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Contos de primeiro grau

~

JoAo victor barbosa


Contos de primeiro grau


Contos de primeiro grau ~

Joao victor barbosa


Vertigem Bojango rei das ruas

Oxalis incarnata


Vertigem


between the fear of falling

Salman Rushdie

Eu saiu do bar e foi rua afora com a cabeça baixa para não tropeçar. Aqueles gritos esganiçados de rodas e freios iam descendo e subindo o caminho; as luzes dos semáforos e os olhos dos carros, e gentes que não se conheciam e que surgiam mesmo sem se conhecer, e iam surgindo também todas as coisas outras, do de dentro e as que os olhos viam. Como se o olho do furacão partisse na escureza íntima do corpo, Eu viajava pelas esquinas e por vezes naufragava numa banca de jornais para comprar um cigarro ou uma bala de melancia a fim de tirar o gosto de vômito da boca. Que podridão, resmungava no oco da testa. E era passageiro isso, de se sentir o podre na escuridão exalando o seu odor efervescente, mas era uma sensação que passava atropelando o que surgia a


cada percepção do todo à sua volta. Eu mitigava falsamente cada dor na vontade de que ela fosse apaziguada por uma espécie de bandeira branca suja do sangue das sarjetas. Brincava seu próprio olho; mocinhas bonitas que iam e vinham; um sorrisinho embriagado ele jogava para elas, que o ignoravam; e ele, em sua andança desconhecível pelas ruas que tinham nomes de mulher, ainda passava as mãos nas vitrines, os olhos no todo, a boca no cheiro e a cabeça rodando como se decepada. As manequins com suas xoxotas tão tímidas, suas caras tão lúcidas, mãos inclinadas, pernas meio tortas e poses esguias. E as mulheres com suas ruas tão cheias das gentes. Eram tantos os nomes. Isso fodia ainda mais com a porra toda. E aquela mulher que parecia que não tinha fim. Ela ia descendo e ia descambar lá pelo Jardim Europa. E ainda por cima um calor que doía o acompanhava a cada passada perdida por entre os próprios pés. O bafo ficou mais quente quando Eu entrou debaixo do chão e foi descendo descendo descendo até cansar. E ali embaixo mais gritos esganiçados, uns que percorriam os trilhos brilhosos em óleo e sujeira. E no meio dos gritos a culpa, os pequenos diabos de pernas peludas, as velhas que contavam piadas no ponto de ônibus, mas ainda assim um desejoso lúgubre meio tortuoso se escurecia, tremeluzindo a luz dos olhos de Eu. Ele então, tomado por aquele rubor que levantava as todas cabeças, seguiu aquilo que não


tinha forma mas que tinha cor e cheiro. Foi seguindo aquilo até a porta do banheiro. Ali entrou, fechou-se num dos boxes e se agachou, abriu o zíper da calça jeans e pôs o pau para fora; aquela cabeça ia crescendo vermelhusca até se encontrar no mundo; ver e se preparar; grande cabeça que antes escondida agora babava diante de uma privada branca e reluzente. As mãos de Eu iam deslizando a porcelana e os dedos hirtos descobrindo o caminho, como se a intimidade precisasse se fazer nascida dentro do momento. Os olhos abertos e fechados, abertos e fechados. Os suspiros vindo direto dos pulmões, roçando o nariz de um jeito que a cabeça lá embaixo, grande e vermelha, pulsasse como a vida fora da realidade, a dos últimos instantes, aquela desenhada nos dentes dos que amam sem saber loucura e sem inventar desejo. Então Eu ia ia e ia bem devagar, nada de pressa e só os dedos por enquanto. Depois aproximava da privada a cabeça dos olhos e da boca, e dessa boca uma língua enorme e grossa saindo como saem das jaulas os leões famintos no circo. A baba pingando no chão e a privada com sua bocarra aberta; o vermelhusco vivo e fremente, enquanto a porcelana, em sua vivez, esperava o ato. A língua grossa, em toda a sua molhadura, desenhava naquela porcelana o que o desejo esboçava do lado do de dentro; ia para lá e para cá, arrastava como a preguiça de um gato deitado no sol; arrastava como se fosse


