Issuu on Google+

CHECKk INn EDIÇÃO 1 - FEVEREIRO 2014

KEVIN RAUB Um jornalista viajante que trabalha em férias VIAGEM SEM PERRENGUE Um guia para lidar com a burocracia

O HOMEM QUE PEDALOU O MUNDO A incrível história de Arthur Simões e o diário de uma bicicleta

COUCHSURFING Aprenda a surfar por sofás MARTE Por que não? 1


2


Edição nº 1

Quem somos

F

oi com muito trabalho e dedicação que a Revista Check In finalmente ficou pronta. Todo o esforço gasto nesses últimos meses teve um único grande objetivo: criar um produto novo, diferente do que já existe e que seja útil para todo mundo que é apaixonado por viagens. Ou seja, a ideia era fugir do convencional, não ser um mero guia turístico e sim uma revista de informações. Não foi nada fácil cumprir essa missão. Nossos repórteres gastaram horas na rua e na redação escolhendo as melhores pautas, buscando as fontes mais conceituadas, redigindo todas as reportagens e sempre se perguntando a mesma coisa: “será que isso não é muito clichê?”. De fato, descobrimos que escolher um caminho alternativo é muito mais complicado do que seguir a rota que já existe. Porém, quando se atinge o destino final, a satisfação é recompensadora. A Chek In nasce com uma proposta inovadora. Percebemos que quem gosta de viagens não está necessariamente viajando o tempo todo. Acreditamos que o viajante tem interesse em vários outros assuntos além do turismo. Assim, você vai encontrar nas próximas páginas temas como política, economia, sociedade, saúde, tecnologia, moda e muito mais. Tudo, é claro, relacionado ao universo de quem viaja, gosta de viajar, ou simplesmente sonha em conhecer novos lugares. Nesta primeira edição, entrevistamos pessoas que já percorreram o mundo, como o jornalista Kevin Raub – que trabalha viajando – e Arthur Simões, que deu uma volta na Terra a bordo de uma bicicleta. Tem também quem sonha em ir ainda mais longe: para Marte, através do programa Mars One. Mas também conhecemos a realidade de quem já estaria satisfeito só em poder ver o mar. Histórias, sonhos e novas possibilidades. Tentamos trazer o mundo inteiro para dentro desta revista. Mas nessa missão nós falhamos: aprendemos que sempre haverá alguma coisa nova a se explorar e a se aprender. Caros leitores, temos a honra de convidar vocês a embarcar nessa revista. Apertem seus cintos, tenham uma boa leitura e voltem nas próximas edições. Boa Viagem!

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Reitor: Dr. Julio Cezar Durigan Vice-reitora: Dra. Marilza Vieira Cunha Rudge Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – FAAC Diretor: Dr. Nilson Ghirardello Vice-diretor: Dr. Marcelo Carbone Carneiro Departamento de Comunicação Social Chefe: Dr. Juarez Tadeu de Paula Xavier Vice-chefe: Dr. Angelo Sottovia Aranha Curso de Jornalismo Coordenador: Dr. Francisco Rolfsen Belda Vice-coordenadora: Dra. Suely Maciel Planejamento Gráfico Editorial III Professores: Dr. Francisco Rolfsen Belda e Tássia Zanini Jornalismo Impresso III Professor e Jornalista Responsável: Dr. Mauro de Souza Ventura 6º Termo Jornalismo Diurno Alunos: Annelize Pires Carolina Rodrigues Gabriel Oliveira Marina Paschoalli Mayara Abreu Mendes Isis Rangel Renan Fantinato Wagner Alves

3


Meu trabalho é férias p. 26

Quando o lazer se torna trabalho p. 62

Conde de Braga e a viagem ao Novo Mundo p. 19

Diário de uma bicicleta p. 42

Índice

E mais: Para não esquecer: Óculos de Sol

p. 06

Viagens Históricas - Conde de Braga p. 19

4

Ensaio Fotográfico - Chegadas e Partidas

p. 68

Moda e Estilo

p. 78


p. 24

Vai pra onde? - Toronto

p. 33

É do Brasil? - Pernambuco

p. 96

Crônicas de Tenotchitlán

p. 94

Para ler e assistir

p. 53

Tech

5

O céu não é o limite p. 38

Uma ponte entre o campo e a praia p. 12

Born to be wild p. 84

Voando com asas de sonho e liberdade p. 34


Cris Vector

PARA Nテグ ESQUECER

6

barraca テウculos de sol protetor solar cobertor toalha escova de dente


Carolina Rodrigues

H

á quem diga que os olhos são a janela da alma. E para um viajante, talvez, sejam mais que isso. Afinal, é através deles que registramos grande parte das experiências que vivemos. Nos últimos anos, foi crescente o número de pessoas que inseriu os óculos de sol na lista de itens essenciais, não só para viagens, mas também para o dia a dia. Felizmente, com o avanço da tecnologia, as lentes atuais são extremamente eficientes e bloqueiam praticamente 100% dos raios ultravioletas. O problema é que ainda não há uma grande conscientização da importância do uso de óculos de sol e o preço deles no mercado não é muito acessível, o que leva a compra de produtos falsificados e sem proteção adequada. Compre um bom par de óculos: ele pode te proteger contra os raios ultravioleta, bloquear em até 97% a luz que chega até seus olhos e evitar/dificultar a ocorrência de doenças, como catarata e câncer. E mais: usar óculos sem

proteção faz com que as lentes escuras abram a íris e os raios atinjam diretamente os olhos, até com mais intensidade do que quando estamos sem óculos algum e naturalmente com os olhos um pouco fechados. Por isso, é importantíssimo certificar a qualidade do produto. Tecnologia a nosso favor: atualmente, algumas tecnologias garantem a saúde dos olhos. A cor da lente, por exemplo, está diretamente relacionada com a absorção de luz e seu uso é estratégico. Lentes amareladas reduzem a quantidade de luz azul e evitam a chamada “neblina azul”, deixando o ambiente mais nítido – e por isso são usadas na neve. Já lentes marrons, reduzem a claridade. As verdes são as que mais aumentam o contraste e, por fim, as cinzas são as que menos distorcem as cores ambiente. Além disso, existem lentes fotocromáticas, as quais escurecem quando são expostas ao sol aumentando a proteção dos olhos, e lentes polarizadas, que eliminam os reflexos e deixam as imagens mais nítidas. Outra boa opção é adicionar às lentes uma

Lentes atuais bloqueiam praticamente 100% dos raios ultravioletas que chegam aos nossos olhos

cobertura ultravioleta que pode filtrar em 100% a radiação solar. Em viagens: normalmente, as pessoas assimilam o risco da luz solar e os danos que ela pode causar aos olhos com áreas de calor, de clima tropical e equatorial. Nesses locais de sol intenso, nos protegemos usando óculos escuros porque a claridade é muita e nos incomoda, uma vez que a luz chega diretamente aos olhos. Entretanto, devemos nos preocupar também com áreas de frio e sol “disfarçado”. Em climas temperado e polar, a neve é um grande refletor de luz que pode causar a “cegueira de neve” – uma queimadura de sol na retina causada devido à exposição à radiação UV.

7


Marina Paschoalli

VIAJAR É PRECISO, SER RESPONSÁVEL

É ESSENCIAL

Marina Paschoalli

Não causar impactos ambientais e sociais negativos durante as viagens é prioridade em um conceito que ganha força no Brasil: o turismo sustentável 8


mento em 13,1% em 2012. Faturaram R$ 57,6 bilhões, empregando 115 mil pessoas nos 27 estados do país. Agora imagine um panorama diferente: ecossistemas destruídos, mão-de-obra barata e explorada, prostituição, tráfico de drogas, desprezo dos costumes tradicionais e subjugação cultural. Este panorama pode ser um resultado direto da prática do turismo em qualquer região. Viajar causa impactos e o turismo irresponsável é um grande causador de impactos ambientais, econômicos e sócio-culturais.

“Você é que deve adaptar-se ao local visitado, e não o local se adaptar a você”

P

raias paradisíacas, belíssimas cachoeiras e clima tropical. Há também floresta amazônica, mata atlântica, mangue, há grandes metrópoles, há arquitetura, história e muita cultura… desfrutar de tudo isso (e mais!) é o grande atrativo turístico que o Brasil oferece. Os turistas gozam e a economia também: de acordo com a última Pesquisa Anual de Conjuntura Econômica do Turismo (Pacet), divulgada pelo Ministério do Turismo, as 80 maiores empresas do setor aumentaram seu fatura-

“Ao começar a viajar de maneira independente, na década de 1970, me choquei com o caráter predatório da indústria do turismo de massas”, explica Augusto Bezana Fiore, 56, geólogo e autor do blog Viajante Sustentável. Augusto, cujo lema é “adaptar-se ao local visitado, em vez do local se adaptar a você”, desde 2010 compartilha em seu blog relatos de suas viagens pelo mundo, sempre feitas na tentativa de impactar minimamente o equilíbrio socioambiental existente

nos destinos escolhidos. Augusto não é o único que se preocupa com o caráter predatório do turismo nacional. Sustentabilidade é um tema que desde os anos 70 vem ganhando força em diversas áreas, e no turismo não é diferente. De acordo com Danielle Cristina Granado, doutora em Engenharia Ambiental e docente no curso de Turismo da Universidade Estadual Paulista, o turismo sustentável se faz presente no Brasil na Agenda 21, discutida na década de 1990. “Essas discussões se refletiram posteriormente no Plano Nacional do Turismo de 2003”, explica. O plano tem como base a ética e a sustentabilidade e propõe auxiliar o governo brasileiro a tomar atitudes ecologicamente corretas. A discussão tem surtido resultados, e um indício é que a cidade ganhadora do último World Responsible Tourism Awards é brasileira. Bonito, no Mato Grosso do Sul, foi eleita melhor destino turístico mundial devido a um projeto inovador. “Como o principal foco de Bonito é preservar suas beleza naturais, foi desenvolvido um sistema de controle do número de turistas que visitam as atrações. Dessa forma, é possível preservar o meio ambiente da cidade e ao mesmo tempo torná-lo acessível aos turistas”, explica o assessor de imprensa do Portal Bonito, Eduardo Schunke.

9


Mesmo sem sair do país, um passaporte deve ser selado A principal responsabilidade na promoção de um turismo sustentável é dos turistas e aqueles que ainda não sabem muito sobre o assunto, podem contar com a ajuda de um projeto interessante: o passaporte verde. Lançado pelo MTur durante a Conferência Rio +20, em 2012, o projeto integra uma iniciativa global que visa estimular o consumo responsável, mostrando aos turistas como contribuir para conservar o meio ambiente e melhorar a vida das pessoas nos destinos que visita. A cidade-piloto da campanha é Paraty, no Rio

Leia uma das dicas oferecidas pela campanha Passaporte Verde: Quando estiver fazendo as malas, pense cuidadosamente no que realmente precisa levar. A quantidade de itens na sua bagagem aumenta o impacto da sua viagem, pelas emissões de gás carbônico e pelo lixo que você gera. Tente não levar de casa nada que possa encontrar lá. Comprar produtos de higiene ou alimentos no merca-

10

de Janeiro, que já recebe ações para priorizar a sustentabilidade. No resto do país, estabelecimentos podem se cadastrar para receber o selo verde e sugestões de itinerários serão criadas. Em discurso durante a Rio +20, no ano passado, o secretário do meio ambiente do Rio de Janeiro Carlos Minc afirmou que essa é uma forma de induzir outros agentes da cadeia do turismo a terem comportamentos mais amigáveis com o meio ambiente. No site oficial do projeto, o viajante pode conferir dicas e sugestões para planejar sua viagem, que englobam desde a escolha de itens na bagagem, ao meio de transporte e hospedagem. São decisões simples

dinho local, objetos de artesanato e produtos regionais, contribui com a geração de empregos, aumenta a renda dos moradores e valoriza os talentos locais! Embalagens são um problema para o meio ambiente. Retire-as das mercadorias antes de viajar. Além de produzir menos lixo, você vai deixar sua bagagem mais leve, evitar emissões durante o transporte e poupar fôlego durante caminhadas com mochila.

que podem favorecer a economia e o desenvolvimento dos destinos visitados. Pensar e fazer escolhas responsáveis é fundamental. O viajante sustentável Augusto, por exemplo, prefere optar por hotéis ou pousadas menores com frequência regional e transporte coletivo em vez de carro. “Viajar de ônibus, barco, trem, lotações ou o que existir no local, nos aproxima dos moradores. Assim ouvimos, aprendemos, trocamos experiências, refletimos sobre a realidade social de lá”, explica. “As certificações [dos meios de hospedagem] também auxiliam o consumidor na escolha de empreendimentos socioambientalmente responsáveis”, complementa a professora Danielle.

Acesse passaporteverde.gov.br para mais sugestões de como ser um viajante sustentável.


11


Marina Paschoalli

UMA PONTE ENTRE O CAMPO E A PRAIA

Projeto do Governo do Estado de Sรฃo Paulo promove viagens entre o interior do estado e o litoral

Isis Rangel

Litoral paulista recebeu cerca de 1200 crianรงas em 2013

12


V

ocê já parou para pensar como seria a vida sem ter a possibilidade de viajar? Um mundo onde conhecer novos lugares fosse impossível? Uma vida sem saber o gosto da água do mar, o cheiro de mato que só o campo tem? Triste, não é? Agora pense que para milhares de pessoas a vida é exatamente assim: nascer e morrer no mesmo lugar. Para tentar quebrar essa realidade, o Governo do Estado de São Paulo criou o programa Turismo do Saber. Repaginação do antigo programa Caravanas do Conhecimento, os objetivos dos dois projetos são o mesmo: oferecer a oportunidade para crianças viajarem pelo estado. O Turismo do Saber voltou à ativa em 2011, organizado pela Secretaria Estadual de Turismo, e tem duas versões: Interior na Praia, que leva crianças do interior para conhecer o litoral e o Litoral no Campo, que leva crianças do litoral para conhecer o interior do estado. Durante cinco dias, nos meses de janeiro e julho, 40 crianças selecionadas pelo município visitante, conhecem a cidade de destino. “Se-

gunda-feira é a viagem de ida e o retorno na sexta-feira. Entre terça e quinta-feira, as crianças participam de uma programação de atividades turísticas, esportivas e recreativas, promovidas pela cidade anfitriã”, explica o assessor técnico do gabinete da Secretaria de Turismo, Eder Santos. “Em geral, na

“O grande objetivo do Turismo do Saber é que as crianças tornem-se agentes multiplicadores do conhecimento adquirido durante a viagem e seja um futuro turista, retornando ao município que o acolheu na infância” quarta-feira, a Secretaria de Turismo do Estado realiza o chamado Evento Único, em um dos municípios anfitriões, para promover a Região Turística e a integração entre as diversas delegações participantes”, pontua. Para ser selecionada, a criança precisa ter entre nove e onze anos, estudar em escola pública e nunca ter viajado de férias. Durante

a excursão, as crianças são acompanhadas por quatro monitores, cada um responsável por dez crianças. As cidades interessadas em participar do programa se inscrevem por meio de ofício. Os municípios anfitriões oferecem alojamento, alimentação e a programação turística, o transporte é oferecido pela Secretaria de Turismo. O intuito do projeto não é apenas promover viagens, mas, além disso, promover o turismo social. Para Eder Santos “o grande objetivo do Turismo do Saber é que as crianças tornem-se agentes multiplicadores do conhecimento adquirido durante a viagem e seja um futuro turista, retornando ao município que o acolheu na infância”, diz. Só no ano de 2013, o Interior na Praia atendeu 1200 crianças, proporcionando momentos inesquecíveis para pessoas que provavelmente não teriam outra oportunidade de conhecer o litoral. Se você nunca viu a primeira vez de alguém conhecendo o mar, é recomendável que o faça logo, poucas coisas na vida são mais emocionantes.

