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Maio de 2014 www.omensageiro.org.br

Copa no

Brasil R$ 8,90

Beleza e contradiçþes

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Capadócia

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Atenas

Viagem à

Turquia & Grécia A Turquia reserva surpresas maravilhosas para os olhos de quem viaja. Encante-se com Istambul, sua história e seus mistérios, e aventure-se por essa terra de paisagens exóticas como a fascinante Capadócia e sua exuberante arquitetura. Para tornar a viagem ainda mais mágica, conheça a apaixonante Grécia! Caminhe pela histórica capital Atenas, vislumbre as maravilhosas ilhas de Patmos e Rhodes, aprecie sua típica gastronomia e admire lentamente o maravilhoso pôr-do-sol.

16 DIAS / 15 NOITES Saída: 06 de abril de 2015

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Turquia – Istambul, Ankara, Capadócia, Konya, Éfeso (visita à casa de Nossa Senhora), Pamukkale, Kusadasi; Grécia – Patmos, Rhodes, Creta, Santorini, Atenas, Delfos e Meteora.

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Caio Vilela

SUMÁRIO

22 IGREJA & SOCIEDADE

Copa no Brasil Beleza e contradições

Crianças jogando bola – Vila Protésio Alves, Porto Alegre (RS)

Publicação periódica da Associação Antoniana dos Frades Menores Conventuais. Rua América do Sul, 235 CEP 09270410 Santo André, SP. CNPJ 53.722.229/0001-04. Ligada à Província Padovana Frati Minori Conventuali e Messaggero di S. Antônio Basílica del Santo 35123 Padova - Itália. Reservam-se todos os direitos de reprodução. Com aprovação dos superiores. Registrada no Primeiro Registro Civil de Pessoas Jurídicas de Santo André, SP. Microfilme sob nº 69174 aos três de novembro de mil novecentos e oitenta e oito. DIRETOR RESPONSÁVEL

Frei Gilson Miguel R. Nunes Diretor e Redator

Frei Wilmar Villalba Ortiz William Medeiros

4 Editorial

E o papa sorriu!

5 BUSCANDO

VERDADEIRAMENTE A DEUS

Pegue seu filho, ame sua esposa!

10 Theoblog

42 “O papa sorriu” ESPECIAL

46 TESTEMUNHAS DO REINO

14 CATEQUESE LITÚRGICA 16 REPORTAGEM

Maria, santos e anjos – Entre veneração e adoração

21 CERTAS PALAVRAS

Maria, modelo de discípulo e educadora da fé

28 A Igreja na história

A perseguição aos religiosos e a supressão dos jesuítas

32 Evangelhos

Dominicais Comentados

37 evangelizar é preciso Maria é quem nos ensina a viver e a sofrer

38 MARIOLOGIA

Como tudo começou com Maria de Mateus

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Alessandra Biral

EQUIPE DE DIVULGAÇÃO

Frei André Beghini Vilela Frei Arnaldo Cesar Rocha Frei Eduardo José da Silva Toledo Frei Felipe Vitor de Lima Torres Frei Roberto Fortaleza de Sousa IMPRESSÃO

Gráfica Oceano

PROJETO GRÁFICO

Contato virtual versus contato real

Revisão

Bernardete Melo Fábio Galhardi Leiriane T. Corrêa Silvia Valim

Idolatria, seus fantoches e ventríloquos O afeto filial e a oração litúrgica

José Roberto de Queiroz

Repórteres

Humildade – O caminho para a alegria da Salvação

8 SANTO ANTÔNIO HOJE

gerente comercial

Padre Cícero Romão Batista

Ricardo Cruz

TIRAGEM – 23 mil exemplares

DESENVOLVEDORA WEB

ISSN 2178-3721

Assistente de arte

Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores, não expressando necessariamente a opinião da revista.

Fábia Limeira

Letícia Somensari Colaboradores

55 com a palavra

Pe. Antônio José de Almeida Pe. Antônio Sagrado Bogaz Dom Bernardo Bonowitz Frei Danilo Salezze Fernando Altemeyer Júnior Fernando Ikoma Francisco Borba Ribeiro Neto Frei Jacir de Freitas Faria

A era da excrescência

Revista

50 MOMENTO LITÚRGICO

pe. zezinho, scj

56 ENTENDENDO A BÍBLIA Madalena – prostituta sem nunca ter sido

60 os dois livros de deus

O debate sobre ciência e fé na América Latina

62 IGREJA & COMUNICAÇÃO

Pe. José Alem José Tarcísio de Castro Irmã Lina Boff Marcio A. Campos Michele Evangelista Moisés Sbardelotto Pe. Reginaldo Manzotti Pe. Valeriano dos Santos Costa Pe. Zezinho

Correspondências: Caixa Postal 200 CEP 09015-970 Santo André - SP

Facebook /OMensageiroSantoAntonio Twitter @o_msa

O MENSAGEIRO DE SANTO ANTÔNIO Ano 58 – MAIO de 2014 – nº 574 (11) 4472-5843 / 4475-1003 omensageiro.org.br omensageiro@omensageiro.org.br

PUBLICIDADE – comercial@omensageiro.org.br PRÊMIOS

Diretório de Comunicação da Igreja do Brasil

64

HISTÓRIAS DA BÍBLIA COM SANTO ANTÔNIO

Assinatura ou renovação

66 espaço do leitor

Disponibilizamos um número 0800 (ligação gratuita) cujo número está disponível no site www.omensageiro.org.br

