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9 de julho de 2010 www.operumolhado.com.br Edição 971 • ANO XXX

Anibal Fernando

Auto-retrato de Anibal Fernando. Coleção Miriam Danowski

1946 - 2010

O MAIOR JORNAL

BÚZIOS

Denis Kuck Etevaldo Dias Mônica Casarin Hamber Carvalho Sandro Peixoto Abigail Vasthi Schlemm Marcelo Lartigue Sérgio Fleury Miriam Danowski Lulu Martinho Isac Tillinger Zé Itajahy Ancelmo Gois Valdete Rangel Octávio Raja Gabaglia Hugo Desmaziéres Heitor Simões André Martins Ernesto Galiotto e toda equipe do Perú

Um jornal cego, surdo e mundo


Anibal foi primeiro

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omo na redação do Perú só tem sádico e masoquista, resolvemos meses atrás fazer um ‘bolão’ para saber quem morreria primeiro. Na ocasião, Marcelo Lartigue estava mais pra lá do que pra cá. Teve que ir a Cuba se tratar. Claudio Kuck não estava nada bem e Aníbal já despertava preocupações. Sandro Peixoto até que estava melhorzinho que o resto, mas como para morrer basta estar vivo, também entrou na aposta.

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Quem morreria primeiro? Essa foi a grande questão. Marcelo Apostou em Cláudio Kuck. Aníbal jogou suas fichas em Marcelo. Já Kuck apostou em si mesmo e assinou um documento deixando para os filhos Ivan e Denis o prêmio da aposta. Sandro Peixoto (em quem ninguém acreditava) apostou no Aníbal e ganhou o Bolão. Agora restam três na fila. Alguém quer fazer uma fezinha...

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Aprendi a não A vida de Aníbal fazer jornalismo foi uma fascinante reportagem com o Aníbal Por Etevaldo Dias, amigo e discípulo

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que ele disse para nós darmos era insuficiente e os cavalos fugiam atrás de alimento. Depois da Rasa, Aníbal foi com Miriam, para Geribá. Levaram Tapete e o a weimaraner Gilda juntos. Adorava os dois. Foi nesse lugares também que aprendi que Aníbal era um excelente cozinheiro, como bom português. Preparava dobradinhas, lagostas, peixes, polvos... A única redação do mundo que tinha uma rede de dormir no meio

Por Denis Kuck

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esde pequeno, freqüento Búzios. Lembro claramente da minha primeira vez: 1986. Isso porque na ocasião fomos com o Aníbal para a tradicional Festa de Sant’Anna, que na época era bem melhor do que é hoje. No evento, ganhei, não lembro de quem, uma pequeno souvenir turístico com a data desenhada. Eu tinha apenas seis anos e era levado para o balneário por meu pai, Claudio Kuck. Lembro que João Fernandes tinha apenas uma barraca tosca, do Damásio. Geribá ,poucos quiosques, como o da Chiquinha, bem no meio da praia. Era comum minha família passar o dia por lá e almoçarmos uma anchova grelhada na varanda da casa dela, que ficava em frente à praia. Bons tempos! Sempre nos hospedávamos na casa do Aníbal. Primeiro, nos Ossos. Depois, ele se mudou pra Rasa. Ficava numa espécie de fazenda em pleno balneário, que tinha até cavalo e galinha. Ele dizia até que ia comprar um elefante. Eu, criança, sempre acreditei e estou esperando até hoje. A casa era escondida, no meio do mato. Na primeira vez que fomos pra lá era de noite, chovia, precisamos de quase duas horas pra achar o lugar, uma loucura! Aquele sítio rendeu boas histórias. Aníbal cismou em criar um lago artificial, que nunca deu certo e só servia para atrair mosquitos. Aliás, ele tinha uma técnica um tanto quanto estranha para se livrar dos insetos: deixar as janelas abertas para o vento entrar e espantar os bichos. Claro que não dava certo. Sem proteção nenhuma, repelente, refil e afins, lembro de ter passado naquela casa uma das noites mais terríveis da minha vida. Hoje, virou folclore. Também lembro de sair de charrete com Aníbal pela Rasa e de conhecer a Ponta do Pai Vitório, praizinha só conhecida por locais. Uma vez, ele e Miriam, sua então mulher, viajaram e deixaram a cargo do meu irmão, Ivan, e de mim, a tarefa de alimentar galinhas, cachorros e cavalos. Todo dia, os eqüinos (se chamavam Catarina, Xerém e o outro eu esqueci) fugiam do sítio e precisávamos andar a Rasa inteira, na companhia do Tapete, um pastor belga, atrás dos animais. Era um sufoco. Depois é que nós reparamos que a quantidade de ração

