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Opiniões ACÚCAR

Opiniões &´ ALCOOL jan-mar 09

sobre o cenário econômico mundial

jan-mar 2009

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Índice

O álcool, o açúcar, a agricultura e o Brasil no cenário econômico mundial Consultores 18, Antoninho Marmo Trevisan

Presidente do Conselho Consultivo da BDO Trevisan

Editorial 05, Júlio Maria Borges

Presidente da JOB Economia e Planejamento

Visão estratégica 06, Plinio Mário Nastari Presidente da Datagro

Ministros da Fazenda e da Agricultura

22, Roberto Luis Troster Sócio da Integral Trust

24, Carlos Eduardo Araujo CFO do Mackensie Agribusiness

Entidades 26, Paulo Antonio Skaf Presidente do Sistema Fiesp/Ciesp

10, Antônio Delfim Netto

28, Abram Szajman

12, Antônio Palocci

30, Olivier Genevieve

Ex-Ministro da Agricultura, da Fazenda e do Planejamento

Presidente da Fecomercio, SP

Ex-Ministro da Fazenda

Professor na Grande École de Commerce de Paris

15, Marcus Vinicius Pratini de Moraes

33, Pedro Robério de Melo Nogueira

17, Guido Mantega

36, Antonio Celso C. de Andrade

Ex-Ministro da Agricultura, Minas e Energia, e Indústria e Comércio Ex-Ministro do Planejamento e atual Ministro da Fazenda

Investidores

Presidente do Sindaçúcar-AL Presidente da Feplana

37, Manoel Carlos de A. Ortolan

40, Henri Philippe Reichstul

Presidente da Canaoeste

42, Eduardo Pereira de Carvalho

53, José Carlos Vaz

Presidente da Brenco

Bancos

Diretor de Relações Institucionais da ETH BioEnergia

Diretor de Agronegócios do Banco do Brasil

44, Paulo Robério Távaro Pinho

54, Alexandre Enrico Silva Figliolino

46, Maurílio Biagi Filho

57, Luis Otávio de Souza Leal

49, Pedro Mizutani

60, Carlos Eduardo de S. Cavalcanti

50, Otávio Lage de Siqueira Filho

62, Giovana Alice Correia Araujo

Diretor de Biofuel da British Petroleum Brasil Presidente da Maubisa

Vice-Presidente Geral da Cosan Presidente da Jalles Machado

Diretor Comercial do Itaú BBA

Economista-Chefe do ABC Brasil Arab Banking

Chefe do Depto. de Biocombustíveis do BNDES Analista de Equity Research do Unibanco

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Editorial O cenário econômico mundial e o negócio de açúcar e álcool No final de 2008, a União Européia - UE, divulgou algumas conclusões de um estudo sobre o comércio agrícola global. Entre elas, vale a pena considerar: 1. O consumo de produtos de base agrícola irá crescer, graças ao aumento da população mundial e da renda nos países em desenvolvimento, onde o BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) terá papel fundamental neste cenário. 2. O Brasil consolidará seu status como grande exportador de produtos agrícolas até 2017, visto seu domínio nas vendas de oleaginosas, açúcar, etanol e carnes bovina e de frango. 3. A demanda por açúcar deve crescer e dar suporte para um aumento da oferta, sem excedentes predatórios de preços. O Brasil será o principal ator do lado da oferta. Hoje com 40%, representará, até 2017, 60% das exportações mundiais. A UE representará o maior importador global de açúcar, comprando mais de 5 milhões de toneladas. Em seguida, virão China, EUA e Rússia. 4. A Tailândia estará como o segundo maior exportador de açúcar, com 12% do mercado. 5. A Índia continuará como o segundo maior produtor de açúcar mundial. 6. No caso do etanol, a UE admite o domínio do Brasil como exportador e os EUA como o principal importador. O comércio internacional deve crescer rapidamente e as exportações brasileiras podem alcançar 13 bilhões de litros até 2017. 7. A expectativa é de que os preços serão mais voláteis no futuro. No médio prazo, as projeções são de alta, depois da queda verificada em 2008. Os números acima podem sofrer alterações, como sempre acontece em projeções. A sintonia fina de projeções econômicas necessita de ajustes periódicos. Contudo, a direção dos mercados comentados, em nossa opinião, está correta, partindo da premissa de que “o mundo não vai acabar”. Ou seja, o crescimento econômico mundial, no curto prazo, será simplesmente reduzido, não se verificando recessão em escala global. Ainda, de acordo com nosso ponto de vista, o que deve ocorrer daqui para frente é uma “correção técnica” dos excessos de natureza financeira cometidos nos últimos anos, identificados na crise de crédito denominada de subprime (crédito de risco, concedido a um tomador que não oferece garantias suficientes). Os Governos centrais dos principais paises do mundo desenvolvido e em desenvolvimento estão tomando medidas corretivas e corretas anti-recessão, o que permitirá a retomada do crescimento econômico mundial no médio prazo, em bases econômicofinanceiras sadias. Perspectivas de Mercado: Considerando que: • O crescimento econômico mundial ocorra em bases sustentáveis e que o preço do petróleo viabilize a utilização de novas e necessárias reservas, como as do Canadá e a camada pré-sal no Brasil; • O preço do açúcar viabilize aumentos de produção necessários ao atendimento da demanda; • O Brasil possa sustentar um crescimento econômico nos próximos sete anos a uma taxa média de 4% a.a. e que as vendas de automóveis e comerciais leves cresçam 5% a.a., sendo cerca de 90% veículos flex-fuel;

• A mistura álcool anidro-gasolina seja de 25% e que o preço do álcool hidratado na bomba seja competitivo com a gasolina, de tal maneira que 90% da frota de veiculos flex-fuel use álcool combustível; • A indústria química utilize álcool tal como atualmente. Ou seja, em bases tradicionais, sem qualquer mudança relevante nos processos, visando uma utilização mais intensa do etanol como matéria-prima; • A demanda de açúcar no mercado interno cresça entre 2,0 % e 2,5% ao ano. Podemos admitir um cenário onde: 1. O Brasil estará moendo, em 2015, aproximadamente, 1 bilhão de toneladas de cana, em 14 milhões de hectares. Isto representa, no período 2008-2015, um crescimento anual da ordem de 8% ao ano. Vale lembrar que no período 20042008, o crescimento anual foi de 10% ao ano. 2. A produção de açúcar irá crescer cerca de 3% a.a., no período 2008-2015, enquanto a produção de álcool deve crescer entre 11% e 12% a.a., atingindo algo próximo de 60 bilhões de litros em 2015. No período 2004-2008, as produções de açúcar e álcool cresceram cerca de 4% e 16% a.a., respectivamente. 3. As exportações de açúcar, que foram durante a década passada, até meados da atual, o componente dinâmico do setor, com crescimento da ordem de 17% ao ano, terão um crescimento comedido de 4% ao ano no período 2004-2015. 4. As exportações possíveis de álcool estão previstas entre 8 e 9 bilhões de litros em 2015. Atualmente, o Brasil exporta 5 bilhões de litros. Em havendo necessidade de maiores volumes, o mercado interno será atendido parcialmente, através de preços relativamente altos do produto para o consumidor brasileiro. O negócio de açúcar e álcool no Brasil: Tomando como base o cenário descrito anteriormente, podemos concluir que produzir açúcar e álcool no Brasil continuará sendo um bom negócio. É claro que exigirá dos participantes do mercado eficiência e competitividade, tendo em vista que se trata de commodities agrícolas, com pré-requisitos de grandes volumes e custo baixo de produção. A gestão eficaz do negócio, de uma forma abrangente, é o novo desafio a ser enfrentado pelo setor. Neste caso, vale a pena destacar estratégias adequadas de comercialização da safra, logística, gestão de recursos humanos, administração de riscos e integração vertical da atividade. A imprudência no processo de aquisição e construção de novas usinas e na gestão do negócio em si, bem como a timidez excessiva, são extremos desnecessários e de alto custo para uma boa estratégia empresarial. Basta observar o que acontece neste momento no setor: usinas fragilizadas financeiramente, após um período de euforia e altos lucros e, em alguns casos, sujeitas a serem absorvidas por grandes grupos econômicos, por absoluta falta de opção.

Júlio Maria Borges Presidente da JOB Economia e Planejamento


Visão Estratégica Plinio Mário Nastari Presidente da Datagro

Este setor já sofreu crises piores... Não devemos minimizar o impacto e os efeitos da atual crise mundial de liquidez. O setor sucroalcooleiro brasileiro tem um estoque de dívida elevado. O endividamento é, em grande parte, de curto prazo, e a falta de liquidez tem impedido a renovação de linhas de financiamento nas mesmas bases em que vinham sendo contratadas e renovadas, no que tange a custo e volume de garantias. O setor sofre com o elevado custo do crédito, que passou de 6% a 8% ao ano, para uma faixa entre 21 e 25% ao ano, em reais, superior à capacidade de geração de resultados na atividade de produção de açúcar e álcool. Aliás, dificilmente deve existir alguma atividade econômica, com esta escala e grau de competição entre agentes ofertadores, capaz de suportar e remunerar custo de capital nestes níveis. Os efeitos desta crise não serão pequenos. Antes dela, a concentração do setor já tinha mudado: na safra 2008/09 estiveram em operação, no Brasil, 400 plantas processadoras de cana-de-açúcar e produtoras de açúcar e álcool. Estratificadas em grupos com mais de um milhão de toneladas de cana processada por safra, observamos que não é tão grande o número de grupos produtores com esta escala de produção, que pode ser considerada hoje relativamente pequena. São apenas 79 grupos

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de produtores com escala igual ou superior a 1 milhão de toneladas de cana processada por safra, mas que correspondem a 70% da moagem total. Existem outras 80 usinas com escala inferior a 1 milhão de toneladas de cana moída, e que correspondem a 30% da moagem total. Estes números revelam um grau de concentração do qual poucos haviam se dado conta. Quando se considera que o maior grupo produtor – a Cosan – detém cerca de 8% da moagem do país, e que o segundo colocado detém pouco mais de 3%, tem-se a impressão de que a concentração é pequena, comparada a outros setores importantes, onde o primeiro colocado responde por uma fatia de mercado de 30% ou 40%, e assim por diante. A atual crise deve, no entanto, aumentar ainda mais a concentração. Outros efeitos da crise devem estar ligados a esforços mais intensos na direção de redução de custos, maior mecanização de atividades agrícolas no plantio e na colheita, e maior integração de atividades entre unidades produtoras, através do modelo de agrupamentos. Um maior realismo deverá ser observado no mercado de trabalho, com uma reversão da tendência anterior de supervalorização da mão-de-obra especializada, em que gerentes industriais e agrícolas passaram a ser disputados a tapas entre novos entrantes e grupos tradicionais dentro do setor. No entanto, é preciso reconhecer que enquanto setores importantes da economia estão enfrentando queda de preços simultaneamente a uma queda de demanda, no caso do setor de açúcar e álcool a realidade é bem diferente. Esta combinação de preço e demanda em queda tem se mostrado quase mortal para setores importantes como mineração, siderurgia, papel e celulose, automobilístico, e muitos outros. Ao contrário do que se observa como regra geral nestes setores de base, a demanda por sacarose continua em alta. A demanda por açúcar para exportação continua crescendo, alimentada pelo fato de termos entrado em um período de, no mínimo, dois anos de déficit no mercado mundial. No ano comercial de 2008/09, que no mundo transcorre de outubro a setembro, a expectativa é de que o déficit seja de 3,8 milhões de toneladas de açúcar. No ano seguinte, de 2009/10, a se iniciar em outubro de 2009, as previsões apontam para um déficit entre 5 e 5,5 milhões de toneladas. Além do açúcar para o mercado externo, a demanda por álcool no mercado interno deverá crescer na safra 2009/10, estimados 2,1 bilhões de litros, o que será mais do que suficiente para compensar uma provável redução das exportações de álcool, estimada em 1,4 bilhão de litros.


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Esta demanda marginal já leva em conta uma esperada redução no volume de vendas de carros, em 2009, de 21% sobre o ano anterior. A esperada redução nas exportações de álcool deve ocorrer por conta da queda no preço da gasolina no mercado mundial, e pela alteração da regra de importação de álcool anidro pelos Estados Unidos, no regime de drawback, que viabilizou a entrada de mais de 1,5 bilhão de litros de etanol anidro brasileiro, exportados diretamente aos Estados Unidos, em 2008. Portanto, a demanda por produtos da canade-açúcar na safra brasileira de 2009/10 continua crescendo. É certo que a falta de liquidez deverá afetar o capital de giro, e a capacidade de estocagem de muitos produtores, mas o segredo desta safra será o de gerar este capital de giro com as exportações de açúcar e de álcool, evitando vender etanol no mercado interno a preços que podem ser depreciados pela competição e oferta simultânea em grandes volumes. A volatilidade de preços deve ser maior, mas o preço médio pode ser maior, basicamente porque a oferta marginal deverá ser menor do que a demanda marginal. Menor aplicação de adubo e defensivos não deve deixar incólume o rendimento agrícola. Menor renovação de lavouras deverá impactar a safra de 2010. Em 2010, as exportações de álcool não vão cair novamente, ao contrário, devem voltar a crescer, impulsionadas pelos mandatos de uso de combustíveis renováveis, aprovados e em implementação nos Estados Unidos e na União Européia. A demanda por etanol no mercado interno vai continuar exigindo aumento de produção, e o mundo vai continuar exigindo mais açúcar do Brasil para exportação, em particular a partir do final de 2009. Neste momento, no limiar da safra 2010/11, os produtores brasileiros irão se debruçar novamente diante do dilema de produzir açúcar ou álcool. Os preços relativos irão ditar a direção. Novamente, a oferta marginal deverá ser menor que a demanda marginal. Portanto, a crise é séria, sim. Não deve ser menosprezada, pois alguns, ou muitos, infelizmente, ficarão pelo caminho, embora a usina raramente “acabe”, apenas muda de mão, como alça de caixão. Mas, esta crise é, infinitamente, menos crítica e abrangente do que foram as crises de 1989/90 e de 1999/00. Em 1989/90, a indústria era ainda altamente regulada pelo governo, que fixava preços para cana, açúcar e álcool 30% a 40% abaixo do custo médio de produção. Embora a demanda estivesse em crescimento, e em excesso, esta realidade não conseguia se traduzir em preços remuneradores, capazes de estimular aumento da oferta. A consequência foi absolutamente previsível. A oferta só veio a crescer pelo impulso dado pelas exportações de açúcar,

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privatizadas com a extinção do Instituto do Açúcar e do Álcool. Em 1999/00, a indústria teve preços e comercialização de álcool totalmente liberados, sem haver, ainda, uma estrutura privada de comercialização. Os produtores tinham também dois meses de consumo em estoque na virada da safra, e o preço do anidro caiu para 17 centavos de Real por litro, e o do hidratado para 14 centavos o litro, enquanto o custo médio era de 47,5 centavos por litro. Em cima disso tudo, houve uma seca terrível. A combinação de menor aplicação de adubo e seca fez com que a produção caísse 17,5% em um ano. Não era sustentada a taxa de crescimento que este setor vinha observando nos últimos três anos, entre 12% e 13,5% ao ano. A Datagro considera que a taxa de crescimento sustentada, alinhada com as previsões de expansão de demanda interna e externa, seja entre 7,5% e 8% ao ano. Nas próximas duas safras já devemos verificar uma taxa de expansão alinhada com esta realidade. Enquanto isso, o setor vai ganhar mais força, vai ficar mais competitivo, vai se consolidar ainda mais no mercado mundial, vai ganhar robustez. Ele só vai ficar menos interessante do ponto de vista de relacionamento interpessoal, pois a concentração vai reduzir muito o número de interlocutores.


Ministros Antônio Delfim Netto

Ex-Ministro da Agricultura, da Fazenda e do Planejamento Vencendo preconceitos

Neste momento, em que a sombra de uma recessão ameaça o mundo, é necessário: 1º) objetividade e serenidade na análise da situação brasileira e 2º) disposição de agir prontamente, mas sem precipitação, para a manutenção do equilíbrio econômico interno e externo, duramente conseguido ao longo dos últimos 14 anos. Mesmo reconhecendo que hoje estamos numa situação consideravelmente mais cômoda do que estivemos no passado, é grave ilusão, e envolve grande risco, supor que estamos definitivamente “blindados”. Por outro lado, é preciso resistir à visão pessimista que alimenta a torcida cruel para que a crise externa destrua o que foi construído, largamente sustentada por enorme preconceito ideológico e social contra a figura do presidente Lula. É hora de reconhecer que no Brasil o cidadão está aprendendo a usar o sufrágio universal, inserido numa sociedade democrática pluripartidária e livre, para revelar suas preferências. Não o comovem mais os velhos sinais de trânsito (direita ou esquerda) ou a utopia revolucionária que o transformaria no “homem novo”. Ele quer um regime de plena liberdade individual, onde possa apropriar-se dos benefícios produzidos por sua atividade, mas moderado por uma redução das desigualdades, geradas pelo eficiente mecanismo produtivo, organizado em torno dos mercados. O resto é o resto. Foi essa organização social e econômica, com seus defeitos e virtudes que, nos últimos 150 anos, trouxe o homem da Idade da Pedra à Idade da Informática. Eles não a inventaram. Ela é produto de uma espécie de seleção natural, produzida pelo próprio desenrolar histórico. Foi sendo “descoberta”

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pelo homem, desde que saiu da África, há 200 mil anos, e foi pensada criticamente pelos gregos há, pelo menos, 2.500 anos. Todas as formas alternativas, gestadas até agora por cérebros peregrinos, e executadas por fanáticos psicopatas, aos quais a sociedade descontente entregou em desespero e descuidadamente o poder, terminaram em tragédia. E as que estão por aí infestando a infeliz América Latina, onde a psicopatia é acentuada pela ignorância, não serão exceção à regra: são apenas pontos fora da curva do processo civilizatório. A história brasileira com a eleição de Lula, apoiado num partido de trabalhadores, com um programa “aggiornato” (na Carta aos Brasileiros), deu um salto à frente. Tornou ridícula a proposta “radical” da necessidade de mudança de regime para produzir a felicidade geral. Basta ver o fracasso dessa proposta na última campanha municipal, onde seus autores fizeram a parte cômica do horário eleitoral. Não deixa, entretanto, de ser preocupante a identificação da organização da economia, através dos “mercados” ou do que se chama imprecisamente de “neoliberalismo”, como a causa da crise que se iniciou no sistema financeiro. Primeiro, porque o bom funcionamento dos “mercados” exige a moralidade dos agentes, que pode ser autoimposta por um imperativo categórico ou pela regulação do Estado. Os “desvios de conduta” não condenam a instituição “mercado”, mas seus agentes. Segundo, porque não existe nenhum mecanismo alternativo aos “mercados”, com a mesma eficiência para permitir a realização do processo civilizatório. E, terceiro, porque as “crises” são ínsitas no funcionamento dos “mercados”. De cada uma delas, eles saem melhores, mais eficientes e mais ajustados. A causa da crise não é, portanto, o “neoliberalismo” (conceito que ninguém sabe bem o que é!), mas a falta de moralidade dos agentes e dos perversos mecanismos de estímulos que construíram. É inegável, por outro lado, que foi a falta de regulação (ou, o pior, a desregulação descuidada e ideologicamente alimentada dos últimos 20 anos) que estimulou o atual desenvolvimento financeiro, cujo lado bom foi a aceleração do crescimento econômico do mundo. Esse é um resultado não desprezível, que sugere que não devemos “jogar fora o bebê com a água do banho”... Na longa construção de uma sociedade razoável, esta crise é apenas um episódio. Terá custos formidáveis, mas não mudará o curso da história: continuará a aperfeiçoar os mecanismos de mercado, cuja flexibilidade (um grau importante de liberdade de imaginação) é fundamental para a ampliação da produtividade do trabalho que liberta o homem. A ênfase na desregulamentação radical revelou-se concretamente perniciosa. Em compensação, ela criou novos instrumentos financeiros, cuja eficiência deve continuar a ser explorada. Vamos corrigir os exageros, sem eliminar a criatividade dos “agentes”. E esperar a próxima “crise” que, certamente, não terá as mesmas causas da atual...


Ministros Antônio Palocci

Ex-Ministro da Fazenda

Etanol: competitividade econômica e ambiental

Os mais de 30 anos de investimentos em produção e pesquisa do etanol carburante de cana-de-açúcar colocam o Brasil numa perspectiva muito positiva frente aos atuais desafios do desenvolvimento mundial. Isso porque, para as lideranças das grandes nações, já não é mais possível falar em desenvolvimento econômico sem considerar a realidade das mudanças climáticas. A mudança radical dos discursos e compromissos anunciados na transição do governo americano, em termos de medidas de enfrentamento do aquecimento global, mostra a prioridade que o tema deve adquirir no próximo período. Dos EUA de Bush, que renunciou ao protocolo de Kyoto, aos EUA de Obama, que adota seguidas medidas de redução de emissões poluentes, o que mudou foi a percepção e a pressão da sociedade, em todos os continentes, por novos valores éticos e ambientais para o desenvolvimento econômico futuro. Nos melhores centros do pensamento econômico e de desenvolvimento, o que se discute é um caminho de retomada do crescimento mundial sob novas bases, deixando para trás um passado de descompromisso com a regulação dos mercados e com solene desprezo ao meio ambiente. Além de Obama, o primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, a alemã Ângela Merkel, os líderes do Japão e da China e o presidente Lula, todos têm colocado o tema das mudanças climáticas na pauta de prioridades. Assim, é muito provável que a retomada do ciclo econômico, após a superação da grave crise financeira atual, virá pautada pelos cuidados necessários em termos de combustíveis renováveis, preservação das florestas e redução da emissão de gases de efeito estufa, entre outras iniciativas. É nesse contexto que o etanol de canade-açúcar pode-

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rá ocupar um espaço de grande destaque, à medida em que, ao longo do último período, tornou-se o único produto que consegue combinar produção em grande escala e preços competitivos. Mas, a melhor garantia para um produto conquistar o mercado global é a existência de um mercado nacional amplo e sustentável. E, nesse particular, o etanol carburante só tem ampliado seu espaço no mercado brasileiro, superando o consumo nacional de gasolina. E isso foi possível, de novo, pela via da pesquisa e inovação, através da introdução dos motores flexíveis, que já ocupam a quase totalidade dos automóveis novos produzidos no Brasil. Os motores flexíveis favorecem o combustível mais competitivo em cada momento, em termos de preço e desempenho, à medida em que transfere para o consumidor a decisão de uso. Com a substituição natural da frota atual por uma frota quase totalmente composta de carros com motores flexíveis, somado à demanda do etanol anidro misturado à gasolina, o mercado nacional de etanol terá dimensão suficiente para sustentar a exploração de mercados externos, de maneira sistemática e competitiva. Mas, há ainda duas questões sobre as quais o setor sucroalcooleiro precisa se concentrar, com pensamento num futuro próximo: o melhor uso do bagaço de cana e a regulamentação do etanol como parte da matriz energética brasileira. No primeiro caso, no curto prazo, a alternativa de produção de energia com a queima do bagaço tem se mostrado economicamente viável. No médio prazo, é fundamental que o Brasil, através de seus centros de pesquisa públicos e privados (Embrapa, Petrobrás, Copersucar, universidades, entre outros) consiga manter-se na fronteira da pesquisa do etanol celulósico, obtido pela hidrólise da celulose. Esta linha de pesquisa, já com resultados laboratoriais consistentes, embora não em termos de produção e comercialização, promete alterar o futuro dos combustíveis renováveis. E o Brasil não pode perder a dianteira nesse mercado, à medida em que manteve larga e distante liderança nas últimas décadas, em termos de produtividade em combustíveis limpos. Mas, é sempre bom lembrar que liderança passada não garante liderança futura. O investimento em tecnologia e inovação precisa ser permanentemente ampliado. A segunda questão, relativa à regulamentação do etanol car-


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burante na matriz energética, diz respeito à necessidade de legislação específica para o etanol. No passado recente, algumas iniciativas tentavam colocar o etanol nos mesmos patamares de regulação do petróleo. Mas, esses produtos são sensivelmente diferentes. Os modelos de exploração, os sistemas de comercialização e as cadeias produtivas são completamente diversas, o que exige legislação própria para o etanol. Isso permite que o produto transite da política de agricultura para a política energética e faz com que a lei sacramente o que já ocorre na prática, à medida em que, definitivamente, o etanol é um assunto mais vinculado ao setor energético do que ao agrícola. Mas, muito se pode questionar sobre tais perspectivas para o etanol, frente à desanimadora evolução da crise financeira mundial. De fato, se um mundo abre-se como perspectiva para o etanol, esse mesmo mundo está se fechando fortemente para o crescimento econômico e o comércio mundial. O ano em curso é pouco promissor para qualquer setor da economia, embora os níveis de preços devam continuar com alguma volatilidade e buscando patamares mais realistas. Contrariando muitos analistas, as commodities agrícolas abriram o ano em forte alta. Mas, o fluxo do comércio mundial tende a permanecer retraído e já se fala em crescimento mundial a uma taxa próxima de zero. Mesmo os países emergentes, que em todo o primeiro ano da crise mostraram-se resistentes e muito pouco afetados, tiveram impactos mais fortes a partir de setembro do ano passado. A sequência de eventos bancários e financeiros, que se sucedeu à quebra do Banco Lehman Brothers, o que ampliou a crise de confiança, atingiu fortemente as economias emergentes, paralisando o crédito e interrompendo um curso de crescimento vigoroso da produção e do emprego. De fato, sem que haja a recuperação do crédito, a superação dos problemas de alavancagem das economias mais ricas e a normalização do comércio mundial, dificilmente abrir-se-á perspectivas positivas para grandes setores econômicos. A crise atual é de enormes proporções e pode exigir muito esforço e algum tempo para a sua superação.