Ligue: 0800-771-8252

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assinatura anual

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S

egundo uma das definições presentes nos dicionários, humor é um estado de ânimo cuja intensidade representa o grau de disposição e de bem-estar psicológico e emocional de um indivíduo. Na Grécia Antiga, esse vocábulo representava qualquer um dos quatro fluidos corporais que se consideravam responsáveis por regular a saúde física e emocional humana. O humor é uma das chaves para a compreensão de culturas, religiões e costumes das sociedades em um sentido amplo, sendo elemento vital da condição humana. O homem é o único animal que ri e, através dos tempos, a maneira humana de sorrir modifica-se, acompanhando os costumes e as correntes de pensamento. Em cada época da história humana, a forma de pensar cria e derruba paradigmas, e o humor acompanha essa tendência sociocultural. Santo Tomás de Aquino (1225-1274) afirmava que “o humor é necessário para vida humana”, sendo um “bem útil”, fazendo uma analogia entre o sono e o humor. Por exemplo, quando ficamos privados do sono, nós nos tornamos irritadiços e distantes, ao passo que, quando temos uma noite bem-dormida, temos nossa disposição restaurada. Aqueles pouco afeitos ao humor e ao riso sempre os veem com algo perigoso, imoral, agressivo ou inoportuno. Em seu aclamado romance O Nome da Rosa, o escritor italiano Umberto Eco (1932-) retrata um episódio ocorrido em um mosteiro italiano durante a Idade Média (século XIV). Nesse lugar, o riso era considerado por alguns religiosos como algo proibido, já que era visto como pecaminoso. Tal pensamento fez que, na biblioteca do mosteiro, se ocultasse um livro que tratava justamente do riso, o que ocasionou uma série de mistérios e mortes.

Ainda hoje, há alguns grupos religiosos que encontram muita dificuldade em lidar com o humor, considerando-o, muitas vezes, blasfemo, imoral e inoportuno. Por isso, é necessário saber distinguir a ironia (simulação sutil de dizer uma coisa por outra) e a sátira (corrosiva e implacável, utilizada para rir de costumes) do humor (determinado essencialmente pela personalidade de quem ri, fazendo que não haja jogos ou os limites imediatos de sanção moral ou social). Trata-se, portanto, de uma categoria intrinsecamente enraizada na personalidade, tornando-se parte dela e até mesmo definindo-a. É por isso que se diz “há tantos humores como humoristas”. Dito tudo isso, quando é lançada uma mostra no Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS/SP) e, consequentemente, um livro com charges sobre o papa Francisco (1936-), pode se dizer que, como o título da mostra, o papa sorriu! O ar jovial trazido pelo pontífice à Igreja (vista de fora como uma instituição sisuda, pouca afeita a sorrisos e humores) atinge com tal intensidade pessoas acostumadas à sátira e à ironia ao retratar de forma bem-humorada a figura carismática do papa, expô-las em uma mostra e de fazer o próprio papa sorrir diante das obras apresentadas. Sinal de novos tempos na Igreja? Talvez seja apenas a confirmação, para os de fora, de que, sim, a Igreja sabe rir e aprecia as coisas benfeitas! No Especial deste mês, confiram o trabalho feito por cartunistas e chargistas sobre o papa Francisco, exposto no MAS/SP. Assim como o papa sorriu, sorríamos também nós! Uma excelente leitura a todos! Frei Wilmar Villalba Ortiz

(Parte 5)

E o papa sorriu!

O caminho para a alegria da Salvação

Frei Wilmar Villalba Ortiz Diretor

Humildade

Arquivo MSA

EDITORIAL

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Ecce Homo (1605), Caravaggio

BUSCANDO VERDADEIRAMENTE A DEUS

Imitando o Senhor

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(Parte 5)

terceiro grau da humildade é um dos mais breves e vale a pena citá-lo em sua integridade: “O terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se submeta o monge, com inteira obediência, ao superior, imitando o Senhor, de quem disse o Apóstolo: ‘Fez-se obediente até a morte’”. Caso tenha lido os artigos anteriores, você perceberá imediatamente que, com esse passo, entramos em um ambiente espiritual inteiramente novo. Para a pessoa que viveu o primeiro grau, Deus era uma “atmosfera”, uma “consciência” que permeava todo o Universo e capturava tudo e cuja onisciência era um tanto perturbadora. Ele era como aquele olho

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BUSCANDO VERDADEIRAMENTE A DEUS no topo da pirâmide nas notas de um dólar dos Estados Unidos, que nunca se fecha e que incessantemente observa tudo. Para a pessoa vivendo o segundo grau, Deus era experimentado como uma lei interior, aquilo que São Paulo (5-62) chama de “lei da minha razão” e que os teólogos comumente descrevem como a “lei natural” e que nós, pessoas comuns, simplesmente chamamos de “consciência”. O homem que estava nesse grau descobriu que essa lei não é opressiva. Ela era suave, silenciosa e cuidadosamente o orientava para fazer o bem e evitar o mau. Tratava-se de uma vontade divina confiável pela qual você podia deixar sua vontade humana ser guiada, assim como uma mulher deixa um homem conduzi-la ao dançarem juntos ou como os músicos espontaneamente deixam o maestro da orquestra conduzi-los. Aqui, no terceiro grau, Deus metamorfoseia-se naquilo que Ele mais verdadeiramente é: uma “pessoa”. Uma pessoa não é uma “nuvem” que tudo sabe, nem é uma voz interior que nos direciona para conhecer e fazer a verdade. Certamente, Deus “é” onisciência e a voz santa dentro de nós. Mas aqui Ele se torna algo infinitamente mais para nós: Ele se torna “alguém”, o próximo, um ser com quem entramos em relação, alguém com quem temos uma história partilhada. Acima de tudo, somos pessoas, e aquilo que buscamos o tempo todo são outras pessoas, outra pessoa, aquela outra pessoa por meio da qual e em relação a quem posso me tornar “eu”. E, no terceiro grau da humildade, encontramos tal pessoa. Misteriosamente, acabou sendo a última pessoa em quem pensaríamos. Acabou sendo o próprio Deus. Após lermos o texto, descobrimos que essa relação consiste em “amor” e “obediência”. Vemos que, de longe, o mais importante dos dois termos é “amor”. Isto não é abstração de nossa parte. O texto realmente diz que o amor se torna a força motivadora na relação do monge (ou de qualquer cristão) com Deus e que a obediência é a vivência concreta deste amor. Toda a Bíblia e a tradição cristã subsequente têm afirmado consistentemente que a obediência genuína é uma realidade “mística”, que o ser humano que obedece a Deus, desde Abraão até Jesus e até o mais recente santo canonizado (ou não canonizado), está agindo a partir de um

