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22 | FESTAS DA PÓVOA DE SANTA IRIA

02 Setembro 2010 | O MIRANTE

As divas da música popular portuguesa animam as festas da Póvoa de Santa Iria Festas em Honra de Nossa Senhora da Piedade decorrem de 2 a 5 de Setembro

As divas da música popular portuguesa vão dar ritmo às festa da Póvoa de Santa Iria. De quinta-feira a domingo há animação para todos os gostos. Dos espectáculos de sevilhanas até ao fado passando pela corrida de toiros.

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omana, Ruth Marlene e Jessica – três divas da música popular portuguesa - são as atracções musicais das

Toiros e sardinha assada Sexta-feira, 3 de Setembro, é noite de sardinha assada nas festas da Póvoa de Santa Iria. Há sardinha, pão e vinho distribuídos de forma gratuita. A largada de toiros nocturna está marcada para a 1h00. No sábado a largada repete-se às 19h30 e à 1h30 e no domingo (dia da corrida de toiros da Tertúlia Passe por Alto, ver caixa) os toiros saem à rua ao final da tarde, às 18h30.

festas em honra de Nossa Senhora da Piedade, na Póvoa de Santa Iria, no concelho de Vila Franca de Xira, que se realizam de 2 a 5 de Setembro. Rute Marlene e Jessica actuam quinta-feira, 2 de Setembro, às 22h30. O espectáculo com a cantora Romana está marcado para domingo, 5 de Setembro, às 22h30. A festa arranca na quinta-feira, 2 de Setembro, com a actuação da Academia de Danças Vanessa Silva às 21h30.

A corrida de toiros da tertúlia “Passe por Alto” A primeira grande corrida de toiros da tertúlia “Passe por Alto” da Póvoa de Santa Iria está marcada para o próximo sábado, 4 de Setembro, às 17h00, inserida nas Festas em

Para sexta-feira, 3 de Setembro, às 22h30, está marcado o espectáculo com as Sevilhanas Rocieras de Alcochete. Uma hora depois, às 23h30, silêncio para ouvir a Escola de Fado de Alverca. No sábado, 4 de Setembro, há um espectáculo com as Danças de Salão da Juventude da Castanheira. Pouco depois apresenta-se o “Petit Gym”. O grupo “Fora de Série” garante a animação do baile. Os cavaquinhos do Grupo Recreativo e Desportivo Bragadense actuam no domingo às 21h30. O festival de folclore está marcado para 3 de Setembro, sexta-feira, às 21h30. No sábado, às 9h15, há arruada pela cidade com Grupo de Bombos Amarantinos. Segue-se às 10h00 homenagem aos ex-membros da Comissão de Festas na Capela do Cemitério da Bolonha. Há arraial no recinto das festas às 15h00. À noite, às 21h30, decorre a benção dos barcos avieiros no Cais da Póvoa. O cortejo equestre desfilará pelas ruas no domingo, às 11h00. Há recitação do terço, às 16h30, na capela de Nossa Senhora da Piedade e às 17h00 solene procissão em honra de Nossa Senhora da Piedade. As festas encerram com um espectáculo de fogo de artifício marcado no domingo às 00h00

Faltam espaços na cidade para atrair os jovens Fátima Silva, 42 anos, recepcionista O parque urbano que vai ser construído junto ao rio, na Póvoa de Santa Iria, já deveria ter sido construído há 18 anos. Quem o diz é Fátima Silva, 42 anos, recepcionista, que lembra que a obra de requalificação da frente ribeirinha da freguesia é há muito reclamada. A ideia da mega urbanização da Póvoa de Santa Iria também é bem recebida. “Desde que arranjem outro espaço para a festa, para continuarmos com as nossas tradições, não sou contra a urbanização. Já somos muitos mas precisamos de outras estruturas. Dava jeito um centro comercial decente, um cinema e escolas. A nossa juventude está a fugir da Póvoa porque não tem onde se encontrar”, critica. As festas são um pretexto para o encontro de gerações e convívio. Fátima Silva pretende marcar presença todos os dias.