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Isso faz com que, no curto prazo, o setor sucroalcooleiro veja-se diante de desafios complexos, em particular aqueles relativos a investimentos e aquisições do período anterior ao aprofundamento da crise, em setembro. O mundo econômico mudou radicalmente nos últimos seis meses. Isso exigirá esforços de ajuste e adaptação. O Brasil sofre o impacto da crise, mas resiste com muita força à piora de seus fundamentos, à medida em que o quadro fiscal e monetário, além da dívida pública, permanecem equilibrados e as reservas internacionais funcionam como um seguro de força e qualidade. O governo vem adotando um conjunto de medidas para amenizar a falta de crédito, que tem pressionado as empresas em todos os níveis. Será um ano de muito trabalho. Mas, nem mesmo a presença de uma crise destas proporções elimina as perspectivas positivas do etanol no Brasil e no mercado mundial. Não apenas as perspectivas que já existiam no passado, mas agora ainda mais promissoras, pois a construção de um novo ciclo de crescimento, com bases mais sustentáveis, onde as fontes de energia limpa sejam a grande prioridade, parece estar presente de maneira definitiva na agenda das principais lideranças mundiais. Um novo ciclo de crescimento econômico, eticamente regulado e ambientalmente sustentável, é um caminho natural que emergirá da superação da crise econômica em curso.


Ministros Marcus Vinicius Pratini de Moraes

Ex-Ministro da Agricultura, Minas e Energia, e Indústria e Comércio Os desafios do agronegócio brasileiro Com 851 milhões de hectares, usando apenas 7,4% da área com lavouras anuais e perenes, abundância de água, tecnologias de ponta, extraordinária classe de produtores, temperaturas amenas, economia estável e uma democracia bem desenvolvida, o Brasil é a última fronteira agrícola do mundo. Nenhum outro país possui este conjunto de condições naturais, aliadas a condições econômicas, jurídicas e políticas que geram um ambiente favorável ao desenvolvimento e às práticas comerciais. Portanto, precisamos de políticas comerciais externas, que sejam capazes de valorizar e explorar o nosso potencial e a nossa vocação agrícola. Sempre trabalhei com energia, para colocar o Brasil no cenário econômico internacional. Até recentemente, a estratégia utilizada partia do princípio de uma negociação em bloco com outros países, com o objetivo de estimular a ampliação do comércio internacional e superar as barreiras protecionistas, através da redução de tarifas e subsídios. Estes acordos multilaterais, que levaram anos para terem suas bases construídas, provaram estar distantes do sonho de alinhar os interesses dos diversos países participantes. O fracasso da Rodada de Doha demonstrou claramente que os países desenvolvidos – e alguns emergentes - continuam resistentes à abertura dos seus mercados aos nossos produtos agrícolas, favorecendo um pequeno grupo que, sem a ajuda de subsídios, não conseguiria competir. A dificuldade de alinhar interesses, mesmo entre países que estavam do mesmo lado da mesa de negociação, indica que devemos ampliar as negociações bilaterais e setoriais e tentar estabelecer novos acordos para acessar os mercados, sobretudo os emergentes. Não devemos abandonar as negociações multilaterais, mas elas não s ão mais a resposta que necessitamos. Apesar da expectativa de mudanças na política externa pelo novo governo dos EUA, do democrata Barack Obama, é bom lembrar que seu partido sempre teve um comportamento protecionista. Portanto, não devemos esperar mudanças que possam levar a uma maior abertura comercial entre Brasil e EUA. No caso da Europa, a situação não é muito diferente. Os agricultores europeus encontram no governo dos seus países uma grande proteção dos seus interesses e, consequentemente, dos seus mercados. Ouvi várias vezes a seguinte resposta às propostas de abertura comercial: “é difícil porque vocês são competitivos”. Ora, então para que esse discurso do livre comércio? Com o desenvolvimento dos países emergentes, surgem novos mercados, que poderão ser desenvolvidos para os nossos alimentos e biocombustíveis. Em 2008, as exportações

de etanol do Brasil, tendo como destino países emergentes, aumentaram 117%, em relação ao ano anterior. Aliás, o crescimento das exportações dos produtos do agronegócio é muito maior nos mercados emergentes do que na OECD. Uma grande oportunidade para o Brasil, por exemplo, são os países africanos, que atualmente passam por grandes transformações, em busca de maior estabilidade política e econômica. Estes países poderiam começar a produzir o etanol, com a ajuda de tecnologia, knowhow e investimento de empresas brasileiras, ajudando o Brasil a criar um mercado mundial para o etanol, à medida que outros países também começariam a produzi-lo e vendê-lo. Não dá mais para falar só em vender, é preciso investir também nos novos mercados. Aliás, o que sempre fizeram os europeus, americanos e japoneses no mercado brasileiro. A importância do desenvolvimento de novas relações comerciais passa pela busca da redução de custos de produção, que possam dar sustentabilidade e competitividade aos nossos produtos no mercado mundial. Esta redução de custos pressupõe a análise de todo o processo e suas respectivas etapas na cadeia de produção. Assim, como novas tecnologias geram aumento de produtividade, novos métodos de colheita, transporte e manejo podem reduzir o custo do produto final. Observar atentamente todo o processo logístico e procurar aprimorálo através de investimentos em terminais portuários mais modernos e eficientes e de desenvolvimento de novos corredores, como o uso da malha ferroviária ou em construção de dutos, pode viabilizar a abertura de novos mercados internacionais, à medida que se gera o conforto necessário aos nossos clientes, com a redução no risco de desabastecimento, fruto de gargalos no processo logístico interno. O Brasil já ocupa hoje um papel de destaque no mercado internacional de açúcar e etanol, com uma pro-

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tos, principalmente o açúcar, afetado também pelo excesso de oferta, sofressem pressão para Uma grande oportunidade de preços, ocasionando perda de renpara o Brasil são os países africanos. redução tabilidade. Líder do setor no Brasil, a Cosan Estes países poderiam começar a destaca-se não somente pela sua dimensão, com moagem de 44,2 milhões de toneladas de produzir o etanol, com a ajuda de atingida nesta safra e produtecnologia, know-how e investimento cana-de-açúcar ção de 3,3 milhões de toneladas de açúcar e de empresas brasileiras, ajudando o 1,7 bilhão de litros de etanol, mas também por ser referência como único player integrado em Brasil a criar um mercado mundial toda a cadeia de produção, desde o plantio da para o etanol. cana-de-açúcar, até a venda dos seus produtos dução de 31,7 milhões de toneladas de açúcar finais aos consumidores de açúcar e etanol. Com dois terminais portuários, um para em 2008, das quais 19,5 milhões de toneladas foram exportadas, representando, aproxima- açúcar e outros grãos e outro para etanol, a damente, 40% do mercado livre internacional Cosan busca uma contínua redução de custos, a partir de investimentos no processo de açúcar. No caso do etanol, a produção do Brasil logístico, que geram maior eficiência e comatingiu o recorde de 28 bilhões de litros produ- petitividade. Através de uma iniciativa pioneira, novos zidos, com um volume de exportação também contratos foram estabelecidos com empresas recorde de 4,7 bilhões de litros exportados. Mesmo com custos de produção mais bai- ferroviárias para o transporte de etanol, assim xos, o Brasil enfrentou forte competição de como o desenvolvimento, em conjunto com outros países, que se beneficiam por estarem outras empresas do setor, de projetos de transmais próximos dos mercados consumidores e porte de etanol através de dutos. Iniciativas como estas, de empresas líderes, por terem melhor malha logística. O preço do frete internacional, representa- mostram que o Brasil está criando bases sólido pelo Índice Baltic, chegou a atingir o pico das para demonstrar ao mercado mundial que de 11.500 pontos, em meados de março do ano pode assegurar oferta de produtos agrícolas, passado, ante os atuais 850 pontos, em janeiro com qualidade e eficiência no cumprimento dos de 2009. O brutal aumento dos fretes interna- contratos. O desafio do agronegócio brasileiro cionais em 2008 fez com que os nossos produ- hoje é vender, investir e melhorar a logística.

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Ministros Guido Mantega

Ex-Ministro do Planejamento e atual Ministro da Fazenda Governo amplia investimento para enfrentar crise global O governo brasileiro está preocupado com a crise financeira e com seus impactos na economia real e não medirá esforços para manter o crescimento do país e evitar uma desaceleração muito forte. São muitos os desafios. O principal é reverter a tendência de estagnação que ameaça alguns setores, conforme números recentemente divulgados pela indústria nacional. Os dados são preocupantes. Mas, o governo está alerta e acompanhando todos os movimentos. Com base nos fundamentos econômicos sólidos, mantidos ao logo dos últimos seis anos, o Brasil tem se destacado no enfrentamento da crise, em comparação com os demais países. É possível que o país saia ainda mais fortalecido desta turbulência. A estratégia principal do governo, na fase mais aguda da crise, é aumentar o investimento público nos setores prioritários. Anunciamos um incremento de R$ 100 bilhões, via BNDES, para financiar projetos dos setores de infraestrutura, energia, petroquímico e bens de capital, entre outros, com foco na manutenção e geração do emprego. A determinação do presidente Lula é de que os ministérios mantenham os programas de investimento e reduzam despesas de custeio. Os programas sociais serão mantidos e fortalecidos. Dentro da nossa política anticíclica, contamos ainda com um aporte adicional de R$ 142 bilhões para o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento. Desde o recrudescimento da crise, a partir de setembro de 2008, o governo vem atuando para mitigar os riscos da crise financeira sistêmica. Reduzimos o compulsório para fornecer mais liquidez no mercado interbancário e aumentamos recursos para capital de giro direcionado aos setores mais sensíveis aos choques externos, como construção civil (R$ 3 bilhões), pequenas e médias empresas (R$ 5 bilhões) e setor automobilístico (R$ 4 bilhões). No caso específico do setor agrícola, que já obteve apoio do governo numa abrangente renegociação de dívidas rurais, antes da agudização da crise, o reforço foi amplo. Autorizamos o Banco do Brasil a antecipar desembolsos para financiar a safra 2008/2009, disponibilizamos recursos adicionais de vários fundos, no total de R$ 5 bilhões, aumentamos o crédito direcionado com compulsório (R$ 5,5 bilhões) e os recursos da poupança rural, de 65% para 70% (R$ 2,5 bilhões). Ainda para fomentar investimento no setor agrícola, permitimos o financiamento indireto de produtores, via compra de CPR - Cédula de Produto Rural, de agroindústrias e tradings e disponibilizamos crédito de R$ 500 milhões da poupança rural a médios produtores, por meio do Proger Rural, com taxa de juro equalizada pelo Tesouro Nacional. Bancos públicos (BNB e Basa) que operam com o crédito rural comprometeram-se a alocar R$ 1 bilhão para o financiamento rural, com recursos do FNE e R$ 350 milhões do FCO, respectivamente, adicionalmente ao projetado para o próximo ano agrícola. Além disso, elevamos os preços

mínimos de garantia para a safra 2008/2009 de vários produtos. Recentemente, o governo liberou R$ 700 milhões, a serem destinados para capital de giro às cooperativas agrícolas. O governo está dialogando com os bancos sobre a necessidade de redução dos custos dos empréstimos. Esse é o momento de reduzir juros para possibilitar o aumento do consumo e, consequentemente, da demanda, que movimenta a economia de um país. O spread e a taxa de juros ao tomador final tendem a cair. Essa tendência será ditada pelos bancos públicos, que já estão reduzindo os custos dos empréstimos. O Banco Central também já reduziu a taxa básica de juros e os recursos adicionais liberados para o BNDES, com encargos menores, serão parcialmente repassados aos bancos privados. É importante destacar que para combater a crise, assim como o governo está aumentando os investimentos públicos e atuando para ampliar a oferta de crédito e baratear o custo dos financiamentos, o empresário brasileiro também deve ser ousado e afastar o temor da crise. A atividade não pode parar e deve continuar gerando emprego e renda. É preciso manter a produção, porque a demanda não caiu. O governo não está inerte diante da crise. Temos fundamentos econômicos sólidos, nossas empresas e nossos bancos estão sólidos. O Fundo Soberano do Brasil também reforça a política anticíclica do governo. São R$ 14,2 bilhões poupados e que podem ser utilizados em momentos de turbulência. Desta forma, apesar da retração da indústria no último trimestre de 2008, que pode persistir no primeiro trimestre de 2009, ainda sob o impacto da fase mais aguda da crise, a tendência é de que esse cenário dissipe-se ao longo do segundo semestre. É possível, portanto, que o país mantenha sua trajetória de crescimento, ainda que num ritmo menor que nos últimos anos.

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Consultores Antoninho Marmo Trevisan

Presidente do Conselho Consultivo da BDO Trevisan Razão e responsabilidade

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Como muitos já disseram e outros tantos ainda haverão de repetir, a economia – esta entidade quase mítica à qual prestamos certas reverências e dedicamos parte de nossas vidas e esforços para compreender e operar – não é uma ciência exata. Está, sim, sujeita às variações de humor de seu real protagonista, o Homo sapiens sapiens. Os reflexos dessa interdependência são umbilicalmente afetados por uma característica basilar da fascinante espécie: o instinto de sobrevivência. Em razão de sua tendência à luta pela sobrevivência, homens e mulheres tendem a não medir esforços para garantir a sua própria sobrevida e a de seus descendentes ou agregados. Desta forma, são nos momentos de crise que surgem algumas das características humanas mais contraditórias à razão. Lembremos de um dos efeitos que caracteriza algumas reações notadas nos momentos de crise: o comportamento de manada. Sabemos que se trata de uma das mais ruidosas reações animais, pela qual, diante de uma ameaça, um grupo de indivíduos dispara em fuga, sem sentido determinado. As baixas vão sendo contadas ao longo do caminho traçado aleatoriamente. Sucumbem não só integrantes do grupo, mas também aqueles e aquilo tudo que estiverem em seu caminho. A crise atual - que teve origem no estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, com os problemas advindos dos agora bastante conhecidos contratos de financiamento subprime – apresentou-nos uma série de exemplos notáveis de comportamento de manada. Os resultados dessas reações instintivas e, na maioria das vezes, irracionais, todos conhecem: inúmeras baixas, agentes e empresas enfraquecidas e desgastadas e terreno arrasado. Para aqueles que gostam de enxergar movimentos cíclicos nas expressões da atividade humana, a economia passa por um momento de baixa, de situação negativa, de instabilidade ou, como na expressão mais comum, de crise. A própria negatividade carregada por estes termos estimula a atitude e o pensamento negativo entre os que atuam, os

que gerem ou, simplesmente, os que sofrem os efeitos da dinâmica econômica. Assim, a atitude negativa e todas as consequências dela advindas têm impregnado o mercado, fazendo com que se carregue além do necessário nas tintas da atuação conservadora, provocando perdas mais significativas do que as que poderiam ser consideradas razoáveis. Poucos são aqueles e aquelas com a força de caráter e a confiança necessárias para encarar de frente os momentos difíceis e neles enxergar o território propício ao empreendedorismo, à criatividade e à colheita de oportunidades. É justamente no exemplo dessas pessoas que a sociedade deve e precisa inspirar-se para virar o jogo. Ao acompanharmos as avaliações de economistas, especialistas, empresários, governantes e seus representantes, entidades e organizações, jornalistas e outros tantos profissionais que têm opinado sobre a crise nos últimos meses, o que salta aos olhos é a impressão de que os problemas são muito maiores do que a nossa capacidade de resolvê-los. Isso não é verdade. A história mostra-nos que crises muito mais agudas já foram enfrentadas e suplantadas, inclusive aquelas provocadas ou aprofundadas por fenômenos naturais. Assim, o primeiro mandamento que nos cabe seguir é: olhe o cenário sempre com otimismo. Para exemplificar, podemos analisar as próprias características da atual crise. Afinal, não são todos os setores da atividade econômica que estão sendo afetados negativamente. Inclusive, algumas empresas nem saberiam da crise se seus gestores não tivessem ligado a televisão, ouvido rádio ou lido jornais. Recorro ao meu segmento de atuação, de prestação de serviços de consultoria e auditoria, em que as empresas continuam a demandar esse trabalho e seguem pagando suas contas. A rigor, o setor não sentiu a crise. Por outro lado, empresas dependentes das exportações estão sofrendo o recuo de suas atividades, diante de um mercado externo que se está fechando. Também o segmento de bens duráveis, como o de veículos, sofre com a falta de crédito para a venda de seus produtos. Chegou a hora de os gestores dedicarem às empresas um olhar mais pragmático, porque a análise científica dessas últimas duas décadas – em que imperou a noção de que o mercado é uma entidade intocável, que deve se autorregular, liberta de controles impostos pelo Estado – mostrou que muitos erros foram cometidos. Os gestores deixaram de decidir baseados em seu feeling, passando a tomar decisões em cima de comitês, de instâncias, o que fazia com que ninguém fosse o real responsável pelas definições dentro da empresa. Hoje, vemos empresários reassumirem o controle e as decisões em suas companhias, em substituição aos gestores profissionais. É importante construir uma governança corporativa que valorize cin-


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co elementos essenciais: controle, caixa, custos, processo e risco. São cinco letras iniciais (CCCPR) que indicam aquilo que a empresa não pode abrir mão em todos os momentos, em especial nos momentos de crise. É preciso controlar tudo o que acontece na organização; administrar atenta e responsavelmente o caixa; ter foco no negócio e definir quem é que deve tomar as decisões quando preciso; dinamizar, baratear e tornar mais eficientes os processos; além de administrar e minimizar os riscos. Vale destacar que, a partir da história que está sendo escrita na economia global, as empresas do mundo e do Brasil nunca mais serão as mesmas do ponto de vista da gestão. Há, sim, uma enorme revolução na maneira de gerir as corporações, o que é positivo. Neste sentido, a crise tem um componente saneador, pois as pessoas devem voltar-se a construir suas decisões a partir de questões humanistas ou comportamentais. Nesse contexto, o Brasil tem uma vantagem formidável, porque é um país de empreendedores. Temos quase cinco milhões de pessoas entre 18 e 64 anos à frente de negócios. A vantagem que temos ante outras nações é que o brasileiro é capaz de fazer negócios das formas mais criativas, enquanto o mundo estava se acostumando a operar por manual, achando que a sociedade também é óbvia nas consequências. Ela não é! Ela reage! Além disso, o Brasil tem ampliado seu mercado interno, incluindo social e economicamente fatias da população, cujos cidadãos não figuravam entre os chamados consumidores com poder de compra. Em cinco anos, foram agregados 30 milhões de novos consumidores ao mercado nacional. Por outro lado, somente 15% do PIB está exposto ao mercado externo. O país está iniciando um processo de crescimento, e nós temos tudo a fazer. O atual momento econômico também tornou evidentes elementos de uma outra crise que se vem desenhando: o irreversível esgotamento futuro das fontes de combustíveis fósseis, com imensa participação na matriz energética mundial; e os inestimáveis danos causados ao meio ambiente, pelo uso intensivo dos derivados de petróleo. Pode até soar como pretensão, mas a verdade é que somente o Brasil dispõe, hoje, de tecnologia e de meios viáveis de produção para substituir, em sua matriz energética, os derivados de petróleo por biocombustíveis – em especial o etanol – ou por hidroenergia, fontes reconhecidamente menos poluidoras. O desenvolvimento tecnológico pode mudar isso, mas não no curto prazo. Estudos da União Européia indicam que, entre 2009 e 2030, a procura mundial por energia aumentará em torno de 1,8% ao ano, o que dá uma ideia do potencial que será exigido no breve futuro. Por outro lado, a possível substituição da matriz energética mundial a partir da produção de combustíveis de origem vegetal traz à tona um dilema contemporâneo da sustentabilidade: afinal, como obter biocombustíveis sem prejudicar e encarecer a produção

de alimentos? Nesse cenário, o Brasil posiciona-se como a grande potência ambiental e energética, pois é o único país onde existem plenas condições de se obter combustíveis e eletricidade advindos de fontes renováveis, sem prejuízo à produção de alimentos. Como admite a FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, temos a maior área de agropecuária do mundo, com 235,1 milhões de hectares, clima propício, a mais abundante reserva hídrica, biodiversidade superlativa e tecnologia para agregar valor a tudo isso. Além disso, para produzir nosso etanol, que substitui mais de 50% do consumo interno de gasolina, é utilizado apenas 1% das terras agricultáveis com a cultura da cana-deaçúcar. Como se percebe, o Brasil tem condições ímpares de evolução neste campo, já que a dependência de fontes externas é pequena e sua energia é limpa, abrindo oportunidades para investidores em mecanismos sustentáveis. É certo que vivemos momentos de grave instabilidade e encaramos problemas difíceis. No entanto, a estrutura da economia brasileira é hoje muito mais sólida do que no passado. Dispomos de recursos e de alternativas – como o recém-ampliado mercado interno – que nos abrem caminhos. Contamos com instituições estáveis e consolidadas e a nossa democracia tem crescido a cada nova eleição. Os governos federal, estaduais e municipais têm adotado medidas firmes para minimizar os efeitos da crise sobre nossa economia, especialmente relacionadas aos setores mais afetados. Também diversificamos nossas relações comerciais internacionais, agregando parceiros e abrindo mercados. Paralelamente, a atuação global dos governos de vários países tem propiciado soluções que dão alento às perspectivas da economia mundial. Em momentos como o atual, é extremamente difícil e temeroso o exercício de construir cenários futuros. No entanto, diante das bases referidas e tendo em vista o gigante potencial econômico de nosso país, o Brasil tem todas as condições de sofrer na mais reduzida escala os problemas da crise econômica e, especialmente, de deixar tal situação no menor intervalo de tempo, retomando a tendência de crescimento que se consolidava até o terceiro trimestre de 2008. É preciso, no entanto, que empresas e agentes de mercado tenham em mente que a gestão responsável é essencial para a superação exigida pela atual conjuntura internacional adversa. A lógica do padre Luca Paciolo, considerado o pai da Contabilidade, está voltando. Com ela, resgata-se, com muita força, a visão de que uma empresa precisa ser gerida a partir da verdade dos números, das referências do débito e do crédito, da aplicação e da origem do recurso, pois não pode viver de fantasia. É, portanto, a partir da valorização da razão, da gestão responsável, da governança corporativa, do espírito empreendedor e, especialmente, do otimismo quanto ao presente e ao futuro, que enfrentaremos e superaremos esta crise.