Deus metamorfoseia-se naquilo que Ele mais verdadeiramente é: uma ‘pessoa’. Uma pessoa não é uma ‘nuvem’ que tudo sabe, nem é uma voz interior que nos direciona para conhecer e fazer a verdade. Certamente, Deus ‘é’ onisciência e a voz santa dentro de nós. Ele se torna ‘alguém’, o próximo, um ser com quem entramos em relação, alguém com quem temos uma história partilhada” amor não forçado, um amor por Deus que é oriundo do interior de seu ser, um amor próprio aos amigos de Deus. A espiritualidade bíblica entende que uma obediência extorquida é uma obediência imprestável. Se obedecemos verdadeiramente a Deus, é porque O amamos e confiamos que Seus mandamentos significam vida para nós – plenitude da vida, mesmo se o caminho para esta plenitude passa pela morte, como de fato acontece na passagem de Filipenses citada nesse terceiro grau. Mas o que quero saber é: como a pessoa passa “daqui” para “lá”, do Deus que ela temia no primeiro grau e que respeitava no segundo para o Deus que agora ama no terceiro grau? A resposta pode ser expressa na exclamação do discípulo amado a São Pedro (1 a.C.-67 d.C.) na manhã de Páscoa, quando viram Jesus ressuscitado

às margens do lago, “É o Senhor!” Se prestar atenção no texto no início do artigo, você perceberá que as atitudes e as ações da pessoa são realizadas imitando o Senhor. Bom. Mas, como e quando é que Ele passou a fazer parte? Você vai se lembrar de que estamos falando sobre uma viagem da humildade e Jesus Cristo é sempre dado a nós, revelado a nós, no decorrer de uma viagem da humildade. Deixe-me tentar explicar, a partir de um dos primeiros e mais famosos exemplos deste processo. Voltando ao primeiro grau da humildade, lembramo-nos de que Deus é o observador onisciente e o juiz de nossos pensamentos, de nossas palavras e de nossas ações. “Deus... volta os olhos para o mundo, seu olhar penetra os homens” (Sl 10[11]). Mas Deus não é um pesquisador desinteressado das variedades do comportamento humano. Ele é juiz não apenas como alguém que pondera, pesa e conclui, mas sim no sentido mais sério; Ele é juiz como aquele que, considerando com perfeita justiça o decurso de toda nossa vida, ou nos elevará até a comunhão eterna com Ele nos céus, ou nos lançará no afastamento eterno d’Ele... “lá” (Quando eu tinha doze anos, meu pai, que tinha seu lado puritano, me proibiu de tomar o papel principal em uma apresentação na escola porque o ator tinha de dizer a palavra “inferno”. Ele disse: “Nenhum filho meu vai dizer palavrões em público!” Em consequência, cinquenta anos depois, eu ainda acho difícil dizer “inferno”). Podemos gostar ou não do “poder moderador” de Deus, mas Ele está lá. No segundo grau, vimos a tremenda ajuda que Deus nos oferece para levar uma vida que se conforme às normas da justiça; como que, a partir da “lei da nossa razão”, Ele está continuamente nos inspirando e nos fortalecendo para fazer aquilo que é certo e justo, se deixarmos essa lei fazer sua morada em nós. Mas não é tão simples assim, e aquele que torna isto classicamente claro é São Paulo. Ele está consciente de que a lei de Deus vive em sua mente e o instrui infalivelmente acerca do bem a ser feito e do mal a ser evitado, a fim de se herdar a vida eterna. O problema, diz São Paulo, é que essa lei divina não é a única lei dentro de mim. Quem me dera que fosse! Não; há outra lei muito ocupada em atuar dentro de mim, a “lei do pecado”, como São Paulo a chama, ou

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“a lei dos meus membros”; essa lei, queixa-se o apóstolo, constantemente me impele não para o bem que eu quero, mas para o mal que eu não quero. Em termos de comportamento, então, essa lei interior, por mais bela que seja, é em grande parte ineficaz. Eu possuo uma apreciação intelectual do bem, mas, nas ações de meu dia a dia, eu me entrego ao mal. E São Paulo entende perfeitamente: Deus não vai me julgar na base da minha apreciação intelectual, mas com base na minha vida vivida. Nesse caso... “Será que não tem jeito de sair deste apuro?”, resmunga São Paulo. E, imediatamente depois, ele proclama exultante: “Sim, graças a Deus, tem. A saída para meu dilema é Jesus Cristo, meu Senhor”. Há aí um resumo de um dos mais importantes veios da teologia paulina.

O homem deve obedecer à lei justa de Deus. O homem possui dentro de si a luz divina para reconhecer as demandas da justa lei de Deus; ele possui a lei escrita de Moisés para explicitar as exigências da lei de Deus e possui o auxílio da graça para cumprir a lei de Deus. Mas, apesar de tudo isso, o ser humano por si mesmo não consegue viver segundo a santa lei de Deus. Essa força contrária, essa lei do pecado, o bloqueia, o frustra, o vence. É uma grande humilhação descobrir que não se é capaz de fazer aquilo que a própria consciência reconhece como a coisa certa. É uma grande humilhação descobrir que se é, naquilo que diz respeito ao fazer, um “escravo comprado do pecado”. É uma grande humilhação descobrir que se é incapaz de obedecer a Deus, aquele Deus

Dom Bernardo Bonowitz, OCSO

Arquivo pessoal

Cristo crucificado, detalhe (c. 1632), Diego Velázquez

Deus lhe envia o Seu filho, Jesus Cristo, que ‘por amor fez-se obediente a Deus até a morte’ (terceiro grau da humildade) e que, paciente e poderosamente, ensina São Paulo, através de Seu Espírito, a imitá-Lo”