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honra de Nossa Senhora da Piedade. Joaquim Bastinhas e Sónia Matias, bem como os cavaleiros praticantes Tiago Martins e Paulo d’Azambuja compõem o cartel. Na corrida, com seis toiros palha, participam os forcados amadores de Azambuja (cabo Fernando Coração), Salvaterra (com o cabo Pedro Silva) e Alenquer (com Jorge Vicente).

Nova urbanização é mais valia para a cidade Alfredo Marujo, 76 anos, comerciante Uma mais valia para a cidade. É assim que Alfredo Marujo, comerciante de 76 anos, define a nova urbanização projectada para a zona ribeirinha da cidade. “Eu sou a favor. O único problema é que aquele local é hoje usado para realizar as festas, mas mesmo assim acho que será benéfico para a Póvoa”, defende. A construção do novo parque urbano na zona ribeirinha também é vista com agrado. “Isso é fantástico”, garante quem se mostra disponível para usá-lo assim que for inaugurado.Ir às festas da Póvoa de Santa Iria é um ritual que Alfredo Marujo não dispensa. “Acho que as festas são importantes para a cidade e um meio de distracção e convívio entre as pessoas. É uma maneira de esquecer a crise”, sugere. As tasquinhas e a animação são o que mais aprecia.


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Uma cidade em festa à espera da requalificação da zona ribeirinha Muitos habitantes vêem de bom grado a construção da mega urbanização na freguesia O fim-de-semana vai ser de festa na Póvoa de Santa Iria. Os habitantes preparam-se para quatro dias de animação na cidade. Muitos

Fecho das urgências preocupa a população

Mega urbanização é um bom investimento para a freguesia

Jorge Alves, 38 anos, empresário O empresário Jorge Alves, 38 anos, não está contra a construção da nova urbanização projectada para a zona ribeirinha da cidade. “Prefiro que construam do que fiquem os terrenos ao abandono. Mas é preciso salvaguardar o funcionamento de outras infraestruturas de que precisamos na cidade, como as escolas e o centro de saúde”, diz mostrando-se preocupado com o fecho das urgências na freguesia. “Que venham outras pessoas morar para a Póvoa e para o nosso concelho”, incita o empresário que também vê com bons olhos a construção do Parque Urbano da cidade. A visita às festas da cidade onde reside está todos os anos dependente

Maria Carvalho, 68 anos, empresária

do seu horário de trabalho. Aprecia as barraquinhas de peticos, mas também os carrosséis. “Tudo faz parte da animação. É uma festa animada e digna para toda a gente da Póvoa. É uma forma das pessoas se encontrarem e se divertirem um bocadinho”, garante.

À espera da requalificação da zona ribeirinha José Neves, 51 anos, empresário José Neves, empresário de 51 anos, lamenta que a zona ribeirinha da Póvoa esteja degradada e por isso confessa ter curiosidade no futuro parque urbano. “Não sei até que ponto conseguirão fazer ali um bom parque com todos os insectos que existem, mas é uma obra sem dúvida importante”, defende. O empresário é mais crítico no que toca à construção da nova urbanização. “Actualmente há muitos andares para vender em toda a cidade. Não sei para que servirá mais habitação. E vai cortar a vista do Tejo. Há muito sítio para construir sem ser ali”, refere. O trabalho limita muitos dias a capacidade de José Neves de visitar as festas. Ainda assim

confessa que são importantes para a cidade da Póvoa de Santa Iria. “Claro que se puder vou lá dar um passeio mas é sempre difícil. Gosto das festas e ajudo no que posso. São importantes para a cidade para esquecer a crise e os problemas do dia-a-dia”, refere.