íntimo saber da loucura, saber da vida fora da realidade, como se nada mais no mundo pudesse ser apreciado sem os dois braços estarem agarrados na culpa. E Eu ia se lambuzando, abraçando aquela frieza enquanto olhava para o mijo acumulado na água suja, cuspindo sobre a redondez branca e em seguida deslizando seus beiços pela própria baba. Eu sentia aquele gosto de um isso tão secreto para as outras pessoas, que era como provar de um novo gosto que nunca se pensou existir no mundo, como se as pessoas vivessem e não soubessem da existência preclara de outra vida, tão desconcertante quanto esta, mas mais próspera na sua invenção do inexplorável, tão imersa na subjetividade do erro que não se pronunciasse; um fundo grosso e imaterial, uma casca escondendo o secreto enovelado, aquilo que é como uma fome desta vida, mas que se encerra com a morte do que se vive do lado de cá. Era para isso cada linguada, a baba fértil e espessa despejando-se pelo inatingível de cá; aqui está tudo do lado de fora, de um dentro que não existe para quem tem o medo do outro segredo do desejo, que esconde cuidadosamente essa esfera macia e tenra, de um começo mais antigo que a vida. Era como provar do primeiro beijo inconsequente de novo e, ainda assim, continuar sendo a primeira vez. Eu, aos beijos com a privada, lambia com seus estalos quando ela o disse Você quer ver o que tem dentro


aqui? Aí? É, dentro aqui de mim, ela respondeu. Ele parou por um instante, arregalou os olhos. Eu não sei. Não sabe o quê? Isso, de entrar em você assim, desse jeito. E se eu não voltar? Voltar para quê? Ela resmungou meio líquida. O que tem lá em cima que você ama tanto pra querer voltar? Tem a culpa? O desejo? Fodelanças? O medo escancarado? Isso tudo você pode encontrar dentro aqui de mim, ué. Não, não é isso. É um outro tipo de medo. Eu sei qual é. Já vi muito disso. Isso o quê? De ser viciado na defesa. Todo mundo só quer a superfície, porque o que tem por baixo assusta, é grande demais pra caber nas duas mãos. Ficar se defendendo do que é fundo, ficar com esse medo que essa sua cara aí mostrou. E fica todo mundo se defendendo e relutando e fugindo correndo como se o tempo fosse sair do lugar, fugir e lutar contra o que é sangue, se defender do que é profundo na natureza. E como é que você sabe disso tudo? Olha, eu já vi muito do que tem lá em cima mesmo nunca tendo saído do lugar. Já vi muita caceta, umas cabeçudas, outras curiosas, muito cu sem nome e muito desejo sendo consumido aqui na minha frente. É só perguntar pra qualquer uma das minhas colegas aí do lado pra você ver que elas vão te dizer a mesma coisa. Todo mundo vem aqui pra fugir de alguma coisa. E quando a merda toda cai dentro da gente é que a gente vê que todo mundo foge daquilo que é grosso na artéria, o que todo mundo tem


medo de colocar a mão. Eu parou em silêncio. E o que que eu faço? Não tenho nada pelo que voltar, mas tenho isso aqui que me dá um baita medo de enxergar. Eu tinha alguém que me amava, ou pensava me amar, vai ver era só uma imagem torta com nome de amor. Depois me cagou como muita gente já me fez, me largou assim como qualquer bosta, e ainda por cima nem quis ver a merda cagada, saiu correndo, foi longe. Todo mundo caga em mim aqui, rapaz. Se eu fosse chorar as pitangas por isso... E o que que eu vou fazer, meu deus do céu? Pode vir, aqui tem tudo o que você precisa. Não preciso de muito, só saber um pouco das coisas. Saber o quê? Sei lá, um pouco de tudo. Não tudo de uma coisa só, isso parece burrice se pensarmos direito, mas um pouquinho de cada coisa. Então vem, ué. Aí você só vai encontrar mais perguntas, um montão assim, ó. Se pular dentro aqui de mim você vai ter muita coisa respondida, talvez não tudo, mas muita coisa. Eu olhou para a privada e ofereceu seu corpo a ela. Não sei se tô pronto, ele disse, mas vou mesmo assim, se é loucura eu quero dar esse abraço nela. E a privada retribuiu com a descarga. Um gemido líquido. E numa dessas, a bocarra aberta e sem dentes, Eu foi engolido todo; foi deslizando molhado pelos canos, descendo como se flutuasse, descendo descendo descendo, até quase não poder mais, como se não suportasse a descida. Fechou os olhos para que nada pudesse ser


