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O MIRANTE S E M A N Á R I O

R E G I O N A L

COLETE ENCARNADO - 2009

As memórias de uma rua tradicional de Vila Franca “Rua Direita” já foi o principal ponto de passagem. Os mais velhos partilham as memórias com medo que o tempo as apague. Os novos falam de uma rua “gira”, “acolhedora” e “maternal” 4

Vila Franca de Xira engalanada para receber Colete Encarnado Cidade vai acolher milhares de visitantes de 3 a 5 de Julho. Ana Moura, Ritual Tejo e Susana Félix são cabeças de cartaz este ano 2

Aproveitar a “estrada” do Tejo para pôr fim aos engarrafamentos Fernando Carvalho Rodrigues defende que as populações se virem para o rio 10

António Verdasca Júnior é o campino homenageado no Colete Encarnado Vila Franca distingue homem que dedicou mais de cinco décadas à campinagem 8

Toiros com escola que só marram pela certa O contacto com o ser humano torna os animais ainda mais perigosos 3

Uma festa que mexe com a cidade Colete Encarnado é uma oportunidade de negócio e um pretexto para rever velhos amigos 6

Este suplemento faz parte integrante da edição n.º 885 deste jornal e não pode ser vendido separadamente


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02 Julho 2009 | O MIRANTE

Vila Franca de Xira engalanada para receber Colete Encarnado Cidade vai receber milhares de visitantes de 3 a 5 de Julho O Colete Encarnado, uma das principais festas da cidade de Vila Franca de Xira e do Ribatejo, cumpre este ano a sua 77ª edição. Ana Moura, Ritual Tejo e Susana Félix são cabeças de cartaz este ano. Está tudo pronto para o arranque da principal festa da cidade de Vila Franca de Xira, o Colete Encarnado. As ruas estão enfeitadas, as bandeiras estão no ar e já só se fala de tauromaquia nos cafés. Há quase 77 anos que a festa se realiza, sempre com o mesmo espírito ribatejano de elogio ao cavalo, toiro e campino. De 3 a 5 de Julho a tradição do Ribatejo monta arraiais a poucos quilómetros de Lisboa, com um programa diversificado que inclui a actuação Susana Félix, Ritual Tejo e Ana Moura . Para além das dezenas de esperas e largadas de toiros que vão ocorrer pela cidade, o principal destaque será a homenagem ao campino, que se realiza sábado pelas 16h00, seguida de um desfile de campinos e atrelagens pelas principais ruas da cidade. António Verdasca Júnior será o homenageado deste ano. Com 80 anos, 46 dos quais ligados aos campinos, António Verdasca Júnior, natural de Vale Figueira em Santarém, vai receber o Pampilho de Honra (ver texto no suplemento). Ainda no sábado os visitantes poderão desfrutar da noite da sardinha assada pelas ruas da localidade. Ao dispor da população estarão milhares de quilos de sardinha e largas dezenas de litros de vinho tinto para saborear a partir das 22h30. A distribuição acontece nos postos públicos e nas trinta tertúlias que estarão distribuídas pela cidade. As largadas de toiros acontecem no dia 3 de Julho às 21h30, dia 4 às 18h30 e dia 5 às 10h30. Sexta-feira às 20h30 há missa rociera na Igreja Matriz No domingo, dia 5 de Julho, às 18 horas, a praça de toiros Palha Blanco recebe uma corrida mista com António Telles e João Telles Jr. Além destes cavaleiros a praça recebe também os

TRADIÇÃO. Há 77 anos que os campinos desfilam em Vila Franca de Xira espadas Sanchez Vara e João Augusto Moura. A corrida conta com a presença do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca. Na praça vão estar 7 toiros Falé Filipe. Os bilhetes podem ser adquiridos a partir de 10 euros. Para animar musicalmente o Colete

foto arquivo O MIRANTE

Encarnado a cidade de Vila Franca vai receber no palco da avenida Pedro Victor os Ritual Tejo (dia 3 às 00h30), Susana Félix (dia 4 às 23h00) e a fadista Ana Moura no dia 5 de Julho às 22 horas. Ainda inserido no programa das festas está a inauguração da exposição “Ruas

da Memória” no Celeiro da Patriarcal no dia 3 de Julho às 19 horas. Um dia depois, sábado, a casa do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira recebe às 14h00 uma cerimónia de assinatura de um protocolo que visa a edição de um livro sobre os 75 anos do grupo. Um jantar de tertúlias no dia 2 de Julho, às 20h00, no Mercado Municipal antecipa a chegada de todas estas festividades. O colete encarnado encerra com o lançamento de fogo-de-artifício no rio Tejo depois da meia noite de domingo, dia 5 de Julho.