Falta um sítio para passear e ir à discoteca Susana Moreira, 35 anos, empresária Susana Moreira, 35 anos, empresária, defende que o futuro parque urbano da Póvoa de Santa Iria é muito importante para a cidade. “Faz falta um sítio onde possamos passear com as crianças. E quem sabe até uma zona de bares e discotecas. Temos uma população muito jovem que também precisa desses estabelecimentos”, refere. Quanto à construção da nova urbanização é mais crítica. “Chega de prédios de habitação. Acho que a Póvoa já está muito saturada. Não tenho nada contra a construção mas é importante ver se temos infra-estruturas de apoio, como escolas suficientes e serviços sociais. Receber mais pessoas e não ter

aceitam bem a ideia de uma nova urbanização à beira rio, mas continuam sobretudo à espera da prometida requalificação riberinha.

capacidade de resposta não é bom”, conclui. Todos os anos Susana Moreira visita as festas da Póvoa de Santa Iria. “É uma tradição da terra, acho que tem uma grande organização”, diz. Os artistas que têm vindo são de grande qualidade”, confessa a O MIRANTE.

Maria Carvalho, empresária de 68 anos, vê com bons olhos a construção da nova urbanização da zona ribeirinha da Póvoa. “Aquilo só tem utilidade no dia da festa. No resto do ano está desprezado. São terrenos mortos sem graça. As pessoas não podem dizer que lhes tira a vista porque é mentira. As pessoas que vivem na parte velha da Póvoa já não têm visibilidade nenhuma porque já foram construídos prédios à sua frente”, defende. Para Maria Carvalho o Parque Urbano, também projectado para a freguesia, faz falta. “Será uma maneira de olharmos para aquela zona de forma diferente sem terra e lixo. A empresária não dispensa uma visita às festas da cidade. O único problema que aponta é a questão das acessibilidades. “O acesso pedonal é bom, o problema é a quantidade de carros que se acumulam aqui”, lamenta. Na festa gosta dos petiscos e

da tourada. “Nem todos os anos consigo ir devido à minha vida profissional, mas vou sempre que posso”.


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“A prisão era o único sítio do país onde havia liberdade” António Nabais, filho adoptivo da Póvoa de Santa Iria, actor e autarca combativo António Nabais chegou à Póvoa de Santa Iria aos 15 anos. Foi trabalhador estudante. Ligou-se ao Partido Comunista inspirado pelo ambiente reivindicativo operário. Passou cinco anos e meio na prisão. Mas não deixou de ler poesia e romances. Foi presidente de junta. Hoje é deputado municipal. O teatro é outra das suas paixões. Ana Santiago Vive na Póvoa de Santa Iria, mas não nasceu cá. Sou natural de Alpedrinha, Fundão. Vim para a Póvoa com 15 anos. Sozinho. O meu pai entendeu que deveria começar a encarar a vida. Tive o apoio de uma pessoa amiga que era o director da fábrica para onde fui trabalhar, a Companhia Industrial Portuguesa. Trabalhava de dia e estudava de noite na Escola Industrial Afonso Domingues, em Lisboa. Começava a trabalhar às 8h00 e saía às 17h00. Às 17h50 apanhava o comboio a correr. Quando as aulas acabavam só tinha um comboio que chegava aqui às duas da manhã. Ficava num quarto que a companhia tinha e comia no refeitório. Aqui me fiz homem. Esteve na fábrica durante muitos anos? Não, porque a PIDE não deixou. Entretanto em 1954/1955 inscrevi-me no MUD [Movimento de Unidade Democrática] Juvenil. Depois no PCP. Estava na tropa quando fui preso pela PIDE. Estive lá cinco anos e meio. Quando regressei a fábrica não me admitiu. Foi quando me candidatei a uma outra fábrica onde permaneci até me reformar aos 64 anos. Como se ligou à política? A ligação surgiu exactamente quando comecei a trabalhar e a tirar o curso industrial. Apercebi-me das dificuldades da juventude. Depois todo aquele meio industrial era bastante forte. Naquele tempo difícil do fascismo o operariado tinha um grande sentimento de reivindicação. O senhor acabava por ser protegido do patrão que não alinhava nesses ideais. Mas eu não tinha que lhe transmitir. Naquela altura funcionava-se clandestinamente. Mesmo com os pais e com os amigos. Ele era meu encarregado de educação. Os meus pais estavam a mais de 200 quilómetros. Que participação política teve no início? No MUD juvenil eram coisas ligadas

