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Janeiro/Junho • Ano 83 • No 1

o

1949


Ano 83 – 2019 – Janeiro/Junho – nº 1

Praça São Francisco das Chagas, 195 Carlos Prates Belo Horizonte – MG CEP 30710-350 www.ofm.org.br Equipe Provincial de Comunicação Frei Joaquim Fonseca de Souza Frei Saulo José Duarte Frei Luciano Lopes Frei Laércio Jorge de Oliveira Assistente de Comunicação Tiago J. Theisen (RP: 0019670/MG) Imagem da Capa: Congresso do Comissariado, ocorrido em 1949, em Carlos Prates, Belo Horizonte, MG, que antecedeu a instalação da Província Santa Cruz. O Congresso contou com a presença do Provincial da Holanda, Fr. Apolinário van Heuven. Revisão Ângela Marques Paula Zaidan Diagramação Míriam Carla Alves Montagem e impressão Gráfica do Colégio Santo Antônio Coordenador Gráfico Denilson Fonseca Expedição Secretaria Provincial


Editorial De acordo com a orientação do Capítulo Provincial de 2018, a Revista Santa Cruz terá sua periodicidade de publicação reduzida, isto é, passará para uma publicação semestral. Além disso, haverá uma redução na tiragem dos exemplares da Revista, com o intuito de evitar o desperdício. A Equipe Provincial de Comunicação, refletindo sobre a Revista Santa Cruz, optou por publicar as comunicações do Definitório Provincial – antes disponíveis em seção própria da Revista – em uma revista especial, no final de cada ano, contendo somente as comunicações do Definitório, a exemplo da revista especial do Capítulo Provincial. Este número especial, contendo todos os boletins do Definitório, terá uma tiragem reduzida, a ponto de limitar-se a um exemplar para cada fraternidade e uns poucos para a cúria e arquivo provincial. Quanto à temática a ser adotada nos próximos números da Revista, a Equipe Provincial de Comunicação achou por bem abordar temas referentes às prioridades capitulares, a saber: evangelização na linha da Laudato Si’, juventudes, imigrantes e refugiados, evangelização na periferia e diálogo ecumênico e inter-religioso. Para esta edição, decidiu-se pelo tema da evangelização na linha da Laudato Si’, em função do rompimento das barragens da Vale e da Samarco em Minas Gerais. Por isso, o texto de Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, OFM. Nesta edição também trazemos as contribuições de Frei Joaquim, com um texto orientativo sobre o uso da oração “Nós vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo”. Frei Alexsandro, por sua vez, abordará a questão sobre a visita canônica do superior religioso e a questão dos livros paroquiais. Agradecemos a contribuição desses nossos confrades. Revista Santa Cruz

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Também nesta edição se encontra o in memoriam de Frei Francisco Prick, além de uma entrevista exclusiva com nosso Ministro Geral, Frei Michael Perry, quando este esteve, juntamente com Frei Valmir Ramos, visitando nossa Província Santa Cruz. A entrevista se encontra no relatório da visita do Ministro Geral na seção “Vida da Província”. Na próxima edição, será dispensada uma atenção especial para nossa história em função dos 70 anos da ereção canônica da Província Santa Cruz.

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Revista Santa Cruz


Sumário I. Editorial .................................................................. 3 II. Vida

da Igreja

• Comentário sobre a Carta do Papa pelos 800 anos do encontro de São Francisco e o Sultão ................................... 9 • Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da convivência comum assinado pelo Papa Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar, Ahamad Al-Tayeb .............. 11 • Mensagem da CNBB ao povo brasileiro ............................ 19 • Carta da Família Franciscana em apoio à Educação Brasileira .................................................................................. 23 • Nota oficial da OFS do Brasil sobre o desarmamento ..... 25

III. Vida

da

Ordem

• Carta do Ministro Geral para a Páscoa .............................. 29 • Carta do Ministro Geral por ocasião do 800o aniversário do encontro de São Francisco e o Sultão Al-Malik Al-Kamil .... 34 • Franciscano recebe prêmio de Direitos Humanos na Lituânia .................................................................... 40