Em 1993, meu pai comprou sua residência em Geribá e passamos a ficar por lá. Aí eu comecei a construir minha própria história em Búzios. Levava dezenas de amigos, tomava porres, pulava o muro da rua pra entrar no meu quarto, freqüentava a praia, ia na Búzios 40 graus, fiz jornalismo, virei colaborador do Perú... Já nessa casa, lembro de um dia engraçado: eu, Aníbal, meu pai e sua namorada da ocasião estávamos por lá. Meu pai e a namorada iniciaram um discussão. Aníbal e eu, alijados da escaramuça, pegamos o carro do meu pai e fomos para o Bar da Beth. Pegamos não, roubamos. Aníbal nunca dirigiu e não tinha carteira. Assim como eu, que era menor de idade. Não sei como, com eu no volante, conseguimos chegar no Bar da Beth, na outra ponta da praia. Um absurdo! Quando estava na faculdade, um professor pediu para eu fazer um perfil de um jornalista. Todos os alunos, caretões, fizeram de figurinhas manjadas. Eu não tive dúvida: fui para Búzios e entrevistei o Anibal no Cheval Blanc. O perfil ficou ótimo, recuperei sua vinda para o Brasil, seus tempos de Rio de Janeiro, Santa Tereza, Cruzeiro, Folha, JB, Globo, futebol de botão e pingue-pongue. Lembro que ele e Miriam disseram que foi a melhor coisa que já escreveram sobre Aníbal. Ganhei dez do professor . Malandro, algum tempo depois, entreguei o mesmo perfil para outra matéria da faculdade, que pediu o mesmo tipo de trabalho. Tinha umas quatro páginas. Pena que perdi, devido a mudanças de casa e de computador... Com certeza eu conheceria Búzios se não fosse Aníbal. Mas com certeza eu não conheceria Búzios com a profundidade e o carinho que eu conheço hoje se não fosse o Aníbal. Além disso, com ele, eu acompanhei o crescimento (ôpa) do Perú Molhado. Suas capas loucas, as muitas redações por onde passou. Lembro que em uma delas tinha até uma rede. Aposto que foi a única redação do mundo que tinha uma rede de dormir no meio. Com ele, passei a ver o jornalismo como uma coisa irreverente, engraçada, cheia de aventura e histórias incríveis. Suas conversas eram sempre divertidas. Até hoje, sempre que eu penso em jornalismo, eu tenho no sangue as lições do Aníbal e do Perú. Deve ser por isso que eu acho maioria das redações e matérias que vejo por aí um porre. Claro, eles não aprenderam com o Perú... Já eu, posso dizer com orgulho: aprendi a não fazer jornalismo com o Aníbal.