Consultores Roberto Luis Troster Sócio da Integral Trust

A crise global é um problema local O que acontecerá? O país vai crescer 2% ou 4%? Perderei meu emprego este ano? A minha empresa vai continuar lucrativa? Essa é a preocupação dominante de norte a sul do país. Ninguém sabe a resposta completa, todos são aprendizes; é uma nova realidade. Entretanto, é possível antecipar que observaremos mais volatilidade nos mercados por algum tempo, crescimento fraco, desemprego, e depois de um tempo, a tempestade passará e o mundo e o Brasil continuarão a crescer. Há oportunidades a serem usufruídas e armadilhas que devem ser esquivadas. O futuro não é algo a ser esperado e sim a ser construído. O mundo que existia em 2008 acabou e não vai voltar. O ano de 2009 será de transformações. A intensidade e a velocidade das mudanças dependem, em parte, das ações que o governo e as empresas adotem. O setor público deve ter uma queda de arrecadação e menos margem de manobra, para mais gastos. Por outro lado, a desaceleração da economia aumenta a pressão política para mudanças e avanços, mesmo que pequenos, no quadro institucional. Nas empresas, as menos endividadas, com poucos insumos em dólares e em setores com boas perspectivas são as que têm as melhores perspectivas. Os sinais para a economia estão fracos, mas depois melhoram. A boa estrela do Brasil continuará a brilhar. Mesmo com a perda de fôlego e ajustes, o mundo continuará a demandar matériasprimas, alimentos e biocombustíveis, com a desvalorização, a indústria nacional volta a ser competitiva e o setor de açúcar e álcool é favorecido. Há também potencial interno para expandir a oferta e atender a essa demanda externa, bem como um mercado interno de 200 milhões de consumidores. Há uma miopia e foca-se apenas na situação atual, no desempenho em 2009, sem pensar em 2010 e 2020.

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O mundo vive um novo paradigma, com outros desafios. As novas tecnologias, os ganhos de produtividade e a maior abertura comercial e financeira deram uma nova dinâmica às economias. A crise é passageira e em alguns trimestres será coisa do passado. O fato recente mais importante que aconteceu para o setor de açúcar e álcool foi a desvalorização do Real, que vai alterar o padrão do comércio exterior. Uma desvalorização tem efeitos diversos, que dependem das circunstâncias. Existem maxi’s que “dão errado”, como a mexicana em 1994, e maxi’s que “dão certo” como a inglesa em 1992. No caso do México, a desvalorização foi forçada pelo mercado, e foi acompanhada de outras desvalorizações. Na Inglaterra, a desvalorização da Libra promoveu um crescimento maior que a dos demais países europeus e a diminuição da inflação. Hoje, o Brasil tem reservas elevadas, permitindo-lhe administrar a volatilidade cambial, o que é uma situação bem diversa da que foi em 1999. Uma maxi traz embutidos vários benefícios. O primeiro é o aumento no emprego e no produto, melhorando os indicadores sociais. O segundo é uma melhoria nas nossas contas externas, promovendo um crescimento expressivo das exportações de produtos industriais e uma diminuição nas importações. No caso dos derivados do açúcar e álcool, a maxi compensou parte da queda do preço em divisas. O último destaque é a melhoria nas contas públicas, trazida com a maxi, pois com reservas elevadas, houve um ganho para o Banco Central do Brasil, que se traduz numa redução da dívida pública líquida. Também é fato que uma maxi tem custos que necessitam ser aferidos. Os dois custos mais expressivos de uma maxi são o impacto no sistema financeiro e nos preços. Contudo, no Brasil, esse efeito é facilmente absorvível. Os bancos brasileiros apresentam-se muito fortes e o descasamento em divisas nos balanços dos bancos é baixo. O efeito inflacionário de uma desvalorização depende de muitos fatores, mas, no nosso caso, a resultante é baixa. Diferentemente do que aconteceu outras vezes, atualmente, não há possibilidade de excessos de demanda, os mecanismos de mercado estão mais presentes e as características de contestabilidade são muito melhores. Portanto, o impacto é expressivamente inferior ao de uma década atrás. Há uma defasagem entre a desvalorização e seu impacto benéfico na economia. É conhecido como curva J na literatura. É o tempo que demora para que a indústria nacional adequese à nova matriz de preços, dada pelo novo patamar do câmbio.


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O aperto do crédito é anterior a setembro e pode diminuir o impacto positivo causado pela desvalorização cambial. A indústria brasileira necessita de financiamentos acessíveis para retomar os mercados que perdeu no período em que o câmbio estava valorizado. O Brasil tem uma vantagem competitiva nos biocombustíveis, reconhecida mundialmente. O Proálcool foi desenvolvido por ocasião do primeiro choque do petróleo. A cadeia produtiva brasileira do álcool - preparação da terra, formação de mudas, plantio, colheita, refinação, armazenamento, desenvolvimento de motores etc - é a mais sofisticada da atualidade. O mundo está acordando para os biocombustíveis, enquanto o Brasil está três décadas à frente. A agricultura brasileira teve uma revolução produtiva, da porteira para dentro, com ganhos de produtividade consideráveis; o país tem a tecnologia mais avançada em biocombustíveis. Nesse sentido, as ações necessárias para consolidar o Brasil como pólo mundial de biocombustíveis já estão diagnosticadas: padronização mundial de sua produção; investimentos em pesquisa; um programa de estocagem apropriado; um regime de comercialização adequado; um tratamento tributário justo; investimentos em pesquisa e tecnologia; um monitoramento contínuo da matriz

energética mundial; e um gerenciamento sistêmico do projeto. O novo paradigma mundial exige ações contundentes. Para tanto, deve-se agir. A capacidade de desenvolvimento do Brasil é grande e há condições de prosperidade que não devem mais ser desperdiçadas. Para isso, é necessário pensar sistematicamente no futuro e antecipar problemas, em substituição à miopia atual. Há um horizonte promissor, que deve ser usufruído. Numa economia que deve crescer 2% ao ano, haverá empresas expandindo-se a 20% e outras deixando de operar. Esperar apenas pelas ações de Brasília é arriscar a ficar a ver navios. Cada setor tem que determinar a política que deseja, focando no longo prazo; o de açúcar e álcool deve propor como manter a vantagem competitiva que tem. É uma questão de tempo, apenas para que os combustíveis fósseis voltem a patamares de preços mais altos. Mesmo com a crise internacional, ainda há liquidez, taxas de juros internacionais baixas e demanda por energia, o mercado interno é o décimo do mundo, o ambiente dos negócios é sofisticado, o sistema financeiro é moderno e as empresas são inovadoras. Complementando, a agricultura brasileira é competitiva e há mão-de-obra e recursos naturais. É uma oportunidade histórica. Pode-se esperar e aceitar o que está por vir, ou fazer acontecer.

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Consultores Carlos Eduardo Araujo

CFO do Mackensie Agribusiness Crise global, uma crise de gestão

A crise financeira global que vivemos hoje tem, na verdade, em suas raízes, uma crise de gestão. Alicerço minha tese numa recente pesquisa com executivos de grandes empresas nacionais, realizada pela consultoria Booz & Company. Dos 90 entrevistados, 73% admitem que suas empresas adotaram ações inapropriadas, que aceleraram o crescimento e queimaram suas reservas. Em outra pesquisa desta consultoria, que envolveu 828 executivos de empresas instaladas em 65 países, os entrevistados questionam a própria capacidade gerencial para encontrar soluções para a crise e conduzir suas organizações a um porto seguro. Ao analisar as ações e estratégias de algumas grandes empresas que protagonizam essa crise, veremos claros exemplos de erros de gestão: • General Motors: Um dos motivos para seu rombo financeiro é o alto custo do plano de previdência e saúde, que garante aos aposentados os mesmos direitos dos trabalhadores na ativa e consome 5% do faturamento líquido da companhia. Na década de 60, quando o plano entrou em vigor, a expectativa de vida da população era de 50 anos e os sistemas de saúde não eram onerosos. Mas, hoje, com o aumento da expectativa de vida para, pelo menos, 70 anos e a elevação dos gastos em saúde, manter os benefícios aos aposentados é extremamente custoso. Além disso, a GM cometeu um erro estratégico ao resistir em fabricar carros com baixo consumo de combustível. Este erro custou-lhe a perda de 77 anos de liderança no mercado americano, para a Toyota. • Nortel Networks: A maior fabricante de equipamentos telefônicos da América do Norte, a empresa canadense Nortel, é alvo de pedidos de falência. O estopim de sua crise foi um erro estratégico: a venda da unidade de telefonia móvel de alta velocidade para que a empresa pudesse centrar esforços em uma nova

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tecnologia de acesso à banda larga sem fio, a Wimax, que ainda não decolou no mercado. Outro fator que impactou tanto a saúde financeira da empresa como a confiança dos investidores foi a multa de US$ 35 milhões, imposta pela Securities and Exchange Commission - SEC, comissão de valores mobiliários americana. Motivo: a possível manipulação dos resultados financeiros de 2000 e 2003. A empresa nega, porém, teve de refazer seu balanço financeiro desde 1999, porque os executivos teriam registrado o faturamento incorretamente, inflando seus resultados operacionais. • Bancos americanos e europeus: Essas instituições carregaram e alavancaram suas carteiras de créditos com ativos podres, o subprime – crédito imobiliário para clientes com alto risco de inadimplência, porém com taxas de juros elevadas. Com esta estratégia, os bancos comprometeram a saúde financeira, o que levou à quebra instituições centenárias, como o Lehman Brothers e Merrill Lynch. • Empresas brasileiras: O grupo Votorantim foi um dos que sofreu duros golpes com a crise. Seu banco adotou uma estratégia de captação de recursos de curto prazo, em 24 meses, e financiou automóveis em 72 meses; ficou sem liquidez com a crise global, que provocou o fechamento das linhas de crédito. Outra empresa do grupo adotou estratégias financeiras de alto risco, apostando em derivativos com a expectativa de queda do dólar; como o dólar disparou, teve prejuízo de milhões de reais. Apostaram também em operações com derivativos a Sadia e Suzano e igualmente amargaram prejuízos milionários. Setor sucroalcooleiro: A indústria nacional de açúcar e álcool também tem lições a tirar da crise financeira global. Usinas venderam safras futuras, captando recursos através de operações de curto e médio prazo, como ACC – Adiantamento de Contrato de Câmbio, para financiar novos projetos e ampliação de produção. A política adotada levou as usinas a consumirem seu capital de giro, o que as obrigou a postergar pagamentos de fornecedores de cana, insumos e salários. Outro erro estratégico do setor foi entrar na “bolha do etanol”, sem saber qual seria a demanda efetiva pelo produto e acreditar que o governo americano iria abrir as portas dos EUA para o etanol brasileiro. Em janeiro de 2007, o departamento de agricultura dos Estados Unidos aprovou subsídios de US$ 87 bilhões aos produtores de milho do país. O subsídio vai até 2012 e reforça a concorrência do etanol de milho americano com o da canade-açúcar do Brasil. Esses são equívocos pontuais e recentes. Mas, a rigor, os problemas de gestão no setor sucroalcooleiro vêm de longa data.


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O problema das usinas é que embora invistam milhões de reais em tecnologia avançada, do plantio à obtenção do produto final, muitas ainda são administradas como os antigos engenhos, com práticas de gestão que estão muito aquém de suas necessidades. Por incrível que pareça, a maioria dessas empresas não conhece seus custos de produção agrícola/industrial, seja porque seus controles são ineficientes ou não dominam uma metolodologia básica para apuração dos custos. Ou seja: sua gestão é fundamentada no fluxo de caixa. A questão dos custos é um tabu no setor sucroalcooleiro, e isso se deve ao seu próprio modelo de desenvolvimento, onde, até 1997, era o Governo Federal que determinava o preço de venda do açúcar e do álcool e a quantidade a ser produzida. Para exemplificar como os custos agrícolas interferem significativamente no desempenho do setor, chamo a atenção para os seguintes pontos: • A “bolha do etanol” provocou, nos últimos sete anos, o aumento de até 90% do valor das terras para o cultivo da cana. Uma variação dessa magnitude tem significativo impacto no desembolso de caixa da empresa. Se uma usina com moagem de 2 milhões de toneladas necessita, para 25 mil hectares, um aumento de 4 toneladas por hectare ao preço de R$ 32 significa um dispêndio extra de R$ 3,2 milhões por ano. Este foi um dos impactos no capital de giro das Usinas, além do acréscimo de custos nos insumos agrícolas, máquinas, implementos agrícolas e mão-de-obra.

• O preço dos insumos iniciou uma tendência

de alta em janeiro de 2000, que se acentuou a partir 2007, elevando significativamente o custo da tonelada de cana. No período entre janeiro/07 a junho/08, há insumos que encareceram até 1.000%, conforme dados do Instituto de Economia Agrícola. • Outro ponto a ser questionado é a composição de custos, quando se processa matériaprima própria ou fornecida por terceiros. No primeiro caso, devem-se considerar todos os custos, inclusive o custo de capital da terra e do capital de giro, enquanto que o pagamento para o fornecedor é através do Consecana, portanto um custo de aquisiçao menor do que o custo da produção própria. Neste contexto, onde os preços dos produtos finais não acompanharam os aumentos dos custos dos insumos, a melhor alternativa é focar a redução de custos de tal forma a não impactar negativamente a produtividade dos próximos anos.

• Além dos aumentos dos fatores de produção,

encontramos um verdadeiro desperdício, por exemplo, na aplicação de defensivos agrícolas acima da dosagem recomendada tecnicamente, ou na utilização de equipamentos superdimensionados nas operações agrícolas com custos operacionais elevados, enquanto um equipamento de menor porte e custos menores poderia executar as operações agrícolas com a mesma eficiência. Esses são alguns dos problemas que encontramos na gestão das empresas do setor sucroalcooleiro. A partir de um efetivo turn around, já utilizado por grandes grupos sucroalcooleiros, separando claramente o que é gestão e o que é propriedade, a profissionalização com planejamento e controle de custos, aliada ao uso de novas tecnologias, colocarão o setor novamente em um patamar de destaque no cenário mundial, possibilitando ao Brasil ser um dos grandes players no mercado internacional do agronegócio; através, principalmente, de ganhos expressivos de produtividade. Melhorias na gestão das empresas em geral, com ações mais conscientes e ponderadas, podem ajudá-las as empresas a enfrentar a crise global. Afinal, se na raiz da crise estão os erros de gestão, é pelos acertos que poderemos superar a atual situação. Vale acrescentar que os pilares da economia brasileira são sólidos, com livre movimento de capitais internacionais; câmbio flutuante com mínima intervenção governamental; política monetária ativa, com base nas metas de inflação adotadas pelo Banco Central; e política fiscal com dívida pública da ordem de 35% do PIB, bem abaixo do máximo recomendável de 50%. A conta pelos estragos da crise será paga pela sociedade como um todo - governos, empresas e trabalhadores. Mas, a tarefa será mais amena se, em vez de cortar custos indiscriminadamente, buscarmos, principalmente, eficiência e eficácia operacionais, aumento de produtividade e conquista de novos mercados. O Brasil pode sair fortalecido da atual situação, pois tem um mercado interno muito grande e uma agroindústria com potencial de crescimento capaz de atenuar os impactos da crise mundial. Basta que cada empresa faça sua lição de casa corretamente. Para concluir este artigo, faço um alerta aos colegas executivos e empresários: quando estiver pensando em cortar funcionários, pondere se você está realmente preparado para o cargo ou tomando a decisão mais simples.

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Entidades Paulo Antonio Skaf

Presidente do Sistema Fiesp/Ciesp Lições de casa em meio à turbulência Em resposta à prioridade máxima do Brasil em 2009, de garantir o crescimento do PIB num cenário mundial de retração, são importantes as medidas anunciadas pelo governo, como a flexibilização dos depósitos compulsórios no Banco Central, a redução de impostos na indústria automotiva e o aumento dos investimentos públicos. Entretanto, tais providências são insuficientes, pois esbarram em problemas pontuais e estruturais não resolvidos, que dificultam bastante a reação do país à crise. Dentre as questões pontuais, a mais urgente é garantir que os recursos injetados no sistema financeiro, por meio da liberação dos depósitos compulsórios, cheguem à economia real. Sem essa consequência prática, a medida é infrutífera e desnecessária, considerando que os bancos brasileiros, felizmente, não estão precisando de socorro. Se esse dinheiro não for usado para financiar a produção e o consumo, é melhor que retorne ao Banco Central, sendo destinado a engrossar o investimento público. Complemento fundamental ao aumento da oferta de crédito pela utilização dos recursos dos compulsórios é a imediata redução dos juros. No presente cenário, é inadmissível a manutenção da Selic em 13,75%. Todas as nações estão reduzindo as taxas, dando preferência ao fomento de suas economias, ante um eventual recrudescimento da inflação. O Brasil, contudo, vai na contramão desse processo, mantendo os juros reais mais altos do mundo, apesar de as previsões mais atualizadas sobre os índices inflacionários indicarem recuo em 2009. Quanto aos problemas estruturais, um dos mais graves é a cultura equivocada dos gastos públicos. Como é possível observar na peça orçamentária para o ano novo, recentemente aprovada pelo Congresso Nacional, o custeio da União é absolutamente paradoxal ao perfil que se espera do Estado contemporâneo. É um conjunto de despesas, resultante de vá-

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rias décadas de equívocos na gestão dos organismos públicos, que continuam inchados, onerosos para os contribuintes e ineficazes no atendimento em áreas cruciais, como saúde, educação, segurança e infraestrutura. Em épocas de vagas gordas, tais distorções ficam um tanto esquecidas, mas em períodos de crise mostram-se em sua plenitude e limitam o poder de reação do Estado. É óbvio que as medidas anunciadas pelo governo brasileiro para impedir a retração seriam mais consistentes em termos de volume de dinheiro, não fossem os recursos já comprometidos com a manutenção de uma estrutura pesada e anacrônica. Tivesse a União, assim como estados e municípios, um custeio mais racional, seriam melhores as suas condições para socorrer a economia, tanto com o aumento dos investimentos públicos, quanto por meio de redução tributária mais ampla do que a anunciada. De maneira direta (com maior aporte financeiro em obras de infraestrutura e melhoria dos serviços públicos) e de modo indireto (permitindo que, em vez de impostos exagerados, as empresas investissem mais na produção e no mercado), o governo ajudaria muito mais o país do que lhe permite uma peça orçamentária permeada de despesas supérfluas, ante o presente cenário econômico. Os elevados gastos estatais, é pertinente lembrar, também se incluem entre as causas dos juros altos, que refletem a generosa remuneração dos títulos públicos, com os quais o governo gira sua imensa dívida, já quase do tamanho do PIB. Tudo isso é mais grave e visível no contexto da crise. Em momentos como este, torna-se um fardo ainda mais pesado para a sociedade e os setores produtivos arcarem com uma carga tributária tão elevada quanto à brasileira. Assim, tem um gosto ainda mais amargo, chegarmos ao final de mais um exercício e iniciarmos um novo ano - com o fator agravante da recessão anunciada nos países desenvolvidos - sem a realização da reforma tributária. É frustrante observar que sequer o projeto do Executivo, ainda longe dos anseios nacionais quanto à redução dos impostos, tenha caminhado no Congresso Nacional. Há tempos temos alertado sobre todas essas questões, inclusive nos momentos de maior euforia dos mercados, quando os problemas ficam latentes. Mais do que nunca, o governo precisa dedicar-se à sua solução, pois a crise evidencia as fragilidades do país, ante os furacões do sistema financeiro globalizado. Não fizemos as lições de casa quando tínhamos céu de brigadeiro. Agora, teremos de realizá-las em meio à turbulência.


Entidades Abram Szajman

Presidente da Fecomercio, SP

Reformas e controle de gastos são as saídas para a crise

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A Fecomercio - Federação do Comércio do Estado de São Paulo, descarta como improváveis tanto um cenário otimista de solução rápida da crise internacional, como o pessimista, no qual haveria depressão econômica e quebra de grandes empresas multinacionais. Consideramos que, apesar das dificuldades, ao longo deste ano haverá indícios de que os mercados caminham para o equilíbrio e para a normalidade. Os ajustes serão severos, porém não o bastante para causar uma quebra generalizada do setor bancário europeu e americano.

O Brasil precisa de uma relação dívida/PIB menor, de um colchão maior de reservas públicas e de um equilíbrio fiscal de longo prazo, robusto o suficiente para atravessar momentos de perda de arrecadação. Apesar das novas aquisições e fusões que certamente ocorrerão, o setor financeiro conseguirá se sanear, com base em pacotes pontuais de auxílio e por meio da constituição de fundos de crédito. Empresas de grande porte estão sendo auxiliadas por governos ao redor do mundo, o que reduzirá a perda de empregos e da confiança dos consumidores. Neste quadro sério, porém não trágico, a Fecomercio traçou algumas estimativas para a evolução das principais variáveis macroeconômicas em 2009, propondo alternativas de ações governamentais para enfrentar a crise. Apesar de ter conseguido reduzir, em 2008, a dívida pública em relação ao PIB, principalmente por conta da arrecadação recorde e do crescimento do próprio PIB, o governo não foi capaz de aproveitar o bom momento para gerar reservas estratégicas, elevando o superávit primário, por exemplo, para a casa dos 6% e reduzindo as taxas de juros a patamares mais condizentes com a situação do Brasil. Foi feito o contrário: elevou-se o gasto público e a taxa de juros, dificultando a queda da dívida e o equilíbrio de longo prazo. Espera-se que neste ano não prevaleça essa ausência de visão e de empenho, que tem sido a pior inimiga do crescimento sustentável e de longo prazo no País. O Brasil precisa de uma relação dívida/PIB menor, de um colchão maior de reservas públicas e de um equilíbrio fiscal de longo prazo, robusto o suficiente para atravessar momentos de perda de arrecadação.