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Toiros com escola que só marram pela certa e por vezes matam O contacto com o ser humano torna os animais ainda mais perigosos

PERIGO. Na memória dos aficcionados estão toiros que fizeram história pelas suas colhidas graves

Marram só pela certa. Ferem e por vezes matam. De largada em largada, há toiros que se vão tornando cada vez mais perigosos, aprendendo as “manhas” do homem e dando que pensar aos que com eles brincam. Há quem lhes chame toiros com “escola”. Ricardo Leal Lemos “Gavião”, “Carocho” e “Contentor” são nomes de toiros que figuram na mente dos adeptos da festa brava como alguns dos mais temidos nas largadas das últimas décadas. Em comum, tinham a bravura e as largadas sucessivas em que participaram, Ribatejo fora. As opiniões dividem-se em relação aos factores, mas os adeptos e os participantes nas largadas de toiros concordam que quanto maior o contacto com o homem, mais “manso” mas também mais perigoso fica o animal. Porque é mais ponderado e quando investe pode atingir com mais inteligência quem persegue. José Dias, ganadero que fornece

toiros para largadas em Vila Franca de Xira, Benavente ou Santarém, traça o perfil e o percurso dos três tipos de toiros que chegam às largadas. “Há os puros ou virgens, que nunca foram corridos e nunca estiveram em largadas. Podem ter um defeito e vão directamente para as largadas. Depois há os que são corridos nas praças e depois de serem curados vão para as largadas”. O terceiro tipo de toiro é o que faz corrida e várias largadas. É conhecido como o que vai “à escola”. “Quanto mais brincadeiras o toiro fizer, mais manhoso se torna. Se é puro, ou virgem, corre mais atrás dos campinos e bate nas tronqueiras quando vai atrás das pessoas que com eles brincam. Fazem bem duas ou três largadas, mas há muitos que depois da primeira já não servem - param e já não investem se não pela certa”, conta. Entre cada largada, explica, o toiro deve descansar um mês e não realizar mais do que três largadas. Quem está na organização das largadas e festas taurinas, no entanto, apresenta uma versão diferente. José Carlos Oliveira, campino durante a in-

foto arquivo O MIRANTE

fância e juventude, assegura que cada toiro chega a realizar “num mês, cerca de dez largadas” e descanso durante um mês é coisa que não tem. O adepto da festa brava, que protagonizou em 2001 uma das colhidas mais violentas dos últimos anos, ao sofrer perfurações no fígado, pâncreas e fractura de duas vértebras em Samora Correia, quando

tentava salvar um cavalo e um jovem das investidas de um toiro, lembra um animal nobre “não ataca os cavalos nem as pessoas. “Em Samora tenta-se que ninguém possa ter muito contacto com o toiro, para não ganhe aquela aprendizagem e faça mal ao cavalo ou ao homem”, conta, a propósito. Um bom animal, descreve, deve ser “humilde, baixar a cabeça quando investe e correr todas as ruas”, nota. A “aprendizagem” com os humanos, concorda José Dias, pode ter efeitos surpreendentes. “Tinha um toiro que não servia para corridas porque tinha sido criado com comida à mão, deixava fazerem-lhe festas, mas há dois meses e meio deu uma tareia em quem o tratava, partindo-lhe três costelas e o externo e virando a carrinha que ali estava”. José Ferreira, responsável pela organização de várias largadas e pela escolha dos toiros em Samora Correia, assume que “quanto mais contacto com os humanos, menos ‘bravos’ os toiros ficam”. O responsável considera que “o mais importante é que corram muito, não que sejam bravos ou maus”. Para o responsável, a festa das largadas depende de toiros com fôlego, capazes de perseguir todas as provocações, mas sem vontade de aprender os hábitos e as fraquezas dos seres humanos.


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As memórias de uma rua tradicional de Vila Franca “Rua direita” já foi o principal ponto de passagem da cidade Os mais velhos partilham as suas memórias com medo que o tempo as apague. Os novos falam de uma rua “gira”, “acolhedora” e

“maternal”. O MIRANTE entrou na máquina do tempo para (re) descobrir a rua que viu nascer Vila Franca de Xira.