visto ainda desta vida, desse esporro de vida. Numas voltas que seu corpo esguio fazia, a água que desceu junto a ele lhe fez companhia para que o desejo não desaparecesse; pensou em talvez abrir os olhos, ver o que lhe rodeava, mas foi firme e os manteve cerrados. Os canos gemiam e sussurravam coisas incompreensíveis, não-palavras, desejos inconcebíveis, quem sabe. A descida alisava levemente o corpo de Eu, acariciava seu pau, fazia-o se sentir acolhido e aquilo-um-isso ia crescendo. O corpo, em rodopios, enfim chegou a um destino firme e sem mais descidas. Os olhos não se abriram de imediato. Levou cerca de um minuto para que alguma vista fosse concebida. E que vista. Olhar mas não enxergar, tatear ele fazia, com as pupilas dilatadas. O todo à sombra então se ergueu, e toda a vida que antes muito era inconcebível, toda se fez no que se atingia, mas era um tocar diferente, um ver sem saber se estava de fato vendo ou imaginando ver, como ter razão mas ser burro por justamente ter encontrado aquele sentido racional; e não era preciso que se pensasse, que se erguesse no tangível; esticar o braço e mostrar aos dedos tudo o que ali havia. Eu nunca antes havia visto tal coisa que agora podia ver e enxergar. Sim, e enxergar. Podia enumerar tudo aquilo, mas deixaria de ser o momento se ele fosse pensado. Então deixou que lhe escorresse tudo o que lhe fosse pensado ou até mesmo falado. E fim, ora, estava imensamente


agradecido. Havia sido trazido até ali. Do outro lado. Nem se forçava mais um pensamento. As coisas não se chocavam dentro da cabeça. Ela estava tranquila tranquila, pensamentos esparsos e inteiramente entregues ao que estava sendo, apenas sendo, sem a possibilidade de se entregar qualquer coisa outra que não fosse o que merecesse ser visto e degustado. Então a imensa língua de Eu foi saindo de sua boca e correndo grossa em direção ao todo da eternidade daquele espaço que era visto. E de dentro também saíram todas as entranhas, as todas vísceras e os todos sentidos. Tudo então fez um barulho sem som, e umas risadas lindas, assim soberbas, foram sendo criadas, se propagando no além do que se reproduzia. E tudo ficou como se sempre tivesse sido daquele jeito. Era como viver, por fim, a vida, depois de enfrentála sem ter entregado a ela o objetivo final de cada respirada para dentro dos pulmões. A queda se fez de uma resposta do corpo, e este, vazio, podia agora ser preenchido por qualquer coisa que fosse bem-vinda. E tudo aquilo que antes se pensou a vida, agora via-se que era, nada mais, longas noites de sono dentro de uma cabeça num corpo num quarto numa casa numa cidade num país num mundo numa galáxia num universo mais silencioso que a fome dos corpos. Mas então, sem corpo, tudo o que havia dentro dele FALOU.


Bojango rei das ruas


Eu sou teu gato, e você deveria era sentir pena de você mesmo por achar que é superior a mim, porque a minha liberdade sobre a que você enxerga como tua é uma onda gigantesca destruindo a água que volta pro mar junto de uns pequenininhos grãos de areia, ah você deveria era se envergonhar, é sim, eu sou tão solto nesse mundo que até de pensar você explodiria a porra dos teus miolos, seu cuzão cheio de merda, é, porque você é todo construído na tua concepção de certo e errado e não faz a menor ideia, seu lixo, não faz a menor ideia de que do outro lado do teu mundinho de bosta tá rolando um mundo que você não vê, e ele vai girando girando girando, até que você se cansa de procurar e de tentar entender, e de tanto não enxergar você desiste desse teu anacronismo tosco, ah mas eu sou fodão, você diz pros bostas dos teus amigos, uns babacas, eu te digo, você diz com eloquência e quer acreditar no que diz, quer ser esse homem que bate no peito pra falar que é foda. E você realmente chega a buscar interpretações pras tuas


