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ISSN: 2177-6504

SUCROENERGÉTICO: cana, açúcar, etanol & bioeletricidade ano 16 • número 58 • Divisão C • Out-Dez 2018

Brasil:

é agora ou nunca mais !


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Brasil: é agora ou nunca mais !

índice

Investimento e ampliação no setor sucroenergético Editorial:

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Pedro Robério de Melo Nogueira Presidente do Sindaçúcar-Alagoas e Vice-Presidente do Conselho Temático da Agroindústria da CNI

Ensaio especial:

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Gerd Sparovek e Gustavo Casoni da Rocha

Coordenador-geral do GT-InovaSolo da Esalq-USP e Professor do Curso de Conservação de Solo na cultura da cana-de-açúcar da Esalq-USP, respectivamente

Especialistas de segmentos operacionais do sistema sucroenergético:

8 10 13 15 18 20 22 24

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Caio Diretor do Grupo Alto Alegre

Tarcilo Ricardo Rodrigues Diretor da Bioagência

Arnaldo Luiz Corrêa

Diretor da Archer Consulting

Miguel Ivan Lacerda de Oliveira

Diretor do Dpto. de Biocombustíveis do MME

Plinio Mário Nastari Presidente da Datagro

Dib Nunes Jr.

Presidente da Idea

Alexandre Enrico Silva Figliolino Consultor-sócio da MB Agro

Karin Regina Luchesi

26 28 30 32 34 36 38

Martinho Seiiti Ono

Diretor da SCA Etanol do Brasil

Julio Maria M. Borges

Sócio-Diretor da Job Economia

Manoel Pereira de Queiroz

Gerente Sênior de Relacionamento do Rabobank

Ismael Perina Junior Produtor Rural

Mário Campos Filho Presidente da Siamig

Miguel Rubens Tranin Presidente da Alcopar

Amaury Pekelman Presidente da Udop

Vice-presidente da CPFL Energia

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Conselho Editorial da Revista Opiniões: ISSN - International Standard Serial Number: 2177-6504 Divisão Florestal: • Amantino Ramos de Freitas • Antonio Paulo Mendes Galvão • Celso Edmundo Bochetti Foelkel • Edimar de Melo Cardoso • João Fernando Borges • Joésio Deoclécio Pierin Siqueira • Jorge Roberto Malinovski • Luiz Ernesto George Barrichelo • Maria José Brito Zakia • Mario Sant'Anna Junior • Mauro Valdir Schumacher • Moacir José Sales Medrado • Nairam Félix de Barros • Nelson Barboza Leite • Roosevelt de Paula Almado • Rubens Cristiano Damas Garlipp • Sebastião Renato Valverde • Walter de Paula Lima Divisão Sucroenergética: • Carlos Eduardo Cavalcanti • Eduardo Pereira de Carvalho • Evaristo Eduardo de Miranda • Jaime Finguerut • Jairo Menesis Balbo • José Geraldo Eugênio de França • Manoel Carlos de Azevedo Ortolan • Manoel Vicente Fernandes Bertone • Marcos Guimarães Andrade Landell • Marcos Silveira Bernardes • Nilson Zaramella Boeta • Paulo Adalberto Zanetti • Pedro Robério de Melo Nogueira • Plinio Mário Nastari • Raffaella Rossetto • Tadeu Luiz Colucci de Andrade • Xico Graziano


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editorial de abertura

Brasil: é agora ou nunca mais ! O forte significado econômico, social e ambiental do setor sucroenergético e dos biocombustíveis para o Brasil está sendo objeto desta reflexão atual e pertinente sobre o seu desenvolvimento sustentado e duradouro ou a sua permanência na ciclotimia de altos e baixos que vem sendo vivenciada desde a implantação do Proálcool, ocorrida nos idos de 1975. Quando se considera a necessidade da adoção de políticas e ações de longo prazo, necessárias a qualquer programa de energia, e se confronta com a realidade constatada, pelo menos da última década, pode-se concluir que o maniqueísmo “agora ou nunca” se encaixa neste momento atual, de cujo pior momento em termos de decisões governamentais erráticas profundas da última década saímos; assumimos uma onda de esperança pelas ações acertadas a partir de 2015 e nos encaixamos na procissão dos esperançosos pelo advento de um novo governo a partir do próximo ano. O “agora” do setor sucroenegético está recheado de fundamentos e expectativas que asseguram a importância desse setor no contexto das políticas públicas e da afinidade delas com movimentos de desenvolvimento sustentado no Brasil e no mundo.

Essa plataforma de esperança está apoiada nos movimentos contemporâneos representados por ações governamentais com efeito direto na expansão sustentada do setor sucroenergético, ainda que algumas careçam de operacionalidades regulatórias próprias. Os fundamentos setoriais estão contemplados no presente nos seguintes movimentos: • Restabelecimento da política governamental de preços para os combustíveis ancorada na variação dos preços internacionais do petróleo e seus derivados; • Adesão do Brasil ao Acordo de Paris, através da qual será necessária uma série de ações governamentais internas com vistas ao alcance das metas assumidas pelo governo brasileiro no que se refere à redução de emissões de gases de efeito estufa e das medidas para a redução do aquecimento global; • Criação da Política Nacional dos Biocombustíveis – o RenovaBio, que estabelece uma direção de expansão para esses combustíveis, baseada numa linha de meritocracia pelas suas externalidades positivas, sem a dependência de subsídios fiscais, novos impostos ou intervenção favorecida na política de preços; • Participação do Brasil na Plataforma de Biofuturo, assegurando a integração de nossas políticas nessa área com a de outros países ou, de forma exógena, estimulando políticas internas com o apoio internacional; • Instituição do programa de inovação da indústria automobilística denominado Rota 2030, com estímulos fiscais para os veículos motorizados com biocombustíveis, inclusive a sua integração com os motores eletrificados. Desde a criação do Proálcool e da adoção do biodiesel, não temos, diante de nós, um cenário tão animador de políticas de efeito estruturante e de longo prazo para o setor sucroenergético "

Pedro Robério de Melo Nogueira Presidente do Sindaçúcar-Alagoas e Vice-Presidente do Conselho Temático da Agroindústria da CNI

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Opiniões Desde a criação do Proálcool e da adoção do biodiesel, não temos, diante de nós, um cenário tão animador de políticas de efeito estruturante e de longo prazo para o setor sucroenergético e, em especial, para os biocombustíveis. Contudo vale destacar que esse cenário de esperanças, que emoldura o “agora”, depende, fortemente, da continuidade e da concretização dos movimentos anteriormente relacionados e que dão suporte a esse cenário e auspiciam a adoção das medidas regulatórias pertinentes que venham a tornar críveis, viáveis e consistentes esses programas e assegurar a longevidade de desenvolvimento sustentado que o setor vem requerendo há algum tempo. Não se expande, nem se melhora produtividade, nem se mantém emprego sem um permanente programa de investimentos. E um programa de investimentos permanente exige ambiente estável e regras claras que assegurem desenvolvimento pelas regras de mercado e da verticalização da competitividade, sem perder de vista a equalização do desenvolvimento regional integrado. Percorremos muitos anos enfrentando uma volatilidade muito visível entre ações governamentais desestimuladoras e, às vezes, promessas de apoio à consolidação da produção e uso dos biocombustíveis e do uso da energia da biomassa da cana-de-açúcar. Essa alternância de humor governamental contribuiu de forma decisiva para a estagnação setorial no capítulo da eficiência e da expansão continuada na medida em que essa atividade requer estímulos estáveis no longo prazo, inclusive para enfrentamento das aleatórias situações de adversidades climáticas de política macroeconômica e seus reflexos nos custos de produção, no consumo e na participação no mercado externo. Os fundamentos que dão sustentação e ancoragem às esperanças atuais do setor sucroengético são consistentes e asseguram a rota definitiva para o seu continuado e sustentado desenvolvimento. Tudo isso nos remete a uma constatação de que a não concretização do RenovaBio e do Rota 2030 poderá comprometer, de forma marcante, a continuidade da expansão setorial, na medida em que voltará a se conviver com incertezas de mercado futuro e a insegurança da competitividade entre os combustíveis fósseis e os renováveis que assegurem remuneração pelas externalidades positivas dos últimos. A depender da qualificação e da intensidade no abandono desses movimentos em curso que estão postos na esfera dos biocombustíveis, pode-se o cenário do “nunca” no curto prazo para esses combustíveis no País. Essa expectativa se aplica em face da questão presente e conjuntural de que as implementações definitivas para esses programas setoriais criados dependerão de um novo governo que se instala a

partir de janeiro de 2019, no qual se deposita a certeza de sua operacionalidade adequada. Esses movimentos tão positivos e necessários para a estabilização nas regras de desenvolvimento do setor sucroenergético, na verdade, deixaram de ser ações pontuais de governo e passaram a ser expressos com políticas de Estado, dada a sua profundidade estruturante e a longevidade para a sua maturação e aferição de resultados. Foi a constatação da abrangência positiva econômica e social do setor sucroenegético, reclamada por muitos especialistas, a repercussão relevante no aumento do emprego a na circulação de renda no interior do País e o ressurgimento de uma importante e vigorosa cadeia produtiva, harmonizada com os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro nos Fóruns mundiais em defesa do meio ambiente, que exigiu a adoção de uma política de Estado voltada para o setor, só verificada no passado quando da criação do Proálcool. Agora, acolhe-se uma política que vai possibilitar a continuidade dentro da realidade econômica e de mercado atual e compatível com as exigências ambientais contemporâneas. Com esse contexto, há que se acreditar na sequência, pelo novo governo que se instala, das ações e das regulamentações pendentes que nortearão o RenovaBio, tanto no que se refere à amplitude possível nos critérios de acessibilidade, como na adoção de penalidades aos infratores compatíveis com a dimensão do programa. As declarações e os gestos do presidente eleito em favor do agronegócio, bem como os compromissos com a responsabilidade fiscal e a liberalidade no ambiente de negócios, permitem aferir que tudo que está por se consolidar no setor sucroenegético acontecerá no tempo e nos prazos necessários. “Agora” temos disponíveis os instrumentos requeridos para, junto com outras ações, estruturar de forma estável e duradoura essa atividade econômica que se insere de forma significante em qualquer planejamento que abrace políticas de Estado adequadas e contemporâneas. “Nunca” não deve sequer ser admitido por representar a negação a uma evolução de êxitos que penetram de forma ampla e abrangente no tecido econômico e social do Brasil. Tudo que está posto nos movimentos e programas envolvendo o setor sucroenergético em curso na esfera governamental, além do seu aspecto estruturante e longevo para nortear os necessários e prementes investimentos setoriais, consolida um debate que se estabeleceu com toda a sociedade civil organizada, representada pela academia, ONGs, especialistas, parlamentares, empresários, trabalhadores e investidores junto com o governo. Portanto “nunca” abandonar esse amplo e consistente esforço nacional. n

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produtor de açúcar, etanol e bioeletricidade

“O tempo faz mais convertidos do que a razão”

Thomas Paine

A tentativa de qualquer visão prospectiva do agronegócio canavieiro desde o segundo governo Lula vinha sendo uma missão impossível, dada a escuridão ou a espessa névoa que as políticas dos governos do PT impuseram ao setor sucroenergético nacional. Após o impeachment da Presidente Dilma, a luz volta a penetrar no ambiente escuro de Brasília com o governo Temer e, principalmente, com a elaboração e a aprovação da lei do RenovaBio. Aliás, o governo Temer será lembrado como a salvação da lavoura após intensa revoada de gafanhotos vermelhos arrasando as plantações. As eleições de outubro de 2018 foram, de fato, um novo despertar. Com elevada substituição do Legislativo, governadores de estado e do Presidente da República, o ambiente político no Brasil mudou completamente e de forma muito relevante. As reações no mercado são de retorno da confiança, e os indicadores macroeconômicos apontam isso. A natureza humana tem dificuldade em aceitar a sua rápida passagem pelo planeta e divide, sempre, seu tempo em passado, presente e futuro. Disse Einstein que 'a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente' na lógica da evolução inexorável da humanidade. "

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Caio Diretor do Grupo Alto Alegre

Há um raro e positivo cenário caso as ações levem às reformas essenciais apoiadas pelos candidatos eleitos. A construção do RenovaBio mostrou uma série de aspectos essenciais ao setor da biomassa energética, em que a ênfase na descarbonização dos combustíveis tem peso relevante, sempre na análise de todo o ciclo de vida do produto considerado. Criado com base em intensa interação público-privado, o RenovaBio consegue passar por todas as fases do processo democrático para chegar à promulgação da lei, em tempo que se pode considerar recorde e, mesmo assim, com muitas posições contrárias. A beleza do processo foi o enfrentamento técnico-econômico

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das questões todas, sempre mantendo a lógica que levou o apoio brasileiro ao chamado Acordo de Paris, visando à redução das emissões de carbono na produção. A natureza humana tem dificuldade em aceitar a sua rápida passagem pelo planeta e divide, sempre, seu tempo em passado, presente e futuro. Disse Einstein que “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente” na lógica da evolução inexorável da humanidade. O RenovaBio é, para o caso canavieiro, uma evolução admirável a uma lógica que passou, do “passado” ao “futuro”, por duas fases: a) Produtividade física + qualidade da cana + longevidade, que persistiu até 2018/19; b) Produtividade total dos fatores + emissão de carbono (a partir de 2020). A partir de 2020, haverá a evolução para que se chegue o mais rápido possível ao enquadramento de todos ao novo sistema, com as distribuidoras recebendo os CBIOs dos produtores auditados e qualificados em prêmios (ou não) e com o sistema financeiro viabilizando esses papéis no mercado.


Opiniões É claro que a valorização desses papéis e a estrutura toda terão tudo a ver com o sucesso dos biocombustíveis no grande e crescente mercado de combustíveis brasileiros. O ano de 2019 será, portanto, essencial. Será dele o restante da regulação do RenovaBio. Mas, junto com isso, há toda uma grande questão anterior e macro, que é a posição brasileira frente à nova realidade geopolítica mundial. Vale iniciar comentando a nova realidade da guerra comercial entre EUA e China e a posição brasileira; a volta do protecionismo que fragiliza a OMC, que é tão importante a países como o Brasil; a nova realidade dos preços do petróleo hoje, comandando o preço das commodities agrícolas e as ações que venham a manter esses preços do petróleo ao redor de US$ 70/barril, ou que possam reduzi-los; os limites do planeta e a crescente dependência global de alguns países com grandes possibilidades de expansão sustentada na oferta de alimentos e de energia renovável como o Brasil, na medida em que, na média, a produtividade agrícola global vem estagnada. Ao olharmos com foco no negócio canavieiro, há alguns pontos do “presente” que merecem comentários: a) Verifica-se o envelhecimento dos canaviais; b) Verifica-se perda de áreas; c) Queda, na média, da produtividade agroindustrial em relação há 10 anos; d) Elevado endividamento setorial (análise do Rabobank); e) Poucas unidades industriais com efetivo acesso ao crédito. Esses pontos permitem antever, no curto prazo, um processo de estagnação de oferta, independentemente de ser ou não um novo processo de consolidação setorial. A relevância do RenovaBio e de sua eficácia pode determinar, para o médio prazo, uma mudança importante no cenário produtivo: a) Recuperação da produtividade agroindustrial, com uso de tecnologias e administração eficientes da produção, além de um processo mais integrado das operações, com redução dos custos de produção; b) Implantação de novas tecnologias, com o uso integral da biomassa, novos cultivares e uso intensivo dos solos de forma mais sustentável e com melhorias na sua biodinâmica; c) Expansão da oferta de etanol de 1ª e 2ª gerações e valorização dos açúcares via agregação de valores. Esse cenário, positivo, acompanharia o crescimento da economia de cerca de 3% ao ano, apoiada pelo lançamento em escala de carros flexíveis híbridos, atendendo ao crescimento do ciclo Otto e uma entrada cada vez maior de irrigação mais tecnificada no setor canavieiro. As projeções do RenovaBio indicam, para 2028, ou seja, em dez anos, um crescimento de aproximadamente 30 bilhões de litros de etanol para 48 bilhões de litros, considerando, nesses dados da Unica, ganhos de produtividade agroindustrial canavieira, crescimento efetivo da oferta de etanol de milho e aumento na produção de etanol de 2ª Geração.

