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MUSIC JERIMUSIC Um olhar potiguar sobre o mundo da música.

NÚMERO: 01

E M A I S : B O R N T O F R E E D O M , K H R Y S TA L , F U N K E I R O S . . .


MUSIC JERIMUSIC Um olhar potiguar sobre o mundo da música. CAPA

10

expediente João Pinheiro Marcela Bulhões Steh Coelho

Novo disco de Khrystal / pag. 4 Born To Freedom / pag. 6 Festival DoSol / pag. 10 O Poder do Funk / pag. 12 Coquetel Molotov / pag. 14 RN também é Rock / pag. 16

Festival Dosol 2016 O evento agora sai da Ribeira e deve ganhar uma versão na praia .

Discos do Mês / pag. 17


EDITORIAL Não é fácil viver de música. A gente já sabia disso desde o primeiro olhar torto que recebemos ainda na época da escola. Até os grandes bastiões devem ter lá suas crises laborais. O jovenzinho da cena independente local nem se fala. Os veículos que comunicam sobre o tema também andam mal das pernas. Mas todos eles trocam olhares entre si e, apesar das dificuldades, sabem que há algo mágico em seus trabalhos.

Nós da Revista Jerimusic sentimos muito orgulho de estar nesse perrengue. Não deixa de ser um ato político trabalhar com o que se gosta, apesar das adversidades. É uma forma de não se entregar ao sistema e não aceitar o “Desista! Naquela outra profissão padrão você vai ganhar muito mais dinheiro e trabalhar menos”.

Além do que já falamos, nosso principal desafio é provar que no Rio Grande do Norte há muita música sim! Música boa e autoral, seja ela produzida no bairro nobre ou na comunidade, com guitarra ou atabaque. O que a gente quer é que vocês, queridos leitores, possam se reconhecer e admirar o que é feito aqui não por um sentimento bairrista, mas pela sua qualidade.

Por fim, dia desses a gente estava aqui e pensou que Nietzsche estava bem certo quando disse que sem a música a vida seria um exílio. Quer dizer, achamos que ele está certo, mas só podemos falar por nós mesmos e, na nossa vida, o que não falta é música.


Leveza e otimismo sÃo destaques no terceiro disco de Khrystal Não deixe pra amanhã o que pode deixar pra lá foi lançado no início do ano. Consagrada nos palcos e ouvidos potiguares, a cantora

Em 15 anos de carreira, Khrystal é a artista potiguar mais

Khrystal - que teve uma participação sensacional no The Voice

reconhecida no Brasil. Desde sua afirmação como resgatadora

2013 - lançou em 1º de maio seu terceiro álbum, “Não deixe

e divulgadora do ritmo regional coco, seguindo com o 1º CD

pra amanhã o que pode deixar pra lá”. A mensagem do disco é

“Coisa de Preto”, e o primeiro show de músicas autorais, “O

sugestiva: levar a vida com leveza, otimismo e deixando para lá

Trem”, passando pelo aclamado “Dois Tempos” e a impactante

os incômodos. O álbum autoral conta com parcerias de peso,

participação no programa The Voice Brasil. Assim como

como Thais Gullin, Tatiana Cobbett, Paulo de Oliveira e Jubileu

toda a idealização, produção e pós-produção do álbum, a

Filho, e ainda com participações especiais de Roberto Taufic

idealização, roteirização, captação de imagens e pós-produção

nos violões, Gilberto Cabral , Antônio de Pádua e Eugênio

do videoclipe, foi realizada por profissionais, empresas e

Graça nos metais, Eduardo Taufic nos Pianos, Lucy Alves na

em locações na cidade do Natal, envolvendo uma equipe

Sanfona e do histórico Quinteto da Paraíba.

diretamente ligada com a produção audiovisual do Estado.

