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NĂşmero 1 Fevereiro 2017 Revista da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas - OBOD em LĂ­ngua Portuguesa


Índice

O Druidismo Moderno — parte I pág. 6

Novos começos e resoluções pág. 11 O Bardo e a Harpa — Instrumentos do Espírito pág. 12 Imbolc + Brígida pág. 17

Ficha Técnica Propriedade: © 2017, Zéfiro – Edições e Actividades Culturais, Lda. ISSN: 2183-9255 Depósito Legal: 419 013/16 Esta obra não pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer processo à excepção de excertos para divulgação. Reservados todos os direitos, de acordo com a legislação em vigor. Editor: Fábio Barbosa Concepção gráfica e paginação: Fábio Barbosa Imagem de capa: Eunice López Gomes, in A Terra de Endovélico – O Deus dos Lusitanos de José Galambas (Sintra, Zéfiro, 2006) Colaboram neste número: Alexandre Gabriel, Ana Simões, Cecília Garcia, José Alexandre Frazão Matos, Llewellyn Mawr fab Blodeuwedd, Morgana da Lusitânia, Ollem, Osvaldo R. Feres, Ynis Epona. Envie-nos as suas contribuições, sugestões ou perguntas para: ophiusa@obod.com.pt

"Venho por Brighit" pág. 20

Introdução ao Ogham pág. 22

Eisteddfod pág. 24 Eventos & Blogues pág. 35 Última pág. 36 2

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Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas Responsável pelo curso de Druidismo em língua portuguesa: Alexandre Gabriel Morada: Zéfiro, OBOD, Apartado 21, 2711-953 Sintra, Portugal Telefone: (+351) 91 48 48 900 E-mail: obod@obod.com.pt Website: www.obod.com.pt


Editorial

Druidaria nossa de cada dia

“A

letra mata”. Ontem como hoje, sobretudo quando o Awen, a eterna novidade do presente, nos bate à porta e nos recusamos a convidá-la a fazer parte das nossas vidas. É por isso que o renascimento druídico, desde os tempos da Ancient Order of Druids, se recusou a criar mais um -ismo a juntar às muitas doutrinas reveladas do mundo. Ao invés, preferiu desenvolver uma prática que se assemelha mais a um ofício que a uma cartilha, uma verdadeira arte do espírito em vez de um dogma fechado. Chamaram-lhe Druidry em vez de Druidism, ou Druidaria, e não Druidismo, numa tradução directa. O Druidismo, ou a Druidaria, não consiste na adesão a um credo, mas sim numa prática transformativa de restabelecimento de laços. Uma experiência de abertura gradual do espírito às várias existências, com quem estamos todos relacionados: os que já foram, os que são e os que serão sempre. Este processo tem como dom principal a magia. A magia entendida como capacidade de manifestar

a Ideia e de modificar a realidade, não só no plano interior, mas também no nosso mundo aparente. Afinal, a Druidaria ensina-nos a ver a criatividade como uma fonte, um veículo e uma consequência naturais da espiritualidade. A própria descoberta dos deuses foi e é sempre, também, uma contínua invenção e releitura — como nos acontece diante de qualquer quadro ou poema. Não há outra mestra além da Natureza nas suas múltiplas manifestações, incluindo a nossa. E saber que qualquer espaço, que o nosso próprio espaço, será capaz de nos ensinar tudo o que de mais precisarmos, é querer saber mais sobre ele. É ouvir-lhe os segredos, confidenciar-lhe as emoções mais preciosas. Entrar em estado de emergência. É fazer do Druidismo que se aprende nos livros uma Druidaria que defende activamente a causa da casa comum. Um Druida e uma Druidaria relevantes para os nossos dias saberão buscar o encanto por essa Natureza manifesta em todos os que nos rodeiam, e deixar-se apaixonar por fe v er eiro 2017 OPHIUSA

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Editorial ela ao ponto de sentir as suas dores como se fossem suas. Colocar-se na pele do outro. Mudar de forma. E cumprir assim o derradeiro acto de magia, a compaixão. Bardos, ovates ou druidas, a Druidaria permite-nos (re)encontrar o nosso lugar na Grande Canção do mundo através de uma prática tríplice. Uma prática de reencontro connosco mesmos. Segundo a visão das antigas sociedades celtas, o encontro do sujeito consigo mesmo não acontecia com a identificação com um deus transcendental nem com um total desligamento de todos os compromissos com o mundo à sua volta. Por outras palavras, não passava por uma exteriorização da busca, mas sim por uma relação justa entre o sujeito e todos os outros seres. A Druidaria permite-nos saber que fazemos todos parte de uma longa teia de relações e descobrir nesse parentesco comum com todas as coisas a nossa verdadeira identidade, dia a dia, a cada fôlego partilhado. Uma prática de reconciliação entre opostos. Não é à toa que o número três tem o significado e a simbologia que tem no imaginário celta. Estabelecida a unidade e o seu oposto, o número três traz a possibilidade da união, da criação de algo novo a partir dessa oposição entre realidades tantas vezes 4

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mais complementares que dissonantes. Numa época em que a única escolha apresentada pelas vozes da maioria é entre o medo e a fúria, cabe ao pensamento druídico propor a terceira opção, de união mais do que de divisão, de aceitação em vez de rejeição, de mudança em vez de indiferença. De dentro para fora. Uma prática de contínua redescoberta. Uma Druidaria vivida de forma profunda é uma prática que se redefine e re-compromete todos os dias, atenta às circunstâncias, aos ciclos da vida e do próprio corpo e às mensagens que todas as coisas, dotadas de voz pelo mesmo Silêncio que nos anima, têm para nos transmitir. É um caminho pleno de surpresas, em que damos por nós muitas vezes a abrir mão de todas as verdades que julgávamos ser eternas para recomeçar do zero. Para podermos voltar à escuridão inicial de onde tudo renasce, e acolher tudo o que este caminho tem para dar com a máxima disponibilidade e abertura de coração. Pois como diria Maurice Maeterlinck: “Importa vivermos como se estivéssemos sempre na véspera de uma grande revelação, e prepararmo-nos para a acolher o mais íntima, completa e ardentemente possível”.


TRÍ DE

Três coisas preservadas pelo bom poeta para a posteridade: a memória dos dignos de louvor, a delícia de pensamento, e a instrução no conhecimento.

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O Druidismo moderno — parte I

por Llewellyn Mawr fab Blodeuwedd, estudioso e escritor dedicado à cultura, história e religiosidades célticas “A partir do momento em que o tipo celta de sociedade desapareceu, era normal que o Druidismo desaparecesse, uma vez que já não podia ser experimentado como uma religião. Restaram os princípios do druidismo. Mas será que tudo se foi? Certamente que não. Daí a busca apaixonada do Druidismo Moderno, qual seja a sua forma, para tentar encontrar o que foi o pensamento druídico, o que foi o ritual druida.” — Jean Markale, 1987

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Druidismo Moderno é um constructo simbólico-religioso, cultural, filosófico, social e histórico do mundo contemporâneo ou pós-moderno. Essa construção foi e é creditada, feita e exercida por pessoas de diversas origens, olhares e valores estéticos que se identificam em seu dia-a-dia com os horizontes e possibilidades inseridas nos

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conhecimentos, saberes e fazeres célticos, tradicionais e/ou ressignificados. Há de se tecer este comentário antes de começarmos aqui qualquer ponderação relevante. Etimologicamente, a origem do termo Druidismo vem do seu uso atual para denominar práticas e sistemas de crenças fundamentadas na histórica, cultura e valores das populações celtas. A definição surgiu em estudos ingleses do século XVIII, período que se especula o renascimento moderno da religião druídica. Nem sequer sabemos como os Keltoi denominavam sua religião tradicional, e mesmo a palavra Druida fora empregada na sua forma primeira por gregos e romanos que ficaram espantados em descobrir que entre aqueles que consideravam “bárbaros” havia um grupo de filósofos naturais. Dentre os autores clássicos estão Júlio César, Tácito, Plinio, o velho, Estrabão,