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astava subir alguns degraus do antigo prédio da Rua Santa Clara, em Copacabana, e se avistava a janelas azuis com cortinas brancas, do acolhedor apartamento do Aníbal e da Magá. Era como se eu chegasse a minha casa. Morava em um quarto da pensão da dona Hermínia, no Catete, e vivia carente daquele ambiente familiar da casa do amigo. Comida caseira, cerveja gelada, música e televisão e a fascinante conversa do Aníbal, luxos valiosos para um jovem morador de pensão. Aníbal, Cláudio Kuck e eu éramos amigos inseparáveis naqueles difíceis anos, de 1967 e 1968, em plena ditadura. Conheci Aníbal na revista O Cruzeiro, que passava por um período de renovação, talvez a mais séria tentativa de resgate de sua história. Éramos um grupo de jovens cheio de idéias trabalhando lado a lado de cobras, verdadeiras legendas do jornalismo dos anos 50. Convivíamos bem no trabalho, apesar de sermos jornalistas de gerações distantes, de idéias bem diferentes e, seguidamente, divergentes. A mistura de gerações deu certo e a revista ganhou fôlego, apesar das graves dificuldades gráficas e financeiras. Não me formei em jornalismo, aprendi na prática das redações. Aníbal e Cláudio Kuck foram meus mestres. O Aníbal tinha a alma do repórter, era cavador de notícias, bom de pauta, gostava de viagens e da cobertura policial. Era doido por um furo. Lembro-me que, quando chefe de reportagem da Folha de São Paulo, no Rio, perseguiu durante semanas uma matéria sobre o misterioso desaparecimento de um trabalhador dentro da fábrica da Coca Cola. O homem havia entrado no trabalho e dele jamais saiu, pelo menos na versão da família. Nunca se soube o que realmente aconteceu, mas levantaram-se as suspeitas mais sensacionalistas, inclusive que teria sido afogado e derretido nos tonéis da Coca. Matérias que, claro, geraram lendas urbanas entre os cariocas. Aníbal vibrava com as matérias e suas versões na boca do povo. Muitos anos depois, eu já morava em Brasília, fui coordenador de um caderno especial de O Globo sobre as “Novas Fronteiras” da Amazônia. Era época do “Brasil grande”, dos governos militares. Rasgava-se a rodovia Transamazônica, construíam-se agrovilas, enfim, a política desenvolvimentista ocupava apressadamente a Amazônia. Naquele tempo as preocupações ambientais não estavam na agenda e as ONGs não tinham força para impedir o ímpeto “progressista” do crescimento vertiginoso brasileiro. O pa-

ís crescia a olhos vistos, comparáveis aos da China de hoje. Aníbal vibrou com o projeto. Tirou férias na Folha e partiu para a Amazônia. Trouxe reportagens reveladoras sobre aqueles tempos de ocupação desenfreada das florestas. Nesta viagem encontrou um dono de embarcações na Amazônia que se chamava Nilçon, com cedilha mesmo, profundo conhecedor das manhas dos rios da região. O homem era um livro de aventuras. Contou que um navio estrangeiro havia encalhado no rio amazonas e não havia quem conseguisse salvá-lo. A seguradora chamou rebocador potente para desencalhá-lo, e nada. Já davam o navio por perdido quando Nilçon ofereceu seus serviços para salvar o barco. Nem a empresa de navegação, nem a companhia de seguro acreditavam que aquele matuto pudesse salvar o navio. Mas como já davam por perdido, aceitaram a proposta. E aí entrou a manha, experiência e sabedoria do mestre do rio: invés de tirar o navio da ilha tirou a ilha do navio. Usou dragas, pás, picaretas e alguns dias e seus homens desmontaram a ilha que prendia o navio. Sempre que me defronto com problema que parece insolúvel, lembrome da história do Aníbal recomendo: tirem a ilha. Uma lição de vida que a sensibilidade humana de Aníbal Fernando captou certamente tomando cachaça com o Nilçon, em alguma birosca às margens do Amazonas. Aníbal era repórter nato e um refinado artista plástico. Nos anos 80, quando morava em Búzios, fez uma exposição de seus quadros e objetos na Sala Funarte em Brasília. Tenho dele estojos de madeira com intervenções delicadas com lâminas. Soube que Aníbal repousa em colina com vista para o mar em Búzios. Não sei se esta quietude lhe fará bem. Posso apostar que ele estará sempre por perto, com seus bigodes, ar sacana e risadas ruidosas, gozando o Marcelo no aperto do fechamento do “Peru Molhado.

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Um brinde Mestre! Por Mônica Casarin