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A inflação medida pelo IPCA em 2008 não ultrapassou o teto estabelecido pelas metas. A reversão do cenário cambial no final do ano passado comprometeu, principalmente, o comportamento dos preços livres, que registraram variação muito superior aos administrados. Para 2009, a variável chave para o cenário inflacionário é a evolução da taxa de câmbio. O ponto a ser destacado é o risco inflacionário que a taxa de câmbio impõe em momentos de falta de liquidez e aversão ao risco. O impacto positivo da queda na cotação das commodities internacionais sobre a inflação foi reduzido pelo impacto negativo que impõe a desvalorização do câmbio. Espera-se uma maior aceleração dos preços administrados neste ano, devido à inércia que o índice sofre. Mas, será a evolução dos preços livres, altamente dependentes da demanda, que determinará o desdobramento do processo inflacionário. O desaquecimento da


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atividade econômica deverá atenuar as pressões inflacionárias ao longo do ano, impondo novas condições com as quais o Banco Central terá que lidar, fazendo escolhas muito mais complexas do que nos últimos três anos. Em 2008, a relação entre o crédito concedido pelo sistema financeiro nacional e o PIB superou os 40%, resultado que não decorreu apenas de novos empréstimos, mas também de trocas entre as linhas de financiamento, como a substituição do crédito pessoal pelo consignado. Como em 2009 os efeitos da crise financeira global continuarão a se refletir, em especial nos primeiros meses do ano, haverá desaceleração no ritmo de concessões de crédito, tanto para os consumidores, quanto para as empresas. Para as pessoas físicas, os financiamentos bancários prosseguirão sendo restritivos: a liberação dependerá do grau de endividamento e do comportamento da renda, em razão do menor crescimento da massa salarial. Esta será influenciada pela menor demanda por trabalho qualificado e pela possibilidade latente do final do ciclo de queda do desemprego. Na área empresarial, a obtenção de crédito junto ao sistema financeiro será mais onerosa e submetida a maior rigor, por causa da queda na taxa de investimentos. Relativamente ao parcelamento nas vendas, os produtos de maior valor agregado serão os mais afetados. As intervenções governamentais, por meio da redução dos patamares dos depósitos compulsórios, certamente adicionarão liquidez ao mercado interbancário. Entretanto, os efeitos sobre as concessões de crédito não serão automáticos. As expectativas contemplam expansão dos financiamentos para as pessoas físicas e para as pessoas jurídicas, em níveis inferiores aos verificados em 2008. Os prazos dos financiamentos continuarão se retraindo. Nesse contexto, válido particularmente para o primeiro semestre, ocorrerá aumento da taxa de inadimplência, fator que as empresas e o sistema financeiro levarão em conta em seus negócios futuros. Apesar da apreciação cambial do início do ano passado e da queda dos preços das commodities, as exportações, responsáveis pela manutenção do saldo comercial superavitário, ultrapassaram, em 2008, a marca de US$ 200 bilhões, enquanto as importações aumentaram 45%. A pauta de exportações continuou a evoluir e o leque de clientes do Brasil diversificou-se. Isso reduziu sobremaneira o risco de concentração, como ocorre com a economia mexicana, por exemplo, que depende totalmente do desempenho da economia americana. Hoje, o Brasil é um país multilateral, de fato, no

comércio internacional: conseguiu acumular reservas em patamar próximo a outros US$ 200 bilhões, apesar da venda de dólares que ocorreu a partir de outubro, para fazer frente aos exageros do mercado financeiro em seus dias de turbulência. Porém, em termos de transações correntes e outras contas, o ano não foi tão positivo. As contas correntes fecharam 2008 no vermelho e podem atingir déficit superior a US$ 35 bilhões em 2009. Os investimentos diretos mostraram queda no final do ano passado e as perspectivas de curto prazo não são animadoras, dada a crise de liquidez internacional. Por conta da saída de dólares e de outras moedas, o Real passou de supervalorizado para um período de desvalorização. Em 2009, o quadro externo não oferece perspectivas animadoras. A balança comercial poderá apresentar superávit muito menor e o déficit nas transações correntes, por outro lado, aumentará. A restrição de liquidez e o encolhimento do comércio internacional e dos preços de commodities devem pressionar de forma bastante negativa a economia brasileira, constituindo o principal canal de contágio da crise mundial. O governo conseguiu, em 2008, manter o superávit primário em patamares elevados. Mas, fez isso da pior maneira, com aumento da arrecadação e não com ajustes de eficiência e cortes de gastos. Com o consumo crescendo a taxas de 10%, a arrecadação atingiu novos patamares recordes. Ainda assim, a obtenção de um superávit primário superior aos 3,8%, inicialmente previstos, agregada à redução de juros médios, permitiram reduzir a relação dívida/PIB. A continuidade do aumento de gastos do governo continua a ser um ponto crítico da economia nacional, pois compromete o controle da dívida pública e seu equilíbrio de longo prazo. Apesar dos avanços obtidos no ano passado, a paralisia de reformas no âmbito tributário, previdenciário, trabalhista, administrativo e burocrático afastou o Brasil da condição de candidato efetivo ao bloco dos países desenvolvidos. Para isso, o país precisa retomar as reformas citadas e promover outras de caráter microeconômico, que melhorem o ambiente de negócios, reduzam a burocracia e elevem fortemente o grau de segurança jurídica. Finalmente, no ano passado, o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento, continuou a ser uma quimera, sem efeitos práticos, que ficaram mais uma vez transferidos para o ano seguinte. Espera-se que em 2009 o governo consiga, finalmente, direcionar seus gastos no sentido dos investimentos, tão importantes para consolidar a capacidade de crescimento do país.

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Entidades Olivier Genevieve

Professor na Grande École de Commerce de Paris e Presidente da ONG Sucre Ethique A agricultura: Refúgio do capitalismo? Neste ano, todas as nações parecem estar no meio do caminho para as orientações econômicas a respeito da globalização, após a crise econômica de 2008. Falta de crédito, expectativa de decisões políticas nacionais e internacionais, paralisia da OMC - Organização Mundial do Comércio, e tentações de protecionismo, frente ao crescimento do desemprego são as dúvidas que pouco a pouco nos permitirão escolher um cenário que todos desejamos: um futuro sustentável. Em 1767, o francês François Quesnay publicou um livro esquecido pelos economistas modernos de Physiocratia. O pensamento de Quesnay baseava-se na agricultura e sua teoria explica que a origem do valor era na agricultura. Onde se planta um, pode-se colher, após alguns meses, 10, 20 ou 40 vezes mais. De fato, qual o melhor investimento, caso não tivessem secas ou epidemias, senão os rendimentos agrícolas? Em 1776, o inglês Adam Smith publicou em seu famoso livro - An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, em cima da riqueza das nações, considerado como o primeiro livro moderno de economia. O pensamento de Smith baseava-se no comércio internacional. Desde então, este livro virou a base do sistema moderno de origens dos valores, ou seja, a troca de mercadoria. Após o fim da União Soviética, novas ferramentas ideológicas “universais” surgiram. O famoso desenvolvimento sustentável com o aquecimento do planeta promete, ao mesmo tempo, um futuro feliz e o fim da humanidade. Estes dois paradigmas permitem aos gover-

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nantes fazer das mudanças necessárias de um modelo econômico uma herança da revolução industrial, em países onde as indústrias foram, em boa parte, deslocadas. De fato, as economias “hiper-ricas”, após o fracasso financeiro do ano passado e a contaminação rápida da economia real, estarão cada vez mais à procura de um crescimento econômico endógeno, reinventando indústrias não deslocáveis e baseadas, mais uma vez, na agricultura. Após o fracasso da Rodada de Doha, o dossiê agrícola está de vez no centro das discussões para uma retomada do comércio mundial. Desde os anos 50, os serviços e as mercadorias, sobretudo de bens manufaturados, foram liberados. Com o fim do bloco comunista e a entrada da China na OMC, no dia 11 de novembro de 2001, a globalização teve uma aceleração nunca vista na história. Desde então, a nova fronteira do comércio mundial parece ser o setor agrícola. Sabendo-se que os dois produtos mais comercializados são o petróleo e o café, podemos imaginar as perspectivas que dariam uma abertura do comércio mundial para o etanol e o açúcar. Desde o final dos anos 90, do século passado, as exportações subsidiadas são cada vez menos toleradas pela OMC. As políticas agrícolas de blocos econômicos como os Estados Unidos e a União Européia, heranças da saída da Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que garantem uma soberania alimentar, viraram verdadeiros freios à própria globalização. Todavia, estas políticas asseguram mercados externos via subsídios, ou seja, rendas para os agricultores e para as empresas exportadoras de produtos agrícolas. As políticas de transformação do açúcar de beterraba européia e do milho americano em etanol são uma saída, via criação de um novo mercado doméstico de energias “verdes”. Barack Obama promete uma revolução verde, na qual Green is good. Na continuação da política de George W. Bush, Obama nomeou como secretário de agricultura, Tom Vilsack, antigo governador do Estado agrícola do Iowa, pessoa favorável aos bicombustíveis. Um dos objetivos, além de assegurar os empregos, será fortalecer as indústrias pelo mercado doméstico, deixando o exterior para países mais competitivos, dentre os quais o Brasil, Argentina ou Tailândia podem sair “vencedores”. Todavia, o que é melhor? Um mercado doméstico cativo e remunerador ou um mercado internacional ultra competitivo e volátil? De fato, é provável que as importações de etanol para o primeiro mercado consumidor de energias sejam consideradas como variáveis de reajuste. Segundo os acordos do CBI - Caribbean Basin Initiative, assinados pelos países centro-americanos e os Estados Unidos, até 7 % do consumo doméstico norte-


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americano pode ser importado sem impostos de importação. Também é previsto que até 50% da matéria-prima possa ser de origem estrangeira. Empresas como a Cargill, Coimex e Crystalsev aproveitaram esta oportunidade investindo na Jamaica e em El Salvador, esperando, assim, poder exportar matéria-prima do Nordeste, transformá-la e re-exportá-la para os Estados Unidos. Será que o etanol poderia virar uma commodity negociada nas bolsas? De fato, a Ietha - International Ethanol Trade Association, tem tido sensíveis sucessos desde outubro de 2007, harmonizando os contratos. Todavia, o etanol ainda não é produzido em muitos países com objetivo de exportação. Isso significa que o etanol será somente uma verdadeira commodity quando vários países o produzirem. Por este motivo, o Itamaraty fez, recentemente, uma verdadeira diplomacia do etanol em países Africanos, do qual vários fazem parte da listagem do conselho econômico e social da ONU dos países menos desenvolvidos, que assinaram com a União Européia o acordo Everything But Arms - EBA. A partir deste ano, o mercado Europeu receberá importações destes países, livres de impostos de importação. A Europa privilegia também países do ACP (África, Caribe e Pacíficos, tradicionais exportadores de açúcar bruto). A longo prazo, o etanol poderá completar o açúcar, a fim de abastecer o mercado europeu, que é o segundo maior consumidor de energia do mundo. A Europa conhece, no mercado comum, duas forças políticas antagonistas. De um lado, o campo “comércio internacional”, liderado pela Grã Bretanha e Holanda, e do outro lado o campo “agricultura”, liderado pela Alemanha e França. O provável seria uma conciliação dos dois. A Europa precisaria do mínimo de etanol de reajuste até construir seu setor de produção. No mercado do açúcar, a Europa será cada vez mais importadora dos países menos desenvolvidos. Pelos acordos que citei, o mercado europeu, aos poucos, virou o primeiro mercado de importação de açúcar e talvez amanhã possa virar um importante importador de etanol. A comissão européia, frente à modificação que aconteceu na organização comum do mercado do açúcar em 2003, terá vontade em criar fontes de empregos ou de, pelo menos, preservar empregos com a criação de uma produção de etanol local. Visto este panorama, o etanol, para muitos produtores, parece ser uma saída. Todavia, frente a países mais competitivos, como o Brasil hoje em dia e talvez Moçambique amanhã, o futuro do etanol made in Europe parece estar comprometido, sem uma vontade política clara, mesmo que a Europa ainda a procure. A comissão européia, em dezembro de 2008, clarificou o uso dos agrocombustíveis, dando assim uma base legislativa para o mercado doméstico. As indústrias consumidoras representadas em outros países, como em Bruxelas, pelo Comitê Europeu das Indústrias Utilizadoras de Açúcar (Committee of Industrial Users

of Sugar – CIUS), conseguiram uma queda do preço do açúcar na União Européia, mas, mesmo assim, os preços internos ainda eram bem maiores que o preço mundial. A procura da sustentabilidade poderia ajudar na queda das barreiras européias. Em resumo, as expectativas dos dois grandes mercados de consumo atual ou potencial, tanto de etanol, quanto de açúcar, parecem ter objetivos políticos opostos: recentralizar as atividades “verdes”, criando ou assegurando empregos, e abrir o mercado para ser mais competitivo, sem empregos e, consequentemente, sem consumidor. O equilíbrio é o mais difícil, por ter forças contrárias. Isso é um dos papéis dos políticos atuais, que marcarão novas regras de mercado. A internacionalização das agriculturas com investimentos de multinacionais nos países do sul, como no caso da África, para abastecer o mercado europeu e a América Central e do Sul para o mercado norte-americano e europeu, parece ser uma das expectativas a longo prazo. A pergunta é quando os Estados Unidos ou a Europa venderão as terras deles às pessoas que não são agricultores? Isso pode significar, caso as legislações nacionais permitam, uma valorização das terras, que poderiam ser fonte de especulação. O risco de abastecer com a agricultura, diretamente, um novo “moloch” especulativo existe, e poderia ser feito não pela produção de alimentos ou pelo abastecimento de mercados, mas pelo próprio dinheiro em cima da crença que a terra não mente, enquanto todo o restante está perdido. Uma das contra tendências do mercado sucroalcooleiro são as normas de sustentabilidade. De fato, existem dezenas de normas, mas três parecem ter uma real aplicação de mercado: • A Better Sugarcane Initiative - BSI, que tem como vantagem ser iniciada por atores do mercado de empresas consumidoras de açúcar e etanol. Uma certificação BSI significa que empresas escolheram um fornecedor mais sustentável. • A Roundtable for Sustainable Biofuels - RSB, que tem um grande apoio da Universidade Politécnica de Lausanne, na Suíça, e um grande número de atores socioeconômicos que poderiam chegar a uma referência de mercado. • O Renewable Transport Fuels Obligation - RTFO, normativa do governo inglês, que exige das empresas distribuidoras no Reino Unido uma porcentagem de biocombustível (2,5% em 2008/2009, chegando a 5% em 2013/1014), no total de todos os combustíveis para o transporte. Assegurar a segurança alimentar e agora energética parece ser o papel dos dirigentes, reafirmando a posição do estado à frente de capitalistas irresponsáveis, que procuram um lucro fácil e imediato. Tomara que desta vez a agricultura não seja sacrificada no altar do "moloch" de Adam Smith, mas que reenforce o entrelace entre as economias por uma verdadeira e justa riqueza entre liberdade de comércio, igualdade entre os homens e fraternidade entre os povos.


Entidades Pedro Robério de Melo Nogueira Presidente do Sindaçúcar-AL

Um ambiente para a evolução do setor sucroenergético O calendário gregoriano impõe-nos uma tradição de, ao iniciarmos um novo ano, realizarmos uma série de exercícios para nortear as nossas atividades pessoais, profissionais ou empresariais. Esses exercícios têm grande significado para o desenvolvimento e a evolução de projetos. Em particular, o ano de 2009 requer do setor sucroenergético um aprofundado meticuloso e realista modelo de elaboração de cenários, para contextualizar o desenvolvimento setorial frente às realidades atuais, seus reflexos na evolução das empresas, na consolidação de mercados e na vida dos que integram essa extensa cadeia produtiva. Não bastasse a preocupação dos empresários do setor com a redução de receita observada pela queda nos preços internacionais e pela taxa de câmbio vigente, num ambiente de franca expansão dos investimentos no setor, a nova realidade requer das empresas uma melhor avaliação da velocidade de implantação de seus projetos, considerando seu equilíbrio financeiro e a clareza de visão dos mercados internos e externos que se pretende atender. Adjetiva-se essa crise das formas mais contundentes e catastróficas. A mobilização dos governos, empresas, entidades e classe trabalhadora ainda é de perplexidade e de desconhecimento da sua real magnitude e do prolongamento temporal dos seus efeitos. É racional, compreensivo e exigível que qualquer atividade ou setor da atividade econômica refaça e acautele-se no programa de inversões de capital nos projetos empresariais de expansão. É atitude responsável avaliar os riscos que sejam reais e verdadeiros, definir o que pode ser postergado, sem comprometer o todo, e desenvolver a criatividade, a persistência e a vocação para os projetos de sua expertise. Ao analisarmos a performance mais recente do, hoje chamado, setor sucroenergético, podemos notar algumas constatações relevantes: • O crescimento, na última década, na oferta de produtos finais está ao redor de 11% ao ano, em média, portanto, muito vigoroso; • Esse crescimento não se verificou apenas em igual crescimento da oferta de matéria-prima, mas, por um aumento médio da produtividade industrial, em mais de 3% ao ano, o que demonstra uma melhoria significativa na competitividade e na confirmação do crescimento vertical autossustentado;

• As

empresas vêm passando por profundo processo de profissionalização e reorganização societária, mediante o processo de aquisições e fusões e introdução de sistemas modernos de governança corporativas, atraindo um bom fluxo de inversões de capital externo. Atualmente, cerca de 11% da cana moída no país, localiza-se em empresas com participação de capital estrangeiro; • O mercado interno de etanol consumido pela frota de veículos flexíveis vem crescendo de forma exuberante, alcançando parcela expressiva da oferta de veículos produzidos pela nossa indústria automobilística; • A adesão a modelos de produção autossustentáveis pelas empresas, socioambientalmente corretos, credencia o segmento como integrado às melhores práticas no emprego e no respeito ao meio ambiente. O arrefecimento atual no fluxo de capital externo, a incerteza quanto à velocidade de expansão para os mercados externos do etanol e a inexistência conjuntural de poupança própria do setor para manutenção dos projetos de expansão e da suas atividades operacionais, não deverá gerar, na mesma proporção, a involução da atividade ou de incertezas, no que se refere à sua viabilidade, a partir de invocações aos efeitos da atual crise financeira global. O descompasso entre o crescimento extraordinário da oferta de produtos e a menor velocidade na agregação de novos mercados, sobretudo para o etanol no mercado mundial, deve ser a principal agenda nas deliberações empresariais para o curto e médio prazo. Assim como os marcos através dos quais deverse-ão constituir todo o planejamento estratégico do setor como um todo e para os agentes

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econômicos envolvidos, valorizando, adequadamente, é claro, porém, de forma conjuntural, a turbulência presente, visto que os seus efeitos não estavam presentes na agenda de reflexões para o setor, antes dos últimos quatro meses. Uma crise financeira na proporção que estamos vivenciando impõe-se, capitalizando todas as atenções, medidas e análises para o curto prazo. Entretanto, devemos considerar que nesses momentos de pressão extrai-se a criatividade necessária para seu enfrentamento, com medidas inéditas e ações que não recebiam encorajamento adequado para implementação. Relendo algumas edições anteriores da Revista Opiniões, pude se constatar, nos temas abordados, o potencial de expansão do setor e a necessidade de algumas medidas estruturantes e de equilíbrio na equação - oferta e mercados. E é nesse contexto que deve ser construído o ambiente de trabalho para o setor sucroenergético. Algumas verdades positivas continuarão a frequentar essa atividade econômica e por elas que devemos direcionar as ações públicas e privadas, pois se tratam de âncoras definitivas na sua viabilização: • Num ambiente normal de atividade econômica, sem movimentos de recessão, o petróleo terá sempre preços crescentes; • A consciência mundial para a produção de energias limpas e renováveis, que não estimulem o aquecimento do globo, incorporou-se na pauta de todos os países desenvolvidos; • Na vertente estratégica, a necessidade de produção de energias alternativas, para mixar a dependência excessiva da oferta de petróleo, originado dos instáveis governos do oriente médio e agora da América Latina, passa a integrar os objetivos de países desenvolvidos; • Por essas razões, os movimentos iniciais de países desenvolvidos, para constituir o etanol combustível como uma commodity, passam a estimular a instalação de projetos para produção desse combustível em vários territórios; • A inquestionável condição de menor custo de produção para o etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil, coloca esse segmento produtivo como consolidado em sua viabilidade econômica em regras de livre mercado; • O potencial de produção alternativa de energia elétrica a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar consolida o setor sucroenergético brasileiro numa posição de viabilidade consolidada de eficiência na produção e oferta de combustível e energia autossustentável; • A absorção expressiva de postos de trabalho e a sua interiorização remetem esse setor para um dos mais significativos empregadores de mão-de-obra no país. Depreende-se, pois, que essas verdades, vencidos e superados os efeitos da crise financeira mundial, tornam o setor sucroenergético como um dos mais promissores e importantes da atividade econômica brasileira. Contudo, faz-se necessário que não percamos de vista a implementação de todo um conjunto de políticas e ações público-privadas, com vistas a consolidar e dar expressão econômica empresarial às verdades acima. Essas agendas vêm apresentando alguns avanços.