Possidônio, Diodoro, Heródoto, dentre outros. Hoje, estudos antropológicos e arqueológicos nos revelam as diferenças consideráveis entre os povos celtas, o que nos informa que não deviam manter uma atividade religiosa congênere por todo o extenso território que ocupavam no continente europeu, da Áustria à Irlanda. Ao acrescentar a palavra Moderno para complementar o seu significado, os praticantes e estudiosos desse modo de crença querem afirmar o seu compromisso com o tempo e espaço da modernidade onde está localizada a sua ação druídica. Da língua latina, Modernus denota o que é próprio e pertencente ao nosso tempo, o estado de espírito do tempo que acontece no presente. Mais do que isso, lembra que somos seres humanos que agem e necessitam agir através da mentalidade e constituição moderna: locus de identidades fragmentadas, comunicação rápida, arranha-céus, tecnologia, individualismo, mundo detentor de problemas ambientais, sociais e históricos de seu tempo. Nesse sentido a termologia Druidismo Moderno literalmente quer informar sobre a “prática, doutrina ou sistema dos druidas de hoje”. Ou seja, é a afirmativa de que não somos aspirantes de antiquários, nem que vivemos do remonte do passado, muito menos queremos voltar à época La Tène, mas que participamos ativamente dos processos do tempo

em que estamos logrados. Inclusive a primeira coisa que os druidas modernos precisam saber e compreender é que a religião clássica e original dos celtas foi esmagada pela roda do destino e que devemos deixar o trabalho da roldana continuar. O que ainda podemos fazer é resgatar e preservar na memória, herança e conexão restante os valores e costumes para autoconhecimento e para solucionar problemas do nosso entorno. Dos galhos do Druidismo Moderno nasceram diversos movimentos, como as bagas nas ramas de uma árvore, que geraram por sua vez outras denominações que grupos e pessoas se utilizam, como: Neo-druidismo, Druidaria, Reconstrucionismo Celta, Neo-Paganismo Celta, Mesodruidismo, Igreja Celta, Xamanismo Celta, entre outras. Embora seja recorrente haver muita discussão, e até desavenças sobre o tema da nomenclatura comum, ainda é no Druidismo Moderno que residem as raízes do pensamento druida contemporâneo, que abarca o trabalho druídico acumulado do tempo com os conhecimentos e vivências no presente. Mas onde tudo isso começou? Quem são nossos ancestrais na espiritualidade druídica moderna? Boa parte dos esforços que delimitamos sobre as origens do druidismo se finda em dúvidas, já que nós não temos muito que dizer diante das lacunas existentes. Historiadores e fe v er eiro 2017 OPHIUSA

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© Llewellyn Mawr

arqueólogos nos propõem um proto-druidismo na cultura Hallstat, que teve início aproximadamente no século XII a.e.c. Sabemos que a atividade druida nos acontecimentos históricos registrados data do período do século IV a.e.c., tendo sido descrito, na sua maior parte, tudo o que sabemos a partir das representações que gregos e romanos fizeram destes. Também sabemos que a tradição adormeceu nas brumas do tempo durante o medievo e muito do que sobreviveu foi graças aos monges copistas e à tradição oral bárdica. De forma poética, um dos mais famosos fundadores do movimento moderno assim nos define a origem do druidismo:

“O Druidismo é a forma ocidental de uma filosofia, de uma cultura ou de uma antiga religião universal, datando dos dias dos primeiros homens, quando os três eram um. Isto é, da cultura do círculo de pedra, dos bosques de árvores sagradas, da dança circular.” — Ross Nichols, 1990 Fazendo um breve histórico recente, os druidas modernos e diversos autores chegam ao consenso que o renascimento druídico se 8

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deu entre os finais do século XVII e inícios do XVIII. John Aubrey, um antiquário e escritor inglês, foi um dos precursores do movimento nos estudos de monumentos megalíticos relacionando-os aos druidas, como por exemplo, o conhecido conjunto de megalitos Stonehenge. Nesse sentido, John Aubrey preparou um campo de possibilidades do que viria depois. O mais provável tempo-espaço do renascimento da prática druídica e o marco histórico do Druidismo Moderno credita-se à fundação da Druid Order pelo irlandês John Toland, nos finais do ano de 1717. Ou seja, além de o Druidismo Moderno ser uma reformulação de costumes religiosos de populações célticas que viveram no período clássico e medieval, também estamos falando de uma religião que tem pelo menos trezentos anos de existência contemporânea. Outro importante nome desse período é William Stukeley, um antiquário inglês e pioneiro na arqueologia que se interessou pelos estudos de John Toland e também realizou seus próprios estudos sobre monumentos megalíticos e sua relação com os druidas. De acordo com Ross Nichols e Philip Carr-Gomm, ao entrar para a maçonaria, William Stukeley conheceu a princesa de Gales Augusta, mãe de Jorge III da Inglaterra, e descobriu que ela tinha também interesse no druidismo e apadrinhou um grupo de que fora ele o


organizador. O poeta e desenhista inglês William Blake também atuou principalmente com seus desenhos das construções megalíticas e afirmações de que o druidismo era uma vertente abraâmica. Algo importante a frisar é que o momento do Renascimento do Druidismo está repleto de valores cristãos e sentimentos nacionalistas. As personagens históricas acima citadas foram importantíssimas para o reavivamento do druidismo, mas estavam ligadas a

um grupo de intelectuais e nobres interessados em estudos ocultos, acreditando e afirmando que o druidismo era monoteísta, que seu sistema era semelhante aos patriarcas judaico-cristãos e de que os dolmens, menires e cromeleques eram fruto de uma engenharia druídica. Embora ainda perdurem de alguma forma essas afirmações, hoje os druidas modernos já as desmistificam, através de estudos contemporâneos provindos da arqueologia e da história:

“Até hoje, ninguém encontrou provas documentais sólidas da reunião de 1717, mas a tradição é suficientemente plausível. A Inglaterra do século XVIII estava explodindo com os agrupamentos de sociedades, clubes e ordens secretas ou semi-secretas, a maioria delas mal documentadas. Mesmo organizações famosas como a Maçonaria, que fundaram sua primeira Grande Loja no mesmo ano, preservaram poucos registros deste período. Uma sociedade druida poderia muito bem ter florescido em Londres na época e deixado apenas vestígios equivocados de sua existência. Ainda assim, se a reunião de 1717 aconteceu ou não, é claro que nestes anos o Renascimento Druídico mais amplo estava em andamento.”

© Llewellyn Mawr

— John Michael Greer, 2006 Ainda de acordo com Philip Carr-Gomm, existem três grandes correntes do revivalismo druídico, depois desses fundadores. O primeiro movimento é o Druidismo Romântico ou Mesodruidismo, que surgiu entre os séculos XVIII e XIX no País de Gales, através da instituição dos Eisteddfodau e da Gorsedd dos Bardos Britânicos. Pode se considerar que o motor do renascimento do druidismo de hoje fe v er eiro 2017 OPHIUSA

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e um de seus mais famosos autores e inspiradores foi Iolo Morganwg, que utilizou textos e compilações, colaborando histórica e poeticamente com grande parte do que se constitui hoje a prática de festivais bárdicos e rituais druídicos. O segundo movimento é o Druidismo Esotérico ou Maçônico, este pelo qual foi fundado pela Antiga Ordem dos Druidas, por Henry Hurle em 1781. Como está no nome, foi organizada a partir dos moldes maçônicos, onde era incentivada a ação filantrópica, reuniões de grupo e cerimônias inspiradas nos modos de irmandades. Segundo Philip Carr-Gomm, as lojas druídicas se espalharam por todo Reino Unido, inclusive partes da Europa, onde os ritos consistiam em colocar uma Bíblia em um estrado e proibições de discussão entre membros, onde o título de Druida não era dado por mérito de estudos ou treinamento, mas como um cargo honorífico. O terceiro movimento é o Druidismo Filosófico-Religioso, que teve seu início em meados do século XX, com a fragmentação dos movimentos anteriores, aliada a tentativa de tornar o Druidismo um caminho espiritual moderno. Um dos nomes mais conhecidos desse movimento é Philip Ross Nichols, conhecido também como Nuinn, que junto a Gerald Gardner é considerado um dos pais do Paganismo Moderno. Ross Nichols foi o fundador da Ordem 10