à juventude. Convívios, festas de confraternização, distribuição de folhetos de uma organização juvenil ligada ao PCP na clandestinidade. Dois anos depois fui convidado para aderir ao PCP. Aí as coisas começaram a ser mais a sério. O que fez de mais perigoso? Era tudo… No sítio onde estamos agora [Quinta da Piedade] existia um olival. As reuniões que tínhamos com o responsável do PCP clandestinamente realizavam-se aqui. De noite, às escondidas. Tinha que levar para a empresa o jornal do PCP: o Avante. Distribuia-o clandestinamente por baixo da mesa a cada um dos militantes e recebia a importância e a respectiva quotização. Depois prestava contas no próximo encontro. Depois era todo aquele trabalho de mentalização das pessoas. Particularmente quando considerávamos que havia necessidade de reivindicar aumento de salários. Foi preso durante o serviço militar. Em que circunstâncias? Não por actividade do serviço militar, onde estava há menos de um ano, mas por toda a actividade que tinha desenvolvido anteriormente. A PIDE quando actuava não era em cima do acontecimento. Procurava tentar prender não um mas uma rede. Éramos controlados e observados. Eles tinham informação por parte dos chamados bufos, homens e mulheres que conviviam connosco e que se prestavam a esse serviço. Quando estava na tropa um dia fui chamado ao comandante e informaram-me que teria que recolher ao estabelecimento prisional da Trafaria. Passado um mês mandamme regressar à unidade. Nessa altura ía passar à disponibilidade. Quando ía a

O homem que escreveu um poema sobre a árvore a quem taparam as raízes A árvore imponente faz sombra à esplanada do café da Quinta da Piedade, na Póvoa de Santa Iria, e chega aos píncaros do palácio. Tem as raízes tapadas. E por isso, um dia, António Nabais escreveu um poema sobre essa árvore grande. É o seu único poema - “estava mesmo a pedi-las”, – e está guardado numa gaveta. António Nabais esconde-o e diz que não é poeta. Prefere os poemas dos outros e tem a mania de os decorar. “Ó meus amigos desgraçados/ Se a vida

saír dois fulanos da PIDE seguraram-me pelos braços, meteram-me num carro e começou a situação complicada dos interrogatórios. Tortura? Tortura psicológica e física. Logo para começar foram quatro dias e quatro noites sem dormir. Sujeito a pressão e chapadas para que dissesse aquilo que eles queriam que dissesse. Neguei sempre. Quando estávamos em processo de interrogatório muitas vezes estávamos a dormir e o guarda batia ao postigo às

é curta e a morte infinita/ Despertemos e vamos/ Eia!/ Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico/ Como era a Tuna do Zé Jacinto/ Tocando a marcha Almadanim!” [“Mataram a Tuna”, de Manuel da Fonseca]. Nasceu no dia 1 de Junho de 1937 em Alpedrinha, Fundão, mas vive desde os 15 na Póvoa de Santa Iria, cidade adoptiva. Foi preso político. Maria Amélia Nabais, a companheira de sempre, mãe do seu filho, foi o seu apoio nos tempos de cárcere. A paixão pelo teatro corre-lhe nas veias. Subiu ao palco pela primeira vez no Cine-Teatro de Alpedrinha aos 14 anos. A peça chamava-se a “Bandeira roubada” sobre o problema das invasões francesas. Depois, já na Póvoa, juntouse ao Grémio Dramático Povoense. É presidente da Assembleia Geral do Grémio e da Associação D. Martinho. Orgulha-se de ser um dos veteranos do