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e lembro d a cena como se fosse hoje. Meu primeiro dia de trabalho no jornal O Peru Molhado, Aníbal me pega pelo braço, pede à Nélia seu copo de uísque, e me diz: “vamos sair, vou te mostrar como fazemos, aqui em Búzios”. Olhei para o Marcelo, a Mirian e Nélia, que tinham um sorriso maroto nos lábios. Obediente, segui o ‘chefe’. Andamos alguns metros, e na Rua das Pedras, nos sentamos no meio fio. Olhei para ele com cara de quem não estava entendendo nada. Ele, com cara de sério: “Vamos sentar aqui um pouco!”. Ok, disse eu, pensando que aquilo era a maior maluquice que já tinha visto na vida. Eu, jovem idealista, vindo de outros trabalhos em cidades grande, como Brasília e Rio de Janeiro, achava tudo muito surrealista, mas fiquei na minha... afinal era o meu primeiro dia no tal “O Peru Molhado”. O que esperava eu de jornal com aquele nome, afinal. Ficamos lá sentados, por um bom tempo, ele no uísque, eu na cerveja... papeando. Passava um, ele cumprimentava, me apresentava e contava um monte de história do sujeito. Passava outro, parava um pouquinho com a gente, mais histórias e se ia... Fui ficando animada com aquilo, é bem verdade que a cerveja ajudou no ânimo. De repente, um gato passa correndo e sobe em uma árvore, bem na nossa frente. Ficamos lá olhando o bichano. Daí a pouco vem a dona procurando o gatinho, que lá de cima, miava querendo descer. A dona chamava o bichinho... e nada dele descer. Foi aglomerando gente em volta! Uns tentavam subir na árvore, sem sucesso. Outros tentavam acalmar a dona, e tinha aqueles que ficavam gritando para o gatinho “pula... pula...”. Uma comédia! E nós dois lá sentados, bebericando nossos drinks, só observando a muvuca. Já para o meio da tarde, depois de muito tentarem descer o bichano, alguém teve a genial idéia de chamar o corpo de bombeiros. Nós lá, sem almoço... Já no fim da tarde, os bombeiros salvadores chegaram, vindos de Cabo Frio. Entram pela Rua das Pedras, com a sirene ligada, fazendo aquele barulhão. Param o carro, analisam a situação e decidem usar a escada para salvar o gatinho. O bichinho, já cansado, nem miava mais. Assim que o bombeiro desceu com o gato na mão, a galera foi ao delírio. Aplausos e gritos de “Viva o gato, viva os bombeiros, viva Búzios...”. Eu, estupefata com aquilo tudo olhei para o meu Aníbal. Ele com um largo sorriso, tomou um gole e disse: “Tá vendo repórter. Aqui em Búzios é assim. O bom jornalista sabe que basta esperar que a notícia vem ao seu encontro”. Alvoroço terminado e lição aprendida, voltamos à redação do jornal. Peguei minhas coisas e fui para casa animada. Dia seguinte, volto ao trabalho. Sento em frente ao computador e começo a narrar a grande aventura do dia anterior. Encerro a matéria feliz com aquela experiência e entrego a história (muito menos prolixa do que esta) para o Aníbal ler. Ele, lê tudo de cara fechada. Quando termina, olha para mim e diz em pezar: “Esta é a maior merda que já li. Para quê gastar tanto tempo e espaço para contar uma história tão simples? O bom jornalista é aquele que sabe contar uma boa história em poucas linhas. Assim, o leitor vai parar de ler na metade”. Chocada, olhei para ele com vontade de chorar, mas me contive. Afinal, pensei, eu tenho é muita sorte. Aprendi duas belas lições em apenas dois dias de trabalho. Refiz tudo, e fui para casa feliz da vida. Os três anos seguintes em que tive a sorte de aprender com o ele, foram uma grande experiência para mim. Ele e Marcelo, apesar de não terem os mesmos ideais que tenho, foram os meus melhores mestres. Me doeu muito perder um deles. Lamento, ainda, que outros jovens jornalistas não terão a mesma sorte! Um brinde ao mestre Aníbal!

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E Aníbal se foi... Por Hamber Carvalho

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m pouco da estória dessa cidade vai junto com Aníbal para o reencontro do “do pó nasci, ao pó retornarei. Ele e Marcelo Lartigue que também já está com meio corpo no pó, basta um leve assopro, foram protagonistas de um estilo de imprensa cunhado nas loucuras curtidas há 30 anos e que só no universo, na lógica e na dimensão de Búzios foi, e será possível imaginar, desenvolver e mais do que tudo, sobreviver enquanto estilo de tornar público os fatos arrematados no cotidiano. Num de seus artigos, em que fazia fortes críticas ao Partido dos Trabalhadores de Búzios, há pelo menos 12 anos atrás, tive o ímpeto de rachar Aníbal na porrada por sua arrogância e sua insurgência contra uma Instituição que eu julgava inabalável. Ainda bem que segurei minha onda e tive o desprazer mais tarde de ver as ratazanas roerem as bases da construção do Partido e, assim, dar razão a Aníbal. Como jornalista e como cidadão, Aníbal é um soldado a menos na resistência contra a metropolização de Búzios, invadida que foi na última década, por neurastênicos, intelectualóides de merda, sociopatas, políticos feitos nas coxas, surtados, tarjas–pretas, PMD’s, bichas mal amadas e resolvidas e outros cancros que se escondem atrás de seus impecáveis papéis sociais e solapam toda a simplicidade, o despojamento e o laissez faire que a todos nós atraiu para a vida na península. Como um ícone dessa cidade, Aníbal merece uma estátua de bronze na calçada que já foi a sede do Perù em frente à Praça Santos Dumont, para que os gringos e os visitantes de todas as partes possam conhecer “um de fora”que ajudou a construir a memória desta cidade. JK passou por aqui rapidinho e ganhou o bronze, São