Por outro lado, o açúcar cresce, mas com perda no share global de oferta. O tamanho desse crescimento, sobre a base de 2018, seria de 4,92% ao ano. Esse cenário não será, no entanto, linear. Haverá um período de estagnação ou encolhimento para posterior crescimento. A visão otimista do RenovaBio é, no entanto, fundamental, pois traz incentivo à recuperação da produtividade, base para a capacidade competitiva da biomassa e aos investimentos fundamentais em pesquisa e desenvolvimento. De qualquer modo, os últimos 8 anos foram de estagnação de oferta e de perda da produtividade média do setor, como consequência dos erros das políticas setoriais e da condição da lavoura e das mudanças no processo de mecanização do plantio e da colheita. Sair dessa fase é urgente e requer um esforço que terá no RenovaBio importante mecanismo de mudança e estímulo. Um olhar ao passado mostra ciclos negativos do açúcar se revezando aos positivos (mais curtos) com a mudança introduzida no Brasil, na década de 1970, com o etanol carburante em larga escala. Depois de tantos anos, é o que salvou a lavoura canavieira em 2018 e, provavelmente, salvará em 2019. Os outros países canavieiros, com honrosas exceções, seguem com açúcar, mel residual e outros produtos de menor valor. Sobrevivem às crises com mecanismos de proteção ou de sustentação de seu mercado. Voltando à visão do passado, já vimos filmes parecidos antes, e sempre é bom torcermos pelo sucesso com os olhos ligados às ações do presente. As definições do novo governo com os apoios do Agro, com as reformas essenciais ao País (primeiro e urgente a Previdência, depois a Tributária, a Política e outros aspectos do Custo Brasil) serão um importante indicativo do que virá. De qualquer modo, vivemos uma primavera chuvosa, e se espera um verão quente em um El Niño com chuvas. Que a produção e a criação sejam contempladas também com políticas públicas ao “futuro”. Afinal, como disse Schopenhauer, “vista pelo jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve”. Os próximos 4 anos terão uma importância extraordinária para o Brasil se firmar como potência econômica, partindo com condições básicas positivas preparadas pelo governo Temer, como inflação e juros em condições favoráveis ao desenvolvimento sustentável. As reformas urgentes, a começar pela Previdência, serão imprescindíveis em 2019 e o RenovaBio também. As chances são grandes, mas deve-se lembrar de todas as dificuldades que se terá com um Congresso Nacional dividido e um novo governo sem grande experiência executiva. Afinal, como disse tanto tempo atrás Victor Hugo, nada neste mundo é tão poderoso como uma ideia cuja oportunidade chegou. n

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comercialiação e logística

Opiniões

o setor sucroenergético tem

pressa

Perdemos um tempo precioso em nosso País discutindo ideologias que não nos levaram a lugar nenhum e tiraram o nosso protagonismo como um País que ainda luta para se mostrar viável. Temos vários exemplos na nossa própria história de acertos e desacertos a que fomos submetidos, seja por pura inépcia ou enganação com propósitos outros, que atrasam em demasia a nossa necessidade de ajustar a nossa sociedade e corrigir as desigualdades geradas ao longo de tantos anos. Precisamos ajustar as nossas engrenagens e ter um projeto de País a ser desenhado, seguido e executado com urgência. O mundo não nos dará uma segunda chance de provarmos aquilo que sabemos e que temos muitas virtudes encobertas. O planejamento desse complexo processo tem uma chance de começar a ser executado. Estamos diante de um novo governo, que, embora não agrade a uma significativa parcela da população, foi eleito de forma democrática e tem todas as credenciais para governar para todos. Não temos tempo a perder, e a sua importância estratégica em um mundo globalizado, onde os fluxos de capitais

Precisamos ajustar as nossas engrenagens e ter um projeto de País a ser desenhado, seguido e executado com urgência. O mundo não nos dará uma segunda chance de provarmos aquilo que sabemos e que temos muitas virtudes encobertas. "

Tarcilo Ricardo Rodrigues Diretor da Bioagência

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se movem em megabytes, produzindo deslocamentos de mercados e de produções em velocidades nunca vistas, podem trazer o caos a diversos segmentos da economia, se não tivermos uma base bastante sólida e confiável. Países que priorizaram o planejamento estratégico, criando bons ambientes de negócios, respeito às regras de mercado e direcionando investimentos em infraestrutura, para atender não apenas às demandas atuais, mas capacitando-se a absorver significativos incrementos de fluxos comerciais, saem na frente. Sem as amarras ideológicas e um liberalismo de resultados, estaremos prontos para dar esse importante passo rumo ao mundo civilizado. O mundo está mais hostil do que há uma década. Novas lideranças mais conversadoras assumiram o poder e vão construindo seu mundo mais fechado e isolado. Perdemos algumas décadas de liberalismo econômico, que impulsionaram as principais economias na última década. A impressionante recuperação econômica dos Estados Unidos, impulsionada pela drástica redução dos


comercialiação e logística custos de energia, a existência de uma infraestrutura complexa e diversificada, capaz de absorver esse crescimento de forma segura, eficiente e econômica, que, somadas à oferta de mão de obra qualificada e centros de pesquisas de excelência privados e em universidades por todo o País, atraem vários e importantes segmentos industriais, ao mesmo tempo em que o País trava uma guerra comercial com seus principais parceiros. Tudo isso nos coloca em um caminho sem volta, pois sabemos o quanto estamos despreparados e suscetíveis às alterações de humores da economia mundial. Nossa atratividade se limita a poucos setores onde ainda somos competitivos. Um país com vocação para o agronegócio, que investiu em uma matriz de energia sustentável, não pode ser refém de uma possível volta de uma política de combustíveis equivocada, responsável pelo fechamento de dezenas de unidades de produção de açúcar e etanol no País, que deixou pelo caminho ganhos substanciais que poderiam ser revertidos para toda a sociedade. As condições econômico-financeiras do setor sucroalcooleiro, reflexos desse modelo anacrônico de gerenciamento de preços da gasolina, de alguns anos atrás, associados a anomalias climáticas sem precedentes na história recente, nos levou a uma estagnação da oferta de açúcar e etanol, que seguirá por mais alguns ciclos. Temos uma grande oportunidade com a aprovação do RenovaBio no ano passado, e a sua regulamentação quase toda completada neste ano. Dependemos do andamento desse projeto junto às esferas do poder federal para a sua efetiva implantação já no final de 2019. Muito foi feito, e deve-se dar o mérito à equipe do governo, principalmente do Ministério das Minas e Energia, que assumiu o projeto e o fez tornar-se realidade em um curtíssimo intervalo de tempo. Há muito ainda por fazer até a sua completa efetivação. O problema dos combustíveis é muito grave e importante, e o entendimento por parte da nova equipe de governo é fundamental para resolvermos todos os nossos gargalos. O País deverá voltar a crescer, e a demanda por combustíveis também deverá ter incremento significativo, pois estamos consumindo o mesmo volume de 5 anos atrás. Não temos as refinarias que precisaríamos ter para atender à totalidade da demanda, não só de gasolina, mas também de óleo diesel. E o setor sucroalcooleiro brasileiro, hoje, está processando cerca de 600 milhões de toneladas de cana, produzindo 32 milhões de m³ de etanol e pouco mais 28 milhões de toneladas de açúcar, e, mesmo com o mercado de açúcar em um de seus piores momentos, o direcionamento da cana à

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produção do adoçante é da ordem de 35%. A estagnação da produção de cana nos levará a preços mais remuneradores para o açúcar, proporcionando uma maior competição entre açúcar e etanol nos próximos anos, que poderá agravar ainda mais a oferta do biocombustível. Tanto o mercado de açúcar quanto o mercado de etanol têm em seus horizontes perspectivas de crescimento, sendo que a diferença é que, para o açúcar, não existe um limitador de preços tão expressivo como os preços da gasolina para o etanol. A equação é bastante complexa e requer uma visão de futuro e um projeto para o setor de combustíveis como um todo, e não enxergar o setor sucroalcooleiro como apenas um apêndice desse processo. Caso a demanda não seja suprida pelo setor, haverá a necessidade de se importar toda essa demanda adicional de combustíveis, compartilhando a limitada infraestrutura de importação e exportação de combustíveis líquidos, agravada pela enorme extensão territorial de nosso País, a consequência natural serão os aumentos dos custos e a desotimização de toda a cadeia. A importação de combustíveis é uma realidade nesse processo e também deve ser contemplada. Não podemos prescindir da importação de derivados e de etanol, e há uma urgente necessidade de uma legislação que harmonize e torne claras as regras para o abastecimento nacional. Precisamos de um modelo duradouro e eficaz. Deve haver um envolvimento da sociedade, de que se trata de algo bastante positivo para o País. O nosso setor tem uma capacidade enorme de gerar empregos diretos e indiretos, assim como toda a cadeia de abastecimento de combustíveis do País, e de incentivar o desenvolvimento de novas áreas de produção, para que possa desencadear o desenvolvimento de toda a indústria de combustíveis, em sua longa cadeia de suprimento. As relações com as diversas esferas de governo precisam ser efetivas. Há interfaces com os governos federal, estadual e municipal que interferem na atividade sucroalcooleira, em diversos níveis. A relação com o legislativo federal também é de suma importância para garantir políticas de Estado e não somente de governo. A política de combustíveis do País, e, no caso, a falta dela, poderá nos levar a um caos no abastecimento de combustíveis, com prejuízos enormes a toda a sociedade. Não temos, neste momento, novos projetos de usinas capazes de aumentar a oferta no curto prazo. O setor tem pressa e precisa de uma política duradora para voltar a investir e está preparado para isso. Não podemos ter um retrocesso em tudo que foi feito até agora, e, da mesma forma que para o País, é agora ou nunca mais. n


mercado futuro

Opiniões

mais Brasil e menos Brasília Em todo início de governo, as esperanças de dias melhores são renovadas, independentemente do setor da economia nacional em que se está inserido. Um sopro de otimismo alcança grande parte dos brasileiros que confirmaram nas urnas, com a eleição de Jair Bolsonaro, a necessidade imperiosa de mudanças no comando do País, após 16 anos de um governo de esquerda. Um viés liberal parece se aproximar das margens plácidas e, quem sabe, agora, acordar o gigante adormecido que permaneceu em berço esplêndido, apesar do aparelhamento do Estado impetrado pelo Partido dos Trabalhadores – PT, para transformar o Brasil em um país socialista. As malsucedidas experiências capitaneadas pelo presidiário Lula da Silva e seu poste Dilma Rousseff resultaram não apenas no encolhimento do PIB no biênio 2015/2016, de pouco mais de 7%, mas também em uma legião de desempregados que beira 13 milhões de pessoas, na falência das contas públicas e na estagnação do setor sucroalcooleiro.

Lula é um dos principais responsáveis pela expansão desordenada do setor sucroalcooleiro que embarcou na conversa fiada do então presidente no início de 2007, que dizia querer fazer do Brasil a Arábia Saudita dos Biocombustíveis. "

Arnaldo Luiz Corrêa Diretor da Archer Consulting

Lula é um dos principais responsáveis pela expansão desordenada do setor sucroalcooleiro que embarcou na conversa fiada do então presidente no início de 2007, que dizia querer fazer do Brasil a Arábia Saudita dos Biocombustíveis. Nessa mesma época, já preparando a cama de faquir onde o setor mais tarde se deitaria, Lula elogiava o fato do então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, “vender gasolina mais barata a países pobres”. No final da safra 2006/2007, o etanol combustível representava 1/3 de todo o consumo do ciclo Otto no Brasil. A sinalização dada pelo Governo Federal de fazer do Brasil o maior produtor de etanol provocou

uma explosão de investimentos no setor e, em três anos, o País passou de uma moagem de 425 para 602 milhões de toneladas de cana, um acréscimo anualizado de mais de 12%. Os estados de Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Minas representavam 40% desse acréscimo. No final de 1989, o etanol respondia por 48,4% de todo o consumo do Ciclo Otto no Brasil. O início da expansão do setor sucroalcooleiro coincidiu com as primeiras descobertas no litoral brasileiro de reservas petrolíferas, que passaram a ser conhecidas como pré-sal. Enquanto isso, o preço do petróleo no mercado internacional batia novos recordes em meados de 2008, atingindo perto de 150 dólares por barril. Não seria esse o momento de o setor beneficiar-se do etanol bem remunerado, aproveitando a alta recorde do petróleo? Não, o produtor de etanol não se beneficiou em nenhum centavo de dólar, muito pelo contrário.


mercado futuro Ao invés disso, o governo socialista do PT manteve o preço da gasolina para o consumidor praticamente congelado, com vistas ao crescimento da venda de veículos leves. O setor automobilístico vivia em "lua-de-mel" com o governo petista e recebia isenções fiscais que fomentaram a venda de veículos populares e fez dobrar o licenciamento no período de apenas 4 anos. Com a política de preços dos combustíveis comandada pela dupla Lula-Dilma, o PT sangrou o caixa da Petrobras, anulou a competitividade do etanol e inaugurou a temporada de endividamento do setor que, no final de outubro de 2018, segundo cálculos da Archer Consulting, estava em R$ 95 bilhões. Gasolina subsidiada e etanol sendo forçosamente vendido abaixo do custo de produção foram ingredientes básicos para o início da derrocada do setor. Dilma nunca nutriu nenhum apreço pelo setor. Chegou, ainda no primeiro mandato, com a determinação e a convicção que só os idiotas possuem, a deixar claro para as principais entidades do setor com quem ela estaria disposta a receber para dialogar, numa expressa manifestação do autoritarismo típico das ditaduras com as quais o PT tanto se identifica. A desastrosa política de formação de preços levada adiante pelo PT foi a principal causa de o Brasil ficar estagnado na produção de cana há mais de uma década. Após ter contribuído com quase a metade de todo o combustível consumido no País no final de 2009, o combustível renovável viu sua parcela de contribuição cair dezessete pontos percentuais, alguns anos depois. Quanto isso representou de perda de fatia de mercado e receita para o setor? Apenas no governo Dilma, apuramos que a indústria sucroalcooleira perdeu R$ 48 bilhões em receita. Sem contar a perda de fatia de mercado no exterior pela estagnação da produção de cana, nem a criação de empregos que foram ceifados por essa restrição. Assim, quando nos vemos à porta de um novo governo com caráter liberal, tudo o que se pode desejar é que Bolsonaro cumpra o mote que criou, ou seja, “mais Brasil e menos Brasília”, ou seja, que o Estado intervenha o mínimo possível. A indústria já mostrou, quando foi convocada, que tem condições de entregar o que dela se demanda. No entanto, não tenho dúvidas de que grande parte do endividamento de quase R$ 100 bilhões que amarga o setor é função direta da intervenção populista de Lula e sua camarilha. No futuro, o empresariado tem que ser firme com atitudes governamentais de viés intervencionista. As usinas se calaram, ficaram acuadas e deixaram o governo petista fazê-las de gato e sapato e agora pagam o alto preço dessa omissão. Nenhum governo tem o direito de obrigar produtores a venderem seus produtos abaixo do custo de produção em função, não das forças de mercado (oferta e demanda), mas por pura manipulação ou favorecimento a outra indústria (automobilística). Tem que se dar um basta a isso.