loucuras. Enquanto isso eu sou a verdadeira coisa que escapa do sentido pragmático de liberdade, eu, sim, sou o que você diz que é, mesmo não sendo e dizendo pros babacas dos teus amigos que é, mas não é, não. Eu vou pra rua enquanto você ronca e baba no travesseiro, eu vou e saio de casa e faço tudo o que eu tenho vontade, diante de tudo que existe, mesmo não conhecendo o todo que me cerca, mas veja só, eu sou livre, manezão, eu faço o que você se priva de fazer, eu corro atrás dos ratos e, antes que eles voltem pro bueiro, eu vou e pego eles e como eles, arranco as cabecinhas e me exibo pra minha galera, todos eles me respeitam, sabe? Eles me têm como o que sabe do que tá falando, o que sabe o que tá fazendo, e eu sei mesmo, seu bosta, eu já li quase todos esses livros que você deixa na tua prateleira só pra pegar pó, eu leio muito mais que você. Nem o chorão do Kierkegaard aí no teu quarto me desanima, eu saio e corro atrás dos ratinhos e depois eu e minha galera vamos dar um rolê nas ruas e nas pracinhas, daí o Seu Josivaldo do boteco da esquina joga o resto da comida que os bebuns não conseguiram dar conta e eu e minha galera a gente come tudo e sai com os ossinhos de galinha na boca, é assim que é. E depois eu vou na frente de todo mundo lambendo as minhas patinhas que as garotas que você não consegue pegar acham fofas e dou em cima de umas gatinhas e faço elas ronronarem enquanto eu dou umas


lambidinhas nas orelhas delas, daí depois eu vou e jogo um charme pra cima delas e fodo com todas elas, e é uma gritaria louca no meio da noite, eu fodo até o meu pirocão de puto safado ficar vermelho e doer de lamber, eu ronrono ronrono e guardo ele direitinho pra noite que ainda vai vir, pra poder foder mais um pouquinho. E você aí, com essa bunda gorda grudada no sofá, esperando essa minhoca vencida acordar da hibernação pra escarafunchar umas bocetas de gente, porque você é um bosta, seu otário, tá com ranço no saco de tanto coçar ele e não colocar essa minhoca podre pra dentro de um buraco, acha que a liberdade é como você inventa pra ser, pra poder se vangloriar pros bostas dos teus amigos e tomar cerveja e gritar pra achar que é macho quando é só um bosta com uma piroca vencida, seu cu cagado. Enquanto isso eu tô fodendo no bairro o que você iria precisar de três encarnações pra foder, porque eu tenho sete vidas mas não perco tempo, aproveito cada uma. Eu vou por aí e eles me olham e falam Eita, olha só quem tá vindo, é o Bojango, ele tem a piroca mais usada da rua, e daí vão me ver e falar também que eu fodo que nem gente, porque gente tem isso de foder até estourar as pregas de alguém. E daí eu vou revirar os latões de lixo nas esquinas e rasgar os sacos de lixo das casas da rua inteira, e eu cago uma bosta em cada quintal, dou uma mijada no vasinho de flor dos vizinhos, atravesso os telhados e


fico provocando a cachorrada, daí vou pulando de muro em muro e vou encontrando a galera no caminho, e a gente vai gritando e metendo nas gatinhas que vão aparecendo pra gente. E você aí dormindo, com essa cueca frouxa enfiada no rabo, achando que ainda tem tempo pra tudo o que você quer fazer na porra da tua vida. E eu vou voltar pra casa só pra encher a pança e dormir na minha caixa de papelão da TV nova que você comprou. Eu até ignoro esse nome de arrombado que você me deu, porque na rua eu sou o Bojango que fode que nem gente e arrepia as gatinhas até elas fazerem fila pra dar surra de boceta em mim. Na rua eu tenho a minha liberdade, eu tenho lá a companhia que eu quero pra mim e tenho também todas as noites do mundo. A rua é um lugar que tem tudo o que a gente precisa, e se você saísse da porra da tua caverna e dos teus videogames de cabacento virjão, você ia foder também e ia por esse galo pra brigar, mas não, não, você prefere ficar aí nessa tua vidinha de merda e fazer tudinho igual, dia após dia, porque você acha que o teu tempo é uma coisa que não vai mudar nunca e que sempre vai vir outro dia e te fazer acreditar que vai ter pra você a porra de uma oportunidade nova, mas você tá é perdendo a porra do tempo, otário, você tá é deixando tudo correr pro fundo de um poço sem fim, e quando você tiver na metade dele você vai perceber que tá na merda e vai querer voltar mas daí já vai ser tarde