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dos Bardos, Ovates e Druidas e quem introduziu grande parte das atuais noções míticas, poéticas, filosóficas, de treinamento/estudo e da celebração de oito festivais sazonais. Desse movimento surgiram muitos autores druidas, que basearam suas práticas em fontes da tradição e de estudiosos. Acrescentaria um quarto movimento, denominado Reconstrucionismo Celta ou Druidismo Academicista, surgido na década de 1990. É um tipo de manifestação druídica recente, onde seus praticantes se baseiam primordialmente, chegando mesmo a restringir seus rituais e práticas religiosas, nas estritas provas científico-acadêmicas provindas dos estudos da História, Antropologia, Linguística, Arqueologia, dentre outros. Alguns grupos são fechados e até mesmo ortodoxos quanto a determinados conceitos de movimentos antecedentes, mas alguns tem se aberto ao diálogo e dão grande contribuição em relação a leituras e textos provindos de diversas universidades e estudiosos, na sua maioria não-druidas. Mas afinal, como é praticar o Druidismo Moderno? Será que ainda há função em uma crença inspirada em aspectos tão antigos? Para responder essas perguntas é necessário primeiro entender do que a crença dos druidas na atualidade se nutre. ■ (continua no próximo número)


Novos começos e resoluções

por Ana Simões

E

ncontramo-nos no início de um novo ano civil, início do retorno à luz. Estamos na altura propícia para o estabelecimento de novos projectos, para a abertura de novos caminhos. Não é à toa que tendemos a propôr-nos novos objectivos, os quais comummente designamos por resoluções de ano novo. Todavia, na grande maioria das vezes, tais resoluções constituem algo que almejaríamos concretizar e nem sempre são os objectivos mais exequíveis. Actualmente, passamos os dias em correrias frenéticas, de casa para o trabalho, para as compras, para casa, cuidar da família e do lar e dormir, sendo o dia seguinte, em norma, a repetição do anterior. Quantas vezes nos esquecemos de cuidar de nós, do nosso bem-estar físico, psicológico e espiritual, e damos por nós sem energia e a culparmo-nos pela falta de tempo pessoal? Sim, cuidar da comunidade é importante, tal como o são a família, os amigos e o trabalho. Porém, nós somos igualmente importantes, o nosso bem-estar, a nossa saúde, o nosso desenvolvimento pessoal e espiritual. Contra mim falo. Faz tempo que sinto vontade de voltar a estudar os gwersi  e não tenho tido disponibilidade emocional ou temporal para eles. Apesar de me fazer falta.

É necessário criar esse espaço, tanto temporal como emocional, para abrandarmos o ritmo acelerado, para nos permitirmos voltar ao equilíbrio, para sentirmos a roda do ano, para cuidarmos de nós. É importante uma caminhada. É importante estarmos com a Natureza. É importante darmo-nos espaço para ser. Estamos perante o ressurgimento da luz. Os dias começam a ser mais compridos; é a altura ideal para novos começos. Assim, proponho o estabelecimento de resoluções exequíveis, que visem metas efectivamente ao nosso alcance face às nossas limitações quotidianas. Proponho que criemos espaço para nós, nas nossas vidas.  Proponho que tiremos algum tempo, durante as nossas atarefadas semanas, para estarmos connosco, para nos redescobrirmos, para desenvolvermos o nosso caminho pessoal. Proponho que, dentro de nós, encontremos os princípios da Druidaria. Proponho que encontremos o equilíbrio. Que a Sabedoria dos Carvalhos guie os nossos passos. /|\ fe v er eiro 2017 OPHIUSA

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O Bardo ea

Harpa

I N S T RU M E N TO S D O ESPÍRITO por Alexandre Gabriel

Representação geralmente interpretada como sendo um xamã com um arco musical na gruta Les Trois Frères, em França

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RAÍZES HISTÓRICAS E MÍTICAS Os bardos da antiguidade tinham um papel proeminente na sociedade, gozando de um estatuto privilegiado, junto dos chefes, dos reis e do povo, tal como nos refere o famoso Conto de Taliesin. Para além disto, a associação do bardo-druida à harpa é um poderoso arquétipo da espiritualidade céltico-druídica. Mas as origens deste instrumento, como iremos ver, são bem mais remotas. A harpa é um instrumento musical cuja história tem milhares de anos e encontra-se espalhada um

pouco por todo o mundo, desde o antigo Egipto à África ocidental e Mesopotâmia. Podemos mesmo dizer que a evolução da harpa acompanhou, de certo modo, a própria evolução das sociedades humanas. As harpas da Antiguidade não possuíam a estrutura rígida nem os mecanismos complexos da actual harpa de orquestra, nem o seu superior número de cordas. Eram bastante mais simples, e tiveram as mais diversas formas e variantes ao longo do tempo e das civilizações. Segundo a Tradição, o arco musical1 (provável antepassado da

Instrumento musical arcaico, constituído por um braço de madeira curvo e uma corda esticada. 1

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harpa) ter-se-á originado a partir do arco e flecha utilizado pelo Homem para a caça em tempos remotos. Este ter-se-á apercebido do som produzido pela corda ao ser beliscada e, a partir daqui, aquilo que era um instrumento de guerra terá evoluído para a forma de um instrumento musical e ritual2. Mais tarde, este instrumento, sob uma forma mais complexa, é certo, veio a originar tanto a harpa como a lira. Esta ideia é extremamente interessante no plano simbólico, porque nos aponta para a transformação de um instrumento guerreiro (que serve para agredir, caçar e matar) num instrumento musical (que serve para envolver espiritual e emocionalmente o ser humano, para criar laços sociais e relaxar). Então, podemos aqui observar um processo de transmutação, sublimação e transcendência, relativamente à sua função primeira, de carácter diametralmente oposto. O PAPEL DA HARPA E DO BARDO NA SOCIEDADE CELTA Acabando por se popularizar nas regiões de matrizes célticas, ainda hoje a harpa tem uma presença significativa ao nível musical e cultural nesses países. A título de exemplo, lembremo-nos da sua utilização como emblema nacional na Irlanda, país que tem um rico

passado ligado a este instrumento e aos seus harpistas, do quais o mais célebre é, sem dúvida, o famoso Turlough O’Carolan que viveu entre os séculos XVII e XVIII. Diodoro da Sicília, historiador grego do séc. I AEC, fala-nos da utilização da lira, instrumento familiar da harpa, usada pelos antigos bardos gauleses: «E há entre eles [os Gauleses] compositores de versos, a quem chamam Bardos; estes, cantando com instrumentos semelhantes a uma lira, aplaudem alguns, enquanto [A evolução da harpa] injuriam outros.» é extremamente A harpa é o interessante no plano instrumento mu- simbólico, porque sical mais impor- nos aponta para a tante na tradição transformação de popular do País um instrumento de Gales. Este guerreiro num facto é atestado instrumento musical. no antigo conto galês Tudur, Filho de Einion, em que Tudur, ao se cruzar com um homem que diz ser músico, lhe pergunta de imediato pela sua harpa, pois “nenhum galês pode dançar sem ser ao som da harpa”. Outro conto, A Harpa Sobre as Águas, realça a importância do bardo harpista naquela época. Nesta história, o harpista é o único sobrevivente da catástrofe que ocorre no palácio de um rei cruel,

Como nos demonstram as gravuras que datam de 15.000 a.C. na gruta Les Trois Frères em França. 2

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ficando a sua harpa a flutuar sobre a água, fazendo assim prevalecer este poderoso símbolo de nobreza e harmonia. TRÍADES CELTAS SOBRE A HARPA Na era medieval os monges copistas registaram muitas das antigas tríades de sabedoria da cultura céltico-druídica. São várias aquelas que se referem à harpa e aos harpistas, dando-nos uma ideia da sua particular importância: «Três coisas que não podem ser confiscadas segundo a justiça: o livro, a harpa e a espada.» «Três feitos da Irlanda: uma estrofe espirituosa, uma música na harpa, o barbear de um rosto.» «Três coisas que constituem um harpista: uma música para fazer chorar, uma música para fazer rir, uma música para fazer adormecer.» «Três coisas próprias para quando se está em casa: o companheiro a seu lado, a almofada na cadeira e a sua harpa afinada.»