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O setor sucroalcooleiro tem uma grande chance de recuperação para os próximos anos. No entanto, para sua efetivação, temos que crer na esperada estabilização da economia, na resolução da crise fiscal e no crescimento vigoroso do PIB no governo Bolsonaro. Alguns eventos poderão contribuir para a melhora significativa do atual cenário: a) O consumo de combustíveis (gasolina equivalente) caiu 3,5%, alimentado principalmente pelo disparo do preço do petróleo lá fora e pela desvalorização do real, que chegou a quase R$ 4,20; existe, portanto, um aumento no consumo represado por essa razão, mas que agora poderá ser retomado pelo derretimento do preço da gasolina no mercado internacional durante o início do mês de novembro, que pode fazer com que o preço ao consumidor caia tão rapidamente como subiu; b) Além disso, a melhora da economia deve colocar mais 2,5 milhões de veículos leves na frota brasileira por ano já a partir de 2019. Descontada a taxa de sucateamento da frota, são quase 3 bilhões de litros a mais de consumo; c) A fatia de mercado que o etanol ganhou na recente alta da gasolina pode permanecer por mais tempo. O caminho de volta é mais lento, e o setor deve vender mais hidratado nos próximos anos; d) Existe também um consumo represado de alimentos industrializados (biscoitos, pães, doces, etc.) e bebidas (refrigerantes, cervejas, etc.). O Brasil não tem cana suficiente para atender à demanda represada que pode estourar nos próximos anos, tampouco existe tempo hábil para a expansão canavieira que solucione esse problema. Apenas para o consumo de combustíveis, nossa estimativa é que, no ciclo de seis anos (da safra 2019/2020 até a 2024/2025), vai existir um déficit total de 58 bilhões de litros no período, algo como 10 bilhões de litros por ano. Isso é o equivalente a se plantar agora 110 milhões de toneladas de cana que serão incorporadas ao volume atual e permanecem pelos próximos seis anos. Improvável, certo? Dessa forma, a solução da equação é preço. Os preços deverão refletir esse déficit. Mas o setor precisa de uma política de formação de preços de combustíveis duradoura. Tem que haver segurança jurídica por parte de possíveis investidores de que o preço dos combustíveis esteja em linha com os preços praticados no mercado internacional, com isso eles podem usar instrumentos de proteção (futuros e opções), mitigando riscos e travando rentabilidade. Há necessidade de que se permita a livre importação e exportação de etanol, desde que se aproveitem janelas de oportunidade não coincidentes com início de safra. Protecionismo em commodities tem se provado menos eficiente no longo prazo. Mercado livre abre para o Brasil oportunidades lá fora beneficiadas pelo menor custo de produção que possui em relação aos concorrentes. n


governo federal

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“gente besta e pau torto é trem que nunca acaba!” Manoel de Barros

De acordo com o dicionário Houaiss, empreendedorismo significa a disposição ou capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços, negócios, ou ainda, a iniciativa de implementar novos negócios ou mudanças em empresas já existentes, geralmente com alterações que envolvem inovação e riscos. A palavra-chave aqui é “riscos”. O empreendedor sabe que os riscos são inerentes à sua tentativa de mudar a realidade. Podemos imaginar, por hipótese, uma inovação extremamente bem planejada, coordenada e fundamentada em recursos disponíveis, e, mesmo assim, sua implantação implicará riscos para o gestor ou para o dono do negócio.

Quero registrar aqui o meu testemunho e o reconhecimento a todos esses (a quem me acostumei a chamar de 'irmãos') que se juntaram a nós nesse processo! "

Miguel Ivan Lacerda de Oliveira Diretor do Dpto. de Biocombustíveis da Secretaria de Petróleo e Gás de Ministério de Minas e Energia

Além dos riscos, a natureza do verdadeiro empreendedor é também enfrentar as resistências e o ceticismo dos críticos. Posso afirmar com toda a convicção: o mesmo acontece quando se empreende uma política pública transformadora. O RenovaBio é um desses exemplos. Desde a formulação dessa ideia, em seu início, as resistências e o ceticismo em relação à sua viabilidade, por parte dos mais variados agentes, governamentais e não governamentais, foram gigantescos. O RenovaBio, de fato, assustou a muitos por sua complexidade. O desafio era “simples”: construir uma política pública que pudesse realizar a expansão sustentada da oferta de biocombustíveis, valorizando-os na matriz energética, dando previsibilidade no médio e no longo prazo para os investimentos, induzindo a eficiência no processo produtivo e com a maior retenção possível de CO2 por unidade de energia.

O maior problema enfrentado para o desenho dessa política eram as restrições que a situação fiscal do País impunha (e impõe até hoje). Ou seja, o RenovaBio não poderia ser um programa de concessão de subsídios, não poderia aumentar a tributação sobre os combustíveis, não contaria com recursos orçamentários e tampouco poderia conceder créditos presumidos para qualquer etapa da produção ou comercialização de biocombustíveis. Por conta dessa complexidade, aliada às restrições impostas pela realidade, os críticos e os céticos encontraram terreno fértil. Para eles, seria impossível construir um programa com aquele propósito e com esses entraves que todos conhecemos.


governo federal No começo, pelo fato de o programa depender de uma lei para sua criação, os críticos apostaram que o RenovaBio não conseguiria apoio suficiente para sua aprovação. Em menos de um ano e com tramitação em tempo recorde nas duas casas legislativas, a Lei 13.576 foi aprovada e sancionada em dezembro de 2017. Depois, os céticos duvidaram de que se conseguiria, em tempo hábil, aprovar um decreto que regulamentasse o programa. Em março deste ano, o Presidente da República assinou o decreto em evento, no qual foi categórico ao destacar a importância daquele ato em seu governo. Continuando com sua cantilena, os críticos também duvidaram de que seria possível aprovar, no Conselho Nacional de Política Energética – CNPE, as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa no prazo estipulado pelo legislador. Por uma feliz coincidência, após exaustivo trabalho dos integrantes do Comitê RenovaBio, o CNPE aprovou exatamente no Dia Internacional do Meio Ambiente a Resolução que estabeleceu as metas do programa para os próximos dez anos. Quero que o leitor perceba que o “empreendedor”, nesse caso, foram todos aqueles agentes, governamentais e não governamentais, que acreditaram no RenovaBio e que se engajaram ao longo de toda essa trajetória. São todos eles “empreendedores” que tiveram a coragem necessária, mesmo sabendo que, sempre, enfrentariam a resistência. Foi exatamente por conta dessa disposição interior que pudemos trilhar um longo caminho, do qual percebo de que todos se orgulham. E o que já foi feito? Para a melhor compreensão, separei a construção do RenovaBio em quatro grandes áreas: 1. Regulação: O RenovaBio precisa de uma regulação de seus instrumentos e processos. Os atos regulatórios que competem à Agência Nacional do Petróleo estão praticamente completados. Falta estabelecer as regras que serão aplicadas para o desdobramento das metas nacionais em metas individuais para os distribuidores. 2. Modelo econômico: O RenovaBio precisa de uma ferramenta para estabelecimento das metas e para avaliação dos impactos do programa de acordo com os objetivos que o legislador elegeu como prioritários. O decreto assinado em março instituiu o comitê e a governança do programa para estabelecimento das metas. Dessa forma, o modelo foi concebido como ferramenta de gestão e que evidencia a importância do setor para o mercado de combustíveis. Ficou provado que, se não houver política específica para indução de

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Opiniões ganhos de eficiência e para a retenção de carbono na matriz de combustíveis, haverá redução progressiva da oferta de biocombustíveis no País. 3. Análise do ciclo de vida e certificação individual da produção: No início, se pensou que a construção de uma calculadora para avaliação da pegada de carbono dos biocombustíveis seria impossível de ser construída. Com a dedicação da equipe técnica coordenada pela Embrapa, Unicamp, CNPEM/CTBE, Instituto Agroícone, conseguiu-se terminar a calculadora. Falta apenas a aprovação em regulamento pela ANP, mas a parte técnica está concluída. Temos, hoje, uma ferramenta brasileira, construída por pesquisadores brasileiros, considerando as peculiaridades do País, mas todo esse processo sofreu muitas críticas. 4. CBIO: Instrumento financeiro que monetiza as externalidades da produção e o uso dos biocombustíveis em relação ao concorrente fóssil. O CBIO representa uma mudança no tratamento do serviço ambiental prestado pelo agronegócio brasileiro para toda a população e também para a indústria dos combustíveis fósseis. É o reconhecimento da importância da produção agrícola na retenção de CO2, e é a partir dessa retenção que será possível compensar os impactos das emissões de combustíveis derivados de petróleo. É reconhecer a importância do fenômeno de retenção de CO2 realizada pela planta em seu ciclo. A construção do ativo financeiro já está bastante adiantada em sua articulação, com o apoio da CVM, do Bacen, da Ambima, da Febraban, da B3 e do LAB. Uma grande parte da regulamentação já está quase pronta, faltando alguns detalhes. Em resumo, muito do caminho foi trilhado com o apoio incansável de verdadeiros empreendedores que se uniram para construir uma saída. Não há nada de novo em relação ao ceticismo e às críticas que o RenovaBio enfrenta. É a mesma realidade de todo empreendimento ousado enfrenta em seu nascedouro. Quero registrar aqui o meu testemunho e o reconhecimento a todos esses (a quem me acostumei a chamar de “irmãos”) que se juntaram a nós nesse processo! Para encerrar, gostaria de mencionar também os inúmeros comentários de especialistas oriundos de outras áreas do setor energético que, ao conhecerem em detalhes o RenovaBio, manifestam espontaneamente que seu mecanismo também se aplicaria com pequenas adaptações. A eles, queria dizer duas coisas: primeiro, que estamos juntos; e, em segundo lugar, parafraseando o poeta Manoel de Barros, avisar que se preparem, porque “Gente besta e pau torto é trem que nunca acaba!”. n

V


VV

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o Brasil em recuperação O Presidente Michel Temer conviveu durante boa parte do seu governo com baixos índices de aprovação popular, mas a realidade é que, com uma agenda reformista, assumiu a condução do País em uma de suas mais graves crises. Juros em alta, inflação fora de controle, governo dando calote a fornecedores e empresas; muitas quebraram. Um País que convivia com uma legislação trabalhista arcaica e desatualizada, desconectada com os tempos modernos. Com serenidade, montou uma equipe competente em suas principais áreas. Estabilizou a economia, diminuiu os juros, domou e reduziu drasticamente a inflação. Conseguiu aprovar a Reforma Trabalhista, a PEC do Teto dos Gastos, o REFIS, a Reforma da Educação no segundo Grau, a Renegociação da Dívida dos Estados, promoveu a diminuição de ministérios e dos cargos de confiança e muitas outras realizações.

Com o RenovaBio e o Rota 2030, na área automotiva, programas que são verdadeiros irmãos siameses, pois se complementam, o Brasil faz história e serve de referência internacional na área de energia e mobilidade ”

Plinio Mário Nastari

Presidente da Datagro e Representante da Sociedade Civil no CNPE, Conselho Nacional de Política Energética

Mas, dentre elas, destacam-se os feitos na área de energia. Sob a coordenação e liderança do deputado Fernando Coelho Filho, ex-Ministro de Minas e Energia, posição em que presidiu o Conselho Nacional de Política Energética, com diálogo, responsabilidade e participação de todos os setores

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econômicos envolvidos, foram retomados os leilões de concessão e de partilha de petróleo e definidas condições confiáveis e de segurança regulatória e legal para a retomada de investimentos privados. Com os leilões aprovados pelo CNPE, e executados com competência e independência pela ANP, até 2026 o Brasil deve passar de 9º para 4º maior produtor de petróleo do mundo, ao elevar a extração de petróleo de 2,6 para 5,5 milhões de barris por dia (bpd). Pelo menos, uma grande empresa mundial de petróleo previu recentemente que, até 2030, o Brasil deverá exportar cerca de 7 milhões bpd, o que significa produzir cerca de 10 milhões bpd. Foram construídas as bases para a reconstrução do setor de gás natural, a retomada do setor de distribuição de energia elétrica, da promoção da energia eólica e fotovoltaica, dos investimentos em energia nuclear e, finalmente, a sua maior obra: a formulação, a aprovação de diretrizes e a aprovação do RenovaBio – o Plano Nacional de Biocombustíveis, que, pela primeira vez


Opiniões na história, cria uma referência futura sobre o tamanho do mercado à frente. Sem subsídios e sem criar um novo imposto sobre o carbono. Simplesmente, criando um programa de certificação de eficiência energética e ambiental, para promover ganhos de produtividade, redução de custo e redução de preço ao consumidor, para que sejam atingidos os objetivos e compromissos do Brasil no Acordo do Clima. Foram tão expressivos os apoios, que o projeto de Lei do RenovaBio foi aprovado em regime de urgência por 299 votos a favor e apenas 9 votos contra e foi aprovado no Senado por aclamação. Tudo isso em menos de um mês. O RenovaBio foi um projeto construído com amplo diálogo junto a todos os segmentos da sociedade. Recebeu o apoio da Petrobras, das companhias distribuidoras de combustíveis, da Anfavea, da Abimaq, de várias Associações Comerciais, de inúmeras Federações de Indústrias, da CNI, CNA, do Fórum de Secretários de Estado da Agricultura, de fóruns de Prefeitos e de inúmeros parlamentares nas esferas federal e estadual. Esses apoios resultaram em 54 manifestações de apoio encaminhadas à Presidencia da República e ao Ministério de Minas e Energia. As metas de redução de intensidade de carbono no setor de energia em transporte aprovadas pelo CNPE em 5 de junho último, Dia Mundial do Meio Ambiente, confirmaram o compromisso com as metas assumidas pelo Brasil no Acordo do Clima de Paris. Com o RenovaBio e o Rota 2030, na área automotiva, programas que são verdadeiros irmãos siameses, pois se complementam, o Brasil faz história e serve de referência internacional na área de energia e mobilidade, o que tem sido comprovado pela adesão internacional e o reconhecimento alcançados através da Plataforma para o Biofuturo. O RenovaBio não se refere apenas ao etanol, mas também ao biodiesel, ao biogás, ao biometano e ao bioquerosene. Através dos biocombustíveis, complementa e dá longevidade e sustentabilidade para o aproveitamento de nossas extraordinárias reservas de petróleo e de gás. Valoriza a engenharia automotiva nacional com uma visão moderna e eficiente, do ponto de vista energético, ambiental e econômico, e de mobilidade para o consumidor. Confere, pela primeira vez, a meritocracia na produção e na valorização dos biocombustíveis, sem eleger previamente campeões, deixando ao mercado valorizar e precificar o esforço de cada um.