IV. Vida

da

Província

• Visita do Ministro Geral — Equipe Provincial de Comunicação ... ...................................................................................... 43 • Ordenações e profissões .......................................... 58 - Ordenação presbiteral de Frei Ronilson ............ 58 - Ordenação diaconal de Frei Adenilton e Frei Gabriel .... 59 - Ordenação Diaconal de Frei Robério, OFM ........ 60 - Profissão Solene na Província Santa Cruz .......... 61 Revista Santa Cruz

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• Frei Fabiano e Frei Vicente: 25 anos de vida religiosa — Frei Daniel de Oliveira Faria, OFM ....................................... 62 • Manifesto dos Frades Menores da PSC às vítimas do rompimento da barragem de Brumadinho–MG .................... 63 • Prêmio Bom Exemplo: Pré-vestibular Educafro Minas é o vencedor na categoria .................................................. 65 • Encontro de irmãos leigos da PSC — Frei Ronaldo Dias do Val, OFM .................................................................. 66 • Encontro da Faixa Etária II — Frei Antônio Teófilo da Silva Filho, OFM ................................................................ 67 • Encontro de guardiães – análise de conjuntura — Frei Fábio L’Amour Ferreira, OFM ................................................ 69 • Encontro Regional Franciscano de Juventudes em Divinópolis — Frei Daniel de Oliveira Faria, OFM .............................. 73 • 4a Caminhada com Francisco: a fé inspira a proteção ao meio ambiente .............................................................. 74

V. Memória • Registro fotográfico da visita do Ministro Geral, Frei Michael Perry, OFM, à Província Santa Cruz ...................................... 77

VI. In Memoriam 20. In Memoriam de Frei Francisco Prick — Frei Fabiano Aguilar Satler, OFM ............................................................... 91

VII. Reflexões • Mineração — desafios e exigências pastorais — Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, OFM ..................................... 105 • “Nós vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo...” - A propósito do uso de uma oração medieval, adotada por São Francisco de Assis — Frei Joaquim Fonseca de Souza, OFM ..... 112 • A visita canônica do Superior religioso e a questão dos livros paroquiais — Frei Alexsandro Rufino da Silva, OFM ........ 116

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Vida da

Igreja

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COMENTÁRIO SOBRE A CARTA DO PAPA PELOS 800 ANOS DO ENCONTRO ENTRE SÃO FRANCISCO E O SULTÃO

O Papa fez um chamado a não ceder à violência, menos ainda sob pretexto religioso, na carta que escreveu por ocasião do 800o aniversário do encontro de São Francisco de Assis e o Sultão al-Malik al-Kamil, um evento que foi celebrado no Egito, de 1o a 3 de março de 2019. A carta do Papa Francisco, escrita em latim (íntegra somente em latim), está dirigida ao Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, Cardeal Leonardo Sandri, que é o enviado pontifício ao Egito durante as comemorações do oitavo centenário do encontro de São Francisco de Assis e o Sultão al-Malik al-Kamil.

Francisco,

homem de paz

O Papa recorda o Pobrezinho de Assis como um “homem de paz” que encorajava os seus frades a saudar as pessoas como Jesus pedia: “O Senhor te conceda a paz”. São Francisco – escreve o Papa – Revista Santa Cruz

“tinha entendido com o coração que todas as coisas tinham sido criadas por um só Criador, o único que é bom, e que “Ele é um Pai comum para todos os homens”. Portanto, “desejava levar a todos os homens, com espírito jubiloso e fervoroso, a notícia” do amor indizível de “Deus Todo-Poderoso e Misericordioso”, que “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,3-4). Por isso convidava os seus frades que se sentiam chamados por Deus a ir ao encontro dos sarracenos e dos não cristãos, apesar dos perigos.