MEMÓRIA. Uma festa que reuniu dezenas de convidados na rua Direita

TRANQUILIDADE. Os carros só circulam esporadicamente na rua

Filipe Matias Nos anos 40 e 50 a rua Dr. Miguel Bombarda, eternamente conhecida por “rua direita”, era uma das mais importantes artérias da cidade de Vila Franca de Xira. A alcunha deriva do facto de, mesmo sendo uma rua “torta”, permitir o percurso mais “a direito” para atravessar Vila Franca de Xira. Os carros usavam-na para atravessar a localidade e muitas das trocas comerciais eram feitas por essa via. Os estendais estavam cheios de roupa a secar ao sol. Nas varandas e à porta de casa grelhava-se peixe, capturado mesmo ali ao lado, nas águas do Tejo. Nas maçanetas das portas o padeiro deixava o saco do pão, feito de tecido, aos seus clientes. A maioria dos anexos das casas, nos telhados, era habitado. Toda a gente se conhecia e o ambiente era de amizade. Hoje a rua está fechada ao trânsito e só os (poucos) moradores ou os turistas têm acesso. Muito mudou na rua, mas quase nada no espírito e carisma que esta ainda emana. Tomando como ponto de partida o acervo fotográfico do Museu Municipal de Vila Franca de Xira, arranca no dia 3 de Julho, no Celeiro da Patriarcal, a exposição “Ruas da Memória”, que apresenta fotos originais de uma Vila Franca de outros tempos. O principal destaque das quase 67 imagens a preto e branco vai para a rua direita. Na varanda da casa amarela, recentemente pintada, está Artur Mateus, 76 anos. Corta as unhas com um canivete, tal como fazia antigamente. “Quando aluguei aqui a casa pagava dois contos, o que era uma fortuna para a época. Mas em compensação estava no melhor sítio da cidade”, diz com orgulho. Nasceu em Vila Franca e aí se fez homem. “Antigamente tinha a porta no trinco, qualquer pessoa entrava, porque eu conhecia toda a gente aqui da rua. Tinha amigos que, quando precisavam de ovos, entravam aqui em casa e tiravam. Havia

muita amizade”, recorda. Hoje as coisas são diferentes. “Os velhotes estão a ir embora e os novos não querem morar aqui porque não têm estacionamento para os carros. O barulho dos bares que entretanto se instalaram na rua também os afasta”, lamenta. A artéria, dizem os mais idosos, perdeu o brilho quando o trânsito foi proibido. “O empedrado melhorou o aspecto da rua, mas matou a sua vida”, acusam. Encontrámos na rua direita Aurora Cunha, 85 anos. “O café ao lado da minha casa foi o primeiro a ter uma televisão, a preto e branco. Era uma festa, juntávamo-nos todos para ir para lá. Naquele tempo os carros eram bem menos e dava para ficar às vezes no meio da rua a brincar. Eu adorava”, recorda Aurora com um sorriso de felicidade. Subitamente recorda-se da má notícia: “Cinco ou seis anos depois de comprar a televisão o dono do café morreu e o estabelecimento fechou”. Uma das memórias mais marcadas entre os anciãos da rua tem a ver com as festas. “Enfeitávamos as varandas, tentávamos sempre dar um brilho à festa do colete, ou às esperas de touros, era muito giro. Hoje em dia não há nada disso. Perdeu-se a tradição...”, recorda uma moradora. Para os jovens a rua direita é conhecida pela animação. “É um excelente local para ir beber um copo com os amigos. É o bairro alto de Vila Franca, cheio de tradição e significado”, defende Rui Francisco, 19 anos. “Não conheço a história da rua mas acho que é, sem dúvida, uma rua bonita”, conclui. Outro jovem, Pedro Marques, 25 anos, ouvido pelo O MIRANTE, diz que é “uma rua catita” com gente acolhedora, simpática e “sempre disposta a ajudar o próximo”. Como tantos outros jovens não faz ideia de que a rua foi tão importante para Vila Franca de Xira. “Mas de certeza que no futuro a rua onde moro também vai ser diferente. Por isso só tenho de estar preparado para aceitar essa diferença”, conclui.


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Preservar a memória em 56 mil fotos Até ao dia 2 de Agosto vai ser possível visitar gratuitamente, no Celeiro da Patriarcal, em Vila Franca de Xira, a exposição de fotografia “Ruas da Memória”. A exposição exibirá 67 fotos do acervo fotográfico do Museu Municipal, cujo arquivo tem mais de 56 mil fotos. Os visitantes vão poder observar imagens raras de uma Vila Franca de antigamente, com destaque para a rua direita, Serpa Pinto, Palha Blanco (actual Alves Redol), rua 1º Dezembro, praça Afonso de Albuquerque e ainda o largo Marquês de Pombal. “Todos nós temos a memória da rua onde crescemos e onde vivemos. E constitui muito do que é a nossa identidade. Os sons dos vizinhos, as conversas na rua, as brincadeiras, os casamentos que se viram a sair das portas ao lado, entre outras histórias”, conta João Ramalho, um dos membros da organização da exposição. O objectivo é dar a oportunidade às pessoas para se “redescobrirem a elas próprias”, através de memórias “já esquecidas ou guardadas”.