Entretanto, a) a lentidão ou indiferença dos EUA, Comunidade Europeia e Japão, dentre outros países, no sentido de reduzir as excessivas proibições de ingresso de etanol e açúcar em seus mercados; b) a ausência de uma política pública continuada, com vistas a definir a posição energética dos derivados da cana-deaçúcar em nossa matriz energética, vis-à-vis a particularidades dos demais energéticos em uso no país, no conceito da competitividade plena e direta e na valorização das externalidades dos energéticos renováveis, no conjunto institucional das políticas públicas para esse segmento, e c) a busca da consolidação de um modelo definitivo de comercialização e financiamento que contemple uma verdade “pétrea” que a sazonalidade da produção e o insuficiente sistema de financiamento de estoques. Para atravessar o cenário econômico mundial atual sem sofrer na intensidade anunciada a magnitude dos efeitos negativos na redução do crescimento do país, no emprego e na eficiência da atividade econômica, vale afirmar, sem preciosismo, que o setor sucroenergético produz energia e combustível de menor custo, logo, contribuindo para a eficiência econômica. Ocupa um contingente de 800 mil postos de trabalho, num momento de redução de oferta de emprego, e permanece inserido na agenda das atividades autossustentáveis social e ambientais. As empresas do setor já amargam o ajuste necessário entre o descolamento do aumento significativo da produção e o não alargamento dos mercados externos. Restam, pois, firmeza, equilíbrio e presteza para minimizar os efeitos da crise e para concretizarmos o horizonte bastante definido do futuro setorial, que era e continuará sendo o verdadeiro cenário de desenvolvimento. Para tanto, é imperativo que as verdades positivas desse setor e a vitalidade empresarial disponível fundamentem o debate conjunto entre governo e empresas, no encaminhamento e consolidação de políticas e ações que hoje são apenas “cenários”. As medidas gerais que o governo vem tomando para minimizar os efeitos da crise financeira mundial não têm sido suficientes para possibilitar menores impactos no setor sucroenergético, dada a especificidade de situação e do potencial do impacto nesse setor. Por esse fato, tornam-se necessárias medidas específicas e na dimensão da expressão setorial, que venham a permitir a normalidade do custeio da produção destinada ao comércio externo e adequada cobertura de crédito para formação de estoques sazonais. A esse conjunto de ações, somam-se as medidas tributárias voltadas para o futuro da competividade do etanol em cenários de incerteza com a volatilidade do preço do petróleo e para a formação de um sistema sustentável de formação de preços e comercialização de etanol futura, através da bolsa de mercadorias. Devemos, portanto, nos orientar pelo cenário econômico mundial favorável no médio e longo prazo, conforme já demonstrado. Quanto ao presente, é inevitável nos submetermos ao ajuste perverso, que decorrerá da imposição da crise financeira no curto prazo. Sejamos firmes, objetivos, determinados e criativos. Aliás, isto tem sido comum nesse setor.


Entidades Antonio Celso Cavalcanti de Andrade Presidente da Feplana

O cenário econômico mundial do setor sucroalcooleiro

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A cana-de-açúcar é uma cultura instalada no Brasil desde pouco depois de seu descobrimento. Desde o Governo Vargas, no início da década de trinta, e a pedido dos próprios fornecedores independentes de cana, o setor passou por intervenção governamental, pois, naquela época, passava por dificuldade de relacionamento em decorrência, principalmente, da desorganização dos produtores de açúcar e álcool e das dificuldades do mercado mundial desses produtos. Essa ação intervencionista foi encerrada em 1999. Como ocorre em toda intervenção governamental, essa trouxe alguns erros e exageros, mas, sem sombra de dúvida, organizou as empresas e criou regras que permitiam o equilíbrio de força entre fornecedores e industriais. Foram instituídas, por exemplo, normas para pagamento de cana ao fornecedor; assistência social aos trabalhadores; normas que determinavam o período de moagem da cana dos fornecedores; determinação do percentual de cana que os industriais deveriam receber dos fornecedores; entre outras determinações. Em 1965, uma lei consolidou as normas legais anteriores e determinou outras normas para reordenamento do setor. Esse foi o último instrumento legal que disciplinou o relacionamento entre fornecedores de cana e industriais. Com a extinção do IAA, em 1990, o setor industrial entendeu-se desobrigado da lei, fazendo cair por terra suas obrigações com os fornecedores de cana, no que diz respeito ao preço da matéria-prima, períodos de entrega e do pagamento da cana. Além disso, praticamente deixou de existir toda estrutura médica, ambulatorial e hospitalar, montada com recursos da lei nº 4870, que desonerava as obrigações do INSS, e era, sem dúvida, o melhor serviço hospitalar do Brasil. Perspectivas Futuras: Temos que examiná-las a curto e longo prazo. No quadro atual, a situação é de grave crise de descapitalização dos produtores independentes de cana-deaçúcar, pois os custos de produção chegam a R$ 55,00 e a venda apenas R$ 38,00 por tonelada de cana entregue na usina. A produção de cana que na safra 2000/2001 foi de 256 milhões de toneladas, em 2007/2008 elevou-se para 480 milhões de toneladas, ocupando apenas 7% da área agricultável do país. Com a utilização de nova tecnologia no uso total do

bagaço e da folha da cana-de-açúcar, conseguiremos dobrar a nossa produção de energia, passando de 10.000 MW, para 27.000 MW. Quanto à produção de álcool hidratado, passaremos de 6.400 litros, para 12.050 litros/ha. Hoje, assistimos, com preocupação, o futuro do setor, pois, apesar de ser um novo modelo energético, ainda se encontra sem a devida regulamentação, e infraestrutura, tais como portos, alcoodutos e estradas para o escoamento econômico do etanol. Lembram-se como foi o fim do Proálcool? Não podemos permitir que se repita e, para isto, a regulamentação é urgente e imprescindível. Ainda assistimos a grandes grupos nacionais e internacionais abocanhando boa parte do setor, causando uma grande concentração de riqueza e, consequentemente, expulsando o produtor independente do campo, ou seja, uma reforma agrária ao inverso. Se estabelecidas regras e normas para o setor industrial e o agrícola, cremos que o futuro energético do mundo passará por nossas mãos. Quanto ao propalado sucedâneo do Petróleo, pela cana, bagaço, palha e álcool, não vemos como não sê-lo. Se os países signatários do protocolo de Kyoto e do Programa de Mistura de Etanol à Gasolina (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Reino Unido, Irlanda e Japão) importarem 5% de nosso Etanol para suas misturas, teremos um incremento de produção 25 bilhões de litros de etanol, ou seja, o equivalente à safra atual. Se elevarem para 10% essa mistura, necessariamente teremos que produzir 64 bilhões de litros de etanol, para atendê-los. No Brasil, esta mistura é, hoje, de 25%. Segundo o Plano Decenal de Energia, divulgado no final de 2008, pela EPE - Empresa de Pesquisa Energética, a demanda de etanol carburante no mercado interno deverá passar de 25 bilhões de litros, para 53 bilhões, até 2017. Quanto à emissão do CO2: Desde o lançamento dos veículos flex, em 2003, deixouse de emitir 45 milhões de toneladas de CO2, graças à preferência pelo etanol. Segundo a Anfavea, cerca de 90% dos veículos leves novos comercializados no País são flex. Dito isso, e com todo respeito ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República, permitimo-nos utilizar a expressão abaixo para ilustrar: • “Nunca na história deste país”, houve tanta concentração de terras no setor sucroalcooleiro, em mãos de tão poucas pessoas. Ou seja, concentração de riqueza; • “Nunca na história deste país”, ocorreu tanto desemprego no setor, principalmente pelo fato de que os pequenos produtores – diante das dificuldades de custos de produção, venda da cana - vêm arrendando suas terras para usineiros e novos investidores industriais de álcool e açúcar, pelo prazo de até 12 anos. Diante disso, deslocam-se para as cidades em busca de trabalho, atualmente escasso, principalmente, para quem não tem qualificação profissional.


Opiniões

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Manoel Carlos de Azevedo Ortolan Presidente da Canaoeste

Perspectivas para o fornecedor independente de cana

Dentro da proposta de analisar o panorama imediato e as perspectivas de médio e longo prazo para os mercados de açúcar e álcool que grandes especialistas e autoridades do setor certamente o farão, com muita propriedade e profundidade – gostaria de contribuir trazendo à luz das discussões a relevância do fornecedor independente de cana, quais os desafios e o que o futuro pode reservar a esse importante agente do agronegócio canavieiro. A participação do fornecedor independente na cadeia produtiva sempre esteve estreitamente ligada à distribuição de renda. Os que estão hoje na atividade são, em sua grande maioria, pequenos e médios agricultores, que sobreviveram ao processo de evolução do setor, ao longo de décadas. Expressiva parcela deles tem, nas lavouras de cana, uma herança de várias gerações. Sua atividade faz girar a roda da economia local e regional com a contratação de mão-de-obra, aquisição de máquinas e equipamentos e contratação de serviços. No entanto, tamanha importância não assegura sua permanência na atividade e são grandes os desafios que esses produtores têm pela frente, especialmente porque o setor sucroenergético – que era até pouco tempo sucroalcooleiro e que modernizou sua denominação para evidenciar seu potencial de gerar energia – está em uma nova fase, marcada pela presença de grandes e concentrados grupos e

investidores estrangeiros. Ao longo do tempo, os fornecedores independentes tiveram participação garantida por instrumentos legais, enquanto a produção de açúcar e álcool esteve sob intervenção estatal. Ainda em 1941, oito anos depois da criação do IAA - Instituto do Açúcar e Álcool, o Estatuto da Lavoura Canavieira estabeleceu controle sobre o relacionamento entre fornecedores e industriais e dispôs um limite máximo de 60% de cana própria, tornando obrigatória a compra do restante de produtores independentes. As legislações que tratavam do setor foram sofrendo modificações, mas o controle do Estado sobre a produção, distribuição, consumo e exportação perdurou até o início da década de 90, quando os preços foram liberados. A desregulamentação completou-se em 99 e o setor passou a ser regido pelo livre mercado. O lado positivo dessa intervenção estatal foi ter assegurado a um grande número de produtores independentes o direito de poder participar do setor, por meio do estabelecimento de quotas de cana própria e de fornecedores. Por outro lado, essa garantia acabou desestimulando a busca da eficiência e competitividade por parte de muitos. A nova fase - a de livre mercado – rapidamente mostrou essa deficiência do modelo anterior: sem conseguir mostrar força, organização e obter ganhos de produtividade, muitos fornecedores foram excluídos do setor e nichos de pequenos produtores foram criados nas regiões canavieiras tradicionais. Assim, a garantia de mercado, antes prevista em leis, passou a ter de ser buscada via organização, junto às associações e cooperativas. Com a desregulamentação do setor, essas entidades transformaram-se em instrumentos essenciais para o produtor buscar eficiência e garantir sua permanência no sistema produtivo. Uma demonstração da importância da união de forças e da presença das associações foi a criação do Consecana - Conselho dos Produtores de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo, em 1999, a partir de estudos e discussões de representantes dos produtores e industriais. O Consecana fixou um parâmetro para a remuneração da matéria-prima, com base em um modelo de livre mercado. O preço da cana, antes definido pelo governo, passou a ser estabelecido com base no mix de

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Opiniões

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produção das usinas e no valor dos derivados no mercado interno e externo. Assim, o produtor independente, que havia perdido todas as garantias legais para produzir, encontrou no Consecana um meio para sobreviver no ambiente liberalizado. Estão, atualmente, vinculados a Orplana Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil, 13.500 fornecedores independentes, de 28 associações de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, sendo que 89,2% entregam até 10 mil toneladas de cana. Juntos, entregaram, na safra 2007/08, 97 milhões de toneladas de cana, de acordo com os dados mais recentes. A participação desses fornecedores já foi maior, e ainda corre o risco de diminuir, frente à nova realidade do setor. Ultimamente, estamos sofrendo alterações significativas no meio rural, especialmente no setor sucroenergético, não somente pelas questões do mercado, mas pela ênfase nas questões ambientais e trabalhistas. São impostas aos pequenos e médios produtores as mesmas exigências, penas e sanções aplicadas a grandes empresas, tornando quase que impossível a permanência destes na atividade. Além disso, os produtores terão, por exemplo, que se adequar ao processo de mecanização do sistema para atender à legislação, que estabelece prazos para o fim da queima da palha da cana e para o corte manual (2014 para as áreas mecanizáveis e 2017 para as não-mecanizáveis). Esse será um grande desafio a ser vencido e envolve investimentos importantes por parte dos fornecedores. Assim, mesmo entre os produtores de cana, há a tendência à concentração, com maior participação dos grandes. A atual conjuntura também sinaliza para uma forte concentração dos grupos industriais. Pelos cálculos da Unica, que representa a indústria, as cerca de 380 unidades de produção estão, hoje, sob o comando de, pelo menos, 200 conglomerados econômicos. A tendência é que, em dez ou 15 anos, perto de 100 controlem o setor. Isso certamente significará maiores dificuldades no relacionamento entre fornecedores e industriais. Temos também que considerar a consequência danosa da concentração de renda, que é a exclusão social. Se economicamente a concentração é a solução para as empresas, já que pressupõe a redução de despesas e a otimização de resultados, do ponto de vista social sua herança é a eliminação de agentes menores da cadeia produtiva, como os pequenos e médios produtores de cana, os mesmos que fazem girar a roda da economia, como já dissemos. Enfrentar essas situações nos dias atuais só tem sido possí-

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vel por meio de entidades como cooperativas e associações, já que elas defendem os interesses dos produtores junto aos demais elos da cadeia e aos órgãos e instâncias de governo que fazem interface com o setor. É temeroso que a crise financeira, ora instalada, induza os produtores, que terão de buscar a redução nos custos de produção, a se afastar dessas entidades, enfraquecendo-as. Esse seria um movimento contrário ao necessário, já que momentos de turbulências, como o que estamos vivendo, atrelados ao de expansão do setor, exigem entidades fortalecidas, que busquem meios para a permanência do produtor na atividade. A Orplana, por exemplo, criada em 1976, ampliou sua área de abrangência - do Estado de São Paulo para a região Centro-Sul do Brasil – recentemente, e tem recebido a adesão de associações de produtores de regiões para onde o setor está se expandindo. Essas associações, muitas recentes, veem na Orplana um porto-seguro, um instrumento para seu fortalecimento e para fazer frente à nova realidade. Um fato também decisivo para que o produtor permaneça no setor e tenha condições de crescer é a reorganização das entidades representativas, com lideranças preparadas para essa nova fase. Já houve renovações importantes, como a posse da senadora Kátia Abreu na Presidência da CNA - Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, e torna-se imprescindível que sejam privilegiadas lideranças verdadeiramente envolvidas com o setor. Enfim, diante da nova realidade do setor sucroenergético e da conjuntura econômica, o caminho que o fornecedor independente de cana deve trilhar é esse: se organizar, se unir para ganhar força e representação e participar do setor. Caso contrário, sua sobrevivência nesse ambiente que tende à concentração está com os dias contados.


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ADVERTÊNCIAS PROTEÇÃO À SAÚDE HUMANA, ANIMAL E AO MEIO AMBIENTE - Não permita que menores de idade trabalhem na aplicação. - Mantenha afastadas das áreas de aplicação crianças, animais domésticos e pessoas desprotegidas. - Use equipamentos de proteção individual (EPIs). - Não coma, não beba e não fume durante o manuseio do produto. - Não desentupa bicos, orifícios ou válvulas com a boca. - Primeiros socorros e demais informações, vide o rótulo, a bula e a receita. - Evite a contaminação ambiental, preserve a natureza. - Não utilize equipamentos de aplicação com vazamentos. - Não lave as embalagens ou os equipamentos em lagos, fontes, rios e demais corpos d’água. - Aplique somente as doses recomendadas. - As embalagens vazias deverão ser enxaguadas três vezes e a calda resultante acrescentada à preparação a ser pulverizada (tríplice lavagem). - Descarte corretamente as embalagens e os restos de produto. Não reutilize as embalagens vazias. - Periculosidade ambiental e demais informações, vide o rótulo, a bula e a receita. Informe-se sobre a importância do Manejo Integrado de Pragas. - Leia atentamente o rótulo, a bula e o receituário Agronômico ou faça-o a quem não souber ler. CONSULTE SEMPRE UM ENGENHEIRO AGRÔNOMO E SIGA CORRETAMENTE AS INSTRUÇÕES RECEBIDAS. PRODUTO DE USO AGRÍCOLA. VENDA SOB RECEITUÁRIO AGRONÔMICO.


Investidores Henri Philippe Reichstul Presidente da Brenco

Perspectivas para o etanol brasileiro no atual cenário mundial * Com colaboração de Paulo Nogueira Batista

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Os acontecimentos do ano de 2008, em que o preço do petróleo oscilou entre uma cotação máxima de US$ 145/barril e uma mínima de US$ 33/barril, convidam a uma reflexão sobre as perspectivas e fundamentos do etanol para os próximos anos. O impacto causado pela crise financeira, em um momento de margens comprimidas pela alta dos custos de produção, colocou a indústria sucroalcooleira em uma das maiores crises de sua história. No entanto, uma análise dos fundamentos da oferta de petróleo e da competitividade de custo e benefícios socioambientais do etanol de canade-açúcar, aliada à perspectiva de um cenário macroeconômico diferenciado para o Brasil no ambiente de crise global, oferece importantes pilares para a sustentação do ciclo de investimentos no setor sucroalcooleiro, iniciado nos últimos anos. Cenário da oferta de petróleo no médio e longo prazo: A intensidade do último ciclo de crescimento econômico mundial, caracterizada pela emergência de novos atores relevantes como China e Índia, cujas industrializações e urbanizações exigem um forte incremento em seu consumo de energia, levou o preço do petróleo acima de US$ 140/barril em 2008, o seu maior nível na história. Certamente, a especulação financeira foi responsável por significativa parte da alta observada, tendo-se formado o consenso de que a oferta de commodities agrícolas e energéticas não lograria acompanhar o crescimento esperado para a demanda. No segundo semestre do ano, o súbito e intenso impacto da crise levou a uma queda vertiginosa na cotação spot do petróleo, em parte devido à desmontagem de posições especulativas, mas, principalmente, devido à reversão da perspectiva de contínuo e acelerado aumento da demanda por energia para um cenário de redução de consumo, em função da recessão mundial, hoje uma realidade confirmada. É natural em uma indústria como a do petróleo, com um alto investimento de capital e baixo custo operacional,

que o preço spot possa atingir patamares incompatíveis com o custo de reposição, em um cenário de queda abrupta de demanda. A oferta que será agregada este ano, com a conclusão dos investimentos em produção, iniciados nos últimos anos, contribuirá para manter os preços baixos por um longo período, durante o ano de 2009. No entanto, a indústria do petróleo hoje apresenta uma característica estrutural alarmante: uma elevada necessidade de investimentos para compensar o declínio de produção dos campos existentes, a partir de 2010. Sendo o custo marginal de investimento, dadas as características das reservas disponíveis, superior ao custo médio atual, o preço do petróleo tenderá a aumentar no médio e longo prazo. Considerando estimativas de custo de produção para o desenvolvimento e produção de novas reservas em áreas como o pré-sal e as areias betuminosas do Canadá na faixa de US$ 60/ barril, é de se esperar que os preços convirjam novamente para este patamar, mais cedo ou mais tarde, à medida em que seja retomado o crescimento da economia mundial. Devido ao longo período de maturação de projetos de produção de petróleo, e à pesada demanda por recursos financeiros de risco para este setor, é evidente que durante o período de recessão haverá atrasos e cancelamentos de projetos, que serão necessários para abastecer a demanda energética no futuro imediato. Claramente, este cenário gera oportunidades de desenvolvimento para o etanol brasileiro. O recém-publicado relatório anual da IEA - Agência Internacional de Energia, World Energy Outlook 2008, projeta um preço médio de petróleo em US$ 100/barril, alertando para um cenário preocupante: “A diferença entre o que está sendo construído hoje e o que precisa ser construído para acompanhar a demanda aumentará fortemente após 2010. Aproximadamente 7mb/d (milhões de barris de petróleo por dia) de capacidade adicional em novos projetos serão necessários até 2015 (além da capacidade adicional esperada de projetos existentes confirmados), o que exige que a decisão de investimento seja tomada dentro dos próximos dois anos”. É importante considerar também que a maior parte da produção incremental deverá vir dos países membros da OPEP, que concentram a maior parte das reservas disponíveis, reforçando sua capacidade de influenciar a cotação do petróleo. Ademais, com a nacionalização das reservas mundiais, com a adoção de políticas restritivas ao investimento privado pelos maiores detentores de reservas e com a depressão dos preços da commodity, o incentivo ao investimento é limitado.


Opiniões

jan-mar 09

As restrições na oferta global de crédito e as dificuldades orçamentárias de alguns dos principais países produtores apenas contribuem para dificultar a realização dos investimentos necessários. O cenário descrito oferece, no que diz respeito a preço, boas perspectivas para o etanol brasileiro, dada sua competitividade de custo de produção e perspectivas de desenvolvimento tecnológico. No entanto, é também fundamental que seja reforçada perante o mercado mundial a competitividade do etanol brasileiro, no que tange à sustentabilidade de sua produção de seu e consumo. Em tempo de preocupações com o estado do planeta, é importante buscar a conscientização dos benefícios socioambientais que o etanol de cana-de-açúcar representa para o mundo, superar os preconceitos dos debates em torno da competição com a produção de alimentos e promover, definitivamente, a inserção do etanol na matriz energética mundial. Competitividade do etanol de cana-deaçúcar: Para a construção de uma agenda de crescimento do comércio internacional de etanol, é fundamental que o setor sucroalcooleiro e o governo brasileiro redobrem os esforços para destacar as inconsistências de uma política energética mundial que vive hoje um real paradoxo: estabelece um regime tarifário benéfico ao consumo de petróleo, um produto nocivo ao meio ambiente e finito, e impõe pesadas tarifas de importação ao etanol brasileiro, uma fonte de energia sustentável e renovável. Com relação à sua viabilidade, o etanol é a alternativa que tem o menor impacto para o consumidor e na infraestrutura de distribuição e comercialização hoje existente. No nível de mistura na gasolina de 10%, ainda adotado por poucos países, não se exige nenhuma adaptação nos motores dos veículos e propicia-se uma redução de 26% nas emissões de CO2, quando comparado com a gasolina, oxigenada com o famigerado MTBE. Mesmo em níveis maiores de mistura, o etanol exige poucas adaptações nos veículos e propicia o aproveitamento de toda a rede de distribuição existente, como mostra o caso bem-sucedido no Brasil dos carros flex-fuel. Com relação ao custo de produção de etanol, é inquestionável a competitividade do etanol brasileiro e há um grande potencial de aumento de sua produtividade, em função de novas técnicas, processos e tecnologias. Historicamente, a produtividade média do etanol de cana tem crescido a uma taxa de 1,5% ao ano. Com o início da utilização da tecnologia genética, e com a atenção resultante da nova onda de investimentos no setor, é possível projetar ganhos ainda maiores nos próximos anos, tanto na área agrícola, com novas variedades de cana, como na área industrial, com melhorias no processo de fermentação e maximização do potencial de geração de energia elétrica a partir do bagaço. Outra excelente oportunidade para o etanol brasileiro é o desenvolvimento das tecnologias de produção de etanol celuló-

sico, que, dada a disponibilidade de bagaço na planta industrial sem nenhum custo marginal, aumentará o diferencial competitivo do etanol de cana-de-açúcar. Em termos de sustentabilidade, a superioridade do etanol brasileiro é inquestionável. Além de apresentar um retorno energético em muito superior ao de todas as demais matérias-primas utilizadas para a produção de etanol em grande escala, tem também a maior produtividade por hectare, minimizando o uso da terra. É importante qualificar que, quando produzido de forma sustentável e seguindo os melhores padrões socioambientais, o etanol de cana-deaçúcar gera um forte impacto na renda e no desenvolvimento local, por ser uma atividade de alto valor agregado e intensiva em mão-deobra. Neste sentido, a difusão da produção de etanol de cana-de-açúcar em países da América Central e da África, além de diversificar as fontes de produção, ofereceria uma rota de desenvolvimento sustentado. O gradual crescimento da mecanização, aumentando a qualificação da mão-de-obra empregada e eliminando a prática da queima da cana, apenas reforçaria os benefícios socioambientais do etanol de cana-de-açúcar. O surgimento de projetos de escala mundial, atentos às melhores práticas de governança corporativa e sustentabilidade, bem como o movimento de consolidação e profissionalização do setor são fundamentais para o desenvolvimento do mercado, por resultar em uma maior organização e confiabilidade da oferta, característica elementar de qualquer commodity energética. Cumpre finalmente destacar que a indústria do etanol brasileira conta com uma vantagem fundamental para o seu desenvolvimento: a existência de um sólido mercado doméstico, que dá suporte à implantação de novos projetos, mitigando, em parte, os riscos de comercialização do produto. A contínua substituição da frota movida à gasolina, por veículos flex-fuel, traz uma perspectiva de crescimento contínuo do consumo doméstico de etanol, se preservada a paridade favorável ao etanol nos postos. Os fundamentos que embasam o desenvolvimento do etanol como uma real alternativa ao uso de combustíveis fósseis continuam sólidos, tanto em termos de custo, como com relação à sustentabilidade de seu ciclo produtivo. O contínuo esforço do setor e do governo brasileiro para incluir na agenda internacional uma revisão da política aplicada ao uso e comércio do etanol é de crucial importância para o desenvolvimento de um mercado internacional relevante.

