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Conheça (e entenda) todas as formas de investimento ao seu alcance.

Dê um pé na bunda do seu banco e ganhe mais dinheiro.

1.000% em um dia: o mundo insano dos derivativos.

Ações: entenda de uma vez esse jogo entre malandros e otários.

Tesouro Direto: como ganhar 300% do CDI com títulos públicos.


CARTA

COMO FAZER SEU DINHEIRO TRABALHAR PARA VOCÊ

Q

uando saí da faculdade, eu queria muito fazer mestrado na Inglaterra. Mas tinha um problema: eu não tinha dinheiro para viver em libras. Começo de carreira, salário de iniciante. Pedir à família não era opção. Meus pais pagavam a escola das minhas irmãs. A vida tinha outras urgências. Com esse plano na cabeça, eu conseguia guardar até 60% do que eu recebia na poupança – ao custo de dividir um apartamento minúsculo com outros três marmanjos. Mesmo assim, o mestrado parecia distante... Até que uma amiga me disse: e se você investisse em fundos? Quase fiz o sinal da cruz. Fundos são a personificação do capeta bancário. Ela riu, e me indicou o gerente dela. Santa dica. Em meados dos anos 2000, fundos rendiam bem. Quanto mais colocava dinheiro, mais rendia. Pouco tempo depois, eu já tinha dinheiro para viver na terra da rainha tranquilo. E, naquele mesmo ano, descobri que poderia perder dinheiro. Fui para a Inglaterra logo após a crise de 2008. Meus fundos derraparam. Mas aí eu já conhecia outros investimentos... Bancos são complicados, mas não são os vilões do mundo. Eles podem fazer seu dinheiro trabalhar para você. Esse é o objetivo desta edição especial: fazer com que você possa usar as ferramentas financeiras para realizar seus sonhos. Simples assim.

LEANDRO BEGUOCI

EDITOR


SUMÁRIO

SUMÁRIO DICIONÁRIO DE FINANÇAS E INVESTIMENTOS

CAPÍTULO I

A BASE DOS INVESTIMENTOS

Títulos Públicos e Tesouro Direto

Poupança

CAPÍTULO II

RISCO BAIXO

CDB

Renda Fixa e Previdência Privada

RISCO MÉDIO

Fundos: das ações aos imóveis

Ouro

CAPÍTULO IV

Debêntures

RISCO ALTO

Ações

CAPÍTULO V

RISCO ALTÍSSIMO

Derivativos

RISCO

CAPÍTULO III


MUDAR DE CAPÍTULO

PEQUENO DICIONÁRIO DO MUNDO DOS

INVESTIMENTOS Vamos falar deles várias vezes ao longo desta edição. Então, saiba o que cada um significa.


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DICIONÁRIO

CDB

O Certificado de Depósito Bancário (CDB) é um empréstimo que você faz ao banco. Sempre que você deixa um dinheiro no banco, é como se fizesse um empréstimo para ele. O certificado é exatamente isso: uma espécie de comprovante de que você emprestou um tanto para o banco e que ele se compromete a pagar de volta em um determinado período.

imposto de renda e contribuição social

lucro

parcela de recebem lucro distribuída acionistas lucro

DIVIDENDOS

É a parcela do lucro distribuído pelas empresas aos acionistas depois dos descontos de imposto de renda e contribuição social. A distribuição de dividendos depende da decisão da assembleia geral da sociedade e é feita uma vez por ano, em geral. Os donos de ações preferenciais têm direito a um percentual fixo do lucro e são os primeiros a receber. Logo atrás vêm os investidores de ações ordinárias. Na maior parte das vezes, esse valor é pago direto na conta do acionista. No Brasil, e só no Brasil, existe a figura do “juro sobre capital próprio”, o JCP. É dividendo do mesmo jeito. A diferença é que, no caso do JCP, quem paga o imposto não é a empresa. É você.


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DICIONÁRIO

RENDA FIXA

O nome engana, porque raramente a renda é fixa e tranquila. Na prática, renda fixa significa investimentos em títulos públicos pré-fixados, CDBs ou debêntures. São papéis que deixam claro, no começo, o quanto você vai receber no final. Só que renda fixa não significa estabilidade. Ela é boa quando a inflação e os juros estão baixos. Se eles subirem, podem comer aquele rendimento que você esperava receber quando investiu seu dinheiro.

direito de apostar

OPÇÕES

As opções são uma mistura de muito conhecimento e um bocado de sorte. Você compra um negócio estranho, é verdade: o direito de apostar no preço de alguma coisa daqui a algum tempo. Por exemplo, você paga R$ 1 para ter o direito de comprar uma ação por R$ 50 daqui a duas semanas. Se a ação estiver custando R$ 70, você ganhou. Se estiver custando R$ 40, você perdeu. Se esse direito de aposta não for exercido após um período especificado, já era. Perde tudo.

AÇÃO

ação

Uma ação é a menor parte do capital de uma empresa. Ao comprar uma ação, você passa a ser considerado um sócio. Por isso, pode dizer que é dono de uma parte da empresa, participando de seus resultados.

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DICIONÁRIO

INFLAÇÃO

É a melhor forma que um governo tem para bater sua carteira. A inflação começa quando o governo gasta demais e passa a imprimir muito dinheiro. Aí surge um descompasso: com mais moeda no mercado, a demanda por produtos cresce mais rápido do que a oferta. Infelizmente, não dá para duplicar a produção de um dia para o outro. Então os preços sobem ainda mais, o governo imprime mais dinheiro e o dragão da inflação começa a comer o seu salário. O governo fecha as contas. Você fica mais pobre.

LIQUIDEZ Você está passando na frente de uma loja e vê aquele celular que você queria. Suponha que você tenha na carteira exatamente o valor do aparelho. Você vai lá e transforma dinheiro em smartphone. Imagine a mesma situação, mas agora o seu dinheiro está em alguma aplicação financeira. Dependendo da aplicação, terá de esperar algum tempo. Se você tem algum primo que trabalha no mercado financeiro, ele diria: notas têm mais liquidez do que aplicações. É isso mesmo.Liquidez é a capacidade de transformar valores em coisas. Papel moeda tem altíssima liquidez. É só pegar a nota e trocar pelo que você quiser. Já a liquidez dos investimentos varia de tipo para tipo. É fácil e rápido tirar dinheiro da poupança e colocá-lo na conta corrente. É quase automático. Outros investimentos, como títulos públicos, só podem ser resgatados uma vez por semana. Ou seja, têm menos liquidez. Aplicações de renda fixa podem demorar alguns dias para cair na sua conta. Para ter o dinheiro das ações, precisa encontrar um comprador para elas. Por isso que, na hora de investir, é bom ficar de olho na liquidez do investimento. Nem sempre o seu dinheiro vai estar disponível para você na hora que você quiser.


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DICIONÁRIO

OVERNIGHT

Os bancos vivem emprestando dinheiro uns para os outros. Ou você achou que era fácil fazer milhões de empréstimos e financiamentos bancários todos os dias? Não há dinheiro que dê conta. O overnight é justamente isso: os empréstimos feitos por uma determinada taxa, entre os bancos, no mercado. Quando o Brasil tinha inflação alta, o overnight era aberto para qualquer pessoa. Era uma chance de preservar o valor do dinheiro. Você emprestava para o banco a uma determinada taxa e ganhava no outro dia o dinheiro corrigido. Era como se o dinheiro tivesse crescido durante a noite - por isso chama “overnight”, no termo em inglês.

TÍTULOS PÚBLICOS

O governo tem várias formas de conseguir dinheiro. Uma delas você conhece bem, os impostos. A outra também: as multas. Mas tem uma que não te irrita tanto – na verdade, pode te fazer bastante feliz. O governo pega dinheiro emprestado com você, por meio de títulos públicos. Quando você compra um título público, está fazendo um empréstimo para o governo.

DEBÊNTURES

Debêntures são empréstimos que você faz a empresas. Para elas, é uma maneira de conseguir dinheiro sem precisar ir aos bancos ou lançar mais ações na bolsa. Para você, é uma forma de fazer seu dinheiro crescer com juros mais gordos do que os oferecidos pelos bancos.

RENDA VARIÁVEL

Ouviu renda variável? Então, é um outro jeito de falar de ações. Quando você faz investimento nessa modalidade, está colocando seu dinheiro em papéis que podem render muito, pouco ou podem fazer você perder todo o seu dinheiro. E por que raios alguém coloca dinheiro nisso, você poderia me perguntar. Simples. No mercado, quanto maior o risco, maiores as chances de retorno. Pegue o caso de Eike Batista. Quem acreditou nele viu seu dinheiro virar pó. Porém, muita gente já ganhou muito com ações. Acionistas da Vale nos anos 2000, por exemplo.


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DICIONÁRIO 30% OFF!

20% OFF!

15% OFF!

50% OFF!

45% OFF!

60% OFF!

CDI

O Certificado de Depósito Interbancário (CDI) é uma espécie de CDB dos bancos. Para fechar contas, os bancos trocam empréstimos entre si no overnight todos os dias. Então, esse certificado é o banco X falando para o banco Y que pegou um dinheiro emprestado e devolve de volta pagando uma determinada taxa de juros. O CDI, na prática, é quase igual à Selic.

DEFLAÇÃO

É o antônimo de inflação, mas não tem nada de bom. Com taxas de deflação sucessivas, um país pode entrar em recessão, pois ocorre queda geral no consumo. Você sempre fica esperando o preço baixar mais um pouco – e ninguém compra nada.

TAXA SELIC

Selic é a taxa dos empréstimos entre os bancos quando esses empréstimos têm, como garantia, títulos públicos que pertencem ao banco. Quase todos os empréstimos interbancários são feitos dessa forma. A Selic, então, é o “preço do dinheiro”para o banco. Por isso que você vai ler, com frequência, que a Selic é a taxa básica de juros da economia.


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TÍTULOS PÚBLICOS

O COMEÇO DE TUDO

A força dos

TÍTULOS

PÚBLICOS

O Tesouro Direto transformou os títulos num investimento acessível e lucrativo. Aprenda a ganhar dinheiro grosso com eles. ALEXANDRE VERSIGNASSI E TATIANA KLIX

A

s empresas, eu, você e os outros 200 milhões de brasileiros pagamos as despesas do governo por meio de impostos. Mas todo esse dinheiro não é suficiente para manter as contas em dia. Para complementar o orçamento, o governo faz o mesmo que muitas pessoas fazem quando falta grana e a situação é urgente: pega dinheiro emprestado. Mas quem tem dinheiro para emprestar ao Estado? Bancos, empresas e pessoas. E por que emprestar dinheiro ao governo? Porque ninguém tem mais garantias a oferecer do que o Estado. Afinal, o calote só acontece se as coisas estiverem indo muito mal, com o país à beira da falência – o que não é o caso.

O QUE É » TÍTULOS PÚBLICOS SÃO PAPÉIS DA DÍVIDA DOS GOVERNOS. É A FORMA QUE O ESTADO ENCONTROU PARA FINANCIAR SUAS DESPESAS. QUEM INVESTE RECEBE O DINHEIRO DE VOLTA COM JUROS DEPOIS DE UM DETERMINADO PERÍODO.


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TÍTULOS PÚBLICOS

O COMEÇO DE TUDO

TÍTULOS PÚBLICOS INVESTIMENTO MÍNIMO

R$ 30

RISCO DO INVESTIMENTO Baixo.

TRIBUTAÇÃO

Regressiva. Começa em 22,5% e cai até 15%.

VARIAÇÃO DO INVESTIMENTO

Nos últimos 6, 12, 24 e 36 meses LTF

Inflação

35% 20%

0% MESES » 6

12

24

36

INDICADO PARA QUEM?

Para todo mundo. É uma aplicação democrática: remunera quem tem muito e quem tem pouco com as mesmas taxas.

CENÁRIO ATUAL As NTN-Bs têm pago juros altos: inflação mais 5%, 6% ao ano. E as LFTs sempre são uma boa em tempos de Selic alta.


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TÍTULOS PÚBLICOS

O COMEÇO DE TUDO

Outra pergunta: o governo não poderia viver sem dívidas? Não, porque elas permitem que o Estado funcione, e isso em qualquer parte do mundo. Além dos empréstimos, os títulos também servem para controlar aquelas três sílabas que causaram calafrios a gerações de brasileiros: a inflação. Por fim: como o governo pega seu dinheiro emprestado? Usando títulos públicos. Bem-vindo ao fantástico mundo dos títulos. Eles são uma declaração de que você emprestou uma certa quantia ao governo, que se compromete a devolver seu dinheiro de volta dentro de alguns anos corrigido por uma taxa de juros fixa ou variável. Toda economia que se preze tem uma boa quantidade deles em circulação. Eles são, ao mesmo tempo, o coringa e a fundação de qualquer país moderno. Servem para incentivar as pessoas a poupar, para manter os bancos funcionando, para investir em infraestrutura e até para controlar a quantidade de dinheiro em circulação. Eles são os carregadores de piano da economia. TIPOS E RISCOS Se você tem dinheiro num fundo DI, já está emprestando para o governo. Está quase tudo aplicado em títulos públicos que pagam a Selic, a taxa básica de juros da economia. Quando a Selic sobe, então você ganha mais. Se o fundo for de renda fixa, o grosso ali está em títulos pré-fixados, os que pagam um juro fixo, na alegria ou na tristeza, na subida ou na descida da Selic. Esse juro fixo geralmente é maior que a Selic. Então, quando a taxa básica cai, fica maior ainda. E o fundo começa a dar dinheiro a rodo. Mas quem ganha mesmo, na saúde ou na doença, é o nosso amigo banco. Um fundo normal cobra quase 2% ao ano de taxa de administração. Não é pouca coisa. Um cálculo simplificado, que não leva em conta as filigranas financeiras desse tipo de operação, deixa claro: se a taxa básica de juros ficar um ano em 10%, um fundo DI que cobra 2% vai render 8%. Em dez anos (caso a Selic continue nessa faixa), nosso fundo aqui vai ter dado 116%. Legal. Só que não: se você comprar via Tesouro Direto o tal do título que rende igual à Selic – o nome dele é LFT –, vai ganhar 148% nesses mesmos dez anos. O cálculo é simplificado, mas não grosseiro: descontamos 0,5% de taxa de administração (o Tesouro Direto não é tão direto assim: mesmo sem banco, você acaba pagando para alguns atravessadores oficiais). De qualquer forma, o 1,5% a mais de rendimento anual se transforma em 32% a mais em dez anos, graças à magia dos juros compostos. É o suficiente para que o Tesouro Direto seja sempre mais negócio que qualquer fundo DI. Mas isso só é certeza com as LFTs, os títulos que acom-


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TÍTULOS PÚBLICOS

O COMEÇO DE TUDO

panham a Selic. No caso daqueles que pagam A INGLATERRA um juro determinado, faça chuva ou caia o FOI O PRIMEIRO ministro da Fazenda, é diferente. Eles são PAÍS A PEDIR mais oito ou oitenta: ou dão um dinheiro DINHEIRO gordo ou te deixam no prejuízo. EMPRESTADO AO Na prática agora. Desses outros títulos, os POVO. EM VEZ mais populares são os indexados pela inflaDE AUMENTAR ção: as NTN-Bs. Se você compra uma NTN-B de R$ 1.000, o governo te dá um papelzinho IMPOSTOS, onde aparece escrito “vale R$ 1.000 mais ENFRENTOU A toda a inflação acumulada nos próximos dez FRANÇA COM anos mais 6% anuais de juros”. Bom, o goverTÍTULOS. no não dá um papelzinho, só uma conta no site do Tesouro Direto para você monitorar o rendimento do título. Mas a imagem do papelzinho é importante para mostrar como a coisa funciona, porque um título é um vale. Um vale-dinheiro. Com data de vencimento. Uma NTN-B vai te pagar a inflação mais um juro pré-fixado até uma certa data. Pode ser até 15 de maio de 2019, até 15 de agosto de 2035… Depende da NTN-B que você comprar. Então você vai e compra. Compra uma NTN-B que paga o IPCA mais 6% ao ano até 15 de maio de 2017. Paga R$ 1.000 por ela. O que acontece, então? Quando chegar a data de vencimento, o governo depositará automaticamente na sua conta os R$ 1.000 corrigidos, pagando pelo empréstimo que você fez aos cofres públicos. Se a inflação ficar em, vá lá, 7%, você saca um pouco mais de R$ 1.400 lá na frente. Legal: 40% em três anos. Nenhum fundo DI ou de renda fixa hoje dá algo perto disso. Mas e se você não quiser esperar até o vencimento? Faz todo o sentido precisar do dinheiro antes, já que existem títulos à venda hoje que só vencem em 2050. E aí? O que acontece? Bom, acontece que dá para vender o título, como se ele fosse um carro. Do mesmo jeito que existe um mercado exuberante de carros usados, tem um não menos vibrante de “títulos usados”. Mas você não precisa levar o seu título às 6h da manhã no feirão de usados para ver se acha quem compre. O governo mesmo é quem compra. De volta. Se não fizesse, deixando tudo na mão do mercado, você gastaria mais tempo tentando vender um título usado por um preço justo do que gasta trabalhando – e o Tesouro Direto seria basicamente inútil. Mas o governo se compromete a recomprar – para depois vender a outros interessados. Então beleza. O problema aí é que não dá para prever quanto o governo vai desembolsar. Ele paga o preço de mercado, o quanto os outros interessados estão dispostos a pagar. E esse preço varia bem.


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O COMEÇO DE TUDO

AS MAIORES

INFLAÇÕES

da história

Steve Hanke e Nicholas Krus listaram as maiores inflações da história no livro The Handbook of Major Events in Economic History. Apesar da hiperinflação dos anos 80, o Brasil está apenas em 40º lugar no ranking dos países que mais sofreram com ela.

Página abaixo

ARRASTE

Vamos ver dois cenários. Primeiro, um negativo. Pegue aquele título de R$ 1.000. Ele não dá a inflação mais 6% ao ano porque está escrito na Bíblia. Ele paga isso porque a Selic, neste momento, está um pouco acima de 10%. O governo espera uma inflação em torno de 5% nos próximos anos. Então os 6% extras entram para que o rendimento dê basicamente a Selic mais um chorinho (o extra vai para compensar o tempo generoso que você está dando para o governo pagar o que te deve). Bom, então a Selic vai e sobe 3% nos próximos anos (mais ou menos o que subiu de 2012 para cá). Sabe o que acontece? O governo começa a lançar títulos pagando a inflação mais 9%. E o seu titulinho, que só paga a inflação mais 6%, vira um mico desgraçado. Se você esperar até o vencimento, não chega a se dar mal. O Banco Central aumenta a Selic para conter a inflação. Se a Selic estiver em 13%, 14%, é porque a inflação está em 9%, 10%. Então, lá na frente, você tira razoavelmente mais que aqueles R$ 1.400. Seu dinheiro continua protegido. Mesmo assim, os títulos novos vão pagar essa inflação bombada mais um juro fixo bem mais alto, de 9%. Aí complica para quem quer vender o antigo, de 6%. Ele vai sofrer uma concorrência desleal. Só vai aparecer comprador para o de 6% se tiver um jeito de fazer com que ele renda tanto quanto o de 9%. E tem um jeito. Assim: um de 9% que custasse R$ 1.000, com vencimento em dez anos, pagaria R$ 2.367 mais a inflação lá na frente. Só isso já dá 137%. Bom, então o seu titulinho de 6%, também com vencimento em 2024 e também adquirido por R$


AS MAIORES

INFLAÇÕES

da história

Steve Hanke e Nicholas Krus listaram as maiores inflações da história no livro The Handbook of Major Events in Economic History. Apesar da hiperinflação dos anos 80, o Brasil está apenas em 40º lugar no ranking dos países que mais sofreram com ela.