Quando tocava nas cordas [da sua harpa mágica, o deus Dagda] punha as estações na sua ordem correcta, restabelecia a ordem cósmica e dava ordens aos guerreiros no campo de batalha.

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A HARPA DE DAGDA, O BOM DEUS O deus celta Dagda, conhecido como “o bom deus”, tinha uma harpa mágica chamada Daurdabla (que significa “carvalho de dois verdes”),

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feita em madeira de carvalho e ricamente ornamentada. Quando tocava nas suas cordas punha as estações na sua ordem correcta, restabelecia a ordem cósmica e dava ordens aos guerreiros no campo de batalha. Esta harpa era também conhecida como Coir Cethair Chuir (“música de quatro ângulos”) e Úaithne (nome por vezes dado ao seu harpista, noutras versões da história). Para além da harpa, Dagda carregava consigo uma clava, que nas suas mãos se tornava um instrumento capaz de, com uma das pontas, matar nove homens de uma só vez, enquanto a outra ponta tinha o poder de trazer os mortos de novo à vida. Com estes dois instrumentos representava portanto duas facetas opostas: por um lado tinha a sensibilidade suficiente para tocar um instrumento como a harpa (qualidade feminina), por outro tinha a capacidade guerreira de agir quando era necessário (qualidade masculina). O seu terceiro atributo era o Caldeirão, que fornecia uma fonte inesgotável de alimento, recusando-se apenas a alimentar dois tipos de pessoas: os cobardes e os mentirosos. Prefigurava assim uma apologia do Graal, valorizando as virtudes da coragem e da verdade. Segundo as antigas lendas irlandesas, o harpista de Dagda, Úaithne, casou com a deusa do rio Boyne, Boann, dando à luz três filhos. O nascimento de Goltraiges, o filho mais velho, foi extremamente


doloroso para a deusa, enquanto o segundo, Gentraiges, teve um parto suave que lhe deu grande alegria. Por fim, após o nascimento do terceiro filho, Suantres, sentiu-se muito cansada e adormeceu. Úaithne transmitiu a arte da harpa a todos os seus filhos, sendo que cada um desenvolveu um estilo próprio de tocar o instrumento, conforme as condições particulares do seu nascimento. Assim nasceram os “Três Nobres Estilos da Irlanda”: o goltrai (estilo do choro), o geantrai (estilo da alegria) e o suantrai (estilo do sono). Estes três estilos foram também perpetuados na tríade de sabedoria referida mais atrás neste texto. Estes modos musicais teriam, segundo os antigos contos, um poder real e verdadeiro naqueles que os escutassem. É curioso assinalarmos aqui uma semelhança com as histórias gregas de Orfeu e Pitágoras, que com as suas harpas ou liras exerciam o mesmo efeito sobre animais e pessoas, influenciando o seu comportamento e as suas acções através do modo musical que tocavam. Uma vez que Dagda e a sua harpa eram inseparáveis, ele levou-a para a conhecida Segunda Batalha de Mag Tured, onde os Tuatha Dé Danann derrotaram os Fomorianos. Porém, durante o período que envolveu os preparativos de guerra e o combate propriamente dito, os Fomorianos infiltraram-se no acampamento guerreiro dos

Tuatha Dé Danann e roubaram-lhe o seu precioso instrumento. A ligação entre Dagda e a sua harpa era algo de muito especial, pois Daurdabla só a ele ou a Úaithne, o seu harpista, permitia que lhe tocassem. Qualquer outra pessoa que tentasse tocar era incapaz de dela obter qualquer som que fosse. Assim, era totalmente inútil para os Fomorianos, excepto como troféu de guerra. Assim, quando deu pela falta da sua estimada harpa, Dagda enrubesceu de fúria, partindo de imediato com o seu filho Óengus para o campo inimigo, resoluto no intento de recuperar Daurdabla. Os dois entraram violentamente no salão onde os Fomorianos jantavam, vendo a harpa ao fundo, pendurada numa parede. Então, entoando um cântico mágico, Dagda chamou Daurdabla: Vem Daurdabla, que murmuras docemente como a maçã, Vem, Coir-Cethair-Chuir, estrutura de harmonia de quatro ângulos, Vem Verão, vem Inverno, Para fora das bocas das harpas, das gaitas e dos foles! fe v er eiro 2017 OPHIUSA

“A Voz do Antigo Bardo”, de William Blake

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Ao ouvir Dagda, a harpa voou de imediato pelo salão fora, matando assim vários Fomorianos, aterrando nas mãos de Dagda. Então, Dagda tocou os Três Nobres Estilos da Irlanda, fazendo os guerreiros chorar, depois rir e, finalmente, adormecer. Ambos conseguiram então escapar silenciosamente, saindo incólumes do campo inimigo. ARQUÉTIPO DA HARMONIA Num plano simbólico e iniciático, a harpa representa um arquétipo da mitologia celta ligado à harmonia e ao equilíbrio. Pela arte subtil de tanger as cordas – símbolo das diferentes qualidades e gradações energéticas, representadas também pelas atribuições zodiacais Assim como Dagda, o ou planetares –, Bardo deverá encontrar, o Iniciado respela sua arte, o seu tabelece uma próprio Verbo ou ordem no caos, Palavra Perdida, que combinando as fará ressoar o seu Ser diferentes notas, verdadeiro que, ao de forma a fazer vibrar por simpatia, ressoar em si a eliminará os obstáculos etérea música que impedem o das esferas. emergir do eu real. Da mesma forma que Dagda recupera a sua harpa, que lhe foi roubada pelos bárbaros Fomorianos, podemos aqui ler uma alusão velada à via heróica e guerreira, onde Dagda representa o Iniciado que, com força e coragem, procura reinstalar em si a harmonia perdida, da qual se afastou por influência das forças egóicas, mentais e 16

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ilusórias, representadas neste conto pelos Fomorianos. Será interessante repararmos que, nesta Demanda de recuperação pela sua própria harmonia, Dagda foi acompanhado por Óengus, divindade celta do amor. Assim, na Busca empreendida pelo herói, para além da coragem e da força, é igualmente fundamental a presença do amor, não de uma forma sentimentalista e redutora, mas de uma forma interior, ligada ao próprio Coração – verdadeiro ponto de encontro entre o homem e o divino. Assim como Dagda entoa um cântico que faz com que Daurdabla venha imediatamente ao seu encontro, matando vários Fomorianos no caminho, o Bardo deverá encontrar, pela sua arte, o seu próprio Verbo ou Palavra Perdida, que fará ressoar o seu Ser verdadeiro que, ao vibrar por simpatia, eliminará os obstáculos que impedem o emergir do eu real. Símbolo de harmonia desde tempos imemoriais, a harpa tem o poder de agir sobre as paixões e emoções humanas, ora agitando-as, ora refreando-as. Estendendo as suas vibrações a quem quer que a escute e agindo fielmente segundo a doutrina pitagórica do número, a harpa canta uma matemática sonora em que a sua equação se resolve dentro de cada um de nós. ■ Artigo originalmente publicado em Mandrágora – O Almanaque Pagão – 2011: No Bosque Sagrado dos Druidas (© Zéfiro, 2010. Todos os direitos reservados).