demais, e daí você vai estar até o pescoço de merda e não vai dar mais tempo de nada, e vai ficar cabacento pra sempre, porque eu tava aqui, eu tava vendo tudo, seu mané, e tava vendo o otário preguiçoso que você sempre foi, enquanto eu tava por aí fodendo que nem um funileiro, e comendo as gatinhas, espalhando o lixo tudo, jogando as cartas pra fora da mesa e causando um auê de louco, porque eu acho que é assim, a gente tem que fazer o que tá atrás da nossa percepção, porque as coisas são assim, você tem que fazer por onde, tem sempre uma nova coisa surgindo detrás daquilo que você tinha dado como perdido, um muro, sei lá, que você tinha construído bem na tua frente e assim pensado que era o fim da linha, tipo, bam! Mas daí CARALHO você acorda, todo meio puto por não pensar nisso, e vai vendo que só desse jeito é que você acorda pra realidade e começa a fazer tudinho do teu jeito, que pode ser o jeito certo ou não, mas o que importa é que você tá fazendo. É, a liberdade é difícil, mas se você inventa outra coisa pra receber o nome fica mais fácil de lidar. Liberdade não é essa coisa de poder fazer o que quer, de ter vontade de fazer o que quer, a porra da liberdade é você questionar a tua vontade, porque se você tem vontade de comer a porra de um big mac é porque algum bosta colocou essa ideia dentro da tua cabeça e transformou isso numa vontade que você


acredita que é algo genuíno

que palavra foda

da tua

cabeça oca de porco do mato e Tava no canteiro da vizinha, a Dona Lourdes. Pegou o saco de lixo e entrou em casa, agradecendo o rapaz gordinho que havia tocado a campainha. Depois ficou parado no meio da sala até se sentar no sofá, respirar fundo e abrir o saco para enfim olhar o que havia dentro dele. E lá no fundo o corpo duro de Chico, com as patinhas esticadas e imóveis, como pequenos galhos de árvore caídos no quintal. Na boca ainda tinha um ligeiro resquício da espuma que ele soltara na hora da morte. Ficou pensativo por alguns minutos até que decidiu ligar para um amigo. Cara, tem como eu colar na tua casa? Meu gato morreu, posso enterrar ele aí no teu quintal?


Oxalis incarnata


Essas mãos que agora te estrangulam são as mesmas que ontem te colocaram o cabelo de lado pra que você dormisse sem nada te incomodar o sono, tranquilo no travesseiro que te acolhia a respiração que some some e vai desaparecendo enquanto eu colho dos teus pelos a carcaça da noite que passou bem na frente da minha cara feia de susto. Eu escuto uns estalinhos como quando tua língua fazia aquilo que eu tinha nojo mas que agora já nem me importa mais, você não vai mais fazer isso mesmo. Eu gostava da tua língua, gostava quando me entrava a coisa toda e gostava quando em mim teus dedos iam e tua coisa tão séria me entrando, eu que sou uma mulher que muda a cômoda de lugar e que chora nas escadas, ninguém sobe nem desce por elas, tá todo mundo indo e vindo no elevador, bando de gordos com suas compras do mês. E você aqui deixando tua última careta só pra mim. Queria muito que você visse essa tua cara feia de quem deixou escapar com o último bafo de ar dos pulmões também o arrependimento de fazer cagada a


vida toda e nem sequer se lembrar da bosta de casamento que você deixou pra trás enquanto você bem que podia ter sido um marido exemplar e um pai presente né, ao invés de ficar indo no bar encher a cara com aqueles restos de aborto e voltar pra casa fedendo cu vencido depois de dar uma berimbada com alguma puta de esquina. Eu preparei teu cafezinho e preparei tua bosta de janta pra que você nem sequer se prestasse pra lavar a porra da louça que eu bem que devia ter deixado acumular pra que todo mundo pensasse que eu era uma desleixada e daí talvez iam ver que minha vida era mesmo uma bosta e pudessem quem sabe me tirar dessa maloca porque isso daqui tá horrível eu queria era explodir toda essa merda. Eu agora quero que você vire comida de verme porque a minha vida toda do teu lado foi como se eu já tivesse morta e enterrada e você o verme que me comia viva, cara boca e boceta, quando toda noite eu queria dormir porque eu fiquei o dia todo cuidando dos teus filhos que você não devia nem saber o nome, e daí vinha bêbado pra cima da minha xota querendo entrar e sair como se eu fosse um parque de diversões com direito a entrada grátis só porque você conhece o dono. Esse teu pau fedido agora vai virar comida de verme debaixo da terra e que o diabo o tenha, maldito. Eu ninguém vai me pegar porque meu plano é ir pra longe daqui, pra bem longe de você, porque não quero que o mesmo verme que for te