que se desejaria verdadeiramente obedecer, não somente porque Ele é poderoso, mas porque é santo e bom. Mas é assim que as coisas são. Das profundezas dessa humilhação, São Paulo grita por um Salvador, alguém que possa obedecer a Deus em seu lugar (“Que cumpra as justas exigências da lei”, como ele diz) e que então, por seu poder, possa capacitar o apóstolo a também obedecer pessoalmente a Deus. Deus tem compaixão da honestidade da humilhação de São Paulo e do céu lhe envia um Salvador. Ele lhe envia o Seu filho, Jesus Cristo, que “por amor fez-se obediente a Deus até a morte” (terceiro grau da humildade) e que, paciente e poderosamente, ensina São Paulo, através de Seu Espírito, a imitá-Lo (o apóstolo ensina a amar eficazmente a Deus e a encarnar Seu amor todos os dias em obediência à santa vontade de Deus). Se não se sentisse profundamente humilhado por sua incapacidade radical em cumprir os mandamentos que, em vão, queria cumprir, ele não teria gritado a Deus por um Salvador. Jesus Cristo é a resposta de Deus para o grito de socorro de São Paulo. E, porque todos nós somos filhos e filhas de Adão e vivemos a mesma situação existencial, Jesus Cristo é a resposta de Deus para nosso grito de socorro também. Por Seu amor e Sua obediência sem medidas, Jesus transforma nossa relação com Deus de frustração e ansiedade em amor e obediência, em amizade e filiação. Agora todos conhecem a verdadeira história por trás de como o monge anônimo que está subindo a escada da humildade passou do segundo para o terceiro degrau. É bom que nós o saibamos, visto se tratar de nossa história. E é uma história maravilhosa: como, contra toda expectativa, nossa incapacidade de obedecer a Deus, em vez de trazer a condenação sobre as nossas cabeças, trouxe-nos um Salvador e um “transformador”. E agora? Amar e obedecer a Deus até a morte? Não, mas sim para muito mais tempo do que isso. Para sempre. Igual a Jesus.

Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, Campo do Tenente (PR) O Mensageiro de Santo Antônio Maio d e 2 0 1 4

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SANTO ANTÔNIO HOJE

Pegue seu filho, ame sua esposa! “Então a criança, não gaguejando como fazem os pequeninos, mas com voz clara como se fosse um menino de dez anos, fixando os olhos no pai, disse: ‘Eis aí, este é o meu pai!’ E, dirigindo-se ao homem, o santo acrescentou: ‘Pegue seu filho e ame sua esposa que é honesta e merece todo seu reconhecimento.’” (De uma antiga biografia de Santo Antônio)

O

peregrino que se dirige à restaurada capela em que repousa Santo Antônio de Pádua e Lisboa (1195-1231) pode ver nove esplêndidos altos-relevos de 1500, retratando uma sintética biografia de santidade e uma

verdadeira catequese, oferecida a todos quantos se aproximam de nosso santo. As cenas retratam-no na apaixonada missão de apresentar Deus e ser Seu mediador na surpreendente misericórdia nos casos menos imaginados, para homens e mulheres oscilantes entre os elevados valores do Evangelho e a grave situação humana. A última, obra do escultor Tullio Lombardo (1460-1532), substituindo um antigo afresco medieval com o mesmo tema, uma criança recém-nascida desatou a própria língua para proclamar a inocência da mãe falsamente acusada de infidelidade pelo esposo e para retratar um pai orgulhoso e talvez dissimulado. Uma cena que, no mármore, aparece bem composta, em estilo clássico, mas cujo drama é forte e palpável. Todas as antigas biografias concordam em colocar Santo Antônio continuamente no meio do povo (pelo que parece

não ficava esperando na igreja) em contato com os problemas corriqueiros, com os tormentos do coração humano que continuamente destrói e constrói o próprio bem, mesmo lá onde moram os afetos e os deveres mais importantes como a família. E muitos sãos os dons (os “milagres”) do santo em favor da família, lugar em que se jogam os mais belos desafios em favor da vida. Santo Antônio conhecia bem a fragilidade das famílias e seu potencial, bem como seus riscos e seus pontos vulneráveis, ele, que teve a graça de crescer serenamente em Lisboa (Portugal), com a mãe, Maria Teresa Taveira, e o pai, Martinho de Bulhões, até a idade da vocação. Aqui Santo Antônio estava às voltas com um senhor de certa nobreza, que “duvidava” que o menino fosse seu filho. Isso deu vazão a um drama que as crônicas de todos os tempos conhecem e que nem a moderna comprovação

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Santo Antônio e o milagre do recém-nascido que atesta a inocência da mãe, Giorgio Trevisan

a dor e a decepção de tantas mães enganadas e solitárias. “Minha pequena Sara foi desejada por seu pai só para obter a cidadania italiana e depois se mandar...” E ainda: “Eu mesma, e não só seu pai, recusei Júlia quando nasceu. Além disso, eu a considerava como uma irmãzinha de que outros cuidavam”. Ela estava me dizendo que até uma mãe aprende a reconhecer seu filho. Com efeito, “só depois de sete meses senti meu filho como meu filho mesmo!”, acrescentou Paula, “quando pela primeira vez tive a alegria de fazê-lo dormir em meus braços”. Vivi momentos de emoção na partilha com esses pais e não gostaria de comentar mais, porque me pareceria banalizar. Para mim, essa foi uma oportunidade de perceber melhor a atualidade daquele: “Pegue seu filho e ame sua esposa!”, válido tanto nos tempos difíceis em que Antônio pronunciou, quanto também nos dias de hoje! Arquivo Il Messaggero

genética de DNA poderia resolver de maneira verdadeiramente racional. Pode parecer estranho que, diante de uma vida que floresce, tanto hoje quanto ontem, produzam-se atitudes de renegação, de falso moralismo hipócrita, de fuga da responsabilidade. Por qual razão um filho pode tornar-se um álibi e até (embora em forma sutil e mascarada) uma arma imprópria contra o próprio parceiro? Eu quis colocar-me diante dessa cena com um grupo de mães e pais que estão experimentando uma nova genitorialidade em nossa Comunidade São Francisco, depois de um período de vida caracterizado pelo uso de drogas e inconsequente estilo de vida. Pedi a ajuda deles para compreender de modo o mais existencial possível o ensinamento de Santo Antônio. “Uma criança entende quem é seu pai”, disse Ana, uma das participantes. Devo dizer que tal afirmação me deixou desconcertado, talvez porque aluda àquele “perfume relacional” que revela a verdade dos vínculos para além de qualquer pesquisa e que uma criatura inocente sente imediatamente ao redor de si. “Eu o amaria, em todo caso”, afirmou Oscar. “É uma criança e você não pode ‘dar para trás’; ela precisa de amor!” Há, porém, também quem viveu

Frei Danilo Salezze, OFMConv Ex-diretor da revista Messaggero di Sant’Antonio (Itália)