três da manhã e dizia ‘prepare-se para ir à Pide’. A influência que isto tinha numa pessoa... Ali passávamos o resto da noite. Passados uns dias a mesma coisa. Isto durante mais de um mês. Depois do Aljube estive em Caxias. Foram tempos difíceis. Sobretudo no processo de interrogatório. Até ao julgamento, que começou a correr passado 11 meses, estávamos sempre sujeitos a intervenção da Pide, esclarecimentos, exigências. Estávamos presos, mas entendíamos que não

teatro do Grémio e de trabalhar com a juventude. Foi serralheiro e controlador de qualidade. Está na reforma. Costuma dizer a brincar que toma conta de crianças: os seus dois netos Tiago, 14 anos, e Catarina, 11. Lutou para que o mouchão da Póvoa viesse à posse da freguesia, mas a guerra administrativa está parada na Assembleia da República. Foi presidente de junta [1981-1985] e o primeiro presidente da assembleia de freguesia da Póvoa depois da revolução [1976]. Acompanhou o dinamismo das comissões culturais que traziam ao Grémio vultos da literatura e outros áreas. Bebeu as palavras de Alves Redol e Bernardo Santareno e recorda os recitais memoráveis de José Carlos Vasconcelos acompanhado de Carlos Paredes. É actualmente deputado municipal. Um eterno militante combativo. Que “a vida é curta e a morte infinita”.


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Os fulanos da PIDE, principalmente os guardas, eram maus, mas também eram burros. Havia muita coisa que passava, porque eles não se apercebiam. poderíamos estar ali passivamente. A prisão era também local de luta. Protestávamos contra determinadas situações, como a alimentação. Numa sala onde deveriam estar sete elementos estavam doze. Protestávamos e depois éramos castigados. Aqui está o meu currículo de castigos [uma folha escrita de um lado e do outro] enquanto preso. Nós dizíamos que prisão era o único sítio do país onde havia liberdade e era verdade. Era a liberdade de se poder falar à vontade, mas estávamos sujeitos a tudo isto. Tínhamos a mania de comemorar datas importantes como o 5 de Outubro. Quando era no render da guarda às nove da manhã cantávamos “A Internacional”. Como se combinava não sei nem me interessava. Quando faziam isso o que acontecia? Passava um dia ou dois e vinha o chefe dos guardas comunicar-nos o castigo que tinha sido endereçado pela PIDE. A PIDE mandava na prisão como mandava nos tribunais plenários que julgavam só os presos políticos. E eu digo-lhe era difícil, doía. Mas também dói um outro aspecto: que muitos elementos da Pide e juízes dos tribunais plenários, que davam sentenças segundo indicação da Pide, tenham vivido pacificamente e não tenham prestado contas a ninguém. Os juízes dos tribunais plenários seguiam as indicações da Pide. Teriam contas a prestar e deveriam ter sido julgados e condenados

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Uma cidade não se constrói com prédios de rés-do-chão e primeiro andar Chegou à Póvoa de Santa iria quando ainda não existiam prédios. A Póvoa de Santa Iria existia principalmente da estrada nacional para baixo. Era relativamente pequena, muito marcada politicamente, como muitas terras aqui da zona. A Quinta da Piedade era um olival. Quando se deu o 25 de Abril de 1974 já se tinha iniciado construção onde existia antes a “galinha assada”, agora bairro da Bolonha. Depois aconteceu a grande expansão urbanística. Claro que isto choca, mas uma cidade não se constrói com prédios de rés-do-chão e primeiro andar. E temos aqui a Quinta Municipal da Piedade... É uma das “obras” de que se orgulha