comer a carne venha se lambuzar na minha. De você nem resto de carne eu quero, nem mesmo depois de morta e enterrada debaixo de toda a sujeira que houver em cima de mim, a maior delas já tá indo embora com o peso que eu tenho sustentado a minha vida toda do teu lado. Eu me levanto da cama e vejo o teu corpo mole e gordo esparramado como um bezerro natimorto sobre a bosta da vaca. Eu deixei tudo preparadinho como devia ser e agora decido fazer sem pensar duas vezes o que eu vou fazer porque é preciso que isso seja feito. As crianças podem ir pra onde quer que levem elas, eu não dou a mínima, vou estar longe e vão achar que eu tô morta e não vai ser mais da minha conta inventar juventude, a juventude e vida delas vai ser o meu jazigo, junto dos vermes e minha carne puída dilacerada diante do eterno vazio que vai ser a palavra mãe. Elas vão virar e perguntar pra professora ou pra quem é que for ter paciência pra abaixar a cara e olhar direto nos olhinhos delas e vão dizer assim Quem foi minha mãe? E vão responder Tua mãe foi comida de verme e continua sendo comida de verme, mas agora o verme não fala nem bosteja só come e fica quieto. E eu tô cagando pra tudo isso. Se tudo acaba é porque é melhor acabar enterrar e não olhar pro que sobrar na terra, deixar tudo muito bem esquecido num lugar passado que tudo foi. Eu é que vou ficar bem depois disso tudo, tranquila tranquila. E eu quero fazer


direitinho o que eu vou fazer porque eu preciso fazer do jeito certo porque é assim que tem que se fazer esse tipo de coisa. Vai demorar um pouquinho eu acho, mas eu vou fazer direito isso é o que importa de verdade. Eu já deixei tudo separado, é só tomar a coragem e fazer direito como eu falei que tem que fazer. Daí eu sento agora aqui no sofá e pego o gato no colo, fico passando a mão nele e alisando a cabecinha dele, ele fica ronronando e fechando os olhinhos amarelos. Eu vou sentir falta dele. Mas daí eu não penso em mais nada, como se eu não tivesse mais como pensar. Daí eu vou forçando forçando forçando pra pensar e não sai nada, eu faço mais força e minha cabeça se enche de uma coisa que não existe ou eu pensava antes que não existia e que nunca existiu ou pudesse existir. Daí meu corpo treme por dentro e eu vou ficando grande bem grande até não conseguir ser mais grande do que tão grande eu já tô sendo. A mala já tá até pronta e deixo o gato no quarto com teu corpo morto. Vou saindo sem olhar pra casa ou pra nada que tem dentro dela, nem geladeira nem sofá ou televisão. Não olho na cara dos vizinhos se eles estão aqui ou se estão dentro da casa deles eu não sei só vou saindo e indo embora pra bem longe daqui e vou andando andando andando. Eu chego finalmente na rodoviária. O sol escorre na testa vai escorrendo pelo pescoço e nas costas e no vão das pernas. Compro a passagem só de ida pra


puta que pariu, ninguém precisa saber pra onde é que eu tô indo. Eu tô indo embora, só, mais nada, é isso que importa pra mim, pros outros não importa nada eles não tem nada que saber da minha vida. Depois sento no ônibus e já tô indo embora daqui pra sempre e vou inventar uma nova vida talvez uma nova solidão que seja passageira como eu sempre fui. E eu fico pensando pensando pensando todo mundo eu acho que um dia quis ser isso que eu tô sendo agora, todo mundo quis largar tudo e enfrentar essa coisa difícil que é a liberdade. Ela é sagrada pra mim. Todo mundo tem uma coisa como O sagrado, pra mim é saber questionar o que eu posso fazer e se o que eu quero fazer é algo que eu mesma quero fazer ou se é algo que foi enfiado na minha cabeça. Isso é liberdade eu acho. Eu sempre achei que ela não existia e ainda acho mas agora esse nome pelo menos tem um significado que faz mais sentido dentro da fuga da vida. Talvez seja porque a liberdade é outra coisa que a gente não conhece e fica chamando de liberdade porque sempre pensou que ela fosse isso mas não é não. Eu acho mesmo que ela não existe e que isso aqui que se dá o nome de ser livre é uma coisa tão desesperada quanto à fuga e só se sente quando se rompe com a vida. E ter esse rompimento é uma coisa quase impenetrável, como se faltassem dedos pra entrar num fundo de carne, um algo concreto e vivo que também é invisível. A vida levanta da sua zona de