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Investidores Eduardo Pereira de Carvalho

Diretor de Relações Institucionais da ETH BioEnergia

Crise à parte, há sinais de bonança no setor sucroalcooleiro

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Em meio a uma tormenta em alto mar, o grande temor é o de que nossa pequena embarcação nunca mais saia dela. Desde o segundo semestre de 2008, lemos e ouvimos notícias sobre um novo cenário econômico mundial e suas consequências em nossas vidas e empresas. Este cenário influencia diretamente o setor sucroalcooleiro, porque representou claramente a fechada da torneira do crédito. Neste contexto, usinas que já demonstravam deficiências de caixa antes da crise, ficaram muito mais expostas, diante da falta de liquidez. O crédito tornou-se muito menor, muito mais caro e muito mais seletivo e quem já estava com problemas ficou em uma situação ainda mais delicada. Apesar disto, já se vê sinais de bonança. O ambiente presente, que começamos a viver agora, favorece muito as fusões e aquisições de usinas. Vamos assistir à aceleração deste processo, ao longo deste ano. Em 2008, essa movimentação foi tímida, face aos altos preços dos ativos e ao estouro da crise. Não podemos esquecer que, nos últimos oito anos, o setor expandiu-se como nenhum outro. Até 2006, no entanto, essas expansões concentravam-se nas próprias unidades originais – um crescimento orgânico nas áreas agrícolas ou industriais já existentes. Eram investimentos pontuais, realizados em moendas, em torres de destilação, em desbloqueios industriais e agrícolas. Assistimos também a novas formas de gestão das empresas familiares. Estas, por sua própria constituição, não propiciam, em geral, injeções de capital de fora. Somente a partir de meados desta década, a expansão interna chegou ao seu limite, por disponibilidade e concorrência da cana e das naturais limitações de layout industrial. Com a maré de bons resultados operacionais, com geração de caixa para investimento, as empresas - em especial as de núcleo familiar, tão comum no setor - começaram a criar novas unidades e fechar parcerias. Dentro deste processo, destacamos o início dos greenfields, grande parte dos quais em novas fronteiras, além de São José do Rio Preto, Araçatuba, a expansão no Triângulo Mineiro, no Sul de Goiás e Mato Grosso do Sul. A partir de então, a capacidade de moagem de uma usina, que era de 1 milhão de toneladas de cana, passou a ser de 3 ou 4 milhões de toneladas. Isso significa que investir no setor exige montantes muito maiores do que no passado. Além disso, não podemos deixar de citar as dificuldades logísticas em regiões e zonas não tradicionais.

Encontramos também um clube de players novos no setor, tais como Bunge, ADM e Cargill ou já mais tradicionais, como Tereos e Dreyfus. São estrangeiros que conhecem bem o Brasil e devem entrar forte. Atualmente, eles representam menos de 10% dos investimentos totais. A contínua valorização do real e a queda dos preços de açúcar e etanol ao longo de 2007 e 2008 complicaram a vida de um grande número de empresas. Em setembro de 2008, estas chegaram sem fôlego para aguentar o aperto de crédito. Algumas reestruturaram-se, mas um grande número assiste a uma difícil crise financeira. Há linhas que ajudam a superar as dificuldades presentes, em especial os tradicionais financiamentos de novos projetos junto ao BNDES. Além destas, novas linhas de financiamento de capital de giro e de financiamento para a exportação, em condições mais adequadas à presente conjuntura, estão sendo aprovados no BNDES. A legitimidade dos pleitos de linhas desta natureza deriva de ser o setor aquele que mais investiu nos últimos anos, por unidade de faturamento. Alguns dizem que a expansão foi irresponsável, embora eu esteja longe de partilhar desta ideia. Há extraordinárias perspectivas positivas de médio e longo prazo. Somos detentores potenciais da fantástica expansão do fornecimento de energia limpa e renovável, na forma de etanol e energia elétrica. Nenhum lugar no mundo tem a tecnologia e as condições naturais que possuímos. O Brasil assegura uma base científica para trabalhar geneticamente com as variedades da cana-de-açúcar, investe recursos públicos e privados na expansão da produção, observa a aceleração da demanda por veículos leves dotados com motores flexíveis, entrega etanol nos mais remotos portos do globo, sustenta uma política agrícola livre de subsídios, como reconhece a OMC - Organização Mundial do Comércio, procura maximizar o aproveitamento energético das sobras da cana-de-açúcar e tem uma política de melhoria nas relações de trabalho e na valorização social. Graças ao nosso histórico e a muito investimento em pesquisa, o etanol obteve uma vantagem excepcional nos dias atuais: é economicamente viável e ambientalmente consistente. Diante desta crise financeira internacional, podemos oferecer ao mundo a revisão de paradigmas e abrir um novo ciclo econômico, a partir dos biocombustíveis. O etanol não é somente uma alternativa, é uma solução ambiental, social e econômica para o novo ciclo em que vivemos. Somos capazes de mostrar isso, por mais que a crise afete o preço do petróleo. Apesar de sua volatilidade, as exportações brasileiras de etanol apresentam importante tendência de crescimento. Estamos numa nova era, em que todas as formas de energia serão beneficiadas. Não há crise que afete a prosperidade de longo prazo. O que somos capazes de produzir encontrará sempre um mercado.


Investidores Paulo Robério Távaro Pinho

Diretor de Biofuel da British Petroleum Brasil Cenário econômico mundial

O cenário econômico mundial é preocupante. A guinada da economia mundial foi brutal e sem precedentes, pegando governos e iniciativa privada despreparados para enfrentá-la. A crise abalou o mercado financeiro e muitos bancos que pareciam sólidos acabaram ou tiveram que receber recursos dos governos para sobreviver. As linhas de créditos comerciais, antes abundantes e baratas, escassearam e encareceram; o consumo de carros e de outros bens de consumo, que dependiam de crédito para alavancar suas vendas, despencaram, impactando negativamente toda a sua cadeia de fornecedores e provocando ondas de choques que estão repercutindo em toda a atividade econômica mundial, sem ainda sabermos quando esses efeitos irão terminar. Contudo, devemos encarar as crises como períodos de ajuste. Elas servem para reflexão, cortar custos, rever prioridades e traçar novas metas. As crises criam oportunidades e as empresas mais criativas, saudáveis e focadas normalmente saem delas fortalecidas. Nessa crise, as empresas do setor de açúcar e álcool brasileiras foram particularmente afetadas. Muitas delas estavam em processo de rápida expansão e muito endividadas, algumas em dólares. A escassez e o encarecimento do crédito, aliados à forte desvalorização cambial, fizeram muitas dessas empresas estremecerem e algumas delas já pediram concordata. Os próximos meses indicam que poderão ser extremamente duros para o setor, já que a oferta de açúcar e álcool continuará aumentando, devido aos investimentos que estavam em curso. A demanda não deverá crescer tanto quanto se previa, devido ao aumento do desemprego e à diminuição da atividade econômica. Além disso, o baixo preço do petróleo e seu impacto no preço do etanol é um fator de grande preocupação. Entretanto, se olharmos além da crise, iremos verificar que os fatores que levaram ao surto de investimentos recente continuam presentes, pois o petróleo continuará sendo uma energia não renovável e cada vez mais escassa. Além disso, o mundo continuará tendo que enfrentar o problema das mudanças climáticas e mudar a sua matriz energética. O interesse da British Petroleum - BP, por biocombustíveis foi formalizado em 2006, quando ela criou a unidade de

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negócios de biocombustíveis. Dois anos depois, em 2008, a BP anunciou o seu primeiro investimento de porte no segmento de açúcar e álcool no Brasil, ao formalizar uma parceria com os Grupos Maeda e Santelisa Vale, nominada Tropical BioEnergia. Sendo que a primeira usina prevista pela parceria iniciou suas operações em Setembro de 2008, ou seja, em plena eclosão da atual crise. Entretanto, como a maioria das grandes empresas de energia, as decisões de investimento da empresa não se alteraram, já que essas decisões levam em consideração as tendências de longo prazo. Nesse aspecto, a BP visualiza duas grandes tendências no setor. A primeira é relacionada à necessidade de se ter segurança energética e a segunda é relacionada à necessidade de enfrentarmos os riscos das mudanças climáticas. Tendo em vista essas tendências, a BP focou sua atuação na produção, desenvolvimento e pesquisa de biocombustíveis sustentáveis, que possam proporcionar benefícios ambientais e ao mesmo tempo contribuir para a segurança do abastecimento energético mundial. Nós acreditamos que os biocombustíveis darão uma contribuição particularmente importante para o transporte rodoviário, reduzindo as emissões de carbono do setor e diversificando a oferta de combustiveis. Os biocombustíveis também serão um poderoso fator de mudança no campo. Eles têm o poder de impactar positivamente o setor agrícola das economias desenvolvidas e em desenvolvimento.


Opiniões

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Devemos encarar as crises como períodos de ajuste. Elas servem para reflexão, cortar custos, rever prioridades e traçar novas metas. As crises criam oportunidades e as empresas mais criativas, saudáveis e focadas saem delas fortalecidas. No mundo mais desenvolvido, os biocombustíveis podem estimular a atividade agrícola, ao passo que nas economias em desenvolvimento podem oferecer oportunidades para a redução da pobreza e de estímulo ao crescimento econômico. A produção de biocombustíveis criará novos centros de produção, desenvolverá novos mercados e gerará empregos em regiões pouco desenvolvidas, e necessitará que a mão-de-obra local seja treinada e educada. A BP acredita que o negócio dos biocombustíveis irá crescer muito nos próximos anos, devido aos fatores mencionados anteriormente e devido à grande disponibilidade de terras agrícolas e de matérias-primas no mundo. Nossas análises apontam que existe um potencial teórico dos biocombustíveis poderem substituir de 20% a 30% dos combustíveis fósseis utilizados no mundo para transportes rodoviários até o ano de 2030, contra os atuais 3%, sem que esse aumento cause impactos inaceitáveis nas terras disponíveis para a alimentação, podendo, com isto, produzir uma redução de mais de 20% das emissões de gases de efeito estufa, originados pelos transportes rodoviários. A produção de biocombustiveis também é importante no que se refere à segurança energética e isto se torna claro quando observamos o Brasil, onde o consumo de etanol já ultrapassou o da gasolina. É por isso que nos comprometemos a investir em biocombustíveis e já anunciamos investimentos de cerca de US$ 1,5 bilhão em várias iniciativas, que incluem investimentos na produção de biocombustíveis de primeira geração e no desenvolvimento de tecnologias de biocombustíveis mais avançados. Em virtude de seu tamanho e de sua abrangência global, a BP habilita-se a desempenhar um papel importante no aumento da oferta de biocombustíveis. A BP entra nesse mercado consciente que existe um grande interesse de muitas outras empresas, desde empreendedores e empresas de capital, a empresas do setor agrícola e alimentício. A BP também precisa trabalhar com parceiros que tenham experiência nesse setor. Nós acreditamos ser necessário investir na primeira geração de biocombustíveis, particularmente na produção de etanol de

cana-de-açúcar do Brasil, com o objetivo de adquirir conhecimento, capacidade de produção e criar plataformas para os biocombustíveis mais avançados no futuro. Ao elaborarmos a nossa estratégia de longo prazo, nós procuramos responder às seguintes perguntas: Quais são as melhores matériasprimas e processos disponíveis na atualidade? Quais serão os próximos avanços tecnológicos? Qual são as matéria-primas e tecnologias mais promissoras e que oferecem o maior potencial no longo prazo? E obtemos respostas muito claras. Hoje, a matéria-prima que oferece a maior redução de gases de efeito estufa, maior conteúdo energético e melhor economicidade é a cana-deaçúcar brasileira. No curto/médio prazo, estamos empenhados no desenvolvimento do biobutanol, uma molécula de combustível mais avançada e que oferece várias vantagens em comparação ao etanol, mas que pode ser obtido a partir das mesmas matérias-primas que hoje o produzem. O biobutanol tem maior densidade energética que o etanol, pode ser misturado à gasolina em concentrações mais elevadas do que o etanol e é menos suscetível à separação na presença de água do que o etanol, o que significa que ele poderá utilizar a infraestrutura da indústria da distribuição, sem exigir modificações nas instalações existentes. Nós criamos uma parceria com a DuPont para construir uma planta de demonstração de biobutanol no Reino Unido. Esta planta está sendo construída ao lado de uma planta de bioetanol, que estamos construindo junto com a Associated British Foods. Investimentos como estes são formas de construir uma ponte para o futuro dos biocombustíveis avançados. No longo prazo, estamos trabalhando no desenvolvimento de combustíveis a partir de matérias-primas lignocelulósicas, que podem aumentar a produtividade de produção atual de etanol. Em agosto de 2008, anunciamos uma aliança estratégica com a Verenium Corporation. Nós investiremos juntos US$ 90 milhões, com o objetivo de desenvolver bioetanol celulósico de baixo custo. Espera-se que o etanol lignocelulósico ofereça muitas vantagens sobre o etanol de primeira geração, incluindo a utilização de matérias nãoalimentares, tais como miscanthus e energycane, matérias-primas que poderão ter maior rendimento por hectare e, potencialmente, trazer uma maior redução dos gases que agravam o efeito de estufa. Nós acreditamos no futuro dos biocombustíveis, mas confiamos firmemente que a indústria de biocombustíveis deva se desenvolver de forma sustentável e que todos eles devam ter o seu desempenho e sua sustentabilidade avaliados. Nós só investiremos naqueles biocombustíveis que acreditamos serem os melhores.

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Investidores Maurílio Biagi Filho

Presidente da Maubisa Aprender com as crises

Crises fazem parte do mundo dos negócios e da vida em geral. É consenso que nos momentos críticos os mais aptos avançam, deixando os outros na poeira. Estamos agora no bojo de uma crise gigantesca, cujo impacto é comparável somente a de 1929, embora todos concordem que no mundo de hoje há muito mais instrumentos de defesa econômica do que nos anos 30. Mesmo assim, a crise de 2008 alastra-se para 2009 e, com certeza, produzirá efeitos em 2010. É preciso fazer a leitura correta dos dados econômicos para não tomar decisões equivocadas. Em situações confusas como a atual, é grande o risco de tomar o caminho errado e ficar para trás.

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Se o setor financeiro não tiver coragem de investir no setor mais antigo da economia e um dos mais promissores à luz do Protocolo de Kyoto, é o caso de se pensar que existe alguma coisa errada. As exigências bancárias transcendem qualquer racionalidade. Este ano, repetindo o que aconteceu nos últimos seis ou sete anos, teremos um recorde de produção de cana, de açúcar e de álcool, mas em 2010, devido a uma estabilização conjuntural da área plantada de cana, chegaremos ao fim do ciclo de recordes produtivos no setor sucroalcooleiro. Eis aí o primeiro e grande benefício dessa crise mundial. Quem sabe o setor aprenda que é melhor raciocinar em torno de rendimentos e não de volumes. De que adianta bater recordes de produção, se no final das contas os recordistas veem-se em apuros para pagar fornecedores? É difícil ler na chuva ou no vento, mas vale a pena refletir um pouco sobre tempestades passadas. Em 1999, o setor sucroalcooleiro sofreu uma crise setorial, provocada pela superprodução de cana e derivados. Muitas usinas apertaramse, gerando oportunidades que, em tempos normais, não eram visíveis ou pareceriam inviáveis. Lembro de um episódio que me envolveu diretamente, quase à minha revelia,

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em Sertãozinho, tal o poder das crises, sejam locais ou globais. Naquele momento de sufoco para muitas usinas superestocadas, um banco assumiu a liderança da fusão da Usina São Geraldo com a Usina Santa Elisa. Com esse lance ocorrido nos primórdios do processo de globalização do mercado do etanol, o Bradesco tornou-se usineiro, mas não conseguiu levar adiante seu ambicioso plano de aprofundar a concentração no setor sucroalcooleiro do nordeste paulista. Nos anos seguintes, enquanto a dinâmica do mercado produzia novas incorporações no setor, inclusive com a entrada de investidores estrangeiros, o Bradesco abriu mão de sua participação acionária na Santa Elisa, voltando a ficar exclusivamente na prestação de serviços bancários. Poucas parcerias banco-usina teriam sido tão produtivas quanto esta. O que me anima a ir um pouco adiante: se há uma década, durante uma crise setorial, houve uma boa oportunidade de negócio para um banco e duas usinas, muito maior é a chance de surgirem boas jogadas durante a atual turbulência econômicofinanceira. Antes da crise financeira mundial, estava em andamento um processo de atração de investimentos externos em novos projetos de produção de etanol, principalmente no Centro-Oeste brasileiro.


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Com a crise, houve um refluxo desses capitais, que deixaram alguns investidores nacionais sem recursos para concluir projetos no tempo previsto. Aí está uma das oportunidades para o setor financeiro, seja como agente financeiro, seja como investidor de capital. Os bancos podem ainda contribuir para que grandes ou médios grupos sucroalcooleiros superem dificuldades transitórias de capital de giro. Algumas usinas foram colhidas pela crise em plena expansão. Diversos projetos foram protelados, mas os fundamentos do setor sucroalcooleiro não deixaram de ser positivos. O açúcar vai bem no mercado internacional, o câmbio está favorável e o consumo de etanol no mercado interno está em quase dois bilhões de litros por mês, o que quase não deixa sobras para exportações. Na realidade, a crise chegou antes de 2008 para o setor canavieiro, que vinha apostando mais na expansão produtiva do que na rentabilidade. A convivência com o vermelho nos últimos anos talvez ensine, definitivamente, aos fabricantes de açúcar e álcool qual a verdadeira medida da eficiência econômica. A crise vai ajudar o setor a zerar as contas, trocando o vermelho para o azul. Além de ter contratos nacionais e internacionais de vendas, todos os grupos produtores de açúcar e álcool possuem ativos para garantir empréstimos ou justificar aportes de capital de terceiros. Se o setor financeiro não tiver coragem de investir no setor mais antigo da economia e que é, também, ao mesmo tempo, um dos mais promissores à luz do Protocolo de Kyoto, é o caso de se pensar que existe alguma coisa errada. Se o erro não estiver no setor sucroalcooleiro,

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talvez esteja no setor financeiro. As exigências bancárias transcendem qualquer racionalidade. A postura defensiva dos grupos capitalizados, especialmente dos bancos, vem acelerando de forma preocupante a deterioração da conjuntura econômica, haja vista o que acontece no mercado de trabalho. De 200 mil novas carteiras assinadas por mês no Brasil, antes da eclosão da crise, tivemos 650 mil desligamentos, somente em dezembro passado. Se no mercado legal ficou assim, como não estarão as coisas no setor informal de mão-de-obra? Nesse e em outros casos, é melhor prevenir do que remediar, diz o consenso. Com a ressalva de que é mais caro consertar do que fazer a manutenção no tempo certo. Infelizmente, depois do episódio exemplar em que a Inglaterra assumiu a liderança das ações governamentais, socorrendo os bancos atingidos pelo tsunami financeiro, o mundo limitouse a contabilizar os prejuízos. É preciso arregaçar as mangas antes que fique tarde demais. De braços cruzados, não iremos longe. A eleição de Barack Obama para a presidência dos EUA em 4 de novembro e sua posse em 20 de janeiro foram os melhores sinais de que é possível recolocar a casa em ordem. Passado o momento da perplexidade, chegou a hora da ação. Não resta dúvida de que a agroindústria canavieira está dando uma resposta positiva à essa crise de origem especulativa e que entrou no Brasil por meio das instituições financeiras. O setor sucroalcooleiro mobiliza 300 diferentes segmentos da economia brasileira. O setor só alcançou tal dimensão, porque nunca teve medo de encarar desafios. Vale lembrar que muitos usineiros são temerários na sua ousadia. Sem voltar muito no tempo, lembro a aventura do Proálcool, a primeira resposta brasileira ao encarecimento do petróleo, nos anos 70. Todo mundo investiu naquela empreitada que bem ou mal transformou o etanol de cana no combustível renovável mais competitivo do mundo. Olhando para trás, vemos que o Proálcool foi um sucesso nacional pontilhado de reveses localizados. Um dos segmentos que mais sofreu foi o de bens de capital, atingido por uma crise que não se restringiu à indústria sucroalcooleira. Por coincidência, coube a mim ser um dos protagonistas da fusão da Dedini com a Zanini, as duas maiores fornecedoras de equipamentos para a agroindústria canavieira. A criação da DZ foi um dos episódios mais dramáticos da história econômica de Sertãozinho - de Piracicaba, nem tanto, mas o importante, no caso, é que soubemos fazer a fusão para sair da crise e, anos depois, soubemos fazer a cisão, reconstruindo as bases de uma competição exemplar no mercado de equipamentos para a fabricação de açúcar e álcool. Para finalizar, eu diria que não é hora de se encolher. Não mesmo.


Investidores Pedro Mizutani

Vice-Presidente Geral da Cosan

Elogios externos ao etanol brasileiro Em novembro, a cidade de São Paulo foi palco da Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, promovida pelo governo federal. Com a presença de delegados de 92 países, o encontro teve como meta a promoção dos benefícios do etanol e a quebra de barreiras internacionais para a comercialização do combustível. Desta forma, caminhase rumo à transformação do etanol em uma commodity mundial. O interesse de diversos países em nosso combustível não é novidade. No final de 2008, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, telefonou para Luis Inácio Lula da Silva e elogiou o programa de biocombustíveis do Brasil. Os Estados Unidos são o maior mercado brasileiro para a exportação do etanol. Na ocasião, a menção quase tímida de Obama à nossa energia renovável foi encarada como um grande avanço nas negociações para a quebra de barreiras internacionais ao etanol do Brasil, além de sinalizar uma disposição dos norteamericanos em rever as políticas de comércio exterior entre os dois países. Com diferenciais competitivos de alto valor agregado, o etanol brasileiro representa a possibilidade de distribuir ao mundo uma fonte limpa, sustentável e economicamente viável. Vale ressaltar, ainda, que o resíduo do processo das usinas sucroalcooleiras ainda reforça a matriz energética brasileira, com a possibilidade de gerar energia elétrica, por meio do bagaço e da palha da cana-deaçúcar. Os pontos positivos do etanol do Brasil despertam ainda o interesse de países como Japão, Suécia, Arábia Saudita, Holanda, Alemanha, México e Estados Unidos. Neste ano, as usinas brasileiras receberam diferentes delegações internacionais, que vieram conhecer o processo produtivo aplicado na área agrícola e industrial. Exemplo deste potencial e reconhecimento foi a distribuição para a Suécia, em julho, do primeiro embarque de etanol com a verificação de importantes critérios de sustentabilidade. A operação comercial foi resultado de um contrato pioneiro firmado entre as usinas brasileiras Alcoeste, Cosan, Guarani e NovAmérica, com a empresa sueca Sekab – a maior compradora de etanol brasileiro na Europa. O acordo demonstrou a iniciativa das companhias envolvidas no contrato em dar um primeiro passo para um processo de melhoria contínua, para atender um dos mais exigentes consumidores do mundo. É importante notar que as usinas foram capazes de atender às exigências do consumidor europeu, sem alterar as práticas correntes de operação.