HUNGRIA Arruinada pela guerra, a Hungria imprimiu muito mais dinheiro do que podia. Entre 1945 e 1946, a inflação explodiu e os preços dobravam a cada 15 horas. O pico foi de 41,9 quatrilhões por cento.

2° ZIMBÁBUE Durante os anos 90, o governo redistribuiu terras, mas devastou a produção. Somado à sanção internacional e impressão de dinheiro, o país teve uma inflação de79,6 bilhões por cento em novembro de 2008.

3° IUGOSLÁVIA A combinação de conflitos políticos e étnicos, economia devastada, embargos e impressão de dinheiro para pagar dívidas criou uma hiperinflação entre 1992 e 1994. Em janeiro de 94, foi de 313.000.000%.

ALEMANHA Derrotado na Primeira Guerra, o país tinha pouca capacidade de produção, mas devia muito dinheiro e imprimiu moeda. Resultado? A economia enlouqueceu entre 1922 e 1923. A taxa mensal chegou a 29.500%.

GRÉCIA Durante a Segunda Guerra, o país foi ocupado e arrasado pelas tropas de Hitler e Mussolini, perdendo boa parte da capacidade de produção e exportação. Em outubro de 1944, a inflação foi de 13.800%.

CHINA A Depois ois da Segunda Guerra ra, conviveu com guerra c e três ra civil moedas das simultâneas durant nte dez anos. Esse caos, somado s a dívidas e impr pressão de dinheiro, termin inou em inflação de 5.070% e abril de 1949. 0% em

9° TAIWAN A guerra civill na China, C nos anos 40, afetou p tou o país. Taiwan enfrento ntou escassez de matérias-pri rimas e mão de obra. O proble oblema durou só dois meses,, mas m foi m ago agosto grande. Em de 1945, a inflaação foi de 399%.

ARMÊNIA A hiperinflação de 1993 a 1994 aconteceu por causa do terremoto que devastou o país em 1988 e porque a União Soviética, que apoiava a indústria local, acabou. Em novembro de 1993, a taxa foi de 438%.

TURCOMENISTÃO Entre 1992 e 1993, o país recém-independente entrou em parafuso. Sem uma política econômica clara, sofreu com o fim da União Soviética e com uma inflação de 429% em novembro de 1993.

10° PERU Lutou contra a inflação durante toda a década de 1980. A hiperinflação, contudo, veio na transição de um governo austero para um estatizante. Durou dois meses, mas teve pico de 397% em agosto de 1990.


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O COMEÇO DE TUDO

1.000, teria que render pelo menos 137% (fora a inflação) para que alguém se dê ao trabalho de comprar. O valor final do seu título, fazendo o mesmo cálculo e cortando fora a inflação, seria de R$ 1.790. O percentual entre R$ 1.000 e R$ 1.790 é bem menor: 79%. Como fazer com que ele chegue a 137%, então? Diminuindo o valor a ser pago pelo título. Se ele custar R$ 753, vai render tanto quanto o de 9%. É por esse preço que o governo vai te comprar o título de volta. Você coloca R$ 1.000 e tira R$ 753. Aí vai dar saudade do banco… Agora vem o lado positivo. Se a Selic cair, acontece o contrário: o preço do título sobe. Invertendo o exemplo aí de cima, o governo passa a lançar títulos que pagam só 3% mais a inflação. Aí o seu título de 6% vira ouro. Vai chover comprador. E você consegue vender a coisa pelo dobro – anos e anos antes do vencimento. No último ciclo de queda da Selic, as NTN-Bs estavam dando 30%, 40% ao ano. Isso dá 300% do CDI... Nada mal para um investimento seguro. DÍVIDAS E MAIS DÍVIDAS A ideia de emprestar dinheiro ao governo surgiu na Inglaterra, no final do século 17, quando um comitê foi formado para financiar a guerra contra a França. O poder da Marinha britânica estava ameaçado após sucessivas derrotas e a população não suportaria novos aumentos de impostos. A solução foi aceitar a proposta feita pelo visionário mercador escocês William Petterson: um empréstimo de 1,2 milhão de libras, a juros de 8% ao ano, levantado com a população. Assim, em 1694, foram criados, ao mesmo tempo, o Banco da Inglaterra e a dívida pública do país. No Brasil, a dívida pública se estabeleceu no período colonial. Naquela época, os governantes faziam empréstimos que se confundiam com empréstimos pessoais, em uma bela confusão entre o público e o privado. O primeiro título público digno deste nome só foi emitido em 1827, depois que D. Pedro 1° mandou contar todos os débitos do império, para organizar um pouco a bagunça, e oficializou a dívida interna federal. Foram 12 contos de reis que o governo usou para pagar

R$ 30 É O VALOR INICIAL QUE VOCÊ PRECISA TER PARA COMEÇAR A INVESTIR – UM DOS MENORES DO MERCADO FINANCEIRO.


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O COMEÇO DE TUDO

40% ESTE ERA O RENDIMENTO ANUAL DE ALGUNS TÍTULOS DURANTE O GOVERNO DE FHC, PARA SEGURAR A INFLAÇÃO.

empréstimos feitos da Inglaterra, o equivalente a R$ 20,6 milhões em valores de hoje, ajustado pela inflação. Mas a organização não durou muito. Nos anos seguintes, as regras dos títulos mudaram bastante. Era um padrão da economia brasileira, aliás. Nada era muito previsível e confiável a longo prazo. Só com a criação do Banco Central e o lançamento das ORTN (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional), em 1964, que o Brasil começou a organizar a casa – e o seu mercado de títulos públicos, que passou a ter finalidades parecidas com as de hoje: financiar o governo e controlar a inflação. Mas essa reestruturação durou pouco. Na segunda metade da década de 1970, as coisas começaram a degringolar. Nos anos 80, a década perdida da economia, os problemas estouraram. Inflação em alta e crescimento em baixa. O governo passou a ter dificuldades para honrar os empréstimos. A im-


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O COMEÇO DE TUDO

COMO O BRASIL SE DEU MAL COM O BAGUNCISMO Página Abaixo

COMO OS TÍTULOS CONTROLAM A INFLAÇÃO

ARRASTE

ARRASTE

Página Abaixo


COMO OS TÍTULOS CONTROLAM A INFLAÇÃO

Q

uando o governo vende títulos públicos a juros altos, pode ter certeza: ele está longe de ser bonzinho, embora pareça uma mãe. O governo faz isso porque está precisando de recursos para pagar dívidas antigas, fazer investimentos ou controlar a inflação. Uma das formas de evitar o aumento de preços é diminuir a quantidade de dinheiro em circulação, reduzindo a demanda por produtos. Quanto mais moeda na mão, mais as pessoas vão comprar. Nessa toada, pessoas vão comprar. Nessa toada, elas incentivam a produção e o crescimento do país. Mas quando existe mais demanda do que capacidade de produção, os preços aumentam. Aí o caldo entorna. Por isso, o governo usa os títulos para controlar o consumo. Quanto mais títulos o governo vende, menos dinheiro circula. O risco de inflação diminui. O contrário ocorre quando o governo recompra títulos e devolve dinheiro à roda da economia. Essa medida é usada quando há uma recessão no horizonte. Definir quando fazer essa recompra antes do prazo de vencimento é um dos maiores desafios de qualquer país.

COMO O BRASIL SE DEU MAL COM O BAGUNCISMO

O

Brasil dos anos 80 parece uma peça de ficção inventada por um escritor ruim. A inflação era gigante, os preços foram congelados, a Bolsa de Valores não rendia quase nada justamente por causa da inflação. Nesse meio tempo, o aís resolveu bagunçar até o jeito de se financiar. Emprestou dinheiro para o governo? É. Foi mal. Espere só mais um pouquinho. Um dos títulos mais conhecidos daquele período de baguncismo era o ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional). O valor a ser pago pelo governo era reajustado de acordo com a inflação. Só que o governo brasileiro tinha muitas dificuldades para pagar seus compromissos. Resultado? Imprimia mais dinheiro. Só que a inflação é um bicho voraz. Ela se alimenta de dinheiro – e o governo estava colocando ainda mais moeda na economia. Quando tentava controlar a inflação, fechava a torneira. Mas aí ele ficava sem dinheiro para pagar os títulos. Então o governo mudava o vencimento e você nunca sabia quando ia receber seu dinheiro de volta. Por isso, a confiança dos investidores foi acabando. O prazo dos títulos ficou cada vez mais curto, acompanhando o descrédito do governo. Títulos que costumavam ter um prazo de 30 meses caíram para apenas quatro meses, em 1988. Era uma corrida incessante contra o tempo. Com prazos tão curtos, o governo precisava dar um jeito de levantar cada vez mais dinheiro. A roda da impressora voltava a girar. E o resultado, claro, era só mais inflação. Em vez de usar uma forma simples de se financiar, pegando dinheiro da população e pagando alguns juros, o governo só criava mais problema para si. E para o País.


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TÍTULOS PÚBLICOS

O COMEÇO DE TUDO

pressora de dinheiro do Estado começou a criar problemas. A economia enlouqueceu. A inflação naquele ano chegou a 211% e, para atacá-la, em 1986 vieram novas mudanças no sistema financeiro. A Conta Movimento, que por 20 anos permitiu que o Banco do Brasil pudesse gastar mais do que tinha e repor seu déficit com dinheiro novo, impresso pelo Banco Central, foi extinta. O controle de gastos públicos deixou de ser tarefa do BC e passou para a recém-criada Secretaria do Tesouro Nacional. O Plano Cruzado criou uma moeda com três zeros a menos, congelou preços e salários, decretou o fim da correção monetária e reduziu as taxas de juros. Também foi o início de um novo título, o primeiro a ser remunerado pela taxa de juros básica da economia (Selic), com indexação diária: a LBC, a Letra do Banco Central. Também é dessa época uma outra herança que teve impacto na credibilidade do País por muitos anos. Em 1987, o presidente Sarney decidiu suspender o pagamento de títulos a credores internacionais, o que dificultou a venda de papéis para o exterior depois disso. A já abalada reputação econômica do País ficou ainda mais arranhada. Até que o Brasil, finalmente, resolveu organizar a casa. O PLANO REAL Todas essas medidas foram insuficientes para combater a hiperinflação. Planos econômicos nasceram e morreram. Moedas circularam e sumiram. Novos títulos vieram à tona, mas ninguém acreditava neles. A economia brasileira era uma bagunça. Foi só com a inflação controlada, sob o Plano Real, que os títulos públicos voltaram a ter credibilidade interna e externa. A partir de 1994, as coisas começaram a entrar nos eixos. Uma das formas adotadas para segurar a inflação foi o pagamento de juros altos pelos títulos públicos - em 1995 os rendimentos atingiram mais de 40% ao ano. Com uma inflação baixa, era o paraíso. Para se ter uma ideia, um título que pague 12%, 13% hoje é uma maravilha. É outro mundo. Embora a dívida pública continue grande e seja uma preocupação constante, o resgate da confiança no governo como bom pagador não deixa de ser um indicador positivo. Finalmente, foi possível levar o governo a sério. Para o investidor, emprestar ao governo - em momentos de estabilidade econômica, claro – se tornou um investimento de poucos riscos. Mesmo que a dívida pública federal do Brasil ainda seja considerada alta, principalmente porque os juros pagos por ela são elevados, e que a economia esteja praticamente estagnada, o País é considerado confiável.


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TÍTULOS PÚBLICOS

O COMEÇO DE TUDO

Em março de 2014, a agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor’s) baixou a nota do crédito do Brasil, o que significa que o risco de calote aumentou. Mas não muito. O País segue na categoria de grau de investimento, que o recomenda como destino de aplicações, segundo todas as instituições que avaliam riscos referentes a crédito. Atualmente, em tempos de instabilidade na bolsa e poupança rendendo pouco, emprestar dinheiro para o governo é um bom negócio, mesmo que os juros já estejam mais modestos que os do século passado. Para quem tiver tempo e paciência de fazer isso via Tesouro Direto, melhor ainda. É isso que vamos ver agora. A VIDA PRÁTICA Agora que você já conhece a história dos títulos públicos e como os governos os usam, vamos ao que interessa no final do mês: como você pode usá-los a favor do seu saldo bancário. Uma das melhores coisas que o Brasil fez nos últimos anos foi simplificar a vida de quem quer comprar títulos. Desde 2002, é possível comprá-los pela internet. E mais: só é preciso R$ 30 para começar. No site do Tesouro Direto é possível escolher os títulos, agendar aplicações, programar reinvestimento automático (útil para investidores de longo prazo e que compram títulos periodicamente) e vender papéis antes do vencimento. Mas, antes de começar, é preciso fazer um cadastro em uma corretora (agente de custódia) e transferir seus recursos para ela. Ela é responsável por deixar o governo captar o dinheiro. O site do Tesouro Direto apresenta a lista de instituições habilitadas para a tarefa e um ranking das taxas cobradas. A média é de 0,3% ao ano. Algumas cobram 0%. Nada. Porém, preste atenção na hora de escolher as corretoras. Recentemente, uma delas deu um golpe. ALGUNS TÊM Em vez de pegar o dinheiro e aplicar no título que VENCIMENTO você queria, ela pegava a grana e comprava títulos LONGO E para ela mesma. A corretora tinha uma das menoOFERECEM BOM res taxas do mercado, e deixou uma parte dos investidores na mão. Um bom jeito de checar se a sua RENDIMENTO. corretora está trabalhando direitinho é conferir, ELES PODEM diretamente no site do Tesouro Direto, se ela realSUBSTITUIR A mente comprou os títulos que você mandou comPREVIDÊNCIA prar. Se não estiver lá, é sinal vermelho. PRIVADA, ESPEAgora, se a sua corretora aplicar seu dinheiro, CIALMENTE SE mas tiver problemas financeiros e falir, você está VOCÊ JÁ TEM protegido. Os títulos comprados são mantidos na Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia RESERVAS.


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TÍTULOS PÚBLICOS

O COMEÇO DE TUDO

OS PRINCIPAIS TIPOS DE TÍTULOS PÚBLICOS PÓS-FIXADO

PRÉ-FIXADO

LTF

Letra Financeira

do Tesouro

A LFT é o único título 100% seguro, já que o valor não cai. O rendimento é vinculado à taxa básica de juros da economia, a Selic, e é atualizado diariamente. É indicada para quem não quer correr riscos. É uma das melhores proteções contra a inflação e compõe o grosso dos fundos DI .

LTN

PRÉ-FIXADO + INFLAÇÃO

NTN-B PRINCIPAL

Letra do Tesouro Nacional A LTN é de curto prazo. A rentabilidade é definida na compra. A maior parte dos fundos de renda fixa aplica nela. Vale investir quando a inflação está baixa e há expectativa de queda nos juros, porque o governo se compromete a pagar, hoje, juros maiores do que pagará no futuro.

A rentabilidade é vinculada à inflação oficial, o IPCA, mais juros definidos no momento da compra. Se você mantiver durante o período combinado, só ganha. O risco é vender de volta ao governo antes do prazo. Nesses casos, o risco de você perder uma parte do que investiu é grande.

NTN-F

NTN-B

Nota do Tesouro Nacional - série F O rendimento da NTN-F é definido na compra. Diferente da LTN, faz o pagamento de juros a cada semestre, o que permite reinvestimentos.

Nota do Tesouro Nacional - Principal

Nota do Tesouro Nacional - série B Tem as mesmas características da NTN-B Principal, com a diferença de que paga um valor semestral ao investidor, o que permite reinvestimento.

(CBLC) em uma conta que fica no nome do investidor. Se a corretora quebrar, os recursos não são perdidos. Pela custódia, a CBLC cobra 0,4% ao ano sobre o valor de compra, referente aos serviços de guarda dos títulos, saldos e movimentação dos investidores. Somando os dois valores, você paga de 0,4 a 0,7% ao ano sobre os títulos, bem menos que as taxas de fundos em bancos, que vão até 3% ao ano. Algumas corretoras têm sistemas interligados com o Tesouro Direto e permitem a compra de títulos diretamente em seu site. Caso contrário, você receberá uma senha para entrar no site oficial, onde poderá fazer as operações. Ainda precisa de banco? Talvez sim. As recompras de títulos acontecem só nas quartas-feiras. Se der um aperto em outro dia, precisa esperar para resgatar seu dinheiro. Então vale manter algumas reservas num fundo do banco, que te permite resgatar imediatamente. Os títulos públicos são indicados para quem quer um investimento de longo prazo, coisa de dois anos para cima. Alguns podem até substituir o plano de previdência privada, especialmente se você já tem uma reserva. Para saber mais sobre os títulos, veja o quadro com os principais papéis e saiba como o governo, finalmente, vai começar a te pagar. Uma hora isso teria de acontecer.


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POUPANÇA

A SIMPLICIDADE DA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

POUPANÇA Ela é centenária, confiável, simples de usar e não paga impostos. Mesmo assim, você pode estar perdendo dinheiro com ela. Saiba por quê. VINICIUS OLIVEIRA


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POUPANÇA

O

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

contato com a caderneta de poupança lembra os primeiros dias da pré-escola. Ela é a cartilha com o bê-a-bá financeiro em um mundo sem riscos. Ela também é uma introdução ao sistema bancário. De uma forma muito resumida, bancos fazem o meio campo entre quem tem dinheiro e quem precisa dele, cobrando uma taxa por esse trabalho. No caso da poupança, o dinheiro que você coloca nela, no banco, vai para o financiamento de um negócio bem concreto: imóveis. Fácil e palpável, ela é o “amor eterno, amor verdadeiro” dos brasileiros. Na prática, a poupança se diferencia dos outros investimentos de uma forma bem simples: ela é isenta de impostos e taxas de administração. A ampla maioria dos investimentos paga as duas taxas. Além disso, o resgate é fácil e rápido. Outros investimentos têm um conjunto de regras para o momento do saque, e nem sempre você vai poder resgatar quando quiser. Ela também é garantida pelo governo. Depósitos em poupança no valor de até R$ 250 mil são cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito. Se o banco quebrar, você recebe o dinheiro de volta. Por fim, o uso que o governo e os bancos fazem dela é seguro. O dinheiro vai obrigatoriamente para o crédito imobiliário – e você sabe que, no final das contas, esse financiamento costuma ser pago. Se não for, o imóvel continua lá, como garantia. Ele não foge. Mas, às vezes, segurança demais pode significar um negócio ruim. Em algumas situações, atrapalha o rendimento. Apesar de todas essas facilidades e da segurança, a caderneta perde de fundos com taxa de administração de até 1%. Em 2014, o poupador que colocou suas economias O QUE É » A POUPANÇA na caderneta viu seu poder aquisitivo ser É FÁCIL DE APLICAR E corroído. A inflação medida pelo IPCA no DE SACAR. É SEGURA, primeiro semestre de 2014 foi de 3,75%. O QUASE NÃO OSCILA E retorno da poupança, de 3,47%. “Quanto TEM REGRAS SIMPLES. mais a Selic subir, mais desinteressante a MAS, NOS ÚLTIMOS poupança se torna”, explica o economista ANOS, VEM PERDENDO Samy Dana, professor da FGV. No longo A GRAÇA. QUEM prazo, segundo ele, o investimento é periCOLOCA DINHEIRO goso justamente porque existe a possibiliNELA ESTÁ VENDO dade de perda pura. Seu dinheiro vale na O RENDIMENTO saída menos do que ele valia na entrada. SER TRAGADO Só que esse é apenas um dos problemas PELA INFLAÇÃO. da caderneta de poupança. A sua popularidade criou uma grande confusão financei-


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POUPANÇA

ra no País. “Fazer uma poupança”, no Brasil, ganhou o sentido de abrir uma... conta poupança. Só que há vários jeitos de poupar. E a poupança, com o perdão da repetição de palavras, é só uma delas. Nos EUA, por exemplo, significa investir em ações e títulos públicos. Portanto, para entender por que ela é a “namoradinha do Brasil”, é preciso entrar no túnel do tempo.