Sob o selo DoSol, que já carimbou artistas como Luiz Gadelha e Five Minutes to Go, as 12 faixas retratam temas como tradição, fé, pertencimento e resistência. Reitera o caráter questionador das músicas da cantora, mas com um toque de festividade nas melodias. A primeira música já ganhou um clipe: o trabalho audiovisual da canção “Não deixe para amanhã” foi lançado em 1º de maio, reforçando ainda mais a identidade cultural da artista. Realizado através do edital Economia Criativa 2016, nele a cantora interage com jovens e crianças da Praia do Meio juntamente com sua banda, retratando também paisagens de Natal.

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JERIMUSIC

CAPA DO NOVO ALBÚM IMAGEM: DIVULGAÇÃO.


JERIMUSIC

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Texto de João Pinheiro Fotos de Luana Tayze

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Celebração e despedida no Festival Dosol 2016 O evento agora sai da Ribeira e deve ganhar uma versão na praia. O Festival Dosol já é um evento consolidado na agenda cultural

pegada eletrônica bem forte com letras mais românticas. Além

do país. Na capital potiguar e região, é icônico. Dessa vez, no

do já conhecido talento dos dois artistas, é preciso ressaltar

entanto, além do ar festivo, havia um clima de despedida. É

como Foca se mostrou um cantor virtuoso nesse projeto.

que essa foi a última edição do evento no histórico bairro da

Agora ele solta a voz sem medo e acerta em cheio.

Ribeira, reduto boêmio e berço do rock de Natal. A produção

Luneta Mágica é uma banda do Amazonas que já é queridinha

vai reformular o formato e levá-lo à praia! Nada mais adequado

do TMDQA!. Em 2015 eles lançaram o ótimo No Meu Peito,

na cidade que tem sol durante 300 dias por ano, hein.

segundo disco de sua carreira, e entraram na nossa lista de

Assim como em todo grande festival, com seis (!) palcos

melhores álbuns do ano. Com um pé no rock alternativo e

simultâneos é humanamente impossível ver tudo. E a gente

outro na psicodelia, o grupo fez uma ótima apresentação com

sempre fica com pena de ter perdido esse ou aquele show. De

suas suas versões estendidas propícias para ótimas viagens.

antemão, peço perdão a todos os artistas que não consegui

Outro destaque são as suas letras bem trabalhadas. Há até

prestigiar por estar vendo outra banda, pegando uma cerveja

espaço para uma belíssima referência ao eterno escritor

ou no lounge.

Eduardo Galeano.

Pelo outro lado, uma das coisas legais de eventos como o

A música da região norte do Brasil deveria ser patrimônio

Dosol é conhecer. Pessoas, artistas e bandas. Digo isso porque

imaterial da humanidade. E Felipe Cordeiro é parte integrante

talvez vocês ainda não tenham ouvido falar dos galhofeiros da

dela. O show do rapaz faz você se sentir em um passeio pelo

Joseph Little Drop (que nome!). A banda de punk é diversão

Pará, naquele mormaço entre um pato no tucupi e uma cuia

e carisma puros. O que poderíamos esperar de um grupo

de açaí com farinha de tapioca. É música solar feita para

que começa um show com um cover de “Faz um Milagre em

sentir com o corpo inteiro. O público não poderia reagir de

Mim”, de Regis Danese, e termina com a participação da drag

outra maneira. Sábado, 22h, tudo que as pessoas querem é

queen Minerva Del Diablo na versão de “Sweet Transvestite”,

dançar. Lambada, cumbia, carimbó. Teve tudo isso. Ainda teve

do musical Rocky Horror Picture Show? É quase como estar no

também o mestre Manuel Cordeiro, pai de Felipe. Eles tocam

recreio.

juntos e há tanta beleza em ver uma família dividindo essa

Quem também mandou muito foi o Fetuttines. A dupla

paixão pela música e por suas raízes. Sem dúvidas, o show do

é formada por Anderson Foca (Camarones Orquestra

festival.