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THEOBLOG

deviantart.com

Idolatria, seus fantoches e ventr铆loquos

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F

alsificar Deus sempre foi a fracassada tentativa de idólatras. Muitas vezes, isso foi identificado com uma mera reprodução de imagens de barro ou argila. O ídolo maligno manipularia as consciências de forma tão explícita? Temo que não e creio que haja razões para duvidar dessa visão superficial e errônea. Sabemos que a idolatria é complexa, difícil de ser decifrada e, que adquire formas sofisticadas, subterrâneas e até estruturais. Formas invisíveis a olho nu. São necessários instrumentos adequados para saber como e onde um ídolo age. Quem o ídolo transforma em fantoche? Como suga e aniquila a liberdade dos humanos coisificando as pessoas? Algumas vezes, sabemos desnudar e quebrar o ídolo por conta do que ele produz de mal e maldito, tal qual o pequeno touro de ouro do tempo de Moisés (cf. Ex 32,4). Ídolos nunca poderão exprimir a fé em Deus, pois ela é sempre em favor da vida plena e autêntica. É preciso profundidade, sagacidade e inteligência criativa para não cair nas armadilhas plantadas pelo mal e pelos maldosos a serviço dos ídolos. Cuidar para não ser instrumentalizado por ventríloquos que manipulam pessoas sem fios visíveis, mas que enfeitiçam as mentes e produzem mentira em lugar da verdade.  Em geral, podemos dizer que hoje as idolatrias se identificam com os totalitarismos e com a negação da dignidade humana. Tudo e todos os que se apresentam como deuses negam o Deus verdadeiro. Tudo e todos os que negam e desfiguram as pessoas humanas pretendem desfigurar o Deus vivo e verdadeiro. Assim idolatria se torna sinônimo de ideologia totalitária, e esta pode se assumir como o mercado, o sistema econômico, o pensamento nazista ou fascista, o totalitarismo stalinista ou mesmo a doentia ideologia de segurança nacional que tanto mal cometeu na América Latina usando da tortura e das ditaduras cívico-militares, ao adestrar grupos humanos, a imprensa e, sobretudo, ao reduzir a cidadania ativa à paralisia. Somos chamados a compreender os novos

É possível discernir Deus verdadeiro de deuses falsos. O Deus vivo dos deuses mortos. Um Deus distinto dos ídolos. O culto verdadeiro da idolatria. Onde Deus está, aí está o amor. Onde há injustiça, mentira e morte, há o domínio do ídolo e de seus sequazes. Onde se faz memória das cruzes dos sacrificados, há Deus. Onde se semeia violência e medo, colhem-se frutos do mistério da iniquidade. Deus é sempre pai dos órfãos, é sempre advogado dos pobres, é sempre amparo dos últimos da terra, pois Deus é o Deus dos pequenos e os ama como mãe mecanismos e as armas ideológicas que produzem a morte e a violência em nossas sociedades e enfrentar com a mensagem vital do Evangelho, pois os seguidores de Jesus estão dispostos a colocar à prova sua fidelidade ao Deus único e verdadeiro confrontando e desmontando as mentiras criadas e sustentadas pelos ídolos modernos. Objetos usam pessoas O povo judeu ensinava suas crianças que era preciso estar atento aos criadores de imagens idolátricas (eidolon = ‘imagem’, em grego), pois muitos se punham a adorar peças e objetos feitos por mãos humanas como se estes fossem a própria divindade. Pior do que adorar religiosamente, assumem ser servos e escravos dos ídolos e de

seus sacerdotes. Para os judeus, Deus era único e não representável por figuras humanas para evitar a arrogância e a domesticação da religião em torno das falsificações. “Deus não pode ser domesticado”.1 Essa luta contra os deuses falsos chamados de “baais” exigia fidelidade diária ao Deus vivo e verdadeiro e a Seus preceitos em uma aliança permanente. A Bíblia Sagrada insiste na vacuidade daqueles que pretendem ocupar o lugar de Deus: “Seus ídolos são prata e ouro, obra de mãos humanas: têm boca e não falam, têm olhos e não veem, tem ouvidos e não ouvem, têm nariz e não cheiram, têm mãos e não tocam, têm pés e não andam, sua garganta não tem voz. Sejam como eles quem os fabrica e todos os que neles confiam” (Sl 115[114],4-8). Tais objetos e criações ideológicas e culturais são limitados e redutores do humano, pois não conseguem atingir o coração humano para ouvi-lo e abrir uma porta para a transcendência. Há alguns passos para enfrentar a idolatria. O primeiro e mais decisivo é assumir que é o Espírito de Deus quem governa nossas vidas e a história, dando sentido e razão à existência, e não só as forças da matéria ou dos ciclos da natureza. Dessa forma, quando deixamos o Deus da vida governar nosso viver, focamos no ponto mais alto da verdadeira adoração: o único Deus em Seu amor transbordante. Assim dizia um místico anônimo do século XIV: “É também conveniente que o homem, a mais digna das criaturas de Deus, não ande vergado para baixo, como os outros animais, mas se conserve ereto, voltado para o Céu; porquanto, o homem deve reproduzir fisicamente a atividade espiritual da alma, que se orienta para o alto, não para baixo”.2  O segundo passo, tão vital quanto o primeiro, é identificar com clareza meridiana os lugares onde Deus mesmo se faz presente e dialoga com o ser humano. Podemos chamar este momento de teofânico (Deus que se manifesta em Sua criação e em Suas obras) e assim perceber, ao longo da vida, momentos especiais em que os vestígios de Deus e de Sua presença se revelam na natureza, no cosmos, nos outros e no decorrer do O M e nsa n s a g e i rroo d e S anto a n t o A nt ntônio Maio d e 2 0 1 4

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THEOBLOG falsas concepções de Deus, pois nos tornamos amigos do Deus vivo que garante aos seus: “Eu o protegerei, pois conheceu o meu nome” (Sl 91[90],14).   Onde reina o amor, Deus aí está   É possível discernir Deus verdadeiro de deuses falsos. O Deus vivo dos deuses mortos. Um Deus distinto dos ídolos. O culto verdadeiro da idolatria. Onde Deus está, aí está o amor. Onde há injustiça, mentira e morte, há o domínio do ídolo e de seus sequazes. Onde se faz memória das cruzes dos sacrificados, há Deus. Onde se semeia violência e medo, colhem-se frutos do mistério da iniquidade. Deus

