinas e distribuidoras, prevaleceu a força das distribuidoras, que aproveitaram a oportunidade para renegociarem os contratos de anidro, reduzindo o prêmio sobre o hidratado, e alinharem as margens do hidratado com as que eram praticadas na gasolina, ou seja, para as distribuidoras e para os postos, a troca da gasolina pelo etanol na preferência dos consumidores foi vantajosa, pois passaram a ter as margens parecidas, em números absolutos, num produto que custa menos e que exige menor investimento em capital de giro (os prazos praticados pela Petrobras na venda de gasolina não passam de 8 dias, e o custo financeiro é altíssimo). As razões pelas quais o setor não consegue reter as margens quando as oportunidades aparecem são conhecidas: poucos compradores e muitos vendedores; frágil situação financeira das usinas, o que exige que se venda o almoço para comprar o jantar; falta de linhas para financiar o carrego do estoque; vários agentes ofertando o mesmo produto (em alguns momentos, existe mais produto ofertado no mercado que a quantidade fisicamente disponível); quase nenhuma interação com o consumidor; e uma estratégia baseada exclusivamente em preço. Alguns podem alegar que incentivar o consumo era importante e que o preço já começou a subir, verdade, mas quem realmente está aproveitando essa subida de consumo? O aumento dos preços no momento e na entressafra está mais ligado à perspectiva de escassez de produto do que pelas oportunidades que foram criadas. Apenas as (poucas) empresas muito capitalizadas aproveitarão esse momento; as demais ficarão chupando o dedo e ainda terão que escutar do consumidor e dos veículos da imprensa que nunca se ganhou tanto dinheiro como agora com etanol e que todos os problemas do setor foram resolvidos. Quase tive um troço ao assistir recentemente a uma matéria num telejornal onde se falava que, depois do último aumento da Petrobras, várias usinas fechadas irão reabrir; só podia ser brincadeira, e de muito mau gosto, ou alguém acredita que a solução de nossos problemas estava em 6% de aumento de preço na gasolina? O setor precisa despertar para o fato de que o consumidor não compreende essa volatilidade de preços, ele não associa o etanol aos demais produtos agrícolas, como tomate ou batata, que sobem de preço na entressafra; ele associa o etanol à gasolina, que sobe de preço uma vez por ano e cujo percentual de aumento é anunciado no Jornal Nacional. Esse sobe e desce de preços é interpretado como especulação, ganância dos empresários do setor, sendo penalizado da forma mais cruel possível: a infidelidade do consumidor e o seu desprezo pelo segmento. Precisamos mirar o consumidor, trazê-lo para o nosso lado, conquistar sua mente e seu coração,

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Opiniões

buscar mecanismos que tragam estabilidade de preços e que possam transmitir o real valor agregado de nosso produto. Para isso, precisamos também refletir que são as distribuidoras as donas das prateleiras para a venda de nossos produtos, no caso, os postos de combustíveis. No modelo vigente, nós, usinas, não temos como chegar ao consumidor diretamente sem a ajuda desse elo importante da cadeia, portanto precisamos quebrar paradigmas que colocam usinas, distribuidoras e postos em lados opostos e pensar em soluções que criem sinergias que possam ser capturadas por todos os agentes. Sem dúvida, existem diferenças de difícil conciliação entre os dois lados – dividir a margem integral da cadeia é a principal delas –, porém, hoje, tenho certeza, existem muito mais afinidades do que diferenças. Penso que, uma vez que nos organizarmos melhor comercialmente e os pontos convergentes forem tratados dentro de uma agenda positiva de discussões, poderemos sim chegar à conclusão de como remunerar de forma justa toda a cadeia, visando não apenas garantir o crescimento da demanda, mas também trazer benefícios ao consumidor. Focar apenas em preço, apesar de reconhecer a força avassaladora dessa variável, considero uma visão míope e não sustentável. Alguns exemplos de cooperação: as campanhas publicitárias enaltecendo os benefícios do etanol poderiam ser feitas em conjunto com as distribuidoras; promoções específicas para o produto poderiam ser desenvolvidas pelos dois lados, utilizando-se melhor a comunicação no ponto de venda; atualmente, quase todas as distribuidoras possuem programas de fidelidade, os quais poderiam dar um tratamento diferente ao etanol; a simples disposição das bombas no layout dos postos, preferenciando o etanol, já traria impactos no consumo; a venda de etanol com prazos diferenciados, através de parcerias com as operadoras de cartão de crédito, também é uma alternativa. Quanto ao que compete às usinas, poderíamos auxiliar ainda mais no combate à sonegação no etanol hidratado que, diga-se de passagem, já caiu drasticamente nos últimos anos; na solução dos entraves logísticos; na melhor utilização da infraestrutura de armazenagem e nas garantias de suprimento. Resumindo: além de uma política energética de longo prazo, maiores incentivos ao consumo nos estados produtores, investimentos em tecnologia, melhoria da logística e aumento da produtividade por parte das usinas. Acredito fortemente que uma das alternativas para a recuperação do setor passa também por uma relação mais moderna e parceira entre a indústria, no caso as usinas, e o varejo, no caso as distribuidoras e postos. Muito se fala num imposto ambiental para os combustíveis fósseis, e o aumento da Cide tem sido a principal bandeira do setor. Ela é justificável e necessária, desde que realmente represente melhoria nas margens do segmento, pois, aparentemente, a demanda atual e futura não deverá ser o nosso principal problema. Criar condições para capturar as margens sem sobressaltos de preço é o nosso grande desafio. Continuar da forma atual, suprindo essa demanda crescente, com margens negativas durante a maior parte da safra e pela maior parte das usinas em operação no País, só tem um significado: o imposto ambiental já existe no Brasil, porém só quem paga são as usinas.