Guitarrística) e Luiz Gadelha (Talma&Gadelha) e tem uma

O Terno estava com participação marcada no evento desde o

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ano passado. É que a banda seria atração da edição de 2015

O destaque sempre fica com a performance de “Víbora”. Não

do Dosol, mas foram obrigados a desmarcar porque o vocalista

importa quantas vezes vejamos a artista cantar essa canção,

e guitarrista Tim Bernardes foi diagnosticado com caxumba e

sempre é de embasbacar. Teatralidade, controle vocal e uma

teve que ficar 15 dias de repouso. Sendo assim, a apresentação

letra de arrepiar. Vale também lembrar que o show teve uma

foi adiada em ano. Tempo esse que serviu para o grupo lançar

participação muito feliz de Felipe Cordeiro em “Virou”, e d’O

um ótimo disco e vir ainda mais afiados. O público respondeu

Terno em uma versão um tanto atrapalhada de inusitada de

a espera e cantou a plenos pulmões faixas como “O Cinza”,

“Efêmera”.

“Bote ao Contrário”, “Deixa Fugir”, “Lua Cheia”, “Ai, Ai, Como Eu Me Iludo” e tantas outras. Ym showzaço que só reforça o status

Conjunto de Música Jovem Merda - nome que ajuda qualquer

de melhor banda do rock nacional.

pesquisador sobre a produção cultural na pós-modernidade a construir o título de algum artigo – um exemplo de

A dupla de irmãos chilenos Alejandro (cabelo liso) e Alvaro

vandalismo ao vivo, com direito à pichação “Merda” no banner

(cabelo cacheado), ou duo Perrosky para dar um ar arrojado,

do festival (só falta aparecer a reaçada da UFRN querendo

mostrou que consegue dar conta de juntar & misturar folk,

apagar o trabalho dos rapazes), som pesado, a certeza de ter

blues e rockabilly, em versão econômica com guitarra e bateria,

algum cidadão tentando emplacar alguma dancinha até ser

vez em quando uma gaita, é claro. Cantando em espanhol e

derrubado no pogo, músicas com letras bem-humoradas e a

uniformizados de camisa azul com a palavra perro bordada,

famigerada roda punk de docinhos. O conselho tutelar não

nos lembram logo das roupinhas iguais dos Bananas de

liberou a entrada do menino Crackinho, mas em compensação,

Pijamas ou talvez seja por escolha da mãe para evitar “arengas”

a última banda a tocar no domingo, manteve o estilo que

(quem tem irmão/irmã, sabe). Assim como o Chile consegue

a galera gosta: milhares de músicas em uma hora de show.

ter neve e deserto ao mesmo tempo, a banda consegue ser

O (des)concerto acabara antes da meia-noite, ajudando

leve e pesada na medida certa. Enquanto Alvaro, da bateria

bastante na vida dos remanescentes que precisavam estar

aproveita a malemolência na cabeça e dá vida aos cachos,

no ponto para pegar o último ônibus e a não terminarem a

Alejandro desce do palco e até deixa o público contribuir

noite dormindo em algum banco da praça. O jovem no Brasil

tocando a guitarra por alguns segundos. Uma pena ter sido

é levado a sério, sim.

vista por poucos, a plateia perdeu uma ótima oportunidade de preparar um coro “Fuera, Temer” para treinar outro idioma.

E assim termina a etapa de Natal do Festival Dosol. Com festa, diversão e um tantinho de nostalgia com a despedida.

Em outro palco, mas com força semelhante, estava Tulipa

O menino agora é quase adolescente e vai veranear. Mais

Ruiz. Quem já foi ao show da cantora sabe que ela nunca

do que isso, toma novo fôlego com a brisa do mar, água de

decepciona. E no Festival Dosol não foi diferente. Com a

côco gelada e o vento soprando na cara. Nós do TMDQA! já

apresentação baseada principalmente em Dancê, seu disco

estamos separando a roupa de banho. Bora?

mais recente, ela conseguiu, de fato, fazer todo mundo bailar.

