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O MIRANTE S E M A N Á R I O

R E G I O N A L

ESPECIAL

fESTAS NOSSA SENHORA DO CASTELO Faz parte integrante da edição n.º 891 deste jornal e não pode ser vendido separadamente

Plano estratégico de Coruche defende desenvolvimento urbano e industrial Concelho deve aproveitar os traços rurais e a natureza para se desenvolver assim como deve aproveitar a construção do novo aeroporto para captar mais residentes 11

O guardião da paisagem em Portugal chama-se Gonçalo Ribeiro Telles

Uma festa verdadeiramente popular onde é quase impossível ficar de fora

Arquitecto tem fortes ligações a Coruche, gosta muito das festas e De 14 a 18 em Coruche com Nossa Senhora do Castelo lá no alto e diversão por continua ligado à Irmandade da Senhora do Castelo 6 todo o lado. Organização diz que a festa não vai sofrer com a crise 2

Corrida de toiros é um dos grandes atractivos das Festas de Nossa Senhora do Castelo Todos os dias há largadas de toiros nocturnas, touradas à corda e picarias com bezerras para os mais jovens 4

Exposição de homenagem a António Badajoz no antigo edifício dos Correios Seis décadas de alternativa de antigo bandarilheiro assinaladas na sua terra natal 5

Habitantes de Coruche falam da sua terra e das suas festas

“Faltam estradas, indústria e mais empregos”. “Transporte de passageiros em comboio é oportunidade bem vinda”. Estas foram algumas das opiniões recolhidas num inquérito à população de Coruche 8


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13 Agosto 2009 | O MIRANTE

Uma festa verdadeiramente popular onde é quase impossível ficar de fora De 14 a 18 em Coruche com Nossa Senhora do Castelo lá no alto e diversão por todo o lado Patrocínios das empresas diminuíram por causa da crise mas festa é festa e a organização afiança que a deste ano não vai ficar atrás de nenhumas das já realizadas. O rei da música é Tony Carreira.

CORUCHE. Cortejo Etnográfico e do Trabalho é um dos pontos altos da festa

foto arquivo O MIRANTE

Apesar de todas as dificuldades e da malfadada crise a Comissão de Festas de Coruche em Honra de Nossa Senhora do Castelo consegue levar à vila o cantor da moda em Portugal. Tony Carreira vai dar um espectáculo no parque do Sorraia na noite de dia 17, feriado municipal em Coruche. Para além do espectáculo, o dia é marcado pelo tradicional cortejo etnográfico e do trabalho pelas ruas da vila a partir das 11 da manhã e pela corrida de toiros na monumental coruchense a partir das 18h15. Para Filipe Justino, presidente da Comissão de Festas, há uma aposta nas jovens bandas da terra - Contrabanda,

Hangar 7 – Diana e David, Snowflakes, Stepsons e Filhos da Terra - para lhes dar oportunidade de mostrarem valor e se promoverem ao longo das noites da festa, numa receita conjunta com artistas consagrados. Além de Tony Carreira, actuam dia 16 António Pinto Bastos, Vicente da Câmara, Maria João Quadros, Francisco Sobral, Maria Armanda, Manuel da Câmara e Teresa Tapadas numa noite de fados. Os UHF encerram as festas, dia 18. A aposta em Tony Carreira é como ter um póquer de ases na mão, apesar do esforço de 56 mil euros que representa levar o cantor a Coruche. “Foi uma decisão unânime trazer o Tony Carreira. Tentámos trazer também os Xutos e Pontapés mas não foi possível. Teremos os UHF, uma banda conhecida, e a Noite de Fados, com grandes protagonistas. É sabido que houve dificuldade de receber apoios das empresas por causa da crise que nos assola. Alguns dos principais patrocinadores dos últimos anos reduziram as suas contribuições


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para metade”, constata Filipe Justino. A comissão recebeu 100 mil euros de subsídio camarário de apoio à organização das festas, mas terá de angariar mais algumas dezenas de milhares de euros para cumprir a sua missão. O presidente da Câmara de Coruche considera muito forte o dia 17 e diz que espera o melhor cortejo de sempre, fruto do trabalho das freguesias, associações, ranchos folclóricos e trabalhadores municipais. “Independentemente do número de forasteiros, para os coruchenses esta é sempre uma grande festa e todos estaremos na rua”, diz Dionísio Mendes. Durante os dias de festa, de 14 a 18, não faltará o fogo-de-artifício sobre o Sorraia, largadas de toiros nas ruas, folclore com o Festival António Neves na noite de dia 15, actividades desportivas e pesca desportiva junto ao Sorraia. Obras na Ermida do Castelo e zona envolvente A Irmandade de Nossa Senhora do Castelo fez vultuosas obras de requalificação na ermida e na zona envolvente. Para além de ter sido renovada a instalação eléctrica, foram restauradas as portas de entrada da ermida, a torre do relógio, toda a área da secretaria e outras dependências. “A intervenção mais importante foi o encaminhamento das águas pluviais para condutas na Estrada Nacional 114, que farão a sua drenagem para o rio. Foram colocadas condutas a cerca de seis metros de profundidade para esse efeito”, salienta Diamantino

Diogo, juiz da Irmandade. A maior preocupação reside agora na consolidação da encosta. O presidente da Câmara de Coruche diz que está alertado em relação a essa situação. Dionísio Mendes lembra que há anos foi feito o calcetamento do espaço envolvente do castelo e da ermida e colocadas manilhas para evitar a erosão do terreno provocada pelas águas das chuvas. Para o ano o fogo-de-artifício passa para a comissão de festas O fogo-de-artifício da festa era, tradicionalmente da responsabilidade da Irmandade de Nossa Senhora do Castelo mas em 2007 as despesas começaram a ser partilhadas com a Comissão de Festas. Para o ano a responsabilidade passa, por completo, para aquela entidade. “Tratando-se da parte profana da festa não faria sentido que continuasse a ser a Irmandade a custear o fogo. Assim, em 2009 os encargos são assumidos em 75 por cento pela comissão e 25 por cento pela Irmandade e, em 2010, será a comissão a fazê-lo integralmente”, explicou a O MIRANTE o juiz da festa Filipe Justino.