13


PRA MUDAR O MUNDO... Trocar experiências culturais e viver realidades diferentes: esse é um dos atrativos das viagens voluntárias

Isis Rangel Carolina Rodrigues 14


Arquivo Pessoal

“A oportunidade de viver fora do seu mundo, mesmo que por pouco tempo, te torna uma pessoa diferente”

Escola em Ipixuna do Pará, local que Mirele ficou hospedada através do Projeto Rondon e que é completamente diferente da realidade em que vive

S

abe aquela fase da vida em que você questiona tudo e todos, inclusive si mesmo, e percebe que de alguma forma precisa se renovar, viver novas experiências e sair de sua zona de conforto? Provavelmente, se você é jovem sabe bem do que se trata. Se você é adulto, pode ser que se lembre dessa época com nostalgia. Se ainda é criança, prepare-se, pois com certeza vai passar por isso um dia. Grande parte das pessoas, de fato, vive isso na juventude. E são várias as maneiras de resolver essa insatisfação. Uma delas é fazer uma viagem voluntária, mudar a vida de alguém e, assim, também mudar a própria.

Aline Camargo, jornalista, optou por sair completamente da realidade em que vivia e mudar sua visão de mundo. Foi para Moçambique através da AIESEC, organização de jovens universitários. “Queria algo que pudesse me tirar do lugar, que me fizesse conhecer outras realidades, que me ajudasse a me entender e conhecer melhor”, conta. Se era para ter um choque de realidades, escolha certa. Ela trabalhou durante cinco semanas para uma ONG que cuida de crianças e mulheres vítimas de violência e HIV positivas. Além disso, captou recursos e livros para a construção de uma biblioteca em uma escola na cidade de Maputo.

É claro que nem tudo foi fácil. Além das dificuldades com transporte, moradia e comida, “experimentar o preconceito na pele também foi muito diferente”. Aline nunca tinha se sentido estranha por ser branca. “Lá encontrei crianças que nunca tinham visto uma mulher loira na vida!”. E lidar com a extrema pobreza e outros problemas nunca antes vividos foi chocante. Porém, no final, tudo compensa de algum jeito. “É muito difícil saber qual a importância do que fiz na vida dos outros, mesmo porque foi muito pouco perto do que eles precisam... mas, na minha vida com certeza foi a melhor coisa que já vivi”, ressalta Aline.

15


foi a frustração de não obter os resultados que esperava. “O dinheiro investido é enorme, mas infelizmente a maioria é gasta com os voluntários e não com a comunidade! Me sentia mal por isso. Eu queria ajudar na infraestrutura do município, mas não consegui. Sei que a nossa presença já mudou a vida daquelas pessoas, mas acredito que os resultados poderiam e deveriam ter sido melhores”, diz. Apesar de tudo, as vantagens prevalecem. “A oportunidade de viver fora do seu mundo, mesmo que por pouco tempo,

Arquivo Pessoal

Movida pelo mesmo sentimento, Mirele Martins Andrade, estudante de engenharia ambiental, participou do RONDON. O projeto, coordenado pelo Ministério da Defesa, envia voluntários a comunidades carentes a fim de ajudar no desenvolvimento desses locais. Durante duas semanas, Mirele deu palestras e realizou atividades, principalmente com crianças, sobre educação ambiental na cidade de Ipixuna do Pará. A jovem também enfrentou dificuldades, como falta de água e comida. Mas, a maior delas

A jornalista Aline Camargo durante o intercâmbio em Moçambique

16

te torna uma pessoa diferente”, completa Mirele. Encantada com as histórias de um amigo voluntário, Maria Beatriz Domingues, estudante de psicologia, decidiu participar do TETO. A organização reúne voluntários com o objetivo de combater a pobreza através da construção de casas para

“Queria algo que pudesse me tirar do lugar, que me fizesse conhecer outras realidades”


Arquivo Pessoal

famílias carentes. Em dois dias, Beatriz e sua equipe praticamente ergueram uma casa inteira na cidade de São Paulo. “No começo, me perguntei em que medida a construção de uma casa ajudaria essas pessoas. Mas, depois me informei e entendi que há todo um serviço de comunicação com as famílias antes da construção para entender quais são suas necessidades, e um acompanhamento posterior para verificar se elas foram atendidas”, afirma. A experiência foi ótima: o contato com as pessoas da comunidade, as crianças que, em meio a obra, insistiam em brincar com os voluntários, o espírito de união de todos... Entretanto, como já é de se esperar quando se vive uma outra realidade, as diferenças incomodam. Em frente à casa da família que a estudante ajudou, por exemplo, havia uma saída de esgoto a céu aberto. Depois de tudo, Beatriz finalmente se livrou do sentimento ruim de saber que outra realidade existia e que não havia feito nada para transforma-la. “Para mim, o voluntário ganha tanto quanto a pessoa ou família beneficiada”, conclui. A mesma opinião é compartilhada pela estudante Suelen Nina, que,

Suelen no acampamento em que foi voluntária, na Rapública Tcheca

através também da AIESEC, foi para a República Tcheca monitorar crianças em um acampamento. Ela também acredita que o voluntariado é benéfico para todos os envolvidos, mas faz uma crítica: “acredito que as pessoas que trabalham e fazem qualquer coisa esperando retorno, reconhecimento, ou seja lá o que for, sempre acabam se frustrando, pois criam ex-

pectativas muito maiores do que a realidade e dependem de fatores externos (ambiente, tempo, outras pessoas) para se sentirem plenamente realizadas”. Se viajar a lazer é um dos grandes prazeres da vida, viajar para ser um voluntário parece tornar a experiência duas vezes mais prazerosa. Pois então, escolha o lugar, faça as malas e vá mudar o mundo.

17


18


VIAGENS HISTÓRICAS

m e g a i v a e a g a "Conde de Br o" d n u m o v o n ao Laís Modelli

da l o a i n n o ô ci m i a r t N Pa ote ca i Bibl

19


Rio de Janeiro, 6 de fevereiro de 1808

Amigo Conde de Elvas,

Se o demônio francês ainda não fez de tuas tripas o colar do triunfo, entrego-te notícias destas terras que exalam uma fedentina maior do que a emanada pelo cortiço em que tua feiosa cunhada e a coxa de tua sogra vivem. Estou a suar feito os negros na coxia: pareço-me com os santos de procissões, feitos de cera, brilhantes e lustrosos todo momento do dia. Rogo-te que repenses antes de vires ao paraíso que fora pintado pelos empregadores da imprensa. Faz bem em continuar respirando ares lusitanos, embora o demônio anão pareça ameaçar vossa soberania. Não te seduzas pelas ofertas de viagens: as barcas são incrivelmente pífias. Contar-te-ei os percalços de nossa travessia. Partimos do porto lusitano na data de 1º de novembro do ano que se passou. O Duque de Leiria, o Marquês de Silves e eu estávamos a duas embarcações de nosso príncipe regente e da nossa rainha, que gritava, arrancando os cabelos, enquanto acenava obscenidades para a terra firme. O príncipe não aguentara e decidira levar Portugal com ele: só deixou a sanidade da mãe, a dignidade de vossa nobreza e as plantas. Com D. João, inúmeras embarcações, Viscondes, Duques, Marqueses, Condes e Barões, envoltos a alimentos, madeira, negros, insetos, e um mar gigantesco. O príncipe regente era Noé No quadragésimo quinto dia de permanência naquela pocilga, fui acordado por gritos hediondos oriundos de fora do quarto. O nobre amigo vosso, quando chegou à 20


fase dos acabamentos ao produto de sua convalescência, sofreu um ataque e por pouco não fica eunuco: um rato, faminto, abocanhou-lhe as coisas. Então entendi a razão do escândalo! Disseram-me que a Condessa de Leiria vai ter que se contentar em alisar o cabelo das duas raparigas que cria. Pelo modo como o Duque está andando, acredito que a Condessa dificilmente terá motivos para sorrir, em gozo. Mas nossos sorrisos todos estavam sequestrados, embora a história do teu amigo me parecesse risível. As condições dentro da embarcação eram cada vez piores: os alimentos estragavam e fediam. Uma velha roliça acabou morrendo por inanição: passou três horas ininterruptas sem se alimentar. Foi jogada ao mar para servir como referência às demais embarcações atrasadas. Aliás, atrasados ficamos quando, tentamos driblar os ventos e continuar na rota: pelo menos duas embarcações devem ter visitado Cabo Verde ou o continente africano provavelmente com as impressões de estarem nas terras do Brasil. Nossa nau, felizmente, continuou firme na rota da de D. Maria. A rainha, segundo o Conde de Braga, vociferava ordens a todo o momento, durante a longa viagem. E o mais curioso: os ratos obedeciam-na. O nosso amigo confidenciou-me que a sua embarcação não exalava muito fedor. Apenas o quarto real: D. João, como hábito, escondia todo alimento embaixo dos colchões. Sua ceroula deveria estar putrefata. Nem os ratos o 21


morderiam. Um bom antídoto para o teu amigo Duque de Leiria. Avisá-lo-ia se tivesse a devida aproximação. A minha embarcação balançava em demasia. A putrefação dos alimentos, os ratos, as feridas de doentes, o sacolejar da nau e o pedantismo do Marquês de Silves davam-me náuseas e ensejo pelo suicídio. Eu mudara de tonalidade epidérmica repetidas vezes durante o trajeto: ficara da cor de cogumelos, laranja, esverdeado e mais alvo. Alguns negros que lá estavam também sofriam de algo que os deixava brancos. Mas meu sangue permaneceu inatlerado: azul como deveria ser. À medida que chegávamos próximos à costa brasileira, as roupas tornavam-se cada vez mais obsoletas.. A insolação intensa provocava delírios: já conseguia ver D. Sebastião na proa do nosso navio, com brado heroico. Mas a incerteza me deixou crente no nosso herói: Marquês de Silves assegurava que houvera visto D. Sebastião, no trono. Provavelmente queria expulsar algum demônio que tivera se apossado dele também. Dois meses e dois terços de mês depois conseguimos nos aproximar das terras brasileiras . A embarcação de D. João desviou-se da rota e fora em direção à costa norte . O Marquês de Silves acredita que o nosso príncipe fora resolver problemas na antiga capital. Nós desembarcamos no Rio de Janeiro antes do previsto. Quando coloquei os pés em terra firme constatei parecer estar dentro da nau: diversas mulas passavam pelo pouco

22


de civilização que existia. Perguntei a um mulato que descarregava nossas bagagens o porquê de tantos animais na rua. Explicou-me relatando que acabara de chegar do interior diversas mulas para reabastecer o lombo e voltar para o interior a fim de se fazer comércio. Quando o mulato perguntou-me o porquê de todas aquelas bagagens e pessoas cheirando mal, expliquei-lhe didaticamente: provavelmente essas pessoas só vieram aqui para encher o lombo. Depois disso morrem ou voltam para as suas casas. Essas terras, Conde, são marrons: as mulas, os varões, as terras, as roupas... Se vieres, perceberás que estarei marrom, assim como todos por aqui. Uma semana após a chegada, já estou laranja. Preciso partir, Conde de Elvas, amigo meu. Não sei se receberás tal testemunho. Espero que não esteja servindo de alimentos aos belos e imponentes abutres lusos, muito menos que esteja servindo de tapete no Palácio de Versalhes. Mas se estiver, espero que tenha vestido o traje azul com detalhes dourados. Sua tez é muito valorizada com as cores de seu brasão. Saudações sinceras. Com carinho,

Conde de Braga 23


VAI PRA ONDE?

UM POUCO DO MUNDO

Conheça o que há de melhor em um dos maiores centros culturais do planeta

V

ocê já imaginou uma cidade como Nova York, porém menor e com menos gente? Parece impossível, não? Mas não é. A maior metrópole do Canadá está aí para provar que é possível ter o mundo todo dentro da mesma cidade e ainda assim oferecer muita qualidade em serviços e infraestrutura. Essa é Toronto, a capital financeira e cultural canadense, cuja população não chega a três milhões de habitantes e o número de visitas anuais ultrapassa a casa das dezenas de milhares. Se você é um dos milhares que pretendem passar por terras torontonianas num futuro próximo, as dez dicas que estão pela frente vão lhe ser muito úteis!

Visite a CN Tower O mais famoso. A torre foi considerada a mais alta do mundo até 2007 e é uma das sete maravilhas do mundo moderno da Engenharia Civil. É possível ver a cidade inteira acima dos 346 metros de altura. Entre as atrações, estão inclusos o chão de vidro e a Edge Walk, uma volta na torre pelo lado de fora.

24

Torça como canadense Toronto é também um grande centro esportivo. Durante todo o ano, algum time da cidade participa de alguma competição: Blue Jays no baseball, Toronto Raptors no basquete e Maple Leafs no hóquei, a grande paixão canadense. Acompanhe as temporadas e escolha um jogo!

Veja pandas e ursos O zoológico de Toronto é a nova casa de dois pandas gigantes chineses e sempre foi a de ursos polares. Essa talvez seja a única chance de vê-los de pertinho! Além disso, o zoológico é dividido em setores climáticos, com ambientes canadenses, africanos e até tropicais.


NUM LUGAR SÓ Mayara Abreu Mendes Coma um poutine

Vá ao St. Lawrence Market Considerado pela National Geographic como o maior mercado do mundo, o prédio antigo, que fica no coração da cidade, traz em si diversas lojas de comida (de azeitonas a diferentes tipos de pão e queijo), várias opções de restaurantes e algumas boas chances de levar um souvenir.

Faça uma experiência gastronômica Toronto tem o mundo inteiro bem resumido gastronomicamente. Dos tradicionais fast foods até os comuns italiano e japonês. Se você quiser ousar, a cidade te oferece restaurantes tailandeses, coreanos, colombianos, mediterrâneos, indianos, gregos e até mesmo um jamaicano!

A marca do Canadá em alimentação. Poutine é um prato de Quebec cujos ingredientes são: batata frita, queijo coalhado e um molho de carne local, chamado gravy. A mistura pode parecer bem estranha, mas o gosto é ótimo!

Experimente Ginger Ale

O refrigerante canadense feito de... Sim, gengibre. Pode parecer a coisa mais absurda do mundo, mas o sabor da combinação exótica lembra muito o dos refrescos de misturas cítricas e é encontrado em todo lugar (assim como o saudoso 7Up).

Passeie no Distillery District Quem já foi à Europa, vai se sentir lá novamente. Um pedaço da cidade que é totalmente colonial e que oferece várias lojas e restaurantes, além de uma belíssima construção. No Natal, fica ainda mais bonito com a decoração e o coral cantando músicas natalinas.

Faça compras

A gente acha que conhece shopping até entrar no Toronto Eaton Centre. São mais de 250 lojas de todas as marcas possíveis, com uma praça de alimentação gigantesca, distribuídos em quatro andares. As promoções costumam ser boas. Mas nunca esqueça das taxas: elas não estão inclusas e são de 13%!

Conheça a neve A melhor época para um brasileiro ir para Toronto é o inverno. O choque de temperaturas é muito grande, uma vez que em janeiro e fevereiro as mínimas chegam a quarenta graus Celsius negativos. Mas é uma experiência única, inesquecível e que deve ser vivida num lugar como Toronto!

25


Arquivo pessoal

“MEU TRABALHO É FÉRIAS” Carolina Rodrigues

V

XPôr do sol no Chile 26

iver viajando e ainda ganhar bem por isso. Talvez esse seja o sonho de muitas pessoas. Afinal de contas, viajar está diretamente relacionado com os ideais de lazer, bem-estar e satisfação. É assim que o jornalista Kevin Raub leva a vida: viajando pelo mundo como um freelancer, que escreve para guias turísticos e revistas de viagens. Aos 40 anos, Kevin afirma que não sabe fazer outra coisa. Hoje, ele é o co-autor de diversas publicações do guia turístico mais famoso do mundo, o Lonely Planet, e já visitou mais de 70 países.