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

POUPANÇA INVESTIMENTO MÍNIMO

R$ 1 RISCO DO INVESTIMENTO Baixo.

TRIBUTAÇÃO Isento.

PARA QUEM?

Ok para perfis conservadores: alia a garantia do FGC a uma boa liquidez.

CENÁRIO ATUAL Ruim. Com a Selic em alta, é o pior investimento.

AGIOTA NA PAREDE Em 1861, o imperador Dom VARIAÇÃO DO INVESTIMENTO Pedro 2° criou a Caixa EconôNos últimos 6, 12, 24 e 36 meses. mica da Corte, que deu origem ao banco que conhecemos hoje Inflação Poupança como Caixa Econômica Federal. 25% Junto com ela nasceu o conceito e o nome “caderneta de poupança”. Em 12 de janeiro da15% quele ano, D. Pedro 2° mandou ver o decreto número 2.723: “A Caixa Econômica estabelecida 0% na cidade do Rio de Janeiro (...) MESES »6 12 24 36 tem por fim receber, a juro de 6%, as pequenas economias das FONTE: BB, Caixa, Itaú, Economática e Consultoria Samy Dana classes menos abastadas e de assegurar, sob garantia do Governo Imperial, a fiel restituição do que pertencer a cada contribuinte, quando este o reclamar (...)”. Numa lista criada pela Caixa, Antônio Alves Pereira Coruja aparece como o primeiro cidadão a ter uma caderneta de poupança. Logo no início das operações (e sem pegar fila), em 4 de novembro de 1861, ele levou 10 mil réis que começariam a render juros. Até o surgimento da Caixa, o País vivia na pré-história bancária. Havia o Banco do Brasil, mas ele estava longe das pessoas. O BB era muito mais um Banco Central, controlando a quantidade de moeda na economia. Se você queria empreender e precisava de crédito, uma das maneiras era ir a uma casa de penhor: você deixava um bem como garantia e


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POUPANÇA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

fazia um empréstimo por uma determinada taxa de juros. Porém, essas casas não eram confiáveis e às vezes cobravam juros extorsivos. Até que veio a Caixa. Além de abrigar a poupança, ela passou a oferecer empréstimos com penhor. Era um salto de formalidade e confiança combinado com juros mais baixos e previsíveis. De um lado, ela recebia o dinheiro das pessoas e pagava uma taxa de juros. Ótimo para quem queria poupar. Do outro, emprestava a quem precisava. Excelente para quem queria empreender. Com essas duas medidas, o Brasil finalmente criou um sistema bancário. Estava mais fácil planejar o futuro. E tinha mais. De quebra, a Caixa amenizou um problema social. Para conseguir dinheiro, muitas pessoas recorriam a agiotas violentos, que resolviam empréstimos atrasados com pancadaria e assassinato. Com a simplicidade da poupança, o Brasil começou a avançar um pouquinho. Então o tempo passa, o tempo voa, veio a abolição da escravatura em 1888, depois a Proclamação da República, em 1889. Mas a poupança continuava numa boa. Já em 1915, as Caixas Econômicas de diferentes Estados puderam remunerar clientes com taxas de juros diferentes, de acordo com as condições econômicas de cada lugar. O público atendido também cresceu. As mulheres, finalmente, puderam aplicar na poupança – mas só com autorização do marido. Assim, ao longo das primeiras décadas do século 20, a população se acostumou a amar a poupança. Sem mais nenhum investimento à mão, era o que tinha. Só que esse amor foi tão intenso que acabou criando uma encrenca. As pessoas só tinham olhos para a poupança, o que também é um problema, como lembra Luiz Jurandir Simões, professor de Finanças da Faculdade de Economia da USP. “Foi um mecanismo de poupança direcionado para as classes mais humildes, que não dava consciência econômica e financeira”, explica ele. Até hoje, muitas pessoas têm medo de colocar dinheiro em qualquer outra coisa que não seja a boa e velha caderneta. ZIGUE-ZAGUE Ao longo dessa história, apenas duas coisas abalaram a relação: o confisco e o dragão de comer dinheiro. A inflação começou a comer os ganhos da poupança na segunda metade do século. O problema era urgente e os militares, que tomaram o poder em 1964, tiveram de lidar com ele. Para driblar o dragão, o governo inventou a correção monetária. A medida mantinha a remuneração anual de 6% (0,5% ao mês) e ainda pagava uma taxa extra, que acompanhava a alta dos preços. Esse reajuste mensal era definido pelo Banco


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POUPANÇA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

A CADERNETA

DE 153 ANOS

1861

Conheça a história do mais antigo e popular investimento dos brasileiros. UMA NOVA LEI permite que escravos possam guardar dinheiro proveniente de legado, herança ou doações na poupança.

SONHO DA CASA PRÓPRIA SÓ SE POPULARIZOU QUANDO O DINHEIRO DA POUPANÇA VIROU CRÉDITO IMOBILIÁRIO.

1871

1872

JÁ NA REPÚBLICA, decreto determina que taxas de juros da poupança não poderiam ultrapassar 6% por ano.

1874

O CONSELHO superior, um órgão de fiscalização e controle das Caixas Econômicas da época, é criado. Com isso, os depósitos aumentaram em 200%.

1934

O PLANO COLLOR congela o dinheiro depositado em cadernetas de poupança por 18 meses.

1915

1964

1990

1991

NOVA REGRA 2012 muda remuneração da poupança e liga o rendimento a uma parcela da Selic, a taxa básica de juros da economia.

JUNTO COM A CAIXA Econômica, o imperador Dom Pedro 2° cria a caderneta de poupança, o primeiro investimento oficial brasileiro. ESCRAVOS SÃO liberados a depositar também valores recebidos como renda de trabalho, desde que autorizados por seus senhores. AS MULHERES casadas ganham o direito de abrir suas cadernetas, desde que autorizadas pelos maridos.

PARA PROTEGER a poupança da inflação, é criada a correção monetária.

A CORREÇÃO monetária é substituída pela Taxa Referencial (TR), uma das taxas mais baixas da economia.


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POUPANÇA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

Central. Só que isso, na prática, criava mais inflação. Como você já sabe, quanto mais dinheiro na economia, mais consumo. Se a produção não acompanha a demanda, os preços sobem. E aí tome mais correção monetária, mais dinheiro na economia e mais inflação. Era o começo da tempestade perfeita que assolaria o País algumas décadas depois. Nos anos seguintes, as regras da poupança passaram por um zigue-zague: o rendimento deixou de ser mensal e passou a ser trimestral. Os juros e a correção monetária eram acumulados durante os últimos três meses. Depois, um novo passo atrás e as regras voltaram para o rendimento mês a mês. Nessas idas e vindas, a caderneta de poupança passou por um dos momentos mais importantes da sua existência, que teve um grande impacto na história do País. Havia uma demanda crescente por casas no Brasil, mas poucos recursos para financiá-las. Em 1967, o governo decidiu usar recursos da poupança para a habitação. Isso mudou as cidades. Com mais recursos, ficou mais fácil comprar e construir a casa própria. A caderneta entrou no SFH (Sistema Financeiro de Habitação) e veio um boom de crédito. É por causa dessa medida que milhões de pessoas puderam, finalmente, ter um lugar para morar. Ainda hoje, a poupança é a principal ferramenta de crédito imobiliário no Brasil.


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POUPANÇA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

HOJE, INVESTIMENTOS TÃO SEGUROS QUANTO A POUPANÇA SUPERAM A ANTIGA CADERNETA. MUITA GENTE PERDE A CHANCE DE GANHAR MAIS DINHEIRO PORQUE DEIXA AS ECONOMIAS NELA.

Já nos anos 80, o País conheceu cortes de zero e a moeda foi mudando de nome tão logo cada um dos cinco planos econômicos ia caindo por terra: cruzeiro mudou para cruzado, cruzado novo, cruzeiro e cruzeiro real. Protegida pela correção monetária, a poupança era um dos poucos investimentos mais ou menos protegidos da inflação. Ação em bolsa? Dava menos do que a boa e velha caderneta de Dom Pedro 2°. Mas a mudança que o País não esquece até hoje veio no dia 16 de maio de 1990, após um feriado bancário de três dias que resultou no confisco dos depósitos da caderneta. Nascia ali o Plano Brasil Novo, que ficou mais conhecido como Plano Collor, e um trauma para gerações de pessoas. A relação de amor era abalada. Collor e a ministra da Economia, Zelia Cardoso de Mello, anunciaram um conjunto de mudanças contra a inflação. Em 1989, a taxa acumulada ao ano foi de estratosféricos 1.782,90%. Hoje, 6% já deixam todo mundo de cabelo em pé. Para “mexer com o psicológico” do cidadão, como diria um técnico de futebol, repetiu-se a fracassada estratégia e o dinheiro mudou de nome outra vez, só que sem cortar zeros: de cruzado novo para cruzeiro. Mas isso não era o pior. O plano congelou contas correntes e cadernetas de poupança por 18 meses. Tudo que excedesse Cr$ 50 mil na poupança ou na conta corrente não poderia sair da sua conta. Hoje, seria como dizer: todos os depósitos acima de R$ 5,5 mil estão bloqueados por um ano e meio. Os reajustes da poupança continuavam, mas você não podia sacar nada. Estava prestes a usar o dinheiro guardado para comprar a casa própria? Sem chance. O plano traumatizou gerações de brasileiros, que passaram a desconfiar de todo e qualquer investimento. “A essência do plano foi o congelamento dos saldos”, diz o professor Luiz Jurandir Simões, da USP. Para conter a inflação, o Plano Collor deu um cavalo de pau na economia e tirou dinheiro de circulação. Cerca de 80% da moeda saiu do mercado, a inflação despencou e... logo voltou. Até hoje, 390 mil processos estão espalhados pelo País à espera de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, o mais alto nível da Justiça brasileira, sobre as mudanças no rendimento da poupança não só


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POUPANÇA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

no Plano Collor 1 (1990) e 2 (1991), mas também pelo Cruzado (1986), Bresser (1988) e Verão (1989). O tribunal vai decidir se bancos públicos e privados terão de cobrir as perdas. A ESTABILIDADE Com a chegada do Plano Real, que completou 20 anos em julho, e a estabilidade da moeda, a poupança voltou a ser querida. Mas, agora, com novos concorrentes. Em um país mais normal, você tem outras ferramentas para guardar dinheiro e planejar o futuro. Desde a chegada da nova moeda, a renda fixa se destaca como o investimento mais rentável. O CDI (Certificado de Depósito Interbancário), que serve de referência para vários fundos, teve rendimento de 632,3% nestas últimas duas décadas, segundo a consultoria Economática. No mesmo período, o Ibovespa, índice


BRASILEIRO NÃO É BOM POUPADOR

M

uitos educadores financeiros recomendam que você tenha uma reserva de dinheiro que seja três vezes maior que o seu salário. Se você já tiver filhos ou trabalhar como autônomo, aumente para seis vezes o que você ganha por mês. No Brasil, isso é uma raridade. Segundo pesquisa do Ibope Inteligência, realizada a pedido da Serasa Experian em 2013, 69% da população não poupa. Entre os entrevistados, 35% ainda disseram que não guardam dinheiro porque sentem mais prazer em gastá-lo imediatamente. Embora o hábito de poupar seja um aprendizado que normalmente acontece na infância, com a ajuda da família, fatores econômicos e sociais ajudam a entender por que o brasileiro é um mau poupador. Pais que viveram o período de hiperinflação não conseguiam poupar e não repassaram esse hábito às novas gerações. Durante muito tempo o dinheiro deixou de exercer uma de suas funções, a de reserva de valor, e uma das únicas maneiras de não perder ainda mais dinheiro era comprando. Além disso, medidas como o congelamento dos depósitos das contas correntes e cadernetas de poupança no Plano Collor tiraram a confiança do brasileiro no sistema financeiro. Com a estabilização da economia veio também a expansão do crédito e, novamente, as condições econômicas afastaram o brasileiro dos investimentos. As pessoas fizeram uma corrida às compras. A nova classe média atingiu níveis de renda que permitiram a muitas famílias adquirir cer tos bens e serviços , como carros e viagens de avião. Com isso, não é difícil entender por que 30% dos consumidores assumiram, na mesma pesquisa do Ibope, que compram por impulso. Futuro? Ainda estamos bem longe de começar a planejá-lo.


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POUPANÇA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

69%

com as principais ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, avançou 219,8%. A poupança está em terceiro lugar, com 103,2%. Esse bom desempenho da poupança imÉ A PORCENTAGEM DE BRASILEIROS QUE NÃO pôs um desafio ao governo. A Selic, taxa báGUARDAM DINHEIRO, sica de juros da economia, que já alcançou SEGUNDO PESQUISA DO IBOPE. a casa dos 40% durante alguns momentos do Plano Real, começou a cair nos primeiros anos do governo de Dilma Rousseff. Isso deixava fundos de investimento com ganhos parecidos com o da poupança quando a Selic estava perto de 11%. Pequenos aplicadores começaram a trocar seus fundos pela poupança. O rendimento era melhor, não paga taxa de administração e é isento de imposto de renda. Só que esses fundos são fundamentais para amplas áreas da economia. Se o dinheiro migrasse todo para a poupança, os bancos e o governo começariam a ter problemas para fechar as suas contas. Afinal, eles financiam as operações de crédito e a dívida do governo federal. Mexer na poupança sempre traz muito risco. Os governos que mexeram nela pagaram um preço político alto. A solução encontrada para diminuir críticas foi manter a regra anterior para depósitos feitos até 3 de maio de 2012 e mudar a situação para novos aportes. Quando a taxa Selic está a 8,5% ou acima desse patamar, o rendimento continua sendo de 0,5% por mês mais TR (Taxa Referencial) – e, nos últimos anos, a TR tem ficado perto de zero. Abaixo de 8,5% da Selic, a poupança rende apenas 70% da taxa básica de juros da economia. Nesse cenário, quanto dinheiro é ideal manter na poupança? “O menor possível”, segundo o educador financeiro Mauro Calil: “Muitas pessoas perdem a chance de ter um rendimento melhor ao deixar R$ 10 mil na caderneta por 30 anos”. Com a Selic em mais de 10%, praticamente todos os fundos de renda fixa ganham da poupança. Além disso, os fundos têm liquidez e rentabilidade diárias. Já a caderneta só traz rendimento mês a mês (no aniversário da aplicação). A conveniência da poupança ainda pesa para que o brasileiro pule de fase na hora de investir suas economias. “É conhecida. Você não come uma comida que não conhece. Se servirem um prato diferente, que não se sabe como é feito e com gosto esquisito, você não vai comer tudo e acabará pedindo um hambúrguer”, diz Calil. Porém, existe um mundão de outras opções no cardápio: Tesouro Direto, CDBs e Letras de Crédito... É hora de conhecê-las. No mundo financeiro, você pode ter mais de um amor.


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CDB

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

CDB A atração e a facilidade do

Chega de pedir emprestado. É hora de oferecer dinheiro e cobrar juros do seu banco. VINICIUS OLIVEIRA

Q

uando você compra títulos públicos, empresta dinheiro ao governo. Quando investe em CDB (Certificado de Depósito Bancário), você empresta a juros para o próprio banco. Mas aí vem uma pergunta: qual é a taxa de juros? E por que os bancos precisam pedir para mim e para você? Vamos lá. Os bancos fazem empréstimos entre si para fechar as contas no final do expediente. Dificilmente um banco termina o dia com muito dinheiro em caixa. O dinheiro deles está investido em títulos públicos, que não têm liquidez imediata. Os títulos têm data de vencimento e dias certos para serem resgatados. Não dá para simplesmente resgatar um título e resolver a vida. Além disso, os bancos precisam colocar uma parte de todo o dinheiro que têm no Banco Central. O nome disso é depósito compulsório e é usado pelo governo para controlar a quantidade de moeda em circulação. Assim, o BC mantém a inflação em padrões razoáveis. Como os bancos fazem milhares de operações todos os dias, eles precisam recorrer a outras instituições para fechar as contas de rotina. É normal. É assim no mundo inteiro. Pois bem, quando bancos


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CDB

emprestam uns para os outros, eles cobram juros. Esse tipo de investimento que os bancos fazem uns com os outros é chamado de CDI, o Certificado de Depósito Interbancário. Portanto, quando você empresta para o banco, é CDB. Quando banco empresta para outro banco, é CDI. A taxa paga pelo banco no CDB é uma parte do CDI. Por isso, todo dia o CDB rende alguma coisa – diferente da poupança, por exemplo. E é nessa diferença diária que o banco ganha alguma coisa. Ele pega emprestado de você por uma taxa de juros mais baixa e empresta a taxas mais altas. O empréstimo pode ser para outro banco ou para o mercado, nesse caso com taxas bem maiores do que as do CDI.

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

O QUE É » QUANDO O BANCO PEGA O SEU DINHEIRO E PROMETE DEVOLVÊ-LO NO FUTURO COM JUROS, ELE ESTÁ FAZENDO UMA OPERAÇÃO DE CDB. É UM INVESTIMENTO SEGURO, GARANTIDO PELO GOVERNO E INDICADO PARA QUEM TEM PLANOS DE MÉDIO E LONGO PRAZO.