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Corrida de toiros é um dos grandes atractivos das Festas de Nossa Senhora do Castelo Largadas de toiros, touradas à corda e picarias com bezerras para os mais jovens Tourada no feriado municipal com os cavaleiros António Ribeiro Telles, João Moura, Rui Fernandes e a praticante Isabel Ramos. O cavaleiro António Ribeiro Telles de Coruche é um dos cavaleiros que actua na corrida integrada nas Festas em Honra de Nossa Senhora do Castelo, que decorrem na vila até dia 18. No espectáculo marcado para dia 17, feriado municipal, às 18h15, actuam também os cavaleiros João Moura, Rui Fernandes e a praticante Isabel Ramos que vão enfrentar toiros da ganadaria Passanha. As pegas estão a cargo do grupo, os Amadores de Coruche. O responsável pelas actividades taurinas da Comissão de Festas, Paulo Tomaz, está esperançado que a exemplo dos anos anteriores o público encha a praça de toiros. E diz que estão criadas as condições para um bom espectáculo. “É um cartel de quatro cavaleiros com duas lides a duo, dado haver seis toiros. O que deixa só um toiro para brilharem, retirando algum peso da competição”, argumenta. As corridas das festas são uma oportunidade para os Forcados de Coruche mostrarem a sua arte e encantarem o público. Mas é também um dia em que antigos e novos membros do grupo se reencontram na arena. Paulo Tomaz, que já foi forcado, chama-lhe “um dia que arrepia”. “Temos toiros da ganadaria do momento, com boa apresentação e bravura”, refere, acrescentando outra particularidade da tourada: Dois toiros serão recolhidos a cavalo pelos jogos de cabrestos finalistas do prémio “Bola da Prata”. O espectáculo é abrilhantado pela banda da Sociedade de Instrução Coruchense. Os preços são populares. Para a bancada ao sol os bilhetes têm preços a partir dos nove euros. Quinze euros é o preço mínimo por um lugar à sombra. Quem optar pela barreira paga a partir de 35 euros. A organização tem bilhetes à venda em vários locais da vila e nas freguesias, mas também na Internet no sítio www.tauroentrada.com. Podem ainda ser efectuadas reservas através do telemóvel 912 034 500. Touradas à corda e bezerras para senhoras, jovens e crianças As actividades tauromáquicas da festa incluem também largadas de toiros nocturnas nas ruas da vila, todos os dias entre 14 e 18 de Agosto, sempre a partir da 01h30. Nos dias 16 e 18 há outras novidades. Além das entradas de toiros a partir das dez da manhã e largadas perto das 11h00, haverá bezerras para senhoras, jovens e crianças, no domingo a partir das 17h30. No último dia das festas, terça-feira, as crianças de tenra idade vão poder brincar com as bezerras a partir das 17 horas. Também nos dias 16 e 18, junto ao posto da GNR há mais dois espectáculos que prometem chamar muitos curiosos, a partir das 18h30. Trata-se de touradas à corda. A anteceder a última largada de toiros das festas, na rua 5 de Outubro, vai ser montada a “Mesa da Coragem”, às 00h30, na qual o objectivo é ficar sentado o mais tempo possível num recinto com duas vacas à solta.

foto arquivo O MIRANTE


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Exposição de homenagem a António Badajoz inaugurada em Coruche Seis décadas de alternativa de antigo bandarilheiro assinaladas na sua terra natal

INAUGURAÇÃO. António Badajoz visitou a exposição com o presidente da Câmara de Coruche, Dionisio Mendes António Badajoz é considerado por muitos aficionados como o melhor bandarilheiro português de todos os tempos. Isso mesmo ficou provado nos testemunhos de diversos apaixonados da festa brava que na tarde de sábado, 8 de Agosto, compareceram no antigo edifício dos Correios – onde está previsto vir a ser instalado o Núcleo Tauromáquico de Coruche – para a inauguração da exposição comemorativa dos 60 anos de alternativa do antigo bandarilheiro e peão de brega que nasceu em Coruche há 79 anos. António Badajoz não conseguiu es-

foto O MIRANTE

conder a emoção e confessou sentir-se orgulhoso ao ver a exposição com as memórias da sua vida enquanto toureiro profissional. Vários trajes de luzes que vestiu durante a sua carreira; fotografias

de actuações; prémios e condecorações e muitas histórias que lhe aconteceram ao longo de seis décadas de actividade. Apesar do sucesso ao longo da sua carreira, o antigo bandarilheiro garante que os toiros não lhe perdoaram. “Levei apenas uma cornada, mas ortopedicamente fui muito massacrado. Parti o crânio em dois lados o que me levou a estar 15 dias em coma, tive as duas clavículas partidas, o externo também. Um dos braços demorou dois anos a reconstruir porque ficou pendurado pelos tendões e tive que levar um excerto”, conta, confessando que nem mesmo todas as mazelas lhe retiraram a paixão pela festa brava. O antigo bandarilheiro mostra ter uma memória extraordinária ao recordar com exactidão as datas das corridas que mais o marcaram. António Badajoz diz que foi muito feliz na corrida que participou na Feira de Manizales, na Colômbia, em 1956, onde foi contratado para lidar dois toiros e acabou por lidar cinco. “No final da corrida saí em ombros juntamente com os matadores. Foi uma tarde de glória na minha carreira”, refere com emoção ao recordar aquele dia. México, no dia 1 Janeiro de 1956, Sevilha, em 1955, Madrid e Barcelona são outras praças que lhe trazem muitas e boas recordações. Mas nem todas as corridas foram brilhantes. António Badajoz recorda com pouca saudade uma corrida que realizou em Ira Por, no México. “Durante uma lide consegui colocar três pares de bandarilhas

