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Foto: Antoninho Perri

Grupo do IEL pesquisa e propaga a tradução poética de Odorico Mendes O professor Paulo Sérgio de Vasconcellos, coordenador do Grupo de Trabalho Odorico Mendes

Um grupo de docentes e alunos do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) dedica-se, há cerca de dez anos, a pesquisar e divulgar a obra do maranhense Manuel Odorico Mendes (1799-1864), sobretudo de suas traduções dos clássicos gregos e latinos. Parte desses estudos resultou em edições comentadas de duas obras do poeta romano Virgílio vertidas por Odorico, ambas recém-lançadas pela Editora da Unicamp: Eneida Brasileira e Bucólicas (coedição Ateliê Editorial). Para o professor Paulo Sérgio de Vasconcellos, coordenador do grupo, “as traduções de Odorico podem ajudar a chamar a atenção dos jovens para nossa herança clássica, e não apenas a diretamente grega e latina”. Páginas 5 a 7

JORNAL UNICAMP DA

IMPRESSO ESPECIAL 1.74.18.2252-9-DR/SPI Unicamp

CORREIOS

FECHAMENTO AUTORIZADO PODE SER ABERTO PELA ECT

Campinas, 22 a 28 de junho de 2009 – ANO XXIII – Nº 433 – DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Foto: Divulgação

Foto: Antonio Scarpinetti

Foto: Antoninho Perri

O professor Carlos Alfredo Joly (à esquerda), coordenador do Programa Biota-Fapesp, faz um balanço dos dez anos de atividade do projeto e revela as diretrizes que deverão orientar suas ações ao longo da próxima década. Criado para identificar, mapear e investigar as características da fauna, da flora e dos microrganismos do Estado de São Paulo, o Biota já contribuiu para a formação de 169 mestres, 108 doutores e 79 pós-doutores.

Fibroínas de seda rendem biomateriais Página 4

Páginas 2 e 3

Os novos horizontes do

Biota Região da foz do Rio Ribeira do Iguape, que será objeto de estudo na próxima fase do Biota

Foto: Reprodução

O consumo nos primórdios do capitalismo brasileiro Página 9 Foto: Antoninho Perri

A cor, a idade e o endereço do desemprego Página 11 Foto: Divulgação

Um plano de manejo para a Laje de Santos Página 12


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JORNAL DA UNICAMP Campinas, 22 a 28 de junho de 2009

Biota, 10 anos, projeta seu futuro

Foto: Antoninho Perri

MANUEL ALVES FILHO manuel@reitoria.unicamp.br

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o último dia 3 de junho, o Programa BiotaFapesp, criado para identificar, mapear e investigar as características da fauna, da flora e dos microrganismos do Estado de São Paulo, completou dez anos de atividade. Na oportunidade, foi realizada uma cerimônia de comemoração no auditório da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). No dia seguinte, no centro de convenções da Associação Paulista de Supermercados, ocorreu um workshop no qual a comunidade científica refletiu sobre os aspectos que deverão orientar as ações do programa ao longo da próxima década. De acordo com o coordenador executivo do Biota, Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, a disposição tanto dos cientistas quanto da agência de fomento é de que as pesquisas ganhem ainda mais em profundidade e abrangência. “Na avaliação que fizemos da primeira etapa, que contou com a participação de um comitê externo, ficou constatado que o Biota contribuiu para o avanço do conhecimento biológico e formação de um expressivo contingente de profissionais capacitados. Não obstante, também identificamos que precisamos realizar estudos complementares em algumas áreas, além de agregarmos novos saberes e ferramentas ao programa”, afirma Joly. Na entrevista que segue, ele fala das realizações e dos desafios da ciência na busca por novos conhecimentos sobre a biodiversidade paulista. Jornal da Unicamp – Qual o balanço que a comunidade científica fez da primeira fase do Biota? De que forma essa análise orientou a projeção para os próximos dez anos? Carlos Alfredo Joly – No começo do ano, em fevereiro, nós fizemos uma avaliação, que contou com o trabalho de um comitê externo. Enviamos um questionário aos pesquisadores, para saber a opinião deles sobre como o programa colaborou para o avanço do conhecimento em suas respectivas áreas, o número de pessoas que foram formadas, como estão as coleções etc. Tivemos um retorno da ordem de 70%, o que demonstra o alto grau de envolvimento da comunidade.  O que ficou constatado é que tivemos um avanço considerável do conhecimento biológico do Estado. Esse conhecimento foi organizado de maneira que fosse utilizado, por exemplo, para a formu-

O professor Carlo Alfredo Joly, coordenador executivo do Biota: “Ficou constatado que tivemos um avanço considerável do conhecimento biológico do Estado”

Programa da Fapesp já contribuiu para a formação de 169 mestres, 108 doutores e 79 pós-doutores

ção na segunda fase de trabalhos. Isso passa por um aspecto institucional. A diretoria científica da Fapesp terá inicialmente que submeter a proposta de continuidade do programa ao seu Conselho Superior, para que ele a aprove. Durante o workshop, foram formados grupos que sinalizaram as áreas que merecerão estudos complementares e outras que passarão a integrar o programa.

lação de políticas públicas, na forma de resoluções, decretos e leis. O Biota também contribuiu para a formação de 169 mestres, 108 doutores, 79 pós-doutores. Envolveu ainda cerca de 170 alunos de iniciação científica. Para se ter uma idéia do que esses números representam, na região Norte nós não temos mais do que 100 doutores trabalhando em biodiversidade, nos diferentes aspectos. Ou seja, foi uma contribuição grande no que toca à formação de recursos humanos qualificados. Os produtos que foram levados ao público também foram avaliados como muito positivos. Avaliação geral é de que o Biota cumpriu muito bem os objetivos colocados inicialmente. Entretanto, trata-se de um trabalho que pode ser aperfeiçoado e que precisa ter continuidade.

JU – No primeiro caso, que áreas devem merecer estudos complementares? Joly – Um dos grupos focou, por exemplo, os inventários. Nós ainda não completamos o levantamento de todo o Estado de São Paulo. Há regiões que são pouco conhecidas. Esta é uma área forte do Biota, um setor em que atuamos muito bem, mas entendemos que ele deve ser ampliado e aprofundado. Ao mesmo tempo, consideramos que esse tipo de trabalho deve incorporar novas ferramentas, para que os trabalhos permitam comparações mais imediatas. Precisamos padronizar um pouco mais a metodologia quantitativa. Quando queremos fazer o estudo da evolução de determinados grupos ou de como é a relação deles com o ambiente em que se encontram, precisamos resgatar informações do passado.

JU – Como foram os debates no workshop realizado no início de junho? Que diretrizes saíram dessas discussões? Joly – Aproveitamos o aniversário do Biota para fazer uma reflexão sobre o que o programa alcançou e para projetar os trabalhos para os próximos dez anos, tendo em vista as áreas que devem merecer mais aten-

Com as ferramentas proporcionadas pela genômica e com o auxílio de marcadores moleculares, podemos fazer isso de maneira mais eficiente. Para o estudo de microorganismos isso fica ainda mais evidente. Ao usarmos a técnica de metagenômica, podemos fazer a extração de uma porção do solo ou da água de bromélia para identificar quanto tipos

diferentes de genoma existem ali. Outra iniciativa relacionada a essa área está voltada para grupos muito complexos. Existe uma técnica que usa uma parte do DNA para fazer identificações. O método é chamado de DNA Barcoding.  Trata-se de uma iniciativa internacional que vem sendo adotada por alguns grupos. É algo para testarmos. JU – Que outro aspecto merecerá maior atenção da segunda etapa do Biota? Joly – Até agora nós trabalhamos com mapas que indicam os remanescentes de vegetação nativa no Estado. Mas não sabemos o que está acontecendo no entorno desses remanescentes. Não sabemos que atividades agrícolas estão sendo desenvolvidas ao redor e nem tampouco que impactos elas eventualmente trazem para esses remanescentes. Por exemplo: devem existir matrizes de cana, eucalipto, laranja ou mesmo urbana que circundam ou estão próximas de pedacinhos de cerrado ou de mata estacional. Precisamos começar a integrar os nossos remanescentes às atividades econômicas que se desenvolvem no entorno deles. Isso é importante porque a possibilidade de conexão entre os fragmentos vai depender dessas matrizes. Podemos concluir, por exemplo, que a capacidade de conservação de um determinado fragmento isolado é muito pequena. Nesse caso, seria preciso restabelecer corredores, cuja viabilidade estará vinculada às atividades presentes nas imediações. Entender os agroecossistemas que estão no entorno passará a fazer parte de uma nova linha de pesquisa do Biota. Esse trabalho certamente

terá várias dimensões: econômica, social, energética, humana etc. O Biota explorou isso muito pouco na sua primeira fase, e agora precisamos aprofundar esses aspectos JU – Ainda há muito que saber sobre esses ecossistemas? Joly – Sim, ainda precisamos entender melhor o funcionamento dos ecossistemas, como cerrado, mata estacional, Mata Atlântica etc. Precisamos compreender melhor como é a ciclagem de água, de nitrogênio e de gás carbônico. Isso será fundamental para que possamos projetar quais seriam as consequências das mudanças climáticas para esses ecossistemas. Para os ecossistemas terrestres nosso conhecimento ainda é limitado. Temos maior conhecimento sobre ecossistemas de água doce, principalmente represas. Mas em relação aos cerrados e aos diferentes tipos de floresta do Estado, conhecemos pouco. Se quisermos entrar numa discussão de mudanças climáticas, vamos precisar desse conhecimento mais refinado. Esses estudos, diga-se, deverão ter conexão com o programa de mudanças climáticas que a Fapesp está desenvolvendo. Objetivo é formular modelos regionais, e não apenas usar modelos internacionais adaptados à nossa realidade. JU – E em relação à parte marinha, qual o nível de conhecimento acumulado? Joly – Entendemos que fizemos relativamente pouco com relação à parte marinha. Tivemos um projeto grande que trabalhou com invertebrados marinhos, na faixa litorânea Continua na página 3

UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador-Geral Edgar Salvadori de Decca Pró-reitor de Desenvolvimento Universitário Paulo Eduardo Moreira Rodrigues da Silva Pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib Pró-reitor de Pesquisa Ronaldo Aloise Pilli Pró-reitor de Pós-Graduação Euclides de Mesquita Neto Pró-reitor de Graduação Marcelo Knobel Chefe de Gabinete José Ranali

Elaborado pela Assessoria de Imprensa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Periodicidade semanal. Correspondência e sugestões Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, CEP 13081-970, Campinas-SP. Telefones (019) 3521-5108, 3521-5109, 3521-5111. Fax (019) 3521-5133. Site http://www.unicamp.br/ju. E-mail leitorju@reitoria.unicamp.br. Coordenador de imprensa Eustáquio Gomes. Assessor Chefe Clayton Levy. Editores Álvaro Kassab e Luiz Sugimoto. Redatores Carmo Gallo Netto, Hélio Costa Júnior, Isabel Gardenal, Jeverson Barbieri, Manuel Alves Filho, Maria Alice da Cruz, Nadir Peinado, Raquel do Carmo Santos, Roberto Costa e Ronei Thezolin. Fotografia Antoninho Perri e Antônio Scarpinetti. Edição de Arte Oséas de Magalhães. Serviços Técnicos Dulcinéa Bordignon, Everaldo Silva e Luís Paulo Silva. Impressão SRG Gráfica e Editora: (011) 4223-5911. Publicidade JCPR Publicidade e Propaganda: (019) 3232-2210. Assine o jornal on line: www.unicamp.br/assineju


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Fotos: Antonio Scarpinetti

Na foto, plantação de laranja (à dir., ao fundo), a terra sendo preparada para o plantio de cana (ao centro) e mata nativa (à esquerda), em área localizada na zona rural de Olímpia: na opinião de Joly, é preciso integrar os remanescentes às atividades econômicas que se desenvolvem no entorno deles

por exemplo, a partir de plantas e animais pesquisados pelo Biota? Joly – A área de bioprospecção vai continuar. Está dando muito certo. A despeito disso, ainda não conseguimos fazer o casamento do que está sendo feito em bioprospecção com o setor produtivo. Para promovermos essa aproximação, e possivelmente gerarmos produtos comerciais, vamos precisar da ajuda de agências de inovação, como a Inova Unicamp. Vamos promover reuniões com representantes das empresas para saber o que interessa a elas.  Entendemos que estamos fazendo ciência de primeira linha, mas reconhecemos que temos que incrementar esse aspecto da aplicação. O workshop já contou com a participação de representantes da indústria. JU – O Biota tem um viés importante relacionado à educação. Como esse aspecto será tratado na nova etapa? Joly – Entendemos que precisamos investir de maneira mais objetiva em educação. Temos que produzir material que chegue de fato ao ensino público, nos níveis fundamental e médio. Nos últimos anos nós conseguimos produzir um bom material para o público em geral, na forma de vídeos, exposições etc. Mas a experiência de produzir material voltado para o uso em sala de aula ainda tem que ser melhorada. Justamente por isso queremos incentivar a participação de professores que estão em sala de aula para nos orientar sobre conteúdo, linguagem e abordagem. Nesse sentido, podemos gerar livros, vídeos e disponibilizar informações no site do programa para que sejam usadas em sala de aula. Muitas vezes o professor de Ciências usa exemplos da fauna e da flora de outros países porque não encontra material organizado de ecossistemas locais. Queremos mudar isso. Vamos trabalhar inicialmente com o que já foi produzido nos primeiros dez anos. À medida que formos produzindo mais conhecimento, novos materiais serão gerados.