São Francisco

e o

Sultão

O próprio Francisco – recorda o Papa – junto com seu coirmão, Frei Iluminado, partiu para o Egito em 1219. Em Damieta, ao norte do Cairo, encontrou o Sultão. Diante das perguntas do chefe sarraceno, “o servo de Deus, Francisco, respondeu com o coração intrépido que não tinha sido enviado pelos homens, mas por Deus Altíssimo, para mostrar a ele e ao seu povo o caminho da salvação e anunciar o Evangelho da verdade”. E o Sultão, ao ver o admirável fervor de espírito e a virtude do homem de Deus, o escutou de boa vontade” (São Boaventura, Lenda Maior, 7-8).

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“Uma

nação não levantará a

espada contra outra”

O Papa encoraja o cardeal Sandri a levar a sua “saudação fraterna” a todos, cristãos e muçulmanos. Almeja que ninguém caia na tentação da violência, principalmente “sob algum pretexto religioso”, mas, antes disso, realizem-se “projetos de diálogo, de reconciliação e de cooperação” que “levem os homens à comunhão fraterna”, difundindo a paz e o bem segundo as palavras do profeta Isaías: “Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se arrastarão mais para a guerra”. O Papa conclui a carta, abençoando todos os participantes desse “memorável evento” e “todos os promotores do diálogo inter-religioso e da paz”.

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DOCUMENTO SOBRE A “FRATERNIDADE HUMANA EM PROL DA PAZ MUNDIAL E DA CONVIVÊNCIA COMUM” ASSINADO PELO PAPA FRANCISCO E O GRÃO IMAME DE AL-AZHAR, AHAMAD AL-TAYEB

PREFÁCIO A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela Sua Misericórdia –, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres. Partindo desse valor transcendente, em vários encontros dominados por uma atmosfera de fraternidade e amizade, compartilhamos as alegrias, as tristezas e os problemas do mundo contemporâneo, em nível do progresso científico e técnico, das conquistas terapêuticas, da era digital, dos mass media, das comunicações; em nível da pobreza, das guerras e das aflições de tantos irmãos e irmãs em diferentes partes do mundo, por causa da corrida às Revista Santa Cruz

armas, das injustiças sociais, da corrupção, das desigualdades, da degradação moral, do terrorismo, da discriminação, do extremismo e de muitos outros motivos. De tais fraternas e sinceras acareações que tivemos e do encontro cheio de esperança num futuro luminoso para todos os seres humanos, nasceu a ideia deste «Documento sobre a Fraternidade Humana». Um documento pensado com sinceridade e seriedade para ser uma declaração conjunta de boas e leais vontades, capaz de convidar todas as pessoas, que trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana, a unir-se e trabalhar em conjunto, de modo que tal documento se torne para as novas gerações um guia rumo à cultura do respeito mútuo, na compreensão da grande graça divina que torna irmãos todos os seres humanos.

DOCUMENTO Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como irmãos, a povoar a terra e a espalhar sobre ela os valores do bem, da caridade e da paz. Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar,

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afirmando que qualquer um que mate uma pessoa é como se tivesse matado toda a humanidade e quem quer que salve uma pessoa é como se tivesse salvado toda a humanidade. Em nome dos pobres, dos miseráveis, dos necessitados e dos marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a todos os homens e de modo particular às pessoas facultosas e abastadas. Em nome dos órfãos, das viúvas, dos refugiados e dos exilados das suas casas e dos seus países; de todas as vítimas das guerras, das perseguições e das injustiças; dos fracos, de quantos vivem no medo, dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do mundo, sem distinção alguma. Em nome dos povos que perderam a segurança, a paz e a convivência comum, tornando-se vítimas das destruições, das ruínas e das guerras. Em nome da «fraternidade humana», que abraça todos os homens, une-os e torna-os iguais. Em nome desta fraternidade dilacerada pelas políticas de integralismo e divisão e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens.