O dia em que António Badajoz teve que lidar um Búfalo em África António Badajoz levou a sua arte a vários continentes desde a Europa à América do Sul passando por África. Foi numa das visitas a este continente quando, em Abril de 1951, foi tourear à Beira, na cidade de Lourenço Marques – actual Maputo – “Acabei a lidar um búfalo juntamente com um colega”, recorda. “Um senhor que nos conhecia veio ter connosco muito preocupado porque um búfalo tinha entrado na vacaria e tinha dado uma tareia no funcionário

que foi parar ao hospital. Estavam todos com medo e ninguém quis ficar a guardar as vacas. Foi quando nos pediram para bandarilharmos o búfalo”, recorda com uma gargalhada. O bandarilheiro não nega que estava apreensivo uma vez que nunca tinha lidado um animal daqueles mas resolveu enfrentá-lo. Quando o búfalo entrou na arena improvisada, juntamente com as vacas, António Badajoz colocou-lhe o primeiro par de bandarilhas. “Foi o que bastou.

no chão em vez de as espetar no toiro. Como se diz na gíria taurina apanhei um “petardo” do pior que podia haver”, conta. Apesar de já se ter retirado das arenas há cerca de 18 anos, António Badajoz confessa que ainda lhe custa muito estar de fora e não poder lidar nenhum toiro. “Os anos não perdoam e temos que terminar a nossa carreira mas tenho muitas saudades de entrar numa arena. Sinto inveja daquilo que se passa no redondel e o não poder estar lá dentro é muito doloroso. Por vezes vejo toiros saírem dos curros para o recinto e penso “se estivesse lá dentro era capaz de lidar este toiro”, confessa. O próximo objectivo do ex-bandarilheiro é escrever um livro com as suas memórias contando para isso com a ajuda das entrevistas realizadas nas últimas semanas pela responsável do Museu Municipal de Coruche, Ana Carrapato, para a organização da exposição. Para o presidente da câmara de Coruche, Dionísio Mendes, esta exposição de homenagem a António Badajoz é mais do que justa. O autarca recordou, que nos anos em que foi forcado pelo grupo da vila, era imprescindível antes de entrar na arena para pegar o toiro ouvir os conselhos de António Badajoz. “Ele sabia sempre onde o toiro devia ser colocado e como devíamos proceder, transmitia-nos sempre muita calma”, recorda. No próximo dia 4 de Setembro realiza-se um festival taurino que será a consagração nacional de António Badajoz, considerado uma figura do toureio português. A exposição de homenagem ao antigo bandarilheiro pode ser visitada até 5 de Dezembro deste ano.

VER VÍDEO www.omirante.pt

Já não consegui colocar mais nenhum par porque o animal fugia com medo. Saltava a trincheira e escondia-se atrás dela. Tornei-me um herói sem querer”, conta. António Badajoz sempre preferiu tourear em Espanha e em França uma vez que lá são permitidas as corridas com toiros de morte, o seu tipo de corrida preferida. O antigo bandarilheiro considera que as corridas de toiros em Portugal estão a perder adeptos por esse motivo. “Já nem falo nos toiros de morte, mas se existisse pelo menos o toiro picado, traria muito mais figuras do toureio internacional e muito mais aficionados do estrangeiro”, explica.


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“Continuo ligado à Irmandade da Senhora do Castelo e gosto muito das festas” O guardião da paisagem em Portugal chama-se Gonçalo Ribeiro Telles e tem fortes ligações a Coruche A caminho dos 90 anos continua a denunciar as más práticas ambientais e a falta de estratégia na preservação e valorização da paisagem. Gonçalo Ribeiro Telles mantém a rebeldia que o fez estar sempre do lado dos mais fracos. Católico, membro da Irmandade da Senhora do Castelo de Coruche, confessa que não gostaria de morrer sem ver o regresso da monarquia.

Nelson Silva Lopes

Quando é que descobriu esta vocação por cuidar da paisagem? A arquitectura paisagística é uma área independente de tudo o resto e eu despertei muito cedo para esta realidade. Quando era criança tinha uma certa vocação para o desenho e era um observador do campo. Cresci e comecei a perceber os problemas do campo e a necessidade de se intervir. Tive a sorte de encontrar, quase por acaso, o curso que me convinha. Foi o primeiro curso