Pescadores no Rio Ribeira do Iguape, nas proximidades da foz: região será alvo de pesquisas

entre São Sebastião e Ubatuba, sob coordenação da professora Cecília Amaral, do Instituto de Biologia da Unicamp. Mas não fizemos nada no Litoral Sul, que é mais complexo que o Norte. Este possui áreas de manguezais, a foz do Rio Ribeira do Iguape, restingas etc. São ecossistemas importantes para a renovação de estoque pesqueiro. E há ainda a parte oceânica, que a primeira fase do Biota sequer trabalhou. Nossas ações ficaram concentradas no litoral.

Agora, precisamos avançar para entender a dinâmica, os estoques pesqueiros, as espécies que são economicamente importantes etc. Também precisamos começar a montar uma rede de monitoramento para poder aferir a variação das temperaturas na superfície e nas diferentes profundidades do oceano. Precisamos saber como está variando o pH e a salinidade da água. Esses componentes têm tanto uma importância biológica quanto de impacto no

clima. Se a temperatura da água está mudando, os coeficientes de evaporação também se alteram. Pode-se ter mais ou menos evaporação, mais ou menos umidade circulando. Isso pode implicar numa distribuição diferente das chuvas. São estudos que serão importantes também para a formulação de modelos climáticos. JU – E quanto à área de bioprospecção? Quais as perspectivas do desenvolvimento de fármacos,

JU – Quais serão as próximas medidas para que o Biota tenha a continuidade assegurada? Joly – Temos alguns aspectos emergenciais para equacionar. Um diz respeito à questão da institucionalização do programa, que já foi discutida no ano passado. Agora a coisa começa a acontecer de fato. Em dez anos o Biota investiu R$ 14 milhões em projetos de diversas Unidades da Unicamp (IB, IG, CPQBA, Nepam, Cepagri). Pela grande participação de pesquisadores da Universidade no workshop realizado no começo de junho, podemos projetar que nos próximos anos o programa deva atrair

pelo menos 50% a mais de pessoas do que na primeira fase. Como contrapartida, a Unicamp está cedendo espaço físico, uma secretária e está contratando um manager para o programa e editor executivo para a revista eletrônica Biota Neotropica. Ou seja, a Universidade está dando condições físicas e recursos humanos para o funcionamento do programa. A Unesp, por seu lado, está construindo um prédio para abrigar os extratos obtidos por meio do trabalho bioprospecção e toda a parte de informática associada a isso. A Unicamp, junto com o Cenapad, vai abrigar também a parte de informática do Sistema de Informações Ambientais e a base cartográfica que permite a construção de mapas da distribuição das espécies. A definição da contrapartida da USP está sendo negociada pela Fapesp, e deve ser anunciada em breve. A outra necessidade é apresentarmos o plano de trabalho para os próximos dez anos para o Conselho Superior da Fapesp, para mantermos o financiamento que será da ordem de R$ 10 milhões ao ano. Nos primeiros dez anos, usamos cerca de R$ 85 milhões. Também acho importante formalizarmos acordo com o governo federal para a concessão de um número maior de bolsas. Por fim, precisamos começar a replicar a experiência do Biota em outros estados. No último dia 5 de junho foi lançada a primeira etapa do Biota Minas. O mesmo foi feito na Bahia e está acontecendo no Mato Grosso do Sul. O que a gente imagina é que em algum momento seria importante ter uma articulação para integrar essas iniciativas, provavelmente por meio do Ministério da Ciência e Tecnologia. Temos que começar a organizar as informações para outros estados, que tanto se valerão quanto completarão esses conjuntos de dados. E também precisamos ter maior inserção internacional. Isso deve ser feito, entre outras medidas, por meio de parcerias e intercâmbios. Queremos receber e enviar pós-graduandos para outros países. Acredito que até agosto o plano esteja aprovado e em andamento. Muito provavelmente vamos fazer chamadas específicas para algumas áreas de pesquisa. É um instrumento que nunca usamos, mas que tem sido empregado com sucesso pela Fapesp. Vamos organizar, ainda, workshops específicos, trazendo pesquisadores estrangeiros. No segundo semestre vamos ter um evento da área de biologia da conservação, que terá como foco os aspectos sociais. Ademais, em dezembro promoveremos um encontro para discutir o uso e os avanços da técnica do DNA Barcoding, para podermos atuar na linha de frente do conhecimento nessa área e contribuir para seu desenvolvimento.


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Fibroína de seda é base de biomateriais Fotos: Antoninho Perri/Divulgação

Ela vem sendo testada em válvulas cardíacas e no desenvolvimento de culturas de tecidos e células LUIZ SUGIMOTO sugimoto@reitoria.unicamp.br

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esquisadores da Unicamp vêm ob­tendo resultados promissores no desenvolvimento de biomateriais com fi­broína de seda, que já começam a ser testados no Instituto do Co­ração (InCor) da USP para proteger válvulas cardíacas da calcificação, e na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para a cultura de células e tecidos in vitro. A fibroína de seda ainda é pouco estudada na área de biomateriais, inclusive mundialmente, e motivou uma linha de pesquisa da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) que corre há apenas quatro anos. Segundo a professora Marisa Masumi Beppu, da FEQ, a origem dos estudos que ela coordena está na necessidade de aumentar a vida útil e a eficácia das válvulas cardíacas, que geralmente são recortadas do pericárdio (tecido que reveste o coração) bovino ou suíno e implantadas assim, diretamente. “A maior causa de falhas nas válvulas é a calcificação. A idéia inicial do InCor era desenvolver um processo de secagem do material orgânico, permitindo seu armazenamento até o transplante, mas o resultado foi uma superfície extremamente rugosa que favorece a calcificação”. Surgiu daí um projeto temático financiado pela Fapesp visando meios de recobrir o pericárdio com biopolíme­ros para protegê-lo da calcificação. Dele participam a Faculdade de Ci­ências Farmacêuticas da USP (com os professores Bronislaw Polakievicz e Ronaldo Pitombo), InCor, Unicamp e Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN). “Um biopolímero com propriedades mecânicas e químicas adequadas e que evite a rugosidade vai dar maior sobrevida à válvula cardíaca. Na FEQ, testamos também a quitosana, mas os estudos evoluíram com a fibroí­ na de seda”. Marisa Beppu orientou o primeiro es­tudo brasileiro focando a fibroína co­­mo biomaterial, no mestrado da pesquisadora Grinia Michelle Nogueira, que defendeu doutorado sobre o mesmo tema no início deste ano e agora faz o pós-doutorado no MIT (Massachusetts Institute of Technology, EUA). Suas pesquisas resultaram em patentes do método de isolamento da fibroína e de uma membrana de seda porosa junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). A docente da Unicamp explica que o fio de seda é composto por duas proteínas: a fibroína, responsável pela re­sistência mecânica, e a sericina, es­ pécie de goma que faz a liga entre fios. Enquanto a literatura descreve pro­cessos demorados e complicados para produzir membranas de fibroína, Grinia Nogueira conseguiu reduzir o tempo de separação de quatro dias para meia hora, permitindo o uso do material em escala industrial, e sem recorrer a elementos tóxicos, o que assegura a biocompatibilidade. Além da membrana de seda porosa, interessante por possibilitar a semea­dura de células em sua superfície, tam­bém foi produzida uma membrana densa – a que está em testes como cobertura das válvulas cardíacas de pericárdio animal. “Ainda não temos resultados conclusivos in vivo do InCor, que está avaliando a reação do material recobrindo implantes feitos em carneiros. O que posso afirmar é que os nossos ensaios in vitro indicaram uma diminuição expressiva da calcificação”. No dia anterior a esta entrevista, Ma­ risa Beppu recebeu mensagem dos pesquisadores da Unifesp informando que estavam iniciando os testes de crescimento celular sobre a membrana de seda

Bicho-da-seda da espécie Bombyx mori e aranha da espécie Nephila clavipes (destaque)

Da esq. pra dir., Raquel Farias Weska, Mariana Ferreira Silva e Mariana Agostini de Moraes: linha de pesquisa gera teses e dissertações

A professora Marisa Masumi Beppu (acima), coordenadora das pesquisas: “Nossos ensaios in vitro indicaram uma diminuição expressiva da calcificação”. Imagem microscópica (à direita): superfície da membrana porosa de fibroína de seda, que facilita o depósito e o crescimento de células

porosa. É um trabalho que se dá no contexto do INCT – Institutos Na­cionais de Ciência e Tecnologia – em Biofabricação (Biofrabris), lançado recentemente pelo Ministério da Ci­ência e Tecnologia (MCT). “Eles ten­tarão semear célulastronco retiradas de adultos nos poros da membrana. A expectativa é grande em relação a es­se resultado”. A professora e sua equipe, futuramente, esperam produzir uma parede de coração ou uma pele, mas há dentistas no projeto interessados em fazer crescer, por exemplo, um dente, que pos­sui várias camadas de tecidos diferentes. “O que a engenharia tecidual busca hoje são os chamados scaffolds – matrizes tridimensionais cheias de poros para as células crescerem. O sonho de todo pesquisador da área é colocar este suporte com as células no interior de um pequeno biorreator e ver sair uma orelha ou nariz”, brinca.

Seguimento Raquel Farias Weska, que está iniciando o doutorado, seguiu os passos de Grinia Nogueira e dedicou parte do seu mestrado ao estudo da reação das membranas de seda à esterilização. Um grande problema nos biopolímeros é que a maioria não tolera temperaturas acima de 60 graus. “As membranas passaram por cinco métodos de esterilização usados comumente e, basicamente, não ocorreu degradação; apenas uma mudança na conformação molecular da fibroína, o que pode ser uma característica interessante, dependendo da aplicação”. As membranas resistiram inclusive à autoclavagem, processo em que o material é submetido a vapor com temperatura de 121ºC e que dura de 15 a 30 minutos – e, por isso, mais utilizada para a esterilização de instrumentos cirúrgicos. “Se colocarmos o pericárdio bovino

ou suíno na autoclave, ele vai cozinhar, literalmente. As membranas de fribroína mostraram-se realmente versáteis”, observa a professora Marisa Beppu. Na outra parte do mestrado concluído no início do ano, Raquel Weska estudou a deposição de fosfato de cálcio nas membranas densa e porosa, avaliando sua possível aplicação como biomaterial da parte óssea, posteriormente in vivo. “Agora, no doutorado, vou continuar pesquisando a fibroína de seda, provavelmente na área de scaffolds para engenharia tecidual”. Blendas Mariana Agostini de Moraes, também integrante do grupo de pesquisa, está começando o mestrado no propósito de misturar a fibroína com o alginato (extraído de algas), outro biopolímero que apresenta grande potencial para o crescimento de tecidos.

“A mistura é uma tentativa de conjugar propriedades das duas proteínas. Já existem curativos comercializados com o alginato, devido à sua resposta bastante satisfatória na cicatrização de feridas, assim como a fibroína. Juntas, a resposta pode ser ainda melhor”. Para produzir as blendas, Mariana Moraes vem misturando as soluções dissolvidas e, também, incorporando fios de fibroína à solução de alginato a fim de aprimorar a resistência mecânica. A associação da fibroína de seda com outros biopolímeros é uma área de pesquisa praticamente inédita e, de acordo com Marisa Beppu, os resultados têm sido animadores. “É possível chegar a um curativo com boa resistência e que contenha um princípio ativo que acelere a regeneração”. Mariana Ferreira Silva, aluna de iniciação científica, vai cuidar de outro viés da linha de pesquisa mesclando a fibroína com plastificantes. O objetivo é aumentar a plasticidade da membrana de seda que, por ser densa, se rompe quando esticada. Com a propriedade de deformação que os plásticos possuem, a aplicação da fibroína de seda se tornaria mais interessante. A professora Marisa Beppu atenta que estas pesquisas, em boa parte, ainda se limitam a desbravar as propriedades que a fibroína pode oferecer, resultando em material para testes in vitro ou in vivo em instituições parceiras. “Tudo isso nasceu em 2005, mas já notamos a boa repercussão em congressos no exterior. Acredito que logo teremos muitos pesquisadores se embrenhando nos componentes da seda”. Aranhas Em sua dissertação de mestrado, a pesquisadora Raquel Weska conta que as sedas produzidas pelo bicho-da-seda domesticado (Bombyx mori) e por aranhas do gênero Nephila, como a Nephila clavipes, são as mais estudadas no intuito de compreender o mecanismo de processamento e explorar as propriedades destas proteínas como biomaterial. Elas apresentam propriedades mecânicas surpreendentes, além de serem biocompatíveis e modificáveis quimicamente. A professora Marisa Beppu trabalhava em uma multinacional da área química, quando a empresa tentou reproduzir a fibroína de aranha em laboratório. “Na época, só se falava em fibroína e suas propriedades. Imaginavam uma corda feita de teia, superresistente, mas acabaram desistindo porque é muito difícil replicar o que a aranha faz naturalmente: alinhar todas as moléculas de maneira a dar resistência mecânica ao material”. De qualquer forma, a natureza das aranhas inviabiliza seu confinamento e a extração de fibroína em escala. Já os fios do bicho-da-seda são utilizados comercialmente para suturas biomédicas há décadas, e na produção têxtil há séculos, graças a grandes safras da atividade que ganhou até denominação própria: a sericultura, facilitada pelo fato de que as larvas poderem ser mantidas em altas densidades. Dados levantados por Raquel Weska apontam que a produção mundial de seda subiu de cerca de 100 mil toneladas em 2000 para 150 mil toneladas em 2008, sendo que a China responde por 70% do total. “Embora venha bem abaixo, o Brasil ocupa o segundo lugar, tendo o Paraná como maior produtor, seguido de São Paulo e Mato Grosso do Sul”. Afora a área médica, a fibroína de seda está praticamente limitada à área têxtil, onde o consumo já havia caído consideravelmente quando o náilon invadiu o mercado. Entretanto, na opinião de Marisa Beppu, a baixa produção não seria um fator limitante, caso os biomateriais em estudo sejam viabilizados economicamente. “Certamente, surgiriam várias cooperativas voltadas a uma cultura relativamente simples, que pede basicamente as folhas da amoreira e as larvas”. Em seu laboratório na FEQ, a docente recebe seda de uma cooperativa de Bastos (SP), mas afirma que as membranas de fibroína podem ser produzidas apenas com o que seria considerado como refugo do produto. “Se a indústria têxtil necessita de fios longos para a fiação, nós preferimos justamente as rebarbas para solubilizá-las e realizar os demais processos de laboratório ”.