José que nem aqui esteve levou o metal com praça e tudo no PU, isso sem contar os Fox paulistinhas birutas como sempre que ganharam duas homenagens. É Aníbal, vê se você encontra por ai nosso saudoso parceiro Marcio Werneck, carreguem na mão e inspirem essa rapaziada nova que se aventura na arte de traspor para o papel o cotidiano de Búzios, a cultivarem o profissionalismo, o respeito, a ética e a independência da política suja. Só prá não esquecer, coloquem suas energias para vibrarem positivamente e ajudem a afastar para bem longe de nossa região, os espíritos de porco, os doentes de todo gênero e os desajustados sociais dos nossos meios de comunicação.

F Letra Morta Por Sandro Peixoto

oi o jornalista Aníbal Fernando quem me deu força para começar a escrever no Perú Molhado. Desde cedo sonhava escrever num jornal. Um dia, estava com Marola e Aníbal bebendo uma cerveja na Rua das Pedras, quando o assunto veio à tona. Aníbal me deu uns trocados e me deu uma ordem: vai à papelaria e compra blocos de papel e canetas. Comprei tudo o que ele pediu, mas fiquei receoso. Temia não saber construir um texto para jornal. Até hoje temo. Nunca fomos amigos próximos. Me identifico mais com o Marcelo. Porém gostava de Aníbal. Admirava seu estilo literário. Admirava e tinha uma inveja saudável. Lamento sua morte precoce.

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“CANTIGA PARA

UM AMIGO AMADO” Lá se vai mais um pedaço de Búzios ... Uma lágrima muito triste Ficou triste aqui comigo. Uma nuvem meio estranha Tomou conta da cidade Nesta manhã de domingo. O Anibal foi-se embora Assim, sem avisar, Sem pedir licença, Sem se despedir, E pra nunca mais voltar. Aníbal era assim, Um amigo imprevisível: Um dia “triste de não ter jeito” Noutro, alegre como criança. Um dia manso, um lago ... Noutro dia um vulcão Explodindo de paixão, Ou cuspindo marimbondo. Mas sempre cheio de sonhos : Sonhos sonhados, vividos, Realizados, falidos, Sonhos possíveis, impossíveis, não importa. Sonhava por profissão. Amigo querido, era culto. Viajou muito na vida Por esse mundo afora. Nasceu em Portugal Mas parou aqui em Búzios. Aqui plantou seu amor, sua dor, sua raiz (Acho que nem foi feliz) Mas brilhou, brigou, amou Foi amado, fez, desfez E agora foi-se embora Seu bigode português Foi se encontrar certamente Com seu xará cartaginês No Olimpo, No céu, num bar qualquer, fiel freguês. Aqui em Búzios jus fez Ao nome que lhe foi dado. Deixou prá gente de herança, Além de sua lembrança, Seu jornalzinho safado. Búzios lhe deve muito ! Anibal, muito obrigado Por tudo ! E pelo Peru Molhado Abigail Vasthi Schlemm

Eu sempre brinquei que se morresse antes do Anibal, eu me matava. Carregando seu caixão no domingo à noite, a brincadeira acabou. (Marcelo Lartigue)