de arquitectura paisagística iniciado pelo arquitecto Caldeira Cabral. Depois criámos outro curso em Évora, onde fui professor muitos anos. Agora já existe em cinco universidades portuguesas. O facto de ter nascido no seio de uma família de Coruche, influenciou a sua ligação ao campo? Eu nasci em Lisboa, mas cresci em Coruche e ia lá frequentemente. Vivia em Lisboa porque o meu pai era oficial do Exército e estava colocado na cidade. Tenho as memórias dos campos do Sorraia, do rio, das margens e da força da agricultura naquela zona. Sou do tempo em que as hortaliças vinham do campo e das hortas de Loures e Vila Franca para a Praça da Figueira. Que memórias guarda da sua meninice em Coruche? Fui um menino da cidade que teve o prazer de crescer no campo e passar em Coruche uma boa parte da minha infância. Este contacto com o campo acabou por traçar a minha vida. Nunca deixei de ter contacto com o mundo rural apesar de passar muito tempo na cidade. A cidade nunca se pode dissociar do campo. Há um grande défice de educação que não permite compreender

foto O MIRANTE

que estes dois mundos só subsistem se andarem ligados. O mundo rural e o mundo urbano não podem viver um sem o outro. O concelho de Coruche está a fazer uma grande aposta no montado de sobro. A cortiça é uma oportunidade?

“Não gostava de morrer sem ver a restauração da monarquia em Portugal” O comboio de passageiros vai voltar a Coruche. É uma mais valia para a vila? É muito bom para Coruche. Eu lembro-me das minhas viagens de comboio entre Coruche e Lisboa quando era criança. Era uma viagem longa, com paragem no Setil, mas muito agradável. O comboio é uma boa alternativa à oferta rodoviária. Coruche pretende ser cidade. É um estatuto que lhe assenta bem? Coruche tem condições para ser cidade, mas para mim tanto me faz. É um título que deve ter significado para os coruchenses mais bairristas que se podem julgar superiores aos vizinhos que não são cidade. Ainda tem vida social em Coruche? Gosto muito de estar com a família e de ir ao café e conversar

com as pessoas. Continuo ligado á Irmandade de Nossa Senhora do Castelo e gosto de assistir às festas. É aficionado da festa brava? Gosto de ir às corridas de toiros e vou ver os meus primos Ribeiro Telles que são cavaleiros de bom nível com quem gosto de estar. A intervenção feita na zona ribeirinha agrada-lhe? Não. Considero que o que se fez nas margens do Sorraia, com colocação de pedra e betão é um desastre com consequências imprevisíveis. Já vi e reflecti sobre o que lá está. E alertei em tempo oportuno, mas ninguém me ouviu. Mas a obra foi aprovada por todas as entidades… Eu gostava de ver esses técnicos cara a cara. Gostava de lhes pedir responsabilidades.

A família é um elemento fundamental na sua vida? Sempre fui um homem de família. Procurei conciliar a minha vida profissional com a vida familiar. No Natal juntamos 40 a 50 pessoas em casa. Tenho quatro filhos e nove netos. Perdi uma filha. Porque é que continua a viver em Lisboa? Em Évora dizem que devia viver lá onde fui professor e tenho muitos amigos. Em Coruche, gostavam de me ter lá porque é a terra da família, mas opto por estar em Lisboa porque estou perto de tudo e ainda tenho muita actividade na cidade. Ainda trabalho. As relações de café que tenho em Lisboa são fundamentais e não gostaria de as abandonar. Tenho que estar com os amigos, pelo menos uma a duas vezes por semana. O professor viaja muito.

Sem dúvida. A cortiça é um sector com grande importância no concelho de Coruche mas não é suficiente. Têm de ser criadas outras alternativas na agricultura e o sistema de rega regularizado é fundamental. Ainda vamos ter um regresso ao

Com 87 anos, ainda conduz? Conduzo muito e até gosto de conduzir. À noite, é mais cansativo, mas muitas vezes conduzo. Qual é o segredo para essa forma física e intelectual? Fiz uma vida regrada e sempre tive uma actividade muito intensa na defesa dos direitos das pessoas. Toda a vida fiz o serviço a alguém ou a alguma coisa e isso dá-me uma motivação permanente para andar. Felizmente tenho tido saúde e sinto-me bem para continuar. Teria tido uma vida mais folgada e tranquila se optasse por servir o poder. Mas esteve sempre do outro lado… As pessoas têm direitos e deveres. Eu lutei sempre pelos meus direitos e dos meus semelhantes com a consciência que tinha o dever de intervir. A determinada altura foi ministro do Estado e da Qualidade de Vida? Hoje justifica-se um ministro da qualidade de vida?

Devíamos ter um ministro do território e da paisagem que é um dos problemas graves do país. Já tivemos ministros com vários nomes, mas pouco se fez pela protecção do território e da paisagem. Ninguém sabe quem manda na paisagem se é a agricultura ou o ambiente. É necessário um mistério que olhe pela terra e pela paisagem. Ainda faz planos de futuro? Todos os dias penso nos meus planos e projectos. Todos os dias aprendo mais um pouco… Tem medo da morte? A morte é uma passagem, mas gosto muito da vida e não sei o que se passa depois. Tenho medo de ir para o desemprego (risos). O que ainda gostava de ver concretizado? Não gostava de morrer sem ver a restauração da monarquia em Portugal. Uma instituição que não dependa do voto pode assegurar com mais rigor todas as liberdades.