É crescente o reconhecimento do papel da bioenergia e dos biocombustíveis para o controle do aquecimento global. A Agência Internacional de Energia (IEA) prevê que a demanda de petróleo, atualmente no patamar de 102 milhões de bpd, deverá crescer em torno de 1 milhão bpd a cada ano, até 2025, desacelerando para 0,25 milhão bpd a cada ano, até 2040. A demanda por petróleo e por derivados advinda de veículos leves deve se manter estável, puxada pelo consumo crescente em países emergentes, e decrescente em países desenvolvidos, pelo aumento de eficiência e pela parcial eletrificação da frota. No entanto a IEA enxerga os carros elétricos reduzindo a demanda de petróleo em apenas 3,3 milhões de barris por dia até 2040. Ainda assim, a demanda crescerá com base na indústria petroquímica, no transporte de cargas, através dos caminhões pesados, na aviação, no transporte marítimo e na indústria. Nesse sentido, fica mantida a necessidade de expansão de fontes de energia limpas e renováveis para limitar o aquecimento global a, no máximo, 2 ºC até 2050. O RenovaBio não é uma panaceia que irá resolver, de imediato, os problemas do setor de etanol e de açúcar gerados por anos de desajuste. Não basta em si mesmo. Para que seja eficaz, pressupõe a presença de realismo nos preços de derivados, o que, aparentemente, está preservado na agenda do próximo governo. A vacina contra a volta da intervenção de preços, que trouxe consequências nefastas para a Petrobras e para o setor de etanol, é a privatização de parte do parque de refino. Detendo 98% da capacidade de refino, a Petrobras é presa potencial de governos que não tenham uma visão liberalista. Essa foi a conclusão do Grupo de Trabalho 9M, criado pelo CNPE em dezembro de 2017, para sugerir medidas para estimular o investimento privado em refino. O setor de biocombustíveis e de etanol em particular tem um histórico virtuoso. Desde 1975, o etanol já substituiu 2,82 bilhões de barris de gasolina, o que não é pouco num país que tem reservas provadas de petróleo e de condensados, incluindo o pré-sal, de 12,835 bilhões de barris. Desde 1975, realizou economia com a gasolina substituída valorizada pelo seu preço no mercado mundial, de US$ 430,5 bilhões, considerando o custo da dívida externa evitada, um feito e tanto, considerando as reservas externas do Brasil pelo conceito de liquidez internacional, de US$ 381,13 bilhões na primeira semana de novembro de 2018. Com diversificação crescente e maior eficiência, o setor de açúcar e de etanol entra numa nova fase virtuosa, em que deve contribuir cada vez mais para o futuro da energia em nosso País. n

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consultoria agrícola

vamos precisar de mudanças

significativas

Nenhum outro setor da economia nacional é tão atrelado e dependente do Governo Federal e de sua gigante estatal Petrobras como o setor sucroenergético, que possui apenas três produtos finais, dos quais etanol e energia elétrica estão presos a políticas de preços ou a marcos regulatórios. Somente o açúcar tem mercado totalmente livre para comércio no País, porém cerca de 65% dessa produção é destinada à exportação. Mesmo para esse produto, há muitas barreiras e políticas protecionistas pelo mundo afora que precisam ser enfrentadas frequentemente. Em passado recente, o governo, através de uma desastrosa política de preços para os combustíveis e para a energia elétrica, simplesmente descontrolou o mercado, ajustando os preços e as tarifas à sua revelia. Com isso, o etanol mergulhou em uma profunda crise de preço que permaneceu congelado por mais de quatro anos, e os valores de MWh da energia elétrica foram arbitrariamente reduzidos para fins político-eleitorais.

Há condições de viver sem as relações com o Governo Federal? Neste momento, as respostas serão apenas elucidativas e genéricas, mas uma coisa é certa: o setor deve se preparar para uma significativa mudança que, certamente, virá. '"

Dib Nunes Jr. Presidente da IDEA

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Aliás, toda a economia sofreu com intervenções. Depois disso, o próprio governo tentou consertar a anômala situação que ele mesmo criou com uma brutal recessão, e foi aí que o setor sucroenergético afundou de vez. A desaceleração da economia causou uma grande queda no consumo de energia elétrica, que derrubou os preços e desestimulou novos investimentos. Para piorar, o mercado internacional do açúcar apontou superávits seguidos que derrubaram os preços e levaram o setor sucroenergético de vez para o fundo do poço. Mais de 70 usinas fecharam as portas e, pelo menos, 82 entraram em recuperação judicial. Com a eleição de Jair Bolsonaro, parece que o mercado vai se livrar das políticas intervencionistas e protecionistas. Tem-se aí, portanto, uma grande incógnita, mas também uma enorme oportunidade para repensar o setor. As principais questões que surgem neste momento são:


Opiniões como uma política liberal poderá afetar o setor sucroenergético? Há condições de viver sem as relações com o Governo Federal? Neste momento, as respostas serão apenas elucidativas e genéricas, mas uma coisa é certa: o setor deve se preparar para uma significativa mudança que, certamente, virá. Acreditamos que a Petrobras se tornará mais competitiva e disputará com o etanol o mercado dos combustíveis, e, nesse caso, corre-se o risco de concorrer com uma gasolina bem mais barata. Também há o risco de estimularem novos produtos concorrentes, como o crescimento de oferta do próprio GLP, cujas reservas na bacia de Santos são imensas. Automóveis movidos a eletricidade já são uma realidade, e essa tecnologia deverá ganhar força no Brasil, principalmente depois que foi aprovado o projeto Rota 2030, com enormes incentivos para o setor automobilístico. É claro que, nesse caso, o setor precisa lutar pelo carro híbrido (etanol + energia elétrica), cuja tecnologia já está prontinha para ser utilizada. Aliás, não entendo por que tanto incentivo no Rota 2030 para pesquisar o que já está pesquisado e pronto. Enfim... No entanto percebe-se que o maior desafio do setor será correr atrás de produzir o etanol bem mais barato do que se produz atualmente, cujo valor médio por litro já alcança R$ 1,80. A política de preços da gasolina, atrelada ao preço internacional do petróleo, criada para cobrir os rombos deixados pela corrupção na Petrobras, por enquanto, está favorecendo o etanol, pois o petróleo está em alta, e os aumentos sucessivos dos preços da gasolina tornaram o etanol mais atraente ao consumidor e também ajudaram a reduzir a defasagem preexistente. Por outro lado, o setor sucroenergético precisa lutar para emplacar o RenovaBio, que pode dar vida própria ao etanol, tendo que considerar, até mesmo, a possibilidade de distribuição direta para o varejo. O ajuste a um livre mercado totalmente desregulamentado será necessário. Deve-se estudar, inclusive, a possibilidade de entrar “de cabeça” no mercado de combustíveis e atuar em toda a cadeia, como faz hoje o Grupo Raízen, por exemplo, ou a Glencore, que acaba de adquirir a ALE, que é uma significativa rede de distribuição e de varejo, com mais de 1.500 postos de serviços. Mas, para a real sobrevivência do setor, isso não basta. Será preciso um profundo ajuste no modus operandi de produzir cana, açúcar e etanol. O desafio é aumentar a competitividade. Para tanto, surgiram várias alternativas, como a produção de etanol do milho integrada

à produção de cana; o uso da cana-energia, que quase dobra a produção de açúcares fermentescíveis por unidade de área ou aumenta em 50% a oferta de bagaço para geração de energia elétrica; o aproveitamento racional de resíduos da agroindústria para a produção de biogás também deve ser considerado, cuja tecnologia está totalmente dominada e disponível ao setor; redução das perdas; encurtamento da safra, concentrando-a nos melhores períodos; redução de distâncias e do custo dos arrendamentos de terras, e, sobretudo, ajustamento no sistema produtivo para melhorar as produtividades agrícolas. Tudo isso deve fazer parte da nova pauta do setor. Parte significativa do faturamento com o açúcar, por exemplo, deveria ser oriundo de produtos com maior valor agregado, abrindo um enorme espaço para novos projetos, joint ventures e investimentos na indústria de transformação de alimentos. A produção de plástico biodegradável é outra excelente alternativa para diversificação. Isso sem mencionar a urgente necessidade de substituir os mais de três bilhões de litros de gasolina que são importados anualmente pelo Brasil; além disso, deve-se criar uma política energética mais consistente e duradoura, prevendo o aproveitamento de toda a potencialidade de crescimento da produção de cana e de etanol. Para atingir esses objetivos, o Acordo de Paris precisará ser cumprido e levado a sério. Hoje, ainda temos inúmeras ineficiências e gargalos. O setor está endividado e combalido com tanta crise sobre crise, mas ainda está de pé, resistindo bravamente, à espera de dias melhores e de mudanças significativas que atraiam investidores e novos negócios. A nova mudança na política econômica que o governo Bolsonaro implantará no Brasil, dependendo da dose em que for aplicada, vai obrigar o setor a repensar, de maneira radical, todo o seu sistema produtivo. Entretanto todas as mudanças já prometidas pelo novo governo apontam para mais um choque ao setor, exigindo mais do que criatividade: vai exigir fortes parcerias internacionais para uma nova era de investimentos e incorporação de tecnologias inovadoras. Mais do que apenas sobreviver, o setor sucroenergético precisa, urgentemente, realizar mudanças e buscar novos produtos para agregar valores que tragam melhores margens e, principalmente, buscar vida própria num mercado cada vez mais competitivo e, certamente, mais liberal. n

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Opiniões

tempo de esperança e entusiasmo Os primeiros passos do governo Bolsonaro nos enchem de esperança, chegam a ser entusiasmantes. Graças a Deus, os anos de chumbo da Sra. Dilma, candidata a senadora derrotada em Minas Gerais, são páginas viradas e fazem parte de um triste e negro passado. Temer, apesar do pouco tempo, já fez um pedaço da faxina nas estrepolias econômicas do lulopetismo. No novo governo, só para ficar nos ministérios mais ligados ao setor sucroenergético, a escolha da Ministra da Agricultura, brilhante deputada Tereza Cristina, foi perfeita, não cedendo nosso presidente à pressão do seu retrógrado e barulhento amigo. Espero que tenhamos na Minas e Energia alguém que dê prosseguimento ao trabalho fantástico realizado por Fernandinho Coelho e seu dream team. Com esse pano de fundo, podemos esperar no que toca a políticas públicas para o setor o que pode haver de melhor. Apesar de uma parte das empresas estar em frangalhos, não temos dúvida de que, com a economia brasileira retomando seu crescimento mais de acordo com seu potencial e com um cenário de preços mais positivos para o açúcar, como apontam os próximos dois anos, com o setor voltando a dar taxas de retorno mais compatíveis com seu custo de capital e risco, com a manutenção das regras transparentes de formação de preços dos combustíveis no mercado interno, com a privatização de parcela significativa do parque de refino da Petrobras e com implementação do RenovaBio, o setor irá retomar a rota do crescimento. Não aquele crescimento destrambelhado e desorganizado da década passada, que transformou o setor num gigante com os pés de barro e fez com que perdêssemos competitividade e aumentássemos nossos custos de forma acentuada e aproximou nossos custos de produção de nossos maiores competidores. Queremos um crescimento sustentável e com enorme qualidade. Para isso, sem dúvida, além das políticas públicas corretas, um processo consolidatório se faz necessário. Processo no

qual aquelas empresas que souberam superar a crise, mostrando uma incrível resiliência e adaptação aos novos tempos e que gerem seus negócios com alto grau de profissionalismo e que, mesmo nesses anos de crise, conseguiram apresentar razoável rentabilidade e até dar lucro na última linha do balanço. Elas irão absorver principalmente ativos biológicos e alguns ativos industriais daqueles que não têm mais forças para prosseguir, abatidos que foram pelos erros de políticas públicas dos anos PT, por sérios problemas operacionais, investimentos malfeitos em ativos com baixa taxa de retorno, que não souberam se adaptar aos novos tempos, que sofreram por falta de profissionalismo de gestão e de ausência de planejamento sucessório, o que os levou a se atolarem em dívidas, que são uma consequência de tudo isso. Será uma seleção natural das mais justas, correta e saudável que contribuirá decisivamente para reerguer um setor, tornando-o mais robusto, competitivo e resiliente, à altura dos desafios que um programa audacioso como o RenovaBio impõe e das metas que o País almeja em termos de produção de fonte renovável de combustíveis. Capital não vai faltar, pois é a mercadoria mais abundante neste mundo capitalista. Que venham bons projetos assentados num modelo de negócio correto, com gente competente tocando. Tenho a honra, hoje, de participar como consultor da equipe da XP, que tem feito uma série de emissões de CRA exitosas para o setor. Raízen, São Martinho, Jalles Machado, Guarani, Coruripe, Batatais, CMAA, Santo Ângelo, etc. Que venham muitas outras - e virão. Conseguimos, finalmente, fazer a ponte, através do CRA, entre o agronegócio e o mercado de capitais, como desejava o ex-ministro Roberto Rodrigues e sua equipe, criadora dos títulos do agronegócio. Fora o mercado de dívida, sentimos o investidor desejoso de outras São Martinho, empresa puro-sangue sucroenergético, que tem proporcionado bom retorno àqueles investidores que carregam seus papéis. Enfim, novos tempos, tempos de construção, tempos de crescimento, de geração de riqueza, de emprego, em lugares longínquos deste País. n

Capital não vai faltar, pois é a mercadoria mais abundante neste mundo capitalista. Que venham bons projetos assentados num modelo de negócio correto, com gente competente tocando. "

Alexandre Enrico Silva Figliolino

Consultor-sócio da MB Agro e Consultor da XP para agronegócio


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operações de mercado de bioeletricidade

a expansão da bioeletricidade na economia de baixo carbono Para reduzir emissões de poluentes globais, em linha com o compromisso acertado no Acordo de Paris, o governo brasileiro sancionou, em dezembro de 2017, a Lei n° 13.576, que criou a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), estabelecendo um instrumento de mercado para cumprir metas ambientais. A legislação abre oportunidades para as usinas ampliarem seu retorno, aplicando recursos em geração de energia elétrica a partir da biomassa da cana-de-açúcar, por exemplo. Uma das novidades é que as distribuidoras de combustíveis terão que adquirir créditos de descarbonização (CBIOs) de produtores de álcool para mitigar suas emissões de combustíveis fósseis.

a potência instalada do setor sucroenergético é de 11.361 MW, representando em torno de 7% da potência outorgada no Brasil. Para efeito de comparação, esse volume é superior à capacidade da usina Belo Monte (11.233 MW). "

Karin Regina Luchesi

Vice-presidente de Operações de Mercado da CPFL Energia

Quanto mais sustentável for a produção, maior será o prêmio adicional pago. Ou seja, uma usina que só produz etanol de primeira geração tem um prêmio menor do que aquela que, por exemplo, também produz biocombustível a partir de segunda geração, que é obtido do aproveitamento dos coprodutos da cana-de-açúcar (palha e bagaço) usados no processo tradicional de fabricação de etanol e de açúcar.