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Da Roma de Virgílio à São Luís de Odorico Mendes

Foto: Reprodução

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Jornal da Unicamp – Quando e com qual propósito surgiu o Grupo Odorico Mendes? Quantos alunos já integraram o grupo? Paulo Sérgio de Vasconcellos – O grupo surgiu há dez anos com o objetivo de divulgar as traduções dos clássicos realizadas por Odorico Mendes no século XIX. Essa divulgação se dá sobretudo através de edições que preparamos: cada tradução recebe uma anotação minuciosa que esclarece aspectos difíceis do vocabulário, da sintaxe, as alusões mitológicas e histó-

A atriz Patrícia Braga, integrante do grupo do IEL, realiza performances com textos de Odorico Mendes: arrebatando a plateia em récitas de cantos da Ilíada e de bucólica de Virgílio

Reprodução das capas da Eneida Brasileira e Bucólicas, cujas edições foram preparadas e comentadas pelo Grupo de Trabalho Odorico Mendes: desvendando “pequenos enigmas”

ricas, etc.; ao mesmo tempo, em cada edição há uma análise do modo como o tradutor reproduz em português efeitos poéticos do original. Assim, esclarecemos para o leitor passagens difíceis, sobretudo para o leigo, ao mesmo tempo que demonstramos o modo mesmo como o tradutor recria o original. Mas a divulgação se dá também através de artigos em periódicos, palestras e recitação de trechos das traduções. Também deixamos disponíveis na página do grupo no site do

IEL a primeira versão da Eneida – há duas versões – e o texto latino adotado por Odorico, material que pode ser baixado gratuitamente. Essas são as maneiras que encontramos para divulgar as traduções de Odorico. Já integraram o grupo 22 pósgraduandos, todos com participação muito ativa, figurando mesmo como co-autores da anotação e comentário. JU – Existe iniciativa similar no país? Vasconcellos – Há outras pessoas

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grupo de atores que realizam performances com textos de Odorico, recitando de cor cantos inteiros da Ilíada. Recentemente, acolhemos oficialmente no grupo uma atriz que faz parte desse projeto, a Patrícia Braga, que já recitou em Campinas dois cantos da Ilíada e uma bucólica de Virgílio, sempre com grande sucesso. É um trabalho muito bonito, que mostra como o texto muitas vezes difícil de Odorico tem eficácia, atinge emocionalmente a audiência, que se encanta com sua sonoridade e seu português nada banal. JU – Em que medida, em sua opinião, as atividades do grupo são importantes para os alunos e – em última instância – ajudam a formar tradutores? Vasconcellos – Acho que os alunos que participaram das atividades são incitados a refletir em profundidade sobre o que seja uma tradução poética; além disso, eles praticam a análise de tradução, ao compararem texto original e tradução e também a tradução de Odorico com outras traduções em verso. É também um exercício contínuo de análise de textos poéticos, já que antes de mais nada é preciso conhecer o texto latino original, prestando atenção ao modo como os poemas exploram som, sintaxe, ritmo. Finalmente, trata-se de um exercício de an��lise crítica de tradução, em que os alunos aperfeiçoam na prática uma espécie de instrumental que permite apreciar os modos diversos de se traduzir. Assim, quem participa do grupo sai enriquecido desse contato com um tradutor instigante e criativo como é Odorico. Quanto ao efeito sobre possíveis leitores, bem, confesso que não tinha pensado nisso ainda. As nossas edições saíram recentemente, entre o ano passado e este ano, e têm tido excelente repercussão. Com isso, espero que estudantes da área de Clássicas se interessem por tradução poética e que os mais vocacionados também pratiquem tradução poética dos clássicos. Nosso país é carente de trabalhos com esse viés: traduções dos clássicos que se assumam como textos poéticos e recriem em português os efeitos poéticos do original. Pensando bem, então, acho que nosso trabalho poderá ajudar na formação de tradutores conscienciosos dos clássicos, pois esta talvez seja a maior lição de Odorico Mendes: a dignidade da tarefa tradutória, vista como ato criativo, não como empreendimento pouco qualificado e de segunda classe.

ÁLVARO KASSAB kassab@reitoria.unicamp.br

m grupo de professores e alunos de pósgraduação do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), todos dedicados aos estudos do latim e do grego, vem há pelo menos uma década pesquisando e divulgando a obra pioneira do tradutor maranhense Manuel Odorico Mendes (17991864). Dois trabalhos oriundos dessa força-tarefa já podem ser considerados referências na área: a Editora da Unicamp acaba de lançar as obras Eneida Brasileira e Bucólicas (coedição Ateliê Editorial), de Virgílio, ambas vertidas por Odorico. As edições, bilíngues, têm anotações e comentários dos pesquisadores do IEL, cujo grupo de trabalho não por acaso leva o nome do tradutor. “Acho que nosso trabalho poderá ajudar na formação de tradutores conscienciosos dos clássicos, pois esta talvez seja a maior lição de Odorico Mendes: a dignidade da tarefa tradutória, vista como ato criativo, não como empreendimento pouco qualificado e de segunda classe”, afirma o professor Paulo Sérgio de Vasconcellos, coordenador da equipe, na entrevista que segue.

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trabalhando com a obra de Odorico Mendes: já saiu uma edição anotada da tradução da Ilíada e a primeira versão, de 1854, da tradução da Eneida. No Maranhão, Sebastião Moreira Duarte editou o Virgílio Brasileiro, reunião das obras de Virgílio. São trabalhos meritórios. As edições que preparamos têm, porém, um diferencial: as análises minuciosas de passagens da tradução, momento em que adentramos, por assim no dizer, no laboratório de tradução de Odorico. Por outro lado, no Paraná há um

JU – Vocês acabam de publicar uma edição anotada e comentada da Eneida Brasileira, além das Bucólicas, trabalhos bastante complexos e minuciosos. Na condição de coordenador dos trabalhos e do grupo, o senhor poderia falar sobre as dificuldades enfrentadas? Vasconcellos – Não foram poucas. Há passagens de Odorico que soam como pequenos enigmas. Para compreendê-las, precisamos muitas vezes recorrer a dicionários antigos, pois os dicionários modernos ou não trazem uma certa palavra empregada pelo tradutor ou não trazem o sentido específico em que o tradutor empregou determinada palavra. Não é preciso dizer também que a anotação exige leitura cerrada do original, caso contrário se cometem muitos equívocos – basta ver a edição da Eneida de Odorico pela Martin Claret. É um trabalho que exige pesquisa constante, paciência e até mesmo respeito pela obra. É essa falta de respeito, uma visão apressada e leviana dos textos, que leva algumas pessoas ainda hoje a descartarem a tradução de Odorico como ininteligível. Odorico exige muito de seu leitor, e nós, que fazemos a anotação e comentário da tradução, temos de nos colocar na posição de leitores ideais, que percebem as intenções do tradutor mesmo nas passagens mais opacas. O grupo se colocou como propósito esclarecer todas as dificuldades das traduções para o leitor leigo, uma tarefa realmente complexa e muito exigente. Continua nas páginas 6 e 7


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‘É preciso que tradutores com vocação Foto: Divulgação/Reprodução

(Continuação da página 5)

JU – Quais são os próximos projetos do grupo? Vasconcellos – Atualmente, trabalhos numa edição das Geórgicas nos mesmos moldes da edição da Eneida Brasileira e das Bucólicas. Recentemente, a atriz que mencionei passou a integrar oficialmente o grupo. Esperamos promover mais récitas de trechos das traduções de Odorico Mendes. Quando terminarmos a anotação de toda a tradução de Virgílio,

“Vi jovens poetas incorporando a seu vocabulário expressões de Odorico”

Parte do Grupo de Trabalho Odorico Mendes durante o lançamento dos livros: trabalho de fôlego

“O Brasil da época de Odorico Mendes não estava preparado para essa ousadia” que é o trabalho prático mais importante do grupo, pensaremos no passo seguinte. Venho acalentando o sonho de reunir uma equipe multidisciplinar para uma pesquisa profunda sobre a vida de Odorico Mendes, que, como se sabe, foi um político importante sob o Império. Há na vida dele alguns enigmas; por exemplo: onde estão os manuscritos das traduções dos clássicos? Sonho com um trabalho de investigação que produza uma biografia de Odorico e saliente os dois aspectos mais notáveis de sua vida: a atuação como político que funda jornais e se dirige com franqueza ao imperador e seu trabalho inédito de tradução de todas as obras de Homero e Virgílio. Se esse projeto não vingar, espero que alguém pense em algo parecido e preencha essa lacuna, pagando o tributo definitivo a um homem da grandeza de Odorico. E quando não houver mais traduções de Odorico a anotar, espero criar um grupo para fazer trabalho semelhante com outras boas traduções dos clássicos. JU – Em que pese o fato de Odorico Mendes ter traduzido toda a obra poética de Virgílio e Homero, em pleno século XIX, seus trabalhos foram alvos de críticas à época e em períodos subsequentes. A que o senhor atribui esses comentários? Vasconcellos – Há aspectos da tradução de Odorico que só mais tarde viriam a ser avaliados com ponderação. Por exemplo, ele heleniza o português ao traduzir Homero, criando, por exemplo, compostos poéticos à moda homérica: olhicerúlea, pulcrícoma... Nas traduções dos clássicos,

Odorico muitas vezes usa sintaxe que imita a latina, como que latinizando o português. Assim, o português se enriquece com a influência do latim e do grego sobre ele. O Brasil da época de Odorico não estava preparado para essa ousadia. Mas o fato é que muito dos equívocos de que Odorico foi vítima tem uma fonte precisa: um juízo tão apressado quanto cáustico do crítico literário Silvio Romero, que depois foi repetido por outros críticos e estudiosos. O fato também de ter passagens difíceis por causa do vocabulário e da sintaxe não ajudou. Soma-se a isso o conhecimento parco dos clássicos no original e está feita a mistura ideal para que o pobre Odorico seja tão incompreendido e tão violentamente atacado – ainda hoje é, em certos meios, se bem que cada vez mais raramente. Mas prefiro ressaltar que hoje

‘Haroldo de Campos é o primeiro grande responsável pelo resgate de Odorico Mendes” o resgate de Odorico como tradutor, por obra de pessoas como Haroldo de Campos e o professor de grego da USP Antonio Medina, entre outros, e edições como a de nosso grupo, é completo. Pode-se gostar ou não das traduções, mas estão dados os meios Foto: Antoninho Perri

Quem é

JU – Qual o peso dessas edições para a compreensão de clássicos e para os estudos literários no país? Vasconcellos – Como já disse, a meu ver essas edições podem contribuir para a formação de tradutores dos clássicos que, como Odorico, assumam a tarefa de recriação em português dos efeitos propriamente poéticos do original, o que é desafiador, saudavelmente complexo. Não nego a importância de traduções do tipo filológico, acadêmicas, que traduzem mais o sentido primeiro e não se preocupam em criar análogos dos efeitos de som e ritmo do original. Essas edições têm seu papel: acompanhadas de estudo e notas, divulgam o texto antigo e são úteis para quem toma o texto como fonte. Mas nossa apropriação dos clássicos seria muito pobre se só houvesse esse tipo de trato com os clássicos. Não podemos esquecer que os latinistas e helenistas trabalham com textos literários, alguns deles obras fundamentais na história literária do ocidente, que exerceram uma influência gigantesca por seu valor estético. É preciso, então, que tradutores com vocação poética, tradutores criativos, proponham traduções criativas que, a partir dos textos originais, produzam textos com valor literário. A meu ver, é isso que, pensando no público leigo, fora dos muros da universidade, dá verdadeira vida aos clássicos. Esse mundo clássico vive através, sobretudo, de textos literários e, quando esses textos ganham traduções interessantes, atraem leitores que não são e nunca serão especialistas em latim ou grego, mas que se encantam com a grandiosidade das obras que a tradução deixou entrever. No campo dos estudos literários, as traduções de Odorico podem ajudar a chamar a atenção dos jovens para nossa herança clássica, e não apenas a diretamente grega e latina. Um leitor de Camões, por exemplo, ao ler a tradução da Eneida de Odorico perceberá como o maranhense se colocou na tradição épica camoniana, chegando a incorporar versos inteiros dos Lusíadas em sua tradução. Acima de tudo, quem quer que se encanta com o uso expressivo da língua portuguesa na literatura terá um vasto território a explorar com Odorico. Gonçalves Dias dizia que ninguém conhecia melhor a língua portuguesa do que Odorico Mendes. O leitor encontrará nele um vocabulário rico, muitas vezes tomado aos clássicos da língua portuguesa como Camões, e uma sintaxe com tantas construções desconhecidas da maioria que a leitura frequente de Odorico acaba por se transformar numa espécie de curso de língua portuguesa em seu registro literário, uma amostra privilegiada das potencialidades expressivas da língua.