O CDB NA ECONOMIA Apenas políticos têm reputação tão ruim quanto banqueiros. Nós nos acostumamos a imaginá-los como pessoas que estão sempre esperando alguém abrir a guarda para atacar. Mas, na realidade, bancos são apenas intermediários de operações que nós, sozinhos, não conseguiríamos fazer. É quando entra um pouco de história. Sempre existiu alguém que tem dinheiro e outro alguém se oferecendo para guardá-lo. Outro grupo quer financiamento para abrir um novo negócio. Por mais que as partes se conheçam, sempre vai haver desconfiança. Além disso, seria bem complicado sair pedindo ou oferecendo dinheiro na rua para desconhecidos. Os bancos surgem, então, como responsáveis por intermediar essas relações. Todo o dinheiro que você coloca num banco será emprestado, menos o valor destinado ao compulsório. Nada fica parado na sua conta. Os valores vão para clientes que querem comprar carros, para empresas que precisam de recursos, para outros bancos. Seu dinheiro ajuda a irrigar a economia. Mas o CDB ainda tem uma vantagem adicional para o banco: ele é mais fácil de usar do que o dinheiro que você deixa na conta corrente. Quando você deixa dinheiro ali, parado, 42% desse valor precisa ser depositado no Banco Central, por causa das regras do depósito compulsório. Quando você faz uma aplicação em CDB, a fatia do compulsório é de 15%. O banco tem mais dinheiro para emprestar e é por isso que seu gerente vai, sempre, te dizer para colocar dinheiro em CDB. Ele garante uma remuneração maior para o


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CDB

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

CDB INVESTIMENTO MÍNIMO

TRIBUTAÇÃO

R$ 100 Baixo.

De 22,5% a 15% de imposto de renda sobre os rendimentos. Se resgatar o CDB em menos de 30 dias, também paga IOF.

VARIAÇÃO DO INVESTIMENTO

PARA QUEM?

RISCO DO INVESTIMENTO

35%

Adequado a todos. Bom para reserva de aposentadoria. Para quem tem menos de R$ 2.500, a poupança é mais indicada.

20%

CENÁRIO ATUAL

Nos últimos 6, 12, 24 e 36 meses. CDB (100% CDI)

Inflação

CDB (80% CDI)

0% MESES » 6 FONTE: Itaú e Caixa

12

24

36

Atrativo com Selic alta. Grandes bancos remuneram menos. Pequenos têm maior risco e dão ganho maior, acima de 100% do CDI.


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CDB

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

banco porque CDBs têm prazos de resgate maiores. Então pode ser emprestado para outras pessoas por mais tempo. “Para o banco, o cliente deixar dinheiro parado é muito ruim porque existem restrições sobre o uso do dinheiro [os 42% do compulsório]. Com o CDB, é uma situação na qual os dois ganham”, explica Rodrigo Zeidan, professor de Economia e Finanças da Fundação Dom Cabral. Mas os bancos não estão sozinhos nessa operação – seria muito poder em poucas mãos. O registro dos contratos de CDB é feito pela Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip), que processa a emissão, o resgate e a “guarda” dos títulos, além do pagamento dos juros. “A Cetip dá segurança a toda transferência de recursos de um lado para o outro”, diz Ricardo Magalhães, gerente-executivo da empresa. A Cetip, portanto, é a guardiã dos CDBs. “Um banco emite um CDB, uma fundação de funcionários compra o título e uma ordem é enviada ao banco liquidante para o pagamento. Quando o título chega de um lado, o pagamento chega do outro”, explica Magalhães. O cumprimento das taxas do CDI, prometidas pelo banco para seus clientes, também é calculado pela Cetip. CDB É PARA MIM? Como em todos os tipos de investimento, com o CDB a sua rentabilidade está diretamente ligada ao prazo que você quer investir, ao risco que você quer correr e ao valor a ser investido. Se você tiver uma boa quantia, o banco vai estender o tapete vermelho e pode oferecer um porcentual maior de rendimento. Nesses casos, os bancos costumam oferecer CDBs com taxas mais próximas do CDI. Por outro lado, se você optar por investir o mínimo exigido para um CDB, algo como R$ 50 ou R$ 100, o Imposto de Renda pode minar seu rendimento. Assim, a taxa do CDB pode ser uma parcela muito pequena do CDI – e você ainda paga imposto. O rendimento acaba sendo menor do que o da poupança, que é livre de tributos. E tem mais alguns pontos para levar em consideração. Quem está acostumado com as transações da poupança pode estranhar o comportamento do CDB. Afinal, ele não abre brecha para resgate parcial. Está com saldo negativo e não tem mais de onde tirar? Então, você terá que sacar todo o valor do título. Não pode tirar só um pedacinho. Por outro lado, ele rende alguma coisa todo dia. Se você tiver disposição, vale a pena fazer algumas coisas antes de emprestar dinheiro ao banco. Compare as taxas oferecidas pelo CDB pré-fixado, com taxas de juros determinadas no momento do


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CDB

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

COMO O “CDB” AJUDOU A CONSTRUIR O RENASCIMENTO

N

a Europa dos séculos 13, 14 e 15, muita gente tinha ouro e não tinha como guardar. Elas deixavam o metal com um ourives e recebiam uma nota, um “vale tantos quilos de ouro”. Era o primeiro CDB, um “certificado de depósito bancário” primitivo. Mas, naquela época, você pagava pela proteção. Afinal, artesãos que faziam joias tinham bons cofres. Com o tempo, as pessoas começaram a apelar aos ourives quando precisavam de crédito. Então eles emitiam uma nota dizendo que estavam emprestando tanto para aquela pessoa, que deveria devolver o valor acrescido de juros. Aos poucos, essas notas começaram a circular e a valer como dinheiro - afinal, era muito mais fácil de carregar. Na Itália, isso foi grande. O país era uma potência, a economia crescia e os ourives do passado passaram a viver só de empréstimos, montando banquinhas nas praças para atender aos clientes. É daí que vem o nome banca, em italiano, para definir o que é banco, em português. Agora, você cobrava para deixar seu ouro com o dono da banca e ganhava um certificado. Um dos mais bem-sucedidos donos de banquinha foi Giovanni Di Bicci de’ Medici, patriarca da família Medici e fundador do Banco de Florença. Com os lucros bancários, os Medici financiaram o Renascimento e fizeram a fortuna histórica e turística de Florença. Alguns grandes artistas, como Michelangelo e Leonardo da Vinci, foram patrocinados por eles. Sem aquele CDB primitivo, até poderia ter existido Renascimento. Mas talvez fosse bem menos dourado


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CDB

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

22,5%

investimento, com as Letras do Tesouro Nacional (LTN), negociadas via Tesouro Direto. Às vezes, o CDB é vantagem. Às vezes, a LTN vale muito mais O TAMANHO DA a pena. No final de 2014, a LTN com prazo de dois ÉMORDIDA DO IMPOSTO anos estava dando 12,7% ao ano. Um CDB com o DE RENDA PARA CDBS QUE FICAM APLICADOS mesmo prazo pagava só 11%. POR POUCO TEMPO. No caso dos CDBs pós-fixados, nos quais você só sabe o resultado quando o título chega ao vencimento, busque os que cheguem o mais perto possível dos 100% do CDI. Não achou? Quem busca maior rentabilidade pode usar a estratégia dos pilotos de bugue que fazem os passeios pelas dunas de Natal: “Vai querer com ou sem emoção?”. Você pode recorrer aos bancos médios e pequenos que oferecem taxas mais vantajosas, pela necessidade de fazer caixa e concorrer com os grandes. Se porventura esse banco cambalear enquanto você estiver com o dinheiro aplicado, entra em cena o FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que garantirá depósitos de até R$ 250 mil. Tal como a poupança, o CDB também tem essa garantia. Se der alguma coisa errado, você não fica solto na tempestade. Mas, e sempre tem um mas: se você investiu num CDB e ele, por alguma razão, passa a render menos do que outros investimentos, aí não tem FGC. Isso é considerado risco normal do mercado. Você não perde o capital investido. Apenas deixa de ganhar mais ou é rendido pelo dragão da inflação. Outro fator é o prazo que o CDB exige, que pode ser de 30 dias a vários anos. A liquidez é diária, o que significa que, diante de uma emergência, é possível sacar o dinheiro. Porém, o banco vai estabelecer uma penalidade e você terá um rendimento menor do que o da taxa final combinada. Tal como a poupança, e diferente de outros investimentos, o CDB não tem taxa de administração. O banco não cobra para cuidar do dinheiro que você emprestou para ele. Menos mal. Portanto, se você quer um investimento seguro como a poupança e tem paciência para esperar resultados a médio e longo prazo, então o CDB é uma ótima escolha. Mas, claro, você sempre pode querer mais. E temos mais para oferecer.


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RENDA FIXA E PREVIDÊNCIA PRIVADA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

A segurança da

RENDA FIXA

e da previdência

PRIVADA O que saber, o que evitar e no que prestar atenção nos investimentos que prometem vida mansa, segurança e planejamento financeiro. ILTON CALDEIRA


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RENDA FIXA E PREVIDÊNCIA PRIVADA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

Q

uando um candidato a investidor pergunta ao gerente do banco como dinheiro pode virar mais dinheiro, mas sem risco, o especialista não titubeia: fundos de renda fixa. Se a pessoa quer se preparar para a aposentadoria, a dica é previdência privada. São dois caminhos parecidos. Só que, antes de agradecer pela dica, é preciso saber algumas coisinhas. A história da renda fixa é antiga. O primeiro fundo de renda fixa da história foi a tontina. A invenção é creditada ao banqueiro napolitano Lorenzo de Tonti, que colocou a tontina no mundo em 1653. Os compradores de uma determinada emissão de tontina recebiam, todo ano, uma anuidade. Era um valor correspondente aos juros de um empréstimo. Só que não eram juros fixos. Eram juros variáveis – para mais. Quanto mais tempo você vivia, mais ganhava. O valor recebido pelos mais longevos ia aumentando conforme outros investidores morriam. Portanto, quem tinha tontina possuía uma... renda fixa. Era dinheiro certo e funcionava como um antepassado dos fundos de hoje: você investe em alguma coisa junto com outras pessoas para procurar investimentos mais rentáveis e dividir os riscos. A tontina era tão atrativa porque o valor não era herdado pelos descendentes. O maior incentivo para manter o empréstimo eram os juros crescentes e a confiança de que você teria uma vida longa... Tanto que os governos se animaram. O rei Luís 14, da França, foi o primeiro a usar as tontinas. Em 1689, esses títulos serviram para financiar uma série de operações militares. O governo britânico não ficou para trás. Ele emitiu as suas tontinas em 1693 justamente para financiar uma guerra contra a... França. Guerra, afinal, não se ganha só com arma. OS FUNDOS Hoje, os fundos mais populares no Brasil são os DI e os de renda fixa. O DI funciona bem quando o cenário é de juros altos no futuro. Já os fundos de renda fixa são melhores quando a perspectiva é oposta. Vale a pena pular de tempos em tempos do DI para a renda fixa e vice-versa. Você não se casou com o fundo, como acontece em outros investimentos. Está apenas em um relacionamento sério, que pode acabar dependendo dos humores da economia. No Brasil, esses fundos ganharam força depois do Plano Real, quando a inflação foi domada e a economia abandonou o modo vida louca. Hoje, investimento em fundo de renda fixa significa


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contratar um banco para que ele escolha os investimentos mais rentáveis e seguros à disposição. Portanto, quando o gerente fala “vá de renda fixa”, ele está se oferecendo para ser um intermediário – e ele vai cobrar um valor para fazer esse trabalho, a famosa taxa de administração. Bom, vamos começar pelos fundos DI. Eles investem, no mínimo, 95% do total em papéis pós-fixados. Isso significa que eles vão abraçar investimentos cujos juros totais só vão ser definidos no final do prazo – você só sabe quanto vai ganhar no fim. Os papéis pós-fixados são títulos públicos em 99% das ocasiões. São LFTs, basicamente, e por isso sempre vão estar acima da inflação. Já os fundos de renda fixa aplicam, no mínimo, 51% dos recursos em papéis pré-fixados, que podem ser títulos públicos, CDBs ou debêntures. O QUE É » OS FUNDOS O que faz um bom fundo de renda fixa ou DI, no DE RENDA FIXA final das contas, é a sabedoria do banco em conciliar FACILITAM A VIDA títulos bons, com rendimento razoável, e segurança. DE QUEM QUER Não é uma tarefa fácil. E é por isso mesmo que as COLOCAR DINHEIRO taxas de administração dos fundos costumam ser EM APLICAÇÕES salgadas... Em alguns casos, de 3%. Se a inflação SEGURAS, COMO está em 6%, por exemplo, coloque na sua conta que TÍTULOS PÚBLICOS E o seu investimento tem de render acima de 9% para CDBS. EM TROCA, O você começar a ganhar alguma coisa... O lado bom BANCO COBRA TAXA é que o banco sempre garante que você não vá perDE ADMINISTRAÇÃO. der absurdos em uma mudança de cenário. Como ATÉ POR ISSO, PODEM um fundo é formado por muitos títulos que vencem RENDER MAIS. praticamente todo dia, o banco tem margem e flexibilidade para navegar em cenários turbulentos. É diferente quando você vai lá e compra um título com vencimento daqui a 20 anos. Aí é você com você mesmo, sozinho, fazendo as suas escolhas. A escolha de um fundo depende do perfil e da expectativa do investidor com relação à taxa de juros, destaca o consultor e educador financeiro André Massaro: “Uma recomendação tipo receita da vovó para um investidor inexperiente é dividir o investimento nas duas opções, tanto a pré como a pós-fixada. Para quem está entrando nesse investimento e não tem expectativa nenhuma, é uma alternativa diversificar entre essas duas possibilidades e ficar com o investimento equilibrado”. Os títulos pré-fixados são mais favorecidos em cenários com a inflação baixa, controlada e com a taxa de juros em queda. Os títu-


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los pós-fixados são o contrário. Eles são mais atraentes quando a taxa de juros está aumentando. Então é isso: renda fixa tem menos risco. Mas menos risco não significa ausência de risco. A vida sempre vai te levar, vida leva eu.

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

FUNDOS DE RENDA FIXA INVESTIMENTO MÍNIMO

R$ 50 POR MÊS RISCO DO INVESTIMENTO Médio.

TRIBUTAÇÃO

Regressiva. Começa em 22,5% e cai até 15%.

OS FUNDOS DE PREVIDÊNCIA Vamos retomar as tontinas. VARIAÇÃO DO INVESTIMENTO Elas também foram o emNos últimos 6, 12, 24 e 36 meses. brião dos planos de previdência privada. Isso aconteRenda Fixa Diferenciado DI Inflação ceu justamente porque elas poderiam durar a vida inteira 35% do investidor. Como elas não eram hereditárias, algumas pessoas com posses começaram a comprar tontinas para 0% os filhos pequenos. A expec24 12 36 MESES » 6 tativa era a de ampliar a duração do investimento. Logo PARA QUEM? CENÁRIO ATUAL as tontinas começaram a se São adequados para O cenário de tornar um enorme problema todo mundo. Mas se taxas de juros para os governos por causa você tem planos de curto em ascensão da longevidade das pessoas prazo, prefira os fundos torna os que tinham a titularidade de DI – eles oscilam menos fundos DI que os de renda fixa. mais atraentes. uma tontina. Os governos eram grandes emissores de FONTE: Anbima, Caixa, Itaú e Consultoria Samy Dana tontinas. Em uma época na qual as pessoas viviam pouco, os reis tinham uma certa garantia de que os juros nunca seriam grandes demais. Só que, quando as pessoas passaram a ter tontinas desde bebês, isso virou um problemão. Os investidores começaram a comprar tontinas para crianças pequenas, especialmente para as meninas ao redor dos 5 anos. Desde aquela época as mulheres apresentavam expectativa de vida superior aos homens. Isso criou a possibilidade de retornos significati-


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INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

vos para os rentistas e perdas gigantescas para os governos. Como resultado, as tontinas acabaram sendo abandonadas e substituídas por regimes de pensão públicos e privados parecidos com os que temos hoje no mercado. No Brasil, a previdência surgiu em janeiro de 1835, com a criação do Montepio Geral de Economia dos Servidores do Estado. Foi uma medida proposta pelo então ministro da justiça, Barão de Sepetiba. Pela primeira vez, o País oferecia planos de previdência - mas somente para funcionários públicos. A previdência social, aquele valor que o governo paga a todos os aposentados, só seria criada em 1923. Já a previdência privada, para quem queria receber mais na velhice, só foi instituída em 1977. Como o cenário econômico era instável, ela demorou muito tempo para pegar. Foi apenas com a estabilização da economia, na década de 1990, que as pessoas puderam fazer mais planos para o futuro. Foi nessa época que os planos de previdência privada explodiram. Em 2013, os investimentos de previdência privada somaram R$ 374,2 bilhões. Foi um crescimento de 10,54% em relação a 2012, segundo a Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi). É muito dinheiro. Se todos os brasileiros que têm previdência privada resolvessem comprar uma empresa, eles teriam, juntos, dinheiro o bastante para adquirir a Petrobras, pelo atual valor de mercado da maior empresa do País. OS PLANOS E OS IMPOSTOS Hoje, há dois modelos de previdência privada no Brasil. O Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) é recomendado para pessoas com renda mais alta. O valor pago ao plano pode ser abatido no Imposto de Renda, desde que esse valor represente até 12% da renda bruta anual do titular do plano. Mas, quando o dinheiro é sacado, o imposto pago é referente ao total que havia no fundo. Por exemplo, se esse valor for de R$ 100 mil, o imposto será cobrado sobre essa quantia. Ao longo da vida, você usa o PGBL para abater impostos. Mas, na aposentadoria, o Leão vem de

A ORIGEM DOS FUNDOS ESTÁ NA TONTINA, INVESTIMENTO CRIADO POR UM BANQUEIRO NAPOLITANO. ELA PAGAVA JUROS AO LONGO DA VIDA E FOI USADA PELA FRANÇA PARA FINANCIAR SUAS GUERRAS.


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INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

O QUE É O OVERNIGHT E POR QUE HOJE SÓ BANCO PODE TER?

H

ouve uma época, no Brasil, em que um dos poucos investimentos seguros, em renda fixa, tinha nome de boate ruim. Era o overnight. Ele garantia uma renda fixa, todo dia, contra a inflação. Hoje, só pode ser usado por bancos e é responsável pela sobrevivência do sistema financeiro. Ao longo do dia, um banco pode fazer uma enormidade de operações. Muitas vezes, encerra o expediente precisando de dinheiro para cobrir os empréstimos que fez, os financiamentos que arrumou, os seguros que pagou. Então vai a outros bancos, pega um empréstimo para cobrir o caixa e se compromete a pagar no outro dia, quando já vai ter recebido empréstimos, parcelas do financiamento e novos clientes de seguros. Essas operações em que você pega num dia e paga no outro são conhecidas como overnight. Quando o Brasil vivia com uma inflação gigantesca, as pessoas mais ricas tinham acesso a aplicações financeiras que protegiam suas economias da desvalorização diária e desenfreada. Elas podiam participar do overnight emprestando para os bancos e recebendo no outro dia. Era um CDB com prazo de 24 horas, portanto. No final das contas, essas

24 horas, portanto. No final das contas, essas pessoas acabavam se beneficiando da inflação. Para evitar que os bancos perdessem dinheiro todo dia, o governo colocava dinheiro na roda. E uma parte desse dinheiro ia para o bolso das pessoas que participavam do overnight. Era uma fantástica fábrica de concentração de riqueza: o mínimo para aplicar no overnight era de US$ 100 mil. Com inflação alta, quem mais perde é quem menos tem recursos e meios de proteger o p uco que tem. Isso ajuda a entender por que os supermercados ficavam lotados nos primeiros dias do mês, quando os assalariados recebiam. A compra do mês era a única forma de proteger o dinheiro da desvalorização. O overnight acabou em 1991, três anos antes da estabilização monetária, em 1994. Hoje, só os bancos podem participar dessa troca de dinheiro. A necessidade dele desapareceu na medida em que a economia ficou menos maluca.