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O governo trabalha na finalização da resolução que regulamentará exigências e critérios para certificação de emissores primários e na calculadora da intensidade de carbono da produção de biocombustíveis. O documento já passou por consulta e por audiência públicas. Em seguida, será elaborada minuta de resolução sobre a individualização, por distribuidora, das metas compulsórias. Ao premiar a eficiência, os CBIOs devem estimular as usinas a investirem na substituição de caldeiras antigas por mais eficientes, com a consequente oportunidade para a bioeletricidade ganhar mais espaço. O setor sucroalcooleiro teve crescimento acelerado a partir de 2003, seguindo a tendência de aumento do preço do petróleo somada à popularização do carro flex. Esse momento coincidiu com o aumento da oferta de bioeletricidade, a partir de cana, para o setor elétrico.


Opiniões Até 2003, quase toda a bioeletricidade gerada pelo bagaço da cana era destinado ao autoconsumo das unidades produtoras. A partir de 2004, com a oportunidade de comercialização da energia nos leilões promovidos pelo Governo Federal, houve crescimento significativo da exportação de energia para a rede. Em 2016, aproximadamente 60% da eletricidade gerada pelas usinas de açúcar e álcool foi exportada para o Sistema Interligado Nacional, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Há potencial para crescer ainda mais: além dos incentivos criados pelos CBIOs, que premiarão as usinas mais eficientes, as oportunidades em bioeletricidade estão na potencial expansão do mercado livre e na diversificação da matriz elétrica. O mercado livre, que tem crescido com vigor desde 2015, quando pouco mais de três mil empresas optaram pela liberdade de escolha do fornecedor de energia, e hoje responde por cerca de um terço do consumo do País, deverá ganhar novo alcance com o Projeto de Lei (PL) nº 1917. Em tramitação no Congresso, o PL prevê a ampliação dos limites de ingresso a esse ambiente de livre contratação, permitindo o acesso a milhares de empresas, de diferentes setores. Nos últimos anos, a expansão do mercado livre vem sendo orientada por consumidores especiais, aqueles com demanda contratada maior ou igual a 500 kW, individualmente ou por soma de cargas, que contratam apenas energia de fontes renováveis, como a bioeletricidade. Em linha com a ampliação do mercado livre, a EPE prevê, em seu Plano Decenal 2027, que as fontes renováveis representem 53,7% dos 108,9 GW previstos de novos projetos de geração a serem contratados. Retrato da sua importância para a matriz elétrica brasileira, a potência instalada do setor sucroenergético é de 11.361 MW, representando em torno de 7% da potência outorgada no Brasil e sendo uma das quatro principais fontes de geração de energia. Para efeito de comparação, esse volume é superior à capacidade da usina Belo Monte (11.233 MW). A biomassa tem vantagens competitivas e é complementar à fonte hídrica, dado que o cultivo da cana-de-açúcar é realizado entre maio e junho, período em que a chuva é mais escassa. Estimativas da União da Indústria de Cana-de-Açúcar – Unica, apontam que a oferta de bioeletricidade para a rede, em 2017, poupou o equivalente a 17% da água nos reservatórios do submercado Sudeste/ Centro-Oeste, no período seco do ano. Em 2017, 91% da geração de energia elétrica por biomassa de cana-de-açúcar ocorreu entre abril e novembro, quando as hidrelétricas estavam esvaziando os reservatórios.

Ademais, há outra vantagem importante nesse processo: além do bagaço, outros resíduos também podem ser aproveitados, ao invés de serem desperdiçados, como a palha, por exemplo, que gera 500 kWh por tonelada, enquanto o bagaço gera 300 kWh, segundo dados da Unica. Segundo a EPE, 209 das 367 usinas de biomassa de cana-de-açúcar em operação, ou seja 57%, comercializaram energia elétrica em 2017. Para aumentar essa inserção, seria preciso que as usinas investissem na aquisição de novas e eficientes caldeiras, o chamado retrofit, o que permitiria ampliar a geração de energia excedente. A substituição de caldeiras antigas por mais eficientes e a aquisição de equipamentos mais produtivos podem ser feitas, inclusive, em associação com investidores, que investem na aquisição dos equipamentos e ficam, como contrapartida, com a parcela excedente da energia a ser gerada. Assim, as usinas de açúcar e álcool podem contar com uma receita acessória e aproveitar as oportunidades, sem comprometer o seu caixa. O alto endividamento e a política de controle dos preços dos combustíveis, que perdurou entre 2009 e 2014, fizeram com que muitas usinas fechassem suas portas nos últimos dez anos. A geração de caixa se tornou um problema para muitos empresários do segmento, mas o RenovaBio e as indicações de que a presença do Estado no refino e controle de combustíveis será menor ensejam otimismo para o setor. Para representar retorno às usinas, os investimentos em bioeletricidade ainda exigirão gestão eficiente dos contratos de energia, com estratégias comerciais de curto, médio e longo prazos. Esse contexto cria a necessidade de parcerias com gestoras e comercializadoras de energia, cujo conhecimento do mercado e suas variáveis podem render vantagens às usinas, além de também desenvolverem projetos técnicos de troca de equipamentos antigos por mais eficientes. O avanço da bioeletricidade poderá representar ainda outra vantagem: acessar o mercado de capitais com emissões diferenciadas de papéis, como os green bonds, papéis que empresas podem usar para captar recursos para implantar ou refinanciar projetos com impactos ambientais ou climáticos positivos. Em 2017, foram lançados mais de US$ 150 bilhões em títulos verdes no mundo. Cada vez mais, a diversificação do portfólio, com a ampliação da oferta de produtos renováveis, poderá significar um diferencial competitivo para o setor sucroenergético brasileiro em um contexto de avanço global da economia de baixo carbono. As usinas sucroenergéticas, por meio da bioeletricidade, têm a oportunidade de se tornarem protagonistas desse movimento no Brasil. n

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comércio de etanol

é hora de reduzir custos e

valorizar a inteligência de mercado!

Certamente, ao tema proposto nesta edição: “Brasil, é agora ou nunca mais”, se busca saber as expectativas que temos em relação à regulamentação e à implementação do RenovaBio e o comportamento do novo governo em relação à política de biocombustíveis. Abordarei, assim, assuntos que consideramos relevantes, diante do atual cenário e da nova dinâmica do setor, especialmente do etanol. Nas reuniões de diretoria ou de conselho, é recorrente a pressão pela redução de custos, pela decisão de produzir etanol ou açúcar, o melhor momento de fixar o preço de açúcar e/ou comercializar o etanol. O mercado das commodities vem exigindo dos gestores a necessidade de estarem sempre atualizados com os movimentos que influenciam direta ou indiretamente nos preços das commodities que produzimos. A recente mudança na precificação dos combustíveis fósseis pela Petrobras alterou por completo a dinâmica de preços do etanol no mercado interno. Antes, tínhamos um reajuste anual nos preços dos combustíveis fósseis, assim a nossa preocupação se resumia em avaliar o tamanho da safra, mix de produção e segurar volumes para comercializar na entressafra, invariavelmente com preços que remuneravam o custo financeiro do inventário com boa margem de lucro. Tudo mudou; atualmente, o preço da gasolina no Brasil acompanha as flutuações do mercado internacional, assim como as variações cambiais da nossa moeda. O preço do petróleo, em particular, requer análise mais complexa, diante dos cenários imprevisíveis da geopolítica mundial, que envolvem os países membros da OPEP, as barreiras comerciais que estão sendo impostas entre os países e as restrições impostas contra o Irã, terceiro maior produtor de petróleo.

Habitualmente, a gasolina comercializada durante o verão da América do Norte e na Europa tem os preços maiores, no auge da safra do Centro-Sul, enquanto, em nossa entressafra, de dezembro a março, os preços normalmente cedem, em função de menor demanda sazonal. A participação do etanol de milho com a crescente produção nacional ou com a importação também influencia diretamente na avaliação das ofertas, dos estoques e, consequentemente, nos preços do mercado interno. Torna-se imprescindível que estudos sobre arbitragem do etanol importado e a competitividade do etanol de milho sejam avaliados. Portanto o carregamento de inventário para a entressafra pode comprometer os resultados, diante da incerteza de remunerar os elevados custos financeiros. Como sobreviver num mercado com essa complexidade? Como tomar decisões assertivas diante de tantas incertezas?

Não importa de onde venha, ganho sempre é bom. E, para isso, é essencial jogar de igual para igual com os grandes conglomerados "

Martinho Seiiti Ono

Diretor da SCA Etanol do Brasil

Coautor: Alexandre Menézio, Diretor de Compras da SCA Etanol

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;


Opiniões A necessidade de um departamento de inteligência ou a contratação de empresas especializadas, com reconhecida expertise, tornou-se imprescindível. Agora, nas reuniões de board ou nos comitês, as empresas devem analisar com maior amplitude os cenários e as variáveis que influenciam na demanda e nos preços dos nossos produtos. Compartilhar as decisões baseados em estudos, pesquisas e informações são requisitos relevantes para reduzir os riscos e obter melhores resultados da comercialização. O tema da redução de custos é um chavão muito repetido, mas pouco compreendido, infelizmente. O senso comum nos impele a entender que gastar menos do que se ganha é bom para o resultado, e isso é uma verdade. A questão é que isso nem sempre é suficiente. E pode ficar pior, quando se atua no segmento das commodities. Especificamente no setor canavieiro, muitas vezes a robustez dos resultados advém de uma estratégia bem executada de fixação de preços no momento adequado, no caso do açúcar, ou de construção de estoques e de administração da sazonalidade, no caso do etanol. No lado do custo, por sua vez, o campo é amplo, e inúmeras oportunidades se apresentam, envolvendo redução ou postergação do desembolso de caixa via redução de preços, redução de estoques, substituição de insumos, renovação no painel de fornecedores, desintermediação da cadeia de abastecimento e outras. Por que, então, sobram oportunidades não aproveitadas, enquanto empresas padecem por insolvência financeira e aumento do risco operacional e do custo de crédito? A resposta poderia ser ”por desconhecimento”, mas é mais provável que seja “por descrédito”: são poucos os sócios e executivos de empresas que admitem que seus times – agroindustriais, financeiros, de compras, não importa – possam não estar explorando todas as vias disponíveis de aumento da eficiência operacional ou comercial. Afinal, é a responsabilidade deles. O fato, porém, é que mesmo empresas eficientes do ponto de vista operacional e com bons resultados devem explorar as inúmeras alavancas de eficiência em compras. Os efeitos positivos do aumento da escala. Talvez a mais importante das alavancas de eficiência seja o aumento da escala. GRUPOS ECONÔMICOS POR CAPACIDADE DE MTC TOTAL: 196 GRUPOS

159

RAÍZEN BIOSEV ATVOS

3 >30 MTC

TEREOS SMTO BUNGE S.TEREZINHA

4 20-30 MTC

COFCO CORURIPE ZILLOR ADECOAGRO USJ BP ...

10

20

10-20 MTC

5-10 MTC

<5 MTC

Cerca de 80% dos grupos empresariais no setor canavieiro processam menos de 5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar anualmente. Ainda assim, boa parte desses grupos não considera explorar sinergias entre si no lado das compras, enquanto, no lado das vendas, competem no mesmo terreno, comercializando commodities. Não obstante, grupos multinacionais começaram a atuar no segmento, originando duas dezenas de grandes conglomerados através de sequências positivas de fusões, aquisições, greenfields ou crescimento orgânico. E, mais recentemente, empresas se uniram e formataram organizações de compra conjunta, dentro dos parâmetros legais estabelecidos pelo Direito Econômico. O primeiro efeito observado desse agrupamento de empresas – formados com a finalidade específica de aquisição conjunta de insumos e serviços – é a equalização do poder de compra com os conglomerados já estabelecidos, com resultados muito positivos. Tais resultados advêm não somente da obtenção de preços mais baixos – afinal, fornecedores apresentam estratégias de precificação mais favoráveis aos grandes clientes, não importando muito o segmento de atuação – mas também da desintermediação da cadeia de abastecimento, pois grandes clientes são capazes de acessar fabricantes diretamente, ao invés de submeter-se obrigatoriamente às estruturas de revenda e de distribuição. Os ganhos são certos e relevantes. Construídos sobre uma estrutura mais competitiva de preços de venda ou pela simples eliminação de tributos, ao se comprar diretamente do fabricante. Além disso, negócios com grandes clientes atraem fornecedores mais robustos e estimulam fornecedores mais criativos a apresentarem soluções inovadoras, que permitam redução de custos através de fatores que não necessariamente envolvam preço ou tributos, como a otimização de embalagens, a consignação de estoques, a adoção de tecnologia na administração do abastecimento e de estoques para produção, o investimento conjunto em melhorias no processo ou na estrutura operacional. Não importa de onde venha, ganho sempre é bom. E, para isso, é essencial jogar de igual para igual com os grandes conglomerados, reduzindo custos e aumentando a competitividade, e, de outro lado, usar a inteligência de mercado para maximizar as receitas e aproveitar o timing certo para fixação e comercialização do açúcar e do etanol. n

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mercado, riscos e investimentos