As memórias de uma rua de culto Falar da rua direita é sempre uma emoção para António Batalha, 77 anos. Guarda boas memórias da rua que, outrora, era a principal via da cidade. “A miudagem entre os 8 e os 10 anos andava sempre a meter-se connosco. Na altura isto era uma terra extraordinária”, refere António, enquanto confessa estar “triste” com o rumo que a rua está a levar. “As coisas evoluíram para muito mal. Fico triste por ver que Vila Franca é hoje uma terra que tem pouca vida. A

qualquer hora da noite, se viesse à rua, via sempre gente. Agora é raro. Éramos uma cidade mais segura antigamente”, garante. Ao seu lado está sentado José Lucas Ramalho, 81 anos. Diz que guarda boas memórias da rua onde trabalhou durante largos anos na loja nº 109. “Quando cortaram o trânsito o negócio murchou muito. Antigamente vendia-se bem, porque havia mais trânsito e porque as coisas eram boas e duravam muito tempo”, explica.

“Uma rua que faz lembrar os clássicos de Chaplin” Agarrado aos sapatos que repara com afinco, José Faria, 37 anos, é um dos comerciantes mais novos na rua. Vivia na ilha da Madeira. Desempregado há ano e meio, decidiu tomar as rédeas do seu destino e partiu rumo à aventura. Depois de vários começos em falso fora do concelho de Vila Franca de Xira acabou por apaixonar-se pela rua direita. Já lá vão seis meses. “Gostei das pessoas, são humildes e simpáticas, até agora tenho me dado muito bem. E acho que é uma terra que tem um passado muito doce e nobre”, refere José Faria a O MIRANTE. “Para mim esta rua faz-me lembrar os filmes clássicos do Charlie Chaplin. Tem um ar jovem e as pessoas têm muito carisma, sobretudo as que estão acima dos 50 e 60 anos de idade”, conclui.


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Uma festa que mexe com a cidade de Vila Franca de Xira Colete Encarnado é uma oportunidade de negócio e um pretexto para rever velhos amigos A vida do campino e do toiro sai às ruas

O movimento da festa é o que mais seduz

Samuel Póvoa, 65 anos, comerciante

José Correia, 43 anos, talhante

Para o comerciante Samuel Póvoa, 65 anos, o Colete Encarnado “é uma das festas mais lindas” do país. “É a vida do campino e do toiro dentro de Vila Franca de Xira”, diz o comerciante. O filho da terra, com 65 anos, considera o Colete Encarnado uma tradição “melhor que a Feira de Outubro”. Vive a época festiva com muita alegria. Gosta de ver as esperas dos toiros e costuma cumprir um ritual na noite da sardinha assa-

Num talho a carne vende-se todos os dias e não apenas em épocas festivas. José Correia, talhante, vai estrear-se como da. “Dá-se uma volta, come-se uma sardinha com um pedaço de pão e bebe-se um copo de vinho”. Só lamenta que nos últimos anos os ranchos folclóricos e o fado tenham dado lugar a concertos de música. “Isto é uma festa ribatejana e não de pop”, conclui.

Um alentejano que vestiu o “colete” ribatejano

O negócio de peças de automóveis está instalado em Alhandra mas Miguel Araújo, comerciante, mora em Arruda dos Vinhos. Praticamente todos os anos marca presença nas festas do Colete Encarnado, em Vila Franca de Xira.

Lurdes Assunção, 65 anos, comerciante

está diferente. “Há 40 anos tinha mais impacto mesmo a nível nacional. Vinham mais pessoas a Vila Franca de Xira”. É natural de Ponte de Sôr, mas há muito que rumou em direcção à cidade de Alves Redol. “Neste momento considero-me mais ribatejano que alentejano” confessa.

Uma oportunidade para rever amigos

“O Colete Encarnado trás muita gente de fora a Vila Franca, mas não para fazer compras”, conta Lurdes Assunção. A comerciante de flores, bijuterias e elementos decorativos olha

Uma iniciativa que deveria estender-se

João Pinto, 44 anos, sócio-gerente de restaurante João Pinto, 44 anos, trabalha no Forte da Casa, mas reconhece que o Colete Encarnado tem um impacto muito elevado em Vila Franca de Xira. Nas outras áreas “não se nota a diferença. “É uma