O professor Paulo Vasconcellos, coordenador do grupo: “As traduções de Odorico podem chamar a atenção dos jovens para nossa herança clássica”

para sua leitura desprovida de preconceitos (e quanta gente não falou de Odorico sem sequer o ter lido de fato!) e sua compreensão. JU – Paradoxalmente, como o senhor assinalou, coube a Haroldo de Campos resgatar essa obra e dimensionar sua importância, ressaltando sobretudo o esforço de recriação – ou “transcriação”, tema caro aos concretistas – dos poemas. Essa chancela tornou a obra de Odorico, digamos, mais acessível e/ou chegou a sensibilizar parcela da crítica? Vasconcellos – Não tenho dúvida de que Haroldo de Campos é o primeiro grande responsável pelo resgate de Odorico. Se o grande teórico da tradução, grande poeta e erudito declara que a tradução de Odorico é pioneira no Brasil na ideia de tradução como recriação, muitos dos seus leitores são levados a questionar o arraigado juízo negativo e a olhar as traduções de Odorico com menos preconceito. Mas é curioso que durante algum tempo certos setores da academia também tinham certo preconceito contra os concretistas e, então, entre certas pessoas, o aval de Haroldo não resultava em benefício de Odorico... Mas eu prefiro mesmo que tudo isso seja esquecido e que celebremos tanto interesse, pelo Brasil afora, por uma obra que já foi alvo de pesada incompreensão. O que eu acho interessante é ver como muitos jovens –

Paulo Sérgio de Vasconcellos é ex-professor de Latim da USP e da Universidade Mackenzie e atual professor da mesma disciplina no Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), função que exerce desde 1988. Tem-se dedicado, sobretudo, ao estudo da poesia latina. Entre seus livros, destacamse Catulo, Cancioneiro de Lésbia, uma edição comentada de poemas do poeta romano Catulo (séc. I a.C.) e Efeitos intertextuais na Eneida de Virgílio, sobre os ecos intertextuais na epopéia de Virgílio e sua significação. Atualmente, coordena o trabalho de anotação e comentário das Geórgicas de Virgílio na tradução de Odorico Mendes e finaliza uma sintaxe do período subordinado latino para uso nas universidades.


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poética proponham traduções criativas’ mesmo fora do meio universitário – se encantam com a poesia das traduções e não se importam com o esforço que precisam ter para sua leitura. Vi jovens poetas incorporando a seu vocabulário expressões de Odorico, influência, portanto, não apenas em modos de traduções mas na criação mesma de poesia original. Que maior homenagem do que essa? JU – Quais foram, na sua opinião, as maiores contribuições das traduções de Odorico Mendes e o que elas significaram em um país até então com pouca ou nenhuma tradição nesse campo? Vasconcellos – As traduções de Odorico são um belo exemplo de tradução poética. Aliás, no subtítulo de sua tradução da Eneida, Odorico fala em “tradução poética”. Para os classicistas, essas traduções são um objeto interessante de meditação constante: o tradutor pode aprender ali muitas maneiras criativas de verter efeitos poéticos do original latino ou grego. Há elementos das línguas clássicas que um tradutor menos empenhado poderia achar intraduzíveis, como a maior liberdade na ordem das palavras e o ritmo quantitativo do verso, um ritmo dado pela sucessão de sílabas pronunciadas de forma mais longa ou mais breve. Em vez de dizer que esses elementos são intraduzíveis porque alheios ao português, Odorico procura em português efeitos análogos, muito engenhosos. Por exemplo, um verso do original tem uma sucessão de sílabas longas, em ritmo regular; o tradutor, nesse caso, emprega um ritmo absolutamente regular em português, criando efeito análogo. A mesma coisa para dar impressão de rapidez num ritmo rápido. Cito um pequeno exemplo. Numa passagem da Eneida, Virgílio descreve, numa cena de caça, cabras que se precipitam de uma montanha. Essa descrição é precedida de um verso cheio de longas, em ritmo vagaroso; a cena das cabras começa com ritmo rápido, ágil. Para produzir um efeito análogo em português, Odorico recorre a uma sucessão de dissílabos, todos paroxítonos (uma sucessão de tônicas e átonas), com forte repetição do som “p”: “Bravias cabras pelos picos pulam”. Eis um verso muito expressivo; sentimos o movimento dos animais, reproduzido vivamente pelo ritmo e pelos sons... Em vez de desistir do efeito do original porque ele seria intraduzível, Odorico o traduz, com meios diversos, porque são recursos de uma língua diferente, mas com a mesma expressividade e felicidade do original. JU – O que falta para que a obra e a trajetória do maranhense sejam difundidas? O que vem sendo feito nessa direção? Vasconcellos – Poucos lêem poe­sia no Brasil, por isso não tenho esperanças de que a obra tradutória de Odorico atinja um vasto público. Mas acho que as edições anotadas, as récitas, palestras e artigos em revistas criam

Um texto de Odorico Mendes *

O

Advirto aos meus leitores que não aspiro a dizer coisas novas; dar-me-ei por mui ditoso com dizer coisas boas.

amor da liberdade é a mais forte das paixões dos homens e funde-se no desejo que tem cada um de se conservar e de empregar sem obstáculos as suas faculdades para se tornar virtuoso. Em todos os corações gravou a natureza este sentimento, quis que fosse aferrado ao seu ser em cada indivíduo da geração humana; a violência, o hábito, a ignorância, a opinião podem algumas vezes afrouxar ou enfraquecer estes laços, mas nada o poderá nunca destruir; este fogo, sufocados às vezes, sempre renascerá das suas cinzas. O uso que se faz da liberdade é injusto quando transpomos as raias que nos prescrevem as leis, é ilícito quando não se encerra nos limites marcados pelo pacto social. E a sociedade sem dúvida, pode para bem comum circunscrever a liberdade dos seus membros ou regular o exercício dela. Quando se diz que os homens são livres por natureza, não se quer significar que os homens nascem com uma inteira independência. Em todos os instantes da sua existência são sujeitos às leis que lhes impõe a natureza e a razão, enfim eles são subordinados às leis sociais, que sendo justas, não são mais que a fiel intérprete da natureza e da razão. O governo, órgão da sociedade encarregada por ela de determinar os limites da liberdade de seus membros, explica-se por meios das leis. Se são justas estas leis, fazem com que os cidadãos gozem de toda liberdade que a natureza e a razão lhes permitem exercer, relativamente as precisões e as circunstâncias da sociedade. Liberdade é faculdade que tem cada um de fazer para seu bem tudo o que permite a natureza do homem em sociedade. Esta definição é própria para distinguir-se a verdadeira liberdade dessa total e quimérica independência, que nunca foi a partilha do homem; far-nos-há conhecer quanto ela difere da desarrosoada licença, cujo uso seria nocivo tanto a nós como a outros...(extraviado) Cometer ações opostas as leis da natureza e da razão, e por consequência contrária ao fim social, não é mais que um delírio insuportável, que, por interesse geral, se deve reprimir e castigar. Mas por outra parte, quando a lei nos impede que façamos o que a natureza, a razão, o bem da sociedade exigem de nós ou nos permitem, é então injusta e tirânica; exceda o seu poder, visto que toda lei civil tão somente pode aplicar as leis da natureza ou interpretá-las do modo o mais conforme ao bem de cada sociedade. O bem da sociedade deve ser a medida da liberdade de seus membros. Os homens reunindo-se submetem-lhe suas ações, e se impõe o dever de nunca fazer uso de uma ilimitada independência, nenhum deles consente em ser despojado do direito de fazer o que, sem ofender os outros, possa contribuir para a sua própria felicidade e segurança. Assim, nem a sociedade, nem os seus membros em particular, podem renunciar a liberdade. Advirto que a palavra independência, de que uso tanto neste artigo, é em diverso sentido daquele, que hoje tem geralmente esta palavra no Brasil: significa neste caso não de fazer o que se quer sem sujeição. Faço esta nota porque esta folha pode ser lida por homens rudes, que confundem os termos; e todos sabem quão necessário é determinar a força e a significação dos vocábulos, mormente quando dizem respeito a coisas tão delicadas. *Texto publicado em 1825 no periódico Argos da Lei, número 7, e que é interpretado por Patrícia Braga (foto) em récitas

Integrantes do grupo � Alexandre Hasegawa (USP) � André Albino de Almeida � Aristóteles A. Predebon � Bianca Morganti (Unifesp) � Brunno Vieira (Unesp) � Carolina Alves Ferreira � Charlene Martins Miotti � Daniel Rossi � Giovani Klein � Isabella Tardin Cardoso

(docente) � Josiane Martinez � Júlio Maria do Carmo � Leandro Vendemiatti � Lucy Ana de Bem � Maria Célia Nobre � Mariana Musa de � � � �

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e continuarão a criar novos leitores e apreciadores de Odorico Mendes, na universidade e fora dela. Durante um bom tempo, essas traduções só estavam acessíveis a uns poucos. O que ainda realmente falta é divulgar Odorico no exterior, já que suas traduções têm uma grandeza que podem atrair o interesse dos leitores e estudiosos dos clássicos, apesar das dificuldades de uma língua relativamente pouco conhecida mundialmente. Em dezembro, alguns membros do grupo apresentarão comunicações sobre Odorico num congresso em Cuba; vamos ver se conseguimos alguma repercussão. Talvez devêssemos repetir a experiência em outros países. E se pensarmos que Odorico teve uma ligação estreita com a França, onde passou a viver a partir de 1847 até sua

Baú com produção poética se perdeu durante viagem Manuel Odorico Mendes nasceu em 1799, em São Luís do Maranhão, onde fez seus estudos pré-universitários. Ingressou no curso de Medicina em Coimbra, mas concluiu apenas o de Filosofia Natural; a morte do pai obrigou-o a voltar para o Brasil. Foi um político de renome no Império, destacando-se por sua atuação combativa, liberal e democrata. Escreveu poesia que se perdeu quase toda. É famoso o episódio do baú em que Odorico guardava sua produção poética e que se perdeu durante uma viagem rumo ao Rio de Janeiro. Fundou jornais e colaborou em vários órgãos da imprensa. Em 1847, depois de ter sido duas vezes deputado pelo Maranhão, aposentado do serviço público, mudou-se para a França, onde se dedicou à tradução de Virgílio e Homero. Faleceu em 1864, em Londres, que visitava antes de um planejado retorno ao Brasil em companhia de Gonçalves Dias. Além de vários artigos em jornais, Odorico é autor de um poema que se tornou famoso em sua época, o Hino à Tarde. Como tradutor, Odorico verteu duas tragédias de Voltaire, toda a epopéia homérica (Ilíada e Odisséia) e toda a obra de Virgílio (Bucólicas, Geórgicas e Eneida). A Eneida teve uma primeira versão publicada sob o título de Eneida Brasileira em 1854; a segunda versão saiu no livro Virgílio Brasileiro, de 1858. As traduções de Homero saíram postumamente. Fonte: Paulo Sérgio de Vasconcellos

morte em 1864, seria interessante divulgar as traduções nesse país. Aliás, Maurice Druon, o escritor e presidente da Academia Francesa de Letras, é descendente de Odorico. Seria interessante que o grupo contasse com uma estratégia de divulgação no exterior, além da que já temos, nossa página na internet. Imagino que mesmo sem ter pleno acesso ao difícil texto de Odorico, estrangeiros devem se interessar por informações gerais

a respeito de um projeto sem igual: a tradução integral, em versos, de todo Homero e todo Virgílio! JU – O que o sr. destacaria no campo da tradução no país? Vasconcellos – Há muita tradução descuidada em nosso país, e os casos de plágio, recentemente noticiados pela imprensa, são apenas o lado mais extremo disso, mas, ao mesmo tempo, o Brasil conta com excelentes

Paula e Silva Matheus Trevizam Patrícia Braga Patrícia Prata (docente) Paulo Sérgio de Vasconcellos (coordenador) Robson Tadeu Cesila Sidney Calheiros de Lima Yma Souza de Abreu

tradutores e trabalhos importantes, como o da tradução de Nietzsche por Paulo César Souza, trabalho de filólogo e ao mesmo tempo atento para o estilo do filósofo. Augusto de Campos continua produzindo suas traduções magníficas. Destacaria, na nossa área dos clássicos da Antiguidade, as traduções de nosso colega de IEL, o professor Trajano Vieira, que, na linha dos irmãos Campos e Odorico, tem produzido belas traduções das tragédias gregas. No campo do trabalho mais estritamente filológico, muita coisa interessante se tem feito. Mas o fato mais animador é que várias editoras do país têm publicado traduções dos clássicos. O mercado está aberto. Acho que, considerando as últimas décadas, nunca o momento foi mais propício para o tradutor de obras em latim ou grego antigo. Isso é essencial.