Imbolc Brígida por José Alexandre Frazão Matos

C

hegamos à Primavera, pelo menos de acordo com os Celtas, que identificavam as festas de fogo como o início das estações, e não as festas do Sol, que eram na verdade o seu apogeu. Se olharmos com atenção, despidos de preconceitos e formatações, podemos chegar à mesma conclusão: fará mais sentido que o ponto alto do Verão, por exemplo, seja no Solstício, quando os dias são maiores, ou um mês e meio depois? Mas voltemos ao Imbolc, festa de Fevereiro, festa do fogo, festa em que se comemora o início das colheitas, a amamentação, em resumo, a vida. O próprio nome Imbolc deriva de Oimelc, que algumas tradições ainda utilizam. Oimelc, de acordo com o Glossário de Cormac, Rei de Cashel, do Século IX, significa “leite de ovelha” (“Oi melc”).

Depois do Solstício de inverno, altura do renascimento da Terra, o dia começou a ganhar tempo às trevas. As condições para libertar o gado no prado, para novas sementeiras, para novas crias, chegaram agora com o início da primavera. São essas as comemorações que nos chegam até nós. É altura de semear para mais tarde cultivar. Estas celebrações chegam até nós também por outras vias. Com a necessidade de adaptar os cultos cristãos à realidade local, aparecem as festas da Nossa Senhora das Candelárias, da Purificação, da Apresentação. Tudo nomes relacionados com ideias associadas com o Imbolc, como a Luz, a pureza (tal como o leite) e o nascimento (tal como as crias). A festa da Apresentação tem origem no relato bíblico segundo o fe v er eiro 2017 OPHIUSA

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qual, de acordo com a lei judaica, de Moisés, as parturientes ficariam impuras até 40 dias após o nascimento, tendo então que ser apresentados ao Templo os recém-nascidos. Seria impossível falar do Imbolc sem referir a Deusa Brígida e a sua, chamemos-lhe, sucessora Santa Brígida de Kildare. Brígida são três irmãs gémeas, em consonância com as tríades Celtas. Várias outras divindades Celtas, aliás, são tríplices. O nome “Brígida”, com todas as suas variantes, poderá derivar de Breo Saighead ou Breo Aigit, nome que incorpora bem todas as suas faculdades significando “Seta Ardente”, conforme o Glossário de Cormac. Brígida é a Deusa do fogo, e consequentemente dos ferreiros, do aleitamento/maternidade e dos bardos e sua inspiração poética. Brígida terá sido uma divindade transversal no povo celta. Encontramos o seu nome na toponímia de toda a Europa, inclusive em Portugal. Bragança, cidade portuguesa de Trás os Montes, terá a origem do seu nome na Deusa Brígida. Brigantia era o seu nome na Galécia pré-romana. O termo “Brigantino” teria o significado original de rei consorte da Deusa Briganti, consistente com o nome ou título Celtibérico encontrado em moedas cunhadas pronunciado Brin-Kan-Tin (Brigantin). Além disso, refiram-se ainda os rios Braint em Anglesey, País de Gales, Brent no Middlesex, Inglaterra 18

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e Brighid na Irlanda, bem como as tribos germânicas Burgandians, que deram o seu nome à região de Borgonha (Burgundy). Brígida, a Deusa, é ainda conhecida por outros nomes, dependendo das tribos e locais onde era adorada. Brigit, Brigid, Bride, Brigantia, Brig, Briga e Brighedd são alguns dos nomes pelos quais é conhecida. Ao explorar a vida de Santa Brígida de Kildare, deparamo-nos com várias semelhanças com a divindade celta, começando pelo seu nascimento, que terá ocorrido em finais do século V. Brígida, a mulher, seria filha de um nobre Irlandês pagão, Dubthach, e de uma escrava cristã do mesmo, Broiecsech, com o desagrado da esposa de Dubthach, que, assim que descobriu que a escrava se encontrava grávida, obrigou o marido a entregá-la a um Druida, que a acolheu e criou a criança que viria a nascer. Para os Celtas os limites eram sagrados: a linha de costa, a alvorada, o pôr do sol. Tudo o que se encontrava a dividir, a estabelecer limites era sagrado. Como tal, a Deusa Brígida terá nascido na alvorada do dia. Em consonância, e de acordo com várias bibliografias de Brígida, a criança terá nascido na soleira da porta da vacaria do Druida, mais um limite. Foi aliás lavada ao nascer com o leite das vacas do Druida. Mais tarde, a mesma criança rejeitaria qualquer alimentação que o Druida lhe dava, tolerando


apenas o leite de uma vaca branca de orelhas vermelhas. A explicação que encontramos para esta situação poderá muito bem ser o facto de a Deusa Brígida ser também a Deusa do aleitamento, tendo essa faculdade sido transferida para a santa Brígida. Também o fogo, que era uma das responsabilidades da Divindade, aparece associado à santa, nomeadamente no “Fogo Perpétuo de Brígida”, que 20 irmãs do convento de Kildare zelariam para que não se apagasse. Cada dia, uma das irmãs estaria de atalaia ao mesmo. Acontece, pois, que quando Santa Brígida faleceu o seu lugar não foi ocupado, mas, no dia em que o fogo não foi vigiado, ele não se apagou, daí ter recebido a designação de Fogo Perpétuo de Brígida. Também quando Broiecsech se encontrava grávida e a criança quase a nascer, há relatos de uma bola de fogo se ter formado sobre sua cabeça. Terá sido esse facto que levou o Druida a chamar-lhe Brígida, a Elevada, a Deusa do fogo? Encontram-se várias semelhanças entre Brígida, a divindade Celta, e Santa Brígida de Kildare, podendo ser interpretadas de diversas formas, sendo uma delas a cristianização de uma divindade pagã. Por outro lado, Brígida, a abadessa, tinha poder sobre os bispos da Irlanda, com excepção do patriarca, Patrício. Este facto leva-me a aventurar por uma conclusão perigosa, talvez: será que

Santa Brígida não é mais que o arquétipo feminino de São Patrício? Fica a dúvida na conclusão. Santa Brígida chegou até nós em Portugal através de uma relíquia sobre a qual se conta a seguinte lenda. Há mais de 650 anos, três cavaleiros irlandeses trouxeram para Portugal a cabeça de Santa Brígida e ofereceram-na a D. Diniz, que os recebeu com muito agrado e aceitou reconhecidamente o tesouro, decidindo que fosse colocado no Real Mosteiro de Odivelas. Os mensageiros partiram para Odivelas mas, no caminho, qual não foi o seu espanto e aflição ao ver que a relíquia tinha desaparecido misteriosamente. Pouco depois, contudo, foi encontrada ao pé da igreja do Lumiar, e o Prior sugeriu aos cavaleiros que o caso parecia intimação divina, para ali ficar guardada a Santa cabeça. Eles não se atreveram a violar as ordens de El-Rei e seguiram para Odivelas, onde entregaram o precioso fardo à Abadessa, que o recebeu com muita satisfação e respeito. No entanto, na manhã seguinte foi grande a desolação das Irmãs ao verificarem que a relíquia tinha desaparecido sem que se pudesse explicar a maneira por que se fora Ainda dessa vez a foram encontrar no Lumiar. fe v er eiro 2017 OPHIUSA

Nas páginas anteriores: St. Brigid's Well, em Kildare, Irlanda. Abaixo: Relíquia de Sta. Brígida na igreja do Lumiar, em Lisboa.

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O estranho acontecimento foi contado a D. Diniz que, em vista do duplo prodígio, ordenou que a relíquia ficasse definitivamente na igreja paroquial do Lumiar. E assim, há mais de 650 anos que a Cabeça de Santa Brígida ali repousa. Está encerrada num rico relicário de prata com uma das faces em cristal.