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JERIMUSIC


JERIMUSIC

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Born to freedom clipe com colaboração dos fãs “Noisy place” foi realizado através de parceria entre a banda e os alunos do curso de vídeo do Senac/RN

10

A banda potiguar de hardcore Born to freedom lançou no

O registro foi realizado através de parceria entre a banda e

último dia 04 o segundo single do álbum “Life is movement”.

os alunos do curso de vídeo do Senac/RN e teve direção do

O videoclipe dessa faixa contou com a especialíssima

professor Marcos André Trigueiro, que aliou esta produção

participação de Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish, que

com o trabalho prático de conclusão da turma.

gravou seus takes em meio a passagem de sua banda por

“Noisy place” é um retrato do mundo em que todos estão

Natal.

gritando por suas causas e em meio a tanto barulho é nesse

JERIMUSIC


lugar que o eu-lírico nasce, tenta ser parte de um grupo, ter voz,

humanos e políticos, somado a composições tradicionais que

e “finalmente ter sua chance” de falar e promete “não falhar

não fogem da linha hardcore melódico.

mais”, não regressar. No entanto, nem todos são considerados

Em recente entrevista Shilton Roque, um dos integrantes do

nesse universo, a liberdade de expressão e contestação

grupo, falou sobre o conceito de Life Is Movement. O artista

é limitada, apenas as demandas de alguns são ouvidas.

explicou que o álbum retrata as suas angústias cotidianas

Alguns grupos saem perdendo nessas discussões e acabam

e demandas políticas. Musicalmente é um retrato de três

titubeando nesse caminho, nessa peleja findam “pagando por

fases da banda, cada par de músicas relata um momento da

suas dúvidas eternas” e muitos se tornam obsoletos (partidos

produção. A ideia central dele tanto das letras quanto das

políticos, facções, movimentos organizados, blogs, jornais,

músicas é exatamente o que tá retratado no título, a vida

redes de televisão, etc.). E na hora da queda, quando as ideias

como um movimento constante.

são postas em xeque, os heróis estão bem longe dali, ou daqui.

O disco inicialmente tinha pretensão de ser um registro

Após a excelente repercussão do single de estreia “Real Walls”,

póstumo da banda, porém curiosamente motivou um efetivo

que também tem clipe no Youtube, Life is Movement chegou

retorno e expansão do alcance da sua música, tanto que

ao público. O disco foi produzido por Cássio Zambotto e tem o

seguido ao lançamento houve uma pequena turnê pelo Sul

projeto gráfico assinado pelo artista paraibano Diogo Galvão.

e Sudeste do país para divulgação. A Born to Freedom é

Contém sete faixas, dessas três tem participações especiais:

composta por Shilton Roque, Caio Lemos, Maxwell Barros, Jael

Victor Francisco do Bullet Bane, Rodrigo Silva do Dead Fish e do

Medeiros e Adalberto Almeida.

rapper Rafael Bessa. Recheado de letras que discutem dilemas

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O poder do funk

des como Tijuana, Recife e Joanesburgo. Esse

carioca como

número fez com que a região fosse uma das

transformador social

até a Polícia Militar do Rio Grande do Norte

Mc Gil Bala e Mc Kevinho são estrelas da cena funkeira do bairro de Mãe Luiza.

peito”, desabafa Gil Bala.

primeiras a receber a “Ronda Cidadã”, programa governamental que chega a abordar 100 pessoas por dia. Segundo os meninos,

não tem respeito com o bairro. “Os policiais falam que em Mãe Luiza todo mundo é sus-

Como fugir das estatísticas? Para esses meninos, a arte é seu escape. As batalhas que eles travam são para produzir e mostrar o

Qual seria sua reação se alguém comentasse que há em Natal uma prolífica cena de funk? Pois ela existe e vai muito bem, obrigado. O funk nascido lá nos morros do Rio de Janeiro já veio ao mundo destinado a ser marginalizado: música de fácil acesso, feita pela população de baixa renda e para a população de baixa renda e muitas vezes gritando os problemas sociais que os governantes e a classe alta ignoram deliberadamente. Derivado do Miami bass, ritmo

americano

de

música eletrônica, o gênero começou a tomar forma no Brasil a partir da década de 70, época

meiras equipes de som, como a Soul Grand Prix e a Furacão 2000, que organizavam bailes dançantes. Desde então, o funk carioca, que nada tem a ver com o clássico funk americano, sofreu mudanças e se adaptou cada vez mais à realidade brasileira, mas sem nunca perder o seu caráter