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mundo rural de pessoas que foram viver para as cidades? Não tenho dúvidas que esta população acumulada à volta das cidades, no Litoral, não gosta da vida que tem e vai querer regressar ao campo quando tiver lá condições para viver. Ou então vai ter de sair para o estrangeiro. Há um grande desconhecimento dos nossos políticos em relação ao mundo rural. Falam dele, mas não sabem do que se trata. Veja esta lei da Reserva Agrícola Nacional (RAN) onde tudo passa a ser agricultura, inclusive a reflorestação com eucaliptos passa a ser possível nas melhores terras de cultura. Depois não produzimos nada e temos de comprar tudo o que comemos ao estrangeiro com custos elevadíssimos para a economia nacional. É um defensor das hortas nas cidades? A cidade tem de ter espaço de produção agrícola, espaço de vida e de recreio e espaço de circulação, mas tudo tem de estar articulado. Mas a agricultura já não é rentável? Não me digam isso. A agricultura é fundamental para todos os países. Até no deserto estão a criar condições para fazer agricultura e nós cá abandonamos os terrenos bons ou plantamos eucaliptos. A agricultura tem de criar um suporte natural para a vida do homem e pode ser também uma fonte de recreio.

“A força do mercantilismo supera o interesse público” É considerado o pai da Reserva Agrícola Nacional (RAN) e da Reserva Ecológica Nacional (REN)… Não fui o pai. Houve mais pessoas envolvidas nesse processo. Foi o professor que lançou a semente. Está desiludido com o uso que foi dado a estes instrumentos de protecção da paisagem? O uso da RAN e da REN tem sido completamente anedótico. Há um enorme desconhecimento e foram feitas monstruosidades em vários pontos do país. Vieram uns senhores dizer que o que dava dinheiro era o loteamento urbano e construíram-se casas em todo o lado que agora estão por vender ou entregues aos bancos. Temos perímetros urbanos com extensões que comprometem o uso do solo e ninguém sabe o que fazer. A especulação urbana enriqueceu muita gente? A legislação de ordenamento do território tem uma visão mercantilista da terra e permitiu que se construísse em todo o lado para se fazer dinheiro rapidamente. O país está cheio de construções em locais que deviam estar reservados para a paisagem. A legislação tem de ser mais exigente e tem de ser cumprida para preservar a qualidade de vida dos portugueses. As pessoas precisam de ter comer e se não produzirmos, temos de comprar tudo lá fora. É uma questão de legislação ou de coragem para a aplicar? O problema é o desconhecimento completo do que é a paisagem ao nível dos técnicos e de quem decide. Sem conhecimento da paisagem e das suas origens não é possível preparar o futuro. Os técnicos estão demasiado fechados nos seus gabinetes? Não estão nada. Eles andam no terreno. Têm condições para conhecer os locais que antes não existiam. O problema é que eles têm visões sectoriais, não analisam no conjunto e não contemplam as articulações que têm que existir entre todos os sectores do conhecimento. Os arquitectos paisagistas são incómodos para quem tem de decidir sobre o ordenamento do território? Os arquitectos paisagistas foram expulsos pelos interesses que existem nas câmaras. Veja que há uma ordem dos Médicos, dos engenheiros, dos arquitectos, mas não há dos arquitectos paisagistas. Nós não somos o mesmo que os arquitectos. Os pareceres dos técnicos terminam sempre da mesma maneira. “Colocase à consideração superior”. São os políticos que tomam a decisão? E o problema é que a maioria dos políticos é muito ignorante. Há excepções várias no país, mas há muita ignorância nas câmaras, nas estruturas intermédias e no Governo. A lei obriga a uma revisão dos Planos Directores Municipais (PDM), mas quem faz esta revisão não conhece a realidade onde trabalha. Há dezenas de pareceres, mas só complicam o processo

porque não há articulação entre as várias entidades. Vai haver formação para autarcas na área do ordenamento do território. E quem vai dar essa formação são os tais técnicos que não têm uma visão global da área de incidência dos planos. A área criativa, representada pelos arquitectos paisagistas não está envolvida nesse processo. Os Planos Directores Municipais (PDM) de primeira geração foram positivos? Houve planos magníficos que travaram processos de loteamento que seriam uma desgraça, mas basta ler as legendas da maioria dos PDM’s para perceber que quem os fez não sabia onde estava a intervir. A água é um recurso cada vez mais valioso. Como é que se fazem espaços verdes reduzindo os consumos das regas? Tem de haver criatividade na concepção dos espaços verdes de modo a poupar a água e a energia. Depois uma boa parte da água pode ser reaproveitada para regas como acontece em muitos países onde é um bem escasso. Por exemplo, a matéria orgânica das fezes dos pombos pode ser usada como fertilizante das terras. Isto já se faz na Arábia Saudita. Como é que se cativa um jovem para viver no mundo rural? Criando condições para que ele possa lá viver e trabalhar. O problema é que as estradas passam ao largo das aldeias. Atravessam o país, mas à distância e os acessos às aldeias não são reparados há dezenas de anos. As fábricas instalam-se perto dessas estradas e quem quer trabalho tem de deixar a aldeia. É possível criar condições para as pessoas voltarem a viver na aldeia e trabalharem ali perto. O mundo rural tem muito para dar. Temos as terras mais ricas para a agricultura, sol todo o ano. Há um desconhecimento total e uma falta de criatividade. Veja que os melhores solos estão a ser classificados para receber eucaliptos. “Os políticos enganam os cidadãos com mentiras que repetem muitas vezes e passa a ser verdade” A plataforma logística da Castanheira do Ribatejo está a ser construída numa área protegida e classificada como Reserva Agrícola Nacional (RAN) e Reserva Ecológica Nacional (REN)… É como os projectos de interesse nacional que estão a aparecer em todo o lado. Não há nada que justifique a construção da plataforma logística naquele local da Castanheira do Ribatejo. É o desprezo por estas terras. Havia muito local onde a plataforma poderia ser feita. Na zona ribeirinha que vai de Vila Franca de Xira à Póvoa de Santa Iria estão previstas várias urbanizações e áreas de logística… Isso é uma dupla monstruosidade.

