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CdO#05

CdO#07

CADERNOS DO OLHAR

Arquitecultura


1968: O ano que nunca acabou A verdade é que atualmente são os homens das comunicações que têm a visão mais clara dos problemas da arquitetura do futuro: Décio Pignatari, professor de Teoria da Informação constata sob a ótica matemática os processos de auto-favelização dos núcleos habitacionais no país e do descompasso semiótico de Brasília com os tempos que virão. Umberto Eco incomoda os arquitetos brasileiros afirmando que Brasília é uma obra “fechada”. Para Pignatari, a última cidade medieval, construída no século XX. […] A arquitetura deve ser levada em conta em seus aspectos tacteis da civilização nascente. A arquitrave e o concreto cederão lugar a autoestruturas de plásticos, metais leves e papelão. O espaço “não visual”: espaço tátil, dinâmico, integral e integrativo. “O triângulo segue linhas de força, o quadrado é o fechamento de um espaço visual, a arquitetura tende a perder sua pressão cinética tátil”, diz Marshal McLuhan em Understanding Media. A ortogonalidae fala de uma lógica linear e especialística; as tendas, as ocas, as cúpulas geodésicas falam de processos integrativo, cósmicos. […] ¶ Foi-se o tempo das fachadas cúbicas e das paredes brancas do modernismo: curvas, cores artificiais, espaços complexos estão chegando para ficar. A Carta de Atenas de

1938 —uma espécie de documento básico e dogmático da arquitetura — condicionava-se à existência de um ‘homem tipo’, cujas atvidades essenciais eram habitar, trabalhar e cultivar o corpo e o espírito. Mas aqueles eram tempos em que a TV, os circuitos impressos e os computadores analógicos eram sonhos de Julio Verne e outros. […] O avanço das tecnologias congelou esta Carta: nascia uma lógica não linear fruto das comunicações instantâneas e da velocidade dos jatos. ¶ Para André Perrin o plástico permitirá estruturas mais leves […] e a moldagem de qualquer forma. O vidro poderá ser usado como material estrutural em paredes, lages e estruturas. O vidro tem a vantagem de ser inoxidável e trançado em fibras ser mais resistente que que fios de aço do mesmo diâmetro.. […] Mudarão as formas dos edifícios. […] O ân gulo reto […] será visto como um ranço acadêmico. ¶ A organicidade dos edifícios estará em função de sua estrutura: obra aberta que permitirá mutações […] com feed backs para seus módulos e células em crescimento ou degeneração. “Enquanto numa estética clássica”, diz Haroldo de Campos, “a tendência é considerar o objeto artístico subespécie aeternitatis, a arte contemporânea produzida no quadro de uma


civilização eminentemente técnica, em […] ela será livre e aceitará os vazios constante e vertiginosa transforma- e os cheios que o homem lhe propução, parece ter incorporado o relativo e ser. CF e Pedro Mohr, 1968. o transitório como dimensão do seu ser”. ¶ As funções na obra arquitetônica Publicado no Caderno de Cultura da Zero Hora, no ano 2000 pouco, ou nenhum, re- sob o título Arquitecultura, em 7 de junho de lacionamento terão com o prédio: 1969, em Porto Alegre.

Criar espaços globais onde a integração humana e suas extensões tecnológicas […] não sejam impedidas por portas e portinholas, janelas e ventarolas, portões e paredes, muros e grades.

Detalhe do projeto Architectura Prospectiva, trabalho de conclusão do Curso de Arquitetura, no final de 1968.

Quatro décadas depois relendo essas propostas, recheadas de bobagens, me dou conta que o sonho virou um pesadelo: a paisagem é de muros, grades e câmaras de segurança. C. Ferlauto.


Prédio da Brahma, Porto Alegre 1911–2014 Projeto é de Theodor Wiederspahn, a decoração das fachadas é obra da equipe de escultores de João Vicente Friedrichs e era conhecido na cidade como a “fábrica da Brahma”. Na fachada existem diversos esculturas como a estátua de Gambrinus (Alfred Adloff), outra de Mercúrio (Wenzel Folberger), um grande elefante ladeado por dois grupos de meninos carregando globos (Schob), além de diversos Atlantes em trajes germânicos, bebedores de cerveja com copos nas mãos, diversas faces humanas, figuras de animais, barris e uma profusão de florões, arcadas, frisos, relevos, uma torre com relógio, cúpula e estátuas sobre a entrada principal, e outros elementos decorativos que caracterizam o seu estilo eclético e historicista, típico de Wiederspahn. [Wikipedia, 8 junho 2014] Atualmente grande parte das edificações originais são tombadas como patrimônio histórico de Porto Alegre, e hoje abrigam as instalações de um shopping center.


Proposição

porto Alegre Uma projeção no futuro, de acordo com os conhecimentos científicos e com a esperança de soluções reais e honestas. A idealização de um sistema aberto de liberdades urbanas.


Centro comercial

Projeto de Urbanismo,

aberta 1968 Equipe Claudio Cunha, Claudio Ferlauto, GetĂşlio Picada, Paolo Giora, Pedro Mohr,Rodildo Goldemeier. Faculdade de Arquitetura UFRGS


O porto Cada célula tem a forma de meio hexágono, possibilitando o atracamento de três navios de 150 metros de comprimento. A ponte rodoviária-ferroviária prolonga-se sobre as células que formam o porto. Próximo a Porto Alegre, está o cais de passageiros, alfândega, hotéis, lojas.