António Martinho, 40 anos, director geral

“Nasci e cresci em Vila Franca de Xira. Desde sempre que vou ao Colete Encarnado.” António Martinho, director geral de profissão, tem orgulho nas suas raízes e as festas são uma oportunidade para rever amigos que já não vê, em alguns casos, há um ano. “Vem toda a gente a Vila Franca. Mesmo aqueles que tiveram de ir trabalhar para fora. É uma altura para o convívio”, refere

Miguel Araújo, 33 anos, comerciante

Uma oportunidade de convívio mais do que de negócio

José Gabriel, 59 anos, comerciante “Costumo viver o Colete Encarnado a trabalhar, se possível muito. Nesta altura o negócio aumenta razoavelmente”, diz o sócio de um dos restaurantes mais típicos de Vila Franca de Xira. Mas José Gabriel, 59 anos, ainda consegue arranjar tempo para espreitar o ambiente festivo. “Dou uma volta pelas tertúlias e pelos bares na noite da sardinha assada”, revela. No seu entender o Colete Encarnado

Um evento que ajuda o comércio tradicional

o filho da terra. Entende que tudo o que dê notoriedade e traga mais gente à terra é bom. Mas defende que se devem concentrar os recursos humanos em poucas iniciativas mas com qualidade. “Que é o caso do Colete Encarnado”, afiança António Martinho.

Viver o espírito da festa brava

Madalena Ribeiro Telles, 48 anos, economista Madalena Ribeiro Telles já viveu mais o Colete Encarnado porque a disponibilidade também não é a mesma. Apesar de não ter passado a “meninice” em Vila Franca de Xira continua a sentir as festas da terra de uma

comerciante na cidade do Colete Encarnado, tem expectativas de mais clientela naqueles dias, mas alerta que “ninguém cá volta se tiver de se deparar sempre com estacionamento pago de cada vez que quer comprar carne”. O talhante, que é natural de Alverca,

reclama estacionamento gratuito junto às casas comerciais “todos os dias e não apenas nos dias do Colete”. Para quem já experimentou, como participante, a festa em Vila Franca, “o movimento e as pessoas em convívio” são o que mais seduz.

“Vamos para lá para nos divertir. Gosto das largadas e depois há a festa à noite com os concertos. E também pelo convívio”, salienta Miguel Araújo. Na sua opinião a “festa da terra” traz muita gente até Vila Franca de Xira que “sempre dá uma ajuda ao comércio local”, até porque as coisas “não estão famosas”. O comerciante defende a realização de mais iniciativas do

género ao longo de todo o ano em Vila Franca de Xira e não só o Colete Encarnado.

para o fim-de-semana festivo como uma oportunidade de convívio mas não de negócio. “Há lugares na rua para os vendedores ambulantes. Os forasteiros podem comprar uma flor para o cabelo, mas em geral nada de especial. Gosto do Colete Encarnado pelo convívio. Conversamos, bailamos...”. A vilafranquense, que confessa não ser uma adepta acérrima

da festa brava, mas aprecia as relações humanas presentes na festa. “Mas há quem fuja, por causa do barulho”.

coisa que faz parte da cidade”, nota. Frequentador muito esporádico daquela iniciativa por “falta de tempo”, elogia o movimento que o Colete Encarnado atrai e defende mais iniciativas noutras freguesias do concelho e festividades que juntem mais do que uma freguesia. “Tudo o que seja bom para desenvolver a comunidade e as

freguesias, é positivo. Quanto mais gente atrair, melhor”, sublinha.

forma especial: “Deixo as minhas filhas tirarem partido do Colete Encarnado. Gosto que elas vivam intensamente o momento”. Proveniente de uma família ligada à festa brava, espera receber ao jantar, no próximo domingo, dois familiares que marcarão presença na arena da praça Palha Blanco, durante a corrida inserida no Colete Encarnado. No seu

caso concreto e no negócio que gere diz que o Colete Encarnado não tem influência.


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O MIRANTE | 02 Julho 2009 Uma festa com cheiro a sardinha assada Rui Cabral, 40 anos, comerciante “O Colete Encarnado tem um cheiro muito intenso, a sardinha assada”, comenta Rui Cabral. O comerciante mora na Rua

do Curado, em Vila Franca de Xira, e ouve, todas as manhãs, a poucos metros de casa, os touros a serem colocados na curraletas. “O sabor da festa é de muita tradição e isso vê-se no regresso dos emigrantes a Vila Franca” naquela ocasião. Economicamente “a festa con-

Fuga à rotina do dia a dia Paulo Robalo, 46 anos, empresário Paulo Robalo, 46 anos, frequentador ocasional do Colete Encarnado, diz que as suas experiências naquela festa foram