Antigamente a confiança nesta Santa era tanta que muitas mães davam o seu nome às suas filhas. Ainda no século passado se faziam romarias à Igreja de São João Baptista no Lumiar com o gado leiteiro, em que davam sete voltas à Igreja a pedir protecção e produção de leite. ■

Venho por Brigith

BRIGIT · BRIGID · BRÍDE · BRIG · BRÍGIDA · BRIGA · BRIGANTIA · BRIGID · BRÍDE · BRÍGIDA · BRIG · BRIGIT · BRÍGIDA ·

por Morgana da Lusitânia

S

alve Brigith, Senhora da Inspiração e do Fogo da Lareira! Salve Brigith, Senhora das Forjas e das fontes de água pura! “Ao que vens? — Venho por Brigith!” E com estas palavras se adentra o Templo no Nemeton Lusitano. Esta celebração é uma das mais queridas nas nossas almas. O Fogo brilha iluminando a noite invernal com o seu esplendor, aquecendo os nossos corações, trazendo de volta a esperança do Renascimento, da aproximação da Primavera. Cada membro compõe um pequeno ramalhete com as primeiras flores, que serão depois ofertadas a

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Brigith, num poço, numa fonte ou numa nascente. Os Narcisos, pequenos raios de sol que vão afastando as últimas geadas, inundam o Altar de cor, a par do verde dos Juncos com que se fizeram as Cruzes de Brigith. A uma só voz entoamos a Benção e a Linhagem de Brigith, a alma crescendo a cada palavra, a Presença Dela tornando-se mais forte, mais sentida. Em Sua homenagem, a Sacerdotisa oficiante coloca a Coroa de Fogo sobre a cabeça e, a passos lentos, vai passando por entre os presentes, a chama das velas na Coroa iluminando por breves momentos os rostos de cada um.


Na luminosidade quente das velas, num momento de profunda comunhão com a Divindade, sentimos a Presença de Brigith, o Fogo Sagrado crescendo dentro de nós, elevando-nos, enlevando-nos! Naquela hora, transformamo-nos em pilares que unem a Terra ao Céu. Ao ritmo dos Tambores entoamos o Hino de Brigith: “Quando as chamas subirem, do Fogo a brilhar. Chamo Brigith à terra, pra nos abençoar. Brigith, ó Brigith, a Tua Bênção Mãe, Faz os campos florirem, e o gado emprenhar. Ateia o fogo na lareira, faz a fonte jorrar. Brigith, ó Brigith, a Tua Bênção Mãe.” Os Tambores repicam, as vozes elevam-se poderosas, sustentadas pelo Fogo Sagrado que corre solto pelos nossos corpos. Gera-se um imenso vórtice de poder, um crescendo de força, de emoção, de comunhão com a Divindade! Segue-se então uma pequena meditação, em que cada participante é convidaddo a buscar Brigith “na profundidade do centro tranquilo do seu ser”. A energia da sala/Templo vai serenando, instala-se um brilho de esperança no olhar de cada um. Partilha-se o Pão e segue-se o banquete ritualístico. Na manhã de Imbolc, dirijo-me à “Fonte da Arregaça”, um lugar

antigo, perdido num dos últimos recantos da minha aldeia. Ali, entre Carvalhos, Loureiros e Salgueiros, vou-me aproximando da velha fonte; de tão antiga, o pequeno tanque que recebe a água está coberto de líquens, musgo e agriões. É nesse tanque que deposito a minha oferenda de flores e leite; é nessas velhas pedras carcomidas pelo tempo que me sento e, do fundo da minha alma, converso com Brigith, declarando-lhe o meu amor em algum pequeno poema que tenha composto para a ocasião. Deixo que os raios de sol me aqueçam, embalo-me ao som da brisa e do canto dos pássaros. Impregno os sentidos com o odor pungente da folhagem em decomposição e daquela terra tão abandonada, mas tão fértil, e deixo que o olhar se perca na névoa que se eleva do solo aquecido pelos primeiros raios de sol. E sonho… Por alguns minutos, o meu coração bate ao ritmo da Terra, o meu sangue flui em sintonia com a água da fonte. E, espraiando a vista pelas praias de arroz há muito abandonadas, relembro momentos de infância em que, ao lado do meu pai, fazia grandes pescarias naquele braço da Ria de Aveiro que se avista mesmo ali ao lado, sempre pronto a receber no seu seio a água da velha fonte. Só faltam os guarda-rios que na época povoavam as margens da nossa Ria! Saúdo Brigith, saúdo os velhos Carvalhos e peço licença para me retirar em paz. ■

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Introdução ao O

G

H

A

M

por Osvaldo R. Feres O QUE É OGHAM? Ogham (pronuncia­-se oh­am) ou Ogam é um sistema de escrita irlandesa de 20 letras (feda = letras, singular fid). Sua origem histórica é incerta, mas acredita­-se que surgiu antes do século V d.C. ao redor do Mar da Irlanda. Há teorias que indicam que foram os druidas (sacerdotes celtas) que criaram o Ogham para enviar mensagens secretas e mágicas. Contudo, há também outra linha de estudos que sugere que o Ogham foi criado por comunidades cristãs, que tinham como base o alfabeto latino e desejavam criar um alfabeto próprio para a língua irlandesa. A escrita Ogham foi empregada principalmente como marcas territoriais e memoriais em monumentos de pedras, escritos de baixo para cima.

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ORIGEM MITOLÓGICA De acordo com o manuscrito do século XIV Auraicept na n­ Éces, o Ogham foi inventado após a queda da Torre de Babel pelo rei cita Fenius Farsa. Fenius criou o idioma perfeito, ou seja, o gaélico, a partir de diversas línguas existentes e sua escrita o Beithe­luis­ nuin, isto é, o Ogham, nomeando cada letra a partir dos nomes de seus 25 companheiros. No tratado sobre Ogham (In Lebor Ogaim) o Ogham foi inventado por Ogma mac Elathan. Ogma é membro da Tuatha de Dánann (tribo de deuses irlandeses), e era descrito como hábil no discurso e na poesia. Alguns estudiosos veem em Ogma uma faceta do deus Ogmios gaulês. Neste mesmo manuscrito é dito que os nomes das letras do Ogham foram dados a partir de árvores ou arbustos.


LETRAS Segundo os manuscritos medievais, é atribuída a cada letra uma árvore ou arbusto e é por isso que a partir da idade média o Ogham ficou popularmente conhecido como o alfabeto celta das árvores. Porém, as origens das letras têm significados diversos e somente 6 letras possuem origem em nome de árvores. Segue abaixo o nome das letras em sua ordem original, a origem de seu nome, a árvore ou arbusto atribuído e a letra latina correspondente (as grafias podem variar).

Feda

Origem do nome Árvore/Arbusto

Letra

Beith

Bétula

Bétula

B

Luis

Chama/Erva

Sorveira-brava

L

Fearn

Amieiro

Amieiro

F

Saille

Salgueiro

Salgueiro

S

Nion

Forquilha

Freixo

N

hÚath

Horror/Medo

Espinheiro-alvar

H

Duir

Carvalho

Carvalho

D

Tinne

Lingote

Azevinho

T

Coll

Aveleira

Aveleira

C

Quert

Farrapo/Arbusto

Macieira

Q

Muin

Amor/Pescoço

Videira

M

Gort

Jardim/Campo

Hera

G

nGétal

Ferir/Perfurar

Junco/Giesta

nG

Straiph

Enxofre

Espinheiro-negro

Ss/Z

Ruis

Vermelhidão

Sabugueiro

R

Ailm

Desc./Gemido?

Pinheiro/Abeto

A

Onn

Freixo

Tojo

O

Ur

Terra/Solo/Argila

Urze

U

Eadhadh

Desconhecido

Álamo-tremedor

E

Iodhadh

Desc./Teixo?