competitividade do etanol com a gasolina

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mercado de etanol e sua potência No final do ano, os olhos do mundo estarão voltados para a COP21, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, que acontecerá na França. O evento prevê fechar um novo acordo para diminuir a emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, limitar o aumento da temperatura global em 2 ºC até 2100. Nesse sentido, uma das principais medidas anunciadas pelo governo brasileiro é incrementar a participação de bioenergia para cerca de 16%, elevando o consumo de biocombustíveis. O governo brasileiro está atento à necessidade de investir no etanol e já colocou em prática algumas medidas que beneficiam o setor, como o retorno da Cide e o aumento da mistura do anidro na gasolina, que passou de 25% para 27%. Nesse contexto, podemos afirmar que o mercado está propício para o etanol, mas será que as empresas estão preparadas para esse crescimento? Até o final de 2015, a participação do biocombustível deve alcançar 42%, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Hoje, um dos grandes desafios do setor é manter o estímulo aos produtores. Atualmente, em razão da crise econômica, algumas empresas reduziram os investimentos, o que traz consequências diretas a toda a cadeia, responsável por importante parte do processo produtivo do biocombustível, a plantação. Trata-se de uma questão vital para a sustentabilidade do setor e para a qual o governo deve se atentar. As empresas também estão cientes da parcela de responsabilidade nesse trabalho e, por isso, algumas companhias vêm trabalhando para que os fornecedores de cana tenham acesso às mesmas oportunidades que as grandes produtoras. Um exemplo disso é o Programa Cultivar, liderado pela Raízen. Há dois anos, a companhia criou o projeto, considerado pioneiro no setor, que visa ao compartilhamento de técnicas agronômicas com parceiros – por meio de palestras, treinamentos em campo, redução de custos na compra de insumos, equipamentos e na obtenção de linhas de crédito. Atualmente, esse grupo contempla 286 fornecedores, o que representa 74% da produção de cana comprada pela companhia.

O trabalho reforça o bom relacionamento e o investimento em fornecedores independentes, o que garante a competitividade do processo de produção e suprimento de matéria-prima para as indústrias, fator determinante para o sucesso do setor. Para que o segmento mantenha um crescimento sustentável, há muito investimento em pesquisa, tanto na área industrial como na agrícola. A aposta mais promissora é o etanol de segunda geração, que permite o aumento de até 50% da produção na mesma área plantada. Gerado a partir do processamento do bagaço, folhas e palha da cana-de-açúcar, o biocombustível é um marco no setor e vai favorecer as próximas gerações e a competitividade do Brasil no longo prazo. O etanol produzido com esse processo é idêntico ao etanol de primeira geração, portanto não há nenhuma limitação no uso como combustível ou matéria-prima industrial. Além disso, por se tratar de um combustível “avançado”, é possível encontrar nichos de mercado com preços mais atraentes. Com o produto, o País se tornará referência em sustentabilidade e energias renováveis no mundo. Outro exemplo que traz benefícios ao setor é o plantio da cana-de-açúcar por meio da utilização da tecnologia GPS. O serviço possibilita o aumento do número de ruas plantadas por hectare e diminui as curvas de nível, tendo como resultado a disponibilização de uma área útil maior. Esse novo projeto viabiliza a diminuição do custo de corte mecanizado ao aumentar a produtividade das colhedoras, em função do melhor planejamento do terreno e da diminuição de áreas de manobras, o que também pode reduzir as perdas e o pisoteio do canavial – fatores que impactam diretamente a produtividade. Presente no nosso dia a dia desde 1975, o etanol é um importante insumo que pode auxiliar o Brasil a crescer. Temos como desafio fazer com que o combustível se mantenha competitivo em larga escala. É necessário manter um planejamento de crescimento sólido, com incentivo do governo e investimentos das empresas, para que o setor siga evoluindo e que o produto assuma seu lugar de destaque no cenário econômico brasileiro.

a Raízen criou o projeto ‘Programa Cultivar’, que visa ao compartilhamento de técnicas agronômicas com parceiros, que hoje contempla 286 fornecedores, que representa 74% da produção de cana comprada pela companhia "

Pedro Isamu Mizutani

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Vice-presidente de etanol, açúcar e bioenergia da Raízen


