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OUTROS OLHARES | CURTAS / Other Views | Short Films

Corpos em movimento na noite mais escura, uma jovem desaparecida a quem se procura. A seguir, o silêncio de uma mulher que nada em uma piscina. Misterioso, delicado e ao mesmo tempo eletrizante, ‘A invenção da noite’, de Tomás von der Osten, dá o tom deste panorama de filmes densos e ousados, Outros Olhares. Entre ele, ‘Escape from my eyes’, de Felipe Bragança, construído a partir do testemunho de refugiados políticos em Berlim. Como ocorre no trabalho cinematográfico de Felipe, a forma do conto e da narrativa mágica se delineia, combinando o imaginário e a realidade.

e realidade pode descobrir mundos paralelos que tanto se assemelham a nós mesmos.

‘The events at Mr. Yayamoto’s alpine residence’, de Tilman Singer, também convida o espectador a entrar em uma outra dimensão, ao filmar as aventuras de uma jovem isolada em uma residência alpina, confrontada a um misterioso pacote que lhe é enviado e que a introduz a um mundo inteiramente inaudito. Singer vence o desafio de fazer um filme tão breve quanto imprevisível, algo que poderíamos esperar talvez de um curta-metragem! É também o caso do experimental ‘Children’s playground’, de Pablo Molina Guerrero, que mostra, por meio da recomposição de trechos de filmes, o quanto a criança pode ser algo inquietante no cinema.

Como revelar realmente as próprias emoções, esse é o propósito do filme ‘Cat’ (Chat), de Philippe Lasry, que coloca frente a frente diversas pessoas com deficiência mental, entre as quais a tão jovem Emma e uma professora chamada Elisabeth. O filme joga brilhantemente com a confusão da brincadeira e da loucura. O sentimento também está no centro de ‘Dorsal’, de Carlos Segundo e Cristiano Barbosa, colocando em contato duas irmãs que dialogam na internet após a morte do pai. Uma delas se culpa por não ter estado presente em seu leito de morte. Difícil e estranho de filmar o vínculo que atravessa o oceano, mas, ainda assim, aflora a simples emoção nesse filme que carrega o nome da rede de comunicações de longa distância.

À primeira vista, ‘Shelters’ (Zakloni), de Ivan Salatic, também intriga ao mostrar, desde a primeira cena, um estranho adolescente de cabelos longos, de perfil, urrando como um animal. Mas Luka é apenas um jovem que tenta lidar com sua entrada na vida adulta no final do verão, em Montenegro. A direção de Salatic é incisiva, por vezes desenquadrada, quase insólita, retirando do filme a impressão de “déjà vu” que o poderia perpassar. Insólito, ‘Bear’ (Bär), de Pascal Flörks, certamente é, pelo modo como opera, diálogo entre uma voz em off (do diretor?) e fotografias que representam um urso que parece ter vivido a vida de um homem (seu avô), soldado, apaixonado por carros, capaz de bater papo no Skype sem maiores problemas. Também aqui o espectador sente a necessidade de esfregar os olhos, perguntando-se como 150

“Há o que vejo, o que me mostram, o que é proibido ver, o que não sou capaz de ver...”. É com essas frases que começa ‘Toré’, o filme mudo mas muito sonoro de João Vieira Torres e Tanawi Xucuru Kariri, centrado na figura de uma criança, mescla de fascinação com Fantasia de Disney e ritual fugidio de dança, em meio à vibrante natureza de um rincão do estado de Alagoas.

Bernard Payen

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Catálogo 2015  

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