Check In: Como foi que você se tornou um jornalista viajante? Kevin Raub: Eu sou originalmente um jornalista musical e meu primeiro emprego foi na revista Rolling Stone, em Nova York. Eu passei os anos 90 entrevistando estrelas do rock e indo a shows. Depois de alguns anos em NY, eu decidi me mudar para Los Angeles (por causa de uma ex-namorada) e continuei escrevendo sobre música por uns 6 anos. Mas, mudei para San Francisco, onde é bem difícil ser um jornalista musical já que tudo acontece em LA, NY, London, etc. Então, comecei a escrever sobre meu segundo passatempo favorito: viajar. Na época, eu tinha uma amiga que era a editora de Travel & Leisure, a melhor revista de viagem dos EUA. Ela me deu o emprego e o resto da história! Eu provavelmente escolhi isso [ser um jornalista viajante] inconscientemente – eu gosto de estar em movimento, longe do que a maioria das pessoas considera vida real: ter 2,5 filhos, trabalhar das 9 às 5 to-

dos os dias, etc. Isso não é pra mim! Embora eu queira ter filhos. Durante todos esses anos que você passou conhecendo diversos países, culturas, pessoas e histórias, quais foram as dificuldades que você enfrentou?

“Felicidade é uma bela garrafa de vinho compartilhada com uma bela pessoa em um belo lugar”

A principal dificuldade é manter relacionamentos e amizades. Você não está operando dentro da estrutura que a maioria das pessoas considera como vida “normal”, então é difícil se comprometer quando você não sabe onde vai estar em poucas semanas ou meses, ou pagar suas contas em dia (a internet tem ajudado nisso!), etc. É o casamento do

seu melhor amigo em agosto? Você provavelmente não vai estar em casa em agosto! Coisas assim. Quando sua vida é na estrada e tudo cabe em uma mala, é difícil se fixar em algum lugar. Como é trabalhar com algo que é lazer para a maioria das pessoas? Ou seja, você não tem uma rotina de trabalho, cada dia é completamente diferente do outro, certo? Qual o lado bom e o lado ruim disso? Não é difícil trabalhar com algo que as pessoas consideram lazer, na verdade é um privilégio. A dificuldade é trabalhar com aquilo que é sua paixão. Você tem que ser bem cuidadoso para não ficar cansado. Quando você transforma algo que ama em trabalho, sempre tem consequências negativas... é fácil perder a paixão. Houve uma época em que eu fiquei bem cansado de ir a shows e pensava: “ah não, outro hoje à noite?!”. E isso nunca tinha acontecido antes de se tornar meu emprego. Em relação a sua família, como você lida com a distância?

27


Minha mulher trabalha com turismo em Fernando de Noronha e por causa disso a gente se conheceu, então ela entende o meu trabalho. Além disso, é a única maneira que nós conhecemos de estarmos juntos. Nós aproveitamos o tempo longe um do outro – isso ajuda a manter nossa independência! Não temos filhos no momento, mas vamos ver o que acontece!

Arquivo pessoal

Como é o processo de produção dos guias que você es-

Venezuela

28

creve para o Lonely Planet? Na verdade, não tem muita escrita, é mais atualização. A edição antiga é o modelo para a nova edição. Eu visito, como, durmo, etc, e atualizo as informações. Se acho alguma coisa boa, tiro algo do guia e ponho a novid a d e n o l u g a r. É u m ato delicado de equilíbrio e um malabarismo constante de espaço e palavras. Te n h o que estar sempre pensando no público e no que vai trazer as melhores

experiências a ele, seja um restaurante, u m h o t e l o u o q u e f o r. Qual foi o melhor lugar que você já visitou? Eu não consigo esc o l h e r. E u v i m u i t a s coisas maravilhos a s . O Ta j M a h a l n a Índia, a Grande Muralha da China, Machu Picchu, o Deserto do Atacama no Chile – têm muitos! Por favor, tente escolher um! Não dá. Eu poderia te dar um milhão de motivos pelos quais


Arquivo pessoal Arquivo pessoal

“Eu gosto de ir o mais longe possível da minha zona de conforto” Israel

a lista é interminável. A Índia é um lugar que todo mund o d e v e c o n h e c e r. E u digo para as pessoas: “Na Índia, você vai ver algo todo minuto que vai mexer com a sua cabeça. Às vezes é algo bonito, às vezes é algo terrível, mas vai mexer com a s u a m e n t e ”. E s s e é o tipo de lugar que eu g o s t o d e v i s i t a r. E u gosto de ir o mais longe possível da minha zona de conforto. E o pior lugar? Não existem piores lugares. É o meu trabalho achar coisas

gloriosas mesmo no mais terrível dos lugares, e não existe cidade ou país que eu não tenha interess e e m v i s i t a r. S e m pre tem alguma coisa interessante para ver e fazer em qualquer lugar do mundo! Você viaja sem ser a trabalho? Qual a diferença de viajar a trabalho e viajar por lazer? Viajar é o meu trabalho! A diferença entre viajar a trabalho e viajar por lazer é o salário. Q ua is são as “ reg ras” do s eu t rab alho?

Eu sou meu próprio chefe então eu faço min h a s p r ó p r i a s r e g ra s . Eu tenho a liberdade d e s e r u m f r e e l a n c e r. Em relação ao Lonel y P l a n e t , p o r e xe m p l o, e u t ra b a l h o c o m o um anônimo (ninguém dos lugares que visito s a b e q u e s o u u m j o rnalista). Quando esc r e v o p a ra r e v i s t a s , é o o p o s t o, e u m e i d e n tifico e g e ra l m e n t e t u d o s a i d e g ra ç a [ a r e f e i ç ã o, a e s t a d i a ] . Durante as férias, o que você faz? Eu e minha espos a viajamos! Mas para onde nós queremos,

29


Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

ao contrário de quando uma revista ou guia me contrata. Esse ano, dirigimos por toda a Escócia e ano passado fomos para Turquia e Grécia. Mas quando você é um jornalista viajante freelancer, você nunca desliga totalmente – você está sempre procurando alguma coisa para escrever, mesmo durante suas férias. Mas de verdade, meu trabalho é férias! Geralmente, quanto tempo você fica nos lugares que visita? Isso depende se eu estou fazendo um guia (de 5 a 9 semanas) ou um artigo para revista (de 3 a 7 dias). Minhas viagens variam mas eu normalmente viajo, no total, metade do ano ou mais. Hoje, você vive em que lugar? Onde é o seu lar, a sua casa? Nós vivemos em São Paulo e às vezes em Fernando de Noronha, Mas vamos nos mudar para a Europa depois da Copa do Mundo. Viver no Brasil é estupidamente caro. Você pretende continuar trabalhando com isso? Quais são seus planos? Contanto que eu possa continuar ganhando a vida assim, tudo bem. Claro que não sei

Alcântara

30


Arquivo pessoal

se quero fazer isso para sempre. Um dia, eu gostaria de sossegar e ter uma pousada em um lugar bonito da Europa ou em uma praia, talvez no Brasil? Você nunca sabe! Mas ser pago para escrever nos dias de hoje está se tornando algo cada vez mais raro – jornais estão fechando, livros estão desaparecendo, e isso é um desafio! Mas eu tenho 40 anos e não sou qualificado para fazer nada mais! O que é felicidade pra você? Felicidade é uma bela garrafa de vinho compartilhada com uma bela pessoa em um belo lugar. E tristeza? Tristeza é do o vinho

quanacaba.

Em poucas palavras, como você descreveria o sentimento de viajar? Viajar é como coçar incessantemente uma picada, que nunca vai parar de coçar. E o sentimento de voltar para casa? Pânico! [risos] É sempre uma confusão nos primeiros dias, fico tentando me readaptar à vida normal! Meu lar na verdade é o avião – é onde eu me sinto mais à vontade. França

31


32


Felipe Altarugio

É DO BRASIL?

N

as últimas férias conheci o belo estado de Pernambuco. Visitei pontos históricos e lindas praias na região de Recife, mas nada me encantou mais do que uma pernambucana em especial... Tudo começou quando resolvi me aventurar em um forró. Não tinha nenhum talento, mas com a ajuda de algumas doses de cachaça já estava me sentindo o próprio Luiz Gonzaga. Foi então que meus olhos se encontraram com os olhos daquela linda mulata. Percebendo um sorriso no canto da boca, fui conversar com a donzela. Com um sotaque típico, ela me contou as maravilhas de sua terra, enquanto eu admirava sua beleza. Não quis me passar seu telefone, mas fez questão de pegar meu número, me deu um beijo e prometeu

PERNAMBUQUÊS que entraria em contato. No dia seguinte, minha ressaca veio acompanhada de uma mensagem dela no celular: “OXE, DEU UNS TANGO NO MANGO NO FORRÓ E APÓI CARECI DE IR EMBORA. PERCEBI QUE TU ÉS UM CABA BOM E, COMO TÔ VIRADA NO MOLHO DE COENTRO, A GENTE PODE SE VER, MARANCA!” Minha primeira reação foi: “será que ainda estou bêbado?”. Li, reli, mas aquilo parecia uma língua estranha para mim... LÍNGUA, era isso! Lembrei de seu sotaque forte e matei a charada: era uma mensagem cheia de dialetos pernambucanos. Falei com o recepcionista do hotel, que morava ali pelas redondezas. Depois de rir um pouco, ele me explicou que “dar uns tango no mango” é o mesmo que “dar problema”, “e apói” se deriva de “e após” e “caba bom” também é uma derivação de “cabra bom” (sujeito gentil). Por fim, ele contou que “estar virado no molho de coentro” é não dever nada a ninguém. Assim, a mensagem “traduzida” era mais uma menos assim: “Deu uns problemas no forró e então precisei ir embora. Mas percebi que você é um cara gen-

til e, como não devo nada a ninguém, a gente pode se econtrar, maranca!”. “Maranca? O que significa isso?” questionei ao recepcionista. “Sei não, dotô”, respondeu ele meio confuso. Fiquei intrigado: procurei no dicionário, na internet, tentei dividir a palavra e nada. Deixei isso de lado e marquei de me encontrar com ela. No restaurante, resolvi tocar no assunto: “Teve uma coisa que ainda não entendi no seu SMS... o que é maranca?” Enfurecida, a pernambucana me respondeu: “Como assim ‘o que é’? Não acredito que você não lembra meu nome! Te falei no forró que era meu pai queria Márcia e minha mãe queria Bianca... ficou Maranca!”. É, devia ter controlado minha cachaça... Renan Fantinato é estudante de jornalismo, viajante e contador de histórias nas horas vagas. Ama conhecer novos lugares, novas culturas e novos sotaques.

33


VOANDO COM ASAS DE SONHO E LIBERDADE Ausência de rotina e de vida social são os desafios de quem trabalha como comissário de bordo

Mayara Abreu Mendes

V

O cuidado com o próximo é uma das maiores preocupações para os comissários de bordo

34

Arquivo Pessoal

oar: deslocar-se pelo ar. Voar alto: realizar objetivos que vão além do que se era esperado. Tais termos e seus respectivos significados têm um valor ainda maior para um determinado grupo de pessoas que trabalham com os pés fora da terra. Para os comissários de bordo, essas duas definições caem como uma luva. Exercendo a profissão, ao menos uma viagem por dia é realizada e, com essa bagagem de voos, aquele sonho de conhecer o mundo que motivou a grande maioria a começar a seguir carreira vai se tornando, pouco a pouco, realidade. No Brasil, para se tornar um comissário de bordo em aeronaves, é necessário fazer um curso em alguma instituição homologada pela Agência Nacional de Aviação Civil, a ANAC, ser


aprovado e daí então fazer a prova teórica da Agência, que é bem semelhante aos testes realizados durante o curso preparatório. Assim que aprovado, o futuro comissário deve inscrever-se na empresa área que deseja trabalhar e seguir devidamente os procedimentos delimitados pela mesma, que diferem de uma para outra. Quando selecionado, o candidato receberá orientações teóricas e práticas, fará estágio e, sendo aprovado no exame prático fiscalizado pela ANAC, uma licença e um certificado de habilitação serão emitidos pela mesma. Depois de toda a burocracia, enfim temos um novo comissário de bordo. Os procedimentos são muitos. Mas o que exata-

 ”Você acaba esquecendo do tempo” mente um comissário de bordo faz? Há quem diga que eles são como os garçons em restaurantes, porém sobre as nuvens. Entretanto, essa é apenas uma pequena parte do que eles fazem. A maior e mais importante delas, entretanto, é a segurança. Um comissário de bordo deve estar preparado para todo tipo de eventualidade que um avião possa proporcionar e deve saber se portar em todos

Mayara Abreu Mendes

A segurança de todos os passageiros é a principal missão de um comissário

os casos de emergência. Além disso, também é sua função organizar o avião para que o voo seguinte possa ser realizado seguindo os padrões da empresa aérea, checar a cabine de passageiros a fim de verificar se tudo está em ordem, assim como cumprimentar os viajantes quando embarcam e desembarcam da aeronave. Para Ricardo Ramos, que foi comissário por seis anos, o desembarque é a melhor parte, uma vez que é possível perceber a “realização dos sonhos dos passageiros” e sentir “satisfação em ver os sorrisos nos lábios”. A vida de voar por todos os cantos pode parecer um

conto de fadas para a grande parte das pessoas que veem a profissão de fora. No entanto, para quem vê de dentro, toda essa rotina pode ser bem desgastante. Aline Hipolito é comissária de bordo há quatro anos e fala sobre o quanto o corpo e a mente podem sofrer com os horários de voos: “Um dia você assume um voo às três da manhã, descansa doze horas e assume o próximo voo em um horário totalmente diferente e o corpo tem que se adaptar a tantas irregularidades de horários”. Além de horários confusos de partida, os comissários internacionais sofrem também com fusos. É o que conta Eduardo Nye, comis-

35


da cidade de destino. Em cidades desconhecidas e distantes do local de partida, os comissários têm a oportunidade de desbravar mais a região, fazer compras, experimentar um pouco a cultura local e tentar ter uma vida social breve. Em voos para a cidade onde moram, aproveitam para reencontrar os familiares e amigos, matando a saudade. Por outro lado, quando as viagens são para distâncias menores e, por isso, mais curtos em tempo, a escala é feita de forma mais rápida, com menor tempo de descanso e com a possibilidade de voar mais de uma vez no mesmo dia. Assim, os comissários podem passar até seis dias longe de sua cidade de origem. A comissária Elai-

ne Mello está na profissão há 12 anos e fala que a pior parte é a saudade da família. Ela completou dizendo que perdeu “muitos momentos importantes porque estava voando”. Entre tantos lados bons e ruins, perdas e ganhos, existe outra palavra que, para esses trabalhadores, ganham uma conotação ainda maior: liberdade. Aline define a sensação de ser livre dizendo: “É incrível, mas quando eu fecho a porta do avião e decolo parece que tudo que não me pertence fica pra trás, fica na Terra e quando estou voando eu sinto que nada pode me atingir. Acho mágico”. É essa magia que motiva e acaba colocando nos comissários de bordo um novo sorriso no rosto a cada voo.