Não se admite que estejam a fazer uma maldade dessas à região. O Tejo não é só o rio, são também as suas margens. Há uma ignorância muito grande das pessoas e depois os políticos enganam os cidadãos com mentiras que repetem muitas vezes e que passam a ser verdade. Como é que podem construir em zonas alagáveis? Estas pessoas não têm noção do risco? Pode haver uma tragédia… O Tejo é um elemento fundamental na paisagem ribatejana? O Tejo, os seus afluentes, e as margens adjacentes. Ver o Tejo apenas como o rio, é de uma ignorância espantosa. O Tejo é um sistema de continuidade que deve ser valorizado. Os espanhóis estão a estudar o seu aproveitamento, mas nós continuamos a vê-los passar. O caudal do rio tem vindo a diminuir devido às construções e isso é óptimo para as plataformas logísticas e para os projectos imobiliários previstos para a região. Querem classificar o Tejo como Património Mundial, mas o que é que têm feito para o preservar e aproveitar? Mais uma vez a visão mercantilista superou o interesse público. O professor foi sempre uma voz incómoda na sua vida académica, na política ou nas intervenções cívicas. Foi prejudicado em várias situações. Não se arrepende? Nunca me arrependi do que fiz. E se fosse hoje, em alguns casos teria feito pior porque não vi resultados da minha intervenção. Tive a sorte de ter encontrado uma área de formação que me deixou conhecer o mundo rural e tive a sorte de ter visto no mundo os problemas da paisagem. Foi sempre um homem rebelde? Fui como achei que deveria ter sido. Tentei dar o meu contributo para melhorar alguma coisa. A nova geração de portugueses não tem a coragem que o acompanhou? O problema não está nos jovens, está na geração que os forma e que não os tem formado da melhor maneira. Hoje há mais informação e com acesso mais fácil, na Internet, mas faltam conhecimentos básicos que são fundamentais na formação de cada um de nós. Os cidadãos hoje são mais egoístas? Não me parece. O país é extraordinário na solidariedade por causas que o mobilizem. O problema é que as decisões dos políticos afastam as pessoas. Porque é que fecham as escolas nas aldeias? Por não haver alunos… Então vamos arranjar maneira de haver gente na aldeia mas não se feche a escola. Criem condições para que as pessoas possam trabalhar as terras das aldeias e viverem lá com as famílias.


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Habitantes de Coruche falam da sua terra e das suas festas Faltam estradas, indústria e mais empregos Diamantino Diogo, 67 anos, presidente Caixa Agrícola Coruche, Coruche Diamantino Diogo gostaria que Coruche tivesse criado mais postos de trabalho, principalmente para os jovens que concluem os seus estudos e que se tivesse instalado mais indústria no concelho, ao longo dos anos que se seguiram ao 25 de Abril. Para o presidente da Caixa Agrícola de Coruche a vila e o concelho deviam ter crescido acima do que foi alcançado,

Transporte de passageiros em comboio é oportunidade bem vinda António José Silvestre, 51 anos, comerciante, Foros do Paúl – Coruche Indústria e empregos são as duas grandes lacunas do concelho de Coruche. Para António José Silvestre, comerciante do centro histórico da vila, essas lacunas reflectem-se nas actividades comerciais e fazem notar a grande dependência do mundo agrícola no concelho. De resto, considera que o sector da saúde está como o país, em crise, obrigando os

Pavilhão de exposições era garantia de trabalho para artesãos António Lourenço da Silva, 59 anos, artesão, Foros do Paúl Entre o que mais falta no concelho de Coruche, António Lourenço da Silva elege duas questões: é necessário mais saúde e falta a autoridade nas ruas que conceda mais confiança e segurança às pessoas. De resto, o artesão, diz que a falta de solidariedade nos momentos difíceis também é um ponto a melhorar pelas pessoas e pela autarquia. O artesão era figura habitual nas festas de Coruche até que com as obras de requalificação do Rossio se tenha deitado abaixo o pavilhão de exposições. “Era onde iam artesãos de todos os lados nas festas. Convivia e tinha clientes para todo o ano sem sair aqui do concelho, só por

mas está convencido que a recuperação irá ser feita a partir da construção do novo aeroporto de Lisboa. “Vamos ter um novo ciclo de desenvolvimento”, diz. As vias de comunicação são outra das suas preocupações. “Precisamos há muito tempo de novas estradas, como o IC 13 e IC 10. Com isso, podemos ter mais espaço industrial e fábricas e temos que fazer essa divulgação junto dos investidores. Durante as festas gosta de esquecer, por momentos, as suas responsabilidades como presidente da Irmandade de

Restauração deve estar aberta para receber visitantes Isabel Pontes, 37 anos, florista, Coruche

Nossa Senhora do Castelo e ir, como qualquer outro cidadão, ver os toiros à solta nas ruas da vila e os diversos espectáculos musicais.

utentes a deslocarem-se para a Santarém. “Primeiro desanuviam serviços, agora estão outra vez a centralizá-los, vamos ver no que dá”. Pela positiva, António Silvestre considera que a abertura da linha de comboio até Lisboa para passageiros, a preços acessíveis e de forma rápida, é uma boa notícia para os habitantes. “Apesar de tudo a vila não tem nada a ver com o que era há dez ou 15 anos atrás. Está tudo mais limpinho e, em matéria de câmara, temos mais qualidade”, refere António José Silvestre. As festas ajudam a melhorar o ânimo dos coruchenses. O habitante elege os toiros como o principal das festas, que gos-

ta de ver e manter-se intacto. No parque do Sorraia petisca e vê os concertos. “Gosto de como são estas festas e ajudo sempre a comissão”, garante o comerciante.

estar representado nas festas. Cortaram-nos a enxada!”, diz, com um lamento. Agora António Lourenço da Silva vai à festa apenas como cidadão. Mas não é por causa disso que não aproveita. Assiste ao cortejo etnográfico e não perde o fogo de artifício e as largadas de toiros. “Quando vou sozinho vou para dentro da trincheira. Acompanhado da mulher fico sempre fora, ela não me deixa entrar. Como é óbvio também gosto da tourada”, realça. De resto não tem grande ouvido para a música. Prefere mais um bom petisco e

conviver. Tira-se um carapau de um lado, um torresmo do outro e a festa vai-se fazendo.