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Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e enobrecendo-os com ela. Em nome da justiça e da misericórdia, fundamentos da prosperidade e pilares da fé. Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os cantos da terra. Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar Al-Sharif – com os muçulmanos do Oriente e do Ocidente – juntamente com a Igreja Católica – com os católicos do Oriente e do Ocidente – declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério. Nós – crentes em Deus, no encontro final com Ele e no Seu julgamento –, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e através deste documento, rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro, aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se comprometer seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da paz; para intervir, o mais breve possível, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio Revista Santa Cruz


cultural e moral que o mundo vive atualmente. Dirigimo-nos aos intelectuais, aos filósofos, aos homens de religião, aos artistas, aos operadores dos mass media e aos homens de cultura em todo o mundo, para que redescubram os valores da paz, da justiça, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum, para confirmar a importância desses valores como âncora de salvação para todos e procurar difundi-los por toda a parte. Partindo duma reflexão profunda sobre a nossa realidade contemporânea, apreciando os seus êxitos e vivendo as suas dores, os seus dramas e calamidades, esta Declaração acredita firmemente que, entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, contam-se uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o homem e colocam os valores mundanos e materiais no lugar dos princípios supremos e transcendentes. Nós, embora reconhecendo os passos positivos que a nossa civilização moderna tem feito nos campos da ciência, da tecnologia, da medicina, da indústria e do bemRevista Santa Cruz

-estar, particularmente nos países desenvolvidos, ressaltamos que, juntamente com tais progressos históricos, grandes e apreciados, verifica-se uma deterioração da ética, que condiciona a atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade. Tudo isto contribui para disseminar uma sensação geral de frustração, solidão e desespero, levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou então no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego, arrastando assim outras pessoas a render-se a formas de dependência e autodestruição individual e coletiva. A história afirma que o extremismo religioso e nacional e a intolerância geraram no mundo, quer no Ocidente, quer no Oriente, aquilo que se poderia chamar os sinais duma «terceira guerra mundial aos pedaços»; sinais que, em várias partes do mundo e em diferentes condições trágicas, começaram a mostrar o seu rosto cruel; situações de que não se sabe exatamente quantas vítimas, viúvas e órfãos produziram. Além disso, existem outras áreas que se preparam a tornar-se palco de novos conflitos, onde nascem focos de tensão e se acumulam armas e munições, numa situação

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mundial dominada pela incerteza, pela decepção e pelo medo do futuro e controlada por míopes interesses econômicos. Afirmamos igualmente que as graves crises políticas, a injustiça e a falta duma distribuição equitativa dos recursos naturais – dos quais beneficia apenas uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos povos da terra – geraram, e continuam a fazê-lo, enormes quantidades de doentes, necessitados e mortos, causando crises letais de que são vítimas vários países, não obstante as riquezas naturais e os recursos das gerações jovens que os caracterizam. A respeito de tais crises que fazem morrer à fome milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos humanos por causa da pobreza e da fome, reina um inaceitável silêncio internacional. A propósito, é evidente quão essencial seja a família, como núcleo fundamental da sociedade e da humanidade, para dar à luz filhos, criá-los, educá-los, proporcionar-lhes uma moral sólida e a proteção familiar. Atacar a instituição familiar, desprezando-a ou duvidando da importância de seu papel, constitui um dos males mais perigosos do nosso tempo. Atestamos também a importância do despertar do sentido religioso

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e da necessidade de o reanimar nos corações das novas gerações, através duma educação sadia e da adesão aos valores morais e aos justos ensinamentos religiosos, para enfrentarem as tendências individualistas, egoístas, conflituais, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifestações. O primeiro e mais importante objetivo das religiões é o de crer em Deus, honrá-Lo e chamar todos os homens a acreditarem que este universo depende de um Deus que o governa: é o Criador que nos moldou com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o guardarmos. Um dom que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou manipular a seu bel-prazer; pelo contrário, todos devem preservar este dom da vida desde o seu início até à sua morte natural. Por isso, condenamos todas as práticas que ameaçam a vida, como os genocídios, os atos terroristas, os deslocamentos forçados, o tráfico de órgãos humanos, o aborto e a eutanásia e as políticas que apoiam tudo isso. De igual modo declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao Revista Santa Cruz


derramamento de sangue. Essas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram – nalgumas fases da história – da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens para os levar à realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião, para alcançar fins políticos e econômicos mundanos e míopes. Por isso, pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religiões para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego e deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homicídio, de exílio, de terrorismo e de opressão. Pedimo-lo pela nossa fé comum em Deus, que não criou os homens para serem assassinados ou lutar uns com os outros, nem para serem torturados ou humilhados na sua vida e na sua existência. Com efeito, Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas. Este Documento, de acordo com os Documentos Internacionais anteriores que destacaram a importância do papel das religiões na construção da paz mundial, atesta quanto segue: Revista Santa Cruz