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INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

uma vez, e não só sobre os juros, como acontece em outros investimentos. Ele vem em cima de tudo. Portanto, se optar por um PGBL, faça a declaração completa e tenha o abatimento. Senão, você vai pagar o Imposto de Renda duas vezes: ano após ano e depois, no final do plano. A outra opção é o chamado Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). A diferença para o PGBL é que ele não pode ser abatido no Imposto de Renda ano a ano. Porém, quando o dinheiro é sacado, o imposto cobrado é referente ao que o dinheiro investido obteve de remuneração. Por exemplo, se a quantia aplicada é de R$ 100 mil, mas o rendimento que houve ao longo do plano foi de R$ 20 mil, o imposto cobrado será referente a este valor. Esse plano é voltado para pessoas que têm renda menor, já que, dessa forma, o desconto de 12% da renda bruta propiciada pelo PGBL não vale grande coisa. Nos dois casos, você ainda pode escolher por qual tabela será cobrado o imposto de renda: regressiva ou progressiva. Na primeira, quanto mais tempo sua reserva tiver, menos imposto paga. É ideal para quem tem planos de longo prazo na aposentadoria. Na progressiva, o Imposto de Renda aumenta de acordo com o valor que será recebido ou resgatado. Quanto maior a grana, maior a tributação. Essa é ideal para quem sente que, talvez, seja obrigado a tirar o dinheiro do plano no curto ou médio prazo.

A PREVIDÊNCIA PRIVADA FOI CRIADA NOS ANOS 70, MAS SÓ EXPLODIU A PARTIR DA DÉCADA DE 1990. HOJE, O VALOR DEPOSITADO NELA DARIA PARA COMPRAR A PETROBRAS.

NO QUE PRESTAR ATENÇÃO Na previdência privada, é possível começar poupando pequenos valores. Não há idade mínima nem necessidade de comprovação de renda. Isso é uma boa notícia, já que, quanto antes começar, melhor. “Viver só com a aposentadoria do INSS é embutir uma dose de risco na velhice de ver uma redução muito drástica no padrão de vida”, afirma o economista Celso Grisi, diretor-presidente do Instituto de Pesquisa de Mercado Fractal.


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RENDA FIXA E PREVIDÊNCIA PRIVADA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

Só que há algumas pegadinhas no caminho. Muita gente faz os planos para a aposentadoria com base na taxa de juros atual. Segundo os analistas, isso não é realista. Em algumas décadas, os juros podem cair bastante. É melhor ser mais conservador nas projeções porque, se houver uma surpresa no futuro, tende a ser uma surpresa boa. Hoje, afinal, os juros brasileiros estão entre os mais altos do mundo. Além disso, a previdência também cria uma falsa expectativa – tal como a renda fixa. Quando a gente ouve falar em previdência, pensa em recursos constantes e seguros. Só que a vida real é mais complicada. Previdência privada não tem garantia, diferente da poupança ou do CDB. O banco pode quebrar – e a sua aposentadoria pode ir pelo ralo. É difícil, mas é bom ter isso em mente. Afinal, assinar um plano de previdência significa casar com o banco por algumas décadas da sua vida. Essa é uma das razões pelas quais não basta deixar o dinheiro lá e esquecer. Previdência é um compromisso longo. Hoje, os planos de previdência investem em seis modalidades diferentes. Tem títulos públicos, debêntures, ações. E, como todo investimento, tem uma taxa boa de risco. Dependendo do cenário, você poderia garantir um futuro melhor em outro tipo de investimento. Investir não é esquecer o dinheiro. Portanto, pergunte ao gerente para onde vai o dinheiro da sua previdência. Depois, questione o banco sobre as taxas. As empresas de previdência privada têm três cobranças. A taxa de carregamento é feita sobre cada depósito e não ultrapassa 5% do valor. Alguns planos extinguem a cobrança após certo tempo de aplicação. Outros atrelam esse percentual ao saldo investido: quanto maior o volume aplicado, menor a taxa. A segunda é a tarifa de administração anual. Por fim, há a taxa de saída, cobrada quando você saca o dinheiro. Portanto, seja chato. Dependendo da inflaÉ A PORCENTAGEM MÁXIMA DE ISENÇÃO DE IMPOSTO DE ção, da taxa de juros e do lugar onde RENDA QUE VOCÊ PODE TER, o banco está investindo seu dinheiro, POR ANO, COM PREVIDÊNCIA PRIVADA. PARA ISSO, PRECISA você pode ficar no zero a zero. ConsiTER O PGBL (PLANO GERADOR dere também o plano de previdência DE BENEFÍCIO LIVRE). da sua empresa. As taxas costumam ser menores e as empresas ainda fazem um depósito complementar.

12%


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RENDA FIXA E PREVIDÊNCIA PRIVADA

INVESTIMENTOS DE BAIXO RISCO

PREVIDÊNCIA PRIVADA INVESTIMENTO MÍNIMO

R$ 25 POR MÊS RISCO DO INVESTIMENTO Médio.

VARIAÇÃO DO INVESTIMENTO Nos últimos 6, 12, 24 e 36 meses. Renda Fixa Até 15% em renda variável De 15-30% em renda variável De 30% em renda variável

Previdência Ações Previdência Multimercados 35%

0% -10% MESES » 6

PARA QUEM?

12

É recomendável para criar uma reserva no longo prazo. Quanto mais cedo começar, melhor.

24

36

CENÁRIO ATUAL

Planos fechados compensam mais, pois empresas complementam depósitos do funcionário. Abertos são prejudicados por taxas de administração e carregamento.

O QUE É » PREVIDÊNCIA PRIVADA É INVESTIMENTO PARA QUEM JÁ PENSA NA APOSENTADORIA. HÁ DOIS MODELOS, O VGBL E O PGBL, DUAS TABELAS, A REGRESSIVA E A PROGRESSIVA, ALGUMAS TAXAS BANCÁRIAS E VÁRIAS FORMAS DE APLICAR O SEU DINHEIRO. HOJE, ELA RENDE MENOS DO QUE OUTRAS OPÇÕES NO MERCADO, MAS É MUITO USADA POR QUEM NÃO TEM DISCIPLINA PARA POUPAR.

FONTE: Anbima, julho de 2014, BrasilPrev e SulAmérica

Hoje, muita gente contrata um plano de previdência privada porque se obriga a poupar. As pessoas colocam na aplicação automática. Mas, antes de separar a grana e colocar na previdência, vale a pena pensar: é a melhor forma de garantir seu futuro no sítio, na casa de praia ou jogando dominó na praça? Aí é com você.


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FUNDOS: DAS AÇÕES AOS IMÓVEIS

INVESTIMENTOS DE MÉDIO RISCO

A MULTIPLICAÇÃO DOS

FUNDOS Existe vida além de renda fixa e DI. Conheça outros “condomínios” nos quais você se une a outras pessoas e paga alguém pelo trabalho de investir sua grana. IILTON CALDEIRA

V

ocê já deve ter ouvido algum amigo comentar. Depois da poupança, os fundos são um dos investimentos mais populares do País. Geralmente, o gerente do banco fala daqueles de renda fixa ou dos DI. São os mais simples. Só que existe muita vida lá fora. Hoje, todo banco ou instituição financeira oferece pelo menos algumas alternativas, das mais simples às mais sofisticadas, para grandes ou pequenos


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FUNDOS: DAS AÇÕES AOS IMÓVEIS

INVESTIMENTOS DE MÉDIO RISCO

investidores. Para se ter uma ideia, em 1993 havia 632 fundos em operação com um patrimônio líquido de R$ 171 bilhões. No fim de 2013 já havia 14.097 fundos, com patrimônio líquido de R$ 2,4 trilhões. Uma parte desses fundos é mais complexa do que os de renda fixa. Eles aplicam em ações, em dólares, às vezes fazem operações complicadas, com derivativos. Chegou a hora de conhecê-los. OS TIPOS Fundos reúnem várias pessoas para investir em algo, e esse algo será administrado por um banco. Quando tudo dá certo, os lucros desse investimento conjunto são divididos entre todos os envolvidos. Menos risco, mais chances de ganho. O QUE É » FUNDOS Os fundos mais simples entre esses são os que aplicam DE INVESTIMENTOS SÃO CRIADOS POR só nas ações de uma única empresa. Eles são a melhor INSTITUIÇÕES maneira de investir em empresas sem que você tenha de FINANCEIRAS E acompanhar, todo dia, as oscilações do mercado. Há funDIVIDIDOS POR COTAS. dos apenas com ações da Petrobras. Outros, só com ações AO COMPRÁ-LAS, VOCÊ da Vale. Outros investem em muitas empresas ao mesmo ENTRA NUM CLUBE. tempo, geralmente escolhendo as companhias por perfil. A PARTIR DAÍ, É COM Por exemplo, fundos de dividendos aplicam em ações de O GESTOR. ELE VAI empresas que remuneram seus acionistas com valores aciTENTAR AUMENTAR ma da média do mercado. Fundos Small Cap aplicam em O VALOR DO SEU empresas com baixa e média capitalização na bolsa. DINHEIRO DIA Também há os cambiais, que fazem o seu dinheiro acomAPÓS DIA. panhar a variação do dólar. Se ele tiver uma carteira mais diversificada, juntando ações, títulos públicos e dólares, por exemplo, ele é um fundo “multimercados”. O objetivo deles é fazer seu dinheiro render bem acima do CDI. E prepare-se, porque eles podem oscilar bastante. Primeiro, porque podem ter estratégias ousadas. Alguns aplicam em derivativos e montam estratégias baseadas em quanto eles acham que um determinado ativo vai se valorizar. Se os gestores do fundo apostam que o dólar vai subir em tantos meses e eles acertarem, ótimo. O fundo fez uma aplicação em câmbio, entendeu o cenário e todo mundo ganhou. Caso contrário, o fundo perde. De qualquer forma, ter um fundo multimercado é um bom primeiro passo para quem quer opções mais ousadas e rentáveis, mas não tem conhecimento ou tempo para se dedicar a elas. Porém, é bom ficar alerta: alguns fundos multimercado podem estar alavancados. Isso significa que eles têm risco de perda superior ao patrimônio do fundo. É raro, mas dá para perder tudo. De qualquer forma, você já sabe desse risco de saída: os gestores colocam essa informação na descrição do fundo.


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FUNDOS: DAS AÇÕES AOS IMÓVEIS

INVESTIMENTOS DE MÉDIO RISCO

No total, há 14 caFUNDOS DE AÇÕES E MULTIMERCADOS tegorias de fundos que se dividem em 46 tipos. De acordo com André INVESTIMENTO MÍNIMO Massaro, consultor e educador financeiro, é fundamental checar o RISCO DO INVESTIMENTO histórico do fundo e se o Médio a alto. rendimento foi constante ou com base em picos PARA QUEM? CENÁRIO ATUAL dois bons indicadores de Para quem quer investir em Os fundos de ações sofrem ações, mas não tem tempo com a bolsa. E os cambiais gestão. Além disso, prespara virar guru das finanças. voltaram a dar dinheiro, claro. te atenção nas taxas que você vai pagar. “Existem MULTIMERCADO MIX 30 (BANCO SAFRA) fundos com custos muito altos em comparação ao 6 Meses 12 Meses 24 Meses retorno que oferecem”, diz. “Não temos controle sobre qual será o retorno FONTE: Gustavo Borges, da XP Investimentos que vamos ter em um investimento, mas temos controle sobre os custos”, acrescenta Massaro.

DEPENDE.

TURBULÊNCIAS O ano passado não foi dos melhores para os fundos - exceto para os de renda fixa, que tiveram um bom desempenho. Alguns multimercados se lascaram. Foram tragados pelas baixas fúnebres da Bovespa. Uma exceção fora do mundo seguro dos fundos DI e das LCIs (veja mais sobre elas no box) foram os fundos cambiais, já que o dólar retomou o fôlego. Então, você me pergunta, quais são os melhores fundos para este ano? Infelizmente, não dá para saber. Acha que a Bovespa pode voltar a subir? Tente os fundos de ações (dividendos, small caps...). Vai viajar no final do ano e quer evitar surpresas com o dólar? Considere um fundo cambial. Acha que as turbulências vão continuar? Então cuidado com qualquer forma de renda variável. Boa sorte! OS CONDOMÍNIOS Todos os fundos funcionam como condomínios. Mas, em vez de apartamentos, você compra cotas. O conjunto dessas cotas é administrado pelo banco, que decide onde vai investir as economias de todos os cotistas. Há mais semelhanças com condomínios. Ao comprar cotas de um deter-


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FUNDOS: DAS AÇÕES AOS IMÓVEIS

INVESTIMENTOS DE MÉDIO RISCO

VALE A PENA INVESTIR EM LCI? SIM.

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e você conversou com seu gerente dia desses, talvez ele tenha falado que é melhor investir em LCI do que em fundos. Natural: a LCI (Letras de Crédito Imobiliário) chega a dar 95% do CDI, e com uma vantagem sobre os fundos que remuneram nessa faixa: LCI não paga imposto. Num DI, pelo menos 15% do seu ganho vai direto para o bolso do governo. Na LCI, não. Ela funciona como uma poupança com esteroides: também é destinada ao financiamento imobiliário e, como a poupança, livra você de impostos. Só que rende quase 50% a mais que a aplicação mais popular do País. De quebra, ainda dá direito ao nosso amigo FGC (Fundo Garantidor de Crédito). Se o banco ou a corretora quebrar, o fundo garante seu dinheiro de volta, até o limite de R$ 250 mil por instituição . No fim das contas, é uma aplicação quase sem risco – ao contrário dos fundos multimercado, as estrelas deste capítulo. As LCI, por sinal, têm uma irmã gêmea, as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). É a mesma coisa, com a diferença de que o dinheiro vira crédito agropecuário. O lado ruim, nos dois casos, é a falta de liquidez: só dá para tirar o dinheiro depois de meses, ou anos, dependendo da LCI ou da LCA que você escolheu. O investimento inicial também é alto: R$ 100 mil em alguns bancos. Mas, em corretoras, dá para entrar nesse jogo por R$ 10 mil.


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FUNDOS: DAS AÇÕES AOS IMÓVEIS

INVESTIMENTOS DE MÉDIO RISCO

minado fundo, o cotista está aceitando as regras de funcionamento. Elas determinam o valor mínimo para aplicação e resgate dos recursos, horários de funcionamento e custos de operação. Como em todo prédio, não importa quando você chega: os direitos e deveres se aplicam igualmente aos mais antigos e a quem acabou de chegar – independente de quantas cotas você tiver. Esses condomínios nasceram na Inglaterra, por volta de 1860, com o nome de investment trust. Eles investiam em títulos públicos e depois migraram para outras modalidades, como ações. A principal característica desses fundos era o fato de serem fechados para poucos participantes, como um clube de bons homens que queriam investir com segurança. Em pouco tempo, os fundos chegaram aos EUA, onde se expandiram vigorosamente. Apesar dos percalços ao longo do século, continuam firmes, fortes e grandes. No Brasil, eles surgiram na década de 1950. O Fundo Crescinco, o primeiro de grande expressão, nasceu na esteira do desenvolvimentismo do governo de Juscelino Kubitschek. As pessoas podiam investir nas novas indústrias que começavam a se espalhar pelo País. Em 1967, um decreto do governo federal deu origem aos fundos fiscais de investimento em renda variável, que ficaram conhecidos como Fundos 157. O objetivo era capitalizar empresas por meio de investimentos em ações ou debêntures, seguindo um modelo usado décadas antes nos EUA. Porém, foi apenas na década de 1990 que os fundos de investimento se popularizaram no Brasil, por causa da estabilização da economia e do controle da inflação. Atualmente, os fundos de investimento são fiscalizados e regulamentados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), ligada ao governo federal. Para Celso Grisi, diretor-presidente do Instituto de Pesquisa de Mercado Fractal, a melhor forma de entrar em fundos é ser bem conservador, ao menos no início. “O conselho que dou aos iniciantes é que não entrem de cara nos fundos mais arrojados, compostos por ações, porque eles podem apresentar fortes oscilações no curto prazo”, destaca. Os fundos cambiais também, já que o dólar é imprevisível. “Para quem está começando, não acho que seja interessante correr riscos elevados”, conclui.

VEJA QUAL É A TAXA DE ADMINISTRAÇÃO COBRADA PELO FUNDO ANTES DE ASSINAR O CONTRATO. SE ELA FOR MUITO ALTA E O FUNDO NÃO ESTIVER MUITO BEM, VOCÊ PODE PERDER DINHEIRO.


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FUNDOS: DAS AÇÕES AOS IMÓVEIS

INVESTIMENTOS DE MÉDIO RISCO

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LISTA DE TAREFAS Sempre veja qual é a taxa de administração. Ela costuma ser um percentual anual do seu investimento todo, incluindo a valorização. É O NÚMERO DE FUNDOS Nos fundos mais populares, pode ficar enEM OPERAÇÃO NO tre 1% e 3%. Se a taxa cobrada pelo fundo BRASIL. TEM PARA TODOS OS BOLSOS. do seu banco for muito acima da média do mercado, ou mais alta do que a cobrada em fundos similares, é roubada. Muitas vezes, ela come todo o seu dinheiro e acaba entregando menos do que a poupança, o mais simples dos investimentos. Mas a coisa não para por aí. Para alguns fundos existe a taxa de performance. Essa taxa é cobrada dos investidores quando a rentabilidade do fundo supera o índice de referência ao qual ele está atrelado. Ela remunera o administrador do fundo pelo desempenho dele na gestão dos ativos. Essa cobrança tem que ser vista por dois ângulos. Por um lado, ela é um custo extra. Por outro, serve de bônus para estimular o gestor a buscar retornos cada vez maiores para o dinheiro dos “condôminos”. Como nessa arena existem feras de todo o tipo, lembre-se que o leão também leva a parte dele. Quem aplica em fundos de investimento também paga Imposto de Renda ao resgatar recursos. Analistas são unânimes em afirmar que você não deve se deixar seduzir por rentabilidades astronômicas. Escolher uma aplicação pelo passado é o primeiro passo para fazer a escolha errada. Outra dica é ficar em paz consigo mesmo. Isso significa investir em fundos com riscos que você está confortável em assumir.

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O QUE UNE E O QUE SEPARA OS FUNDOS DE AÇÕES DAS AÇÕES Conheça as diferenças entre colocar dinheiro direto em uma empresa na bolsa de valores e pedir para uma instituição financeira fazer o trabalho duro por você.