JERIMUSIC

seu trabalho. Luzes, máquinas de fumaça

Na capital potiguar esse estilo achou seu

e mesa de som são os instrumentos que os

berço em um lugar que enfrenta os mes-

acompanham na calada da noite. Mas nem

mos problemas das comunidades cariocas: o

sempre foi assim. Gil relembra que já houve

bairro de Mãe Luiza. Dois meninos que ain-

épocas em que existia um toque de recolher.

da nem saíram direito da adolescência são

“Era perigoso demais aqui até ano passado.

os principais responsáveis por darem voz à

Todo mundo ficava trancado em casa porque

verdade de sua comunidade. Mc Gil Bala e

nao queria levar bala”, revela. De uma forma

Mc

com timbre e trejeitos

ou de outra, o funk deu a liberdade e opor-

de garotos, não enten-

tunidade que esses meninos precisavam. A

dem direito a importân-

violência urbana acabou criando um estigma

cia que tem dentro de

na região. “Em Mãe Luiza, se um inocente

seus contextos. Eles são

morre de bala perdida, a TV já diz que ele

exemplos de uma força

era um traficante, o dono do morro. Isso aca-

que não espera ajuda.

ba restringindo a gente a ficar só aqui”, diz

Os dois, com o apoio

Kevinho.

de outros amigos, pro-

Assim como seus vizinhos, os MCs são a re-

movem os bailes nas

sistência. Todo dia é uma luta para descolar

noites do bairro.

a grana para gravar suas músicas, produzir

Cabe aqui um adendo

todo o evento e ainda ter tempo de ser ar-

que Mãe Luiza é uma das regiões mais peri-

tista. No fim, não há o retorno financeiro que

gosas da cidade. Um levantamento feito no

se imagina. “A gente faz essas festas mais por

ano de 2014 revelou que o o índice no bairro

diversão mesmo. Aqui em Mãe Luiza não tem

chega a 60,7 Crimes Violentos Letais Inten-

festa. fazemos isso para não ficar parados. O

cionais (CVLI) a cada 100 mil habitantes. É

lucro que a gente tem só dá para pagar o

um número altíssimo, maior que o de cida-

lanche depois do show, mas tá bom”. Tá bom

Kevinho,

“Os policiais falam que em Mãe Luiza todo mundo é suspeito”

na qual surgiram as pri-

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social.


coisa muito bonita, algo que transcende. Juntos eles buscam realizar porque é assim que eles conseguem ser quem são e fugir do desti-

seu sonho e mudam seu status social. Mesmo que a gente saiba que

no que a sociedade tentou impor. Também tá bom porque dessa

não há uma mudança de classe, sabemos que eles através da música

maneira os garotos conseguem ser divertimento, oportunidade e

conseguem respeito e certa fama dentro da realidade em que vi-

exemplo para os seus iguais.

vem”, explica o diretor. O filme será em breve exibido no Canal Brasil.

Com jeito brincalhão e juvenil, MC Gil Bala e MC Kevinho vão res-

Por fim, quando pedi para os garotos cantarem uma música sobre a

significando a sua realidade. Além de sua parceria admirável, a du-

vida deles, ouvi um dos maiores sucessos do MC Daleste. Quando

pla ainda conta com o reconhecimento de sua comunidade. “É bom

comecei passava mó dificuldade e lá em casa era fora de realidade.

porque eu chego nos lugares e todo mundo fala comigo. Não é só

É revoltante, eu sei, senti o gosto do veneno. Até meus 13 anos de

respeito, é amizade e admiração que as pessoas tem comigo”, expli-

idade não tinha banheiro. E lá em casa as paredes eram de madeira.

ca Gil. Isso talvez venha por causa da inovação dos meninos. Foi Gil

Lembro como fosse agora quando abri a geladeira. Não tinha nada

Bala que levou os bailes à comunidade. Sabe-se lá como seria a vida

pra comer e a barriga vazia. Acho que posso conseguir aguentar por

de sua vizinhança se não existisse esse sonho. Mas eles já podem

mais alguns dias, mas amanhã eu vou pra escola e como na me-

falar que muitos meninos que cresceram com eles e já estavam no

renda. Sábado e domingo é difícil mais a gente aguenta. E mesmo

mundo das drogas, estão agora no funk.