Porto Alegre Aberta, 1968

A habitação

Trinta e quatro anos depois, a crítica do arquiteto e professor Moacir Moojen Marques.* No primeiro semestre de 1968 um grupo de alunos [Cidade Aberta (SIC) de Claudio Cunha, Claudio Ferlauto, Getúlio Picada, Paolo Giora, Pedro Mohr, Rodildo Goldemeier] da cadeira de urbanismo, num gesto de protesto, não aceitou desenvolver o tema dado, propondo uma solução projetual na qual eram enfatizadas a visão semiológica (SIC), a exaltação da tecnologia e as atividades lúdicas: […] uma organização espacial que corresponda a uma nova forma de sociabilidade, […] abaixo a formação de arquitetos românticos e a arquitetura legal das autoridades, abaixo as esporas e as bombachas […] perceber os sistemas universais antes de morrer nos Pampas […] Façamos tudo em liberdade: o espaço livre, o solo livre, a cultura livre, o trabalho livre […] “Abaixo as elites vegetais, em comunicação com o solo.” [Manifesto Antropofágico, 1928, Oswald de Andrade].

¶ O projeto propôs em sua parte física, no sítio de contorno de Porto Alegre, a implantação de módulos hexagonais, cada um com seis blocos de 50 pavimentosde altura ligados entre si ao centro urbano e à cidade atual por monotrilhos a 40 metros de altura. Os edifícios eram servidos por “metrô” verticais. Quando destinados a habitação, tinham na parte central do hexágono o comércio. Plataformas alternadas a cada seis pavimentos possuiam jardins e na cobertura, heliportos para atender [entre outros fins] serviços médicos. O imenso espaço entre os módulos era constituído de parques destinados às atividades lúdicas. ¶ Os professores compreenderam o sentido e a motivação dessa atitude, bem como o esforço da pesquisa apresentada no relatório, em que pese todo o trabalho ter sido desenvolvido afastado das aulas. Não entender aquelas propostas ou limitar a vontade de propor conselhos diferenciados no recinto universitário seria o mesmo que não entender os propósitos da Ville Radieuse de Le Corbusier, já polemizado em 1938. Achávamos que, embora louvável a inquietação, vetor de estímulo à atualização da própria cadeira de Urbanismo (e por isso deveria ser aceita), não cabia contudo deixar de lado o currículo básico de formação profissional do arquiteto, consumindo todo o escasso tempo de faculdade para indagações somente desse nível, o que era a pretensão do grupo, que evidentemente desgostou-se, usando sua liderança para manifestação oportuna. [O movimento de reforma curricular intitulado Nosso ensino é uma farsa]. * Nove anos e meio em Arquitetura UFRGS – 50 anos de história, organizado por Salma Cafruni e Flávia Boni Licht, Porto Alegre, Editora 0da UFRGS, 2002.


Projeto de Antonio Aiello

Claudio Ferlauto Pedro Mohr Igreja em Santo AndrĂŠ SP 1973


Cliente Pe. Walter Seidl SJ


Passei um bombril na memória. ¶ Estudamos arquitetura em Porto Alegre entre 1964 e 1968. Anos difíceis e agitados. Mais tarde entretanto descobrimos lendo sobre arquitetura no Japão e seus templos de 3000 anos e em outras leituras, que havia vida inteligente antes de Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright e Le Corbusier. Entendi então que havia estudado somente o modernismo e assim, (de)formado, não tive olhos para outras concepções da arquiteura. ¶ Na infância encontrava meu avô italiano, todos os domingos, na Praça da Alfândega, sob a estátua do General Osório e ao redor convivia com prédios de arquitetura eclética importantes para a cidade, como os Correios, Banco da Província e Delegacia Fiscal (mais tarde Receita Federal). ¶ Outro lugar importante para mim foi a Cervejaria Bopp (depois Brahma), por onde passava diariamente a caminho do colégio. Volta e meia andávamos com amigos no seu interior para comprar levedo de cerveja e observar as brilhantes e bem polidas instalações metálicas do setor de fermentação. Entrávamos pela avenida Cristovão Colombo, onde havia uma recepção e no centro dela, uma maquete extremamente detalhada das instalações da cervejaria. Sempre que podia entrávamos para curtí-la. ¶ O ambiente era encantado e fantasioso: olhávamos toda a cervejaria num relance, e nós, dentro daquela salinha, acompanhávamos a caminhada que iniciava e terminava ali, como se sobrevoássemos a fábrica, controlando nossas vidas e a dos cervejeiros, motoristas dos caminhões, carregadores de engradados. ¶ Acho que estes momentos me ajudaram a entender a arquitetura, mas poderiam ter me encaminhado para engenharia ou cervejaria, o que deixa tudo na margem da casualidade. Este prédio, descobri muito tempo depois, tinha autor: Theodor Wiederspahn. Dele eram aquelas construções da Praça da Alfândega e também o Hotel Majestic (Centro de Cultura Mário Quintana), o Edifício Chaves (um dos primeiros clientes do Signovo), o Cine Guarany (só a fachada foi tombada), o Edifício Ely (Tumelero) , o da Faculdade de Medicina da UFRGS, o Bier & Ulmann, o Moinho Chaves, o Hospital Moinhos de Vento, e outros. Nenhum destes monumentos foi tema de meus estudos na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre. CF

ARCHIT ECULT

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Edição & Design

Claudio Ferlauto Colaboração

Wikipedia Julho|Agosto|Setembro 2014


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Cadernos do Olhar #7 – Arquitecultura