Isabel Pontes diz que as festas de Coruche a fazem feliz. A florista do mercado municipal não perde o cortejo etnográfico e as largadas de toiros. “Mas fico de fora a ver. Nunca me aventuro nem gosto que familiares meus o façam. Estão proibidos! Senão o coração dispara e dá-me alguma coisa”, graceja. Ainda se lembra das festas quando era mais nova. “As pessoas do campo vinham ver o fogo-de-artifício e ficavam a dormir ao relento no jardim à

beira-rio, com mantas e cestas de comida, porque não havia carros nem transportes tão tarde”, recorda. Hoje em dia, acha que o comércio tradicional ainda não responde completamente. ”Aos domingos Coruche recebe muitos visitantes de excursões porque é ponto de passagem e de visita e a restauração está toda fechada. É aquilo que eu acho pior porque de resto a vila está muito completa actualmente”, opina.

Venham mais investidores para agarrar a população António Raposo Vieira, 47 anos, comerciante, Coruche António Raposo Vieira gosta da vila tal como ela está e não se deixa levar em euforias para que ascenda a cidade. “Falta sim trazer pessoas com dinamismo para criarmos mais postos de trabalho e para que invistam no concelho. Não precisamos de festas e fins-de-semana com música, precisamos de iniciativa para que os jovens e as pessoas não se desloquem para fora e tenham empregos”, refere o comerciante. Que dá um exemplo de seguida: “Havia dantes uma discoteca em Coruche, onde todos íamos. Hoje os jovens estão limitados e não ficam cá. Vão para Mora, Almeirim, Salvaterra e Benavente e estão cada vez mais desligados”, constata. O comerciante considera negativos os serviços de saúde e de segurança no concelho, semelhantes ao que acontece no resto do país. Refere ainda que há problemas com as etnias e com outros protagonistas de crimes, que têm como regra a

impunidade. “Essas pessoas chegam mais depressa de volta à vila desde o tribunal do que a GNR que tem de ficar a preencher impressos”, compara. Para António Vieira as festas servem para aliviar desses problemas do dia a dia mas nem tudo é fácil. “Em miúdo ia com os meus pais aos restaurantes. Hoje não vou às tasquinhas. Com mulher, dois filhos e a namorada de um deles, quanto é que deixo lá?”, questiona. Ficaram na sua memória os concertos de Fernando Pereira e de Rouxinol Faduncho e considera que os espectáculos com Tony Carreira e noite de fados estão mais vocacionados para recintos fechados.


O MIRANTE | 13 Agosto 2009 Ver as festas por detrás do balcão do café António Martins, 64 anos, comerciante, Coruche António Martins sente a falta do movimento de clientes como um problema real da vida na vila de Coruche, mesmo que as festas agucem o apetite dos visitantes à porta do snack-bar A Cubata. E não é por falta de centralidade, já que o estabelecimento fica na rua 5 de Outubro, um dos locais onde se realizam as largadas de toiros e a poucos metros das tasquinhas e dos concertos. “Nota-se essa falta de

Festas de Coruche deviam ser organizadas por comissões populares

Francisco Santos, 57 anos, industrial, Foros do Paúl/Biscainho “Para mim as festas são uma manifestação de satisfação de um povo e só é pena que as nossas festas tenham um peso tão grande da câmara, quando

FESTAS NOSSA SENHORA DO CASTELO - CORUCHE | 9 Precisamos de unidade de saúde bem mais perto

movimento de há uns dez anos para cá. É a experiência do dia a dia que me diz. Acho que é isso que dizem que anda para aí, chamada crise”, diz com ironia. Acrescentando que está sempre metido na sua prisão e, por isso, deixa escapar o que se passa na vila. “Quanto mais trabalho tiver mais fico contente. E desde dia 14 a 18 há sempre mais negócio”, diz António Martins de forma pragmática. António Martins diz que só vê o que se passa quando vai almoçar e jantar. Reclama que as festas antigas tinham mais tradição e outra forma de encarar as coisas. Nunca lhe entrou um

toiro pelo estabelecimento mas pielas das fortes durante os dias festivos é coisa que não falta. “Faz calor e fugir dos toiros é duro”, graceja.

deviam ser organizadas pela população”, refere Francisco Santos. Foi membro da comissão nos dois primeiros anos a seguir ao 25 de Abril e orgulha-se de ter ajudado a comprar uma ambulância para os bombeiros com 250 contos. Na pele de cidadão, Francisco Santos gosta é de se sentar nas tasquinhas, de preferência à sombra, e ver quem passa, a cumprimentar os amigos e a solidarizar-se com as festas. Gosto do cortejo etnográfico, tem muito valor e mostra tradições muito antigas”, acrescenta.