assim, só se vê perseverança no olhar desses garotos tão franzinos,

Apesar de tudo, o funk tem descido para o asfalto. No ano de 2015,

mas com uma força descomunal. “Eu quero ser MC e vou ser MC.

uma equipe de cineastas do Coletivo Caboré Audiovisual produziu

No que a gente quer a gente tem que ser positivo. Os humilhados

um curta-metragem documental sobre a vida dos meninos e sua

serão exaltados, estamos vindo pesado e, com a força de Deus, va-

relação com o estilo. “Som do Morro” contou com direção de Diana

mos trazer alegria para todos”. Usando as palavras de um poeta que

Coelho e Helio Ronyvon, com quem conversamos para saber como

eles talvez nunca tenham ouvido falar, mas ah se todos fossem iguais

ele via essas relações que a música criou. “A amizade deles é uma

a vocês...

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COQUETEL MOLOTOV se consagra como um dos maiores festivais de música do país

Céu, BaianSystem e Karol Conká foram algumas das atrações da 13ª edição do

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Aconteceu neste mês de outubro a décima terceira edição do festival No Ar Coquetel

ímpar, sem dúvidas.

Molotov, em Recife. Em uma proposta mais pop, agora o evento é realizado na

Claro que os gritos de “FORA TEMER” aconteceram.

Coudelaria Souza Leão, um belíssimo lugar com uma capacidade de público maior.

respondeu e gritou junto. A cantora, inclusive, logo depoi

Associado ao lapidado line up com grandes nomes da música, o resultado não

Aliás, essa frase foi repetida várias vezes durante as apresent

poderia ser diferente: ingressos esgotados e todos os espaços sempre bem ocupados.

não perder o costume, FORA TEMER!

Hoje o Coquetel Molotov, ao lado do Festival DoSol, é prova do sucesso de iniciativas

O show, que é baseado no excelente Tropix, seguiu com vá

de descentralização dos eventos de música. Não é mais imprescindível ir ao sudeste

set list: “Perfume do Invisível”, “Arrastar-te-ei”, “Etílica”, “Amo

para apreciar a atual cena musical brasileira. Além de nomes já consagrados, o

e muitas outras. Mas também teve espaço para as mais anti

festival mantém aquela maravilhosa característica de não se prender aos headliners.

“Malemolência”, “Cangote” e “Grains de Beauté”. Enfim, um

Com um excelente trabalho de curadoria, novos artistas tinham destaque em todos

marcado na história do Coquetel Molotov.

os palcos e acabavam sendo apresentados ao público.

Logo depois, foi a vez de Karol Conká mostrar o seu poder

Um grande exemplo disso foram os franceses da Moodoïd. Apesar de não serem a

o suficiente para comandar uma festa e, ao mesmo temp

atração principal, o local do show estava lotado e com todo mundo se divertindo

empoderamento e a importância da quebra dos padrões. U

bastante. Além de boa música, a banda capricha no visual cheio de glitter e

só do show como de todo o festival foi quando a rapper

lantejoulas. Synths, glam, carisma e muita performance numa ótima apresentação.

Feminista”, parceria dela com a MC Carol. Nesse momento

Para mim, a descoberta do festival.

mostrando os seios invadiu o palco como ato de empodera

Além de Miocário ser um dos discos do ano, o Barro ainda levou ninguém menos

Para finalizar a festa, veio o BaianaSystem com uma aprese

que Juçara Marçal para uma participação especial. A cantora dividiu os vocais de

sensacional. Madrugada alta e todo o público com energi

“Nouvelle Vagues” e ainda apresentou “Velho Amarelo”, de seu disco solo.

Não dá para ficar alheio ao som dos caras. Pelo menos, não

Com essa aura reggae, solar e de celebração, o público participou ativamente, seja

uma nova visão para aquela música popular vinda da per

cantando e/ou dançando, em praticamente todas as músicas. Por fim, o cantor ainda

imperdível. Se passar na tua cidade, se faça esse favor e vá.

chamou o Russo Passapusso para uma participação surpresa. Festa total.