Você pode comprar as ações por uma corretora ou por um banco. Você escolhe e elas são suas. Quando você investe pelos fundos, as ações são da instituição financeira que criou o fundo. Ela escolhe a ação.

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Nas ações, você paga três taxas. Duas na operação. Uma, mensal. Em muitos fundos, você paga apenas taxa de administração. Mas alguns cobram taxa de performance, quando vão melhor do que o esperado.

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Dividendos de ações são isentos de imposto de renda. Você só paga o tributo se as operações de compra e venda de ações extrapolarem R$ 20 mil no mês ou se você comprar e vender os papéis no mesmo dia.

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Já nos fundos de ações, a taxa é de 15% sobre o rendimento líquido. Tanto ações quanto fundos de ações são isentos do imposto sobre operações financeiras, o IOF. Em outros fundos, você pode ter de pagar.


ouro Compro e vendo

Ele brilha quando sua fé no mundo acaba – mas não vale mais do que dinheiro. Entenda o porquê e saiba como investir. VINICIUS OLIVEIRA

S

ilvio Santos dizia que barras de ouro valem mais do que dinheiro. O presente não dá tanta razão ao homem do baú, mas a história ajuda a explicar o fascínio do metal. O encanto começa logo na tabela periódica. O ouro se destaca entre os outros 118 elementos: ele não é um gás, não corrói,


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OURO

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não pega fogo e não te mata pelo contato. Só por esses critérios, a maior parte da tabela é eliminada. Além disso, é raro, mas não tanto quanto o ósmio. Ele também não oxida, como a prata. Restariam o ródio e o paládio, mas eles não eram conhecidos antes de 1800. Finalmente, numa finalíssima com a platina, o ouro ganha por ter ponto de fusão menor (1064°C x 1772°C), o que facilita o manejo. A soma dessa singularidade com um brilho que não se apaga deu valor ao ouro e à corrida para acumulá-lo. O poeta grego Píndaro, no século 5 a.C., já dizia que “o ouro é um filho de Zeus, nem as traças nem a ferrugem conseguem desgastá-lo, mas a mente humana é devorada por sua posse”. Até o desenvolvimento da produção de moedas, apenas monarcas e religiosos tinham contato com o metal. Afinal, era preciso mostrar quem mandava e quem tinha “contato direto” com os deuses. Egípcios, por exemplo, usavam barras com a estampa do faraó Menes. Só que, à medida que a economia se desenvolvia, era necessário criar algo mais simples para intermediar as transações. O ouro era o candidato natural. Mas tinha um problema: medir, pesar e conferir a pureza era difícil numa época em que não havia qualquer rascunho de Inmetro. Foi então que, por volta de 550 a.C., na Lídia, atual Turquia, começaram a ser cunhadas as moedas como nós as conhecemos hoje. As primeiras eram feitas de electrum, a liga metálica que surge da mistura entre ouro e prata. Isso criou um problema de confiança, já que não dava para saber se as moedas tinham realmente a quantidade de ouro que elas prometiam ter. Isso mudou com o rei Creso, que adotou a padronização do peso. As moedas passaram a ser feitas apenas de prata e ouro puros, com desenhos de partes do corpo de um leão indicando seu peso e valor. Finalmente o dinheiro seguia algum padrão. Foi uma revolução. A capital Sárdis se tornou zona de conforto para mercadores e rapidamente conquistou grande poder financeiro. Ela se tornou um paraíso de estabilidade no mundo antigo. Estava definido o padrão ouro versão 1.0. O comércio fluía de maneira tão espetacular que permitiu a construção de um dos maiores monumentos do mundo antigo, o Templo de Ártemis, a deusa grega da caça. QUESTÃO DE FÉ Assim como na Lídia do rei Creso, a economia atual também é movida pela confiança. Em 1999, quando você ainda se conectava à internet com o barulhento fax-modem e esperava dar meia-noite para pa-


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OURO

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gar só um pulso telefônico, o ouro caminhava a passos lentos, como quem carregava nas costas o peso de milhares de anos como instrumento para acumular riqueza. Muito antes da febre do Facebook, empreendedores faziam dinheiro da noite para o dia às custas de planos de negócios mirabolantes. Usuários iniciantes ainda criavam suas primeiras contas de e-mail quando a bolha estourou logo após a Nasdaq, bolsa onde se negociam ações de tecnologia, atingir 5.048,62 (feito que não repetiu até hoje). O investidor levava um belo tombo e via o ouro despertar atenção novamente. Naquele momento, o ouro ressurgiu e relembrou um velho padrão: quando as coisas vão mal, o ouro vai bem. OURO Em Como Lucrar com Ouro, Jonathan Spall, um ex-operador INVESTIMENTO MÍNIMO O QUE É » O OURO *contratofinanceiro com passaFUNCIONA PARA padrão na Bolsa é de 250 gramas gem pelo banco alemão INVESTIDORES MUITO Deutsche Bank e pelo CONSERVADORES RISCO DO INVESTIMENTO OU EM MOMENTOS Médio. britânico Barclays, exDE CRISE. ENTRE A plica que a cotação do CALMARIA DE 2007 VARIAÇÃO DO INVESTIMENTO ouro tende a subir E A DEPRESSÃO DE Nos últimos 6, 12, 24 e 36 meses. quando o dólar cai – e 2009, O PREÇO DELE vice-versa. Quando inOuro DOBROU. PORTANTO, vestidores internacio20% QUANTO MELHOR nais compram ouro, o A ECONOMIA, MAIS dólar é vendido e isso BAIXO O PREÇO leva à diminuição do vaDO METAL. 0% lor da moeda america-10% na. Como consequência, MESES » 6 12 24 36 a demanda pelo metal faz seu preço subir. Se a CENÁRIO PARA QUEM? inflação sobe, porque ATUAL Para quem tem muito dinheiro no Com os EUA estoca comida mercado, o ouro natue a Europa com medo de ralmente a acompanha. guerra nuclear. É saindo do Logo, é uma boa protea única proteção buraco, o ouro está ficando garantida ção contra o efeito corbarato de em caso de rosivo da inflação em novo. hecatombe ;-) tempos incertos. SeFONTE: BB, Caixa, Itaú, Economática e Consultoria Samy Dana gundo Spall, quando

R$ 23.300


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OURO

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177.200

você acredita que os governos têm controle da situação, existem poucas justificativas para investir em ouro. Quando a maré muda, é hora de apostar nele. Foi isso que aconteceu em 2008. Se você tivesse percebido que algo ia É A QUANTIDADE mal no mundo em 2007, um ano antes da queDE TONELADAS DE OURO QUE JÁ FORAM bra do banco Lehman Brothers, teria tido um EXTRAÍDAS NO MUNDO senhor lucro. EM TODA A HISTÓRIA. É METAL SUFICIENTE Em agosto de 2007, a cotação estava em PARA PREENCHER TODA A TORRE EIFFEL. US$ 660 dólares. Em dezembro de 2009, ela bateu em US$ 1.210. Na Europa, o valor também disparou, tamanho era o medo do contágio da crise financeira. Meio ano depois, durante a explosão da crise da dívida de países europeus como Portugal, Espanha, Itália e Irlanda, a cotação ainda avançaria mais. O ouro é a última reserva confiável quando tudo fica instável. QUEM DECIDE QUANTO VALE Quase todo ouro extraído na história continua por aí na forma de moedas, de barras, de dentes, de joias. A soma de todo o ouro que já foi extraído alcança 177.200 toneladas, uma quantidade que, se reunida, preencheria a Torre Eiffel ou formaria um cubo de 21 metros de lado, segundo dados do World Gold Council (Conselho Mundial do Ouro). Mesmo assim, segundo o conselho, essa quantidade seria insuficiente para financiar o comércio mundial, a não ser que pequenos grãos do metal passassem a valer altas cifras. Desde 1919, após a Primeira Guerra Mundial, o preço do ouro é definido pela London Gold Market Fixing, em Londres. Os maiores intermediários de ouro do mundo, os bancos Barclays, HSBC, Nova Scotia e Société Générale, informam duas vezes ao dia, por meio de uma conferência privada, de cerca de 10 minutos, a que taxa pretendem comprar ou vender para clientes ou adquirir para suas próprias contas. Após 95 anos em funcionamento, o sistema que movimenta bilhões de dólares todos os dias está na berlinda. O britânico Barclays foi multado em US$ 45 milhões (R$ 100 milhões) após um ex-operador ter admitido a manipulação da taxa do ouro, que cabe apenas aos quatro bancos (o alemão Deutsche Bank pulou do barco quando surgiram as primeiras suspeitas no começo do ano). A London Gold Market Fixing tenta contornar o caso e já se propôs a adotar um novo código de conduta. Tudo para que a confiança no ouro, herança de tantos séculos, não seja abalada.


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OURO

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O OURO E A FALTA DE DINHEIRO NO CAIXA

A

o longo dos séculos 19 e 20, vários países atrelaram o valor do dinheiro à quantidade das reservas em ouro. O banco tinha de converter as notas em metal, se alguém pedisse. Naqueles anos a economia mundial era bem menor e mais simples. Mas o ue fazer quando tem guerra? Abandonar o padrão-ouro e imprimir dinheiro para pagar as tropas. Foi isso que a Europa e os EUA fizeram. Mais tarde, os países indexaram suas moedas ao dólar, com o dólar lastreado ao ouro - e isso também foi abandonado. A vinculação entre moeda e uma reserva se mostrou inviável. Hoje, as moedas valem o quanto as pessoas acham que elas valem, por causa de uma série de indicadores econômicos. Neste contexto, as moedas dos países mais ricos e estáveis balizam o valor das outras. É por isso que a gente converte valores para dólar e o governo possui reservas na moeda americana. Mas isso não é automático, como já foi um dia. Com o fim do padrão-ouro, também aconteceu outra coisa. Para evitar a multiplicação de dinheiro e frear a inflação, os governos controlam a quantidade de moeda em circulação. Uma parte dos depósitos vai para o Banco Central e fica lá, congelado. Outra parte está em forma de títulos públicos e investimentos. Para mim e para você, são ferramentas para preser var ou aumentar o valor das nossas economias. Para o país, é uma forma de manter a economia em ordem - e crescendo. Seu dinheiro está bem guardado sem precisar virar papel. Além disso, a maior parte das operações bancárias é virtual. Os valores estão lá. As notas, não. Enquanto está tudo bem, ok. Quando as coisas degringolam, o pânico se materializa em filas gigantes na porta dos bancos e instalação de cofres caseiros. Todo mundo quer guardar suas economias bem pertinho. Isso aconteceu na Argentina e na Grécia, por exemplo. Nesses momentos, o inheiro mostra sua face: ele é uma ilusão na qual todo mundo acredita. Mas, sem essa ilusão, essa revista, por exemplo, não chegaria até você. A economia precisa dela para existir.


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OURO

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COMO EU USO Depois de se informar sobre EUA e Europa, talvez você decida comprar ouro e virar um aspirante a Tio Patinhas. Mas como fazer isso? “O investidor deve ficar atento a notícias sobre a economia de grandes centros, como EUA e Europa, especialmente os dados sobre emprego e de crescimento”, aconselha Maurício Gaioti, especialista da corretora Ourominas. E depois? Primeiro, é bom saber que não adianta correr para a joalheria, porque nem sempre o brinco, colar ou anel que você adquirir terá 24 quilates (999 partes de ouro fino para cada 1.000 partes de metal). Além disso, o preço da joia não tem tanta ligação assim com o praticado no mercado. Joia opera em outra faixa de valor. Seu anel de casamento não tem preço... Para investir em ouro, é preciso sair do shopping e ir a outros lugares. Um deles é a bolsa brasileira, a BM&FBovespa. Lá, você compra contratos do metal precioso. Como o mais negociado é o de 250 gramas, serão necessários mais de R$ 20 mil para entrar no jogo. Os bancos também criaram fundos que investem em ouro. Lembre-se que aqui você deve tomar cuidado tanto com as rentabilidades do passado quanto com as taxas de administração. Um bom passado não é garantia de bom futuro. Além disso, taxas altas podem fazer com que você perca boa parte da sua rentabilidade. “Em 2008, o ouro tinha cotação de R$ 40 a grama e, em 2012, foi para R$ 118, uma rentabilidade de 66%. Agora, a economia americana e a europeia estão mais tranquilas e o preço recuou um pouco”, explica Gaioti. Para quem quer aplicar em quantidades menores, a alternativa é o chamado “mercado de balcão”. É bem fácil, funciona pela internet e você consegue negociar com a corretora a compra de pequenas barras (também chamadas de lingotes). Como acontece quando você compra dólar, corretoras cobram um ágio e, por motivos de segurança, é recomendável deixar seu tesouro em custódia e levar para casa apenas o certificado. Na maior parte das vezes, o ouro é para o investidor conservador, que busca uma diversificação à moda antiga. Porém, ele não gera renda, não paga juros e não tem o potencial de produzir lucros mensais ou trimestrais. Quem possui pouco dinheiro para aplicar pode ganhar mais de outros jeitos. Nos impostos, os investimentos em ouro seguem as regras para ações. Vendas mensais de até 20 mil reais são isentas do Imposto de Renda. Para operações iniciadas e encerradas no mesmo dia, a taxação é de 20%. O ouro é sedutor, mas é preciso ter o coração duro para resistir aos seus encantos.


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DEBÊNTURES

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O investimento que acelera o PIB.

AS DEBÊNTURES Emprestar dinheiro para empresas tem retorno alto e ainda financia a infraestrutura. Conheça as vantagens e os riscos de apostar


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DEBÊNTURES

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O

governo pede dinheiro emprestado com os títulos públicos. Os bancos, com os CDBs. Só faltava alguém nessa fila: as empresas. Elas pegam dinheiro emprestado usando debêntures. O nome vem do inglês arcaico debentur, que por sua vez tem origem na voz passiva do verbo no latim debere. O investimento carrega no nome sua definição: o que deve ser pago. Debêntures são títulos de dívidas emitidos por empresas. Por meio de um contrato, você empresta dinheiro a uma companhia e recebe de volta, com juros, em um determinado prazo. O grande atrativo desses papéis, ainda pouco conhecidos entre pequenos investidores, é a rentabilidade. Eles têm riscos mais altos, mas também oferecem retornos maiores. Faz sentido. Alguns anos atrás, as empresas de Eike Batista emitiram debêntures sedutoras. Parecia difícil dar errado – mas deu. No final de 2013, a diretoria fez um acordo para atrasar o pagamento dos juros desses títulos. A Lupatech, que já foi a maior fornecedora da Petrobras, também teve problemas depois de tomar empréstimos para atender às novas regras da indústria e passa por um processo de recuperação extrajudicial. Para resolver as dívidas, vai transferir o controle da empresa para seus credores, transformando títulos que somam R$ 1,1 bilhão em ações. Porém, nem sempre os credores recuperam o dinheiro. Foi o caso da empresa americana de energia Enron. Ela era a sétima maior empresa dos EUA e virou um escândalo em 2002. Executivos forjaram resultados para alavancar seus bônus. Quando a fraude foi descoberta, a empresa devia US$ 15 bilhões em debêntures. E quebrou. Esses casos são raros. Em condições normais, todo mundo ganha, incluindo o país. Para as empresas, a vantagem é captar recursos com juros menores do que os oferecidos pelos bancos. Ótimo para ampliar fábricas e comprar equipamentos. Foi com esse propósito, aliás, que as debêntures foram inventadas no século 19, na Inglaterra. As primeiras financiaram a construção do Canal de Suez, no Egito, em 1860. Essa ligação entre a Europa e a Ásia deu um grande impulso ao comércio mundial. CAVALO ENCILHADO As debêntures deram tão certo que o investimento se tornou popular na Europa e nos EUA, onde explodiu. Na década de 1960, a emissão de debêntures já superava a de ações. Elas financiaram boa parte da infraestrutura que dá inveja quando a gente viaja para Nova York ou


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DEBÊNTURES

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Chicago. No Brasil, esses DEBÊNTURES títulos chegaram junto com a família real. INVESTIMENTO MÍNIMO Com a Proclamação da República, em O QUE É » DEBÊNTURES 1889, se tornaram RISCO DO INVESTIMENTO SÃO INVESTIMENTOS uma ferramenta para Médio. DE LONGO PRAZO E estimular a criação BAIXA LIQUIDEZ. AO de indústrias. O goVARIAÇÃO DO INVESTIMENTO COMPRÁ-LAS, VOCÊ verno criou linhas de Depende da negociação SE TORNA CREDOR DE com a empresa emissora. empréstimos apenas GRANDES EMPRESAS. para esses empreCOM UMA LONGA TRIBUTAÇÃO endimentos e incenHISTÓRIA DE ALTOS De 22,5% a 15%, sobre os tivou a emissão de E BAIXOS, ELAS rendimentos. Quanto mais tempo ações e debêntures COSTUMAM PAGAR aplicado, menos você paga. na bolsa. As pessoas JUROS MAIORES, MAS ficaram empolgadas. VOCÊ, GERALMENTE, PARA QUEM? CENÁRIO ATUAL PRECISA ESPERAR Muita gente compaPara Era um ANOS PELO RESGATE. rou essa emoção com investidores negócio para a euforia dos apostaexperientes, milionários. dores antes de uma com reservas Mas começa a polpudas se popularizar corrida de cavalo. Daí e uma boa entre vem o nome de crise. assessoria investidores Encilhamento signififinanceira. comuns. ca preparar um cavalo para a corrida. Era FONTE: Cetip esse o clima. Tudo virou aposta de jóquei. Especuladores passaram a emitir debêntures sem lastro. A especulação virou golpe. Quem vendia a debênture passava a ideia de que tudo era uma oportunidade única. O ditado de que “cavalo encilhado não passa duas vezes” virou sinônimo de atividade na bolsa. Até que as fraudes foram descobertas e houve uma onda de falências. Em 1893, para conter a crise, um decreto contra fraudes exagerou na dose e atrapalhou o desenvolvimento delas – e do País. Apenas em 1965 veio uma nova lei. Ela tirou as amarras das debêntures e criou modalidades e condições para a emissão dos títulos. Em 1976, com a criação da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), vieram mais inovações com o intuito de popularizá-las, mas foi só a partir

R$ 1.000


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DEBÊNTURES

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ELAS FINANCIARAM O CANAL DE SUEZ, NO EGITO, E MUDARAM O COMÉRCIO MUNDIAL. NOS EUA, SE TORNARAM UMA FEBRE COM AS OBRAS DE INFRAESTRUTURA. NO BRASIL, AS PRIMEIRAS TERMINARAM EM BOLHA.