Mais parado está o concelho. Desde logo por estar cercado de eixos rodoviários e de não ser servido quase por nenhum deles. Mas também porque a agricultura, com influência grande no concelho, tem tido anos péssimos. “O concelho é muito rico mas na parte cultural é pobre. Há um caminho grande a percorrer”, garante Francisco Santos.

João Picado, 55 anos, empregado balcão, Foros do Paúl “Faltam os clientes, é o que mais se sente. Houve um abaixamento grande”, diz João Picado quando questionado como vai o negócio da ourivesaria e na vila em geral. Ainda assim a tarde teve algum movimento na sexta-feira. Natural de Mira, Coimbra, João Picado foi para Coruche levado pelo pai e gosta da vila e do concelho, terra da qual diz que tem quase tudo o que uma pessoa precisa. “O que dava mais jeito era ter cá o Hospital de Santarém mas acho que a situação da saúde no concelho vai melhorar com o serviço de urgência que aí vem”, diz à reportagem. É o único senão que se lembra e que aponta ao concelho.

Como tristezas não pagam dívidas a festa é o tema que se segue. João Picado é frequentador habitual. Gosta de ver os espectáculos, os toiros, e as largadas. Há sempre um bocadinho para ir ver os toiros, “encostado à trincheira de olho no bicho”, garante. As tasquinhas são uma boa opção para ir, umas vezes com amigos, outras com a família. Basta sentar-se à mesa e ir petiscando, picando aqui e ali.


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Plano estratégico defende desenvolvimento urbano e industrial para Coruche Concelho deve aproveitar também a construção do novo aeroporto para captar residentes O Plano Estratégico de Coruche, desenvolvido pela equipa do ex-ministro Augusto Mateus, defende que o concelho deve aproveitar os traços rurais e a natureza para se desenvolver. O futuro de Coruche até ao ano 2020 deverá ser marcado pelo crescimento urbano da vila sede de concelho e pelo incremento da actividade empresarial, em consonância com a natureza e ambiente que marcam positivamente o concelho. São estes os caminhos principais apontados pelo Plano Estratégico Coruche 2020, concebido pela sociedade de consultores de que faz parte o ex-ministro da economia Augusto Mateus. O documento tem em conta a prevista construção do novo Aeroporto de Lisboa no Campo de Tiro de Alcochete e aponta

caminhos para investimentos que possam surgir com este equipamento. Augusto Mateus entende que Coruche tem que atrair habitação de qualidade fora do conceito de dormitório. Apontando que a vila pode criar condições para albergar quem vai trabalhar na construção do aeroporto, bem como os seus futuros funcionários. Alberto Mateus considera ainda que Coruche deve apostar em cativar os que terão 18 anos em 2020 e nos reformados activos. Para o economista a vila deve prepararse para oferecer os serviços e o comércio típicos de uma cidade, revitalizando o centro da vila para atrair moradores. Defende ainda que a aposta no turismo deve conjugar o urbano e o rural, lembrando que “Coruche possui uma natureza colorida única que não deve ser desvirtuada com os investimentos que se venham a alcançar, nem, feita à custa das freguesias”. Para se desenvolver, o concelho tem

que conseguir dar a volta a algumas desvantagens. Como a de ter uma população envelhecida com uma escolaridade abaixo da média nacional. Por isso o plano defende uma aposta na formação escolar. O presidente da Câmara de Coruche vê o plano como um importante documento de linhas orientadoras para o futuro do concelho. Dionísio Mendes considera fundamental que Coruche cresça de forma equilibrada e concorda com a proposta de revitalização do centro histórico. Por isso conta com o projecto de criação da sociedade de reabilitação urbana que está a ser desenvolvida pela Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (CIMLT). O autarca considera ainda que Coruche tem condições para crescer urbanisticamente para norte. Dionísio Mendes (PS) entende que é necessário garantir “bolsas de terreno e planos de pormenor adequados, sem

Augusto Mateus já trabalhou para mais de 100 municípios Augusto Mateus trabalhou para mais de 100 autarquias do país desde que há cinco anos começou a trabalhar como consultor. Em declarações a O MIRANTE diz que nenhum plano estratégico pode ser entendido como uma coisa isolada, apesar de saber que o “mercado” dos municípios vizinhos também é concorrencial. “Nesta região não é possível fazer um plano sem o articular com as potencialidades dos concelhos vizinhos, como Santarém, ou Caldas da Rainha”,

já fora do distrito de Santarém, defende o ex-ministro. Augusto Mateus diz que se deve entender uma região que não tem que ser obrigatoriamente a dos limites do distrito. O trabalho de Augusto Mateus tem muito de reuniões com técnicos de autarquias e responsáveis de empresas. Uma forma de se identificar os traços que distinguem um concelho e as suas necessidades. O economista destaca que hoje cada município tenta levar para si o que pode e tenta não deixar

fugir investimentos e infra-estruturas para concelhos vizinhos. E confessa que o trabalho que tem realizado para as autarquias o levou a descobrir muitas coisas positivas e a ser uma pessoa mais optimista em relação ao futuro do país. A equipa de Augusto Mateus que costuma trabalhar com autarquias é composta por 12 a 15 elementos, entre os quais economistas, arquitectos, sociólogos e gestores.

pressões de especuladores e investidores imobiliários, para que populações que trabalhem na área do futuro aeroporto possam decidir viver em Coruche”. Do plano valoriza também a necessidade de se criar um parque para empresas da área da logística e novas indústrias do frio, vocacionadas para os hortícolas e perecíveis. “Não será um parque de negócios com infra-estruturas e preços mais caros”, advertiu.


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Festas de Coruche