competitividade do etanol com a gasolina

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biocombustível: cada vez mais valorizado O etanol à base de cana-de-açúcar tornou-se uma das mais importantes conquistas da sociedade brasileira ao longo do tempo, não só do ponto de vista econômico, uma vez que gera divisas importantes para o PIB nacional, mas também ambiental, como a primeira fonte de energia renovável para transporte do País e, hoje, uma das maiores responsáveis pela redução de emissões de gases CO2. Por tudo isso, o etanol brasileiro atingiu uma qualidade tamanha, que hoje é reconhecido no mundo todo por sua qualidade e eficiência ambiental. Órgãos ambientais dos Estados Unidos classificam nosso biocombustível como avançado e que, dentre os existentes, é, sem dúvida, o que melhor contribui para o meio ambiente. Podemos ir muito além. Por causa dessa qualidade e do constante trabalho de pesquisa e desenvolvimento para tornar o etanol brasileiro cada vez melhor, há ainda mais oportunidades para o biocombustível de cana-de-açúcar nos Estados Unidos, principalmente com a reativação integral do Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS). Segundo estimativas da Datagro, o País deve enviar cerca de 908 milhões de litros de etanol para a Califórnia em 2016 – de janeiro a setembro deste ano, os EUA receberam 575 milhões de litros do Brasil. Obviamente, as vantagens ambientais são um diferencial muito importante nessa equação. Com as emissões indiretas pelo uso do solo (lluc), o California Air Resources Board (Carb), órgão que atua como uma espécie de agência de energia limpa do estado norte-americano, trocou seu modelo de análise e passou a considerar valores de lluc significativamente menores para etanol de milho (de 30 para 19,8), etanol de cana-de-açúcar (de 46 para 11,8) e biodiesel de soja (de 62 para 29,1). Como o lluc é o principal fator de emissões no cálculo da intensidade de carbono (CI) do etanol, índice que mede o quão ambientalmente correto é um combustível, o biocombustível brasileiro é muito vantajoso, pois oferece benefícios comerciais, como o pagamento de prêmios por ser uma opção mais limpa. O fator ambiental também tem tornado o etanol mais competitivo no Brasil. Diferentes estados do País – com destaque para SP e MG – já possuem políticas que diferenciam as alíquotas de

ICMS incidentes sobre o combustível renovável e limpo e sobre o combustível fóssil e poluente. Em MG, por exemplo, a diferença de alíquota entre os combustíveis é de 15%. Já em SP, é de 13%. Tal cenário reflete uma tendência mundial. A criação de impostos ambientais que favoreçam biocombustíveis em detrimento do combustível já começa a ser uma realidade. Hoje, já se fala na criação de um imposto verde, criando uma taxa ambiental sobre a gasolina, o que tornará o etanol ainda mais competitivo e vantajoso. A possível implementação do imposto verde proporcionará mais visibilidade e estabilidade para o setor sucroenergético brasileiro, refletindo em estímulos e mais investimentos para atender a uma nova demanda por combustíveis para veículos leves. É importante ressaltar que esses investimentos serão necessários para atingir as expectativas do Ministério de Minas e Energia de entregar 50 bilhões de litros de etanol até 2030. Algo que, hoje, requer um ambiente regulatório estável e que beneficie os combustíveis renováveis. Para atingir os objetivos do governo, a produção de cana-de-açúcar deverá crescer em cerca de 1 bilhão de ton, com ganhos de produtividade das atuais 73 para 95 ton/ha. Para isso é preciso continuar os investimentos em avanços tecnológicos e reativar a indústria de base, incorporar novas tecnologias; estimular a pesquisa e o desenvolvimento de novas variedades em virtude da expansão da área plantada e valorizar a tecnologia dos carros biocombustíveis. Vale lembrar que esses investimentos vão gerar uma importante contrapartida social e ambiental. Tal movimentação poderá incrementar a criação de empregos de qualidade no interior do País (uma usina com capacidade para moer 3 milhões de toneladas emprega diretamente 2,5 mil funcionários), sem falar na geração total de mais de 750 mil postos (diretos e indiretos); aumento do potencial de cogeração a partir do bagaço de cana; e economia de divisas por reduzir as importações de gasolina e ter excedentes para exportação. Além disso, o Brasil reduzirá as emissões de CO2 em 571 milhões de toneladas, volume equivalente a quase três vezes o total emitido por combustíveis fósseis no setor de transporte brasileiro em 2012. Segundo estudos da consultoria Agroicone, os benefícios ambientais estimados pelo uso do etanol representam R$ 0,60 por litro. A criação dessa política de inventivo do consumo e produção do etanol é urgente, uma vez que, para a construção de uma nova usina, é necessário um intervalo de pelo menos quatro anos entre a decisão de se construir e a plena utilização de sua capacidade. O Brasil tem como atingir as metas da nova política ambiental destinada aos combustíveis para transporte determinada pelo governo brasileiro para a COP 21 em Paris. O País tem a oportunidade de assumir uma posição de protagonismo na luta por um mundo mais sustentável.

o Brasil reduzirá as emissões de CO2 em 571 milhões de toneladas, volume equivalente a quase três vezes o total emitido por combustíveis fósseis no setor de transporte brasileiro em 2012. "

Jacyr da Silva Costa Filho

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Diretor Região Brasil do Grupo Tereos


Jacyr da Silva Costa Filho Diretor RegiĂŁo Brasil do Grupo Tereos


estratégia do setor sucroenergético

energia para mover um novo Brasil Mas se déssemos conta de que as chances de retomada têm passado por nossas mãos (...) Não seria motivo para desespero perceber que estamos perdendo algo que deveria ser abraçado, agarrado com unhas e dentes? "