Todos esses atributos do etanol brasileiro devem ser valorizados não apenas na Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, mas, principalmente, no dia-a-dia do nosso presidente Lula – caso queira continuar ressaltando nossas potencialidades. No momento em que se encontra a economia atual, serão necessários fortes investimentos no setor para que ele não perca a competitividade e seu desempenho frente ao mercado externo. A morosidade na homologação e repasse dos recursos financeiros por parte do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, irá implicar tanto em descrédito, como na baixa contribuição para a economia nacional. Um dos pontos mais carentes de investimento do governo está na ampliação da matriz energética nacional, por meio do setor sucroalcooleiro. Com a crescente demanda do país por energia elétrica, as usinas surgem como importante alternativa para garantir o desenvolvimento e equilíbrio brasileiro na cogeração de energia. Além de ser renovável, a energia produzida pelo bagaço e palha da cana-de-açúcar tem a virtude de ampliar o fornecimento de eletricidade, justamente num período de escassez de chuvas, quando os reservatórios das hidrelétricas e represas alcançam seus níveis mais baixos. Caso houvesse incentivo do governo, as usinas brasileiras poderiam gerar energia equivalente à hidrelétrica de Itaipu. Com os devidos repasses, o setor ganha fôlego para dar andamento aos projetos de construção, ampliação e manutenção das usinas, além de gerar novas e boas oportunidades de comércio no exterior e no país. O governo federal também sai ganhando, porque pode potencializar sua liderança regional e global e firmar-se como exportador de know-how e tecnologia de produção.

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Investidores Otávio Lage de Siqueira Filho Presidente da Jalles Machado

Com certeza, o time Brasil ganhará Após oito anos e meio afastado das atividades empresariais, por estar exercendo o mandato de prefeito de minha cidade, retorno à iniciativa privada no momento em que o setor sucroalcooleiro e a economia - nacional e mundial, passam por uma crise de grandes proporções. Muitas mudanças ocorreram, neste período, no setor sucroalcooleiro. Impressionante como o Brasil é competitivo no agronegócio, como os empresários investiram e como a tecnologia avançou na agricultura, principalmente na cana-de-açúcar. Exemplo disso é o uso de GPS para plantio, colheita da cana e aplicação de herbicidas com máquinas modernas e de alta produtividade. O uso de tecnologia de informação, como computadores de bordo, telemetria e softwares de gestão tem permitido a otimização dos recursos disponíveis, com ganhos de produtividade e redução de custos. Na área agrícola, muita pesquisa tem sido feita por instituições públicas de peso, o que vai permitir o crescimento da produção de cana nas áreas existentes e em áreas de pastagens degradadas do cerrado, como as que temos no nosso estado de Goiás. A irrigação pode proporcionar um grande salto de produtividade e as novas variedades pesquisadas são promissoras, pois muitas pesquisas são feitas em locais não tradicionais e em condições diversas de solo e clima do Estado de São Paulo, o grande produtor nacional. Entidades como o IAC Instituto Agronômico de Campinas, CTC - Centro de Tecnologia Canavieira, Ridesa - Rede Interuniversitária de Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (sucessora do Planalsucar) e Canavialis, têm investido muitos recursos para o desenvolvimento de variedades que demoram até dez anos para serem viabilizadas economicamente. Estes programas vão garantir a produtividade, a qualidade e a competitividade do setor sucroalcooleiro por muitos anos, através do desenvolvimento de variedades regionalizadas. Esse trabalho vem sendo conduzido desde 2001 pelo IAC, 2003 pelo CTC e 2004 pela Universidade Federal de Goiás, em nosso estado. Em alguns anos, teremos variedades

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mais produtivas e adaptadas às condições de cerrado. A rotação de culturas nas renovações dos canaviais tem trazido, por outro lado, um incremento na produção de grãos nas regiões onde só havia a pecuária extensiva, que gera poucos empregos; além de promover a melhoria do solo e, consequentemente, a produtividade da cana. A adoção da mecanização plena da colheita de cana cria vantagens competitivas, aumenta a renda do trabalhador, permite a redução de custos, a preservação do meio ambiente (por não queimar a cana), a melhoria da qualidade física do solo (pela incorporação da palha da cana), o controle do mato invasor e a preservação da umidade do solo pela ação do colchão de palha da cana, que cobre a área após a colheita. O uso da cana-de-açúcar, do bagaço de cana cru ou hidrolisado e da levedura como fonte de proteína tem permitido o desenvolvimento da atividade do confinamento bovino com engorda intensiva, substituindo o sistema tradicional de engorda a pasto. Além de produzir açúcar e álcool, o setor pode incrementar muito a oferta de energia elétrica, fundamental para qualquer país que deseja crescer. Energia elétrica limpa, descentralizada, mas com fácil inclusão no sistema elétrico nacional, aproveitando-se a grande malha de redes de transmissão existentes e interligadas pelo modelo energético brasileiro.


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As crises acontecem de tempos em tempos e são oportunidades que temos para reciclar, inovar, questionar e tomar medidas que não temos coragem nas épocas de normalidade e que permitem saltos de produtividade e ganhos de eficiência, tornando o setor mais competitivo. Modelo, aliás, que tem recebido bilhões de reais em investimentos de empresas estrangeiras, muitas delas espanholas, que estão acreditando neste potencial. Entre as oportunidades de melhoria na área industrial do setor sucroalcooleiro, pode-se destacar: • A produção de energia elétrica deverá crescer com novas tecnologias na geração de vapor, com equipamentos de alta pressão, bem mais eficientes. • O uso de motores elétricos e hidráulicos, em substituição às turbinas a vapor para o acionamento das moendas, igualmente permitirão ganhos de produtividade para gerar mais energia elétrica e ajudar no incremento da receita das empresas. • O aproveitamento da palha da cana após a colheita mecanizada poderá incrementar mais a geração de energia elétrica. • A fermentação da vinhaça para aproveitar o biogás (metano) nas caldeiras de vapor tende a ser uma oportunidade de incrementar a produção de energia elétrica. • A sangria da levedura no processo de fermentação é uma oportunidade para produzir fonte de proteína para alimentação humana e animal. • A vinhaça gerada na proporção de 13 litros para cada litro de álcool produzido, antes um problema para o meio ambiente, hoje é um importante insumo na adubação da cana, como fonte de potássio, e na ferti-irrigação da cana, aumentando a produtividade nas áreas de clima seco, como o que temos em Goiás. • A torta de filtro e as cinzas das caldeiras também podem ser utilizadas para reduzir custos de adubação e proporcionar ganhos de produtividade. O empresário, hoje, tem uma consciência ambiental muito maior. A procura de certificações socioambientais e a exigência de fornecedores também comprometidos com a sustentabilidade do negócio a longo prazo

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Opiniões

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são uma realidade no setor sucroalcooleiro. O setor produz açúcar orgânico e energia elétrica limpa, vende créditos de carbono e ao realizar essas ações, contribui para uma mudança de comportamento das pessoas e das comunidades em que as empresas estão inseridas. As ações sociais também são características do setor, que investe em capacitação de pessoas, atendimento médico-hospitalar, creches e escolas. Os municípios que possuem usinas detêm um IDH mais elevado, com maior qualidade de vida da sua população. Isso em função da maior arrecadação de tributos e da participação das empresas em muitos projetos da comunidade. O setor sucroalcooleiro cresceu em volume de produção e, hoje, o Brasil é o grande produtor e exportador de açúcar, ditando as regras de mercado. As perspectivas a médio e longo prazo são promissoras, pois temos condições favoráveis de clima, áreas agricultáveis disponíveis de pastagens degradadas, sem risco de comprometimento da produção de alimentos e das reservas naturais. Temos desafios de logística, do custo de capital, do ônus tributário, mas, com diálogo e bom senso, por parte dos governos federal e estaduais, haveremos de transpor esses obstáculos. O setor sucroalcooleiro é competitivo e detém a tecnologia necessária para aumentar a produtividade e baixar os custos. O resultado será a geração de muitos empregos e renda para o Brasil crescer, com sustentabilidade. A crise pela qual passa o setor é momentânea, e de menor intensidade que a de 1999, quando não tínhamos mercado para o álcool carburante e os preços de venda eram bem abaixo dos custos de produção. As crises acontecem de tempos em tempos e são oportunidades que temos para reciclar, inovar, questionar e tomar medidas que não temos coragem nas épocas de normalidade e que permitem saltos de produtividade e ganhos de eficiência, tornando o setor mais competitivo. Como se vê, as janelas de oportunidades são inúmeras e o Brasil, com certeza, terá um papel de destaque no cenário mundial, como grande produtor de combustível ecologicamente correto, renovável e limpo, e como grande gerador de empregos, numa época de tantos desempregos. O jogo está começando e o resultado só acontecerá no final do segundo tempo. Alguns jogadores serão expulsos, outros sairão por falta de preparo, e outros porque vão se machucar. Mas, com certeza, o time Brasil ganhará. Volto para a empresa que ajudei a fundar, crendo no potencial de nossa equipe e na sua força de trabalho. Força essa que é o motor de todo o progresso que conquistamos ao longo dessas 26 safras de nossa existência.


Bancos José Carlos Vaz

Diretor de Agronegócios do Banco do Brasil

No médio e longo prazos, vislumbram-se excelentes perspectivas No primeiro semestre da safra 2008/2009, o Banco do Brasil desembolsou em crédito rural, para todas as atividades e finalidades, R$ 18,3 bilhões, volume 37,5% superior ao do mesmo período da safra 2007/2008. Desse total, R$ 4,3 bilhões foram destinados à agricultura familiar e R$ 14 bilhões contratados pelos demais produtores e cooperativas. Em relação à safra anterior, o total de recursos aplicados representa um crescimento de 23,1% para a agricultura familiar e 42,6% para a agricultura empresarial. O BB antecipou R$ 5 bilhões do plano safra 2008/2009, durante o mês de outubro, medida necessária para aumentar a disponibilidade de recursos do crédito rural, devido à escassez de liquidez no mercado, decorrente da crise internacional. Do total emprestado pelo BB no primeiro semestre da safra 2008/2009 à agricultura familiar, R$ 3,2 bilhões foram de operações de custeio e R$ 1,1 bilhão para operações de investimento, crescimento de 18% e 38%, respectivamente, comparado ao mesmo período da safra anterior. Aos demais produtores e cooperativas, foram destinados mais de R$ 10,6 bilhões em operações de custeio, R$ 1,1 bilhão em contratações de investimento e R$ 2,3 bilhões aplicados em comercialização, incremento de 45%, 8% e 71%, respectivamente, sobre o primeiro semestre da safra 2007/2008. Neste ano, já estão disponíveis nas agências do BB os recursos suficientes para atender a toda a demanda prevista para o primeiro bimestre de 2009. A partir de março de 2009, serão alocados recursos para o apoio à comercialização da safra 2008/2009. O BB acredita que os desembolsos continuarão ocorrendo em volume superior aos da safra passada, inclusive para a safrinha de milho, safra do N/ NE e cereais de inverno. O BB tem focado a utilização de mecanismos para redução dos riscos nos financiamentos de custeio agropecuário, concedidos na safra 2008/2009. É o caso do seguro agrícola, do Proagro - Programa de Garantia da Atividade Agropecuária, e da proteção de preços em bolsas de mercadorias e futuros. A utilização desses mecanismos de mitigação de risco possibilita aos produtores proteção contra os efeitos do clima em sua atividade e das oscilações de preços das commodities agropecuárias. Na safra atual, foi ampliada a utilização do seguro agrícola, ofertando proteção para as culturas de soja, milho e milho safrinha, algodão, trigo, arroz irrigado e cana-de-açúcar, nos principais estados produtores. Especificamente no apoio ao setor sucroalcooleiro, em 2008, destinamos R$ 1,8 bilhão, superando em 43% os recursos aplicados no ano de 2007. Em 2009, continuaremos a apoiar as demandas do segmento. Os resultados alcançados na produção de açúcar e álcool na safra 2008/09, do Centro-Sul, são expressivos: a produção de açúcar chegou a 26,6 milhões de toneladas, 1,8% superior a

de igual período de 2007. No etanol, a produção atingiu 24,6 bilhões de litros, aumento de 21,4% sobre os 20,2 bilhões de litros da safra passada, sendo 16,09 bilhões de hidratado (alta de 24,6%) e 8,5 bilhões de litros de anidro (alta de 15,8%). Nas exportações de etanol, houve recorde de venda de 5,1 bilhões de litros, superior em 46% ao exportado em 2007. Nada obstante à retração da economia mundial, as análises apontam para preços globais do açúcar avançando em 2009. A queda na produção de açúcar de países como Índia, Paquistão e Irã deve interferir positivamente nas cotações. Um possível déficit na oferta mundial de açúcar dará sustentação aos preços, condição positiva para nossos exportadores, a qual se soma uma conjuntura de câmbio favorável. Para a exportação de álcool, surgem expectativas otimistas, com a posse do novo governo norte-americano. O mercado interno é uma salvaguarda para o setor. Um indicativo da solidez de consumo interno de etanol é a previsão contida no Plano Decenal do setor energético, elaborado pela EPE - Empresa de Pesquisa Energética, do Ministério de Minas e Energia. O Plano estima que em decorrência do sucesso dos veículos flex, haverá expansão de 11% ao ano na demanda por etanol, até 2017. A estimativa é de que entre 2008 e 2017 sejam acrescidos 3 milhões de veículos ao ano na frota nacional e que no final do período o consumo de etanol chegue a 52,5 bilhões de litros. Assim, a participação dos veículos do tipo flex-fuel na frota nacional deve aumentar da atual fatia de 29,6% do total, em 2008, para 73,6%, em 2017. Na turbulência pela qual passam os mercados, o setor sucroalcooleiro, talvez, seja, no agronegócio, o que mais demanda atenção, notadamente no que se refere à estrutura de financiamento de alguns projetos de ampliação e construção de novas usinas. Com a confirmação das perspectivas favoráveis de mercado, no exterior e no país, o setor ganhará fôlego para dar continuidade aos projetos de expansão. Por certo, continuaremos sendo o maior exportador de açúcar e álcool, vindo a nos firmar como exportadores de know-how e tecnologia de produção. O Banco do Brasil vem trabalhando para fazer frente às demandas na esfera de sua atuação. O esforço da parte do Governo é grande para que esse momento seja superado. No médio e longo prazos, vislumbram-se excelentes perspectivas para o açúcar e o álcool produzidos pelo Brasil. Os fundamentos são positivos e permitirão o fortalecimento do setor.

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Bancos Alexandre Enrico Silva Figliolino Diretor Comercial do Itaú BBA

O futuro da indústria sucroalcooleira no Brasil

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O setor sucroalcooleiro brasileiro, como todos os demais, entrou nesta crise, ainda de proporções difíceis de serem dimensionadas. Antes de setembro, tratava-se de uma crise endógena de um setor sabidamente cíclico, motivada por taxas de crescimento e investimento de proporções chinesas que ocorreram nos últimos anos e que teve como consequência indesejável um aumento enorme nos níveis de alavancagem financeira do setor, quase que como um todo. Para se ter uma idéia da violência com que isto ocorreu, vamos abaixo discutir alguns índices. No quesito Vendas Líquidas/Endividamento Líquido, considera-se normal empresas do setor que devam até 65% das vendas líquidas anuais. Já num nível mais arriscado, estão aquelas que devem entre 65% a 100% de suas vendas anuais. Acima disto, a coisa já se torna insuportável. Numa amostragem da carteira da instituição onde trabalho, 25% está no nível normal, 50% no arriscado e 25% no dito insuportável. Outro índice muito importante na relação Endividamento Líquido/EBTIDA: consideramos até 2,5x normal, até 5x arriscado e acima disto, insuportável. O EBTIDA é o popularmente conhecido como geração operacional de caixa, e dá uma ideia da capacidade das empresas de gerar caixa em sua atividade a fim antes de servir a dívida, pagar impostos, repor a depreciação e pagar dividendos. O número aceitável de 2,5x leva em conta a questão do setor ser cíclico, com grande volatilidade de resultados. Outros setores de resultado mais previsíveis, como utilities, toleram, de forma saudável, índices de até 4x. Importante também levar em conta, ao definir o que é saudável neste índice, o elevado nível de taxa real de juros praticados no Brasil, que costumam punir, de forma cruel, altos níveis de alavancagem financeira. A combinação entre a substancial elevação do endividamento – fruto de investimentos e aquisições, a queda na geração de caixa – decorrente da redução dos preços do açúcar e do álcool – e o brutal aumento dos custos levaram este índice a níveis preocupantes. A média do setor neste ano safra 08/09 está em torno de 6,5 vezes, o que não é nada saudável. Em alguns casos, pasmem, este índice ultrapassa a marca de 10 vezes!

Para a próxima safra, esperamos substancial melhora da margem EBTDA, pela recuperação esperada dos preços, se os bons fundamentos imperarem e também pela redução de importantes itens da escala vertical de custos das empresas como aço, mão-de-obra, fertilizantes, etc, bem como medidas de racionalização que estão sendo postas em prática. Ouço empresários falando em reduções, que representam até incríveis 30% do EBTIDA esperado para a próxima safra. A pergunta que fica é: por que não foi feito antes? Outro índice interessante a ser observado é Dívida Financeira Líquida/Tonelada de cana moída. Levando-se em conta que, na média de anos bons e ruins, boas empresas do setor conseguem gerar de caixa R$ 20,00 por tonelada de cana moída, dever até R$ 50,00/ton é uma situação saudável, entre isto e R$ 100,00/ton já passa de aceitável para uma situação apertada e acima disso a situação já passa a ser complexa. Claro que fatores como custo ponderado da dívida, perfil de amortização e capacidade de geração de caixa dos investimentos feitos são fundamentais para uma análise mais apurada. Um exemplo do que falei acima é o de uma usina que vai moer na próxima safra 10MM de toneladas, com uma dívida de R$ 1 bilhão, a um custo ponderado de 13,5% a.a. - resultado de um mix de capital de giro de curto prazo ao custo de 20% a.a., BNDES por volta de 11,25% a.a. e pré-pagamento de exportação de variação cambial mais 8%, na proporção de 25%, 50% e 25% para cada uma das modalidades - resultando numa despesa financeira anual de R$ 135MM. Supondo-se que esta usina gere R$ 17,50/ton moída no próximo


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ano, a safra 09/10, se tudo der certo, pagará os encargos e sobrarão apenas R$ 40 MM para reposição obrigatória de depreciação, amortização de principal e impostos. Dividendos, nem pensar. Foi nesta situação que a crise econômica mundial pegou o setor. Ou seja, crise de liquidez jamais vista, com o setor altamente alavancado financeiramente e com baixa capacidade de geração de caixa. O mundo acabou? A resposta é não. Felizmente, aquele ditado de que Deus além de brasileiro é usineiro parece que vai se fazer valer de novo. O setor, talvez, seja um dos únicos que nesta crise esteja construindo bons fundamentos, que vão permitir uma travessia do Cabo Horn dura, porém sem naufrágio para a maioria das empresas. O fundamento mais importante, seguramente, é o açúcar, que aponta para déficits elevados, com números entre 5 a 6 MM de tons no próximo ano safra e para uma relação estoque/consumo no final deste ano das mais baixas já vistas, em torno de 23%. Lembrando que o açúcar é um produto básico, fonte de energia das mais baratas que o mundo pode produzir, excluindo da comparação o barro comido por nossos semelhantes haitianos. É inelástica a renda, onde pequenos desequilíbrios de oferta/demanda causam movimentos muito bruscos de preço, o que vale para o bem e para o mal. O álcool, por sua vez, apesar de estar com a espada do preço baixo do petróleo na cabeça, vai ter, do lado da demanda, uma expansão da frota flex em mais de 2 milhões de veículos, o que assegurará um crescimento de consumo de mais de 3MM de litros. Sem falar em outro produto muito nobre que é a cogeração de biomassa, infelizmente ainda presente em poucas unidades e que não mereceu do governo o devido valor. Este produto adiciona na geração de caixa das usinas preciosos 4 a 6 Reais por ton, muito importantes, principalmente nos anos de vacas magras. Estes fundamentos citados acima, com certeza, vão melhorar a vida do setor, mas será que esperar externalidades acontecerem ou fazer ações de redução de custos bastam? A meu ver não e, na linha do fazer do limão uma limonada e que, é na dificuldade que o ser humano evolui pelo aprendizado de importantes lições, gostaria de colocar algumas questões a serem refletidas. A primeira questão é do lado da gestão. O que mais vimos nestes anos foram saltos bastante significativos de tamanho do tipo dobrar, triplicar e que não foram acompanhados das devidas adaptações de gestão, porque havemos de concordar que tocar uma usina de 2 MM de tons é diferente de tocar duas de 5MM de tons. É mais ou menos a diferença entre guiar um táxi e um F1. Um erro de direção num táxi guiando na cidade ocasiona um paralama ou capô amassado. Um erro na condução de um F1 pode levá-lo a bater na Tamburello, como, infelizmente, aconteceu com nosso saudoso

campeão em 1994. Quanto maior o negócio, maior a exigência de gestão no seu sentido mais amplo. No que envolve a parte financeira, é preciso: controles, orçamentos, custos, gestão riscos de moeda, de preços, gestão com fonte adequada de recursos, no que tange a preço e prazo, procurando evitar descasamentos; operar com nível mínimo de caixa; tomar recursos quando o mercado está líquido e disponível; suprir os parceiros financeiros com informações de qualidade, no menor prazo possível e com a maior transparência, que é o combustível da confiança. Ou seja, quanto maior a empresa, menor é o espaço para improvisações e amadorismos. Uma segunda questão que gostaria de abordar é com relação às oportunidades estratégicas. Têm um cliente muito amigo e que considero um dos empresários mais competentes do setor que me disse a seguinte frase: “Somos um bando de fazendeiros, exceto poucas e honrosas exceções. Administramos nossos negócios, poderosas empresas agroindustriais, com faturamento na casa dos R$ 500MM ou até mais, como tocávamos nossas fazendas há décadas atrás”. Exageros à parte, nosso querido amigo fala isso no sentido da arraigada visão de dono, onde empresas familiares têm dificuldade em visualizar para o futuro a transformação de suas empresas em sociedades anônimas, não mais de donos, mas de acionistas e sócios, extremamente preocupada em criar valor para os próprios acionistas, colaboradores e para a sociedade. Então, ideias que propiciam crescimento não orgânico, envolvendo fusões, integração de ativos, alianças estratégicas, buscando ganho de escala, ganho de eficiência, sinergias, etc, que podem fazer extremo sentido, são simplesmente abortadas sem sequer serem discutidas e avaliadas. Sabemos das dificuldades ocasionadas pelas diferenças de culturas e valores, mas não podemos deixar de perseguir o caminho de um setor mais consolidado e, consequentemente, mais forte, com os benefícios que isto pode produzir. Temos certeza que estes movimentos estão apenas no início e com a conclusão das primeiras operações, se elas se transformarem em caso de sucesso, outros grupos mais conservadores e céticos irão, no mínimo, refletir mais sobre as questões estratégicas e o longo prazo. Com isto, o sonho de um setor mais forte e robusto, que não transfira renda de forma estúpida para outros elos da cadeia, inclusive o meu que é o financeiro, vai ficar mais perto da realidade. Concluindo, apesar de tudo que falei, prefiro dar crédito a uma usina muito bem gerida com 3MM de tons de capacidade do que para uma de 20MM de tons de capacidade mal tocada. Crescer com qualidade é fundamental, conseguir fazê-lo com o menor ônus possível é o grande segredo, combinação de boa gestão da operação como um todo, com estratégia primorosa, é a combinação infalível.