Anibal, editor dele mesmo Por Miriam Danowski

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ngana-se quem pensa que pode “editar” o Anibal, só porque ele se foi. Impossível separar o joio, do trigo. Mesmo porque o editor sempre foi ele. Sobretudo, de sua própria vida. Rangia os dentes, quando tentavam “endireitá-lo”. E justificava: “Sou um anarquista de centro. Com um agravante – nasci português e, portanto, um escravo da lógica”. Mas o Anibal gostava mesmo era das ruas. Da conversa fiada, daquele papo que só continuava, que não tinha início, nem meio, nem fim. Não fazia escolhas, bastava a criatura atravessar seu caminho, ou sentarse à sua mesa nos bares – adorava render-se ao acaso. E ao destino, também. Paradoxos era com ele mesmo. No fechamento das edições do Perú, porém, tudo tomava um sentido. As conversas fiadas adquiriam ló-

gica e até premeditação. O acaso dos encontros virava faro jornalístico, que vinha alimentar a vaidade justificada do profissional experiente. O que parecia banal, virava puro humor nas teclas – primeiro da Olivetti, depois, desajeitadamente, no computador, que ele não compreendia bem. Entre uma edição e outra, quando cansava de tanta conversa – isso podia durar dias seguidos – ele se recolhia. Era quando pintava, escrevia poesia, ouvia música, implicava com o gato. Declarava seu amor, se emocionava. Ou simplesmente lia, compulsivamente. Era quando, também, podia afinal ter fome e até cozinhar inesquecíveis quitutes, com uma rapidez surpreendente. Um dia, ele me falou que tinha medo da sua própria lucidez. Outro dia, se auto-definiu como um ser perplexo. A mim, que me aconteceu compartilhar com ele 16 anos da minha vida, me parece que, ao Anibal, pesou-lhe, sobretudo, o demasiado humano.

E, de repente, fico lúcido; cristalina memória.

Vale a pena? E para quê, porquê?

Escrevo, talvez, para quem não conheço.

Melhor ir à rua, ouvir quem não desejo

ver quem não quero. Terei morrido esta noite? Nessa noite escura e estranha? Terei morrido o bastante?

Caros MARCELO Lartigue, SANDRO Peixoto & EQUIPE

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amentamos profundamente a perda do nosso luso-buziano Aníbal. E temos dois fortes e sensíveis motivos para isso: minha mulher Regina foi contemporânea não só de idade, mas principalmente como amiga-da-turma da Rua Santa Clara, em Copacabana, onde ele morou com a família logo ao chegar de Portugal, ainda nos anos 60. E eu, como jornalista, seu companheiro do então respeitado JORNAL DO BRASIL onde, nos anos 70/80, eu era Chefe de Reportagem e ele Editor-de Pauta. Bela figura que se foi cedo depois de trilhar um complicado caminho de vida. Abração a todos vocês, companheiros de todas as horas. Jornalista Sergio FLEURY

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É velho lobo do mar, ficam as saudades... Por Maria Luisa T. Martinho Manhães

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muitas lembranças. Sempre com saudades, lembraremos dos longos dedos segurando o cigarro ou se divertindo com seu bigode, os magros pés marcando um ritmo qualquer, sua grave e inesquessível voz mandando os netos “vai pra praia” são tantas... Algumas tivemos ( eu, meu marido Nando e a amiga Edi) o prazer de revive-las durante seu velório na madrugada de domingo, ao som do mar dos Ossos e sob o vento fresco, foi uma madrugada triste, pois nós que ficamos, gostaríamos de ter mais tempo em sua compania as vezes louca e as vezes agradável, mas foi também uma madrugada muito divertida, as risadas nos manteve acordados. Com essa grande figura que foi meu pai aprendi muito, foi ele quem me ensinou a dirigir, coisa que ele não housava fazer, um lindo alfa romeu, “senta aí Lula” me deu todas as instruções e andamos por Búzios procurando fatos e pessoas interessantes, quase sempre acabávamos nas intermináveis conversas com o Zé Luiz Itajaí. Lembro-me bem das lições de como tratar alguém que não gastamos, foi num restaurante na orla Bardot quando um garçom por pirraça demorou a nos atender, ele muito tranquilamente foi ao balcão, pediu uma vodca com gelo e limão, voltou a mesa, esperou o momento em que o garçom se debruçava sobre a mesa