Manoel Carlos de Azevedo Ortolan Presidente da Orplana e da Canaoeste

Em períodos difíceis, como o que passa hoje a economia brasileira e o setor sucroenergético do País, as oportunidades de reverter a situação parecem se esconder, fugir do alcance dos olhos. A conjuntura exige muita coragem, determinação e eficácia para garantir resultados e uma sobrevivência ameaçada a todo instante. Nessa árdua missão, se as tais oportunidades não aparecem, é preciso correr atrás delas, muitas vezes criá-las, produzi-las, cavando novos espaços, preenchendo novas demandas. Mas e se nos déssemos conta de que as chances de retomada têm passado por nossas mãos e não temos conseguido segurá-las, deixando escapá-las por entre os dedos? Não seria motivo para desespero perceber que estamos perdendo algo que deveria ser abraçado, agarrado com unhas e dentes? Pois bem. As respostas para essas duas questões bem que poderiam ser mais animadoras. Primeiro, porque a luz no fim do túnel que tanto esperamos acender já existe há tempos. E segundo, porque tem capacidade para nos presentear com um brilho firme e forte. O problema é que vem sendo severamente ofuscada por decisões equivocadas do Governo Federal nos últimos anos. A energia elétrica gerada a partir da biomassa da cana-de-açúcar tem um excelente potencial para atender às mais urgentes necessidades para o crescimento do País, principalmente em épocas de baixo volume hídrico, mas, infelizmente, tem sido negligenciada, tratada de forma irresponsável, a exemplo de outros produtos do setor sucroenergético. Basta lembrar o quanto o etanol, combustível que é um tesouro para o Brasil, por representar uma tecnologia sustentável, sofre as consequências de uma política mal planejada de preços para a gasolina. Diante desse cenário, apostar na bioeletricidade seria uma forma de a esfera pública federal assumir que está disposta, pelo menos, a atenuar os efeitos dos recentes desmandos cometidos com um setor que emprega diretamente 2,5 milhões de pessoas (mais de 1% da população nacional), reúne cerca de 400 usinas, 80 mil fornecedores de cana e 4 mil indústrias de base, distribuídos em 600 municípios.

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Uma cadeia e tanto, que mereceria, no mínimo, um respeito proporcional, à altura de sua importância. Medidas como o retorno da Cide (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico) e o aumento do etanol misturado à gasolina foram ações paliativas diante das urgentes necessidades do segmento canavieiro. Não que as perspectivas para os próximos anos sejam estritamente pessimistas. Pelo contrário, há esperanças, como as previsões de enxugamento dos estoques internacionais de açúcar, que devem melhorar os preços, e o alto consumo de etanol no mercado interno – nos seis primeiros meses deste ano, as vendas subiram 38,3% na comparação com o mesmo período de 2014. Valorizar as externalidades positivas dos subprodutos da cana-de-açúcar não seria, porém, uma forma de recompensar exclusivamente a história de desenvolvimento que o setor sucroenergético propiciou ao Brasil, mas um sinal de respeito com o próprio País, visando a uma nova guinada econômica e social. Os motivos que justificam uma aceleração da cogeração de energia são evidentes, por expressarem inúmeras vantagens. Vejamos: 1. A eletricidade produzida no Brasil a partir do bagaço e da palha da cana é de alta qualidade, tendo em vista que o Brasil é líder mundial em tecnologia de produção da matéria-prima, além do que essa alternativa complementa a sazonalidade do parque hídrico instalado, fator primordial diante da escassez de água que atravessamos. Em 2014, a eletricidade produzida nas usinas sucroenergéticas permitiu poupar 13% dos reservatórios espalhados pelo território nacional. Não fosse esse recurso, os efeitos da longa estiagem teriam sido ainda mais nocivos e preocupantes. 2. É muito mais barata em relação ao que o governo gasta, atualmente, com térmicas a energia fóssil, cujas tarifas variam de R$ 800,00 a R$ 1.700,00 o MWh. Nos leilões do último mês de agosto, com energia contratada para 2018, o preço teto para a eletricidade de biomassa foi de R$ 218,00 o MWh. Segundo a Datagro Consultoria, uma tarifa de pelo menos