“Nunca o momento foi mais propício para o tradutor de obras em latim ou grego antigo”


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Pesquisa aponta vantagens de testes in vitro de medicamento Foto: Erika Guimarães

RAQUEL DO CARMO SANTOS kel@unicamp.br

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farmacêutico Daniel Rossi de Campos comprovou que os resultados dos testes in vitro e in vivo do medicamento pantoprazol – indicado para quem sofre com problemas gástricos – foram bastante semelhantes. Seu objetivo ao comparar os dados foi fomentar as discussões sobre a real necessidade de se utilizar voluntários sadios para os testes in vivo de medicamentos genéricos e similares a serem lançados no mercado. Segundo Campos, uma das últimas etapas para a liberação dos medicamentos exige a quantificação do fármaco em amostras biológicas de acordo com normativas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Campos explica que este tipo de procedimento, além de muito dispendioso, ainda esbarra em questões éticas. Neste sentido, o farmacêutico defende que os testes sejam feitos in vitro, ou seja, através de técnica apropriada e em laboratório de acordo com os princípios da classificação biofarmacêutica. “O custo final é infinitamente menor e pode-se conseguir segurança nos resultados semelhantes às obtidas in vivo”, destaca Campos. Para amparar sua tese, ele comparou o comportamento in vivo e in vitro de duas formulações de pantoprazol e comprovou a viabilidade da proposta.

Medicamentos expostos em farmácia: autor da tese defende que os testes sejam feitos por meio de técnica apropriada e de acordo com os princípios da classificação biofarmacêutica

Os dados, esclarece o farmacêutico, se correlacionaram muito bem e os resultados foram muito semelhantes entre

um processo e outro. O estudo, orientado pelo professor José Pedrazzoli Júnior, foi apresentado para obtenção Foto: Divulgação

do título de doutor na Faculdade de Ciências Médicas (FCM). No ano de 2000, explica Campos,

Estudante mapeia prática da ginástica em cidades da RMC

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Caminhão com efluentes na ETEJ: carga de chorume oriundo de aterros sanitários

Estudo mensura impactos de efluente no rio Jundiaí

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arte do efluente líquido despejado via caminhões na Estação de Tratamento de Esgoto da cidade de Jundiaí, localizada às margens do rio Jundiaí, não se adequa ao tipo de tratamento adotado na estação e acaba por oferecer risco ao processo e ao próprio rio. Um exemplo é o efluente conhecido como chorume. A engenheira ambiental Caroline Suidedos chegou a esta conclusão depois de realizar um estudo em que constatou um alto volume de resíduos despejados por outros municípios do Estado de São Paulo na ETEJ. Isto, segundo a engenheira, acarreta uma queda na qualidade do rio Jundiaí – que percorre 123 quilômetros e passa por seis municípios no Estado de São Paulo –, uma vez que ele recebe as águas da Estação de Tratamento. O estudo, orientado pelo professor

Pedro Sérgio Fadini e desenvolvido junto à Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC), analisou o processo de tratamento utilizado na Estação e a adequadabilidade do lançamento do diversificado tipo de efluente junto à estação. Ela tomou como parâmetro o volume e o tipo de resíduo que foram despejados ao longo de dois anos (2006 e 2008) por caminhões do tipo tanque na Estação de Tratamento originados de 107 municípios. “Trata-se de uma prática cada vez mais comum que está sendo adotada pelas estações com a prerrogativa da falta de condições para o tratamento”. De acordo com o estudo realizado por Caroline, o rio Jundiaí encontra-se na classe 4, ou seja, suas águas não são próprias para o abastecimento das cidades de seu entorno, situação que po-

deria ser diferente, caso se investisse na despoluição do Rio. A região, explica, é caracterizada pela escassez de abastecimento público e uma alternativa já utilizada são as águas do rio Atibaia (para o município de Jundiaí). O trabalho traz ainda a classificação de risco dos 107 municípios que despejaram seus resíduos na Estação de Tratamento. O estudo apontou que 3,7% dos municípios que enviaram seus efluentes se enquadram na classe de risco muito alto, 5,6% se enquadram na classe de risco alto e 12,3% como risco médio alto. Para Caroline, a Estação de Tratamento de Esgoto de Jundiaí necessita de adequações estruturais para minimizar os riscos que os efluentes via caminhão oferecem ao tratamento utilizado e aos recursos hídricos do rio Jundiaí. (R.C.S.)

a partir da liberação das regulamentações técnicas para o registro de medicamentos genéricos, o Brasil passou a oferecer, além da opção da condução dos estudos em voluntários sadios, a alternativa de se realizar os testes in vitro de solubilidade, permeabilidade e perfil de dissolução. Em 2006, no entanto, esta brecha na legislação foi suspensa e, desde então, apenas os testes in vivo passaram a ser aceitos para a bioequivalência. Mesmo porque, esclarece o farmacêutico, nenhuma empresa nacional adotou o procedimento. Os testes realizados com voluntários, segundo o farmacêutico, podem chegar a um custo final de R$ 200 mil a R$ 800 mil, dependendo do fármaco. No caso, dos experimentos in vitro, com um investimento em torno de R$ 50 mil a R$ 100 mil é possível obter os dados necessários à aprovação. Uma das principais barreiras para se realizar os testes in vitro seria a condução dos estudos de permeabilidade fora do país. “Ainda assim, o custo ficaria muito inferior”, argumenta. Campos acredita que falta embasamento técnico por parte das autoridades para que as discussões sobre os estudos in vitro tomem corpo. Este tipo de processo, segundo ele, é indicado para os casos de medicamentos de liberação imediata que contenham fármacos de ampla faixa terapêutica e é, atualmente, aceito pelas agências regulatórias americana (FDA) e Européia (EMEA).

Foto: Antoninho Perri

studo aponta o baixo número de iniciativas do poder público para a prática de Ginástica na Região Metropolitana de Campinas (RMC). Nas 19 cidades que compõem a região, foram constatados 55 programas de ginástica e, aproximadamente, 14,5 mil praticantes. Isto significa que apenas cinco municípios possuem mais de 1% da população envolvida com a prática da ginástica em projetos oferecidos pelas prefeituras. São eles: Valinhos, Sumaré, Jaguariúna e Paulínia, com destaque para Holambra, com 7,99% de praticantes, estando a maioria das cidades com menos de 0,5% da população praticando os programas de O estudante de Educação Física Pedro ginástica municipais, como é o caso de Bellini Emmanoelli: “Número de Campinas. O mapeamento da prática na praticantes era desconhecido” RMC foi feito pelo estudante de Educação Física Pedro Bellini Emmanoelli, orientado pela professora Elizabelth Paoliello, com bolsa de iniciação científica financiada pelo Serviço de Apoio ao Estudante da Unicamp. O objetivo, segundo Emmanoelli, foi aprofundar o conhecimento sobre a prática da Ginástica na RMC por meio de um mapeamento dos programas municipais oferecidos à população. “Não eram conhecidos a abrangência e o número de praticantes, a faixa etária, o tipo de ginástica e as condições de estrutura e funcionamento desses grupos”, atesta o graduando. Ele argumenta que os estudos até então produzidos da área não traduzem a realidade dessa modalidade na região e o fato de desenvolver este tipo de pesquisa possibilita o aperfeiçoamento dos profissionais envolvidos e a promoção de intercâmbio entre os praticantes por meio de torneios e festivais. A pesquisa foi compilada a partir de entrevistas com cada secretário de Esporte das dezenove cidades. O estudante identificou que, dentre os 55 programas oferecidos, 61% são destinados à prática da ginástica em busca do condicionamento físico, ou seja, aulas de ginástica localizada, musculação, alongamento, dentre outras, sendo 12 mil seus praticantes entre adolescentes, adultos e terceira idade. Apenas seis programas ou 11% têm como objetivo a prática pela demonstração, ou seja, a ginástica geral, e 16 (28%) proporcionam a vivência de práticas esportivas como ginástica artística, rítmica, acrobática, dentre outras. Observou-se, também, que o maior número de programas, 28 deles, são destinados aos adolescentes, seguida dos idosos, com 27; adultos, com 23 e, por último a das crianças com 16 programas que se dividem em ginástica geral e ginástica esportivas. Segundo Emmanoelli, fica evidente que os baixos níveis da relação entre o número de praticantes e a população municipal estão relacionados com a pequena abrangência dos programas desenvolvidos pelas secretarias de Esportes. Campinas, por exemplo, com pouco mais de um milhão de habitantes, possui apenas oito programas, com duas mil pessoas participantes. Em três cidades – Monte Mor, Nova Odessa e Pedreira – as prefeituras sequer oferecem algum tipo de programa para a população, deixando a cargo de empresas a oferta de tais atividades. “Muitas prefeituras da Região Metropolitana de Campinas demonstram pouca atenção e, consequentemente, investem de forma mínima nesta área da Educação Física, ocasionando as carências e discrepâncias apontadas por este trabalho”, conclui. (R.C.S.)


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A construção histórica do consumo e a gênese do capitalismo brasileiro Fotos: Reprodução

Tese defendida no IE mostra que a burguesia tradicional desprezava classe emergente MANUEL ALVES FILHO manuel@reitoria.unicamp.br

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consumo de produtos falsificados, muito presente nos dias que correm, não é uma prática específica do capitalismo contemporâneo. No caso brasileiro, o fenômeno tem suas raízes fixadas no início do processo de formação desse sistema, que seu deu entre o final do século 19 e começo do século 20. Já naquela época, as classes que não tinham acesso aos artigos sofisticados vindos da Europa, primazia das famílias produtoras de café e de alguns comerciantes em ascensão, recorriam às imitações. “Como a industrialização brasileira foi tardia, por volta dos anos 70, a falsificação foi um dos elementos que contribuíram para dar impulso à dinâmica própria do capitalismo, que diferencia e massifica a um só tempo”, explica a economista Milena Fernandes de Oliveira, autora da tese de doutorado “Consumo e Cultura Material, São Paulo, Belle Époque (1890-1915)”, apresentada recentemente no Instituto de Economia (IE) da Unicamp”. O trabalho foi orientado pelo professor Fernando Antonio Novais.  Em sua pesquisa, Milena buscou compreender a questão do consumo a partir de sua construção histórica. De acordo com ela, o tema constitui um importante instrumento para o melhor entendimento do capitalismo e da sua dinâmica. “A conexão entre as dimensões econômica e cultural permite a interpretação dos conflitos de classe para além da esfera da produção, o que amplia as possibilidades de estudo do materialismo histórico”, detalha. A pesquisadora informa que o marco do processo de formação do capitalismo brasileiro foi a abolição da escravatura e a consequente adoção do trabalho livre, processo este que teve em São Paulo seu carrochefe. O período coincidiu com a incipiente acumulação capitalista, que se manifestou na forma de administrar a propriedade agrícola, no desenvolvimento de atividade bancária urbana, no nascimento da indústria e na própria dinâmica de consumo. “Foram os primeiros indícios de uma sociedade capitalista nascente”, afirma a economista.  É a partir desse novo cenário, prossegue Milena, que surgem conflitos de classe que podem ser captados pela dinâmica de consumo. As famílias oriundas da riqueza cafeeira tinham um padrão de aquisição de bens materiais e culturais considerados sofisticados, fundado no modelo europeu, mais especificamente o francês. A cultura das lojas de departamentos e os romances de Gustave Flaubert, por exemplo, eram introduzidos no país por meio daqueles que viajavam à Europa, seja a passeio, seja a estudo ou trabalho. Subjacente a esse comportamento estava a intenção de ratificar uma posição social. Ao mesmo tempo, uma elite ascendente, formada por comerciantes

A economista Milena Fernandes de Oliveira, autora da pesquisa: “A conexão entre as dimensões econômica e cultural permite a interpretação dos conflitos de classe para além da esfera da produção”

Avenida Paulista no início do século 20: grandes vias eram versões locais dos bulevares parisienses