Opiniões

do médio para o longo prazo, a história será outra Um novo governo, o de Jair Bolsonaro. Durante a preliminar do jogo principal que começa em 1º de janeiro de 2019, tudo corre bem, o que é uma boa notícia para as elevadas expectativas dos brasileiros por um Brasil melhor. Até agora, tudo indica que teremos uma política econômica voltada para o livre mercado e com estímulos à livre concorrência. Tudo indica que veremos a participação do Estado na economia ser reduzida. Vamos admitir que isso ocorra ao longo do tempo para o bem do Brasil. E o setor de cana-de-açúcar? Como ficará nesse novo desenho político, social e econômico que temos pela frente? Acredito que o açúcar e o etanol de cana-de-açúcar, bem como a cogeração de eletricidade de bagaço de cana, no conjunto, serão estimulados a competir de forma crescente, do lado da oferta, com produtos concorrentes. Nesse caso, cabe lembrar etanol de milho, açúcar de beterraba, energia renovável eólica e solar, hidrelétricas. Ainda do lado da oferta, o forte crescimento esperado para a produção e o uso do gás natural em substituição ao carvão vai aumentar a competição com o combustível renovável na redução da emissão de gases do efeito estufa. No caso do petróleo, o desenvolvimento da tecnologia vai permitir aumento de produção e a busca de um produto cada vez mais limpo, do ponto de vista ambiental. Deve-se considerar, finalmente, que o biocombustível, de forma geral, compete com alimentos pelo uso de recursos naturais limitados. Do lado da demanda de energia, teremos que encarar o aumento da eficiência no uso da energia elétrica e dos combustíveis líquidos. Nesse caso, aparecem motores de combustão mais eficientes, veículos

elétricos e híbridos, transporte compartilhado. Ou seja, teremos de considerar um crescimento da demanda de energia, associado ao crescimento econômico, a taxas mais modestas que no passado. Quanto à demanda de açúcar, vemos uma mudança nos hábitos em busca de uma alimentação mais saudável, o que leva a reduzir excessos de calorias, álcool bebida, fumo, etc., etc. O açúcar natural de cana ou de beterraba entra nesse contexto como item a ter seu consumo controlado. No curto e no médio prazo, o efeito desse novo padrão de consumo alimentar na redução da demanda de açúcar será relativamente pequeno, pois será compensado pelo crescimento da demanda desse produto nos países de renda per capita abaixo da média mundial (África e Ásia principalmente). De forma geral, a população desses países precisa mais de alimentos do que de regime alimentar. Do médio para o longo prazo, a história é outra. Ao longo do tempo, o aumento da demanda de açúcar natural tende a ser reduzido, mesmo considerando o crescimento populacional, pois se espera que a renda percapita aumente nos países em desenvolvimento e, com isso, a carência alimentar diminua. Além disso, como as maiores empresas de alimentos e bebidas industrializadas são multinacionais, sediadas em países de renda alta, poderemos observar uma tendência global de produtos padronizados, com menor intensidade de açúcar, colocados à disposição do consumidor. Isso tem um efeito demonstrado em países de renda média e baixa, que imitam padrões de vida de países ricos. Em resumo, temos competição crescente do lado da oferta e da demanda com crescimento esperado gradativamente menor nos mercados de açúcar, de etanol e de eletricidade. Cabe lembrar que essas condições de mercado não são exclusivas do setor de cana-de-açúcar. São condições de mercado inerentes ao mundo globalizado, com mudanças tecnológicas

Durante a preliminar do jogo principal que começa em 1º de janeiro de 2019, tudo corre bem, o que é uma boa notícia para as elevadas expectativas dos brasileiros por um Brasil melhor. "

Julio Maria M. Borges Professor do Departamento de Economia da FEA-USP e Sócio-Diretor da Job Economia


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rápidas e significativas. E tudo indica, até agora, que o governo Bolsonaro deve perseguir algum grau de aderência a esse novo mundo. E o que poderia ser feito para que o setor de cana-de-açúcar sobreviva bem nesse mundo de mudanças rápidas e expressivas? Vou retomar minha tese de algum tempo. Alguns produtores e líderes de classe amigos meus que o digam. O setor de cana-de-açúcar deve procurar prioritariamente aumentar a eficiência econômica e a competitividade, como já foi muito bem-feito no período 1973-1999. Quando me refiro à eficiência econômica, refiro-me à redução de custos, variável sobre a qual o empresário tem mais controle do que sobre os preços ao consumidor, definidos pelo mercado. Eficiência técnica e eficiência ambiental são ingredientes relevantes para alcançar a eficiência econômica, mas não a substituem como objetivo final. E como chegar lá? Como reduzir custos? • Investir em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) recursos financeiros necessários e de maneira eficaz, com o objetivo de buscar tecnologias que visem aumentar a produtividade dos fatores de produção; • Estimular e dar oportunidade para que as usinas tenham condições de otimizar seu negócio do ponto de vista técnico, econômico e administrativo; • Prover capital para investimentos em ativo fixo e giro, suficientes para ampliações e modernização do parque agroindustrial e para maximização das receitas de comercialização da safra;

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• Implantar um mecanismo de cobrança de desempenho daqueles beneficiados por essa política. E como arrumar recursos financeiros para patrocinar esse pacote de instrumentos de otimização? Quando nos referimos a recursos financeiros para financiar a modernização e a otimização do parque sucroenergético brasileiro, estamos pensando na criação de um novo fundo de investimentos. Vamos nos referir a ele como Fundo de Biocombustíveis. O RenovaBio é a Política Nacional de Biocombustíveis, instituída em 2017 com o propósito de promover a produção e o uso de biocombustíveis e de reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Tal política está sendo implantada com a finalidade maior de criar recursos financeiros para estímulo ao setor, dado que já existe demanda com potencial não atendido pela oferta de etanol combustível no Brasil. Os recursos financeiros gerados pelo RenovaBio, via preço dos CBIOs e multas, poderiam ser dirigidos, em parte, para o Fundo de Biocombustíveis. Esse fundo seria gerido por um conselho formado por representantes do governo Federal e do setor privado com notória competência profissional. O setor como um todo seria beneficiado. O País seria beneficiado. Cabe lembrar que, na década de 1970, foi criado um fundo pelo governo (Funprosucar - IAA), com propósitos semelhantes aos que estamos sugerindo aqui. E o ganho foi muito relevante para o setor e o Brasil.n

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sistema financeiro

ainda teremos que

esperar

No início do ano, em espaço na Revista Opiniões, fazendo o disclaimer usual do quanto é difícil fazer qualquer previsão sobre o futuro do setor sucroenergético, listei quatro pontos que considero fundamentais para a retomada do crescimento da produção do lado da oferta. A saber: 1. Existência de uma política clara para o setor de energia, com um marco regulatório bem definido;

A primeira coisa a termos em mente é que o setor é altamente heterogêneo. Tanto do ponto de vista de dados operacionais, quanto do ponto de vista financeiro, média nesse setor significa muito pouca coisa. "

Manoel Pereira de Queiroz Gerente Sênior de Relacionamento do Rabobank

2. Reconhecimento das externalidades dos biocombustíveis; 3. Investimento em pesquisa e em desenvolvimento de tecnologias disruptivas que reduzam custos e aumentem a produtividade; 4. Capacidade financeira para investir. Ainda no mesmo texto, opinei que os três primeiros pontos estavam relativamente bem endereçados, mas que o último estava longe de ser resolvido. Citei, no mesmo artigo, que enxergávamos uma consolidação silenciosa no setor, pois, apesar do número de unidades industriais paradas (93,

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segundo levantamento recente da RPA Consultoria), a produção não decresceu e estabilizou-se ao redor de 600 milhões de toneladas por ano nas últimas 5 safras. Nossa opinião não mudou no que tange aos 4 pontos citados, mas mudou em relação à continuidade da consolidação silenciosa, infelizmente para pior. Tentarei expor por que acreditamos que o setor sucroenergético no Brasil irá


Opiniões encolher antes de viver um novo ciclo de investimentos e consequente crescimento, em que pese o entusiasmo de alguns com a mudança de governo. A primeira coisa a termos em mente é que o setor é altamente heterogêneo. Tanto do ponto de vista de dados operacionais, quanto do ponto de vista financeiro, média nesse setor significa muito pouca coisa. Há no setor empresas muito bem posicionadas, com ótima estrutura de capital, baixo endividamento e excelente liquidez, para ficar em apenas três pontos que olhamos para avaliar a saúde financeira das companhias. Essas são as empresas que cresceram nos últimos anos, a maioria delas através de investimentos marginais, absorvendo a cana das unidades que pararam ou diminuíram sua moagem. Essas empresas são as que se encontram no que chamamos de círculo virtuoso: tem boa liquidez, dívida sob controle e boa estrutura de capital; consequentemente, têm abundância de oferta de crédito longo e barato e conseguem, com isso, manter-se em dia com a renovação dos canaviais e tratos culturais, mantendo um canavial novo e produtivo, obtendo, consequentemente, uma forte geração de caixa ano a ano, que permite que ela ou invista ou diminua dívida e aumente a liquidez, obtendo, assim, para fechar o ciclo, crédito mais abundante e mais barato. No outro extremo, as empresas que entraram em um círculo vicioso: tem baixa liquidez, alto endividamento e estrutura de capital inadequada. Essas, por apresentarem maior risco aos financiadores, só têm acesso a crédito caro e limitado, não conseguem ter caixa suficiente para investir na proporção de que gostariam, ficando com o canavial mais velho e menos produtivo ano a ano, o que afeta sua capacidade de gerar caixa e, consequentemente, de reinvestir e diminuir dívida e assim por diante. Ao longo dos anos, observamos que algumas empresas, por algum erro estratégico ou má gestão financeira, passaram do círculo virtuoso para o círculo vicioso, mas, infelizmente, não observamos nenhum caso em que tenha ocorrido o oposto. Temos observado também, nesse período, aumentar o gap entre as empresas virtuosas e as empresas viciosas. As empresas que se encontram no círculo virtuoso são, em sua grande maioria, empresas familiares, de porte médio, conservadoras na gestão financeira e, portanto, com potencial limitado para expansão significativa. Observamos também que essas empresas têm preferido investir prioritariamente em melhoria de eficiência ao invés de expansão de canavial. Resumindo, acreditamos que o potencial de diminuição de moagem por parte das empresas em dificuldade é maior que o potencial de expansão das empresas em boas condições.

Uma solução sempre lembrada para as empresas que se encontram em dificuldade é a saída via operações de fusão e aquisição, utilizada com sucesso após a crise de 2008. Naquela época, no entanto, havia um grande número de empresas estrangeiras, sobretudo do setor de petróleo e de trading, interessadas em adquirir os ativos de açúcar e etanol. Passados 10 anos, o tempo mostrou a esses novos entrantes que a gestão, sobretudo agrícola, era muito mais complexa do que eles imaginavam. Hoje, grande parte deles está mais interessado em sair do setor do que crescer, e outros novos eventuais interessados vão levar em conta essa experiência negativa antes de se decidirem por um investimento desse porte. Fato é que, hoje, com boa parte das empresas em dificuldades, o mercado é muito mais vendedor que comprador. Há mais de uma dúzia de mandatos de venda nas áreas de fusões e aquisições dos bancos, mandatos esses que já estão contratados há mais de 2 anos, sem que nenhum deles tenha resultado em uma operação efetivada. Houve somente uma operação de aquisição em 2018 e apenas 3 em 2017, sendo que, dessas quatro, três foram aquisições de unidades produtoras independentes (UPIs), ou seja, ativos comprados através de leilão em processos de recuperação judicial ou falência. Há ações que o governo possa tomar para mudar essa realidade e permitir a retomada de investimentos? No curto e no médio prazo, não, entretanto, no longo prazo, acreditamos que talvez. A primeira ação importante seria manter a política de reajustes da gasolina de acordo com a variação dos preços do mercado internacional. A segunda, não menos importante, é realizar reformas que resolvam nosso problema fiscal, simplifiquem e estimulem o ambiente de negócios no País e incentivem a concorrência. Em terceiro lugar, definir e implementar uma política energética de longo prazo clara e que reconheça as externalidades dos biocombustíveis (aqui entra como parte o RenovaBio). Em quarto lugar, combater duramente, via OMC, subsídios e barreiras ao açúcar no mercado internacional. Enfim, pelos pontos acima expostos, infelizmente não enxergamos, no futuro próximo, uma retomada de crescimento no setor, mas sim uma provável retração estrutural. Por outro lado, olhando mais à frente, o amadurecimento de novas tecnologias que vêm sendo desenvolvidas, aliado a uma eventual melhoria das condições econômicas e de um melhor ambiente de negócios, pode servir de estímulo para que esse crescimento possa ser retomado. n

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produtor rural

Opiniões

é hora de reconstruir! Ao longo desses últimos anos, tive a oportunidade de vivenciar e participar ativamente do segmento agropecuário e, principalmente, de assuntos relacionados ao setor sucroenergético, onde, como representante da Orplana (Organização dos Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil), a participação em fóruns do setor, tanto nacionais como internacionais, foi uma constante. Com certeza, um grande aprendizado. Da mesma forma, a participação junto a agentes públicos estaduais e federais teve a mesma constância e, nesse aspecto, tenho convicção de que as decepções foram enormes. Como decisões de um governo sem preparo podem atrapalhar tanto um setor, e, confesso, nesses últimos anos, foi demais. Tantas canetadas sem pé nem cabeça prejudicaram um dos setores mais importantes do agronegócio brasileiro, destruindo-o em grande parte e colaborando para que a produção permanecesse em pequeno declínio nesses últimos anos. Essas ações fizeram com que os mercados de açúcar e etanol, os principais produtos da cana-de-açúcar, tivessem enormes distorções, afetando a decisão com relação ao mix de produção de açúcar, provocando grandes excedentes, em detrimento do etanol, que assistiu à sua participação no consumo despencar em relação à gasolina, jogando no lixo ganhos sociais e ambientais conquistados e trazendo consequências nefastas à economia, ao emprego e às empresas. Isso afetou sobremaneira os investimentos na área agrícola e a atenção a ela propriamente dita, fazendo com que a produtividade agrícola caísse a patamares bastantes baixos.