Opiniões R$ 300,00 o MWh, se fosse autorizada, já seria suficiente para a cogeração se expandir rapidamente. 3. Investir na cogeração, por meio de um programa bem estruturado para o financiamento de caldeiras (retrofit), que é tão almejado pelo setor para que as usinas renovem seus parques industriais, faria com que mais unidades passassem a vender seus excedentes para a rede – hoje, são cerca de 170 usinas, o que corresponde a menos de 50% delas – e, de quebra, impulsionaria a recuperação de municípios que dependem da indústria de base, como Sertãozinho-SP, que tem feito demissões em grande número. Só de janeiro a agosto de 2015, foram mais de 1.500. Sem contar as vagas fechadas durante todo o ano passado, que somaram quase 2.300. 4. Aproveitar o potencial da cogeração evitaria desperdícios ao trazer energia de regiões distantes, já que as usinas sucroenergéticas estão próximas aos maiores centros de consumo. As perdas, em torno de 10% a 15%, se explicam porque a energia precisa, em muitos casos, viajar mais de dois mil quilômetros até chegar aos lugares onde será utilizada. Com um pequeno investimento de programas governamentais para fazer a conexão das usinas à rede, o Brasil seria capaz de economizar o que se gasta nessa transmissão de excedentes de sistemas isolados. Essa possibilidade poderia, ainda, ser aliada a novas tecnologias, como a biodigestão, que gera, a partir de resíduos da cana, gases como o biometano, que, de maneira eficiente, poderia substituir o diesel, tornando possível a geração de eletricidade com ainda mais ganhos. O que mais impressiona, frente a esses fatores, é que, enquanto a maior parte do planeta, preocupada em encontrar soluções para adequar-se às exigências ambientais, financiam pesquisas para a obtenção de tecnologias capazes de levar a humanidade a um novo ciclo de desenvolvimento, com sustentabilidade, o Brasil parece retroagir. A falta de regras claras que posicionem o etanol e a energia elétrica da biomassa na matriz energética tem provocado a descontinuidade na contratação de eletricidade de biomassa nos leilões públicos, principal porta de entrada para o produto no mercado, e reduzido a capacidade instalada do setor sucroenergético. Em 2010, de acordo com a Unica – União da Indústria da Cana-de-açúcar, ela era de 1.750 MW, correspondente a 12,5% da Usina Hidrelétrica de Itaipu, a segunda maior do mundo, atrás apenas da chinesa de Três Gargantas. Em 2011, o número caiu para 919 MW, em 2012, para 917 MW, subiu um pouco em 2013, para 1.431 MW, mas caiu novamente, para 1.022 MW, em 2014. Para este ano, a previsão é de 538 MW, e a média entre 2016 e 2020 deverá ficar apenas em 158 MW, índice ínfimo considerando que, com o crescimento brasileiro projetado para 5% ao ano nas próximas décadas, o País vai precisar de uma Itaipu a cada dois anos. Fato é que, neste período de intensas dificuldades que estamos vivendo, não precisamos encontrar oportunidades mirabolantes. A cogeração de energia a partir do bagaço e da palha da cana está aí, pertinho dos nossos olhos, na palma da nossa mão. É preciso, no entanto, acreditar nela e na chance única de mudar, verdadeiramente, com medidas simples e vontade política, a história do nosso Brasil.

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estratégia do setor sucroenergético

Opiniões

é hora de pensar o futuro do setor O planejamento estratégico é uma das ferramentas mais importantes de uma empresa moderna. É a partir dele que se traça aonde se quer chegar e o que será feito no curto, médio e longo prazo, balizando a tomada de decisão. É preciso se adiantar ao mercado e prever tendências. Uma empresa que não tem planejamento se move ao sabor do acaso e não se sabe onde ela pode parar. É preciso ter objetivos e saber focar as questões estratégicas. Se isso for negligenciado, a empresa vai perder o rumo, ficar estagnada, desaparecer. Mergulhado em uma de suas maiores crises e a mais duradoura, o setor sucroenergético perdeu o rumo, tamanhas são as dificuldades. Estamos muito centrados na grave situação e não estamos tomando o cuidado de ver um pouco além. Não podemos nos tornar uma espécie de bombeiro e ficar apagando “incêndios” toda vez que um novo problema surge. É preciso também buscar as origens desses problemas, traçar estratégias, estabelecer metas, questionar uma série de aspectos. Pensar o setor e buscar saber precisamente a resposta para as perguntas certas pode fazer toda a diferença. É preciso sim pensar em medidas de curto prazo, como o retorno da Cide sobre a gasolina, nos mesmos níveis de quando foi criada, e um refinanciamento da dívida das usinas, e, no médio prazo, com o investimento em cogeração, recuperação da produtividade e em eficiência logística. Mas não podemos deixar de lado as medidas de longo prazo, como a definição da matriz energética, a inserção do etanol no mercado mundial, tornando-o uma commodity, além de outras opções tecnológicas e de políticas públicas que assegurem os investimentos, pois um combustível renovável e ecologicamente correto como o etanol é estratégico a qualquer nação. Há quantos anos estamos com veículos que consomem um litro de combustível a cada 6, 7 ou 10 quilômetros rodados? Evoluiu-se muito pouco nesse ponto. Naturalmente, em função do tamanho da frota de veículos a combustão, que, hoje, ainda é grande, e a rede de abastecimento necessária para se viabilizar qualquer alternativa, será necessário um bom tempo até a substituição desta por outra matriz energética ou tecnologia, dentre as que têm surgido no mercado. Mas esta virá e é preciso planejamento para isso. Na última reunião do G-7, os países integrantes assumiram o compromisso de promover o uso de energia limpa, e certamente todos buscarão limpar seu combustível. Vemos aí uma grande oportunidade de o etanol emplacar como aditivo, limpando o combustível fóssil. A escala de produção do etanol já é significativa, e, com a tecnologia etanol de segunda geração, as perspectivas são ainda maiores. Creio que o crescimento da frota a combustão continuará ainda por um bom tempo, demandando muito aditivo. Porém o uso do etanol puro acaba sendo um luxo.