ao lado, bebeu um gole da vodca e despeijou o que sobrou no copo, inclusive o gelo e o limão dentro das calças do pobre garçom. Quando ele me ajudava nas tarefas de casa era uma loucura, filosofava, me fazia escrever folhas e folhas e as simples respostas que as professoras esperam viravam uma reflexão muito profunda. Foi por causa dele que aprendi a andar a cavalo, certa vez ele me levou a uma casa de um amigo pescador lá da aldeia em Geribá, e quando a noite começou a ficar monotona para mim eles arranjaram um cavalo branco me levaram até a praia e ele disse que lá não tinha perigo e se eu caísse a areia amorteceria a queda. Os almoços que ele produzia em sua casa na Raza, tudo era feito na churrasqueira, inclusive o feijão, dependendo da nessecidade ela se transformava em fogão a lenha. As vezes ele revivia histórias da sua infância em Portugal, quando foi amamentado, segundo ele mesmo, por uma moça negra denominada Maria Coxa que ainda segundo ele lhe impregnou a paixão pelas ruas e pessoas simples. Me ensinou também a gostar de gatos, de rede e outras coisas boas da vida. São tantas lições e histórias que ainda terei dias muito divertidos contando aos meus filhos quem foi esse avô genial, irreverente, impertinente que eu tanto amei.

Marcelo, Marcelo! Depois daquele show seu de vai, não vai, desses últimos tempos. Não é que o Aníbal te ultrapassa na linha de chegada na corrida para o cemitério. Você não é de nada Marcelo! Ok, o bigodudo estava marcado, mas mesmo assim, quando acontece, a gente balança! Uma parte dos mais de 25 anos meus aqui se evaporou. Vou sentir saudades dele pegando no meu pé por causa dos retratos de Sant’Ana, Santa Rita e mais algumas. Ele que se cuide, elas estão lá em cima também! Até! Hugo Desmaziéres P.S.Vou fazer 60 dia 8! Vamos apostar corrida?

S D

enti muito o falecimento do Aníbal. Éramos amigos há muito tempo. Gostava do seu jeito de ser. Lamento não ter podido ir a seu velório. Búzios perdeu uma grande figura e eu um amigo. Heitor Simões

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e todas grandes lutas buzianas nos últimos 30 anos que não foram poucas. Aníbal Fernando foi um companheiro bom que partiu. Octavio Raja Gabaglia

S S F

into muito Miriam pela triste noticia que acabei de receber. Será uma grande perda para todos nós como foi também um prazer de ter convivido com ele durante tantos anos. Um beijo carinhoso.

Pippa e Paul Blancpain into muito pelo Aníbal. Búzios perde uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci . Eduardo Chamel inalmente estou chegando em Portugal de barco...e tenho pensado nele o tempo todo. Como foi fantástico aquele nosso período juntos... André Martins de Andrade

Há 30 anos Por ERNESTO GALIOTTO Quando nos conhecemos no Ponto de Encontro, Bar do Carlos, era Aníbal e Marcelo. Marcelo apenas um fotógrafo estilo inglês, Aníbal o jornalista. Formaram uma dupla. Não sei quem criou o nome O Perú Molhado, que era motivo de piada ou um palavrão. Que ser tornou realidade. Fato verídico Quando fui fazer a restauração da imagem de Sant’Anna, levando a Petrópolis, atiraram pedras na Kombi de transporte da imagem. Tudo porque Aníbal tinha publicado de brincadeira, que eu levaria a imagem para retirar o ouro da Santa, e ia trazer outra imagem. Eu disse: -Aníbal o que é isso? Ele respondeu: Que isso o quê Ernesto? Todo mundo vai saber que você é um cara que faz um trabalho sério, e é um homem de bem. Ai vem o Marcelo e cutuca: - Poxa Ernesto, você nem colocou na placa de metal junto aos agradecimentos o nome O Perú Molhado... Não consegui convencer o Marcelo não ficaria bem o nome do Perú junto a santa. Para mim Aníbal pode ser resumido numa Frase: Um grande amigo, um grande jornalista, que não só familiares e amigos, mas Búzios também perdeu. Que Deus o tenha lá em cima. Encontraremos-nos um dia.