Arquivo Pessoal

sário internacional há três anos e meio e apaixonado pela profissão por poder viajar o mundo: “você acaba esquecendo do tempo, porque você trabalha em diferentes fusos. Um dia você está na Austrália em um horário. No dia seguinte, nos Estados Unidos em outro completamente diferente. Logo, você esquece a rotina e sofre com a manutenção da sua própria energia”. O comissário pode ou não ter uma pausa de até um dia entre um voo e outro. Para algumas empresas, a distância do voo determina o quanto sua equipe poderá descansar depois de uma viagem. Descansos mais longos são sinônimos de dormir e oportunidade de conhecer mais do que o aeroporto

Nos poucos dias livres, os comissários aproveitam e se deparam com vistas como essa

36


37


O CÉU NÃO É O LIMITE

Renan Fantinato

Homens e mulheres do mundo inteiro se candidatam ao programa Mars One, que quer colonizar Marte até o ano de 2023

A brasileira Melissa Nechio foi uma das milhares de pessoas que se inscreveu no Mars One Melissa Nechio

38


Divulgação/ Mars One

Q

ual foi o lugar mais longe que você já pensou em viajar? Um outro país? Outro continente? Mais de 165 mil pessoas querem ir ainda mais além: se candidataram ao programa Mars One, que promete colonizar Marte a partir de 2023. O projeto foi idealizado pelo alemão Bas Landsdorp, no início de 2011. Durante este primeiro ano, os responsáveis pelo Mars One discutiram estratégias para viabilizar essa viagem, ouviram especialistas do setor aeroespacial de todo o mundo e chegaram a conclusão de que a expedição seria possível. A ideia é criar uma colônia em Marte usando energia gerada através de painéis solares. A água será reciclada e extraída do solo, enquanto os alimentos serão cultivados no próprio planeta vermelho. Em abril deste ano, o Mars One abriu inscrições para voluntários que desejassem fazer parte desta aventura. Qualquer pessoa maior de 18 anos poderia se candidatar, desde que aceitasse apenas uma condição: os escolhidos só terão uma passagem de ida para Marte, sendo impossível voltar para a Terra. Para a surpresa dos próprios criadores, em duas semanas já havia mais de 70 mil inscrições, que vinham de todas as partes do mundo. Motivada a ir “aonde

Os colonizadores vão viver em habitações construídas previamente por robôs

nenhum outro ser humano já foi”, a brasileira Melissa Nechio foi uma das candidatas do Mars One: “Fiquei tão empolgada com o projeto que fiz todo o processo de candidatura em 20 minutos. Preenchi formulários online, anexei uma foto, fiz um vídeo e pronto! Agora é só esperar o resultado”, conta ela. Uma comissão vai analisar todas as inscrições e selecionar 24 pessoas, divididas em seis grupos. Os escolhidos passarão por um treinamento físico e psicológico e, a cada dois anos, um grupo será levado a Marte. A ideia é que a viagem dure entre 5 a 10 meses, o que pode causar problemas musculares e ósseos. Mesmo assim, Melissa não tem medo do que está por vir: “Minha família acha que eu sou louca e meus amigos acham que o programa tem a minha cara, já que sou aventureira e gosto de inovar. A verdade é que não tenho medo,

o que vale é se apossar do espírito desbravador e servir à ciência”, afirma. O Mars One acaba de firmar parceria com grandes

“A verdade é que não tenho medo, o que vale é se apossar do espírito desbravador e servir à ciência”

empresas de tecnologia e propôs um financiamento coletivo para bancar o primeiro passo para o sucesso do programa: o envio de robôs, em 2018, que vão preparar a colônia. Estima-se que para enviar o primeiro grupo de pessoas serão gastos cerca de US$6 bilhões. O dinheiro é enorme, mas há um público imenso que deseja contribuir para o sucesso do programa. Desafio ou loucura, o fato é que nossas fronteiras parecem estar cada vez mais longe... até onde poderemos chegar?

39


Marina Paschoalli

SURFAR POR SOFÁS É A NOVA ONDA Marina Paschoalli Há algumas décadas, “surfar” era só sobre uma prancha, deslizando nas ondas do mar. Depois, o termo foi empregado para designar o ato de trocar de canal, e com o surgimento da internet, “surfar na web” virou expressão corriqueira. Mas talvez o que vocês nunca tenham ouvido falar é em surfar em sofás. 40


A proposta é da plataforma Couchsurfing, rede social que, desde 2004, conecta pessoas pelo mundo para que ofereçam ou procurem hospedagem. Os usuários criam perfis, onde podem disponibilizar o sofá de sua casa para um viajante, procurar sofás na cidade que pretende visitar, ou somente fazer novos amigos. “É uma comunidade global de 7 milhões de pessoas em mais de 100,000 cidades que compartilham suas vidas, seus mundos e suas jornadas”, explica a equipe de mídia do Couchsurfing. O viajante Clark Rezende, 22, saiu do Rio de Janeiro em 2012 e desde então já passou por 12 países na América Latina e Europa. Nesses 2 anos, Clark usou e abusou do Couchsurfing. Para ele, a plataforma não é fundamental nas viagens, mas ajuda. “Facilita a vida de quem está viajando, desde questões financeiras até simplificar o contato com as pessoas da região, que te situam nos lugares mais

interessantes”, explica. Durante um intercâmbio em Sevilla, na Espanha, em 2010, a jornalista Renata Mondine, 24, utilizou o Couchsurfing em viagens feitas a seis cidades em Portugal, Espanha, Holanda e França. “Em cada uma conheci pessoas simpáticas e solícitas, que me deram valiosas dicas sobre os locais que eu visitaria. Tive cama, chuveiro e cozinha em todos os países. Foi como ter um lar mesmo nestas cidades”, afirma. A jornalista também abriu sua casa para hóspedes e conta que, ao receber alguém, tentava dar as melhores dicas e acompanhar a pessoa. “Todos foram embora muito gratos e satisfeitos, o que me deixava muito feliz. Depois quando fui viajar recebi isso de volta”, relata. Será segura a nova modalidade de surfe? Segurança deve sempre ser prioridade para quem viaja e a dúvida é comum quando se ouve falar em

Couchsurfing: é seguro? Na opinião de Renata, sim. “Você escolhe quem entra na sua casa e em que casa você entra. Dá pra colocar depoimentos pras pessoas, então ao visualizar um perfil você consegue ter uma ideia sobre o que vai encontrar”, explica. O desenvolvedor de sistemas André Araújo, 40, também usuário da plataforma, concorda e conta que sua experiência foi boa: “Por hora, sempre tive sorte, que na verdade é resultado de pesquisa cuidadosa sobre quem hospedar e a quem solicitar hospedagem”. A comunidade também disponibiliza em seu site dicas de segurança para viagens, que abarcam desde comunicação com os surfers e revisão de perfis a utilização da própria plataforma para reportar experiências negativas. “Não podemos vacilar, é importante avaliar bem antes de pedir ou dar o couch. Afinal, gente mal intencionada tem em todo lugar”, conclui Renata.

41


DIÁRIO DE UMA BICICLETA Arquivo Pessoal

Renan Fantinato

Arthur percorreu 40 mil quilômetros durante a viagem

O brasileiro Arthur Simões tem grandes histórias para contar. Com apenas 24 anos, ele realizou em 2005 uma volta ao mundo de bicicleta, percorrendo 46 países em mais de três anos de viagem. O roteiro privilegiou locais mais afastados e desconhecidos, pois o objetivo de Arthur era conhecer pessoas, culturas e histórias. Em busca do desconhecido, o jovem trouxe na bagagem lições e aprendizados, e compartilhou tudo isso conosco nesta entrevista. 42


Quando surgiu a ideia de dar dar uma volta ao mundo de bicicleta? Pedalo desde criança e ao longo dos anos a bicicleta sempre esteve presente em meu dia-a-dia. Quando estudava Direito, conheci o cicloturismo, o viajar se locomovendo sobre uma bicicleta. Após algumas viagens por estradas brasileiras, soube de um alemão que estava prestes a concluir sua volta ao mundo de bicicleta e aquilo me encantou. Desejei fazer o mesmo, mas estava ciente das dificuldades que me separavam deste objetivo, então deixei esta ideia de lado. Porém ela continuou lá, esperando a hora propícia para poder retornar à superfície. Somente após formado é que percebi que vivia o momento certo para realizar essa longa viagem. Deveria deixar tudo para trás, profissão, amigos, família, teto e rotina, para simplesmente seguir rumo ao desconhecido e viver sem endereço pelos próximos anos.

nhecido - e o desconhecido dentro de mim mesmo -, olhá-lo nos olhos e aprender com minhas experiências diante da vida.

O que te motivou a começar essa jornada? É difícil traçar o porquê desta viagem. Poderia recorrer a termos como “realização de um sonho” ou algo assim poético, mas não seria real. Creio que fui movido pela curiosidade. Queria dar de cara com o desco-

Arquivo Pessoal

Quais foram as maiores dificuldades durante toda a trajetória? A decisão de realizar uma viagem como essa talvez seja a maior dificuldade da jornada. O desapego em relação a tudo e todos não é algo fácil, mas é um pré-requisito para uma viagem de alguns anos de duração. É importante

saber que a viagem começa antes da partida, caso contrário ela poderá ficar pesada demais. Já na estrada, os desafios são muito semelhantes aos que qualquer pessoa enfrenta em seu dia-a-dia, com a diferença de que quando se está sozinho, sua segurança depende exclusivamente de você mesmo e de suas decisões. Há necessidade de lidar bem com todos os sentimentos que brotam dentro de si, caso contrário eles podem levar

Toda bagagem de Arthur Simões teve que ser levada em sua bicicleta

43


qualquer viajante a perder o controle sobre si próprio.

O que significa “viajar” ou conhecer novos lugares para você? A viagem é uma espécie de vida em miniatura, especialmente quando realizada de forma solitária. E a viagem a que me refiro não é a viagem dos turistas, mas sim a viagem do viajante, que vai para o mundo aberto a novas experiências, sem saber o que encontrará pela frente e, muitas vezes, nem se irá voltar. A viagem é como

uma vida em miniatura porque que tem começo, meio e fim, dores e alegrias, medos e vitórias, decepções e superações e, acima de tudo, muito aprendizado. Cada pedra no caminho é uma lição, cada pessoa encontrada é uma troca, cada adeus uma superação. Quando se percebe que é nessas pequenas coisas que está a maior

“Viajar é aproveitar o caminho e não almejar o ponto de chegada”

Arquivo Pessoal

Você sentiu medo, solidão, ou algum sentimento ruim durante o trajeto? Eu senti medo, felicidade, solidão, satisfação, dúvidas, ansiedade, plenitude e muitos outros sentimentos durante estes três anos de viagem, isso era inevitável, o segredo recai sobre como lidar com cada um deles. Aprender com o medo, para tirar proveito dele, entender o sentimento de solidão, não alimentar a ansiedade e cultivar a

felicidade com as pequenas coisas do caminho facilitam e engrandecem a viagem.

Arthur visitou belas paisagens, como o Lago Titikaka, no Peru

44


Arquivo Pessoal

Mais do que realizar uma volta ao mundo, Arthur procurou conhecer novas culturas e aprender tudo que pudesse com elas

beleza da viagem, se aprende que viajar é aproveitar o caminho e não almejar o ponto de chegada. Qual foi o lugar mais incrível ou a melhor experiência que você teve durante a viagem? É difícil definir apenas um. Houve muitos momento marcantes, mas como eles são diferentes, cada um tem sua beleza particular. Como minha busca era pelo novo e o desconhecido, os melhores momentos

“Os melhores momentos ocorreram em países mais fechados, quase isolados do mundo”

ocorreram em países mais fechados, quase isolados do mundo, onde eu consegui encontrar um costume autêntico e uma população extremamente hospitaleira e acolhedora. Esses países foram Mianmar e Iêmen, nações que permaneceram praticamente isoladas do mundo por posições políticas nas últimas décadas, isso fez com que a cultura desses locais permanecesse quase intocada. Ambos eram países muito religiosos e com valo-

45


res muito elevados, especialmente onde o dinheiro ainda não estava acima de todas as outras coisas.

ou alguma cultura, temos que antes olhar para nós mesmos e perceber que os estranhos e errados talvez sejamos nós. Quais são os seus planos para o futuro? Não traço muitos planos. A vida muda constantemente e creio que se nos concentrarmos no presente e em fazermos as decisões certas, não precisamos nos preocupar com o futuro. Como gosto muito de viajar, aprender coisas novas e compartilhar minhas experiências, trago um pouco de tudo isso naquilo que faço. Desta forma, creio que novas viagens virão, mas o destino ainda não sei dizer.

Arquivo Pessoal

as, por considerarem “normal” uma série de atos que já se tornaram mecânicos. Muitas das coisas que julgamos muito importanQuais foram os maiores tes podem não fazer senaprendizados que você tido nenhum numa outra tirou convivendo com sociedade. Por isso, antantas culturas diferente tes de julgarmos alguém durante esses anos? Aprendi que não sei de nada. Quanto mais eu aprendia e descobria sobre “Quanto mais eu o mundo, mais dava conaprendia e ta da minha ignorância e descobria sobre o pequenez diante de tudo. mundo, mais dava O contato com tantas culturas me deu uma visão conta da minha panorâmica da cultura ociignorância e pequedental, na qual estamos innez diante de tudo” seridos, e isso me ajudou a perceber o que é “invisível” para a maioria das pesso-

Depois de 3 anos e 2 meses, o viajante completou toda rota

46


47


Mayara Abreu Mendes

Centro de Convivência: o melhor local para fazer amigos, divertir-se ou apenas descansar

DE BELICHE EM BELICHE Descubra por que todo mundo vai parar em um hostel quando viaja Mayara Abreu Mendes 48

S

e tem uma coisa que preocupa todo viajante é sua futura hospedagem. Não importa se é a casa de um amigo, um parente distante, uma família hospedeira ou qualquer outro local que você possa ficar durante sua estadia fora de casa, a pergunta que nunca calará é: como vai ser essa experiência? Para quem vai visitar ou ficar por um bom tem-


po em apenas uma cidade é difícil de imaginar, que dirá para os famosos mochileiros, que viajam por diversos países, ou para aqueles que têm uma breve viagem para outra localidade. Atualmente, pensando nesses exemplos e em outras tantas situações relacionadas à viagem, o mundo vem considerando hostels (ou, no português claro, albergues) como a melhor

opção de hospedaria. Mas o que é um hostel? Diferente de um hotel, uma pousada ou a casa de alguém conhecido, é a forma de acomodação que proporciona o maior convívio com pessoas desconhecidas e provenientes das mais diversas partes da Terra. De acordo com Michell Almeida, o proprietário do Hostel Jardim São Paulo, no bairro do Tatuapé de São Paulo, os albergues são a melhor opção por causa de “interação entre hóspedes e funcionários, enriquecimento cultural e a sensação de estar em casa”. Quer seja para fora do país ou até mesmo em destinos curtos de uma cidade para outra, os hostels pelo mundo afora oferecem os melhores preços em acomodação que você pode encontrar. Pagando bem baratinho, você tem uma cama de um beliche com lençóis e cobertores limpos, uma toalha de banho que pode ser trocada e a oportunidade de conhecer pessoas do mundo inteiro dividindo um quarto (que pode ou não ser misto) com até quinze pessoas. Existem também os quartos com menos gente e até mesmo quartos privados para uma ou duas pessoas, que custam um pouco a mais que os compartilhados, mas ainda assim mais baratos que um hotel.