Será que não devemos nos adequar ao modelo utilizado no mundo todo, que é como aditivo? É preciso pensar num cenário com um combustível único, um E70 ou E80, com a possibilidade de flexibilizar essa mistura durante a safra, pois a agricultura depende de condições climáticas que nem sempre são favoráveis. E, conforme o aumento da frota nacional, reduzir de forma gradativa essa mistura até os 27%, transformando o etanol em um aditivo nobre, que tem reconhecidos seus benefícios ambientais e para a saúde e que seja precificado como aditivo que melhora e limpa o combustível fóssil. Quanto ao açúcar, este tem sofrido severas críticas de produtos concorrentes, que não são tão saudáveis quanto dizem. Também tudo indica que, em breve, haverá uma retomada nos preços da commodity no mercado internacional. E aí, é preciso lembrar que nós produtores temos a responsabilidade de assegurar o abastecimento de etanol, planejando a produção com equilíbrio para evitar transtornos na oferta de etanol ou incorrer no risco de arrasar o mercado de açúcar, a credibilidade do setor e, consequentemente, as empresas. Mas, mesmo que a situação melhore, não podemos fechar os olhos e nos acomodarmos com o “queijo” que nos é oferecido. Todos sabem que o desenvolvimento do carro elétrico sempre foi tolhido, por interesse das grandes montadoras e das petroleiras. No passado, nos anos de 1960/1970, a GE já tinha um protótipo de um carro elétrico desenvolvido. Mas este foi comprado por aquelas e literalmente derretido. Hoje, temos outros atores nesse cenário. Na era digital, da indústria da informática, com grande poder econômico e intelectual, os avanços tecnológicos caminham num outro ritmo. Essas empresas estão investindo fortemente em um veículo elétrico movido por energia solar. Já o fizeram. É uma questão de tempo para torná-lo viável comercialmente, com autonomia de 400/500 km e recarga rápida, bem como baterias menores e mais leves. O SmartCar ou iPhone com rodas. Quanto tempo ainda temos? O que faremos? Todos os participantes dessa cadeia produtiva precisam se unir e pensar o futuro. E, com as metas estabelecidas, agir, deixando de apagar incêndios.

Nos anos de 1960/1970, a GE já tinha um protótipo de um carro elétrico desenvolvido. Mas este foi comprado pelas grandes montadoras e literalmente derretido. "

Miguel Rubens Tranin

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Presidente da Alcopar, Sialpar, Siapar e Sibiopar


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estratégia do setor sucroenergético

o valor da

entidade de classe setorial

Uma crise tão aguda como esta se torna ideal para uma reflexão setorial que pode levar, muitas vezes, à quebra de vários paradigmas históricos. "

Mário Ferreira Campos Filho Presidente da Siamig

É muito comum ser abordado em várias conversas com a pergunta sobre a função da Siamig, entidade que tenho a honra de presidir. Em geral, inicio a resposta dizendo que a Siamig atua institucionalmente na defesa dos interesses das agroindústrias produtoras de etanol, açúcar e bioeletricidade de Minas Gerais. Esse é o principal papel das entidades de classe setoriais perante os diversos stakeholders. Mas não se limita a isso. Há um grande trabalho de assessoria e de comunicação associado ao trabalho diário. Nas entidades de classe, busca-se o ganho coletivo setorial e, por isso, é extremamente importante a participação de todo agente do setor produtivo, seja contribuindo financeiramente para a manutenção das estruturas, seja presencialmente, para a construção de uma entidade cada vez mais forte, representativa e alinhada com as necessidades do setor. No Brasil, a história da representação de classe inicia-se com o modelo sindical, com a separação da representação dos empresários e empregados, o velho embate entre capital e trabalho. Atualmente, esse modelo se moderniza, se inova, ganhando grande força com a constante profissionalização da atividade. Esse é um grande diferencial do segmento sucroenergético, em que a profissionalização da gestão setorial foi uma decisão tomada há muitos anos, o que gerou maior comprometimento das lideranças na busca de resultados efetivos para a agroindústria canavieira.

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Derivadas desse modelo sindical brasileiro, erguem-se com grande importância as federações estaduais bem como as confederações, entidades robustas e com recursos financeiros que presam pela luta na defesa dos interesses da indústria e da agricultura no Brasil, da qual faz parte a atividade agroindustrial do setor sucroenergético. A capilaridade do setor sucroenergético no Brasil, aliada ao nosso modelo sindical de representação estadual, faz com que nosso setor tenha mais de uma dezena de entidades representativas fortes e atuantes, que, diariamente, fazem um trabalho na defesa dos interesses da nossa agroindústria. Há mais de 10 anos, foi tomada uma decisão acertada de se criar o Fórum Nacional Sucroenergético, que reúne em uma só entidade essa força institucional e política estadual, legitimando ainda mais os pleitos setoriais. A própria formatação de uma frente parlamentar em defesa do setor na Câmara dos Deputados, com a presença de parlamentares de diversos partidos, dos diversos estados produtores, demonstra essa força que deriva da atuação das entidades setoriais.