de 1994, com a redução da inflação e a estabilidade da economia, que a emissão de debêntures e a sua compra se tornaram uma opção interessante para empresas e investidores. De saída, já teve um caso de sucesso. A Embraer, por exemplo, se valeu das debêntures durante a sua reestruturação, na década de 1990. A empresa passou por sérias dificuldades nos anos 80 e precisava organizar sua dívida e investir no desenvolvimento do novo jato ERJ-145 para crescer. Graças à emissão desses títulos, cerca de US$ 500 milhões foram injetados na companhia recém-privatizada, que passou a competir no mercado internacional de jatos regionais já a partir de 1996. Essa emissão foi fundamental para a Embraer se tornar uma gigante no setor aeroespacial. Porém, até hoje, a maior parte dos debenturistas ainda são investidores institucionais, como bancos, fundos de pensão, seguradoras e corporações. Isso está mudando. COMO INVESTIR Não é qualquer empresa que pode sair por aí pedindo dinheiro emprestado ao público por meio de debêntures. São somente aquelas que têm seu capital aberto e vendem ações. Isso também significa que a emissão de títulos precisa da aprovação dos acionistas da companhia. Depois, ainda existe um longo processo até a negociação dos títulos, que passa pela escolha de um banco ou corretora que deverá registrar a escritura de emissão na CVM. Então a empresa elabora um prospecto da oferta com informações sobre ela, apresenta planos de investimento com os recursos levantados, estabelece o preço e apresenta as debêntures para investidores. Recentemente, muitas debêntures estavam pagando a inflação oficial, o IPCA, mais uma taxa de juros de 8% ao ano. Já um título público como a NTN-B dava IPCA mais 6% ao ano. Como são dois investimentos de longo prazo, dá uma diferença grande no final. Se você colocar R$ 1.000 em uma NTN-B hoje e resgatar em dez anos,


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DEBÊNTURES

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terá R$ 2.600, levando em conta um IPCA de 6% ao ano. Se investir em uma debênture pelo mesmo período, terá R$ 3.000. As debêntures têm diferentes tipos de garantias: a real, na qual o patrimônio da empresa ou de terceiros entra no jogo, a flutuante, que dá preferência aos debenturistas em caso de falência, e a quirográfica, que não dá preferência em relação aos demais credores. A debênture subordinada não tem garantia. Os títulos de dívidas de empresas são papéis de médio e longo prazo, com vencimento de cinco anos ou mais. Eles são mau negócio para quem pode precisar do dinheiro antes do vencimento - nem sempre é fácil achar um comprador. Em comparação com outros investimentos, as ações podem ser vendidas a qualquer momento, pelo menos os papéis mais populares. Os CDBs, todos os dias. Os títulos públicos, todas as semanas. Além disso, existe o risco do calote. Ler e entender as informações do prospecto de oferta é fundamental, principalmente o capítulo com a nota de risco. Essas notas são dadas por agências como Standard&Poor’s, Fitch e Moody’s. Quem tem nota boa paga juros mais baixos. Recentemente, a Moody’s abaixou a nota da Petrobras por causa dos escândalos


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DEBÊNTURES

de corrupção na companhia. Na prática, a maior empresa do País vai ter de pagar juros mais altos no mercado de debêntures. Esse princípio também vale para as garantias – quanto menores forem, maiores serão os juros. Aí é uma questão de aposta e perfil do investidor. O normal é que uma debênture custe pelo menos R$ 1 milhão. Mas, nas corretoras, você compra pedaços delas. São papéis mais democráticos, que custam a partir de R$ 1.000. É um bom jeito de começar.

INVESTIMENTOS DE MÉDIO RISCO

500 MILHÕES DE DÓLARES. ESSE FOI O VALOR DAS DEBÊNTURES QUE FIZERAM DA EMBRAER UMA EMPRESA GLOBAL.

DEBÊNTURES INCENTIVADAS Uma boa alternativa para quem não é milionário e quer entrar para o mundo das debêntures nasceu em 2011. São as “debêntures incentivadas”. Elas foram criadas pelo governo para alavancar projetos de infraestrutura, e com um bom atrativo. Esse investimento é isento do Imposto de Renda e ainda oferece uma garantia extra: se a empresa ou consórcio deixar de pagar os debenturistas, o crédito dela com o BNDES é bloqueado. O prazo mínimo para o vencimento das debêntures de infraestrutura é de quatro anos e muitos títulos são de oito anos ou mais. No cenário atual, de incertezas econômicas, ainda afugenta investidores. De acordo com a Cetip (Central Depositária de Títulos Privados), as incentivadas representam hoje só 1% do mercado de debêntures. A aposta do governo para aumentar essa fatia é a criação de fundos de investimentos. Os bancos reúnem títulos de dívida incentivados e oferecem para as pessoas. É uma maneira de o investidor não emprestar dinheiro apenas para uma empresa, mas para várias, diminuindo os riscos. O primeiro fundo formado exclusivamente por debêntures, que aplicará em projetos de energia, transporte, água, saneamento e irrigação, foi colocado em negociação pelo Banco do Brasil e pela Votorantim Asset com um patrimônio inicial de R$ 300 milhões, com prazo de dez anos. O investimento inicial mínimo é de R$ 25 mil, mas apenas para investidores que provarem ter ao menos R$ 300 mil em outras aplicações. Se pegar, outros fundos do tipo certamente virão. Aplicar em papéis de dívidas de empresas deve se tornar algo tão natural quanto investir em fundos de dívidas de bancos ou do governo. Só que com rendimentos maiores.


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AÇÕES

INVESTIMENTOS DE ALTO RISCO

O JOGO DE MALANDRO E OTÁRIO DAS

AÇÕES A bolsa pode ser um caminho curto para ganhar muito em pouco tempo. Mas não conte com isso. O negócio ali é o longo prazo. iILTON CALDEIRA


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AÇÕES

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INVESTIMENTOS DE ALTO RISCO

ocê é um bem-sucedido pipoqueiro. Até onde deu, seu negócio cresceu com o próprio faturamento. Só que uma hora os R$ 1.000 de lucro que ele te dá, todo mês, não bastam. Você precisa de dinheiro para comprar mais carrinhos. Seu cunhado, aquele pão-duro, não topa. Os juros do banco não compensam. Até que um dia um cliente te diz: e se você abrisse o capital do seu carrinho? Você, que só estava acostumado a abrir saquinhos, pergunta o que é isso. Acaba descobrindo que é o jeito mais barato de conseguir dinheiro para expandir o negócio. No Brasil, infelizmente, não dá para abrir o capital do seu carrinho de pipocas – mas o estalo inicial para o mercado de ações veio desse tipo de necessidade. Por isso vamos avançar com o exemplo do carrinho de pipoca - que foi extraído do livro Crash - Uma Breve História da Economia, de Alexandre Versignassi. Agora você precisa saber o valor do seu negócio. Talvez seja o seu lucro anual, o que daria em torno de R$ 12 mil. Só que as coisas são mais complicadas. Seu carrinho é sua vida. Não dá para valer tão pouco. Então você decide que ele vale não o lucro de um, mas o lucro de dez anos. Pronto, seu carrinho tem valor estimado em R$ 120 mil. Então agora é o momento de lançar as ações. Você divide o valor em 10 mil ações de R$ 12 cada uma e começa a oferecer aos clientes. Mas toma um cuidado: não vende tudo. Caso contrário, você deixaria de ser o dono da empresa. Suponhamos, então, que você vai vender metade das ações. Pronto, você tem R$ 60 mil para comprar mais carrinhos. No jargão da bolsa, você abriu o capital da sua empresa. Em um ano, o plano de expansão deu certo. Agora são dez carrinhos. Juntos, eles dão um lucro de R$ 12 mil por mês. Como a empresa tem muitos sócios, você tem de distribuir esse lucro. São R$ 6 mil para você e mais R$ 6 mil para os acionistas. O dinheiro que você distribui aos seus milhares de sócios ganha um novo nome a partir de agora: dividendos, o nome usado na bolsa para descrever essa partilha. É um negocião para todo mundo. Seu lucro passa de R$ 1.000 para R$ 6 mil em um ano. Os acionistas sorriem. Cada ação dava direito a R$ 1,2 de lucro por ano. Agora, dá direito a R$ 7,2. E é exatamente assim que funciona quando você compra ações. Você se torna dono de uma parte de uma empresa esperando que ela se valorize, se expanda e dê cada vez mais lucros. Mas aí entra uma questão que aflige qualquer pessoa que vai comprar ações de uma empresa. Como eu sei se a ação está cara ou barata? O melhor indicador é o P/L, o índice preço sobre lucro. O preço real de uma empresa é feito assim: você pega o lucro que a empresa deu nos


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AÇÕES

INVESTIMENTOS DE ALTO RISCO

AÇÕES

O QUE É » AÇÕES SÃO PEQUENAS PARTES DE UMA EMPRESA. AS COMPANHIAS EMITEM ESSES TÍTULOS QUANDO PRECISAM DE MAIS DINHEIRO PARA AMPLIAR O NEGÓCIO. AO COMPRÁ-LOS, VOCÊ SE TORNA SÓCIO MINORITÁRIO E PASSA A GANHAR UMA PARTE DOS LUCROS.

AS 5 MAIORES ALTAS DO IBOVESPA Gol, Marfrig e Americanas estiveram entre as melhores apostas para 2014, rendendo pelo menos 35% no ano – mais de três vezes a média da Selic.

42%

CETIP (Sistemas) GOL (Linhas Aéreas)

40%

MARFRIG (Frigorífico)

35%

AMERICANAS (Varejo)

35%

KROTON (Educação)

35% 0

20

40

60%

AS 5 MAIORES DESVALORIZAÇÕES

A perda mais drástica foi a da Oi. Mas o pior negócio de 2014 acabou sendo a siderurgia. Petrobras sõ não aparece aqui porque perdeu “só” 40% no ano. OI (Telecomunicações)

-83%

USIMINAS (Siderurgia)

-65%

CSN (Siderurgia)

-62%

PDG (Imóveis)

-57%

GERDAU MET. (Metalurgia)

-50% -60%

-40

-20

0

PARA QUEM

CENÁRIO ATUAL

Para quem tem tempo – podendo esperar anos por algum retorno. E para quem pode encarar perdas, porque elas vão acontecer.

A ideia de que “a bolsa está barata” é uma ilusão. Ações de companhias sólidas, como Ambev, Embraer e Itaú estão com preços altos.

TRIBUTAÇÃO

Isenta para ganhos de até R$ 20 mil por mês. Dados: Economática


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AÇÕES

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12 meses anteriores e divide pelo preço somado de todas as ações que ela tem no mercado. Vamos pegar um exemplo com duas empresas hipotéticas que atuam no mesmo setor. O preço de uma ação da empresa A é R$ 30. O da empresa B é R$ 20. Aparentemente, a empresa B é mais barata que a empresa A. Só que não. A empresa A tem R$ 6 bilhões em ações no mercado e um lucro de R$ 600 milhões nos 12 meses anteriores. Então o PL dela é de 10. A empresa B também tem R$ 6 bilhões em ações, mas apenas R$ 200 milhões de lucro. Então o P/L dela é 30. As ações da empresa B são três vezes mais caras do que as da empresa A, embora o preço nominal seja mais baixo. Os investidores que colocam dinheiro na empresa B esperam que o lucro dela aumente ao longo do tempo e que esse P/L caia. Muitos deles estão acostumados com um determinado valor de P/L por segmento da economia. Setores muito rentáveis, mas com potencial de crescimento pequeno em curto prazo, tendem a ter P/L baixo. Não vai sair muito daquilo. É o caso do setor de petróleo. Ele dá muito dinheiro, mas pede investimentos tão expressivos que dificilmente essa empresa terá grandes saltos na margem de lucro em poucos anos. Não é fácil tirar petróleo das profundezas do mar... As ações da Petrobras na Bovespa estavam recentemente com um P/L de 9. Elas refletem não apenas o setor, mas também os problemas recentes da companhia. Já as ações da também petroleira Exxon Mobil na Bolsa de Nova York têm um P/L de 12. As ações da Petrobras estão cerca de 27% mais baratas que as da Exxon, embora nominalmente sejam infinitamente mais baratas. Uma ação da Exxon nos EUA custa cerca de R$ 240. Neste momento, as ações da Petrobras, em São Paulo, estavam a R$ 13. Isso significa que os investidores estão botando mais fé na Exxon do que na Petrobras. Algumas empresas novas e promissoras podem ter P/Ls altíssimos. O P/L do Facebook é de 70, por exemplo. Nesse caso, existe um grande descompasso entre o valor de mercado e o que de fato a empresa entrega, mas os investidores acreditam que o potencial de lucro é enorme.

AO COMPRAR UMA AÇÃO NA BOLSA, VOCÊ ADQUIRE UMA PEQUENA PARTE DE UMA EMPRESA. VOCÊ VIRA SÓCIO MINORITÁRIO DA COMPANHIA E RECEBE PARTE DOS LUCROS QUE ELA OBTIVER.


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Dito assim, tudo parece muito tranquilo, racional. Só que esse jogo tem armadilhas. Ações envolvem números gigantescos. Só a Petrobras tem 13 bilhões de ações no mercado – são muitos sócios, com interesses distintos, atuando ao mesmo tempo. No final do dia, esse é um jogo de “malandros e otários”. Quem vende acha que o preço de uma ação não vai passar muito daquilo. Quem compra acha que o vendedor está fazendo um péssimo negócio. É um jogo de nervos. Mas é justamente por causa desse jogo que nós construímos o mundo como o conhecemos.

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1.83 TRILHÃO DE REAIS FOI O VOLUME FINANCEIRO NEGOCIADO NA BOVESPA EM 2013. FOI O MAIOR NÚMERO JÁ REGISTRADO NO BRASIL.

NA ESTRADA A primeira bolsa de valores surgiu na Holanda. Em 1602, a Companhia Holandesa das Índias Orientais fez algo que seria muito copiado ao longo dos séculos. Ela precisava de dinheiro para enfrentar a concorrência de outras empresas que trabalhavam com colonização e exploração de diversos territórios pelo mundo, principalmente na Ásia. Só que era uma operação muito arriscada. Barcos afundavam por tempestade, por pirataria. O retorno podia ser bom, mas os riscos eram muito altos. Então a companhia teve uma ideia genial: e se o risco fosse dividido entre muitas pessoas? Foi aí que nasceram as ações. Empresas com muitos sócios, dividindo os lucros entre todos eles. Quanto mais ações você tem, maior a sua parcela nos lucros que a companhia distribuir. Pronto, estavam lançadas as bases do mercado de ações. Hoje, no Brasil, a lei obriga as empresas a dividir, no mínimo, 25% do lucro com os acionistas. Já a Bolsa de Valores de Nova York, a mais importante do mundo, foi criada em 1792. Na época, os negócios ocorriam na rua, como uma dessas feiras livres em que você come pastel. Esse conjunto de banquinhas recebeu o nome de “Bolsa de Valores de Rua de Nova York”. Só que o negócio cresceu, o comércio de ações foi para um lugar fechado e, em 1863, mudou de nome. Virou Bolsa de Valores de Nova York, NYSE, na sigla em inglês. Dali em diante, com alguns tropeços pelo caminho, se expandiu pela região de Wall Street, no centro de Nova York. Aliás, daí vem a associação entre Wall Street e mercado financeiro. Enquanto crescia, esse mercadinho se transformava no motor da economia americana. Muitos negócios revolucionários na virada do


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século 19 para o século 20 foram viabilizados graças à confiança de investidores. Só um exemplo: a indústria automobilística deve muito da sua existência às ações. Mas, como todo empreendimento humano, ela não está imune aos ciclos da economia. Durante a Primeira Guerra Mundial, as indústrias dos EUA exportavam muito para a Europa em guerra. Essa enorme força produtiva era sustentada pelas ações. Após o conflito, os europeus tinham um continente para reconstruir. No começo, os EUA se deram bem: eles forneciam as máquinas que impulsionavam essa reconstrução. Até que, no fim da década de 1920, os ventos mudaram. Os europeus já tinham suas próprias máquinas e fábricas. Com a diminuição no ritmo das exportações para a Europa, as indústrias dos EUA não conseguiram vender como antes. A coisa degringolou. Muitas delas tinham ações na bolsa. Muitos americanos tinham suas economias investidas justamente nessas ações. Foi uma combinação virtuosa por muito tempo. Mas, a partir dali, se tornaria explosiva. Com as expectativas de lucro caindo, as vendas de ações cresceram. Quanto mais gente vende, mais o preço cai. Quando mais cai o preço, mais gente vende. É um círculo vicioso. O resultado foi uma forte queda no valor dos papéis. Em poucos dias daquele outubro de 1929, investidores ricos perderam praticamente tudo. A taxa de desemprego, alguns anos depois, chegaria a 30%. A crise, que ficou conhecida como a Grande Depressão, não foi só a mais traumática da história americana. Ela acabou provocando um efeito dominó planeta afora. Já naquela época, muitos países mantinham relações comerciais fortes com os Estados Unidos. O Brasil era um deles, já que o maior comprador do café produzido por aqui eram os americanos. Com a crise, a importação caiu e os preços do café acompanharam esse movimento, dando prejuízos aos fazendeiros. O outro lado dessa moeda é que os empresários do setor resolveram diversificar os negócios, investindo em indústrias. Olha como são as coisas: as primeiras indústrias de São Paulo devem boa parte da sua existência à crise americana. No Brasil, a primeira bolsa de valores foi inaugurada no Rio de Janeiro, em 1845. São Paulo levaria algumas décadas para ter a sua, mas acabaria criando a mais forte. Em 1890, nasceu a chamada Bolsa Livre, embrião da Bovespa. Em 2000, a Bovespa se fundiu com as outras bolsas de valores do País e se tornou o único lugar para a compra e venda de ações. No mesmo período, para estimular o investimento em ações, o governo federal deu aval para a criação dos Fundos Mútuos de Privati-


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zação (FMP). O dinheiro do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) poderia, pela primeira vez, ser usado para comprar ações da Petrobras e da Vale. A medida também tinha um caráter didático, já que levou ações para um público novo, que capitalizou duas das maiores empresas do Brasil. Esses investimentos foram vantajosos para as empresas e para muita gente durante alguns anos. Os fundos com ações da Vale tiveram valorização de 1.300% em cinco anos. Quem investiu R$ 300 em 2002 tinha R$ 4.200 em 2007. No caso da Petrobras, a rentabilidade de 2000 a 2007 foi de aproximadamente 900%. Já quem deixou o dinheiro no FGTS, paradinho, viu o valor crescer apenas 50% no mesmo período. Porém, a crise internacional de 2008, a mais recente turbulência global no mercado financeiro, também afetou os rendimentos dos fundos que aplicam em Vale e Petrobras. Essa é uma das principais lições da bolsa: o passado não garante o futuro. Apenas o ilumina. AÇÕES HOJE A economia tem muitos mistérios. Nos últimos anos, o crescimento do Brasil perdeu fôlego. Apesar disso, a Bovespa bateu recorde de volume financeiro em 2013, com R$ 1,83 trilhão negociado ao longo do ano. E aí a gente volta para o jogo de malandros e otários. Onde

AS LOUCURAS DA BOVESPA NA ERA DA INFLAÇÃO

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uem viu a Bolsa de Valores de São Paulo batendo recordes na segunda metade da década de 2000 mal podia imaginar que, poucas décadas antes, ela era um mico. Pouquíssimos investimentos poderiam concorrer contra a inflação. Em 1990, por exemplo, a inflação foi a Alemanha e a bolsa, o Brasil. A inflação bateu em 1.476%. A bolsa, em 308%. Mas houve um ano, 1988, em que a bolsa ganhou - no tapetão. O investidor Naji Nahas comprou ações das maiores empresas com empréstimos altíssimos. Comprava tanto, e com tanta discrição, que conseguiu comandar o preço delas e ganhava de todos os lados. Era como se um jogador de cassino comandasse as bolinhas. Só que o cassino descobriu. A direção da Bovespa desconfiou e conversou com as pessoas que emprestavam dinheiro a Najas. A fonte secou, Nahas se complicou e acabou condenado a 11 meses de prisão domiciliar. Quando a notícia de que ele tinha sido preso se espalhou, não teve pregão no outro dia. A Bovespa quebrou. Nahas tinha levado a bolsa a ter uma das maiores altas da história da humanidade, e uma das maiores quedas. A sorte é que ela não era tão grande na economia brasileira. Estava na casa de 5% do PIB. Se fosse hoje, as consequências seriam inimagináveis. Só que o trauma ficou. Tanto a inflação quanto o caso Nahas explicam por que muitas pessoas ainda olham para a bolsa com um tantinho de desconfiança. Faltava glamour, sobrava problema.