equilíbrio e mergulha na vertigem. Dentro a coisa é viva. Eu quero encontrar os fundos, todos eles, desde a pequena mais sagrada coisa invisível, até o som das janelas do ônibus batendo nas árvores pelo caminho. Ele vai andando andando até o longe na estrada e eu aqui, parada mas me movendo através do tempo, mais rápido que você que tá aí num passado tão obscuro e que não é mais dono de ninguém porque o todo que ele envolvia se foi com a morte te roubando no impenetrável do que você era e sempre foi. A minha cabeça recosta na janela e isso me corta no tempo, eu vou parar no dia em que nos conhecemos. Havia dúvida havia um monte de coisas se atropelando e aqui a saudade daquele dia, de você como era sem eu saber como era de verdade. Eu alisava os teus cabelos, mergulhava no que você enxergava em mim, e eu sinto tanta falta da dúvida que era te ver e pensar te saber. Volta pra mim. Eu sinto falta, eu sinto a falta batendo na janela, me fundindo obscura dentro da mente e tudo se esvaindo na memória. Por que eu não posso agarrar na loucura do passado os teus outros beijos e a tua outra companhia, presença úmida no vão das coxas, a comível nossa criatura, você e eu, dentro de um silêncio que nos fazia fugir na dor e nos abraços. Ah eu te amei como a cadela se espremendo entre uivos na culpa. Volta pra mim mas volta como se o que viesse no depois nunca chegasse e que todas as coisas se derrubassem no


ininteligível da culpa. O momento é um, o que me bastaria ter entre os dedos, tuas mãos sobre as minhas, tuas palavras dançando na língua até a minha cabeça e depois você pelado na minha cama me pedindo o sexo de olhos fechados. Me entra outra vez a tua saliva, me entra você todo, por favor, me entra eu te peço, na voz inatingível da tua vida, a que acelera sem eu querer porque no depois só existirá o que eu não quero ver. Eu não quero o futuro, eu não quero possibilidades, eu te quero inteiro na minha vida com todas as tuas partes tão ínfimas e sobrenadando no mar de um isso que te interdita a passagem do tempo, porque só de sortilégios que se inventam sobre os nossos muros já daria para se satisfazer com a vida. Grita, e grita com desejo a tua voz numa rua que nós nos víamos jovens e sem nenhum tipo de futuro palpável. Eu quero o momento de concretude por trás dessas lembranças, quero te inventar no aqui e te segurar mãos cólera e o sujeito tua existência, teu corpo se fazendo contra o meu, tua pele teu lanoso corpo, olhos, pau e a febre de te inventar assim sem te saber como seria no íntimo depois. Volta pra mim, volta dizendo que me ama e que só a você se inventa a cura do que nos permeia quando eu não tô. Eu não quero imaginar porque eu quero, é isto que me toca as bochechas, a brecha da janela deste ônibus que te traz pra mim quando teu corpo tá morto sobre a nossa cama e o gato te lambendo o dedão


do pé. Volta pra mim volta pra mim volta pra mim volta pra mim como se no sim houvesse a vida, como se no sim houvesse o tudo e o não e a presença partida dos abraços que não são. Eu te amo eu te amo no que foi e no que tá por trás de toda a realidade que foi a nossa vida um junto do outro na desgraça e na dor de todos esses anos. Eu te matei a matéria mas a memória sobrevive no absurdo. Eu te matei na matéria e me senti na ponta do isso inesquecível que tivemos um com o outro por um tempo curto mas que se fez eternidade dentro de um universo corroído pelo tempo, nos comendo como se num vórtice secreto a luz se fizesse perdida diante dos dentes amarelos. Nunca me senti tão mal por passar o tempo aqui a sua escrava, aqui a sua cobaia viva e sem medidas. Volta pra mim. O ônibus para e eu tenho que descer. A gravidade na mala puxa a mão como se na possível queda pudesse existir o mesmo abismo, um abismo nas mãos, um abismo com os ouvidos escutando o inferno. Eu compro um chá. Vou bebendo aquilo grosso e amargo. Cuspo e jogo o resto na lata do lixo mas uma coisa entrou em mim porque eu sei eu engasguei, mas já entrou, então só lavo a boca. E eu pensei que fosse você me entrando de novo. E vou imaginando. Eu invento você na cadeira da frente. Eu invento você no espelho do banheiro da rodoviária. Eu invento você quando eu volto pro ônibus pra continuar a viagem. Eu invento você na ponta dos