Anúncios de produtos revelam mudanças na dinâmica de consumo

de sucesso, aspirava ter acesso aos mesmos produtos. “Os documentos que analisei, principalmente no acervo dos Arquivos de Paris, revelam que a burguesia tradicional desprezava essa classe emergente, por considerá-la menos preparada e educada”, informa a autora da tese.   Nesse sentido, os grupos mais abastados procuravam se distinguir

dos demais não somente pelo produto consumido, mas também pelo capital cultural acumulado. Isso ficava especialmente claro no ambiente da Ópera. De acordo com os representantes dessa “aristocracia”, os integrantes dos segmentos em ascensão não tinham cultura e educação suficientes para entender o que se passava durante o espetáculo, e somente frequentavam o teatro para

Foto: Antoninho Perri

tentar demonstrar um status que de fato não detinham. “Em uma revista que analisei, datada da década de 20, havia uma clara crítica aos ‘esnobes’ que iam à Ópera, mas que não compreendiam nada do que estava sendo representado no palco. Eram chamados pelo autor do artigo de ‘esnobes profissionais’”, conta Milena. Paralela a essa situação, conforme a pesquisadora, havia também o desejo de consumo por parte dos segmentos ainda menos abastados. Como a base produtiva nacional, que ainda era incipiente, não tinha capacidade para atender à crescente demanda, aconteceu inicialmente a diferenciação para apenas posteriormente ocorrer a generalização desse mesmo consumo. “Num primeiro momento, a burguesia tradicional deu sequência ao seu padrão de aquisição de bens baseado no modelo europeu. O que nós chamaríamos hoje de classe média foi atendida, em parte, pela indústria nacional, que produzia artigos mais simples, como tecidos, pentes, chapéus, bolsas e luvas. Já os segmentos mais pobres passaram a recorrer às falsificações, também como forma de afirmação de uma identidade. Aliás, a chamada pi-

rataria é intrínseca ao capitalismo. Tanto no passado quanto hoje ela é uma forma de generalização espúria do que é particular”, analisa. Esse processo de contrafação como suporte de generalização de padrões, continua Milena, incomodou os franceses, importantes parceiros comerciais do país, principalmente no setor de bens de luxo. Vários dos produtos exportados por eles passaram, então, a concorrer com imitações nacionais, obviamente mais baratas. Por essa época, assinala a economista, existiam marcos legais relacionados às importações. Ela diz, porém, não ter conseguido identificar uma clara preocupação das autoridades brasileiras em defender a indústria nacional. “Alguns produtos considerados supérfluos, como bebidas e cigarros, passaram a ser taxados, mas isso nem de longe representava uma iniciativa ligada a um projeto nacionalista, como o que viria a ser implantado posteriormente no governo Vargas”, esclarece. Alguns comportamentos presentes na formação do capitalismo no Brasil, reforça a autora da tese, continuam orientando até hoje hábitos de consumo que são representativos, em alguma medida, do fenômeno de construção e reconstrução de hierarquias. A aquisição de produtos falsificados é apenas um deles. Outro é a aquisição por parte de trabalhadores, ainda que de forma árdua, de símbolos de status. “O piano é um símbolo claro para o século XIX. Um funcionário público da época, um trabalhador de recursos médios, segundo Jorge Americano, economizava a vida toda para comprar um piano para uma filha que logo casaria e, então, deixaria o piano de lado. O consumo funcionava, dessa forma, como uma ponte entre a base material e a cultura”, aponta Milena. Ademais, completa a economista, o consumo também esteve ligado desde sempre ao conceito de modernização. Associado ao processo de urbanização, o consumo se reportou a um modo de vida cosmopolita, relacionado por sua vez à forma como alguns segmentos entendiam a modernidade naquele momento. Inicialmente, as famílias ruralistas mantinham casas na cidade apenas para passar breves temporadas. Com o passar do tempo, elas foram se mudando definitivamente para a área urbana, em busca de luxo, comodidade e uma vida cultural mais atrelada à Europa. “Foi nesse contexto que foram formados, por exemplo, os bairros paulistanos de Campos Elíseos, Higienópolis e Santa Cecília. Em meio à transformação cultural em curso e à expansão das ideias cosmopolitas, também foram abertas as ‘grandes avenidas’, versões locais dos bulevares parisienses”, diz.


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� Cori recebe cônsul francês – A Coordenadoria de Relações Institucionais e Internacionais (Cori) recebe no dia 22 de junho, o Cônsul Geral da França em São Paulo, Jean-Marc Gravier. Ele profere, às 11 horas, no auditório da Diretoria Geral da Administração (DGA), a palestra “Relações Franco-Brasileiras: Perspectiva histórica”. � Richard Stallman – O fundador do software livre, Richard Matthew Stallman, faz palestra na Unicamp no dia 22 de junho, às 14 horas, no Centro de Convenções. A entrada é franca, com sala extra com telão e tradução simultânea. Stallman esteve na Unicamp em 2001. Retorna após oito anos. Veja como foi sua passagem pelo campus no Jornal da Unicamp: http://www.unicamp.br/ unicamp/unicamp_hoje/ju/abril2001/pag13abril2001.htm � Premiação - No dia 23 de junho, a partir das 18 horas, no anfiteatro 1 da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), acontece a entrega do Prêmio de Incentivo ao Ensino de Graduação “Miguel Tobar Acosta”. O prêmio é um incentivo para os professores que se destacam no ensino de graduação. O nome da premiação é uma homenagem ao médico fundador do Departamento de Medicina Preventiva e Social da FCM, Miguel Tobar que, já na década de 70, incentivava os alunos de medicina às atividades extramuro. � Carrapatos - De 24 a 26 de junho, no Centro de Convenções e no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, acontece o I Simpósio Estadual de Doenças Transmitidas por Carrapatos. O encontro, promovido pela Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Preac), pela Faculdade de Ciências Médicas (FCM), através da Disciplina de Moléstias Infecciosas, e pela Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), é aberto aos profissionais que atuam na área. Tem por objetivo promover o

intercâmbio técnico-científico entre técnicos e pesquisadores e discussões sobre medidas de controle. O simpósio é gratuito com vagas limitadas. Outras informações: http://www. sucen.sp.gov.br/Simposio/simposio.htm � Seminário do Geopi - As biólogas Ana Flávia Ferro e Paula Drummond, mestres e doutorandas pelo Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG), participam no dia 24 de junho, às 9 horas, no prédio da Engenharia Básica (EB-1), da 9ª edição da série de seminários do Geopi. Elas discutem: “Avanços e tendências do evolucionismo econômico à luz da evolução biológica”. O seminário terá como debatedores os professores Paulo Fracalanza e Manuel Ramon, do Instituto de Economia (IE). A bibliografia recomendada pode ser consultada endereço eletrônico: http://www. ige.unicamp.br/geopi/seminarios.php. Outras informações: soniatil@ige.unicamp.br � Americanas no IEL - O Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) recebe no dia 24 de junho, em seu auditório, as professoras americanas Barbara Will e Beth Ann Fennelly. Bárbara profere, às 16 horas, a palestra The Aesthetics of Cosmopolitanism. Beth fará, às 17h30, a  leitura de suas poesias. Outras informações: wligiaw@yahoo.com.br � Jamiro Wanderley na FCA - O médico Jamiro Wanderley, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, profere no dia 25 de junho, das 10 às 12 horas, uma palestra sobre qualidade de vida. O encontro ocorre no auditório da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), em Limeira-SP. Tem como público-alvo alunos dos cursos de Engenharia de Produção, de Manufatura, de Nutrição e de Ciências do Esporte. Inscrições e outras informações: http://www.fca.unicamp.br � Campanha do agasalho - Repúblicas estudantis da Unicamp arrecadarão, em ruas do distrito de Barão Geraldo, nos dias 26 e 27 de junho, agasalhos para a população carente da região. A coleta será efetuada por pessoas devidamente uniformizadas. Outras informações com Rodrigo, 19-9617-9149. � Seminário e lançamento de livro - No dia 26 de junho, a Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp realiza seminário e lançamento do livro Arouca, meu irmão. Uma trajetória a favor da saúde coletiva, de Guilherme Franco Netto, Regina Abreu, Helena Rego Monteiro, Fabrício Pereira e Sergio Lamarão. Os eventos ocorrem no Salão No­bre e no Espaço das Artes FCM, a partir das 14 horas. O livro é uma coedição entre Unirio, Contra Capa e Faperj. � Zíper em Poços - O Coral Zíper na Boca participa no dia 27 de junho, do V Encontro de Corais “Luzia de Oliveira”. A apresentação será no Teatro da Urca, às 19 horas, em Poços de Caldas (MG). � Encontro de corais - O 2º Encontro de Corais Canarinhos da Terra - Petrobras/ Unicamp acontece no dia 27 de junho, a partir das 10 horas, no auditório do Instituto de Artes (IA). Na oportunidade serão realizadas oficinas e apresentações artísticas. Os corais dos canarinhos infantil, preparatório, juvenil e o dos Meninos Cantores receberão os corais Grupo Primavera de Campinas e o juvenil do Núcleo Assistencial “Joana de Ângelis”, de Botucatu-SP. Outras informações:

19-3249-0583. � Processo seletivo FOP - A Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-Unicamp) abriu processo seletivo para seleção de candidatos para mestrado, doutorado e doutorado direto no Programa de Pós-Graduação em Odontologia nas áreas de concentração em Cariologia, Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica, Fisiologia Oral, Odontopediatria e Saúde Coletiva. O edital é voltado aos profissionais de nível superior da área de saúde ou áreas afins, para início das atividades acadêmicas no primeiro semestre de 2010. O Programa de Pós-Graduação em Odontologia da FOP tem amplo reconhecimento nacional e inserção internacional, com conceito 7 pela Capes. As inscrições estarão abertas até 30 de junho. Os exames serão realizados de 13 a 16 de julho de 2009 e constarão de prova específica da área escolhida, prova de inglês, currículo e projeto de pesquisa (este último para candidatos a doutorado e doutorado direto). Os resultados serão divulgados em 20 de julho de 2009. Os interessados em Pós-Doutorado podem entrar em contato direto com os docentes do Programa. Mais informações: www.fop.unicamp.br/cpg ou 19-2106-5250/5251.

� Alimentos - “Influência da edição de CO2 ao leite sobre as características físicoquímicas e microbióticas do queijo minas frescal” (mestrado). Candidata: Barbara Mesquita Dias. Orientadora: professora Mirna Dupas Gigante. Dia 26 de junho, às 10 horas, no auditório do DTA da FEA. � Biologia - “Variação morfológica dependente da planta hospedeira na borboleta Heliconius erato phyllis (Lepidoptera: Nymphalidae)” (mestrado). Candidato: Leonardo Ré Jorge. Orientador: professor André Victor Lucci Freitas. Dia 26 de junho, às 14 horas, na sala da congregação do IB. “Organização temporal em processos de condicionamento clássico aversivo e expressão da proteína Zenk no hipocampo de pombos” (mestrado). Candidato: Fernando Canova. Orientadora: professora  Elenice Aparecida de Moraes Ferrari. Dia 26 de junho, às 14 horas, na sala defesa de teses do prédio da CPG do IB. � Educação Física - “Resposta da taxa metabólica de repouso, densidade mineral óssea, força muscular e consumo de oxigênio após 16 semanas de treinamento com pesos em mulheres na pós-menopausa” (mestrado). Candidata: Valéria Bonganha. Orientadora: professora Vera Aparecida Madruga. Dia 22 de junho, às 14 horas, na sala da congregação da FEF. � Engenharia Elétrica e de Computação - “Animação facial 2D sincronizada com a fala baseada em imagens de visemas dependentes do contexto fonético” (mestrado). Candidata: Paula Dornhofer Paro Costa. Orientador: professor José Mario De Martino. Dia 22 de junho, às 9 horas, na sala de defesa

de teses da Comissão de Pós-graduação da FEEC. � Engenharia Mecânica - “Modelo dinâmico para o contato em mancais de elementos rolantes sujeito à lubrificação elasto-hidrodinâmica” (mestrado). Candidato: Fábio Nonato de Paula. Orientadora: professora Katia Lucchesi Cavalca Dedini. Dia 26 de junho, às 10 horas, no auditório DEF da FEM. � Física - “Desenvolvimento de um laser de Nd: YLF vermelho para um relógio atômico óptico de cálcio” (mestrado). Candidata: Mayerlin Nuñez Portela. Orientador: professor Flávio Caldas da Cruz. Dia 24 de junho, às 10 horas, no auditório da pós-graduação do IFGW. � Linguagem - “As faces do medo nos contos de Clarice Lispector” (mestrado). Candidata: Carolina Luiza Prospero. Orientadora: professora Suzi Frankl Sperber. Dia 23 de junho, às 14 horas, na sala de defesa de teses do IEL. “As representações dos Tapirapé sobre sua escola e as línguas faladas na aldeia: implicações para a formação de professores” (doutorado). Candidata: Maria Gorete Neto. Orientadora: professora Marilda do Couto Cavalcanti. Dia 26 de junho, às 9 horas, na sala de defesa de teses do IEL. “O estatuto da palavra que tem efeito neológica na construção delirante” (mestrado). Candidato: Walker Douglas Pincerati. Orientadora: professora Claudia Thereza Guimarães de Lemos. Dia 26 de junho, às 11 horas, na sala do telão do IEL. “Corpo a corpo com o texto literário” (doutorado). Candidata: Eliana Kefalás Oliveira. Orientadora: professora Suzi Frankl Sperber. Dia 26 de junho, às 14 horas, no auditório do IEL. � Medicina - “Alteração morfofuncional do tálamo em epilepsia mioclônica juvenil” (doutorado). Candidata: Susana Barreto Mory. Orientador: professor Li Li Min. Dia 24 de junho, às 9 horas, no anfiteatro do Departamento de Neurologia da FCM. “Avaliação dos efeitos do óleo extraído dos grãos verdes de Coffea arábica L. e dos fitoesteróis de Brassica campestris L. na melhora da celulite e da gordura localizada” (doutorado). Candidata: Maria Del Carmem Velazquez Pereda. Orientadora: professora Mary Luci de Souza Queiroz. Dia 25 de junho, às 14 horas, no anfiteatro do Departamento de Farmacologia da FCM. � Odontologia - “Efeito do condicionamento ácido do esmalte na adaptação marginal in vivo de restaurações indiretas em resina composta cimentadas com material autoadesivo” (mestrado). Candidata: Cristiana Godoy Satori Azevedo. Orientador: professor Mário Fernando de Goes. Dia 29 de junho, às 14 horas, na sala da congregação da FOP. � Química - “Síntese de híbridos de siloxano e β-ciclodextrina” (mestrado). Candidata: Camilla Abbehausen. Orientadora: professora Inez Valéria Pagotto Yoshida. Dia 22 de junho, às 9 horas, no miniauditório do IQ. “Topologia de complexos formados entre drogas/β-ciclodextrinas/lipossomas/células, aplicando técnicas de ressonância magnética nuclear - RMN” (doutorado). Candidato:

Foto: Antonio Scarpinetti

UPA espera receber 60 mil estudantes de todo o país 9/6/2009 –  A sétima edição do evento Unicamp de Portas Abertas (UPA) acontece nos dias 11 e 12 de setembro, sexta-feira e sábado, apenas no campus de Campinas. O objetivo é que estudantes do Ensino Médio conheçam os cursos que a Universidade oferece e, assim, possam definir melhor suas opções para os futuros vestibulares, incluindo o 2010. As inscrições estão abertas no site oficial da UPA. A estimativa é receber 60 mil visitantes nos dois dias. Em 2008 foram 55 mil. Antes mesmo da divulgação oficial do site, quatro escolas haviam confirmado suas inscrições, totalizando quase 250 inscritos. A primeira é do ensino privado de Jundiaí, o Colégio Leonardo da Vinci, situado na Vila Municipal, com 47 estudantes; e, a segunda, a escola pública E.E. “Prof. Fábio Hacl Pínola”, de Nazaré Paulista, com 50. Aparecem na sequência

Estudantes no Ginásio Multidisciplinar na edição da UPA do ano passado: conhecendo os cursos oferecidos pela Unicamp

Quatro visões iluministas sobre a educação matemática Diderot, D’Alembert, Condillac e Condorcet

Autor: Maria Laura Magalhães Gomes Sinopse: Em várias de suas obras, quatro dos pensadores franceses mais importantes do século XVIII — Denis Diderot (1713-1784), Jean d’Alembert (1717-1783), Étienne Bonnot de Condillac (1714-1780) e Jean-Nicholas-Caritat, o Marquês de Condorcet (1743-1794) —, além de conferirem à matemática um lugar privilegiado entre os conhecimentos humanos, enfatizaram que o acesso a essa ciência era possível a todos. Este livro apresenta e analisa os pontos de vista comuns, as singularidades e as divergências do pensamento desses autores sobre os conhecimentos matemáticos e sua difusão na França do Século das Luzes. ISBN: 978-85-268-0810-2 Ficha técnica: 1a edição, 2008; 344 páginas; formato: 14 x 21 cm Área de interesse: Matemática; educação. Preço: R$ 48,00

Luis Fernando Cabeça. Orientadora: professora Anita Jocelyne Marsaioli. Dia 23 de junho, às 12h30, no miniauditório do IQ. “Estudos de QSAR de compostos com atividade leishmanicida” (doutorado). Candidata: Kesley Moraes Godinho de Oliveira. Orientador: professor Yuji Takahata. Dia 26 de junho, às 14horas, no miniauditório do IQ.

o Anglo Cassiano Ricardo, de São José dos Campos, com 45, e a EMF Nilza Tomazini, de Sumaré, com 100 inscritos. A coordenadora-executiva da UPA, professora Vera Madruga, enfatizou que muitos alunos que conheceram a Unicamp através desse evento ingressaram na Universidade e estão cursando a graduação ou a pós-graduação. “A instituição acaba sendo uma porta de entrada para as perspectivas dos alunos, principalmente graças aos cursos que oferece. Esperamos que cada vez mais novos estudantes conheçam a Unicamp e optem por estudar aqui, gente talentosa e empenhada por desenvolver seu conhecimento”, incentivou.  A UPA é um encontro anual em que a Universidade abre suas portas a estudantes de ensino médio e fundamental de todo o País. O objetivo é oferecer-lhes a oportunidade de conhecer uma das mais importantes instituições de ensino superior do Brasil, com seus 66 cursos de graduação e 127 programas de pósgraduação. É, ao mesmo tempo, um destacado centro de investigação científica e tecnológica, com 21 faculdades e institutos e milhares de projetos em desenvolvimento. Os visitantes serão recebidos pela comunidade de 33 mil alunos, 1.700 professores e 7 mil funcionários da Unicamp. (Isabel Gardenal)


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O mosaico do desemprego Foto: Antoninho Perri

Tese de doutorado interpreta as novas configurações do fenômeno

Foto: Antonio Scarpinetti

LUIZ SUGIMOTO sugimoto@reitoria.unicamp.br

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doutora em ciências sociais Marineide Maria Silva foi feliz no título que escolheu para a tese que apresentou na Unicamp em 9 de junho: O mosaico do desemprego, que bem sintetiza o conjunto de informações que colheu sobre o fenômeno do desemprego, principalmente junto aos próprios desempregados. “A estatística trabalha com dados do desemprego como uma categoria mais uniforme. Minha pesquisa de campo revelou um verdadeiro mosaico de significados e vivências que o fenômeno suscita. É impossível afirmar que o desemprego ‘é isto’; é preciso perguntar: o que é o desemprego para quem vive a situação?”. Marineide Silva é de Florianópolis e, no percurso até o trabalho, já tinha atentado para o aumento do número de andarilhos que se esgueiravam pela praça à espera do sopão. Há alguns anos, prestou concurso para a cadeira de sociologia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), como diz, em busca do seu “emprego seguro”. Daí, o fato de as 57 entrevistas que embasam a pesquisa, com muitas horas de gravação e observações, terem sido realizadas na urbana Salvador e em Vitória da Conquista como contraponto regional. A autora defendeu a tese no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, com a orientação da professora Márcia de Paula Leite. Para compor o mosaico, promoveu recortes no rol de desempregados: geracional (jovens e adultos), gênero e escolaridade/qualificação. Fez as entrevistas nas agências de intermediação de mão-de-obra, como a Setre (Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e do Esporte da Bahia), vinculada ao Sine (Sistema Nacional de Emprego). Também ouviu funcionários das agências e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD). A pesquisadora justifica que a maneira como os indivíduos compreendem o desemprego, com todas as tensões envolvidas, fornece informações sobre o mundo do trabalho e a oportunidade de interpretar suas novas configurações. “Por isso mesmo, os entrevistados foram escolhidos a partir daquele que se considera desempregado, mesmo que não seja assim enquadrado pelos critérios oficiais. Acho que essa é a riqueza da pesquisa, que procura entender o desemprego para além dos dados oficiais, buscando a compreensão subjetiva de quem vive essa condição”. De acordo com Marineide Silva, até o início da década de 1980, havia um ciclo emprego-desempregoemprego e o sujeito demitido tinha perspectiva de retornar ao mercado, preservando sua identidade de trabalhador mesmo depois de meses

Por considerar os recortes geracional, de gênero e de escolaridade/qualificação insuficientes para descrever o desempregado dos dias de hoje, a pesquisadora Marineide Maria Silva recorreu às estratégias identitárias preconizadas por um conceituado sociólogo estudioso do tema, o francês Claude Dubar. Construiu, assim, quatro categorias de identidade do desempregado:

Marineide Maria Silva, autora da pesquisa: “Quanto mais escolarizado e qualificado, mais vergonha o desempregado tem da sua situação”

de inatividade. “A partir dos anos 90, esse ciclo foi rompido, e esse retorno ficou cada vez mais difícil e incerto”. A autora da tese lembra que, de maneira geral, entende-se que o desempregado se considera um alijado da sociedade, que vive uma experiência dolorosa, carregada de culpa e vergonha, por conta do sentimento de improdutividade. Porém, em sua opinião, a vivência do desemprego não pode ser traduzida como homogênea. “Uma generalização, por exemplo, é de que o desemprego é sofrido. Com a pesquisa, cheguei à conclusão de que sofrimento não é igual para todos”. A cientista social afirma que o sofrimento subjetivo desencadeado pelo desemprego liga-se diretamente à forma como os indivíduos apreenderam o trabalho, à trajetória familiar que tiveram (sobretudo do pai), aos projetos de futuro e aos investimentos familiares em seu processo de escolarização e profissionalização. “Se a vivência do desemprego é dolorosa para aqueles que foram socializados com a idéia do trabalho como forma de inclusão e ascensão social, o mesmo não acontece com quem nunca visualizou essa possibilidade”. Esta constatação de Marineide Silva vem do recorte referente à escolaridade e qualificação, no qual as entrevistas contrariaram o que imaginava. “Quanto mais escolarizado e qualificado, mais vergonha o desempregado tem da sua situação. Minha interpretação é de que ele contava com suporte financeiro maior

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e teve quebrada sua trajetória de vida. Como manter um padrão próximo daquele que gozava? O desemprego é mais sofrido para esse sujeito”. Por outro lado, a pesquisadora explica que o pobre (normalmente não escolarizado e não qualificado) teve toda a sua trajetória marcada por miséria e sofrimento. “Ele sempre esteve na viração (o bico), na precariedade, assim como seus pais. Não está procurando um emprego, mas caçando a sobrevivência, que se vier será com outro trabalho precário. O desemprego, nesse caso, não tem o que agravar, pois sua vida é tocada praticamente sem renda”. Recortes Dentre os mosaicos que construíram a pesquisa, a autora vê como significativo o que contrapõe jovens e adultos. “Os adultos foram socializados em outro mundo do trabalho, onde havia mais emprego e a expectativa de absorção pelo mercado desde que estivessem dispostos. Para eles, o desemprego é um peso, pois imaginavam uma trajetória igual à dos pais que, mesmo tendo estudado pouco, conseguiram um emprego que durou a vida toda”. Os mais jovens, segundo Marineide Silva, já quebraram este elo com o mundo anterior, transformado pelo processo de globalização, pela reestruturação produtiva e pelo discurso da empregabilidade. “Os jovens mergulharam na nova cultura do trabalho, com os empregos temporários, flexíveis e os estágios. Utilizam inclusive outro jargão:

não estão procurando emprego, mas buscando experiência. Ao invés de sofrimento, o desemprego é visto como uma oportunidade de rever seus conceitos”. O desemprego é considerado mais sofrido para os homens, desde que a mulher não seja chefe de família. Entretanto, a pesquisadora ressalta um aspecto curioso em relação a gênero. “O homem assume a condição de desempregado e, em casa, fica ansioso, deprimido, começa a beber. Já a mulher vive um dilema entre reassumir as ocupações do lar e procurar uma atividade correlata para prover algum sustento, como vender doces, salgados e bijuterias. Isto, mesmo entre as mulheres mais qualificadas”. Igualmente curioso, acrescenta a autora, é a percepção do entrevistado quanto às causas do seu desemprego e dos outros. “Quando falam de si, o desemprego se deu por motivos externos, como reestruturação produtiva ou fechamento da empresa. Quanto ao outro, foi por escolhas erradas ou falta de empenho e qualificação. Já dentro do Movimento de Trabalhadores Desempregados, o desemprego nunca é visto como um problema individual: culpam-se as empresas, as circunstâncias econômicas e a falta de oportunidades; não há qualquer sentimento de culpa ou vergonha por sua condição”. Dualidade Uma preocupação na tese de doutorado, elogiada pela banca e indicada para publicação, foi avaliar o atendimento nas agências de interme-

As quatro identidades do desempregado O sobrevivente

Sujeito que foi pobre a vida inteira e, assim como os pais, começou a trabalhar muito cedo, sem poder estudar e se especializar. Sabe que não tem chance no mercado, mas não está preocupado com a qualificação e sim em sobreviver. Não sente vergonha da condição de desempregado; no fundo, sente orgulho por manter-se vivo. Sua identidade não repousa no emprego, mas na índole de batalhador na vida.