Opiniões O setor vive a pior crise de sua história, anos seguidos de prejuízos financeiros que levaram ao fechamento de dezenas de unidades produtoras no País. Uma crise é algo muito doloroso para podermos desperdiçá-la, e, normalmente, em períodos como este, há uma tendência dos agentes setoriais ao maior diálogo e convergência dos trabalhos, a velha máxima de que “juntos somos mais fortes”. Uma crise tão aguda como esta se torna ideal para uma reflexão setorial que pode levar, muitas vezes, à quebra de vários paradigmas históricos. Da mesma forma, é preciso refletir sobre as conquistas do período, sem esquecer que o setor é dinâmico, com cada safra apresentando novos desafios, e que os trabalhos não podem ser interrompidos, e o avanço é sempre necessário. De qualquer forma, uma série de conquistas foi alcançada nos últimos anos, com muito trabalho e dedicação das equipes que compõem cada uma dessas entidades. Se essas vitórias não resolveram os graves problemas setoriais, pelo menos minimizaram as dificuldades e estão ajudando a construir os alicerces para a recuperação do setor a partir de 2016. Podem-se citar: 1. Aumento da mistura do anidro na gasolina para 27%; 2. Desoneração do PIS/Cofins sobre o etanol; 3. Alterações das alíquotas de ICMS do etanol e da gasolina, criando um diferencial tributário; 4. Linhas de financiamentos; 5. Retorno da Cide, e 6. Abertura de mercado externo, etc. Enfim, uma série de conquistas a partir dessa união e coalização de forças. A entidade de classe não teria a representação que tem sem a participação ativa dos empresários e de representantes das unidades produtoras associadas. A liderança setorial é apenas a ponta do iceberg, é quem aparece e dá voz ao interesse do grupo. Essa voz não representaria muita coisa sem o apoio desse seleto grupo de pessoas que ajudam a desenvolver as ideias inovadoras e vão construindo o futuro do setor. Em Minas Gerais, conseguimos aliar as forças na montagem de uma estratégia vencedora na busca pela valorização do setor sucroenergético no estado. Com foco na recuperação econômica, a estratégia consistiu em demonstrar às lideranças políticas e à opinião pública as dificuldades do setor e a importância do segmento para a sociedade mineira. Foi criada junto à Assembleia Legislativa a Frente Parlamentar pela Defesa do Setor Sucroenergético Mineiro, que aglutinou mais de 20 parlamentares das regiões produtoras do estado. Aliada a uma atuação forte na imprensa mineira, pautando-a com temas importantes sobre a crise financeira do setor e demonstrando a necessidade da implantação de uma política pública que visasse à recuperação do segmento. Por fim, foi definida como prioridade do setor no estado a criação de um mercado de etanol, a partir da

redução da alíquota do ICMS sobre o etanol hidratado, que caiu, inicialmente, de 25% para 22%; posteriormente, para 19% e, em março deste ano, para 14%. O trabalho realizado pela Siamig fez com que o estado contasse com o maior diferencial de 15 pontos percentuais entre as alíquotas de ICMS do etanol hidratado e da gasolina de todo o País. Esse é o exemplo do que uma entidade de classe coesa, participativa e moderna pode fazer em prol de seus representados. A decisão em reduzir a alíquota do ICMS do etanol hidratado para 14% contra da gasolina de 29% mudou por completo a condição de competitividade das empresas mineiras, um novo fluxo logístico foi criado, e o estado que possui a segunda maior frota de veículos do País será, em 2015, o segundo mercado de hidratado, ficando atrás apenas de São Paulo. Somente entre janeiro e agosto deste ano, a demanda de etanol no estado aumentou mais de 130%. O consumo bate recordes a cada mês: em agosto, alcançou 184 milhões de litros, mais de 200% de crescimento sobre agosto de 2014. Além disso, a mudança tributária de Minas Gerais representou uma medida pedagógica para outros estados, como a Paraíba e o Pernambuco, que também já estão adotando diferenciais de alíquotas. Em um setor de commodities, com produtos padronizados e sem marcas, principalmente quando o produtor não tem o controle da ponta, sem acesso direto ao consumidor final, a comunicação institucional se torna um dos principais desafios da representação setorial. Em Minas Gerais, além do importante trabalho de comunicação diário, optou-se pelo lançamento da campanha "Eu vou de etanol", que teve como objetivo despertar no consumidor mineiro a migração para o etanol hidratado, a partir da demonstração da competitividade do produto, ressaltando não só economia no abastecimento, mas também os benefícios sociais e ambientais da produção e uso do produto. Qual o valor de uma entidade de classe forte? Qual o retorno ao setor produtivo de uma entidade eficiente e antenada com as necessidades das unidades produtoras? Qual o valor do apoio, da rede de contatos, do tratamento de uma dificuldade individual no ambiente institucional? São apenas algumas questões sobre as quais todos os empresários e representantes de empresas precisam refletir. De fato, o necessário valor a essas entidades é despertado nos períodos mais difíceis como este pelo qual o setor sucroenergético está passando. Não podemos esquecer que as características regionais brasileiras levam a diferentes desafios em cada região de atuação do setor, mas as dificuldades têm tornado o setor cada dia mais homogêneo, principalmente no trato das questões tributárias, trabalhistas e ambientais. Acredito que qualquer estratégia de fortalecimento do setor, com a construção do alicerce da recuperação e posterior retorno ao crescimento, passa necessariamente pela contínua valorização das nossas entidades de classe, com a participação efetiva de todos os agentes do mercado. Os últimos anos demonstraram que, efetivamente, juntos, somos mais fortes. Agora, o setor se une com o objetivo de conquistar o retorno integral da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina, que daria maior competitividade ao etanol no mercado brasileiro. É uma luta que está se iniciando e conduzida de forma estratégica, poderá culminar em uma vitória há muitos anos perseguida pelo setor, que é a da valorização das externalidades positivas do etanol, o combustível verde amarelo, limpo e renovável.