meus dedos te desenhando no vidro da janela. Eu invento e não saio na realidade, como eu desapareço em tudo o que nós dois um dia tivemos esboçado nas nossas vidas de outrora. Eu aqui sou o agora e você desenhado no meu lado no ônibus é o que a memória me trouxe e que eu enxergo como a minha fuga do real, você com o corpo pesando na cama e com o gato lambendo teus pés. É noite no quarto às três da tarde e é noite enquanto você não tá. Eu não tenho cabeça pra imensos nãos ou grandiloquentes sins. A vida só é um feixe se erguendo em dois rastros que coincidem em duas direções com caminhos invasivos que não existiam no começo. O peito de repente vai apertando. Se é a dor do fim eu não escuto. Se tudo se imagina eu vou voltando para trás. Eu achei por um momento que fosse vomitar. Achei que a loucura se fazia em mim até mesmo quando de olhos no escuro eu fosse eu mesma no aqui. Dentro dentro dentro onde é dentro se na culpa que eu sinto vai se virando pro lado de fora o que eu fui até então? Dói, eu acho que passa mas dói e vai doendo até eu cair no chão do ônibus e as pessoas irem me gritando e se afobando me jogando olhos e perguntas e mil vozes se juntando. Eu vejo você, dessa vez muito claramente à beira dos meus pés. Eu achei que você ia me estirar a mão para me ajudar mas eu ouço dentro da minha cabeça você dizendo É a culpa, mas não se desespere, acaba logo, a morte quando é


morte mesmo acaba depois de um breve momento que dura a vida inteira, como se diante dos nossos olhos fosse visto o todo abarcando tudo que existiu, vida e morte então se amparam como se nada delas pudesse ser tirado. Você fala ainda É dor mas acaba logo, vai acabar quando nos teus olhos você fugir em silêncio, quando nas tuas mãos você sair sem saber que tá saindo, quando boca e língua, peito aberto, se fizer a temível vertigem entrelaçada ao nada. Você continua dizendo É dor ainda, mas acaba logo, acaba quando os olhos arregalarem e o grande tão grande que até então em você supunha a vida agora se desdenhar em morte e fuga. E eu não penso mais em nada. Uma estrela salta por trás dos dentes. Um sorriso entrenascente cresce e foge. Tudo motiva o medo de não ser nada no fim de tudo. Do fundo da garganta sai o verde da semente que bebeu. Vai crescendo garganta acima até sair pela boca e assustar todas as gentes. Vai caindo no chão, saindo do corpo morto pela boca, depois pelas narinas e vai se formando um verde grande que no ônibus tudo assusta. O motorista para o veículo quando todo mundo grita. E há dúvida. Há também a dor no que se vê caído no chão do ônibus, verde e flor, caules rijos e folhagens desconhecidas. O verde vai se espalhando, escorando e cobrindo os bancos e as paredes, algumas partes saem pelas frestas das janelas, outras se escondem debaixo num escuro muito íntimo. De repente o ônibus


quase todo está tomado pelo verde e pelas flores. Uma menininha no fim do ônibus se larga das mãos da mãe assustada e, como se fosse espontâneo não se esboçar no medo, se agacha e apanha uma flor muito branca em meio ao todo verde. A mãe pega a filha e joga a flor longe, que vai dançando com a velocidade do vento para fora do ônibus. E vai voando em um céu de sol ardido, onde o ar abafado se encontra com aquela coisa que não é liberdade mas que talvez seja. E existe alguma parte dentro dessa mesma flor que grita enquanto é levada pelo vento: Volta pra mim.


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Contos de primeiro grau  

Mini-coletânea de contos.

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