O convívio é ponto alto da festa Vítor Vaz, 45 anos, comerciante “Gosto do Colete Encarnado, é uma questão assumida”. A confissão é de Vítor Vaz, comerciante, que visitou pela primeira

vez a festa em 1982. “É bom o convívio entre as pessoas que já há muito tempo não se vêm, que vão à festa dos touros. Gosto da animação de rua, das sardinhas”, refere. As tertúlias, nota, são “mais familiares, para os amigos, de modo que quem

A festa engrandece a cidade Dionísio Gonçalves, 50 anos, comerciante Dionísio Gonçalves, 50 anos, mora em Alenquer mas tem o seu negócio de baterias instalado na Castanheira do

tribui para animar todo o sector da restauração”, nota. No caso do seu estabelecimento, que fica na Rua Aves Redol, “as pessoas fogem da confusão, vêm para a esplanada e ficam a conviver com pessoas que não vêm há muito tempo, longe das largadas”, explica.

sempre “muito interessantes quer pelo ambiente quer pelo convívio entre pessoas. É uma fuga à rotina do dia-a-dia”. Do ponto de vista empresarial Paulo Robalo nota o efeito das festividades nos clientes que fornece. A diferença é notória “no sector da restau-

ração e hotelaria, ao nível das encomendas, durante a semana anterior ao Colete Encarnado”. Ao longo do tempo, nota-se uma “estabilidade” naqueles picos de procura, refere. Não encontra na festa elementos que considere deverem ser melhorados.

vem de fora não se sente muito à vontade”. O impacto da festa no comércio é “claro” para o comerciante, mas pondera fechar durante aquele período, uma vez que as tranqueiras das largadas irão tapar a única passagem para a sua papelaria. Ribatejo. Considera a festa do Colete Encarnado uma tradição e confessa que agora não é costume ir a Vila Franca de Xira. Quando era mais novo garante que era presença assídua na festa. “O pessoal da terra deve sentir orgulhoso uma vez que o Colete Encarnado engrandece

a cidade. Os aficionados vivem aquilo e vão todos os dias”, revela Dionísio Gonçalves. O comércio da Castanheira do Ribatejo não sente o movimento do Colete Encarnado, mas a festa faz mexer em Vila Franca de Xira. “Sobretudo os restaurantes”, conclui.

A festa mostra o que Vila Franca tem para oferecer António Pereira, 33 anos, cabeleireiro “O Colete Encarnado é uma boa razão para beber uns copos com os amigos que já não vejo há muito tempo”, diz António Pereira. Natural de Vila Franca de Xira só tem pena que a noite não dure mais tempo “Noto que ultimamente as tertúlias e os bares fecham muito cedo. Não sei se por culpa da câmara ou da polícia”, diz o cabeleireiro. No seu entender tem havido bons espectáculos musicais. Para o comércio local é uma oportunidade dos visitantes ficarem a conhecer melhor o que Vila Franca tem para oferecer. No seu caso não beneficiará com esse facto. “ Só se vierem cortar o cabelo para estarem mais bem apresentadas nas festas”, diz com um sorriso António Pereira.


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António Verdasca Júnior é o campino homenageado no Colete Encarnado O tempo aumentou a distância entre as pessoas

Manuela Alenquer, 54 anos, proprietária de restaurante Nascida e criada em Vila Franca de Xira, Manuela Alenquer, 54 anos, lembra os tempos de juventude em que “o Colete Encarnado tinha outro espírito e outra camaradagem”. A proprietária de um restaurante “gosta muito” da festa vilafranquense, mas nota que “à medida que foi chegando mais gente e aumentaram as distâncias entre as pessoas, as próprias tertúlias foram ficando mais fechadas”. A vilafranquense considera que o “Colete”, como a Feira de Outubro, é bom para o comércio porque traz mais gente, mas sugere a realização de mais eventos nos outros fins-de-semana para trazer as pessoas à cidade e atrair os que lá moram.

Público vai à festa para se divertir e não para consumir

Rosa Bela Rosado, 63 anos, comerciante Rosa Bela Rosado, 63 anos, é natural do Algarve, mas há trinta anos que se estabeleceu em Alverca. A comerciante não tem nada contra, mas confessa que nunca foi à festa do Colete Encarnado. “Não sou de paródias e de confusões. Sou muito caseira”, confessa. Está de acordo com a animação, excepto com as touradas, uma vez que não é aficionada. Quanto ao aumento de negócio do comércio local, impulsionado pela festa, a moradora em Alverca tem dúvidas. “Para haver mais negócio era preciso que as pessoas tivessem outro poder de compra que neste momento não têm. Na maior parte dos casos vão para se divertir e não para consumir”, afirma Rosa Bela Rosado.