Além do preço, outro fator que influencia a escolha dos hostels é a localização. Normalmente, são prédios grandes (na maior parte das vezes, antigos) e em regiões de muita movimentação nas cidades, como centros urbanos ou pontos de referência. Ser bem localizado também é um meio de garantir transporte público na redondeza, o que facilita ainda mais os viajantes a economizar e a garantir um meio de se locomover. A maior parte dos albergues tem outras facilidades para oferecer, como uma cozinha comunitária, onde é possível guardar alimentos etiquetados em geladeiras e armários, além de poder usufruir dos utensílios para cozinhar sua própria comida; uma rede de Wi-Fi com alcance no prédio inteiro; armários para guardar os pertences dentro e fora do quarto, que exigem cadeados do hospedado; banheiros públicos e privados, dependendo do tipo de quarto; jogos para diversão conjunta; alguns contam com restaurantes a preços pequenos dentro ou em volta; mas o que vai sempre ser encontrado é uma equipe totalmente disposta a ajudar e a informar, assim como a limpar. O staff é parte primordial dos hostels. Sem

49


Mayara Abreu Mendes

eles, os hóspedes não seriam nada. Para a rede de albergues Hostelling International – a HI –, ter uma boa equipe é mais do que essencial. A associação existe desde 1932 e são mais de 4000 sedes espalhadas por mais de 90 países do mundo. Travis Brown, recepcionista no HI Toronto há um ano, diz estar “no melhor trabalho que já teve na vida” e isso se deve ao grupo como um todo, uma vez que “o ambiente de trabalho é muito legal, todo mundo é tão único e interessante”. A viajante Suelen Bonete confirma, dizendo que “existem vá-

50

rias [redes de albergue], mas esta [HI] nunca me decepcionou no quesito localização, limpeza e estrutura. A recepção sempre foi muito boa”. Entretanto, nem tudo são flores. Os maiores dilemas de um albergue são a privacidade e a liberdade. Como os hóspedes acabam sendo desconhecidos uns aos outros, todo mundo acaba perdendo um pouco da sua liberdade para não privar o outro. As palavras do jornalista Felipe Mateus bem definem a situação: “é preciso um pouco de desprendimento. Se a pessoa não tiver problemas em com-

partilhar seu espaço com outras, vai aproveitar sem problemas”. Se não, tem sempre um quarto privado como opção. A convivência com o desconhecido pode ser um problema, mas é claro que existe todo o lado bom de estar em um ambiente em que ninguém

O staff é parte primordial dos hostels. Sem eles, os hóspedes não seriam nada


Mayara Abreu Mendes

Alguns hostels realizam atividades para que os hóspedes possam aproveitar e conhecer a cidade com um grupo, e não sozinhos

se conhece e todo mundo quer desbravar a cidade (às vezes, até o mundo!). A estudante Tiemi Matsumoto viajou sozinha pela Europa enquanto fazia intercâmbio na Ucrânia e acredita que “a vantagem é sempre conseguir fazer amizades desde que você dê um jeitinho de se enturmar com o pessoal. Todo mundo sempre está disposto a dividir experiências de outras viagens e também a ouvi-las”. Os viajantes que chegam e deixam um alber-

gue num dia são muitos. Entretanto, cada vez mais está crescendo a estadia mais longa nesse tipo de acomodação. Há quem fique para trabalhar, para estudar fora do país ou até mesmo para procurar um lugar para morar na cidade. Foi o que aconteceu com a relações públicas Natassia Yalmanian em Lyon, na França. “Estava chegando a um país novo onde não conhecia ninguém. Preferi optar pelo hostel, pois tinha a certeza que conheceria pessoas

que estariam dispostas a sair e conhecer a cidade comigo”. Ela ficou no Auberge de Jeunesse de Vieux Lyon por 15 dias até achar lugar para morar. Seja para passar uma noite e dividir quarto com 15 pessoas ou para ficar uma semana com mais cinco, os albergues estão aí para mostrar que você pode fazer amizades do mundo inteiro e conhecer uma cidade nova gastando pouco da melhor forma possível. Não esqueça de procurar um para sua próxima viagem!

51


52


Arquivo pessoal

TECH

preciso

Navegar é

Wagner Alves

MelhoresApps Google Maps

Exige internet? Sim

Traz mapas dos lugares com rotas por transporte público e a pé, de ponto turísticos e estabelecimentos

GoogleTradutor

Plataformas:

IOS, Android e Windows Phone

Exige internet? Sim

Possibilita a tradução para as mais diversas línguas, podendo ouvir ou mesmo traduzir uma fala

Trip Planner Organiza a viagem relacionando aos dias do passeio. Possível anotar ações de trabalho, diversão, voos, entre outras

Plataformas:

IOS, Android e Windows Phone

Exige internet? Não

Plataformas: IOS, Android

G

ustavo Pagin gosta de viajar. Mais que isso, leva a sério o verbo navegar, comumente vinculado à internet. Avesso a agências de viagem, Gustavo programa em seu celular cada passo de seus anuais passeios para fora do país. Mais que isso ainda, considera essencial estar conectado em cada momento da viagem. “Acho até que mais importante que os aplicativos é descobrir como arrumar um chip pré pago com ‘all you can eat data’”. Gustavo se refere ao plano de internet ilimitada para telefones, os quais podem ficar em média de 15 Euros 60 dólares. “Acaba sendo um pouco caro, mas do meu pronto de vista vale cada centavo. Para os que não querem investir em um bom pacote para o telefone, Gustavo lembra: “não podemos esquecer também da divertida caça por um Wi-Fi desbloqueado”.

53


LAG DO ORGANISMO Viagens longas podem provocar alterações no corpo. Uma delas é o Jet Lag, descompensação do organismo em diferentes fusos horários

Gabriel Oliveira

54

As lágrimas que escorrem pelo rosto, a boca seca, o suor frio momentos antes da partida, ou os sorrisos efusivos, e a umidade ocular podem não ser as únicas alterações orgânicas visíveis de uma longa viagem. Embora o sentimento de um abraço, ou a angústia de uma partida não deva ser mensurados em “sintomas” do organismo, uma viagem apresenta algumas particularidades invisíveis. Muitas vezes acabamos atravessando fronteiras tão longínquas que não nos damos conta o que isso envolve: outros fusos, hábitos, climas e outras condições para o corpo. Imagine que um carioca decidiu viajar para a Europa, mais precisamente, para Kiev, na Ucrânia. A capital europeia pertence ao fuso +2 horas do GTM - Greenwich Mean Time: “Hora média de Greenwich” utilizada como padrão às demais - e o Rio de Janeiro está a -3 horas do GTM. O brasileiro terá que


adiantar as atividades orgânicas em 5 horas: Sinal amarelo para “relógio biológico”, um dos que mais sofre com as mudanças repentinas. Inerente aos seres vivos, esse relógio interno comanda as funções do organismo que se repetem a cada 24 horas: auxilia no controle da temperatura e pressão arterial, provoca sensação de fome, ajuda a ativar a digestão e influencia a produção de hormônios. Muitas vezes a adequação do organismo, nesse tipo de viagem, ocorre natural e automaticamente. No entanto, em alguns casos, o viajante pode apresentar um quadro de descompensação orgânica causada pela confusão desse grande Coelho Branco: a esse fenômeno damos o nome de Jet Lag. Jet o quê? “O Jet Lag é uma condição fisiológica resultante de alterações nos ritmos biológicos metabólicos e hormonais, o chamado

‘relógio biológico’. Em uma viagem através de vários fusos horários, a pessoa apresenta uma dissociação entre o horário no local de destino e o que o seu ‘relógio biológico’ sente, ainda trabalhando no horário do local de origem”, explica o médico Cesar Boguszewski, vice-presidente do Departamento de Neuroendocrinologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Os sintomas mais comuns do Jet Lag são cansaço excessivo e alterações do sono. Algumas pessoas podem sentir tonturas e apresentar distúrbios gastrointestinais devido às mudanças nos horários das refeições e, consequentemente, da digestão. Agora, voltemos ao nosso amigo carioca. A escolha feita pelo brasileiro – Kiev – tem um agravante peculiar. As viagens para o leste do planeta são mais problemáticas já que o relógio biológico precisa ser adiantado. “Quanto maior o número

da diferença entre os fusos, mais difícil a adaptação dos ritmos biológicos”, afirma Cesar Boguszewski. Ana Luisa Figueiredo, comissária de bordo, está acostumada a fazer a ponte aérea Brasil e França, e também voa para costa leste da América do Norte.

“O corpo leva cerca de uma semana pra começar a se adaptar ao novo horário. Mudanças de humor, indisposição e até mesmo sintomas como diarreia e vômito são comuns” Embora seu organismo já esteja preparado às alterações de horário, Ana Luisa conta que já sofreu com o Jet Lag. “Considero o cansaço o maior prejuízo do Jet Lag. O corpo leva cerca de uma semana pra começar a se adaptar ao novo horário. Mudanças de humor, indisposição e até mesmo sintomas como diarreia e vômito são comuns”, explica.

55


Há prevenção? As diferenças de fuso dos países visitados na escala de Ana ainda são pequenas, perto do que o nosso carioca-modelo irá enfrentar. Aliás, o brasileiro terá que se precaver para tentar evitar o Jet Lag, embora César Boguszewski afirme que não há maneiras de se prevenir a sensação de descompensação orgânica. “Já foram feitos estudos com uso de drogas antes da viagem, mantendo-se alguns dias depois da chegada, mas os resultados são variáveis e conflitantes”, diz. Mas algumas dicas podem auxiliar a amenizar o efeito Jet Lag. Uma das estratégias consiste em iniciar a adaptação antes do embarque. Ana Luisa Figueiredo, por exemplo, tenta driblar a descompensação adaptando seu organismo aos destinos de suas viagens. “Como viajo com grande frequência procuro, sempre que possível, me

56

manter no fuso onde passo a maior parte do meu tempo. Acredito que assim, meu organismo sente menos os inconvenientes do Jet Lag”. Estudos mostram que os viajantes que procuraram manter as atividades e hábitos como se estivesse em seu país de origem têm a tendência de ficarem menos sonolentos e sofrer menos os efeitos do Jet Lag. Mas, um terço daqueles que viajam sente-se melhor se optar por fazer justamente o oposto. A eficácia nos métodos anti-Jet Lag varia muito de acordo com os indivíduos. Outra possível estratégia é administrar os horários de saída e chegada dos países. Tente desembarcar no país de destino durante o dia, pois o organismo pode expor-se aos raios solares e iniciar a adaptação ao fotoperíodo – período ao qual o corpo fica exposto às luzes naturais – o quanto antes.

Sinto seus efeitos. E agora? As adaptações e, sobretudo, as recuperações dos indivíduos que sofrem da descompensação são variáveis. Ana Luisa sugere que “se a pessoa for passar menos de 3 dias no local, que não tente entrar no fuso mas que respeite seu organismo. Caso passe mais tempo, que tente descansar um pouco logo depois da chegada, que continue com seus hábitos como se não tivesse mudado de fuso”. Em estudos recentes, a melatonina, hormônio responsável pela regulação do sono, ganhou destaque na luta contra a descompensação orgânica. A maioria das pesquisas indicam que doses noturnas de 2 mg a 8 mg de melatonina no dia da chegada ao destino aliviam os sintomas do Jet Lag ou melhoram a qualidade do sono, ou ambas as coisas. Segundo


César Boguszewski, “nesta dosagem, o uso de melatonina é seguro e não provoca eventos adversos”. O médico ainda indicou que os estudos com ago-

nistas – substâncias que estimulam um receptor a desempenhar sua função – dos receptores benzodiazepínicos – ansiolítico e sedativo, que são empregados

no tratamento de ansiedade, insônia e agitação – mostram resultados conflitantes. “Alguns relatam melhora e outros não, alguns estudos mostram superioridade a melatonina e outros não, mas os efeitos colaterais são geralmente mais frequentes. Algumas pessoas mencionam melhora com o uso de estimulantes, como cafeína”, explica. Jet Lag é permanente? Se você está com receio de passar pelo Jet Lag e não conseguir aproveitar a viagem, fique tranquilo! Não há evidências que mostram qualquer possibilidade de dano permanente. Ou seja, independentemente se você tenha todos os sintomas, ou apenas alguns deles, se adotar algumas das estratégias de “profilaxia” ou não, lembre-se de que o Jet Lag é passageiro e não incomodará por muito tempo.

57


ENSAIO FOTOGRÁFICO

Chegadas

Idas. Vindas. Vai. Vem. A gente vive partindo e chegando e nem percebe. Uns vão apenas até a esquina. Alguns poucos cruzam oceanos e continentes. Tem os que vão, mas voltam. E também os que vão e ficam. Entre abraços, lágrimas e sorrisos, a gente vai e deixa um pouco.

ndes e M breu oalli A a r ch Maya na Pas Mari 58


e

Partidas

Get back to where yo u once belong

59


Vou m orrer d e sauda de. Nã o, não vá embor a.

60


Coisa que gosto ĂŠ poder partir sem ter planos. Melhor ainda ĂŠ poder voltar quando quero.

61


Marina Paschoalli

QUANDO O LAZER SE TORNATRABALHO A rotina de quem trabalha com viagens

Isis Rangel

Motorista de 么nibus chegando na rodovi谩ria de Bauru

62


Uma tarde em uma rodoviária ensina muitas coisas sobre o mundo em que vivemos. Poucos lugares de uma cidade contam com tantos personagens diversos: pessoas de todas as classes sociais viajando, pessoas trabalhando, pessoas invisíveis. Ali, naquele ambiente, todo tipo de gente coexiste, mas muitas vezes não percebemos isso. Entre tantas pessoas que cruzam nosso caminho durante uma viagem, grande parte delas está ali a trabalho: desde o carregador de malas até o motorista do ônibus, o motivo deles estarem ali não é o lazer, é a profissão. Milhares de pessoas trabalham nesse ramo, mas poucos de nós pensam seriamente nesse fato e mais do que isso, poucos de nós já parou para pensar se o motorista do ônibus consegue viajar com a família nas férias. Pensando nisso, fui pesquisar: quem trabalha com viagem, viaja?

M

ais uma tarde quente de segunda-feira em Bauru. Vou até a rodoviária marcar minhas passagens de ônibus para visitar meus pais no final de ano e aproveito para apurar minha reportagem. A primeira pessoa que abordo é Marilza Ferreira. Ela é vendedora em uma barraquinha de sorvetes e está lá há quatro anos. Quando pergunto sobre sua hora de lazer, ela é categórica. “Não tenho tempo para isso não”, afirma Marilza. Quando toco no assunto viagem, ela suspira e diz: se eu pudesse, iria pro Guarujá, né? Conhecer o mar. “Sério que você nunca foi para a praia?”, pergunto com uma nota de tristeza na voz. “Ah, não tem dinhei-

ro, né?”, responde ela, com um tom de quem está acostumada a ser privada de coisas na vida. Estar sempre na rodoviária, vendo milhares de pessoas passarem por ali todo mês, rumo a suas casas, seus trabalhos, seu tempo de lazer sem poder fazer o mesmo, pode ser um pouco frustrante. “O que eu digo para quem quer começar é: pensa bem se você está preparado mesmo, trabalhar com escala é difícil, às vezes, você pode ser privado de um domingo em família, de Natal, ano novo... Tem que pensar se está preparado para isso”, declara Sidemar Soares, motorista rodoviário há 20 anos. Realmente, trabalhar com viagem não é fácil. Para Dênis, um atenden-

te de uma empresa de ônibus em Bauru, “não tem feriado, não tem domingo, sou um escravo”, desabafa. A realidade pode ser muito dura: no ramo dos atendentes em guichês rodoviários, trabalham-se em média 10 horas por dia, em regime de escala, muitas vezes sem folga semanal. Apesar disso, há quem ame o que faz. “Adoro meu trabalho, estou aqui porque gosto muito de lidar com o público”, afirma Léia Lima da Silva, há quatro anos atendente da empresa Andorinha. “Você tem que gostar da profissão, se não se torna um mau profissional, como em tudo na vida, né?”, afirma o motorista Valdelino Piauí de Castro. E as vantagens de tra-

63


64

bom trabalhar aqui, tem muitas histórias”, diz. Uma das histórias que João viveu foi quando encontrou uma ex-presidiária voltando para casa, após cumprir um ano de pena. “Ela me contou toda a história de vida, disse que teve que largar o filho quando foi presa e que era inocente, que armaram para ela”, relembra. “Eu fiquei um pouco com medo, mas é interessante saber desse tipo de coisa, saber que essas coisas acontecem por aí”, finaliza. “Durante uma viagem a gente lida com todo tipo de gente. Os passageiros da noite são mais fáceis de lidar, você liga o ar, desliga a luz e todo mundo dorme, os de dia são mais difíceis, mais

exigentes”, conta o motorista Sidemar. As relações entre público e motoristas podem ser extremas. “Um dia um passageiro pegou um ônibus para São Paulo e atrasou, aí me ofendeu, porque ia perder o voo”, reclama Valdelino. “Eles só esquecem que tem o trânsito, que a gente faz a viagem em segurança, que é difícil pra gente também”, lamenta. Para Valdelino, o mais importante para conseguir trabalhar bem nesse ramo é “ter o dom da paciência, precisa saber abrir mão do seu direito mesmo quando sabe que está certo. É uma eterna luta interna, mas muito gratificante quando chega um elogio ou coisa parecida”, completa o motorista.