Em suma, o Coquetel Molotov é um evento que já está c

Mas parece que boa parte das 8 mil pessoas que estavam na Coudelaria Souza Leão

grandes festivais do Brasil. É retrato de uma cena que cresc

queriam mesmo era ver Céu. Coros uníssonos e a cantora visivelmente emocionada

prova que é possível sim aliar a tão falada experiência de fe

com o público que cantava como se suas vidas dependessem disso. Um momento

primorosa. O povo de Recife, bem como de todo o Nordest

JERIMUSIC


Texto de João Pinheiro Fotos de Luana Tayze

o evento. A banda, prontamente

is também puxou o coro.

tações no festival. Só para

árias do disco estavam no

or Pixelado”, “Minhas Bics”

igas como “Contravento”,

m momento que vai ficar

r. Ela e o DJ no palco são

po, levantar questões de

Um dos pontos altos não

r cantou a música “100%

o um grupo de mulheres

amento feminino.

entação nada menos que

ia do começo do festival.

o deveríamos. A banda dá

riferia. Enfim, é um show

.

consagrado no mapa dos

ce exponencialmente e a

estival com uma curadoria

te, merece esse coquetel.

JERIMUSIC

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RN também é rock: Dupla reúne 100 discos do rock potiguar em livro Rockeiros de longa data, Alexandre Alves e Vlamir Cruz, lançam o livro “100 discos do rock potiguar [para escutar sem precisar morrer]. Rockeiros de longa data, Alexandre Alves e Vlamir Cruz (o

Orquestra Guitarrística” e “Far from Alaska”, ambas conhecidas

Mr. Moo), lançam o livro “100 discos do rock potiguar [para

dentro e fora do país.

escutar sem precisar morrer]”, onde colocam em formato de

Ainda segundo Alexandre, embora haja hoje uma grande

coletânea com 120 páginas os registros mais importantes da

quantidade de bandas, há por vezes um déficit de qualidade e

cena rock do Rio Grande do Norte.

cuidado com o material disponibilizado e que o público local

A pesquisa, que partiu do acervo pessoal do grupo de seis

segue modismos, aguardando que haja sucesso primeiro fora

pessoas (que ainda inclui Alexis Peixoto, Hugo Morais, Olga

do estado para dar atenção ao que é produzido, consumindo

Costa e Jesuíno André Oliveira) responsáveis pelo projeto e

o que é feito aqui de forma sazonal. Por não haver como

durou cerca de dois anos, se iniciando em 2014. A seleção foi

se manter, muitos integrantes desistem e assim as bandas

feita levando em consideração o respaldo da crítica, relevância

acabam, havendo o que Alexandre chama de “renovação

alcançada quando lançado e priorizando álbuns físicos,

forçada”.

agrupando bandas antigas e atuais.

Dos 100 nomes citados no livro, o autor destaca o “Discarga

Motivados pela comemoração de meio século de rock no Brasil,

violenta”, “Zaratrusta”, “Impacto 5”, a “Jubarte Ataca” e os já

perceberam que não havia nenhuma referência das bandas

citados “Leno”, “Camarones” e “Far from Alaska”. Alexandre

desse gênero nas terras potiguares até então, o que levava

conta que antigamente era caro e difícil produzir de forma

ao desconhecimento das novas gerações que consomem esse

independente. Houve, com novos meios de divulgação e

tipo de música sobre os registros já feitos em outros períodos.

produção como a internet e os home studios, que ocupou

Inicialmente, foram encontrados cerca de 400 discos, ficando o

as funções que antes era da gravadora, houve uma certa

produto final com 100 nomes e suas respectivas fichas técnicas.

democratização do fazer música no Brasil e também aqui.

Ao contrário do que se é comumente pensado, o rock potiguar

Festivais como o DoSol e MADA, além de eventos culturais

não é algo novo. Nasceu gigante com o cantor Leno, ídolo

como a Virada e Circuito Cultural Ribeira propiciaram a

da jovem guarda nos anos 60, que é norte rio-grandense.

chegada de novos públicos, dando estrutura e visibilidade

Passando por um período de ostracismo durante a década de

para as bandas locais se apresentarem.