Associated Press

tempo de nossa vida, sempre de forma gratuita e bela. Em seguida, estaremos aptos para os momentos epifânicos (o Sagrado que aparece e explode dentro de nós) em nosso viver. Esse nosso Deus vivo se manifesta na mente, no corpo e nos fatos pessoais indecifráveis e misteriosos, como um verdadeiro amigo. Sabemos que há Alguém conosco e por nós. Enfim, pela fé na Igreja e como Igreja, viveremos os momentos cristofânicos na vida dos sacramentos, da Palavra e da Ressurreição proclamada e celebrada em comunidade. Assim vivendo e praticando Deus, nós nos afastamos de objetos, de fios manipuladores e de alienações da verdade e da justiça. Somos capazes de criticar

Quem despreza e mata aos pobres, aos indígenas, aos camponeses, aos jovens, às crianças atinge diretamente ao Criador e nega Deus. Faz-se idólatra por destruir a criatura amada por Deus. Faz-se sistema idolátrico tal qual o atual capitalismo absolutizado e todos os regimes ditatoriais que transformaram lucro e Estado em deuses, e os cidadãos em inimigos e escravos

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Multidão saúda o ditador Adolf Hitler nas ruas de Munique, na Alemanha, em novembro de 1933

a estratégia tornam-se a única realidade e a resposta a tudo. Por causa disso a Doutrina da Segurança Nacional escraviza os espíritos e os corpos. E ameaça todo o Ocidente”.3  A ação histórica de Deus que faz uma opção preferencial pelos esquecidos, pelos desprezados e pelos subalternos de todos os sistemas econômicos e políticos enfeitiçados será sempre o fio de prumo que julga o mundo e a humanidade. Os cristãos professam a fé e a proclamam em seus credos trinitários, afirmando com suas vidas, um hino de louvor ao Deus vivo e verdadeiro. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, negam os outros deuses  “esquecidos”, ou melhor,  “encobertos”  e disfarçados sob manto divino, mas que são falsos, pois matam. Muitas vezes, quem desnuda e desmonta os deuses encobertos são os mártires com sua morte e seu sangue derramado. Sempre é possível decidir: ficar ao lado de Jesus ou de Pilatos? Ficar ao lado dos verdugos ou das vítimas? Diante do martírio, esses deuses se manifestam mostrando suas garras e assim podem ser descobertos e negados por aqueles mesmos que antes estavam enfeitiçados e manipulados tal qual fantoches. Assim diz o teólogo Jon Sobrino (1938-): “Ídolos são realidades existentes, que oferecem aparente salvação, exigem um culto e uma ortodoxia, mas efetivamente desumanizam àqueles que lhes rendem culto, e, pior, necessitam de vítimas humanas para subsistir”.4 Basta, portanto, a cada um de nós a tarefa evangélica de verificar em nossas cidades quem está sendo morto ou aniquilado em holocausto aos ídolos, e ali temos os verdugos e serviçais do ídolo. Pensamos em moradores de rua, presos, indígenas, mulheres violentadas e abusadas, apátridas e imigrantes segregados, e, sobretudo, nas crianças e povos aniquilados por grandes potências imperialistas. São os que continuam enfrentando os dragões de outrora (cf. Ap 12).

Assim como há uma luta de deuses, há uma luta entre os crentes em Deus e os manipuladores de pessoas. Há confronto entre uma religião que defende a vida dos pobres e a religião de charlatães que vivem do sangue de pobres ofertados no altar da injustiça. Seguir a Deus é viver uma fé anti-idolátrica. Isso quer dizer que nem tudo é permitido moralmente e que nem tudo é possível, como proclamam os profetas dos ídolos totalitários. Ninguém pode mais esconder a ditadura totalitária e mortal de Joseph Stalin (1878-1953), assim como nunca mais esqueceremos o genocídio infernal de Adolf Hitler (1889-1945) e de seu aliado Benito Mussolini (1883-1945). Não podemos perder o sentido da vida e do mundo em que vivemos, para sermos fraternos. Sem isso, tudo se banaliza, até o mal extremo. Contra o ídolo que banaliza o mal, só o antídoto da liberdade pessoal e da dignidade humana que enaltecem o amor, poderão abrir horizontes de esperança. Horizontes que só o Deus vivo pode oferecer, pois “Deus exterminou no meio de ti todos os que seguiam o ídolo de Fegor; mas vós, que vos apegastes ao Senhor vosso Deus, estais hoje todos com vida” (Dt 4,3-4). Referências MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? 5. ed. Belo Horizonte: Veja, 1976. p. 55. A nuvem do não saber. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 160-161. 3 COMBLIM, Joseph. A ideologia da segurança nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 17. 4 SOBRINO, Jon. Una teologia del martírio. In: ______. Cambio social y pensamento cristiano em América Latina. Madrid: Trotta, 1993. p. 117. 1

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Fernando Altemeyer Junior

Arquivo pessoal

é sempre pai dos órfãos, é sempre advogado dos pobres, é sempre amparo dos últimos da terra, pois Deus é o Deus dos pequenos e os ama como mãe. Quem despreza e mata aos pobres, aos indígenas, aos camponeses, aos jovens, às crianças atinge diretamente ao Criador e nega Deus. Faz-se idólatra por destruir a criatura amada por Deus. Faz-se sistema idolátrico tal qual o atual capitalismo absolutizado e todos os regimes ditatoriais que transformaram lucro e Estado em deuses, e os cidadãos em inimigos e escravos. “A doutrina da segurança nacional é uma extraordinária simplificação do homem e dos problemas humanos. Em sua concepção, a guerra e