• A forte convicção de que os verdadeiros ensinamentos das religiões convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores do conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum; restabelecer a sabedoria, a justiça e a caridade e despertar o sentido da religiosidade entre os jovens, para defender as novas gerações a partir do domínio do pensamento materialista, do perigo das políticas da avidez do lucro desmesurado e da indiferença baseadas na lei da força e não na força da lei. • A liberdade é um direito de toda pessoa: cada um goza da liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o fato de forçar as pessoas a aderir a uma determinada religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam. • A justiça baseada na misericórdia é o caminho a percorrer para se alcançar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano.

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• O diálogo, a compreensão, a difusão da cultura da tolerância, da aceitação do outro e da convivência entre os seres humanos contribuiriam significativamente para a redução de muitos problemas econômicos, sociais, políticos e ambientais que afligem grande parte do gênero humano. • O diálogo entre crentes significa encontrar-se no espaço enorme dos valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na propagação das mais altas virtudes morais que as religiões solicitam; significa também evitar as discussões inúteis. • A proteção dos locais de culto – templos, igrejas e mesquitas – é um dever garantido pelas religiões, pelos valores humanos, pelas leis e pelas convenções internacionais. Qualquer tentativa de atacar locais de culto ou de os ameaçar através de atentados, explosões ou demolições é um desvio dos ensinamentos das religiões, bem como uma clara violação do direito internacional. • O terrorismo execrável que ameaça a segurança das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente, tanto no Norte como no Sul, espalhando pânico, terror e pessimismo não se deve à religião – embora os terroristas a instrumentalizem – mas tem origem no acúmulo

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de interpretações erradas dos textos religiosos, nas políticas de fome, de pobreza, de injustiça, de opressão, de arrogância; por isso, é necessário interromper o apoio aos movimentos terroristas através do fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justificações e também a cobertura mediática, e considerar tudo isto como crimes internacionais que ameaçam a segurança e a paz mundial. É preciso condenar tal terrorismo em todas as suas formas e manifestações. • O conceito de cidadania baseia-se na igualdade dos direitos e dos deveres, sob cuja sombra todos gozam da justiça. Por isso, é necessário empenhar-se por estabelecer nas nossas sociedades o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório do termo minorias, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da inferioridade; isto prepara o terreno para as hostilidades e a discórdia e subtrai as conquistas e os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos, discriminando-os. • O relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade mútua indiscutível, que não pode ser comutada nem transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização Revista Santa Cruz


do outro através da troca e do diálogo das culturas. O Ocidente poderia encontrar na civilização do Oriente remédios para algumas das suas doenças espirituais e religiosas causadas pelo domínio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. É importante prestar atenção às diferenças religiosas, culturais e históricas que são uma componente essencial na formação da personalidade, da cultura e da civilização oriental; e é importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando o uso da política de duas medidas. • É uma necessidade indispensável reconhecer o direito da mulher à instrução, ao trabalho, ao exercício dos seus direitos políticos. Além disso, deve-se trabalhar para libertá-la das pressões históricas e sociais contrárias aos princípios da própria fé e da própria dignidade. Também é necessário protegê-la da exploração sexual e de a tratar como mercadoria ou meio de prazer ou de ganho econômico. Por isso, devem-se interromper todas as práticas desumanas e os Revista Santa Cruz