E é nesse contexto que gostaria de traçar alguns comentários. É obvio que mudanças em nossa política serão o ingrediente principal para essa nova fase. Antes disso, quero comentar que, com este novo governo que assumirá o País nos próximos dias, acreditamos numa grande melhora. O Presidente eleito, Jair Bolsonaro, está trabalhando cuidadosamente para a montagem de uma equipe de ministros que tenham competência para gerenciar suas áreas de maneira eficaz. Até o momento, suas escolhas vêm agradando aos vários segmentos da sociedade. Com trabalho de transição já em ação, esperamos que o novo Presidente, já nos primeiros dias de governo, traga credibilidade aos mercados, trazendo mais tranquilidade para trabalharmos, e que a economia e o emprego voltem a patamares mais interessantes. Especificamente para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a escolha da deputada Tereza Cristina é recebida por nós com muito entusiasmo, pois trata-se de uma pessoa com vasta experiência nos campos da agropecuária como produtora, como técnica, cuja formação de engenheira agrônoma lhe dá essa competência; como Ex-secretária de Agricultura do estado do Mato Grosso do Sul, traz a experiência de comando em área do executivo e, finalmente, como parlamentar e presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, o conhecimento suficiente para desenvolver um grande trabalho de sinergia entre os poderes. Desejo-lhe grande sucesso. Especificamente com relação ao setor, essas melhorias no âmbito governamental são os ingredientes perfeitos para que o desenvolvimento reapareça. Essa visão mais mercadológica, olhando fortemente para a diminuição do peso do Estado, saindo de empresas que não têm que ser administradas pelo Estado,

Temos muito a fazer, mas certamente seguindo uma frase muito repetida pelo presidente Bolsonaro de que 'o governo não atrapalhando já faz muito' ”

Ismael Perina Junior Produtor Rural


certamente colocará ânimo ao mercado e refletirá em vários setores. Ao Estado cabe, por exemplo, dar condições de implementar projetos como o RenovaBio, instrumento amplamente discutido e que tem que ser colocado em prática o mais rápido possível, dando oportunidade de grande ganho de eficiência na produção. Voltando à questão da produção, esperamos dar a nossa contribuição de “reconstruir” canaviais mais produtivos e melhorar nossa competitividade em relação a alguns outros produtos e produtores que se aproximaram de nossas vantagens. A partir daí, é com a gente. Um dos pontos sobre o qual tenho pregado muito é que precisamos dar mais atenção aos nossos canaviais. Nessa turbulência toda, muitos assuntos são tratados com exaustivo empenho nas planilhas e nos escritórios, mas a correspondente no campo não tem sido bem conduzida. Voltar um pouco e montar estruturas com visão multidisciplinar no efetivo trabalho do campo tem que ser uma constante. Muitas empresas produtoras segmentaram a área agrícola em grupos de trabalhos, e a convergência de todos está um pouco prejudicada. Passa a ser importante, nessa hora, pessoas que consigam administrar equipes coesas. Temos, hoje, uma série de problemas no cultivo da cana-de-açúcar que precisam ser atacados de frente, entre eles a melhoria da colheita mecanizada, o controle de pragas e de doenças, em que a atenção

deve ser redobrada, novas tecnologias de formação de canavial já disponibilizadas e pouco usadas, fertilizações mais adequadas com uso de novas formulações e formas de utilização, entre tantas outras. Mas, talvez, um dos mais importantes pontos a serem trabalhados diz respeito à pesquisa e ao desenvolvimento. Nessa fase muito difícil que vivenciamos, as pesquisas foram praticamente abandonadas. Não podemos viver a velha máxima: “Um deixa pro outro e o outro deixa pro um”. É hora de unirmos forças, concentrarmos esforços, inclusive na arrecadação de fundos para administrarmos essas pesquisas, e criarmos diferenciais que outrora foram importantíssimos para chegarmos aonde chegamos. Não podemos ficar presos à pesquisa e ao desenvolvimento de novas variedades somente, imaginando que serão suficientes para alavancarmos nossa produtividade. Temos muito a fazer, mas certamente seguindo uma frase muito repetida pelo presidente Bolsonaro de que “o governo não atrapalhando já faz muito” e procurando realizar com afinco nossas tarefas de casa, certamente vivenciaremos dias melhores num futuro próximo. Para fechar, voltando à política, há anos que, a cada eleição, me sentia muito mal com os resultados, pois tinha a convicção da linha distorcida da ação dos eleitos, e, nessa última, sinceramente, no meu entendimento, voltam as oportunidades de avançarmos. Avante! “É hora de reconstruir.” n

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associação de produtores - Minas Gerais

mudança pode gerar um novo ciclo de

desenvolvimento Um novo caminho para o Brasil foi escolhido nas urnas no último pleito eleitoral, e o setor sucroenergético, como parte importante do agronegócio nacional, apoiou a mudança e tem grandes expectativas em relação ao governo do presidente Jair Bolsonaro. Porém os desafios são muitos para que o setor e os outros segmentos econômicos possam ter um ambiente mais propício de negócios, com ideias liberais mais internalizadas e maiores oportunidades em benefício de toda a sociedade.

Dentro dessa expectativa de mudanças, é preciso se atentar para o gigantesco trabalho que deve ser feito pelo novo governo federal na busca do equilíbrio fiscal, com um choque nas despesas e aprovação das reformas, pois o brasileiro não suporta mais um aumento na carga tributária. A reforma da Previdência, principalmente a pública, é urgentíssima, pois tem interferido, cada vez mais, nos déficits fiscais. Assim como também os governos estaduais precisam solucionar seus déficits e retornar com as políticas públicas de apoio ao crescimento econômico.

esperamos que o presidente Jair Bolsonaro abrace o segmento agroindustrial e que veja os biocombustíveis, o açúcar e a bioeletricidade como produtos estratégicos para o presente e o futuro do País. "

Mário Campos Filho

Presidente da Siamig Associação das Indústrias Sucroenergéticas de MG

A outra reforma necessária é a tributária, pois a complexidade desse sistema inviabiliza diversos investimentos necessários para o crescimento do setor e da economia como um todo em infraestrutura e logística. Se tivermos um sistema tributário mais simples, com menor custo, os produtos nacionais ganharão


Opiniões maior competitividade, tanto no mercado interno quanto aqueles destinados à exportação, como o açúcar e, por que não dizer, também o etanol. Espera-se, portanto, que o novo governo seja reformista, que consiga melhorar o ambiente de negócios, baixar o custo Brasil e atrair novos investimentos e, na outra ponta, abrir mercados para os produtos brasileiros. Se o Brasil der certo e sair dessa situação econômica difícil em que se encontra, não somente os produtos do setor sucroenergético poderão contar com um forte mercado interno e externo, mas também os outros segmentos terão condições expressivas de crescimento. Como em todo processo democrático, é preciso que se tenha, também, abertura de diálogo para que se possam entender as necessidades do setor e que possíveis impasses não atrapalhem a rota do crescimento. Existem assuntos polêmicos que podem aparecer durante a gestão do novo governo e que demandarão negociações, como a política de combustíveis que impactam diretamente o etanol e as decisões de produção das empresas. Quanto ao açúcar, com a maior parte da produção destinada à exportação, é preciso um acompanhamento do mercado externo e de abertura de novos mercados. A energia elétrica do bagaço de cana também demanda políticas de incentivo equiparadas às realizadas hoje para a energia eólica e solar. O governo de transição do presidente Michel Temer realizou uma agenda importante, de forte impacto no setor sucroenergético nacional. Além da reforma trabalhista, imprescindível para competitividade da economia brasileira, foi neste governo que foi aprovado, em tempo recorde, aquele que poderá representar um novo tempo ao setor sucroenergético, o programa RenovaBio. O RenovaBio é um dos cinco pontos fundamentais, na nossa opinião, para que o setor possa seguir com sua produção de energia renovável, contribuindo para a redução do aquecimento global, além da grande geração de emprego e de renda no campo. O programa ainda depende de algumas regulamentações, com grandes expectativas para entrada em vigor no final de 2019. Ele vai ao encontro da discussão mundial sobre uma política mais efetiva de precificação de carbono dentro de um sistema avançado e maiores possibilidades de cumprimento das metas do Acordo de Paris. O segundo ponto é a necessidade de uma mudança da política externa para uma maior efetividade de acordos para o açúcar e, também, para que o etanol faça parte da cesta de produtos do Brasil como prioridade de defesa comercial. Há excelentes oportunidades de mercado na América Latina e em toda a Ásia, seja para venda de nossos produtos, ou mesmo na promoção e no incentivo à produção

interna de etanol, extremamente importante para consolidação de um mercado internacional para o biocombustível. Temos visto alguns países que têm colocado barreiras ao açúcar brasileiro, e outros concorrentes implantando subsídios que desestruturam todo o mercado mundial. Um outro ponto importante é a defesa do etanol na discussão do futuro do automóvel. O País tem uma solução importante para a redução da poluição e do aquecimento global, que é a produção dos biocombustíveis, integrada aos programas do RenovaBio e do Rota 2030, recentemente aprovado. Portanto é importante que essa produção seja reconhecida e que o Brasil possa caminhar, ainda dentro desse escopo, para alternativas como a produção de veículos híbridos e, no futuro, a célula de combustível com uso de etanol. Obviamente, a eletrificação dos motores será uma tendência forte, mas tem várias formas de isso ocorrer, um híbrido com dois tipos de motor, a combustão e o elétrico funcionando como complementar, e a célula de combustível, podem trazer muitos benefícios para o segmento. O quarto ponto é a manutenção da atual política de preços dos derivados do petróleo, pois o setor ganhou uma outra dinâmica nesse sistema, com maior previsibilidade, essencial para os novos investimentos. Por fim, como quinto ponto importante dessa extensa agenda, está o aumento da concorrência no mercado de refino de petróleo no Brasil. Atualmente, de fato, há um monopólio pela Petrobras, o que prejudica a competição no mercado de combustíveis no País, que somente será equacionado com a entrada de novos players na produção de derivados no Brasil. Os desafios são tremendos, mas trazem oportunidades, como o conceito da tecnologia 4.0, que começa a ser aplicada também no agronegócio e pode ajudar muito o setor sucroenergético na recuperação, por exemplo, dos índices de produtividade. Alguns produtores já se estão beneficiando dessas novas tecnologias, com resultados fantásticos, aproximando mais das instituições de pesquisa e verificando exemplos de outros produtos do agro, como os grãos, que têm um nível tecnológico maior, com excelentes resultados. Quando conseguirmos ultrapassar todos esses desafios, outros virão, mas é preciso lutar para que o setor possa continuar crescendo e, assim, toda sua cadeia produtiva, com impactos altamente positivos no desenvolvimento econômico e social das regiões onde atuam, com ganhos para todo o País. As expectativas são as melhores possíveis, e esperamos que o novo presidente, Jair Bolsonaro, abrace o segmento agroindustrial e que veja os biocombustíveis, o açúcar e a bioeletricidade como produtos estratégicos para o presente e o futuro do País.n

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associação de produtores - Paraná

Opiniões

nossos desafios continuam O Brasil teve um 2018 bastante intenso, sob todos os aspectos, com quebras de paradigmas, que se completou com uma eleição histórica para presidente da República. A população assistiu, estupefata, a uma série de acontecimentos ao longo dos últimos anos, que culminaram com mudanças e, principalmente, levaram a uma grande reflexão. No resultado das urnas, observou-se o quanto a população participou desse processo, exigindo uma nova realidade. Escândalos sem fim, prisões, delações. Em um país que se acostumou ao descaso e à impunidade, com favorecimentos e benesses aos mais poderosos, praticamente ninguém poderia imaginar que empresários detentores de impérios fortemente ligados ao poder, e até mesmo um ex-presidente da República, pudessem acabar na cadeia. Reordenar: O esgotamento do modelo político produziu uma previsível substancial renovação na representação parlamentar. Nada menos que 85% do Senado foram substituídos, enquanto, na Câmara, o percentual chegou à metade. Mas, até que isso acontecesse, travou-se uma verdadeira batalha nas ruas e nas redes sociais, marcada por uma enxurrada de falácias e ideologias que, infelizmente, dividiram a sociedade e mostraram quanto trabalho temos pela frente, no sentido de reordenar os caminhos do País e retomar o desenvolvimento, gerando oportunidades para todos que desejam um Brasil progressista, mais justo, em paz, com segurança jurídica, respeito entre os seus cidadãos e com importante espaço a ocupar no cenário global. Que Deus ilumine a todos nós na correção desse processo. a energia renovável precisa, ainda, ser alçada entre as prioridades neste novo governo, e tem havido, por parte do setor, uma mobilização incisiva para demonstrar o quanto isso é estratégico "

Miguel Rubens Tranin Presidente da Alcopar

Em paralelo a toda essa situação e graças a alguns setores, entre os quais o agronegócio e a mineração, a economia se manteve em 2018 com pilares mais sólidos, contribuindo de maneira decisiva para um processo de recuperação, que vai exigir ainda muito

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esforço e determinação dos novos governantes, agora fiscalizados passo a passo por uma população ainda mais informada e interessada em participar, que exige o fim da corrupção e dos descalabros da roubalheira. O agronegócio, embora ainda de certa forma incompreendido por parcela da sociedade, tem cumprido o seu papel com muita desenvoltura, gerando riquezas, investimentos e milhões de postos de trabalho nas regiões produtoras, conquistando novos mercados e acelerando exportações que possibilitam o superávit na balança comercial, enfim. Difícil pensar como seria o País sem a participação dos empresários rurais, mas vale ressaltar: a energia renovável precisa, ainda, ser alçada entre as prioridades neste novo governo, e tem havido, por parte do setor, uma mobilização incisiva para demonstrar o quanto isso é estratégico. Demandas: A partir de agora, o nosso objetivo, com todo o empenho e a dedicação possíveis, será na continuidade do RenovaBio, programa único que conseguiu unir todos segmentos relacionados à energia renovável (etanol, biodiesel, biomassa e biogás). Esse deve ser, sem dúvida, o primeiro item em nossa agenda. Outra demanda que exige urgência é quanto à equalização, via Confaz, das alíquotas de ICMS entre os estados, uma batalha antiga. É necessário haver uma diferenciação tributária


entre combustível renovável e combustível de origem fóssil, reconhecendo os benefícios socioeconômicos, ambientais e à saúde. Por suas vantagens e benefícios, é indiscutível que etanol e biodiesel precisam ter prioridade frente à gasolina e ao diesel. Ao mesmo tempo, as sérias dificuldades pelas quais o setor de bioenergia vem passando, em função da adoção, nos últimos anos, de políticas públicas deletérias, também devem merecer a atenção governamental. Via BNDES, se faz indispensável estruturar uma linha de crédito de refinanciamento, a exemplo do PESA (Plano de Estruturação e Saneamento do Agronegócio), repactuando-se o endividamento das companhias, visto que, sabidamente, ele foi ocasionado por políticas públicas equivocadas e seus efeitos nocivos. Não podemos prescindir, ainda, de uma linha de crédito a exemplo do Prorrenova, mas que seja permanente e voltada à renovação e à implantação de novas lavouras, para fazer frente à demanda de crescimento por biocombustíveis. Em relação à indústria automobilística, não menos importante é a continuidade de estímulo à pesquisa e ao desenvolvimento de novas tecnologias, a exemplo do Inovarauto, buscando aprimorar o desempenho dos motores flex, bem como dos veículos híbridos flex e a célula de combustível. Por sua vez, que não se coloquem em segundo plano os necessários recursos para adequação industrial, em

especial no que diz respeito à maior eficiência no aproveitamento da biomassa, do bagaço e da palha para cogeração de energia elétrica renovável, sem a qual não haverá disponibilidade rápida de energia para o crescimento nacional. Temos que aproveitar, ainda, uma grande oportunidade que se apresenta por meio do incentivo à produção de etanol de milho, em modelos adequados a cada região do País. No Paraná, por exemplo, isso poderia acontecer em paralelo à produção de etanol de cana-de-açúcar, assegurando-se, dessa forma, maior competitividade de produção e subprodutos de valor agregado, suprindo a demanda proteica nas regiões. A nova Ministra: Por fim, vale destacar o otimismo que tomou conta do setor com a indicação de personalidades como a deputada Tereza Cristina, para compor o novo governo, na pasta da Agricultura. Com certeza, a parlamentar, por sua sensibilidade e reconhecida competência, saberá atender à expectativa de todos e traduzir a confiança a ela depositada pelos produtores de energia renovável no Brasil, em tempos de muitas realizações. Seu nome, somado aos dos demais ministros já anunciados, fortalece a expectativa dos brasileiros de que as mudanças em curso, e tão necessárias, levarão a um País melhor, em que todos os brasileiros não apenas somem esforços, mas comunguem dos mesmos objetivos. n

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associação de produtores - São Paulo

Opiniões

respirando novos ares Responsável hoje por cerca de 20% da atividade econômica do Brasil, o agronegócio deve crescer em torno de 1,35% neste ano de 2018, refletindo o recrudescimento da economia nacional como um todo, que vive hoje a esperança de dias melhores com um novo governo, que tomará posse a partir de 1º de janeiro de 2019. O pequeno crescimento do PIB do agronegócio em 2018 é fruto de uma série de fatores, como a alta nos custos de produção, os efeitos da greve dos caminhoneiros e do tabelamento de frete, a insegurança jurídica, dentre outros pontos. As exportações do agronegócio brasileiro em 2017 somaram mais de US$ 96 bilhões, 13% acima de 2016, o que representou 44% de todas as exportações brasileiras. Ou seja, sem o agronegócio, o déficit da balança comercial brasileira em 2017 seria de US$ 15 bilhões. Estamos falando de um setor que, nos últimos 20 anos, foi responsável pela exportação de nada menos que US$ 1,23 trilhão.