Teixo

I

O Ogham é dividido em 4 grupos de 5 letras, esses grupos conhecidos como aicmí (famílias, no singular aicme) são nomeados pelas primeiras letras do grupo, ou seja, Áicme Beith, Áicme hÚath, Áicme Muin e Áicme Ailm. Posteriormente foi adicionado mais um grupo de letras/ditongos conhecido como Forfeda.

Feda

Origem do nome

Árvore/ Arbusto

Letra

Ébhadh

Desc./Salmão?

Álamo-branco EA

Oir

Ouro

Hera/Evônimo-europeu

OI

Uilleann

Cotovelo

Madressilva

UI

Iphín

Espinho

Groselha

Eamhancholl

Gémeo da Avelã Faia

IA AE

USO ORACULAR E MÁGICO Acredita-­se que as várias formas de escrita Ogham presentes no Livro de Ballymote tenham sido utilizadas para fins mágicos, como amuletos e talismãs, e também como oráculo, para prever acontecimentos futuros ou revelar segredos. Há uma passagem muito interessante no texto Tochmarc Étaíne (Cortejo de Etain) que sugere que o Ogham foi utilizado como oráculo: “O druida fez quatro varinhas de teixo e sobre eles escreveu Ogham. E pelas chaves de sua sabedoria poética e através do Ogham, ele revelou que Etain estava no Sídhe de Bri Leith, levada por Midir.” É somente no século XX, através do livro de Robert Graves, A Deusa Branca, que o Ogham se populariza como oráculo entre os neo­pagãos. A partir da década de 90, com o movimento Reconstrucionista Celta e o trabalho de Erynn Rowan Laurie, são resgatadas as raízes históricas e espirituais do Ogham, afastando-­se das fantasias defendidas por autores New Age. ■ fe v er eiro 2017 OPHIUSA

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© Meinolf Wewel

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EIST EDD FOD O único mistério no universo É haver um mistério do universo. — Fernando Pessoa

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Eisteddfod

A HISTÓRIA DA MENINA QUE NÃO TINHA UM NOME Era uma vez cinco amigos que habitavam o Planeta Azul e foram convocados pelo deus dos pés alados para passarem três dias numa casa secreta, numa floresta verdejante e longínqua. Cada um veio do Leste, do Oeste ou do Sul e, no dia e hora combinados por Cronos, viajaram pelos braços da Mãe Terra até chegarem ao local. A noite descia, mas na clareira da floresta verdejante e longínqua, a fachada da casa brilhava à luz branca da Lua cheia. No escuro, a coruja avisava Fadas, Duendes, Ondinas e Gnomos, Salamandras e animais mais distraídos da chegada de humanos àquela porta do Locus Sigilli — o local do selo inquebrável e eterno. A brisa mensageira transportava o recado e convocava os elementos seus irmãos. Cada um dos quatro amigos possuía um nome secreto com que podia entrar e sair da mágica floresta. Mas essa magia duraria apenas três dias, e, durante esse tempo, cada um deles teria de enfrentar um desafio. Na noite do primeiro dia, foi a vez de um deles enfrentar a voz da chuva que o não deixava adormecer. Era preciso estar alerta! A um outro sucedeu que o bouquet de aromas da Senhora da Floresta lhe causou forte alergia e irritação nasal. Era preciso limpar e purificar! Houve então um outro que, esquecido da lição do fogo, se queimou ao pegar numa pedra incandescente. Era preciso recordar! E havia a outra menina que contava histórias na noite, ao crepitar do lume, entrelaçando os fios do tempo. Era preciso sentir! E, por fim, a outra menina de olhos de Lua, que gostava de histórias de encantos, que a todos ouvia e com todos brincava, mas que não tinha um nome.

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Restava à menina que não tinha um nome entrar na roda e enfrentar o seu próprio desafio: descobrir o seu nome. Era preciso intuir! Os seus quatro amigos resolveram juntar-se num círculo mágico e, com todo o cuidado e carinho, preparar-lhe uma festa surpresa, só para que ela pudesse escolher o seu nome. E, se bem o pensaram, melhor o fizeram. E no segundo dia mágico, prepararam a sala mais bonita da Casa da Floresta, a que tinha as paredes cheias de pegadas de árvores, com portas e janelas que se abriam para o bosque das Fadas. Sentada no cálice de um Lírio perfumado, a Fada das Flores secava as suas asas do orvalho da manhã, quando um dos meninos que saíra para procurar uma flor para a festa lhe pediu: – Por gentileza, pode dar-me um cálice perfumado? Preciso dele para enfeitar a mesa da nossa amiga. Prometo que lhe trago um presente! E, de bom grado, a Fada saltou para o chão e o menino colheu o Lírio perfumado. Na Casa da Floresta todos vestiram o manto que os tornava invisíveis e ataram na cintura o cordão do tempo; era com ele que podiam voltar de novo ao mundo dos Homens. E a menina sem nome ficou sentada no seu quarto, esperando que a sua Madrinha a fosse chamar para a festa. Ela sabia que lhe preparavam uma surpresa, mas surpresas não se desvendam antes do tempo! – Escolhe um nome mágico para com ele poderes abrir a porta do teu coração. Mas não tenhas pressa! Demora o tempo que precisares – disse a Madrinha, pois nunca se deve apressar ninguém quando se está a escolher o nome que vai abrir a porta do nosso coração.

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Eisteddfod

E a Madrinha saiu, batendo suavemente a porta do quarto, deixando a menina entregue aos seus pensamentos. E eram tantos! Na sala de pegadas das árvores, a azáfama era muita. Os quatro amigos queriam que a menina tivesse uma festa linda e, por isso, convidaram todos os seres de Luz, todos os habitantes da floresta. Convidaram a terra, a água, o fogo e o ar. Prepararam o pão e o hidromel. A todos foi dada uma função. E ao cão, por ser fiel e protetor, foi dada a função de guardar a porta. Que ninguém perturbasse aquele momento sagrado! À hora certa, foi a Madrinha ao quarto e trouxe a menina pela mão. Em silêncio, como convém nestas horas. E ambas aguardaram, caladas, e aquecidas pelo fogo e confortadas pelo crepitar do lume. Ia alta a manhã, quando o Tempo trouxe o Conselheiro, vestido no seu manto invisível. Este desenrolou o pergaminho oculto, pronunciando as palavras de mistério e, de imediato, o cão se deitou a seus pés. Passaram pela entrada, a menina e a Madrinha, fechando-se atrás de si, as portas e os planos. Lá dentro sentaram-se os cinco e, cada um por sua vez, ficou alerta, foi-se lembrando, e foi sentindo e se foi limpando e purificando o seu coração. Cada um evocou o seu nome mágico e, com ele, o seu coração inundou-se mais e mais de um Amor Puro por toda a Terra, por todos os seres que habitavam aquela floresta e os tornava irmãos, sem mácula. Dos lábios da menina um som brotou e, desde essa hora, a menina sem nome passou a chamar-se o que o seu coração dizia. As luzes brilharam, velas das cores de cada quadrante se iluminaram, o perfume do Lírio inundou a floresta e, dos braços de cada árvore, penderam frutos e flores, bagas e bolotas, cada uma ofertando o que tinha na sua natureza.