Bancos Luis Otávio de Souza Leal

Economista-Chefe do ABC Brasil Arab Banking Bem vindos ao novo mundo

O mundo mudou. Não estou falando diretamente sobre a crise financeira que estamos passando. Desde meados da década de 90, o desenvolvimento tecnológico, principalmente a internet, tem propiciado às pessoas e aos mercados uma interação on-line, que foi a base de sustentação do movimento de globalização que explodiu no raiar do século XXI. Com isso, a planificação do mundo, nos moldes do livro do jornalista Thomas J. Friedman, tornou-se possível, com as suas vantagens e desvantagens. No primeiro caso, tivemos um notável crescimento da renda, gerado pela expansão sem precedentes do comércio, que tirou milhões de habitantes do planeta da miséria. Do lado dos efeitos colaterais, a interatividade entre os mercados e das economias ao redor do mundo deixou um plantador de arroz nos arredores de Bangkok exposto à inadimplência da hipoteca de um desempregado de Cleveland. Portanto, não deveria causar surpresa que a crise financeira internacional tenha batido em nossas praias. Entretanto, apesar de ter sido ingênuo achar que essa seria apenas uma marolinha, também não se esperava que nos atingisse com a força de uma tsunami. O catalisador desse movimento foi a quebra da Lehman Brothers, em 15 de setembro. Certamente, a crise não começou aí, mas foi a partir desse acontecimento que as coisas precipitaram-se. Era como um incêndio que estava relativamente controlado, que iria gerar prejuízos, mas totalmente gerenciáveis, e de repente atingiu uma sala repleta de produtos inflamáveis, tornando as chamas incontroláveis e os danos incalculáveis. Dessa forma, podemos considerar o evento Lehman Brothers como sendo o divisor de águas dessa crise, não só para o Brasil, como para todo o mundo. O mercado financeiro é montado em cima da confiança, de modo que qualquer abalo nesse ativo tem o poder de corroer os alicerces do sistema. Portanto, a partir da quebra do 4º maior banco de investimentos dos EUA, passamos a jogar o “jogo do mico preto”, onde todos têm receio de passar a carta adiante, com medo ficar com o mico preto no final. Nesse clima, o mercado “trava” e o nome do jogo passa a ser “liquidez”. Aqui temos o ponto de contato entre a crise externa e o nosso mercado. Sem o fluxo de financiamento externo, anteriormente abundante e barato, as premissas que sustentavam o nível de apreciação do Real foram rompidas e tivemos o “movimento clássico” de transferência dos problemas externos para a nossa economia, a desvalorização cambial. Esse movimento acabou gerando a versão tupiniquim do “jogo do mico preto”. Com as perdas das empresas com derivati-

vos cambiais, o crédito secou também internamente e o “jogo da liquidez” passou a ser jogado também no mercado de crédito brasileiro. Daí para entrar em um circulo vicioso, onde a restrição de crédito gera problemas de gerenciamento de caixa das empresas, aumentando a inadimplência, o que, no fim, acaba aumentando a restrição de crédito, foi um pulo. Essa é a situação atual, o que esperar daqui para frente? Do lado internacional, não devemos ter novidades favoráveis. Apesar de ser lugar comum, não se tem notícia de uma crise dessa proporção, desde os anos 30. Só de baixas contábeis, já chegamos a mais de US$ 1 trilhão, sendo que a capitalização total situa-se em torno de US$ 970 bilhões. Nesse mundo de cifras estratosféricas, pouco mais de US$ 30 bilhões de perdas pode não ser muito, mas considerando uma alavancagem média de mercado em torno de 20 vezes (na Lehman Brothers e no Bear Sterns esse cálculo passava de 30 vezes), isso repre-

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Estamos passando pelo pior momento da crise para o Brasil, que está sendo refletida em uma redução tanto no crédito, quanto no nível de atividade maior do que vai prevalecer no novo equilíbrio. A tendência é que o mercado de crédito volte a operar normalmente ainda nesse ano, mas com um custo maior.

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senta uma contração de crédito de US$ 700 bilhões, praticamente 50% do PIB brasileiro. Segundo o FMI, não estamos nem na metade do movimento, que poderá chegar a US$ 2,2 trilhões, assim, se não tivermos capitalizações dessa monta, podemos considerar que boa parte do sistema financeiro mundial está à beira da insolvência. O resultado é que o crédito continuará escasso e devemos continuar a ouvir notícias sobre novas formas de lidar com essa situação, que vão desde a criação de um BBB (Big Bad Bank), para limpar a carteira dos bancos dos ativos, até a total nacionalização do sistema. Enquanto lá fora ainda devemos demorar a ver uma luz no fim do túnel, aqui, o que era visto como fraquezas do sistema no passado, agora são ativos importantes para que a volta à normalidade ocorra de maneira mais rápida. O primeiro ponto a se destacar é que a crise pegou o Brasil com R$ 260 bilhões de compulsórios bancários. Antes da crise, isso era visto como um anacronismo, mas acabou aumentando o leque de opções à disposição do BC para lidar com a crise de liquidez internacional, evitando que essa se tornasse uma crise de solvência nacional. Mesmo com todos os movimentos feitos até agora pela Autoridade Monetária, gastou-se apenas R$ 90 bilhões desse montante, 35% do total, de modo que ainda temos espaço para aumentar a liquidez do sistema, caso seja necessário. O segundo ponto seria a concentração do sistema. As 5 maiores instituições brasileiras controlam mais de 55% dos ativos, o que favorece a solidez do sistema, através da escala das instituições. Por fim, a existência de bancos públicos, se bem utilizados, pode ser um fator importante para manter o sistema de crédito funcionando, enquanto o “jogo da liquidez” não tiver chegado ao seu termo. Portanto, podemos dizer que a crise de solvência que abate o setor bancário internacional, não deve achar guarida aqui no Brasil. Entretanto, se isso é condição necessária para que o mercado de crédito volte a funcionar a contento, certamente não é suficiente. O círculo vicioso acima citado, para ser rompido, teria que ter a ajuda de uma melhoria das condições de crédito externas e/ou de uma recuperação da economia mundial. Como nenhuma das duas hipóteses é vislumbrada no horizonte, temos que o crédito interno, mesmo que volte ao volume anterior, consideração não só possível,

mas bastante provável, continuará caro. Para isso, contribuirá um efeito colateral do nosso círculo vicioso, a inadimplência. Os resultados dessa variável, sejam coletados pelo BC, pela Serasa ou pelo SPC, mostraram crescimento em dezembro, um mês em que normalmente se vê redução, uma vez que os trabalhadores aproveitam o 13º salário para quitar dívidas. Por isso, os bancos preparam-se para um 1º trimestre difícil em termos de inadimplência, dado que, sazonalmente, o pico desta ocorre em março. O reflexo disso dá-se sobre o spread bancário, que seria a diferença entre o custo de captação da instituição e a taxa para o consumidor final, e que tem suscitado grandes discussões ultimamente. De fato, segundo os mais recentes dados divulgados pelo BC, enquanto o custo de captação dos bancos caiu de 13,8% a.a., em julho de 2008, para 12,6% a.a., em dezembro do mesmo ano, o spread passou de 25,6 p.p., para 30,6 p.p., no mesmo período. Considerando que o spread é composto pelos impostos, que não foram alterados, despesas administrativas, que não tiveram motivos para aumentar, a inadimplência e o lucro retido, um dos dois últimos foram responsáveis por esse movimento. Como o último, não temos como mensurar nesse momento, a maior especulação recai sobre a inadimplência. Os dados comprovam. Entre setembro e dezembro de 2008, essa taxa passou de 4,0% para 4,4%. Pode parecer pouco, mas é bastante relevante para um período em que esta deveria estar recuando e com a perspectiva de que ainda vai piorar mais. Portanto, não devemos esperar quedas expressivas nos juros cobrados pelo mercado, mesmo com a esperada redução dos juros básicos da economia pelo BC, ao longo do 1º semestre de 2009. Pelo menos no curto prazo, boa parte dessa redução será consumida pela elevação da inadimplência e o seu reflexo sobre o spread bancário. Certamente, essa situação não é ideal nem para o setor produtivo, nem para o setor bancário, mas é um reflexo da conjuntura atual. Nesse sentido, tentativas de pressionar os bancos para reduzir as taxas a fórceps estão fadadas ao fracasso. Como em qualquer mercado, se o mercado de crédito for restringido pelo preço, o ajuste vai se dar na quantidade. O melhor, portanto, é continuar a reduzir tanto os juros básicos, quanto os compulsórios, para contrabalançar esse aumento inevitável do spread, devido à inadimplência. A conclusão é que estamos passando pelo pior momento da crise para o Brasil, que está sendo refletida em uma redução tanto no crédito, quanto no nível de atividade maior do que vai prevalecer no novo equilíbrio. Apesar disso não ser consolo para as empresas que estão passando por problemas de caixa agora, a tendência é que o mercado de crédito volte a operar normalmente ao longo do primeiro semestre desse ano, só que a um custo relativo mais alto, ou seja, as quedas dos juros promovidas pelo BC não serão totalmente repassadas para os preços finais do crédito... Bem vindos ao novo mundo.


Bancos Carlos Eduardo de Siqueira Cavalcanti

Chefe do Departamento de Biocombustíveis do BNDES A crise mundial e os desafios do setor sucroalcooleiro O aumento da frota de veículos flex-fuel a partir de meados de 2003 estabeleceu um novo paradigma para o setor sucroalcooleiro, pois o volume de automóveis aptos para o consumo de etanol atingiu a marca histórica de mais de 8 milhões de unidades, dos quais cerca de 7 milhões são veículos flex-fuel. Além disso, como o preço do etanol hidratado tem se mantido abaixo de 70% do preço da gasolina – patamar de paridade que torna indiferente a opção entre os dois combustíveis – em boa parte do país, a nova frota de veículos flexíveis tem utilizado, majoritariamente, o combustível renovável. Segundo dados da ANP - Agência Nacional do Petróleo, o consumo total de etanol (anidro e hidratado) é superior ao consumo de gasolina, desde abril de 2008. De outro lado, o aumento das preocupações com as consequências do aquecimento global torna cada vez mais necessária a adoção de medidas que reduzam as emissões de CO2. Em vista disso, as principais economias mundiais – EUA, União Europeia e Japão – têm anunciado a intenção de adotar ou intensificar programas de adição de etanol anidro à gasolina. Desse modo, foi nesse contexto de boas expectativas de curto e médio prazo que o Brasil experimentou um intenso ciclo de investimentos do setor sucroalcooleiro. Segundo a Unica - União da Indústria de Cana-de-Açúcar, desde 2005 foram construídas 83 novas usinas e destilarias, sendo que, somente em 2008, 30 unidades entraram em operação na região Centro-Sul. A Unica estima que, à plena capacidade de moagem, terão sido investidos mais de US$ 20 bilhões em ampliação do parque industrial sucroalcooleiro. Rentabilidade em baixa: Não obstante o crescente consumo de etanol ao longo dos últimos anos, as safras 2007/08 e 2008/09 não apresentaram remuneração adequada para o setor. Isso decorreu, em primeiro lugar, em razão do aumento dos custos operacionais, sobretudo na etapa agrícola do processo produtivo, pelo encarecimento de determinados insumos agrícolas, em especial adubos e fertilizantes. Segundo a Anda - Associação Nacional para Difusão de Adubos, em 2007, o valor de uma tonelada de fertilizantes equivalia a 19,8 toneladas de cana, ao passo que, em 2008, dados preliminares indicam que essa relação alterou-se para 36,3. Além disso, o crescimento da oferta superou o aumento do consumo interno, gerando maior crescimento dos estoques médios e, com isso, mantendo os preços do etanol em patamares inferiores aos verificados durante a safra 2006/07.

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Apesar desse cenário de redução de margens, o setor não encontrava dificuldades em honrar compromissos de curto prazo, sobretudo em razão dos bancos comerciais continuarem a suprir as necessidades de capital de giro. Contudo, com a crise dos mercados mundiais, houve significativa redução e encarecimento das linhas de financiamento, o que ocasionou uma aceleração vis-à-vis nas vendas de etanol por parte de determinadas usinas como forma de recomposição do caixa, compensando parcialmente a escassez de capital de giro. Por outro lado, tal movimento imprimiu força baixista ao preço do etanol, impedindo uma remuneração mais adequada para o produtor. Desaquecimento da Demanda Interna: O consumo interno de etanol é fortemente influenciado pela expansão da frota de veículos flex-fuel e pela paridade entre os preços do etanol e da gasolina. Com relação ao último fator, embora o preço do petróleo tenha apresentado significativa queda no período recente, não se vislumbra, ao menos no curto prazo, que essa redução seja repassada à gasolina. Ademais, no caso de alguma redução, existe a alternativa de recomposição da Cide - Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, sobre a gasolina (reduzida de R$ 0,28 para R$ 0,18 por litro, em 2008), o que tornaria inalterada a paridade de preço com o etanol. Já no que se refere à expansão da frota de veículos, de acordo com dados da Anfavea Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, foi observada uma desaceleração na quantidade de carros flex vendidos. Apesar de os 11 primeiros meses de 2008 terem registrado vendas superiores em 20% em relação ao mesmo período de 2007, quando repetimos o exercício para o período setembro/ novembro, observa-se uma queda superior a 10%.


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Tal movimento pode ser atribuído, de um lado, à redução e encarecimento das linhas de financiamento para aquisição de veículos novos e, de outro, ao menor apetite dos consumidores em assumir compromissos financeiros de médio prazo. Como consequência, a taxa de crescimento do consumo de etanol hidratado também se reduziu. Como mostra a tabela, enquanto o agregado até novembro/2008 superou em 42% o mesmo período de 2007, o trimestre setembro/ novembro registrou aumento de 27% entre 2008 e 2007. Por outro lado, cabe salientar que o Governo Federal tem tomado medidas compensatórias para reaquecer a demanda por veículos, como a redução do IPI - Imposto sobre Produtos Industrializados e a sinalização de uma trajetória descendente da taxa básica de juros - Selic. De qualquer modo, o que se pode dizer, até o momento, é que a demanda interna por etanol, do ponto de vista absoluto, deverá manter-se em crescimento. Contudo, conforme apontam os dados mais recentes, espera-se que tal crescimento dê-se em ritmo inferior ao observado no período pré-crise. Exportações em Crescimento: A expectativa de médio/longo prazo é que as exportações brasileiras cresçam. A motivação para o aumento da demanda internacional pelo etanol brasileiro baseia-se na expectativa de ampliação de programas europeus, americanos e asiáticos de utilização percentual de biocombustíveis e abertura de novos mercados. Nos Estados Unidos, foi adotada legislação, no final de 2007, que estabelece meta de consumo de 136 bilhões de litros de etanol em 2022. As primeiras sinalizações dadas pelo Presidente Obama e sua equipe, revertendo posições da administração anterior, apontam para uma possível redução de tarifas de importação ao etanol brasileiro. Na União Européia, foi aprovada a Diretiva sobre Fontes Renováveis, que estabelece a mistura de 10% de combustíveis renováveis aos fósseis até 2020 no setor de transportes. No curto prazo, conforme demonstram os dados da tabela, ainda não se pode verificar qualquer impacto negativo nas exportações de etanol oriundo da crise econômica mundial. Pelo contrário, pode-se afirmar que o período pós-crise tem sido até mais aquecido do ponto de vista das vendas externas de etanol. Quando comparado o último quadrimestre de 2008 com o mesmo período de 2007, observa-se aumento de 88% do volume exportado, indicando que o desaquecimento das principais economias importadoras (EUA e UE) ainda não se refletiu nas compras de etanol brasileiro. Considerações Finais: A inauguração de um novo governo nos EUA, notadamente mais sensível a questões ambientais, pode significar um novo paradigma na política energética norte-americana e implicar em alterações no atual sistema de tarifas aduaneiras, que

promovem a expansão da produção interna de etanol. Menores incentivos ao etanol à base de milho, reconhecidamente menos eficiente do que o etanol de cana-de-açúcar, seja do ponto de vista econômico e, sobretudo, ambiental, significará maior espaço para exportações brasileiras. Ademais, a aprovação, pela União Européia, do percentual de 10% de mistura de combustível renováveis no setor de transportes também aponta na mesma direção de ampliação do comércio mundial de etanol. Por outro lado, apesar das boas perspectivas de médio prazo no front externo, a crise de crédito atingiu o setor em um momento de significativa alavancagem financeira, em razão do forte ciclo de investimentos no período 2004-2008, o que agravou a situação econômico-financeira do setor, que já vinha sofrendo com a queda de preços, verificada ao longo da safra 2007/08. Tal situação, conjugada com uma possível redução de vendas de veículos, enquanto a crise de crédito perdurar, poderá acarretar alguma inadimplência do setor junto a fornecedores na cadeia sucroalcooleira, como os fabricantes de bens de capital e os fornecedores de cana-de-açúcar. A despeito do cenário desfavorável no curto prazo, a importância atribuída pelo BNDES ao setor sucroalcooleiro não se alterou, haja vista que não houve qualquer modificação dos fundamentos que norteiam sua expansão de médio e longo prazo, a saber: as vendas de veículos flex-fuel continuarão representando cerca de 90% do total de automóveis comercializados; as vantagens competitivas do etanol de cana-de-açúcar, em relação ao etanol produzido a partir de outras matérias-primas; e, principalmente, a adoção de melhores práticas ambientais, a partir da necessidade imperiosa de redução de emissões de CO2, que tornará fundamental a adoção, por outros países, da mistura do etanol à gasolina, a exemplo do que já ocorre no Brasil.

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Bancos Giovana Alice Correia Araujo

Analista de Equity Research do Unibanco No meio do caminho tinha uma pedra

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As condições adversas do mercado mundial de açúcar foram recentemente revertidas com a mudança de um quadro de superávit para um cenário de déficit de produção e com a recuperação da competitividade das exportações brasileiras, em virtude da desvalorização do Real frente ao Dólar norte-americano e da queda dos fretes internacionais. Entretanto, novos desafios para o setor sucroalcooleiro do Brasil foram trazidos pela crise dos mercados financeiros globais, dentre os quais se destaca a mudança na dinâmica dos mercados de crédito e a queda dos preços internacionais do petróleo e derivados. A crise de crédito atingiu o setor sucroalcooleiro do Brasil em um momento particularmente desfavorável à indústria, marcado pela baixa geração de caixa e por altos níveis de endividamento. As margens operacionais do setor foram comprimidas nas duas últimas safras pela combinação de baixos preços do açúcar e do álcool, juntamente com maiores custos de produção. Como a maioria das empresas sucroalcooleiras têm reportado prejuízos operacionais nesse período, os programas de investimento e expansão de capacidade de produção têm sido financiados, em grande parte, por endividamento. Apesar das expectativas de recuperação da geração de caixa na próxima safra, a maior parte das empresas do setor terá que recorrer ao endividamento para manter o curso dos investimentos, o que coloca em xeque a expansão da capacidade produtiva. Em alguns casos, dado o perfil da dívida e as dificuldades de renovação de linhas de crédito, não só o capex está em xeque, como a própria capacidade de fazer frente aos compromissos. Não bastassem os riscos derivados desse cenário adverso de crédito, o setor sucroalcooleiro ainda enfrenta os riscos de uma deteriorização dos fundamentos do mercado de álcool combustível, em virtude da queda dos preços internacionais do petróleo e derivados. No plano doméstico, a redução dos preços da gasolina, sem um correspondente aumento da Cide - Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, representa o maior risco para o mercado de álcool combustível. Nesse momento, sob a ótica do governo, os argumentos econômicos a favor de uma redução de preços parecem ter menor relevância que aqueles em prol de sua manutenção. Entretanto, caso os preços internacionais do petróleo e derivados mantenham-se próximos aos níveis correntes por um período prolongado, e na ausência de mudanças significativas na taxa de câmbio, a defesa de níveis elevados de prêmio em relação ao mercado internacional, como os observados atualmente, pode perder força. O prêmio da gasolina no Brasil, sobre a gasolina no mercado internacional - tomando-se como referência os preços da

gasolina convencional no mercado atacadista norte-americano - fechou em 63%, em dezembro do ano passado. Na hipótese de manutenção dos preços da gasolina no Brasil em 2009 e assumindo a manutenção da taxa de câmbio próxima aos níveis de janeiro deste ano, assim como, as projeções do DOE - Departamento de Energia dos Estados Unidos, para os preços da gasolina no mercado atacadista norte-americano para os próximos 12 meses, o prêmio sobre a gasolina no mercado internacional fecharia o ano em 44%. No plano internacional, mantidas as atuais barreiras de comércio nos principais mercados de destino, assim como os preços do petróleo e derivados próximos aos níveis correntes, esperase crescimento limitado das exportações de álcool. Caso qualquer dessas premissas deixe de subsistir, o cenário modificar-se-á substancialmente. Nesse momento, a visibilidade quanto à evolução de variáveis, como crédito e preços internacionais de petróleo e derivados, é baixa. O aforismo “toda a crise traz oportunidades” pode se revelar especialmente verdadeiro no mercado sucroalcooleiro do Brasil. As condições adversas atuais tendem a impactar de forma diferenciada as empresas do setor, ainda muito fragmentado. Alguns grupos podem ser beneficiados nesse processo, seja por oportunidades de aquisições vantajosas, seja pelo fortalecimento da estrutura de mercado, gerado por uma potencial concentração. Apesar das pedras ou em razão delas, o caminho continua.


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O cenário econômico mundial - OpAA19  

Analisamos, nesta edição, o atual Cenário Econômico Mundial, considerando o panorama imediato e as perspectivas de médio e longo prazos, esp...

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