Dentro do agronegócio, destacamos a cadeia sucroenergética, que processou, em 2017/2018, cerca de 630 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. O Brasil é hoje o maior produtor de cana do mundo, tendo mais de 365 usinas e cerca de 70.000 produtores rurais. O PIB da cadeia sucroenergética na safra 2017/2018 foi da ordem de R$ 85 bilhões, gerando cerca de 800 mil empregos diretos em mais de 20% dos municípios do Brasil. O setor se mantém como o 2º setor agropecuário mais importante para a balança comercial brasileira, gerando cerca de 12 bilhões de dólares anuais em exportações. Outro benefício do setor vem da área ambiental. Somos responsáveis hoje pela redução nas emissões de gases de efeito estufa da matriz energética de transportes, em linha com as necessidades do Brasil para cumprimento de seus compromissos firmados em 2015, no Acordo do Clima de Paris (COP21). Nosso desafio, no entendimento da UDOP, é saltarmos da atual produção de 5 a 6 mil litros de etanol por hectare para 10 a 12 mil litros/ha. "

Amaury Pekelman Presidente da UDOP

O etanol evita em até 90% a emissão de gás carbônico (CO2) ao longo de seu ciclo de vida. Para se ter uma ideia do impacto ambiental disso, de 2003 até hoje, o setor evitou a emissão de mais de 450 milhões de toneladas de CO2eq. Esse volume equivale às emissões individuais de países como Itália, Espanha e França em 2016.


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associação de produtores - São Paulo Além de todos esses benefícios, e muitas outras externalidades, o setor da bioenergia é responsável pela fixação do homem no campo, em pequenas cidades, localizadas nas novas fronteiras agrícolas de diversos estados da região Centro-Sul do Brasil, e que têm no setor sua maior fonte de arrecadação, que propicia, inclusive, a geração de empregos e renda e a circulação de divisas nessas pequenas comunidades. Toda essa cadeia de negócios vê com bons olhos a eleição de Jair Bolsonaro, um presidente desenvolvimentista, que assume o comando do País para um novo ciclo de crescimento para o Brasil, alicerçado em políticas de Estado que possam perdurar por mais de uma gestão e que garantam a segurança jurídica tão necessária, e até então precária, e cujos reflexos vemos nos números crescentes de fechamento de usinas e severa crise financeira de outras. Poucos setores da economia estão tão atrelados aos mandos e desmandos do governo como o setor sucroenergético, haja vista que, dos três principais produtos que temos em nossa cadeia, dois deles, etanol e energia elétrica (bioeletricidade), têm seus mercados regulados pelo governo. O passado já nos mostrou os riscos de políticas eleitoreiras que acabaram por dizimar cerca de 1/3 das usinas brasileiras, nos governos Lula e Dilma. Com Jair Bolsonaro no comando da nação, temos esperança de que respiramos novos ares de desenvolvimento, principalmente com a adoção de medidas que permitam maior fortalecimento para nossos produtos e nossa cadeia de negócios genuinamente brasileira, o que deve gerar um forte estímulo ao crescimento interno alicerçado em políticas de longo prazo e maior previsibilidade e segurança. A escolha, por exemplo, da deputada federal Tereza Cristina como nova Ministra da Agricultura do governo Bolsonaro foi muito bem recebida por todo o segmento do agronegócio. Tereza Cristina é muito ligada ao setor, tendo em seu currículo ações muito bem desenvolvidas na área, quando de sua gestão no estado do Mato Grosso do Sul e mesmo na presidência da Frente Parlamentar Agropecuária na Câmara dos Deputados. Dentre as agendas positivas que podemos sugerir para o novo governo, estão políticas que possam prevenir, por exemplo, a invasão do etanol de milho americano no mercado brasileiro, seguindo o que outros países têm feito (União Europeia, China e Paraguai) a fim de protegerem seus mercados e reconhecer o papel estratégico do etanol em nossa matriz energética. A manutenção de benefícios fiscais nas novas fronteiras

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desenvolvimentistas, como o Centro-Oeste, é outra política necessária para que o setor possa se manter competitivo. Isso porque, nessas novas áreas, esses benefícios foram oferecidos a fim de se manter a equalização de custos, investimentos na geração e qualificação profissional, investimentos em logística, adequações e tratamentos de solo para essa nova cultura, adaptada para essas fronteiras agrícolas. Benefícios esses que, também, contribuíram para uma maior competitividade dos custos logísticos. A regulamentação do RenovaBio é, também, de suma importância para continuarmos crescendo. O RenovaBio já avançou grandes passos, mas ainda carece de regulamentações e do cumprimento de prazos para que possa, efetivamente, surtir os efeitos desejados, a partir de 2020, que permitirão dobrar nossa atual produção para atender ao mercado crescente de biocombustíveis nos próximos 10 anos. Da porteira para dentro, o setor também precisa fazer sua parte. Para isso, a UDOP – União dos Produtores de Bioenergia tem investido fortemente na capacitação profissional e principalmente no fomento à pesquisa aplicada, tão necessária para o ganho de competitividade. Vemos na inovação a alavanca que pode nos impulsionar para novos patamares de desenvolvimento. Nosso desafio é diminuir nossos custos de produção e aumentar nossa produtividade, ganhando, com isso, maior competitividade para disputarmos em pé de igualdade com nossos principais concorrentes. Nosso desafio, no entendimento da UDOP, é saltarmos da atual produção de 5 a 6 mil litros de etanol por hectare para 10 a 12 mil litros/ hectare. Mas isso só será possível com aplicação de inovações e novas tecnologias, tanto no campo como nas usinas. Aí também vemos a importância do Ministério da Ciência e Tecnologia do governo Bolsonaro, que promete investir em pesquisas e no melhoramento da ciência aplicada a nosso segmento. Nessa linha, também, a UDOP vem firmando parcerias com importantes centros de pesquisa, como a Embrapa, a Esalq-USP, a Faculdade de Agronomia da Unesp de Jaboticabal, o CTBE e, mais recentemente, a Fapesp, para citar apenas algumas, que visam dar o impulso necessário para este novo momento que vamos adentrar. Todos esses desafios se abrem como importantes oportunidades de repensarmos nossas estratégias e nos fortalecermos ainda mais. Oxigenados por uma nova ordem nacional, rogamos que possamos romper a inércia e voltarmos a crescer. Oxalá! n


ensaio especial

Opiniões

conservação do solo no setor canavieiro “A dificuldade não reside nas novas ideias, mas em escapar das ideias antigas, pois, para aqueles que foram criados como a maioria de nós, essas ideias se ramificam em todos os cantos da mente.” [John Maynard Keynes] Situação atual e desafios: O solo saudável é essencial para a produção agrícola, mas, para além de um substrato produtivo, o solo tem funções ambientais fundamentais na regulação de diversos ciclos da natureza, como o da água, de nutrientes minerais e do carbono. Os benefícios da conservação do solo devem ser para além da manutenção da capacidade produtiva e de seus custos endógenos, devemos ter o solo dentro de uma perspectiva de serviços ecossistêmicos complexos e essenciais para o bem-estar do homem. Nos últimos 10 anos, o setor sucroenergético passou por uma grande mudança em seu sistema produtivo, saindo de um percentual de aproximadamente 34% de área de cana-de-açúcar colhida de maneira mecanizada, sem o uso de queima como método pré-colheita em 2007, para um total de aproximadamente 97,5% de área de cana-de-açúcar colhida de maneira mecanizada, sem o uso da queima em 2017.

Os problemas de conservação de solo aumentaram nos últimos anos. As vantagens da colheita mecanizada são evidentes, em diversos aspectos, como nas emissões de carbono, de planejamento e gestão, de saúde pública, entre outros. Mas essa mudança trouxe uma consequência negativa: o aumento da compactação dos solos. A compactação altera o regime hídrico local, diminuindo a capacidade de infiltração da água no solo e aumentando o seu escoamento superficial. Essa alteração não foi prevista na maioria dos sistemas de conservação utilizados. É preciso acabar com a dicotomia conservação de solo e a maior eficiência operacional. Um bom rendimento operacional pode ser benéfico para o solo, gerando menos pisoteio na área, diminuindo os carreadores, reduzindo a compactação e gerando tiros de plantio longos. Alternativas técnicas em que as duas partes ganham já existem, mas ainda carecem de escala e de novos processos de inovação. Cabeças precisam pensar de forma diferente, decisões precisam ser tomadas de outra forma, pessoas precisam ser convencidas e treinadas. O setor tem desenvolvido inciativas de forma isolada e internamente. Por isso carece de uma reflexão sobre sua aplicabilidade em outras regiões e por atores externos. São alguns exemplos:

As vantagens da colheita mecanizada são evidentes como nas emissões de carbono, de planejamento e gestão, de saúde pública, entre outros. A consequência negativa é o aumento da compactação dos solos. "

Gerd Sparovek e Gustavo Casoni da Rocha Coordenador-geral do GT-InovaSolo da Esalq-USP e Professor do Curso de Conservação de Solo na cultura da cana-de-açúcar da Esalq-USP, respectivamente

1. sistemas de escoamento superficial difuso, baseados em drenagem e canais escoadouros; 2. sistemas de terraceamento de base larga com sulcação passante, que possibilitam intervenções mais suaves na paisagem e um efetivo controle de tráfego; 3. planejamento e execução criteriosa da colheita/preparo/reforma por meio de matrizes complexas (relevo, solos, clima). O poder público exigiu um avanço significativo da eliminação da queima da cana-

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ensaio especial -de-açúcar, mas, por outro lado, não se observou, nesse mesmo período, um movimento similar e de mesma intensidade na área de pesquisa em conservação de solo. As principais perguntas a serem respondidas: Acreditamos que esta conjuntura levou a uma reflexão profunda de todos os setores envolvidos: • CDA/SAA (órgão fiscalizador): será que vale a pena distribuir multas e o dano ambiental seguir acontecendo? • Universidades e Institutos de pesquisa: as linhas de pesquisa em conservação têm gerado conhecimento para subsidiar decisões técnicas no campo? Há um engajamento institucional (Fapesp, Departamentos de Solos de Universidades, etc.) que entenda o problema como ele ocorre no campo e direcione soluções? • Setor produtivo: as estruturas de contenção de enxurrada são feitas, e, mesmo assim, o problema de erosão persiste. Onde está o erro? Há esforços em planejamento/replanejamento a fim de estabelecer um cronograma de reformas de menor risco? Há apoio (financeiro ou logístico) a institutos de pesquisa para colaborar na formulação de novas soluções? • Sociedade civil: se há um problema, potenciais soluções e recursos financeiros, por que faltam iniciativas integradoras nesse sentido? As grandes erosões e as multas aplicadas não estão resolvendo o problema? Um possível caminho para as soluções: A construção de processos inovadores consistentes requer tempo, reflexão e visões distintas do problema e gestão conjunta dos processos envolvidos. Há novas ideias circulando e iniciativas promissoras em diversas usinas e produtores. Quando se analisa o conjunto das ações, percebe-se que é mais fácil assimilar novas ideias do que se livrar das antigas. Vale citar a organização de um pioneiro evento pela Stab, em 2013, que reuniu pesquisadores, acadêmicos, consultores, produtores, órgãos do estado, ministério público e especialistas. Foi um esforço analítico dos problemas históricos e caminhos possíveis, foi um reconhecimento coletivo da carência de informações técnicas e de pesquisas acadêmicas sobre a nova realidade produtiva do setor. Como um dos resultados desses debates e articulações, foram publicadas, em 2016, as Recomendações Gerais para a Conservação do Solo na Cultura da Cana-de-açúcar, uma publicação da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, que reúne o conhecimento mais atualizado possível sobre o tema. Em 2017, foi dado mais um passo. Usinas, Unica – União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Esalq – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, iniciaram uma conversa para um ambicioso projeto: constituir um grupo de trabalho (GT) que integrasse diferentes instituições ligadas ao setor no tema Inovação & Conservação de Solo.

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Opiniões Nasceu, assim, o Grupo de Trabalho em Inovação e Boas Práticas em Conservação de Solo (GT-InovaSolo). Os objetivos são: fomentar e articular pesquisa científica por meio de rede de colaboração entre universidades e unidades produtoras e entre as universidades; colaborar para a atualização da publicação da Secretaria de 2016 e formar corpo técnico capaz de elaborar projetos de conservação baseados no manual SAA, por meio do oferecimento de um curso de difusão. Uma primeira edição de um curso de aperfeiçoamento, ligado à USP-Esalq, já ocorreu em 2018, com metodologia inovadora, baseada na troca de experiências exitosas entre os alunos e na discussão de temas a partir das próprias dificuldades e virtudes. Criou-se uma rede de apoio entre os alunos e os professores, em que questões técnicas eram (e são) discutidas na prática. Quanto ao fomento à pesquisa, ainda faltam os recursos para colaboração efetiva entre as unidades produtoras e universidades, além das condições para que a equipe do GT se dedique ao apoio à atualização das recomendações. Para isso, ainda falta fortalecer algumas ações efetivas, numa agenda pré-competitiva e colaborativa entre as usinas e sua representação, as universidades e o Governo, mas continuamos otimistas com essa possibilidade. Novas oportunidades: A Política Nacional de Biocombustíveis, o RenovaBio, que está em fase de regulamentação, tem gerado expectativas positivas do setor ambiental e do setor produtivo. Além da resolução dos problemas que impactam a produção e a natureza local, a conservação do solo oferece serviços ecossistêmicos pouco discutidos, como as emissões evitadas de GEE na atmosfera. A primeira etapa do processo erosivo é o desprendimento da partícula; esse processo facilita a decomposição da matéria orgânica e a transferência do carbono do solo para a atmosfera (GEE). A ideia de punir o causador do dano ao solo pode ter um efeito na diminuição dos problemas, mas é apenas um dos caminhos. Mecanismos de estímulo ao bom uso do solo é outra via possível, e o RenovaBio é uma oportunidade para o setor. A conservação de solo, pela sua abrangência e importância nas emissões de GEE, pode e deve ser uma variável de entrada no RenovaBio. Há, entretanto, a necessidade de avanço no conhecimento técnico e científico da relação entre conservação do solo e emissões de GEE para as condições de manejo da cana brasileira. Mas, voltando ao início do texto com a frase de Keynes, no caso da conservação do solo e o setor canavieiro, escapar das ideias antigas não significa apenas aprender novos conceitos técnicos. Significa entender que alguns temas complexos e de elevado interesse social devem ser tratados como uma agenda pré-competitiva e colaborativa por todos: setor, governo, universidades. n


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