Clara, Luan, Rafael, Victor, João e o vovô Anibal

ANIBAL FERNANDO Ser ANIBAL, ou não ser FERNANDO Eis a questão. A outra face Com ou sem disfarce em partes Conhecedor de todas as artes, entre as plásticas, e práticas de um todo. Vasta cultura da quase grande literatura. Dono do poder da história viva de Búzios O político da politicagem dos alheios Um detonador sádico de neurônios Quando careta um monossilábico Um lúcido ávido, quando louco para muitos e poucos. Fazedor de um grande esforço para a burrice Um ignorante em exagero. Para tanta inteligência Sabedor da sintonia das cores Pelo sentido do surrealismo O homem de várias mulheres Pretensioso por amar só uma Em meio de milhões SÓ APENAS UMA CRIANÇA. Valdete Rangel

São Jorge, o santo do Anibal

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TÔ TE ESPERANDO, MARCELO! Por Isac Tillinger

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uando atendi ao telefone e a voz do outro lado da linha (confesso que esqueci quem me ligou) me falou: o Aníbal acaba de morrer em Minas, confesso que diferente do que se pode imaginar habitualmente, meu sentimento foi de paz e alegria. Antes que vocês imaginem que desejava a morte dele, me explico: será que uma pessoa pode viver da forma com que ele estava vivendo ultimamente? E mais ainda: voluntariamente. Na ultima vez que fui vê-lo no Hospital de Búzios, mal pudemos trocar algumas palavras; de minha parte pela tristeza de encontrá-lo naquele estado, e de parte dele pela vergonha do estado que se encontrava. Foi uma despedida silenciosa. Não vou perder tempo falando da pessoa do Aníbal. Primeiro porque já é por demais conhecida de todos nós, segundo porque as opiniões são muito divergentes. Diria com segurança que poucas pessoas tiveram a chance de ao longo destes 30 anos privar da sua relação de convivência como eu, obviamente nos últimos anos nossos encontros eram cada vez mais raros. Muitos foram nossos papos, e antológicas as matérias para o Peru. Uma pena que a compulsão o tenha levado para um caminho sem volta. Não sei a “causa mortis” que constou no seu atestado de óbito, mas para mim a causa foi falta de vontade de viver. Plim, plim: a gente se vê por ai. Ps: O enterro daria um curta de Fellini e as viúvas (3) se comportaram de maneira impecável, fato que só acontece quando o defunto é duro ( no sentido econômico, of course)

M

Duas provas que ANibal era português e jornalista

eu bom amigo Aníbal. De repente passa pela minha cabeça o fato que você está na fila dos anjinhos pa-

ra entrar no céu. Por incrível que pareça, é que para lá mesmo que você merece ir. Tenha paciência. Daqui a pouquinho vai ter a entrada facilitada no céu, aonde você vai encontrar pouca gente de Búzios e nenhum argentino. Você nos deixou saudades e a memória bem fresquinha pelos dias e noites que passamos juntos tomando nossas biritas no Restaurante do Lobisomem. Vai com Deus Aníbal. Você merece! Zé Itajahy

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onheci o Aníbal Fernando ainda no Jornal do Brasil. Fomos colega numa das melhores épocas do JB. Depois, fui revê-lo em Búzios. Já no jornal O Perú Molhado. Guardo dele a imagem de um profissional de grande texto e um querido amigo. Ancelmo Gois

Missa de 7° Dia do ANÍBAL Segunda-feira, 12 de julho, às 18h. Matriz São João Baptista, Rua Voluntários da Pátria, nº 287 - Botafogo. 7


? o t n i p u e o d n a o n r e F al m b i n A o c a t n i p ê c o V

Fato relevante

O jornal O Perú Molhado (maior jornal de Búzios) vem a público anunciar o rompimento unilateral com a Funerária Santa de Búzios por quebra de contrato. Um acordo foi firmado entre as duas empresas. O Perú se comprometia a colocar semanalmente um anúncio da funerária e em troca quando morresse alguém do Perú, o enterro seria de graça. Para nosso espanto, o proprietário da Funerária Santa Casa de Búzios se recusou a fazer o enterro do nosso amigo Aníbal Fernando, que faleceu essa semana. Alegou João, que estava no Rio com outro defunto. Pelo andar da carruagem, vamos precisar breve de mais um serviço funerário e como não podemos contar com a Santa Casa, resolvemos romper nosso contrato.

O Perú Molhado  

Especial Anibal Fernando

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