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Cantaram as águas das fontes, dançaram as folhas esvoaçando até ao chão. Foi grande a alegria na floresta e assim se passou o dia, em sorrisos e oferendas. Depois, todos se sentaram junto à lareira. E, de mansinho, ao som do lume que os aquecia, despidos, agora, dos seus mantos invisíveis, mas cobertos pelo manto da noite que descia, partilharam histórias sem tempo. Histórias que sempre começam com “Era uma vez…”. Quando a noite se adensou, cada um se retirou para os seus aposentos, levando a menina consigo, o nome que lhe abria a porta do seu coração. Mas ao terceiro dia, a magia findou, a floresta voltou ao seu lugar, cada um dos seres que ali estivera regressou ao lugar de onde proviera, e os cinco amiguinhos, regressaram aos seus reinos, guardando para si toda a magia que os seus olhos e ouvidos tinham vivenciado. Não partiram as Fadas sem antes aparecerem junto dos cinco amigos, prometendo-lhes que o fogo sempre se manteria aceso, mesmo que o vento parasse de soprar ou a água lavasse a terra, e que eles jamais se esqueceriam da entrada do portal. Dizem que o cão ainda lá está, quieto e firme, pois o seu trabalho é guardar o segredo. E aqui termina a história da menina que não tinha um nome, mas que agora já tem! Por isso, se um dia uma Fada te der um nome, guarda-o e não o reveles a ninguém. Nunca se sabe o poder que um nome mágico encerra! Cecília Garcia

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Eisteddfod Somos instantes que existimos no tempo, e vivemos no não-tempo Aqui e Agora... Ollem

A MULHER

ODE À TERR A

Qual Vénus nasces numa concha No céu te elevas em crescendo Te mostras como virgem sem mancha Com tua sensualidade amadurecendo

Mas quem sou Eu, perguntas tu… Eu sou a tua Mãe que mata a tua fome Eu sou a tua irmã que sacia a tua sede Eu sou a tua amante que te acolhe no seu leito Se eu sou todas aquelas que amas Porque me maltratas tanto? Dos meus mares pescas o peixe que te alimenta Dos meus campos brotam as plantas que te nutrem Dos meus rios sorves a agua que bebes Das minhas florestas cortas a madeira que te aquece Do meu solo obténs as pedras que te abrigam Se tudo isto eu te cedo, para que percorras o teu caminho Porque me maltratas tanto?

Com a luz do teu manto nos cobres Com o teu leite nos alimentas Com a tua força nos proteges És a Mãe que não foge das tormentas A sabedoria ocupa o espaço Que outrora foi voluptuoso Segues o caminho passo a passo Enquanto anciã, aguardas o repouso Chamam-te Dana, Brigit e Grainne Qualquer que seja o nome és a Deusa Mãe A que nos dá a vida, nos guarda, nos alimenta e nos Ama És a Mulher )O( José Alexandre Frazão Matos

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José Alexandre Frazão Matos


IMBOLC escuta o clamor da Mãe — é o clamor das águas águas de trovões e granizo águas de um ventre esperançoso escuta a voz da Mãe — é uma voz de chamas cintilantes chamas da forja onde se faz da alma ouro chamas de ardor e inspiração escuta o suspiro da Mãe — é o suspiro dos ventos eles movem-se dentro de nós eles seguem além e apesar de nós a Mãe está em dor consegues ouvir? dela veio todo o sangue e a seiva das árvores os seus ramos e suas irreparáveis feridas os seus anéis de fogo os círculos da vida e da morte

escuta o clamor da Mãe — é o clamor urgente do Abismo despe os cacos da tua antiga pele densa como o teu desamor densa como a tua escuridão o caminho da Serpente está novamente livre — segue-o com todo o teu corpo segue todo o teu corpo pelo chão molhado e que a Terra devore as tuas memórias de falsos ídolos que te deixe tão anónimo quanto o gado hoje recém-nascido amanhã vítima certa porque a Mãe está em dor e da sua a Dor fará todas as coisas novas Sabedoria e Caos Sabedoria nascida do Caos. Fábio Barbosa

Sabedoria e Caos Sabedoria vinda do Caos

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Eisteddfod

QUEM É EL A? Quem é ela de cujo caldeirão vertem sabedoria e inspiração? Quem é ela que protege os poetas e os bardos, meus irmãos? Ela é aquela do tríplice fogo, da forja, da cura e das Artes. É a chama do fogo da casa. Rainha da adivinhação e profecia.

Mantenham-se puras as águas dos poços! Mantenha-se forte o leite das mães! Mantenham-se plenos os animais e os grãos! Que após a Lua do Gelo, o sol retorne! Que a tua vassoura varra o que veio, para que o que ainda vem, chegue abençoando a terra. Salve, Ceifeira!

Brigit, a luminosa, a bela, protetora de bardos, ferreiros, reis e guerreiros. Mestra das plantas e curas. Abençoa, Mãe, a minha mão, minha forja, meu tear e minha lança. Que a chama sagrada ilumine, aqueça e guie meu coração, minha boca e meus pés.   Fertilidade para a terra, para o ventre e para a mente! Proteção e cura para o mundo e para as gentes! Mantenham acesas as fogueiras para que não nos percamos dos velhos caminhos!  

Que os contos e as canções nunca sejam esquecidos! Que as línguas e as espadas nunca percam o seu fio! Que nossa tribo permaneça unida! Salve, Senhora dos Bardos! Pela vida e pelo universo, sempre em movimento! Pela Espiral, desde o fundo da terra ao infinito céu. Pelo Caminho do Carvalho e pelos Mistérios! Salve, Senhora das Sementes e Grãos!   Agradecemos as tuas bênçãos! Salve, Senhora minha! Salve, ó Filha do Dagda! Ynis Epona

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A BRIGA Tu, Senhora conhecida por muitos nomes, Brígida, Briga, Brigantia... Mas que és só Uma, E que abrigas, No calor do teu seio, Os Poetas, concedendo-lhes a tua Inspiração, Os Ferreiros, concedendo-lhes a tua Arte, E os Curadores, concedendo-lhes o teu Dom, Inspira as nossas vidas, Ajuda-nos a descobrir a Arte do nosso Ofício, Ensina-nos a Curar as nossas feridas, Para que possamos inspirar, como os Awenyddion de outrora, aqueles que vêm até nós, Para que possamos entregar a nossa Arte ao Serviço do Bem e do Belo, E para que possamos trazer Conforto e Cura àqueles que sofrem. A ti te rogamos, Senhora Honra-nos com a tua Presença, Concede-nos a tua Benção. Alexandre Gabriel

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TRÍ DE

Três coisas nunca têm fim: o florescer da caridade; a alma; o amor perfeito.

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Eventos Março Dia 18 | 19h30 | Casa do Fauno, Sintra Palestra A Roda do Ano Celta - Equinócio de Primavera com José Alexandre Frazão Matos.

Abril 29 Abril - 6 Maio | Borgonha, França Assembleia de Beltane organizada pela OBOD França por ocasião do tricentenário do renascimento druídico, com a presença de Philip e Stephanie Carr-Gomm. Contactos: saille.tuteur@yahoo.fr

Junho Dias 2 a 4 | Glastonbury, Reino Unido Datas previstas para a Assembleia de Verão da OBOD. Mais informações em breve nos meios de divulgação oficiais.

Blogues Recomendados Nawfed Pwer www.nawfedpwer.com Uma biblioteca dedicada aos conhecimentos dos antigos e novos druidas.

Irmandade Druídica Galaica www.durvate.org Associação religiosa formada por membros da tradição druídica galega.

Ogham - Oráculo dos Druidas oghamoraculo.blogspot.com.br Página sobre o alfabeto de origem celta Ogham e a sua aplicação oracular.

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Última

Contamos com a sua ajuda para fazer a próxima Ophiusa! O que motiva o seu percurso pessoal? Como tem vivido o seu druidismo no dia-a-dia? Sobre que gostaria de falar?

O número 2 sai em Maio — Beltane no hemisfério Norte, Samhain no Sul. Como vive estas estações? A que precisa de se re-ligar nesta altura da sua vida? Participe. Esta revista é sua.

Os textos para publicação têm um limite máximo de 1000 palavras. Pedimos que quaisquer fotografias ou ilustrações sejam fornecidas em máxima resolução. Todas as contribuições estão sujeitas a selecção e edição. Envie a sua proposta para o endereço de e-mail ophiusa@obod.com.pt

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Ophiusa n.º 1 — Fevereiro 2017  

Ophiusa n.º 1 — Fevereiro 2017  

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