Departamento de Ciência da Religião, PUC-SP fajr@pucsp.br

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CATEQUESE LITÚRGICA

O afeto filial e a oração litúrgica

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prece litúrgica tem seu modelo nas orações do Missal Romano. O que a Igreja reza e como reza ao longo dos anos é uma boa pergunta. Nas orações devocionais, o fiel tem o direito de pedir a Deus o que lhe convém, mas sabe que deve respeitar a vontade d’Ele, que nem sempre coincide com a nossa. Porém o que Deus gostaria que Lhe pedíssemos? Os cristãos primitivos tinham convicções claras de que o afeto filial deve ser um objeto constante de nossas orações. Por isso, já no século V, temos orações parecidas com a oração do dia da quartafeira do Quinto Domingo da Quaresma, que diz: “Ouvi com paternal bondade aqueles a quem dais o afeto filial”. Aparecem aí dois elementos que interagem na relação entre

Deus e o homem: de um lado, está o Pai bom e, do outro, do filho que recebeu como dom o afeto filial. É nesse ponto que gostaria de desenvolver a reflexão. Ao falar de amor, estou tratando do sentimento mais profundo que rege o ser humano, como parte intrínseca da sua natureza. Por isso, quando, na Última Ceia, ordenou aos discípulos que se amassem mutuamente, Jesus deixou bem claro que não estava falando do amor humano, pois este brota dos fatores múltiplos que determinam os nossos sentimentos. Por causa da complexidade, tais fatores podem mudar a qualquer momento e dar nova direção aos afetos. Por isso, Jesus estava falando do mesmo amor que Ele, o Filho amado, recebe eternamente do Pai. Esse amor, o Cristo partilhou com os discípulos e com todos os que Lhe pediram ajuda. Na cruz, o amor divino foi partilhado com todos os seres humanos, pelos quais Ele entregou a vida sem reserva. Antes de morrer, Cristo ordenou: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”

(Jo 15,12b). Só podemos amar o próximo como Jesus amou se tivermos o mesmo amor que Ele tem, porque o recebe como dádiva do Pai. Então Jesus nos mandou amar o próximo com o amor que nos é doado pelo Espírito Santo. Essa é a explicação porque sem Deus não conseguimos amar. Santo Agostinho de Hipona (354-430) chama o Espírito Santo de o próprio amor de Deus, que nos é doado nos sacramentos. Portanto, Jesus é o Filho amado. São Paulo, algumas vezes, simplesmente chama Jesus de “o Amado”, como podemos averiguar em Efésios 1,6. Essa é a condição natural que caracteriza a Pessoa de Jesus, o Amado, como gosta de dizer o Apóstolo Paulo (5-67). Ser filho significa ser amado, mas também sentir-se amado. Em Jesus, as duas coisas são perfeitas; em nós, não. Que somos amados com o mesmo amor que o Pai dá eternamente ao Filho, isso até sabemos. No entanto,

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Cristo lavando os pés dos discípulos (c. 1520), Benvetuno Tisi

sentirmo-nos amados é outra empreitada que caracteriza a estrutura central da pessoa. Com isso, quero dizer que o afeto filial (a que se refere a liturgia) nada mais é do que o sentimento saboroso de ser profundamente amado. Já abordei o amor como um critério central da liturgia da Igreja. Mas nunca é demais voltar ao tema, sobretudo porque é isso que ilustra a oração litúrgica, que tantas vezes podemos fazer sem foco. Dessa forma, deixamos de extrair o resultado que ela pode provocar em nossa vida. Rezar assim é limitar a eficácia da oração. Celebrar bem não é apenas caprichar na execução dos ritos, mas é também abrir o coração para que eles cumpram sua eficácia em nós. Jesus não veio até nós senão para que fôssemos integrados ao Seu amor, por meio de um verdadeiro enxerto que Deus opera em nossas vidas, fazendo de nós filhos adotivos por meio da graça. Se somos adotados, nosso afeto deve ser filial. É o mesmo que dizer que nos sentimos tão amados por Deus Pai como o

Celeste: “Pai nosso, que estás nos céu” (Mt Filho divino, que um dia veio até de nós, en6,9). O Espírito Santo é o próprio amor de carnando-se no seio virginal de Maria e, por Deus. Pedir o amor divino é pedir o afeto isso, realmente Ele habitou entre nós. Sua filial que tanto faz falta em nossa vida. passagem por esta terra não foi como a de Quantas mortes são provocadas todos os um estranho, mas, ao assumir integralmente dias, porque, quando não se sente amada, a nossa natureza, Ele viveu o que os afetos fatalmente a pessoa se torna agressiva! significam para qualquer ser humano. Se Quantas ofensas dolorosas, até dentro da tivéssemos acreditado mais no amor, nossas comunidade cristã, se cometem todos os liturgias não seriam tão arranhadas por falta dias, porque, quando não nos sentimos de cuidado e de entrega, tanto na preparação amados, somos tremendamente ressentidos! quanto na execução. Por isso, há dois mil Nesta catequese litúrgica, quero mostrar anos, a Igreja pede que o afeto filial seja um a força dos ritos cristãos, o que exige naturaldom recebido e renovado continuamente. mente todo o cuidado com a celebração, mas As orações do Missal Romano são um nunca podemos cair no ritualismo. Isso seria padrão para a oração dos discípulos de matar o espírito e viver Cristo. Enquanto pedida letra da lei, contentamos coisas pontuais ou do-se apenas com o exaté equivocadas, este Na Última Ceia, quando terior e manipulando-o livro nos ensina a pedir ordenou aos discípulos que em benefício próprio ou o que é central, como se amassem mutuamente, até para dominação de é central a necessidade Jesus deixou bem claro que outras pessoas. Foi-me de acolhermos o afeto não estava falando do amor pedido que continuasse filial que Deus nos prohumano, pois este brota escrevendo sobre liturgia porciona pela graça. O dos fatores múltiplos que na revista O Mensageiro evangelista Lucas tem determinam os nossos sende Santo Antônio. Faço-o uma passagem que ilustimentos. [...] Jesus estava com prazer, mas espero tra o que estou dizendo. falando do mesmo amor que que o leitor entenda que Ao falar da eficácia da Ele, o Filho amado, recebe liturgia é vida. Não é um oração, ele diz: “Ora, eternamente do Pai. Esse feixe de normas rituais se vós, sendo maus, saque devem ser celebrabeis dar coisas boas aos amor, o Cristo partilhou com das com uma forma exvossos filhos, quanto os discípulos e com todos os terna que agrade a esta mais o Pai do céu dará o que Lhe pediram ajuda ou àquela corrente de Espírito Santo aos que o pensamento dentro da pedirem” (Lc 11,13). A Igreja. A liturgia é, antes de tudo, um gesto condição de ser mau aqui é uma aplicação sacramental de amor. O afeto filial que daí a todo ser humano, que, sem o amor de provém possibilita a todos se tratarem com Deus, fatalmente direciona seu olhar para respeito e dignidade, não permitindo que o próprio ego e torna-se prisioneiro do alguém sofra sem necessidade. Ao mesmo cárcere privado do egoísmo. Nesse sentido, tempo, abre os olhos para a dor do mundo e o evangelho de Mateus diz que só temos a urgência da solidariedade. Em cada missa, um Pai, o Celeste (cf. Mt 23,9). Na terra, eu retomo este sonho. E não me cansarei todos somos naturalmente irmãos, pois só de retomá-lo enquanto Deus Pai continuar regemos nossa vida quando nos sentimos nos premiando com o mesmo amor que dá amados. Portanto, a condição filial é a base ao Filho eterno. Por isso, o afeto filial é um da natureza humana. Pais e mães também dom que acolho com todo o coração como precisam de afeto e reconhecimento. Muitas inspira a oração da Igreja. vezes, os filhos esquecem-se disso, tratando -os como se não precisassem de amor para sobreviver. Nisso a liturgia é mestra, pois a Pe. Valeriano condição fraternal é a base da assembleia dos Santos Costa litúrgica. Somos todos irmãos. Foram os Doutor em Liturgia pelo Pontifício primeiros cristãos que adotaram a prática Ateneo Santo Anselmo, Roma. Professor adjunto na Faculdade de de se chamarem assim. E o Cristo nos eduTeologia da PUC-SP cou a rezar dirigindo-nos ao único Pai, o O Mensageiro de Santo Antônio Maio d e 2 0 1 4