80 e voltando nos anos 2000, com bandas como “Camarones

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JERIMUSIC


DISCOS DO MÊS Camarones Orquestra Guitarrística – Elefante EP (2015)

O já consolidado quarteto potiguar lançou Elefante numa fase bastante badalada da trajetória do grupo, que fez 18 apresentações em festivais e shows na Europa, com destaque para os gigantes Liverpool Sound City (UK) e Primavera Sound (Espanha). Das cinco faixas do álbum, três são inéditas e todas foram gravadas a partir de takes ao vivo durante shows e sessões feitas em São Paulo, nos estúdios Family Mob e Estúdio Costella. A capa é de Anderson Foca, que também é guitarrista e tecladista da banda.

Fetuttines – Impossível Só (2016)

Outro registro de Luiz Gadelha (solo e Talma & Gadelha) acaba de sair do forno. Dessa vez em parceria com Anderson Foca (Camarones Orquestra Guitarrística e Five Minutes to Go), duo que forma o Fetuttines joga para o mundo o álbum Impossível Só.

Formado com dez canções com foco nas letras autorais e de estilo minimalista, teve a participação do vocalista do Maglore, Teago Oliveira, e da cantora potiguar de MPB Camila Masiso, na faixa-título. Os componentes também produziram em conjunto com Yves Fernandes.

Five Minutes to Go – Ghost Town (2016)

Com gancho do Fetuttines, apresentamos outra empreitada de Anderson Foca (baixo). Dessa vez, o projeto se chama Five Minutes to go, banda de sonoridade punk formado também por Kaká Monteiro (vocal e guitarra) e Yves Fernandes (bateria). As influência pro rock de riffs rápidos exibido nas nove faixas de “Ghost Town” vem de 7 Year Bitch, L7, Off, Fidlar, Bikini Kill e outras bandas que acabaram por contribuir pra identidade própria do Five Minutes.

Luiz Gadelha e os Suculentos– Sufocante (2016)

Um dos nomes mais atuantes da cena musical potiguar, Luiz Gadelha lançou em fevereiro desse ano, o excelente “Sufocante”, mais um álbum de sua carreira solo. Contando com nova faixas, o artista multifaces apresenta composições maduras com sonoridade pop, com toques do indie e eletrônica. A produção ficou por conta de Anderson Foca e é parte integrante da Incubadora Dosol e a capa é obra da ilustradora Luiza de Souza.

Luísa e Os Alquimistas – Cobra Coral (2016)

Lançado nos primeiros dias do ano com o selo DoSol, o trabalho de quase 12 meses já chegou fazendo estrondo na cena alternativa natalense. Com produção, arranjo, percussão e guitarras do veterano Gabriel Souto (DuSouto), o disco tem faixas de impecável qualidade musical. Conta também com participação do baixista Pedras Leão e o baterista Renan Amantéa (Igapó de Almas) e também da forte voz de Clara Pinheiro. Todas as músicas foram compostas pela líder do grupo, Luísa Guedes, que canta em português, inglês, francês e espanhol, indo do dubstep até bregapop.

Sami Tarik - Executivo do Pandeiro (2016)

Com mais de 10 anos de música, Tarik lançou o multifacetado Executivo do Pandeiro em setembro. Todas as faixas são autorais e expressam sentimentos como saudade, revolta, humor e amor vivenciados pelo artista. Perpassando pela música erudita, popular e experimental. O evento de lançamento, no IFRN Central, contou com participações de peso: Khrystal, Carol Benigno e Humberto Luiz Trio. O patrocínio da Potiguar Turismo, por meio da Lei Djalma Maranhão, possibilitou que o trabalho fosse realizado e que cópias físicas do álbum fossem distribuídas gratuitamente no evento.

JERIMUSIC

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MUSIC JERIMUSIC Um olhar potiguar sobre o mundo da mĂşsica.


Jerimusic - Edição 01