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ensaio especial

Opiniões

a inflexão da crise foi

superada

A superação do ponto de inflexão da crise não significa que foram retomadas as condições plenas para o início de um novo ciclo de expansão da capacidade de moagem. "

Guilherme Nastari

Diretor da Datagro Consultoria

Há uma forte indicação de que o ponto de inflexão da crise do setor sucroenergético foi superado. Os preços do etanol e do açúcar nos mercados interno e externo nos mostram isso. Entre os meses de agosto e outubro, o preço do hidratado ao produtor em São Paulo passou de R$ 1,18 para mais de R$ 1,53 por litro, e o preço do açúcar, de R$ 48,00 para mais de R$ 75,00 por saca de 50 kg. A recuperação dos preços, assim como a temperatura, está para o corpo de um paciente, é o sintoma. As causas podem ser atribuídas, em primeiro plano, ao vigor do consumo de etanol, que, nos primeiros oito meses de 2015, indicaram incremento de 41,4% no caso do hidratado e estabilidade no consumo de anidro, em relação a igual período do ano passado. Em segundo plano, a recuperação do preço do etanol é explicada pela valorização do etanol no mercado externo. O preço do açúcar tem respondido, neste momento, à regra geral de acompanhar o preço de oportunidade do fornecedor marginal. Esse fornecedor é, via de regra, o Brasil, pela capacidade de alterar o mix de produção e, dessa maneira, o volume marginal de açúcar colocado no mercado.

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E o preço de oportunidade é o preço do etanol, que define a remuneração alternativa que o produtor recebe ao invés de produzir açúcar. Soma-se a esse efeito a percepção do mercado de que, definitivamente, entramos na safra mundial 2015/2016 em um ciclo de déficit, num ano em que o El Niño afeta a oferta de cana na Índia e na Tailândia e em que os estoques mundiais começam a cair também pela redução da produção na União Europeia e na China. O aumento do consumo interno de etanol hidratado mostra a rápida resposta do consumidor a estímulos de preço. A relação de preço entre o hidratado e a gasolina caiu para a faixa de 62% a 64% em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, e isso foi suficiente para que o consumo mensal atingisse a média de 1,5 bilhão de litros, chegando a 1,57 bilhão de litros em agosto. A relação de preço voltou a ser favorável pela recuperação parcial da Cide, em 15 de fevereiro, para R$ 0,22 por litro e pelo baixo preço do etanol ao produtor, pressionado pela necessidade de geração de caixa na safra. Em alguns estados importantes, como Minas Gerais, essa relação ficou favorável também pela alteração do regime de ICMS, beneficiando o etanol em relação à gasolina. Movimentos na mesma direção já ocorreram, ou estão em fase de implementação, nos estados da Bahia, Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Alagoas.


ensaio especial

Opiniões

É uma possível reação dos governos estaduais ao espaço que o Governo Federal deixou aberto ao reduzir a carga fiscal sobre a gasolina, num cenário em que todos precisam encontrar fontes adicionais de arrecadação. Mas é também um reconhecimento da contribuição que a cana e o etanol oferecem para as economias locais, e o seu enorme efeito multiplicador no comércio e na indústria. É interessante observar que essa recuperação ocorre no momento em que o petróleo e a gasolina continuam com preços relativamente baixos em dólares. O petróleo WTI continua com preço abaixo de US$ 50 por barril, e a gasolina RBOB, nos EUA, na faixa de US$ 1,40 a US$ 1,50 por galão. Esses preços são bem menores do que os observados até pouco tempo, quando superavam US$ 100 por barril e US$ 2,60 por galão, respectivamente. O que mudou foi a taxa de câmbio, o preço mais importante para o setor sucroenergético. A taxa de câmbio de R$ 1,56 por dólar foi mortal para a competitividade do etanol com a gasolina nos mercados interno e externo, e para o açúcar brasileiro no mercado externo. A nova realidade cambial entre R$ 3,80 e R$ 4,00 por dólar compensou, de certa forma, a queda nos preços do petróleo e da gasolina. As unidades produtoras que conseguiram segurar produto para venda a partir de setembro terão a oportunidade de capturar uma boa parte dessa recuperação de preços. No entanto atenção total ainda é necessária para a amortização das dívidas, inclusive a parcela referenciada a dólar, que foi afetada pela desvalorização do real.

A recuperação de preços pode não ter se encerrado ainda. Existe a possibilidade de a Cide ser novamente elevada até o final do ano. A Datagro mostrou com gráficos muito interessantes, na sua conferência anual em setembro deste ano, que, para recuperar o nível real da Cide praticada até 2008, seria necessário um aumento adicional de cerca de R$ 0,50 por litro. Esse valor coincide com avaliações realizadas pelos produtores com base na externalidade ambiental do etanol produzido no Brasil. O Governo Federal resiste a um novo aumento da Cide, dando preferência ao caminho da CPMF para compensar o déficit fiscal previsto para 2016. No entanto a resistência do Congresso e da comunidade empresarial à CPMF pode fazer com que o governo não tenha alternativa senão a Cide para evitar um novo rebaixamento da nota soberana e a consequente perda do grau de investimento, o que obrigaria a saída de um volume considerável de capital aplicado em moeda forte. A superação do ponto de inflexão da crise não significa que foram retomadas condições plenas para o início de um novo ciclo de expansão da capacidade de moagem. Ainda permanece sem definição uma política fiscal estável, previsível e transparente para o mercado de combustíveis. Mas existem grandes oportunidades de captura de valor com tecnologias agrícolas e industriais que já têm sido aproveitadas por vários produtores, e outros novos externos que se sintam estimulados a capturá-los serão os agentes da consolidação que deve continuar avançando no setor.

Elizabet

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Ainda dá para ver a estrada - OpAA46  

Esta edição foi composta com exclusividade por palestrantes da 15ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol – um dos mais imp...

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