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mosesike.org

R E P O R TA G E M

Contato virtual versus

contato real Internet retém o ser humano e o isola do mundo real

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século XX foi invadido por uma das mais estonteantes invenções que é a internet, que possibilita o acesso a toda a espécie de informações. Estas se constituem em uma junção de esclarecimentos que vão se esmiuçando e chegando aos receptores com uma riqueza e clareza de detalhes que impressiona qualquer ser humano. Dados divulgados em março pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que, de cada dez domicílios

brasileiros, quatro têm acesso à internet. Ou seja, a rede chega a 41% dos lares brasileiros mudando acentuadamente o comportamento de homens e mulheres, de diferentes idades, que se abastecem de informações que chegam até eles por meio de um aparelho eletrônico que dá a impressão que pensa. No entanto, vale lembrar que ele é apenas um banco de dados que a todo momento é alimentado com mais elementos que, somados, tendem a oferecer tudo ou quase tudo, deixando de lado o contato

físico que, aliás, também é necessário para se estabelecer um relacionamento profícuo, seja de amizade, seja profissional. Ainda segundo a pesquisa, intitulada como “Sistema de Indicadores de Percepção Social: serviços de telecomunicação”, o modelo mais comum de acesso é a ligação a cabo, que corresponde a 32,8%, seguida por telefonia fixa (23%), telefonia móvel (18,3%), satélite (10,6%), rádio (10,2%), outros meios (3,6%) e ainda a linha discada (1,5%). O Ipea aponta

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também que a Região Sudeste do País registra a maior taxa de acesso à web, com 51,5%, seguida pelo Sul, que corresponde a 42,9%, Centro-Oeste (40,7%), Nordeste (29,2%) e Norte (20,7%). A internet é uma realidade e está enraizada no dia a dia das pessoas. Uma faixa etária considerada da população já se deparou com esta frase populista: “Dois pesos e duas medidas”, atribuindo a ela o fator de ponderação; ou seja, a pessoa precisa manter um equilíbrio em tudo aquilo

mantendo todos interligados independentemente do distanciamento mundial. A internet também facilitou a aproximação de muitos membros de famílias com parentes distantes e, hoje, através do sinal da web, é possível conversar e ver a pessoa no mesmo instante, embora cada qual ocupando um espaço de tempo diferenciado, mas estando conectadas e se comunicando em tempo real. E não para por aí o avanço da tecnologia. As empresas encontraram na internet a facilidade da circulação da informação profissional, consultoria, serviços de apoio ao cliente, gestão de projeto entre outros fatores. As pessoas ainda reduzem o tempo e o gasto fazendo uso de sistemas operacionais em órgãos públicos e jovens utilizam a internet para fazer amigos, conhecer “As pesquisas novas culturas e até mescomportamentais mo obter mais detalhes de dúvidas que possam apontam surgir de determinada matéria escolar. um crescimento Se esta avalanche de no tempo tecnologia está tão próxima às pessoas, inclusive de conexão, sendo descoberta pelo o que é um pessoal da terceira idade, por outro lado observa-se reflexo de nossa uma camada considerável época em que o da população sendo vítima da maneira errada como se relacionamento usufrui a internet ou absorvendo fatores negativos virtual parece para sua vida pelo demamais seguro, siado vínculo construído. Isso é consequência da mais simples exposição constante que que o real” se dá por se estar conectado à internet por muito tempo, principalmente que faz. Daí se entenderá que a internet quando se fala em adolescentes e jovens. ocupa um fator preponderante no cotidiaPortanto, entende-se que existe uma no das pessoas, encurtando as distâncias carência de relacionamentos em que o dos relacionamentos e contribuindo para contato humano é imprescindível, pois o enraizamento da ideia de uma “aldeia leva as pessoas a se conhecerem melhor global���. Este é um termo criado pelo filópor causa da aproximação física, em que sofo canadense Herbert Marshall McLuhan há troca de experiências enriquecida com (1911-1980), cujo intuito foi de dizer que olhares profundos, face naturalmente as novas tecnologias eletrônicas estariam contemplada, olfato e audição sentidos encurtando intervalos entre as relações e partilhados em um mesmo espaço de além do progresso tecnológico, reduzintempo; enfim, a proximidade responde do de uma forma ou outra a distância e por delinear um relacionamento. O M e nn ssaaggeeiirroo ddee SSaannt too AAnnt tô ôn ni oi o Maio ddee 22001144 Maio

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