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alguns estão vendo o barco afundar, outros estão enxergando um mercado promissor. É um eterno jogo de expectativas. Quem usou o FGTS para investir na Vale ganhou bastante, como você viu. Mas às vezes as expectativas não saem exatamente como o planejado. Poucas pessoas criaram tantas expectativas quanto Eike Batista. Por alguns anos, ele virou sinônimo de grandeza e esteve envolvido com petróleo, estaleiros e até reforma de hotel histórico no Rio. As empresas do grupo “X” se tornaram símbolos do Brasil que dá certo. Pena que tudo que Eike vendeu era uma grande e sonora ilusão. O patrimônio virtual dele e das suas empresas foi de US$ 34 bilhões para quase nada a ponto de Eike dizer que era muito difícil voltar à vida de classe média. Junto com ele caíram os investidores que compraram suas ações porque acreditaram que Eike ia tirar muito petróleo do mar, construir muitos navios, pagar muitos dividendos e valorizar muitas ações. O problema é que, na hora do vamos ver, as empresas de Eike entregaram muito menos do que o prometido e fizeram muito barulho antes de resultados concretos. Se fosse um bar, o chope teria só espuma. Para Eike, foram problemas de mercado e de gestão dos executivos. Para o Ministério

O QUE WARREN BUFFETT PODE TE ENSINAR

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om uma receita simples, Warren Buffett se tornou um dos homens mais ricos do mundo e fez da Berkshire Hathaway, a empresa de investimentos que dirige, um colosso financeiro. Ele estuda os resultados e a gestão das empresas. Em vez de comprar e vender ações todos os dias, como fazem muitos investidores, ele aposta em algumas e deixa o dinheiro lá. Quando chegam os dividendos, ele reinveste. Assim, influencia o rumo das empresas, fazendo com que elas sejam melhores, mais sólidas e mais lucrativas. Parece fácil, mas quem seria capaz de aguentar as oscilações do mercado? Quem teria tempo para acompanhar detalhes administrativos? O jogo de Buffett é simples, mas exige uma disposição descomunal. Para ele, o paraíso é quando as ações de uma empresa sólida caem. Aí, é hora de comprar. Buffett sabe que o preço do papel está mais baixo do que vale. As chances de ganho são maiores. Então ele vai lá e compra. Poucas pessoas fizeram um caminho parecido. Uma delas foi uma ex-funcionária da Receita Federal dos EUA, Anne Scheiber. Ela seguiu exatamente a receita de Buffett - mais por vocação do que como exemplo. Estudava o alanço das empresas, a cultura delas e o mercado. Investiu US$ 5 mil em 1944, numa carteira que tinha Coca-Cola e o estúdio Paramount. Quando morreu, em 1995, tinha uma fortuna de US$ 22 milhões.


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Público, Eike fraudou resultados para alavancar suas empresas – o que é ilegal. A questão agora vai à Justiça. De qualquer forma, a história de Eike só serviu para afastar ainda mais as pessoas da bolsa. O mercado vive de confiança, e por isso transparência e boas práticas são exigidas por lei. Sem isso, o mercado quebra. De qualquer forma, é preciso deixar a ingenuidade longe do seu dinheiro. Você investe porque acredita que pode ganhar dinheiro, e não porque admira a pessoa ou os sonhos dela. Esse é um grande erro, e continua sendo cometido pelos novatos na bolsa. Elas compram sonhos como se eles pagassem gordos dividendos. O outro, tão comum quanto, é investir olhando apenas pelo retrovisor. As pessoas se encantam ou se desesperam com o desempenho das ações no passado. Não está certo. A primeira regra que o candidato a investidor precisa lembrar é a seguinte: informação é o fundamental. Conhecer a empresa da qual você pretende ter ações é chave no negócio: os administradores são sérios? O produto da empresa é confiável? Ela entrega lucros consistentes ao longo dos anos? Outra dica dos especialistas é colocar um selo no dinheiro. Ele tem de ser destinado a projetos de médio e longo prazo. Muitas vezes, ações são como vinho e melhoram com o tempo. Na prática, isso não é fácil. É preciso uma dose extra de paciência para atravessar as fortes oscilações de curto prazo. No caso do Brasil existem outros fatores que pedem uma boa avaliação. O País é uma jabuticaba no mundo financeiro. Tem uma situação política estável, mas uma taxa de juros típica de países em crise profunda. Isso ainda faz com que muita gente prefira colocar dinheiro em títulos do governo em vez de buscar ganhos maiores na bolsa. Na prática, reduz o número de compradores de ações. “Temos a taxa de juros real, descontada a inflação, mais alta do mundo. Uma pessoa que pretende investir no mercado de ações precisa saber muito bem por que ele quer entrar nessa aplicação”, avalia o consultor de investimentos André Massaro. Ele ainda explica que existem alternativas em outras modalidades de investimento, com riscos menores, que hoje oferecem rentabilidade de mais ou menos 6% acima da inflação. É o caso, como você já viu, das NTN-Bs, na parte de títulos públicos. “Isso é uma rentabilidade que, em economias desenvolvidas, as pessoas buscam na renda variável. No Brasil, isso acaba sendo um desmotivador para o mercado de ações”, conclui Massaro. No caso dos Estados Unidos é o contrário. Se o investidor quiser ter uma rentabilidade razoavelmente acima da inflação, ele terá que ir ao mercado de ações ou aplicar dinheiro em fundos que investem em títulos de mercados emergentes - como o Brasil.


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COMO EU ENTRO O investidor que quiser aplicar diretamente em ações vai precisar abrir uma conta em uma corretora. Na avaliação do administrador de investimentos Fabio Colombo, ações são ótimas para quem está na beira dos 30 anos. “Eles têm o tempo a seu favor para acumular ganhos. Porém, é melhor não investir o dinheiro destinado para a compra do primeiro carro, por exemplo. É um investimento para longo prazo”, avalia. Há vários tipos de ações, que se diferenciam de acordo com os direitos e deveres de quem as possui. As preferenciais têm a sigla PN e costumam ser identificadas na Bovespa com o número 4. As preferenciais da Petrobras, por exemplo, são PETR4. Elas são mais negociadas porque os donos delas recebem mais dividendos. São ações com mais liquidez. Já as ordinárias são conhecidas pela sigla ON. Elas dão direito a voto na assembleia de acionistas, mas pagam menos dividendos, em geral. Porém, elas passaram por mudanças no Brasil, no começo dos anos 2000. A Bovespa criou o “novo mercado”. A partir daquele ano, as novas emissões passaram a ser sempre ON, mas novas ON. Elas dão um tratamento mais igualitário aos acionistas. Todo mundo tem direito a voto e tratamento igual na hora de distribuir dividendos. Antes, quem era preferencial podia receber mais, e antes, de quem era ON. O novo mercado acabou com essa divisão e simplificou o mercado. Essas ações são identificadas pelo número 3. A Ambev, por exemplo, agora é só ABEV3. A Natura, NATU3. No passado, ON levava o número 5. Por fim, as garantias (ou falta delas). Se a empresa falir, você fica sem o dinheiro das suas ações. Também não há um Fundo Garantidor de Crédito, como no caso do CDB ou da poupança. É aquilo: risco maior pode representar mais dinheiro - e também perda total. O sonho de ser sócio de uma grande empresa é mais concreto do que parece. Você só precisa pensar, no final das contas, se esse mundo é para você.

A BOLSA DE NOVA YORK NASCEU EM 1792. ELA COMEÇOU COMO UM MERCADINHO DE RUA EM QUE SE NEGOCIAVAM PAPÉIS DE EMPRESAS EM BANQUINHAS. HOJE, É A MAIOR DO PLANETA.


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DERIVATIVOS

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O dinheiro rápido e incerto dos

DERIVATIVOS Eles fazem dinheiro brotar do nada, só que estão mais para apostas do que para investimentos de fato. Na prática, o mercado de derivativos é um cassino mesmo, só que legalizado no mundo todo. Boa sorte. ILTON CALDEIRA

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erivativo é uma mistura de aposta com seguro – e é mais fácil explicar por exemplos. Vamos supor que você é dono de uma pequena importadora. O preço do dólar é fundamental para o seu negócio. Se o dólar subir muito, você vai ter de repassar o preço aos consumidores – e nem sempre isso é fácil. Então você vai a uma instituição financeira e diz: preciso garantir que o dólar vai estar em R$ 2 daqui a dois meses. Ela diz “claro!, vamos usar derivativos”. Você então se compromete a comprar um certo número de dólares daqui a dois meses pela cotação de R$ 2. É uma ótima maneira de evitar grandes variações de preços para o seu negócio.


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DERIVATIVOS

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Só que, para isso funcionar, alguém precisa acreditar que o dólar vai estar mais barato daqui a dois meses. Se essa pessoa estiver certa, ela ganha – e no mercado sempre tem alguém apostando. Se o dólar estiver a R$ 1,80, a pessoa vai ganhar 20 centavos em cima da cotação que você se propôs a pagar. Agora, se estiver a R$ 2,20, ela perde 20 centavos. Assim como há derivativos para dólar, há para mais uma série de coisas, inclusive ações. Derivativos, portanto, são investimentos altamente arriscados. O valor deles sempre deriva, depende, de outros investimentos – daí vem o nome. COMO APOSTA Sabe aquela história de que alguém ficou milionário investindo na bolsa? Então, a maior parte dessas fortunas é feita com derivativos. Isso acontece porque essas pessoas conseguiram se antecipar ao mercado e ganharam muito na diferença. Foi assim que o megainvestidor George Soros, por exemplo, ganhou US$ 1 bilhão em um único dia, em 1992. É fácil entender. Imagine que aquela instituição financeira tenha fechado o mesmo acordo com outros mil importadores e o dólar realmente tenha caído de R$ 2 para R$ 1,80. Dependendo da quantidade de moeda em jogo, pode dar muito dinheiro. Contratos contra variação de preços, por exemplo, existem desde a Grécia Antiga. Já opções de compra, como as usadas por Soros, deram os primeiros passos na Inglaterra, na mesma época em que as ações começaram a se popularizar. Faz sentido. Há muitas pessoas querendo ações por determinados preços e dispostas a fazer acordos para tê-las por esse valor. Além disso, há o prazer humano na aposta. É uma combinação irresistível. Para começar nesse jogo, o jeito é abrir uma conta em uma corretora e ficar por dentro das notícias de economia. Suponhamos que as ações da Vale estejam em R$ 45 hoje. Você acha, por uma série de razões, que elas vão estar em R$ 46 em uma semana. Pois bem. O próximo passo é aplicar em opções de compra (é o nome técnico do negócio). Você aplica R$ 100 para TRILHÕES DE REAIS. COM ESSE VALOR, ter o direito de comprar cem ações da Vale O BRASIL BATEU a R$ 46. No mundo real, você compra essas UM RECORDE EM 2013. NUNCA OS opções por unidade. Portanto, no nosso DERIVATIVOS exemplo, cada opção de compra custa R$ 1. MOVIMENTARAM TANTO DINHEIRO. Qualquer valor acima de R$ 46, você ganha. Mas, se em uma semana estiver abaixo de R$ 46, você perde tudo.

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Você entende os seus investimentos como um esporte? Não fica mal se perder tudo? Então você encontrou seu investimento, rs.

CENÁRIO ATUAL Com a bolsa oscilando forte, como vem acontecendo, essa aposta se torna ainda mais perigosa.

ocê já sabe dos riscos dos derivativos. Mesmo assim, se quiser entrar nessa, é bom conhecer os principais tipos de operações disponíveis. O resto é com sua autoestima e conhecimento. Termo: A operação consiste em compra ou venda de ações com preço e montante pré-definidos. Uma pessoa se compromete a comprar. Outra a vender. Os dois ficam vinculados até a liquidação do contrato. São autorizados negócios que variam de 16 a 999 dias corridos, mas a maioria tem prazo de 30 a 180 dias. tem prazo de 30 a 180 dias. Futuro: Tem poucas diferenças com os contratos a termo. A primeira é que as pessoas não estão vinculadas e podem vender o contrato antes do prazo estipulado. A segunda é que o preço pode ser ajustado diariamente de acordo com as expectativas do mercado referentes ao preço que o bem terá no futuro. Opções: Nessa operação, duas pessoas negociam o direito de comprar (opções de compra) ou vender (opções de venda). Para isso, o comprador tem de pagar um determinado valor (o prêmio) para fechar o compromisso. Se o investidor acredita que uma ação deve se valorizar, ele pode negociar uma opção de compra por um valor mais baixo. Do contrário, se achar que o preço da ação vai cair, o investidor pode negociar uma opção de venda e garantir o preço fixado no contrato, mesmo que a ação se desvalorize. Tanto o comprador como o vendedor têm liberdade para sair do mercado a qualquer momento e repassar o direito de compra ou venda adiante.


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Por quê? Porque o negócio não é a ação, mas a opção de compra. Se a ação estiver em R$ 48,01, um mundo de gente vai pagar pelo seu contrato em que se lê “tenho o direito de comprar cem ações da Vale por R$ 46”. Você não precisa ir a uma feira livre, claro – as ofertas são eletrônicas. Mas, abaixo disso, ele não vale nada. Portanto, o negócio é a perspectiva. O contrato pelo qual você pagou R$ 100 pode valer R$ 200 aqui neste exemplo. Mas pode valer mais, já que impera a lei de mercado. Se algumas pessoas imaginarem que aquela ação pode se valorizar mais um pouco ao longo do dia, logo depois de vocês dois terem feito negócio, elas podem te pagar R$ 300, R$ 400. Há casos em que a valorização é de mais de 1.000%. É um jogo gigante, mas do qual só dá para fazer parte se você tiver alguma noção do que está fazendo. E mesmo se você for o Warren Buffett, O QUE É » DERIVATIVO um dos gênios do mercado, vai continuar dependendo da É O INVESTIMENTO QUE DERIVA DE AÇÕES, sorte quase tanto quanto um iniciante - ou um canguru MOEDAS, PRODUTOS solto pelo mundo. AGRÍCOLAS. EM VEZ DE Por isso que Celso Grisi, diretor-presidente do Instituto COMPRAR ALGO, VOCÊ de Pesquisa de Mercado Fractal, é cauteloso. “Eu não sugiro APOSTA NA VARIAÇÃO essa aplicação em nenhuma hipótese para investidores iniDO VALOR. ciantes ou para pessoas que estejam começando a vida”, diz ele. Só vale entrar nessa quem tem boas reservas financeiras para não quebrar com as oscilações bruscas do mercado. Hoje, os derivativos chegam a movimentar até US$ 5 trilhões por dia no mundo. No Brasil, bateram recorde em 2013. Foram negociados 705 milhões de contratos. O volume financeiro alcançou R$ 54,9 trilhões naquele ano. Porém, é bom lembrar, não se trata de dinheiro para valer. São apenas os valores impressos nos contratos, como aquele “tenho direito de comprar cem ações da Vale a R$ 46”. Esse valor representa o tamanho dos compromissos que as pessoas, empresas e instituições financeiras assumiram umas com as outras ao longo do ano. Seja como for, atrás desses números há pessoas e empresas que buscam proteção contra movimentos que podem prejudicar negócios. Do outro, investidores que tentam lucrar com o medo de oscilação. É um jogo em que informações e expectativas sobre presente e futuro se mesclam o tempo inteiro. Dá para começar com pequenos valores, tipo R$ 50, só para testar. Mas se o negócio ficar mais sério, cuidado: derivativos são basicamente um grande cassino legalizado que funciona 24 horas por dia em todos os países do mundo. Talvez eles só sejam permitidos porque não há motoristas de caminhão apostando o salário do mês ou velhinhas colocando o dinheiro de uma vida neles. Ainda.


Fundada em 1950 VICTOR CIVITA (1907-1990)

ROBERTO CIVITA (1936-2013)

Conselho Editorial: Victor Civita Neto (Presidente), Thomaz Souto Corrêa (Vice-Presidente), Elda Müller, Fábio Colletti Barbosa, José Roberto Guzzo Presidente Abril Mídia: Fábio Colletti Barbosa Presidente Editora Abril: Alexandre Caldini Diretor-Superintendente de Assinaturas: Dimas Mietto Diretor de Marketing Corporativo: Ricardo Packness Diretora de Mobilidade: Sandra Carvalho Diretora de Publicidade Corporativa: Ivanilda Gadioli Diretor de Apoio Editorial: Edward Pimenta Diretora-Superintendente: Dulce Pickersgill

Diretor de Redação: Denis Russo Burgierman Diretor de Arte: Fabrício Miranda Redator-chefe: Alexandre Versignassi Editores: Bruno Garattoni, Felipe van Deursen, Karin Hueck Editor de Arte: Jorge Oliveira Designers: Flávio Pessoa, Inara Negrão e Paula Bustamante Repórter: Camila Almeida

DOSSIÊ Redator-chefe: Alexandre Versignassi Editor de Arte: Jorge Oliveira Colaboraram nesta edição: Leandro Beguoci (edição), Nilton Caldeira, Tatiana Klix, Vinicius Oliveira (texto) Datadot Estúdio (direção de arte), Bruno Sousa (ilustração de capa), Kauan Vinicius e Raul Aguiar (ilustrações), Alexandre Carvalho dos Santos (revisão) e Anderson C. S. de Faria (produção gráfica)

Esta publicação foi impressa com as fontes Klavika, Leitura News e Founders Grotesk.

DINHEIRO: COMO PLANTAR, REGAR E COLHER ISBN 978-85-68535-27-1 é um livro da Editora Abril S.A., distribuído em todo o país pela Dinap S.A. Distribuidora Nacional de Publicações, São Paulo. Dossiê Dinheiro não admite publicidade redacional.

IMPRESSO NA GRÁFICA ABRIL

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) D584 Dinheiro: como plantar, regar e colher. – São Paulo : Abril, 2015. 66 p. : il. color. ; 27 cm. – (Superinteressante Coleções). ISBN 978-85-68535-27-1 1. Finanças e organização. 2. Administração econômica. 3. Literatura infanto-juvenil. I. Série.

CDD – 658.1

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