Marina Paschoalli

balhar nesse ramo? “São muitas. No início eu não gostava muito de trabalhar, mas agora gosto”, diz Sidemar. “A gente [motoristas] tem a oportunidade de conhecer todo tipo de gente, somos responsáveis por levar as pessoas ao seu destino, isso é bacana”, reflete. Para a pipoqueira, Nilsa Ferreira, conhecer pessoas é uma das importâncias de viajar. “Eu gostaria muito que minha filha pudesse viajar, é importante conhecer outros lugares, cultura, pessoas”, conta. Nilsa nasceu no Paraguai e vive há 15 anos em Bauru; veio para cá porque casou com um brasileiro. Segundo ela, “trabalhar aqui é bom, mas tem que ter paciência com o público”. Ela também não viaja muito, só volta para o Paraguai uma vez por ano para ver a família. “Não tem muito dinheiro, mas tem muita saudade, né? Tenho que ir”, explica. Ver a família é um dos principais motivos para se viajar, grande parte das pessoas só viajam para visitar parentes. Esse seria o caso do carregador de bagagens, João Preripalle. Ele diz que não tem tempo de viajar. “Agora no final do ano minha família vai para o Paraná visitar os outros parentes e eu vou ficar aqui, trabalhando”, reclama. “Mas é

O salário médio de um motorista rodoviário gira em torno de 2000 reais


65


A Na tentativa de gerenciar as migrações com mão de ferro, nações utilizam Políticas Migratórias como uma clara arma de seleção natural lamarckica

66

sala, bem iluminada, mantém uma vívida porta de saída, por onde, coincidentemente, muitos entram. O ���Push” e o “Pull” inscritos na transparência de sua estrutura são mais que meras informações: são traduções para uma seleção natural sordidamente meritocrática. A sala, embora tente confortar o esperançoso indivíduo, apresenta uma aura sádica: todos devem ser igualmente mal tratados. A sala transforma-se em um purgatório de sonhos e pretensões. Os “inquisidores” desse pequeno tribunal são amparados pelos “excessos” do Estado e mau uso de políticas e normas que regularizam a mobilidade humana. Mutáveis, essas políticas migratórias flertam com as intempéries das relações entre nações soberanas, que possuem cada qual seu interesse, objetivo e soberba. Por definição, as polí-


ticas migratórias são legislações que regulam os fluxos de migração a fim de que nenhum país se saia prejudicado com o aumento ou decréscimo da população. Os Estados, na dinâmica politico-econômica atual, não conseguem garantir o equilíbrio da mobilidade humana e passam a gerenciar a entrada ou saída de migrantes em todo o mundo, conforme demandas e interesses de cada nação, de blocos regionais ou até mundial. Vacina anti-lamarck As políticas migratórias não são apenas uma maneira de se selecionar “pessoas aptas a migrar”. Mais que isso: são legislações criadas para garantir o bem-estar do próprio migrante. “A política migratória e a inclusão dos migrantes nas políticas são determinantes da qualidade de vida das pessoas que migram, e constituem um

aporte fundamental para a sociedade que recebe os migrantes”, explica a professora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), Deisy Ventura. As políticas públicas e migratórias têm como objetivo extinguir as consequências negativas geradas pelos fluxos de pessoas, como a violência, o desrespeito aos Direitos Humanos e a xenofobia. “A ausência destas políticas gera clandestinidade em cascata e aumenta a vulnerabilidade da grande massa de migrantes que se move à procura de trabalho, para escapar de conflitos armados, catástrofes naturais ou da fome, entre incontáveis outras razões”, completa a docente. Nos países considerados do primeiro mundo, no entanto, a criação de políticas públicas restritivas colocam os interesses do Estado à frente do bem-estar do migrante, mas não

impedem o fluxo de pessoas. Começa aí a biópsia. Cerca de 60% dos 232 milhões de migrantes no mundo vivem em “nações desenvolvidas”. Muitos deles têm de enfrentar a instrumentária anti-imigração para assegurarem seu direito de mobilidade. Os Estados Unidos, por exemplo, é o país que mais atrai migrantes no mundo, mas se utiliza de severas normas de controle e gerenciamento de migrantes. “A repulsa à entrada de migrantes cria redes de tráfico de pessoas, corrupção e toda sorte de criminalidade. O problema da mobilidade humana reflete as características deste proces so histórico que chamamos de globalização, cuja característica é justamente a vertiginosa circulação de mercadorias e capitais, e das pessoas que deles dispõem ou que são consideradas ‘mão de obra qualificada’”, comenta Deisy Ventura.

67


68


Passagem para o pesadelo Os problemas causad os por leis restritivas não são nada raros, embora as políticas migratórias devessem auxiliar o migrante. O caso da família Taioque é um forte exemplo má apropriação dessas normas migratórias. Em 2003, Marta e seus dois filhos realizavam a primeira viagem internacional de suas vidas, com destino à Itália, a fim de acelerar o processo de cidadania italiana. O marido de Marta já estava em Roma, a convite de um amigo italiano que se responsabilizara e mediara a ida do brasileiro. “Embarcamos dois meses depois do meu pai. Assim que pisamos em Roma, tivemos dificuldade para respondermos o que nos perguntavam. Nos levaram para uma sala reservada e nos deram um formulário para preencher”, relata Tatiane Taioque, filha mais velha de Marta. “Na verdade, eu

falava muito pouco italiano. Ficou bem complicado em termos de comunicação, mas consegui entender o que eles estavam pedindo no formulário. Eles queriam saber quanto dinheiro nós tínhamos e eu tive que discriminar tudo”, conta Marta. “Tentamos falar sobre os documentos que precisávamos para provar nossa cidadania italiana, mas não nos deram atenção. Não nos falaram o que estava acontecendo, nem tivemos a possibilidade de ter algum intérprete a nosso serviço no aeroporto”, completa Tatiane Taioque. A filha, que na época tinha 10 anos, ainda revela que não só os membros da família sofriam com o descaso das autoridades italianos. “Nos levaram para outra sala que para nosso espanto tinham mais pessoas, entre as quais algumas que só estavam fazendo conexão em Roma. Contabilizamos em torno de 18 pessoas.

Ali ficamos todos juntos”, conta Tatiane. Quando o amigo italiano e o marido foram acionados por Marta, a negociação com as autoridades italianas tornou-se mais delicada. Tatiane lembra que as autoridades “perguntaram como deixariam uma mulher sozinha com dois filhos entrarem na Itália, e questionaram onde estava o pai. O meu pai, então, se apresentou e prenderam-no lá no Aeroporto até à noite. Depois de muito pedir, ele conseguiu convencê-los a permitirem que nos encontrássemos por alguns segundos, dentro do aeroporto”. “Parecia até que éramos terroristas...só alguns segundos e já estavam puxando meu marido para levá-lo. Estas cenas não conseguimos esquecer”, conta Marta. “Deram-nos ticket alimentação, mas não havia banco para descansar e nenhum atendimento melhor para isso”, completa Marta Taioque.

69


Depois de algum tempo, as autoridades permitiram que o marido de Marta regressasse às suas instalações na Itália para arrumar as malas e retornar, imediatamente, ao Brasil. “As passagens que ganhamos de presente do nosso amigo italiano se tornaram um pesadelo para nós e para ele. Na verdade expulsaram meu pai da Itália por 10 anos. Esse tempo expirou no ano passado (2013)”, afirma Tatiane. Embora a família Taioque tivesse o direito de acionar a embaixada ou o Itamaraty “isso não foi feito, por falta de instrução. Mas fica-

70

mos bastante chateados com essa situação. Não é fácil você conseguir alcançar um sonho. Conseguimos o mais difícil, que era o dinheiro, e quando fomos deportados, não houve reembolso”. Os Taioque ainda procuram motivos para terem sido barrados no aeroporto. Marta iniciou uma pequena investigação para descobrir o que causou tudo: “Nosso amigo italiano disse-nos que as regras migratórias mudam muito rápido. Ele foi à embaixada para ver o que havia acontecido e descobriu que algumas normas haviam mudado. Ele não

sabia que em um mês de permanência, meu marido deveria voltar para carimbar, mais uma vez, alguns papéis, na embaixada. Foi uma ação não passada e não cumprida. Não sei se foi o motivo em si para tanto desdém, mas essa foi uma das justificativas”. Marta acredita que, provavelmente, as autoridades italianas pensaram que a família pretendia permanecer no país de maneira ilegal “não era nossa intenção ficar lá ilegalmente. Isso nunca passou pela nossa cabeça. O meu marido foi antes, justamente para abrir caminhos para nossa cidadania”


Arquivo Pessoal

Política migratórias às avessas O caso do artista baiano Menelaw Sete não é diferente. Embora seja reconhecido internacionalmente, Menelaw foi barrado, em 2012, na Espanha. O Picasso brasileiro, como também é conhecido, viajava para Europa com o objetivo de realizar exposições na Itália e na Suíça, mas foi abordado em Madri, onde fazia a conexão para os destinos. “Os espanhóis agiram de maneira ríspida e áspera, ferindo os direitos humanos. Esse foi o principal motivo pelo qual eu me manifestei”, afirma Menelaw, que teve de voltar para

o

Brasil imediatamente. Na época, Espanha e Brasil protagonizaram um show de retaliações envolvendo os governos, no campo das políticas migratórias. “O Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores do Brasil), posteriormente interveio, aplicando regras mais rígidas, que culminaram na lei da reciprocidade para turistas espanhóis. Eu não sou a favor da retaliação. Acredito que o ideal seria medidas que vigorassem nos países, nos quais o respeito ao ser humano fosse preservado independente de nacionalidade, condição sexual, situação social ou cor da pele”, conclui o artista brasileiro.

O governo espanhol é o país que mais barrou brasileiros na Europa O então ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, assegurou, na época, que as relações entre Brasil e Espanha, embora extremecidas eram bastantes satisfatórias, em termos de migrações. Patriota afirmou que o número de brasileiros que tiveram ingresso negado em território espanhol caiu de 1.402 em 2011 para 510 pessoas em 2012. O discurso cauteoloso, contudo, não combinou com a prática: uma série de sanções foram adotadas pelo governo brasileiro.

71


As diáspora brasileira O caso de Menelaw Sete e da família Taioque revelam uma tendência que se encontra há muitos anos intrincada à realidade dos fluxos migratórios. Embora a imigração para o Brasil tenha crescido quase 87% em 10 anos, os fluxos migratórios obedecem à tendência: dirigem-se aos países desenvolvidos. Deisy Ventura, professora do Instituto de Relações Internacionais da USP, esclarece que o fluxo brasileiro para o exterior auxilia na compreensão das características da mobilidade humana. “É bastante heterogênea a forma de tratamento dos brasileiros no exterior, a depender do país em que se encontram. O mesmo impulso que temos quando pensamos em nossos compatriotas, de compreensão dos motivos de

72

sua emigração e de defesa dos seus direitos, é o que deve orientar nosso olhar sobre os migrantes que chegam no Brasil atualmente”, esclarece Deisy. Entender não é compreender As políticas migratórias, necessárias para assegurar o bem-estar do migrante, parecem ser entendidas, mas não compreendidas. Como afirma Deisy Ventura, “a mobilidade humana veio para ficar, tanto pela facilidade de circulação dos que possuem bens ou uma força de trabalho que interessa aos mercados, como pelas características da produção industrial, descentralizada e ‘deslocalizada’, além de muitas outras razões, como as crises políticas e econômicas”. Nesse cenário, a tendência na movimenta-

ção de grande número de pessoas em busca de melhoria de vida, trabalho ou até mesmo bem-estar parece não entrar em consonância com o espírito “nacionalistas” de alguns países. As políticas migratórias são manejadas como mecanismos de defesa do leviatã chamado Migrante. “Os Estados precisam estar preparados para este movimento. Migrar é uma parte importante da experiência humana, que atualmente ocorre em outra escala e com crescente complexidade”, endossa Deisy. Se Lamarck acredita que um órgão pode atrofiar se em desuso, a falta de compreensão das políticas migratórias – restritivas - nada mais do que um lamarckismo declarado: espera-se colocar o migrante em “desuso” para que nunca retome a rota. Darwin que não nos leia.


73


BUROCRACIAS QUE NÃO ACABAM Prestes a partir para um novo país, a maioria das pessoas precisa passar por um longo processo burocrático para conseguir realizar seu sonho. Conheça alguns dos processos necessários para viajar sem ter problemas.

Mayara Abreu Mendes

Annelize Pires

74

E

ntão você decidiu fazer uma viagem para o exterior? Você pretende estudar, passear ou apenas quer “mudar de ares” e buscar nova inspiração? A animação deve estar tomando conta de seus pensamentos ao imaginar todas as novas experiências que você vai vivenciar no novo país. Mas também é necessário não se descuidar das outras questões que tornarão sua viagem possível. Para planejar uma viagem para o exterior é preciso ter em mente que não basta apenas saber para qual país se deseja ir, mas ter em mente que é preciso alguns documentos, independente de para onde se vá e outros que apenas alguns países específicos pedem.


PASSAPORTE O passaporte é um dos documentos mais importantes para quem pretende viajar, estando em outros países ele servirá como sua identificação, nele estão contidos sua foto, assinatura, data de nascimento e que comprovam que você é originariamente parte formal de um país e que pretende voltar para lá. Tirar o passaporte não é mais um procedimento tão complicado, todo o procedimento está descrito no site da polícia federal, basta acessá-lo, seguir as instruções descritas. Devese ficar atento a dois prazos: o de entrega do passaporte e para a data que ele expira, se você estiver próximo a uma viagem ou durante uma viagem é necessário tirar um novo, como fez a estudante Amanda Tavares, “Bom, eu já tinha o passaporte, mas ele ia expirar durante o intercâmbio, então eu renovei. Foi bem tranquilo, eu tirei em Bauru mesmo e ele ficou pronto em cerca de uma semana.” VISTO O visto é o documento emitido por determinado país permitindo a entrada de um cidadão estrangeiro por determinado limite de tempo e para uma atividade específica em seu país, como turismo ou estudos, para tirálo é necessário solicitálo em um consulado ou embaixada do país de des-

tino. Esse documento pode ou não ser exigido pelos países, alguns exigem que ele seja anexado ao passaporte como condição para entrada, outros exigem apenas a apresentação do passaporte e cada um tem sua forma de conceder ou não o visto. Se você vai viajar a passeio, alguns países exigem que seja tirado o visto de turista, para trabalho é necessário o visto de negócios e para estudos, o visto para estudantes, tendo cada um uma validade diferente, variando também de acordo com o país. Estados Unidos, China, Japão, Índia,

O visto foi bem chato. Eu tive que ir pra São Paulo com mil documentos. Infelizmente, meu visto não chegou a tempo e eu tive que adiar meu vôo de ida países da Oceania, África e Europa oriental exigem o documento no passaporte brasileiro, já os países da América Latina e da Europa ocidental não exigem visto para turistas pois possuem um acordo de reciprocidade com o Brasil. Para quem pretende estudar por um longo período é necessário se informar sobre o tipo

de visto necessário para o país escolhido, a forma de conseguir o visto foi um dos motivos que fez com que o biólogo Pablo Bernardo escolhesse a Irlanda para seu intercâmbio, você tira o documento depois que já está no país “Um dos motivos que escolhi a Irlanda foi pela facilidade de conseguir o visto como estudante. Apesar do pagamento de uma taxa de 300 euros e comprovante de 3000 euros na conta”. Já Amanda Tavares, passou por um processo mais longo para conseguir o visto para a Inglaterra, a burocracia fez com que ela tivesse que esperar mais alguns dias para poder embarcar para o país, “O visto foi bem chato. Eu tive que ir pra São Paulo com mil documentos, e aí de lá eles enviam um envelope pro consulado britânico no Rio de Janeiro, que é o único que consegue emitir o visto daqui. Eu gastei uma grana bem alta com o visto (cerca de 1000 reais) porque paguei uma taxa de emergência. Infelizmente, meu visto não chegou a tempo e eu tive que adiar meu vôo de ida.” O importante é pesquisar quais são os procedimentos necessários para conseguir o visto para o país ao qual se deseja ir e agilizar ao máximo os procedimentos necessários, evitando contratempos e mais dores de cabeça, além das que você já tem por conta da viagem.