Os livros que os guardas da PIDE deixavam escapar Muitas pessoas aproveitavam o tempo na prisão para aprender. Tínhamos que ocupar o tempo. Eu, que andava a tirar o curso industrial passei a dar aulas ao camponês que mal sabia ler. O camarada formado dava-me aulas a mim. Comíamos, dormíamos e estudávamos na mesma sala. Funcionávamos de tal forma que às sete horas da tarde, a hora a que chegava a refeição, o responsável por tratar da mesa avisava-

enquanto autarca. Contribui de certo modo para a Quinta Municipal da Piedade. Era um olival, um espaço privado que foi adquirido pelo urbanizador José Maria Duarte Júnior. No processo de negociação exigiu-se ao urbanizador - além de espaços para o quartel de bombeiros, forças de segurança, complexo desportivo e creche - que a parte murada do palácio viesse à posse do município sem custos. Foi um processo que não foi fácil já que o senhor estaria a pensar construir também aqui. Conseguiu-se muito à custa do saudoso presidente de câmara José António Veríssimo a entrega deste espaço à câmara. Nessa altura eu era presidente da assembleia de freguesia. Como vê o mega empreendimento que vai nascer na Póvoa perto do rio? Assusta-nos que metam ali mais uns milhares de pessoas. Não sou contra o facto de haver ali construção e habitação, mas deveria ser uma coisa reduzida para não dificultar a circulação que já é difícil.

nos e nós perguntávamos: ‘já sete horas’? Tínhamos esse sentimento na prisão. O tempo tinha voado no estudo. Devorei livros, tal como outros, embora já tivesse hábitos de leitura. Que livros leu na prisão? Fiquei com o gosto pela literatura policial. Cheguei a ler Alves Redol que era proibido pela Pide. Não podia entrar na prisão. Então como lá chegavam os livros? Nunca quis saber como lá chegaram. Li “A Mãe” de Máximo Gorki e Hemingway. Alguma literatura estrangeira que passava porque muitos não sabiam o posicionamento político daquela gente. Os fulanos da PIDE, principalmente os guardas, eram maus, mas também eram burros. Havia muita coisa que passava, porque eles não se apercebiam. Eram leituras muito interessantes. Depois fazíamos um debate à volta de determinado livro. Já tinha namorada? Sim. Foi a pessoa com quem casei e que me deu todo o apoio. Os meus pais estavam na terra. Ela andou durante cinco anos e meio a visitar-me. Ia duas vezes por semana. O que lhe levava à prisão? Levava-me o tabaquinho (risos) - na altura fumava – fruta, uns bolinhos e um queijinho. Na hora da refeição era tudo distribuído por toda a gente. Como se conheceram? Eu trabalhava nessa fábrica e ela era filha de um funcionário que residia no bairro da empresa. Conhecemo-nos nos bailes do Grémio. Foi um começo de namoro perfeitamente normal. Saí da prisão em Novembro e casámos em Maio. Durante três meses estive desempregado. Quando cheguei à conclusão de que não poderia voltar à empresa fui procurar trabalho. Agora compreendo melhor o drama das pessoas que estão desempregadas há três ou quatro meses. Eu não estive tanto tempo e já andava em desespero.

O problema do trânsito precisava de reorganização e de um estudo apurado. A verdade é que aquela zona não pode ser só verde e de lazer. Têm que existir estabelecimentos e pequena construção. Talvez não aquilo que está previsto: muralhas de cimento. Como olha para zona ribeirinha da Póvoa? Choca-me bastante a situação da zona ribeirinha. É inconcebível que não se tenha resolvido o problema. Está a resolver-se a norte, mas já era tempo de resolver também aqui agora que foi eliminado o bairro dos pescadores. Mas a câmara já apresentou o projecto do parque. Isso já está apresentado há muito tempo. A seguir à estação até estava previsto um grande empreendimento. Acredito que acabe por se resolver. Também não digo que é tudo responsabilidade da presidente de câmara. Mas ela agora é que dirige. Como costumamos dizer: ela agora é que está de serviço.


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