Vila Franca distingue homem que dedicou mais de cinco décadas à campinagem Com 80 anos, 54 dos quais dedicados à “arte da campinagem”, António Verdasca Júnior recebe a homenagem durante a festa do Colete Encarnado, em Vila Franca de Xira. Dizse orgulhoso pela distinção e pela vida que levou. Jorge Afonso da Silva Tinha onze anos quando abandonou a escola. Com catorze começou a ajudar a guardar o gado da tralhoada (bois que ajudavam na agricultura) na casa onde o seu pai trabalhava. “Aos vinte e seis o encarregado lá da casa perguntou-me se queria ir para moiral dos poldros. Foi a partir daí que comecei a aprender a cavalo e esta arte”, conta o campino António Verdasca Júnior do alto dos seus oitenta anos, cinquenta e quatro deles dedicados à campinagem ribatejana. Natural de Vale de Figueira, Santarém, António Verdasca Júnior é o campino homenageado este ano durante as festas do Colete Encarnado em Vila Franca de Xira. A cerimónia está marcada para sábado, 4 de Julho, às 16h00 na Praça do Município. Apesar de já ter sido homenageado em Benavente, Samora Correia, Alcochete e Azambuja, receber o pampilho de honra – que este ano tem o nome de José Paulo Silva, campino e picador que perdeu a vida num acidente de viação quando regressava de uma corrida com Nuno Casquinha em Espanha – em Vila Franca de Xira é “uma honra” e “uma forma de reconhecimento” do seu trabalho nos campos do Ribatejo. Reformado aos sessenta e cinco anos só deixou de “estar ao serviço” quando o seu corpo começou a “queixar-se” e a ressentir-se do esforço de décadas. “Aos 72 anos larguei isto. As minhas pernas

POSTURA. Aos 80 anos António Verdasca Júniotr ainda participa nos desfiles já não prestam. Tenho duas próteses, uma em cada anca, de ter montado tantos anos. Quando andava ao serviço passava muitas horas em cima do cavalo e parecendo que não, isso escavaca muito. Já não ando a correr por aí fora porque a gente tem de se agarrar com as pernas e elas já não têm vinte anos. Têm mais sessenta em cima”, diz com um sorriso franco e largo o campino bem-humorado. António Verdasca Júnior só veste o colete encarnado, calção azul, meia branca e barrete verde, quando o convidam para as festas e lhe emprestam um cavalo como aconteceu no último fim-desemana na Festa da Amizade em Benavente em que montou

a égua Rima. O campino sempre trabalhou na casa agrícola, que hoje tem o nome de Herdeiros de Maria do Rosário Infante da Câmara. Considera que para se ser campino é preciso ter vocação. “Fiz a minha missão mais ou menos. Em todos os ofícios e artes há bons e maus profissionais Há quem seja melhor, tenha mais habilidade e inteligência que os outros”, revela num discurso coerente e humilde Verdasca Júnior. Cinquenta e quatro anos passados, desde que abraçou a arte da campinagem, olha para trás e aponta as diferenças. “Antigamente cada lavrador tinha dez ou quinze homens a cavalo. Agora só tem um ou dois. Hoje qualquer

foto O MIRANTE

moiral de toiros ou de vacas vai sempre ficar a casa e o patrão ainda lhes empresta um carro para ir e vir. Quando comecei tínhamos de ficar a dormir com os cavalos e tomar conta do gado durante a noite”, conta o campino. Orgulhoso do trabalho feito diz que sempre gostou da arte que um dia “agarrou”. Apesar disso não sente pena que os descendentes não tenham seguido as suas pisadas. “Tenho uma filha e dois netos mas ninguém quis seguir. Aliás, um ainda quis mas a gente influenciou-o a não vir para o campo. Não se ganha tão bem como um serralheiro ou um mecânico. E é uma vida dura”, confessa António Verdasca Júnior.


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Aproveitar a “estrada” do Tejo para pôr fim aos engarrafamentos Fernando Carvalho Rodrigues defende que as populações se virem para o rio

SEGURANÇA. Carvalho da Silva sugere construção de túneis em vez de pontes

O Tejo continua a ser a grande via de comunicação, defende o investigador Fernando Carvalho Rodrigues. Os engarrafamentos poderiam acabar se os carros fossem substituídos por barcos no rio. Ana Santiago “A ponte de Vila Franca de Xira está engarrafada. A Ponte Vasco da Gama está engarrafada. As pessoas estão engarrafadas sobre o Tejo. A gente esqueceu-se que a ponte entre as margens é o rio”. Quem o diz é o investigador e físico Fernando Carvalho Rodrigues, um adepto da navegação que defende que o Tejo continua a ser a principal via de comunicação. Até 1966 milhares de embarcações circulavam no rio, lembra. O especialista compara as pontes sobre o Tejo a ruas que ligam pessoas entre uma e outra margem. “Os municípios encaram o rio como um estorvo e não o vêem como uma oportunidade” diz o inves-