75


são as assistência como: Assistência jurídica, odontológica, médica por acidente, por doença, funeral, farmacêutica dentre outras.” Nem todas as pessoas lembram de fazê-lo ou desejam contratar um seguro por acharem caro e que não é necessário, porém alguns países exigem que se tenha o seguro para permitir a entrada de estrangeiros no país. Apesar de ninguém pensar que algo vai acontecer em sua viagem, ter o seguro é sempre uma garantia, Mariana Aquino, trainee em uma multinacional, ficou um ano na Alemanha durante sua faculdade e precisou utilizar o seguro, “ O seguro é muito importante, pois podem ocorrer problemas graves de saúde e inesperados. Quando precisei, o médico foi na minha residência, algo que não aconteceria se não tivesse o seguro. Além disso, quand o se está em um país de uma

língua que não se conhece, fica ainda mais difícil um atendimento em um hospital normal, além de ser mais custoso. Uma amiga que viajou comigo teve que fazer uma cirurgia, que se ela não tivesse o seguro para cobrir os gastos financeiros e organizar o tratamento (ex: após a cirurgia, ela teve que ficar fazendo curativo todos os dias durante um mês, e uma enfermeira foi em casa todos os dias (nesse meio tempo, mudamos de cidade e o seguro providenciou um médico na outra cidade para continuar com o tratamento), teria sido muito mais complicado.” Quando se trata de sua saúde e de qualquer problema que possa acontecer durante uma viagem, é sempre mais seguro optar pelo exagero do que pela falta, vale a pena pesquisar opções de seguros e evitar que se fique desamparado em um momento de necessidade.

Acervo Pessoal

SEGURO Depois de passar por todo o processo de tirar passaporte e visto, as preocupações burocráticas com a viagem não acabam por aí. O seguro viagem é uma forma de prevenir problemas e mais gastos caso algum contratempo ocorra, ele pode ser feito através de um corretor de seguros ou da própria agência com que se vai viajar. Para Alexandre Silvestrini, corretor de seguros a principal importância de se fazer o seguro é a possibilidade de viajar sabendo que os prejuízos não serão tão expressivos quanto se não tivesse feito o seguro, “O seguro busca proporcionar mais tranquilidade e segurança para viagens nacionais e internacionais garante prejuízos causados pelo cancelamento ou interrupção de viagens e pelo extravio de bagagens. O principal é o seguro de vida acidental , e tem as cobertura adicionais, que

Depois de passar por todo esse processo, o biólogo Pablo Bernardo aproveita para conhecer novos lugares na Irlanda

76


77


MODA & ESTILO Estações de trem, rodoviárias, aeroportos... nicho de viajante. Às vezes nossa equipe sai por aí para julgar as pessoas. Ok, não é bem assim, mas durante o processo de produção da revista, também temos tempo de clicar alguns outfits pelo mundo (sempre pensando no leitor, claro!). E mais: vale lembrar que é sempre importante estar confortável.

78

Básico e cool. O boné, além de dar um up no visu, protege do sol!

Soube combinar conforto com diversão. Super trunfo!

Calça legging e blusa soltinha: conforto garantido!

Conforto é importante. Não confundir com viajar de pijama!

O brilho da blusa pode confundir o motorista. Ou todos eles.

Faltam muitos centímetros pra este vestido funcionar em uma viagem.


ROUPAS CONFORTÁVEIS

SAPATOS BAIXOS

Quando nos preparamos para viajar temos que pensar que vamos passar horas sentados dentro de um carro, avião ou ônibus. Logo, a roupa que estamos vestindo não pode apertar, nem bloquear os movimentos. O ideal é viajar com roupas mais “larguinhas”. Para as meninas, uma calça legging cai bem. Para os meninos, que tal um shorts ou uma calça de moletom? Não se esqueçam: conforto em primeiro lugar!

A mesma máxima do conforto é utilizada aqui, os sapatos para viajar não podem apertar ou machucar os pés. Tênis, sapatilhas e botinhas no estilo motorcycle, que não tem o cano que aperta a perna, são os melhores sapatos para viajar. Meninas, sapatos de salto e botas de cano alto são lindos, mas podem ser extremamente desconfortáveis. Por isso, sigamos os meninos e adotemos o lema: simplicidade sempre!

POUCOS ACESSÓRIOS

JAQUETA OU CARDIGÃ

A ideia aqui é a de que menos é mais. Poucos acessórios para viajar farão com que você faça uma viagem mais tranquila. Algumas horas sentado dentro de um avião, carro ou ônibus farão com que você se canse dos brincos grandes, das pulseiras que fazem barulho ou, no caso dos meninos, do relógio que ensiste em apertar. Portanto, use poucos e pequenos acessórios, e assim deixe seus movimentos livres durante o percurso.

Aviões, ônibus e carros costumam ter um ar-condicionado bem potente, então é sempre bom carregar uma jaqueta, cardigã ou alguma peça que te proteja do vento. Saiba que, depois de horas ali dentro, pode ser que você comece a sentir frio. E viajar assim é impossível! Então, lembre sempre de carregar alguma dessas peças, a qual vai te deixar aquecido e com certeza vai te livrar de um resfriado.

79


Renan Fantinato

Hotéis para animais são excelentes opções para quem gosta de viajar mas não tem onde deixar o bichinho

80

Renan Fantinato

NÓS TAMBÉM QUEREMOS FÉRIAS

Em Bauru, existe um estabelecimento exclusivo para hospedar felinos

E

ra agosto de 2012 e Chambinho viajava sozinho pela primeira vez. Estava inseguro, afinal, nunca foi muito sociável e amistoso. Mas naquelas férias ele encontraria vários outros passando pela mesma situação e teria que conviver com todos eles... Chambinho é o gato de Tatiana Coelho Meier, estudante de administração e apaixonada por felinos. Ela sempre viajou bastante e Chambinho, seu fiel

Renan Fantinato escudeiro, a acompanhava em todas as jornadas. Até o dia em que Tatiana teve um filho: “Com a chegada do bebê, eu não conseguiria dar atenção para Chambinho... achei melhor procurar um hotelzinho para ele quando decidimos viajar”, explica ela. O que parecia ser um pesadelo se transformou em um passatempo para Chambinho. Hoje, o gato já está acostumado a passar temporadas no “Refú-


para garantir a saúde dos bichinhos dentro do hotel”, explica Ivonice Iola, veterinária que trabalha no Aqua Pet Resort, hotel localizado na zona sul de São Paulo.

“Antes de deixar Chambinho no hotel, verifiquei como era o lugar. Me atentei pricipalmente para a segurança, telas e portões” Uma vez que o animal tenha passado no “exame médico”, chega a hora de fazer amigos: “Os cães

ficam soltos durante o dia, interagindo entre si. Nós procuramos deixar eles socializando o tempo todo, pois acreditamos que isso é fundamental para que eles se sintam relaxados e contentes”, conta a doutora Ivonice. Muitas pessoas pensam que o hotel é um só um lugar para “largar” o animal quando os donos forem viajar. Mara Silveira, funcionária do Aqua Pet Resort, faz questão de enfatizar o contrário: “Não somos um simples depósito de cães e gatos. Os bichinhos vem para cá para se divertir e passar um dia super legal e relaxante”.

Renan Fantinato

gio dos Gatos”, onde ele se diverte com vários outros bichanos: “Ele adora o hotel. É como se realmente estivesse de férias”, comenta a estudante. A hospedagem para animais é um negócio que vem crescendo bastante no país. Cada vez mais o brasileiro quer viajar, e ter um animal de estimação já não é um impedimento. O empreendimento funciona de modo muito parecido com os “nossos hotéis”, já que o valor é pago em diárias, existem estadias das mais simples às mais luxosas e há um horário certo para fazer o check out. Assim como os hotéis feitos para nós, as hospedagens de animais também precisam oferecer diversas garantias para conquistar seus clientes: “Antes de deixar Chambinho no hotel, verifiquei como era o lugar. Me atentei para a segurança, telas e portões. Percebi que era um local climatizado e muito bem hegienizado, o que me deixou mais tranquila”, afirma Tatiana. Mas não é só o cliente que tem suas exigências: a grande maioria dos hotéis só aceita animais que estejam com a vacinação em dia, além de realizar uma triagem antes de fazer o check in. “Existem várias doenças que são transmitidas facilmente de um animal para outro. Fazemos essa avaliação justamente

A maioria dos hotéis tem espaço para lazer e interação dos animais

81


Renan Fantinato

No Aqua Pet Resort, os cães são divididos de acordo com seus tamanhos

As reações

Tentamos entrevistar cães e gatos para produzir esta reportagem. Por mais que as respostas tenham vindo em miados, latidos e lambidas, foi fácil perceber que os bichinhos estavam bem animados com os dias de férias: eles brincam, pulam, correm e não param por um minuto. Quando chega a hora de voltar para casa, alguns batem o pé e não querem ir embora! “Os donos até estranham e acham que nós fizemos alguma coisa”, brinca Mara. Mas também há cães que são muito apegados ao dono, demonstram que estão com saudades e não sentem vontade de

82

brincar e interagir. É nesta hora que Mara Silveira enfrenta o maior desafio de seu trabalho: “Nesses casos, tentamos conquistar eles devagarzinho, mostrando que ninguém irá fazer mal a eles, que é aqui é um lugar onde eles podem se divertir... Costuma dar certo!”, explica ela. Não são só os animais que sentem saudades. Convivendo com os bi-

chinhos todos os dias, os funcionários do hotel acabam se apegando aos pets e sentem falta quando eles voltam para a casa: “Tem uns bichinhos que, se pudéssemos levar para casa, levaríamos com certeza! O lado bom é que, por mais que eles vão embora, sempre chegam outros animais e a gente já cria novos laços”, conclui Mara.

A partir deste mês, cães e gatos que forem viajar com seus donos, ganharão um passaporte para trânsito nacional e internacional. No documento estará constado dados sobre a vacinação dos animais, além dos exames clínicos realizados por veterinários.


83


Arquivo pessoal

O estilo de vida de que transforma uma Harley-Davidson em parte da família

Fernanda atravessou o estado de São Paulo na garupa da moto do pai

84

E

Wagner Alves

Ecdemomania, palavra que representa uma quase paobcdemomania, sessãolavra por sair de casa, que repreviajar. O vocábulo não transenta uma quase sita apenas nos dicionáriobsessão de os, mas em por cima sair de duas casa, vocáburosas. viajar. O que jáOfoi apenas uma moto, hoje apenas é mais lo não transita que isso, um estilo de nos dicionários, vida, mas uma vontade inenarrável em cima de duas rode sair pela estrada. Pelo sas. O que já foi apenas menos, é o que contam os uma moto, é mais amantes das hoje famosas motos Harley-Davidson. “Para que isso, um estilo de quem gosta de viajar, não vida, uma vontade intem outra”, dispara Ferenarrável de sair pela nanda Gutierrez estrada. Pelo menos, é A estudante de veterinária oé que contam os amanuma das apaixonadas em encarar horas de estrates das famosas motos da em cima de uma“Para moto Harley-Davidson. Harley. A marca nasceu em quem gosta Artur de viajar, 1903, quando Davidnão outra”, dispason tem e William Harley rera Fernanda Gutierrez. solveram colocar um motor em uma bicicleta.


A estudante de veterinária é uma das apaixonadas em encarar horas de estrada em cima de uma moto Harley. A marca nasceu em 1903, quando Artur Davidson e William Harley resolveram colocar um motor em uma bicicleta. O que nasceu de uma vontade de melhorar uma bike, virou uma representação do sonho americano: ter uma dessas na garagem. Associada ao modo“motociclista” de se vestir e ao som hard rock de bandas como Stephenwolf, nasce o estilo de vida “born to be wild” (nascido para ser selvagem, em tradução literal). Para dividir histórias do asfalto, Roberto Fernandes resolveu criar no Rio de Janeiro um dos maiores clubes de motociclistas do país. Desde 2001,

os Harley’s Dogs se reúnem com frequência e montam suas motos pelo país afora. “Começou em uma viagem pelos EUA. Conhecemos a primeira fábrica e não deu para não se apaixonar”, explica Robertinho, como gosta de ser chamado. Hoje, o grupo já conta com mais de 20 integrantes.

Vento no rosto Fernanda não sabe dirigir uma moto, mas já se considera motociclista. Dentro desse universo, ser chamado de motoqueiro é menos ofensivo que chamar de barbeiro. Mas, para Fernanda, viajar não é necessariamente “guiar” a moto. “Você enxerga coisas na moto que nunca enxergaria dentro de um carro. Você sente o vento

direto, é muito bom, não tem nada te prendendo, é você e a estrada. Para mim, isso é a beleza de viajar. Em 2009, ela atravessou o estado de São Paulo, saindo de Curitiba no Paraná (onde mora) até a cidade de Poços de Caldas em Minas Gerais. As nove horas de estrada, com pequenas paradas apenas para abastecer, deixaram marcas temporais no corpo, mas permanentes na lembrança. “Quando você está nessa correria de para, sobe na moto, vai, anda, para de novo,nem pensa tanto no cansaço. Mas quando você chega, suas pernas não respondem, mas vale muito a pena”, conta.

Apesar da pose, Fernanda ainda sonha com a habilitação para dirigir motos

Arquivo pessoal

85


PLANEJAMENTO SALVA-VIAGEM Planejar os gastos pode te ajudar a aproveitar mais sua viagem Annelize Pires

-> Passaporte -> Passagens -> Hospedagem -> Dinheiro -> Malas

-> Planilha de gastos

86

?