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O esperançoso

É tão pobre quanto o sobrevivente, com uma diferença: tem pais que construíram uma trajetória ascendente, como de porteiro a zelador e supervisor. É um filho que continua na linha da pobreza, quase não possui qualificação, mas alimenta a esperança de repetir a trajetória de ascensão dos pais. Como nem vaga de porteiro consegue, sofre com o desemprego.

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O apreensivo

É aquele que mais sofre entre os desempregados. Seus pais ascenderam economicamente pelo trabalho, deram-lhe qualificação a ainda assim não consegue seguir na mesma linha. Para as agências, é o sujeito com potencial, mas preso ao conceito do passado, buscando o emprego seguro que não mais existe. É apreensivo porque diante do novo discurso do emprego temporário e flexível disponível no mercado, herdou a identidade de ascensão pelo trabalho e não consegue se desprender da socialização recebida dos pais.

diação de mão-de-obra. “Vejo uma dualidade na forma como as agências institucionalizam o desemprego. Em um primeiro discurso, ele é visto como um problema individual do sujeito, que não atende aos requisitos mínimos do mercado. Por outro lado, diante da presença frequente do sujeito qualificado, mas que também não consegue emprego, os funcionários identificam um problema social”. Marineide Silva acusa as empresas de se aproveitar da crise no emprego para exagerar nas exigências, por vezes descumprindo a legislação trabalhista. “Constatei que o desemprego tem cor, idade e endereço, haja vista a exclusão de negros, mais velhos e moradores de bairros periféricos. Entre as exigências absurdas está a de ‘boa aparência’, cuja tradução é ‘não negros’. O limite de idade é de 35 anos, mesmo com boa escolaridade, e o candidato deve residir perto da empresa para evitar atrasos e o custo com vale transporte”. A pesquisadora considera um tanto escusa a relação das agências de intermediação com essas empresas, ainda que atendentes e coordenadores reconheçam o exagero das exigências. “O critério da boa aparência, por exemplo, não pode constar no formulário, mas fica implícito: se a atendente não acatar, a empresa recusará o candidato e, consequentemente, a agência deixará de contabilizar uma colocação profissional – os recursos vindos do governo dependem das colocações efetivadas. Se o desemprego já é um monstro assustador, acaba se revestindo de mais perversidade”.

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O otimista

Trata-se principalmente do jovem, com qualificação ou não, que mergulhou neste novo universo do trabalho frágil e instável. Vê o desemprego como um período para rever valores. Para ele, a trajetória dos pais é de quem nunca obteve sucesso com o trabalho e passou a vida na mesma empresa, executando a mesma tarefa, até se aposentar – e ele quer uma trajetória oposta. Perguntado sobre a condição de desempregado, responde que está buscando uma boa oportunidade, ainda que a busca já dure dois anos.


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JORNAL DA UNICAMP

Campinas, 22 a 28 de junho de 2009 Fotos: Divulgação

CARMO GALLO NETTO carmo@reitoria.unicamp.br

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o Brasil, a criação de uma área protegida deve ser antecedida, por lei, de um plano de manejo. O documento técnico determina quais interferências humanas são suportáveis pela área. Mas isso raramente ocorre. A maioria das áreas de proteção ambiental é criada sem a ferramenta porque sua elaboração depende de estudos que permitem conhecer como os animais interagem entre si e com o ambiente e como funcionam os ecossistemas. Em consequência, a maioria das áreas protegidas criadas no país não tem plano de manejo porque faltam informações sobre elas. Estudo desenvolvido pelo biólogo Osmar José Luiz Junior, que deu origem à dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e orientada pelo professor Ivan Sazima, tem como consequência prática fornecer elementos para um futuro plano de manejo do Parque Estadual Marinho Laje de Santos. Situado a 36 km do litoral da cidade de Santos, constitui, desde 1993, a única reserva marinha do estado de São Paulo onde são proibidas a pesca e a caça submarina, mas permitido o turismo. Esta diminuta área do mar de cinco mil hectares engloba a superfície marinha, uma ilha de 500 metros de comprimento por 185 metros de largura e a Laje propriamente dita. Constituída de rochas graníticas cobertas por algas e várias espécies de invertebrados, mas sem vegetação, a Laje é formada por recifes na maioria submersos. Embora próxima ao município de São Paulo e frequentada nos fins de semana por dezenas de mergulhadores, muito pouco se sabe sobre sua biologia. Constituiu foco principal do pesquisador o levantamento das espécies de peixes na reserva, face à intimidade que tem com eles, embora lá existam outros seres vivos. Ele localizou no parque, ao longo dos mais de dez anos que o frequenta, 196 espécies de peixes, a maioria com ocorrência comum a todo o Atlântico Ocidental tropical ou nos dois lados do Oceano Atlântico. Número que ele considera relativamente grande em vista do diminuto tamanho da área e pelo fato dos recifes serem rochosos, pois os de corais, face à diversidade de formações e reentrâncias, possibilitam a ocorrência de maior variedade de espécies. Durante o trabalho, Osmar Luiz descobriu uma espécie de peixe não catalogada, de cerca de 20 cm de comprimento, a que deu o nome de Halichoeres sazimai, “em homenagem ao meu orientador, Ivan Sazima”. Além de determinar a composição de peixes da comunidade do parque, o pesquisador estudou também a estrutura da comunidade dos peixes dessa reserva, quanto à composição e abundância das espécies, em relação a quatro variáveis ambientais. São elas: influência da profundidade – pois existem peixes que vivem preferencialmente na parte rasa e outras na funda; influência da complexidade do substrato – característica relacionada É grande a variedade de tamanho entre as espécies; algumas garoupas, graças ao fato de a Laje ser uma área protegida, conseguem crescer até a quase um metro e meio de comprimento, enquanto outras espécies menores, como o blênio, mal chegam a 5 centímetros

SOB A LAJE O biólogo Osmar José Luiz Junior: 196 espécies de peixes identificadas

As espécies de peixes que habitam a Laje de Santos variam muito em seu comportamento; algumas espécies formam grandes cardumes como a pirajica

O budião-dofundo é uma espécie que foi descrita na pesquisa; seu nome científico, Halichoeres sazimai, é uma homenagem ao professor Ivan Sazima, orientador da dissertação

ao número de reentrâncias que existem nas pedras; influência do batimento de ondas – pois a ilha tem duas faces, uma voltada para o mar aberto e outra mais

abrigada; e influência sazonal da água fria oriunda da ressurgência – fenômeno oceanográfico que transporta a água da superfície para o mar aberto,

levando a água mais fria do fundo a formar camada logo abaixo da superfície. Esta modificação afeta os peixes de características mais tropicais que passam para as águas superiores, mais quentes, permanecendo na camada inferior as espécies que existem mais ao sul e que podem ser encontradas até o litoral argentino. Osmar Luiz considera que, do ponto de vista prático, o estudo visa fornecer dados para um futuro plano de manejo da área. É através dele que se determinará, por exemplo, quantos mergulhadores poderão visitar o local por dia, como isso pode afetar a comunidade de peixes e de outros microorganismos que ainda não foram estudados. Sua viabilização exige estudos de ecologia que permitirão

estabelecer normas para o turismo local e determinar em que medida poderá ser ou não liberada a pesca local. Essa é a vertente prática do trabalho, pois o plano de manejo visa proteger a reserva de impactos humanos. O pesquisador explica que “para saber como ações humanas podem afetar negativamente o ambiente dos peixes é preciso conhecer, por exemplo, o fenômeno da ressurgência, para desvincular seus efeitos das modificações resultantes do impacto do turismo de mergulho”. Do ponto de vista cientifico e teórico, o trabalho contribui para a ciência pura, que procura saber como diferentes espécies de peixes coexistem e como suas comunidades se organizam. O pesquisador lembra que, comparada com outras áreas, a reserva apresenta grande diversidade de espécies e que, além disso, como se trata de um local em que a pesca é proibida há muitos anos, encontram-se ali preservadas varias espécies ameaçadas de extinção porque alvo de pesca ou caça submarina. São os casos do mero e garoupas muito pescados em áreas não protegidas. Ele observou ainda que as garoupas em lugares não protegidos têm no máximo 20 cm e são ariscas, enquanto na reserva elas chegam a 80 cm e não têm medo do mergulhador, que não sentem como predador. Por sua vez, o mero é o maior peixe local a atinge até 2,5 m. O trabalho teve financiamento do CNPq e apoio logístico da ONG Instituto Laje Viva. Conclusões O pesquisador conclui a dissertação afirmando que a comunidade de peixes recifais do Parque Estadual Marinho da Laje de Santos é dominada por poucas espécies de ampla distribuição e grande abundância em todo o Oceano Atlântico Ocidental, além de muito versáteis em relação à dieta e ao uso do habitat. Entre os quatro fatores abióticos estudados – assim denominados os relacionados ao meio –, a profundidade é o que mais influi na determinação da estruturação da comunidade, observando-se um decréscimo contínuo da riqueza de espécies e da abundância de indivíduos com o aumento da profundidade, diferentemente do que ocorre nos recifes de corais, mas de padrão semelhante aos observados nos recifes rochosos temperados do Mediterrâneo e subtropicais do Pacifico Oriental. A presença de maior parte de espécies de afinidades tropicais em local afetado sazonalmente por intrusões de águas frias oriundas de eventos de ressurgência em suas partes mais fundas, provavelmente, diz ele, explicam a tendência de “empobrecimento” da comunidade em relação à profundidade. Depois de analisar os efeitos dos vários fatores físicos considerados no estudo ele sugere que há uma escala hierárquica de importância deles na estruturação da comunidade de peixes recifais na Laje de Santos. Em agosto, Osmar Luiz iniciará doutorado em ecologia computacional na Macquarie University, em Sidney, na Austrália, para a qual foi selecionado concorrendo a uma das duas bolsas oferecidas apresentando projeto de pesquisa.

As raias-jamanta Durante os anos em que freqüentou o parque marinho, Osmar Luiz sempre ouviu dos mergulhadores referências às raias-jamanta que lá aparecem em determinadas épocas do ano. Elas chegam a ter 5 m de largura e são consideradas as maiores do mundo. Por meio de um levantamento de fotografias datadas tiradas por mergulhadores no período de nove anos (1999-2007) – conseguiu, juntando 79 delas, descobrir que essas raias aparecem efetivamente no inverno, de maio a agosto, embora não se conheça sua rota de migração. Isso o levou a publicar um trabalho e a fazer um projeto para determinar as rotas das raias, como forma de descobrirlhes as origens. Com a ajuda da ONG Instituto Laje Viva, conseguiu da Petrobras apoio para projeto que prevê a utilização de transmissores via satélite, que custam cerca de 10 mil dólares cada um e que são os mesmos usados para acompanhar o deslocamento de baleias e tubarões. Acoplado ao corpo do animal, o transmissor permite determinar a rota. A Petrobras aprovou o projeto e ele aguarda julho, temporada das raias, para iniciar o trabalho. Em artigo publicado na revista Mergulho Osmar Luiz faz referência à riqueza da Laje de Santos e destaca as míticas raias-jamanta. Diz entre outras coisas que: “Alguns pontos de mergulho parecem abençoados por Deus. A Laje de Santos certamente é um deles. Entre suas principais atrações encontram-se: visibilidade que varia regularmente entre 20 e 30 metros; grandes peixes como garoupas, caranhas e meros; baleias e golfinhos nadando nos arredores. E como se não bastasse, para deleite dos mergulhadores, é ponto de encontro

de gigantescas raias-jamanta”. “As raias-jamanta estão entre os maiores peixes do mundo, pesam mais de uma tonelada e chegam a medir até 6 metros da ponta de uma nadadeira a outra. São totalmente inofensivas e se alimentam quase que exclusivamente de zooplâncton – pequenos organismos que vivem dispersos na coluna d’água”. “Por causa de sua grande capacidade de deslocamento mar afora, alguns poucos lugares no mundo são conhecidos por possibilitarem mergulhos certos com raias-jamanta. A ilha de Yap, na Micronésia; Kona no Hawaii; e o Mar de Cortez, no Pacifico Oriental, são os pontos de mergulho mais conhecidos onde podem ser observadas raias-jamanta. Isso torna muito especial essa frequente ocorrência na Laje de Santos, pois aqui pertinho de nossas casas, mesmo para quem está fora do estado de São Paulo, há a possibilidade de realizar um mergulho que, de outra forma, custaria alguns milhares de dólares”. “Um aspecto muito interessante das jamantas é que a parte de baixo de seus corpos é manchada com pintas negras e cinzentas. Essas manchas apresentam padrões que não se repetem de indivíduo para indivíduo e são como impressões digitais de cada animal. Da mesma maneira como é feita com as caudas das baleias-jubarte em Abrolhos, estamos fotografando o ventre das jamantas da Laje de Santos para procurar saber, entre outras coisas, o tamanho populacional e se os animais que vêm à Laje em diferentes anos são os mesmos. Apesar do trabalho ter se iniciado há pouco tempo, já temos 62 indivíduos diferentes identificados. Conseguimos registro de retorno de uma mesma raia-jamanta fotografada no local em 1999 e em 2007”.


Jornal da Unicamp nº 433