tigador que admite que para dar resposta ao índice de população seria necessário ter Catamarans a todos os minutos, tal como acontece em Istambul. As câmaras municipais garantem “vistas para o rio”, mas são poucas as que criam condições de acesso. Vila Franca de Xira e Alhandra, onde se pode ancorar, são dois bons exemplos do que se deve fazer, segundo o investigador. Fernando Carvalho Rodrigues aponta o dedo à falta de alternativas e diz que no dia da Marinha do Tejo, 27 de Junho, as embarcações tiveram que sair da Doca da Marinha, junto à Praça do Comércio, em Lisboa. “Se quiser chegar do Brasil num barco e atracar frente aos Jerónimos, como os navegadores portugueses, não o pode fazer entre as 12h00 e as 14h00 porque fecham para almoço e ao fim de semana também não estão lá”, ironiza. O investigador, que é também o presidente da Associação dos Proprietários e Arrais de Embarcações Típicas do Tejo, considera que não faz sentido que se construam mais pontes para ligar as duas

foto O MIRANTE

margens do Tejo. Ligações sim, mas em túnel, por baixo do rio que não coloquem em causa a segurança das populações. A associação incentiva a construção de embarcações típicas e desde 2004 já apoiou a construção de sete. A oitava está na forja. A Marinha do Tejo funciona como um museu vivo. No total são 56 embarcações típicas que não incluem os barcos que as câmaras têm ao dispor para os passeios do Tejo. A associação reivindica também a revitalização da carreira de arrais, especialistas que compreendem o rio.

No sábado Fernando Carvalho Rodrigues deixou a doca da marinha no interior da canoa “Ana Paula”, nome que homenageia a neta do primeiro proprietário do seu barco. Na cabeça levou um barrete preto onde os fragateiros, à falta de bolsos, transportavam antigamente o tabaco. Para 4 e 5 de Julho está já marcado o VII Cruzeiro / Regata Moita – Vila Franca de Xira – Moita. “A ponte de Vila Franca foi construída no tempo em que as pessoas pensavam” “A ponte de Vila Franca de Xira foi construída no tempo em que as pessoas pensavam. Quando se estudava e se ouvia quem sabe, como o Instituto Hidrográfico”. Construir mais pontes sobre o Tejo é comprar mais “morte e sofrimento”, assegura o investigador Fernando Carvalho Rodrigues. O professor considera que a terceira travessia em Tejo sobre o Mar da Palha põe definitivamente em risco as populações ribeirinhas das cidades de Lisboa até Vila Franca de Xira e do arco ribeirinho da margem sul (Alcochete, Montijo, Moita, Barreiro, Seixal e Almada). A velocidade da corrente em Vila Franca de Xira é elevada e não origina o mesmo efeito de “dique”, como acontece por exemplo na zona da ponte Vasco da Gama. O índice de assoreamento no Mar da Palha é extremamente elevado. O aumento de amplitude do estuário naquela zona provoca uma diminuição significativa da velocidade da água, que facilita a precipitação dos sedimentos que vêm em suspensão. Os cerca de 50 pilares da nova ponte, defende o investigador, vão originar igual número de ilhas cujo aumento de volume ao longo dos anos provocará um efeito de dique, potenciando a ocorrência de catástrofes como inundações das zonas ribeirinhas. Dado que os caudais no rio têm vindo a aumentar fruto da diminuição das zonas de infiltração em terra ocupadas pela malha urbana, a introdução de infra-estruturas no rio, que funcionam como obstáculos à corrente, fará crescer significativamente o nível de assoreamento, potenciando a ocorrência de inundações devido à subida da altura da água.

A composição e o Marechal Carmona No dia em que a Ponte de Vila Franca de Xira foi inaugurada, em 1951, o então menino Fernando Carvalho Rodrigues fazia uma redacção na escola sobre o Marechal Carmona - que deu nome à ligação sobre o Tejo. “Vivia em Chelas que era uma aldeia e soube-se na altura que ia ser inaugurada a ponte. Foi uma grande

festa. E eu terminei a composição como terminava outras sobre gatos: “Gosto muito do Marechal Carmona”. Mesmo sem saber quem era”, recorda. Vila Franca de Xira conseguiu a ligação rodoviária antes de Lisboa. A Ponte 25 de Abril, que chegou a ser conhecida como Ponte Salazar, abriu ao público em 1966.


O MIRANTE | 02 Julho 2009

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