T

Para ajudar aos que estão indo viajar, conversamos com algumas pessoas que fizeram ou ainda estão fazendo intercâmbio para nos contar sobre a experiência de ter que contabilizar gastos, se fazer a conversão para a moeda de seu país ajuda ou atrapalha na hora das compras e também, se eles se tornaram mais conscientes com gastos após morar fora do país. Mariana Aquino, trainee em uma multinacional, morou durante um ano na Alemanha e só contabilizou seus gastos no início

“Fiquei um pouco mais controlada com dinheiro. No começo, não comprava quase nada”

da viagem. “(Contabilizei) Só no primeiro mês. Depois ia acompa- nhando pelo dinheiro vivo e o saldo do VTM, pois como meu pai depositava mensalmente eu sabia quanto tempo aquele di-nheiro deveria durar”. Ela conta que demorou para comprar alguns produtos pois controlava bastante seu dinheiro. “Fiquei um pouco mais controlada com dinheiro, mas como já morava fora de casa, já tinha que ter um pouco desse controle. No começo, não comprava quase nada de “bens duráveis”, porque achava tudo um absurdo de caro, mas depois tive que superar quando percebi que não teria outra opção”, ainda sim, ela acredita que se tivesse a oportunidade e um pouco mais de dinheiro, teria feito mais viagens. “Se pudesse teria viajado mais. Não se pode ter tudo na vida né.

Acervo Pessoal

udo pronto para a sua viagem? Passaporte em mãos, visto concedido e seguro pronto? Agora é só esperar o grande dia chegar e embarcar na mais nova aventura da sua vida! Mas antes de começar essa nova fase, você deve pensar nos gastos que vai ter durante essa viagem, principalmente, quando você está indo fazer um intercâmbio e passar meses morando em um novo país e utilizando uma nova moeda. Nem sempre é fácil organizar os gastos no novo país, antes de ir temos tantas outras coisas em que pensar e organizar, lidar com a ansiedade da viagem e a saudade do que fica. Mas, mesmo assim, é importante pesquisar sobre os gastos no país e, se possível, conversar com pessoas que já tiveram essa experiência.

Mariana aproveita o intercâmbio na Alemanha para viajar pela Europa. Na foto, Mariana em Praga, na República Tcheca

87


Mariana, Amanda gastou mais durante sua viagem. “Eu tenho saído mais, então logo gasto mais. Tanto em bares quanto em programas durante o dia mesmo. Gasto muito mais com comida também, me dou “ao luxo” de comprar coisas mais carinhas no supermercado ou então saio pra jantar. Enfim, coisas assim”, conclui. Para Toledo Neto, agente de viagens, planejar sua viagem e se informar sobre o lugar de destino podem ajudar a não ser pego desprevenido durante sua viagem. “Planejar é muito importante pois assim você terá uma visão ampla de todos os gastos e não terá surpresas. Entender o câmbio e

o custo de vida no país onde vai viajar é essencial, ou seja, deve saber o quanto vai gastar por dia no exterior e controlar o orçamento”, completa. Saber o quanto você vai gastar com despesas básicas e o quanto vai sobrar para que você gaste com festas, compras de outros produtos, atividades culturais e cursos é extremamente importante. Ser consciente quanto aos custos de produtos no país que você vai estar também ajuda muito, alguns países tem um custo de vida muito alto se comparado com o Brasil, sem esquecer de que estar em um novo país pode trazer uma empolgação maior para ir às compras.

Acervo Pessoal

Mas é sempre bom destinar um orçamento para viagens; pesquisar e se programar para pegar as tarifas mais baratas (tanto de avião para lugares mais longe, quanto de trem para conhecer o próprio país)”. Já Amanda Tavares, que está fazendo intercâmbio em Londres, gostaria de ter feito um planejamento pois isso a teria ajudado a controlar seus gastos e ter a oportunidade de fazer mais atividades. “Não (fiz planejamento), mas deveria ter feito. Acho que teria me ajudado, eu poderia ter planejado mais viagens e não teria passado uns apertos antes das próximas bolsas caírem”. Ao contrário de

Mesmo sem ter feito um planejamento, Amanda aproveitou o intercâmbio na Inglaterra para conhecer novos lugares. Na foto, ela registra sua viagem para Sevilha.

88


89


FONTE: Itamaraty

E

Brasileiros imigrantes já passam dos 3 milhões

90

m uma tarde nada costumás de inverno, Victor pisou pela primeira vez a cidade de Koszalin, na Polônia. A fome batia forte após uma longa viagem do Brasil para o, até então, desconhecido país. Nem mesmo o desejo instintivo por alimento ajudou o rapaz a identificar o escrito “piekarnia” na língua nativa, o qual levaria a uma simples padaria. “Sem brincadeira, você chega a passar um pouco de fome, pois, se não houver ninguém pra ir junto com você pedir comida, dá muita insegurança de ir sozinho”, explica o relações públicas que aceitou a oferta de trabalhar no país polaco. Assim como Victor Frascarelli, mais de três milhões de pessoas se arriscam a viver em outro país, de Wagner Alves acordo com dados do Itamaraty.


Desses, estima-se que 30% pousa em solos estrangeiros sabendo pouco ou nada da língua e da cultura do país de chegada. Em um mês na Polônia, Victor assume que sabe apenas o básico. “ O suficiente para, pelo menos, ser educado: bom dia, obrigado, desculpa e mais várias palavras soltas. Mas não sei montar uma frase com elas”, confessa. O país tem predominância de um povo monolítico, ou seja, com uma população pouco variada: 98% de polacos. Dos outros 2%, fazem parte os cerca de 300 brasileiros que vivem por lá. Apesar do tradicionalismo do povo, diz Victor, há uma abertura grande para quem vem de fora. “Quando você é o estrangeiro, você é praticamente um ponto

turístico e todo mundo quer falar e interagir com você. Por isso, tentam te fazer entender falando inglês ou ensinando o Polonês”. Não muito distante dali, o estudante de medicina, Felipe Rosas, desfrutava de um estágio em Zagreb, na Croácia. Ele faz parte de cerca de 200 brasileiros que escolheram para viver no país com um dos mais belos litorais da Europa. Felipe, contudo, chegou pouco mais preparado. “Como eu sabia que naquele país os fluentes em inglês eram na sua maioria os jovens, estudei um pouco de croata uns 3 ou 4 meses antes de embarcar. Foi por conta própria, só na internet. Fiz isso mais para não passar apuros

que outra coisa”, explica. Apesar de a língua croata utilizar o alfabeto latino, apresenta letras e acentuações não presentes no português, o que dificulta a vida, sobretudo de quem pretende morar fora da capital Zagreb. Pensando em ajudar quemw vai para lá, a guia turística, Marília Peixoto, mantém o blog “Uma Brasileira na Croácia”. O que era apenas relatos pessoais, passou a ser um útil e visitado canal para o turista no país. “Nada melhor do que ir à feira. Todos os dias, há mais de 80 anos, os produtores de diferentes regiões se encontram [no centro de Zagreb]”, escreve Marília em um comentado post.

91


“DÁ PRA SE VIRAR”

LÍNGUA E CULTURA

Muitos são os que resolvem levar suas vidas para outros países acreditando no poder da língua inglesa. Embora o inglês não seja a mais falada do mundo, é a mais presente em vários países, sobretudo na Europa. Até se sentirem seguros, os brasileiros se baseiam até mesmo no espanhol. “Na Croácia, o inglês é bastante difundido entre os mais jovens e nas áreas urbanas. Mas o espanhol é muito raro”, lembra Marília. Na Polônia,é bastante semelhante. Entre os jovens, o inglês; para os mais velhos, o polonês. “O pessoal mais jovem aqui muito raramente não fala inglês”, enfatiza Victor.

Guilherme São Julião tem nome de santo, mas ao trabalhar como médico em Londres se sentiu mais humano que nunca. Antes de partir para, o brasileiro fez testes e cursos de proficiência no inglês para não se enroscar na língua. Entretanto, o acaso lhe impôs situações que nem mesmo os dez anos de experiência com a medicina foram suficientes. “Às vezes as pessoas chegam, sem saber nem mesmo o que sentem, qual a dor, como ela se dá. Se expressam de uma forma mais precária em sua própria língua que eu. ”, lamenta Guilherme. Se não a língua, muitas vezes a cultura é a barreira.

Felipe treinou sozinho para fazer meses de estágio na Croácia

Arquivo Pessoal

92


Arquivo Pessoal

Segundo Victor, é mais fácil se comunicar com os jovens, que se esforçam mais para entender o inglês

É o momento em que se entende a fala, mas não se compreende a ideia. “Certa vez, estavam duas meninas discutindo quem era melhor: a avó bósnia ou a avó croata. Eu entendia o que estava rolando, mas eram poucos os argumentos que eu conseguia realmente entender”, se diverte Felipe. Já para Victor, o não conhecimento da cultura acabou em gafe. “ É falta de educação cumprimentar as pessoas usando luvas, e eu fiz isso. Mas o pessoal entende que eu não sei direito a cultura e língua e não ficam bravos. É só uma questão de ir se adaptando”. Contudo a falta de co-

nhecimento da cultura muitas vezes cria situações piores que uma simples gafe. “Por muito tempo, não era eu quem anunciava a morte de um paciente aos familiares. O brasileiro lida melhor com os sentimentos, com o toque, com as emoções. As pessoas aqui [em Londres] preferem receber essa notícia da forma mais seca possível, foi difícil acostumar”, lamenta. Apesar da proximidade da língua e dos costumes, a América do Sul é apenas o terceiro destino mais visado com 400 mil brasileiros morando por lá, atrás de Europa (900 mil) e América do Norte (1,4 milhão). É exatamente essa proximidade que distancia. “Optei

pela Croácia, pois queria conhecer algo diferente. Fugir mesmo da cultura com que estou acostumado. Viver situações diversas. Como médico, saber lidar com o inoportuno é necessário”, conta Felipe. Vários são os que deixam o conforto em busca do novo. Pousam de cabeça em novas línguas e costumes com um único sentimento: fazer mais parte do mundo. Para esses, Felipe aconselha: “Se você vai pra algum país pra ficar um tempo considerável lá, tipo um mês, aprenda pelo menos o básico da língua. Se eu não tivesse treinado o básico antes de ir, nunca que teria desenvolvido a cultura e a língua como desenvolvi”, finaliza.

93


PARA LER E ASSISTIR

Diários de Motocicleta (2004)

Aos 23 anos, Ernesto Guevara decidi viajar pela América do Sul com seu amigo Alberto Granado, em uma moto velha. Por fim, a aventura, mais do que uma simples viagem, mexe com a cabeça do jovem estudante de medicina que mais tarde se torna o grande revolucionário Che Guevara.

Bem-Vindo (2009)

Bilal é um jovem curdo de 17 anos, que deixa o Iraque na tentativa de reencontrar sua namorada no Reino Unido. Depois de percorrer a Europa, o garoto busca a ajuda de Simon (um professor de natação francês) para tentar cruzar o Canal da Mancha a nado, burlando as leis de imigração.

Antes do Amanhecer (1995)

Durante uma viagem de trem pela Europa, o jovem norte-americano Jesse conhece a francesa Celine no restaurante do trem. Logo que começam a conversar, os dois sentem uma grande conexão e decidem descer em Viena para ficar juntos do pôr-do-sol ao amanhcer, quando ela tem que voltar a Paris e ele para os Estados Unidos.

94


A Ignorância (2000)

Irena e Joseph são os protagonistas do romance, que narra, principalmente, o tema da emigração. Nas entrelinhas de suas trajetórias a distância, os vínculos com a terra de origem e a vontade de voltar são algumas das abordagens sobre a qual o leitor refletirá, marcadas pela sempre extraordinária leveza da escrita de Kundera.

Medo e Delírio em Las Vegas (1971)

Raoul Duke, jornalista, recebe uma pauta e dinheiro para uma cobertura em Las Vegas. Mas Raoul não se importa em fazer jornalismo, e sim o SEU jornalismo. Junto ao advogado, Dr. Gonzo, aluga um conversível, gasta quase todo dinheiro com drogas e viaja pelo deserto estadunidense.

Paris é uma festa (1964)

O livro em 1ª pessoa se baseia na vida que o autor levou quando morou em Paris com sua esposa durante 1921 e 1926. Conforme vamos passando pelas memórias nossos próprios sentimentos se misturam com os que o autor coloca em suas páginas.

95


CRÔNICAS DE TENOTCHITLÁN O TESTE DO ÁCIDO DO METRÔ ELÉTRICO Cris Vector

Andar de metrô sempre me pareceu uma atividade incrivelmente divertida. Pra quem foi criado em cidade pequena, onde sempre se chega a qualquer canto a pé ou de bicicleta, um trem que conecta toda uma metrópole por debaixo da terra pode ser um conceito fascinante, acredite! Uma viagem de metrô te ensina mais sobre um país do que um semestre lendo análises antropológicas ou culturais sobre ele e, por isso, jamais compreendi os turistas que percorrem grandes capitais de táxi. Para mim, se não viajou de metrô, não conheceu a cidade. E se o destino em questão é a Cidade do México, perdeu também um surreal passeio pelo submundo mexicano. As escadas são um portal que te levam de uma fresca Cidade do México a uma quente e úmida estação que, a primeira vista, se assemelha muito a um formigueiro de humanos. Há humanos por todos os lados: sobem, descem, vão, voltam e, principalmente, vendem. Todas as estações do metrô contam com negócios de todo tipo: de cosméticos a pizza Domino’s. Até aí, nada que nenhum brasileiro não esteja acostumado. O bizarro ocorre dentro dos vagões, um dos melhores lugares para fazer compras em toda a cidade. Nos vagões do metrô da Cidade do México é possível comprar desde caixas com 30 chi-

96

cletes Clorets por cinco pesos (um quarto do preço normal da guloseima que, convertido para a moeda brasuca, sai por menos de um real) até pomada de óleo de cobra e veneno de abelha que cura qualquer ferimento. É mágico. Por pouco mais de um real, já comprei um jogo com 10 canetas cuja tinta brilha no escuro (duraram todo um mês) e infinitos lenços deww papel que, surpreendentemente, sempre custam a metade do preço normal. Até hoje não pude me perdoar por não haver adquirido uma mini máquina de costura manual por cinco reais para nunca mais ter que cerzir nada a mão, acabando assim com machucados e outros inconvenientes, cosia qualquer tecido, palavra de honra. Um dos dispositivos publicitários mais peculiares que já vi foi também viajando nesse mundo das maravilhas que a maioria gosta de chamar de transporte público: as mochilas com alto falantes integrados. Servem para vender discos pirata e são bastante comuns. Os vendedores, que oferecem discos intitulados “os melhores sucessos da música disco” ou “200 canções de Jose Jose para animar qualquer festa”, ao mesmo tempo tocam algumas das faixas em níveis sonoros pouco confortáveis. Vale observar que as mochilas-alto-falante são bastante potentes, razão pela qual nunca conheci um mexicano que não nutrisse certo ódio pelos vendedores de disco pirata. Também nunca vi um vendedor de discos pirata saindo de um vagão sem haver vendido ao menos um CD. Ah, as contradições humanas... Durante uma excêntrica jornada que não precisa durar

mais de 15 minutos, enquanto alguns dormem, outros leem e mulheres se maquiam, mãozinhas de madeira para coçar as costas, pilhas AA e AAA de marca barbante e inúmeros exemplares da culinária mexicana serão oferecidos. Não faltam os que pedem esmola, os músicos, os palhaços e os ex-presidiários que poderiam estar matando ou roubando, mas estão humildemente pedindo alguma moeda que não afete sua economia em troca de uma pulseira ou rosário fabricados por ele mesmo na cadeia. O trem para na estação seguinte, onde entra um jovem sem camisa com o torso machucado. Estende uma manta cheia de pedaços de vidro quebrado no corredor central e deita em cima. Às vezes rola, às vezes pula em cima. Esquisito, em todos os sentidos da palavra, é como eu defino um passeio de metrô pela Cidade do México.

Marina Paschoalli, 24, desde 2010 vive na Cidade do México, que antes de ser o Distrito Federal, era Tenotchitlán, capital do Império Azteca. Em Crônicas de Tenochitlán, reflete sobre suas façanhas sendo imigrante, turista e jornalista nas terras hermanas, do lado de cima do Equador.


97


Priscilla Lampazzi


Check in