costumes triviais que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar as leis que impedem as mulheres de gozarem plenamente dos seus direitos. • A tutela dos direitos fundamentais das crianças a crescer num ambiente familiar, à alimentação, à educação e à assistência é um dever da família e da sociedade. Tais direitos devem ser garantidos e tutelados para que não faltem e não sejam negados a nenhuma criança em nenhuma parte do mundo. É preciso condenar qualquer prática que viole a dignidade das crianças ou os seus direitos. Igualmente importante é velar contra os perigos a que estão expostas – especialmente no ambiente digital – e considerar como crime o tráfico da sua inocência e qualquer violação da sua infância. • A proteção dos direitos dos idosos, dos vulneráveis, dos portadores de deficiência e dos oprimidos é uma exigência religiosa e social que deve ser garantida e protegida através de legislações rigorosas e da aplicação das convenções internacionais a este respeito. Por fim, através da cooperação conjunta, a Igreja Católica e a AlAzhar anunciam e prometem levar este Documento às autoridades, aos líderes influentes, aos ho-

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mens de religião do mundo inteiro, às organizações regionais e internacionais competentes, às organizações da sociedade civil, às instituições religiosas e aos líderes do pensamento; e empenhar-se na divulgação dos princípios desta Declaração em todos os níveis regionais e internacionais, solicitando que se traduzam em políticas, decisões, textos legislativos, programas de estudo e materiais de comunicação.

Al-Azhar e a Igreja Católica pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educação e formação, a fim de contribuir para criar novas gerações que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o direito dos oprimidos e dos marginalizados. Ao concluir, almejamos que esta Declaração:

• seja um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os não crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade; • seja um apelo a toda a consciência viva, que repudia a violência aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religiões; • seja um testemunho da grandeza da fé em Deus, que une os corações divididos e eleva a alma humana; • seja um símbolo do abraço entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para nos conhecermos, cooperarmos entre nós e vivermos como irmãos que se amam. Isto é o que esperamos e tentaremos realizar a fim de alcançar uma paz universal de que gozem todos os homens nesta vida. Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019.

Sua Santidade

Grão Imame de Al-Azhar

Papa Francisco

Ahmad Al-Tayeb

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Mensagem

da

CNBB

ao povo brasileiro

“Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5) Suplicando a assistência do Espírito Santo, na comunhão e na unidade, nós, Bispos do Brasil, reunidos na 57a Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, no Santuário Nacional, em AparecidaSP, de 1o a 10 de maio de 2019, dirigimos nossa mensagem ao povo brasileiro, tomados pela ternura de pastores que amam e cuidam do rebanho. Desejamos que as alegrias pascais, vividas tão intensamente neste tempo, renovem, no coração e na mente de todos, a fé em Jesus Cristo Crucificado-Ressuscitado, razão de nossa esperança e certeza de nossa vitória sobre tudo que nos aflige. “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20) Enche-nos de esperançosa alegria constatar o esforço de nossas comunidades e inúmeras pessoas de boa vontade em testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo, Revista Santa Cruz

comprometidas com a vivência do amor, a prática da justiça e o serviço aos que mais necessitam. São incontáveis os sinais do Reino de Deus entre nós a partir da ação solidária e fraterna, muitas vezes anônima, dos que consomem sua vida na transformação da sociedade e na construção da civilização do amor. Por essa razão, a esperança e a alegria, frutos da ressurreição de Cristo, hão de ser a identidade de todos os cristãos. Afinal, quando deixamos que o Senhor nos tire de nossa comodidade e mude a nossa vida, podemos cumprir o que ordena São Paulo: ‘Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!’ (Fl 4,4) (Cf. Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, 122). “No mundo tereis aflições, mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33) Longe de nos alienar, a alegria e a esperança pascais abrem nossos olhos para enxergarmos, com o olhar do Ressuscitado, os sinais de morte que ameaçam os filhos e filhas de Deus, especialmente os mais vulneráveis. Essas situações são um apelo a que não nos conformemos com este mundo, mas o transformemos (Cf. Rm 12,2), empenhando nossas

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forças na superação do que se opõe ao Reino de justiça e de paz inaugurado por Jesus. A crise ética, política, econômica e cultural tem se aprofundado cada vez mais no Brasil. A opção por um liberalismo exacerbado e perverso, que desidrata o Estado quase ao ponto de eliminá-lo, ignorando as políticas sociais de vital importância para a maioria da população, favorece o aumento das desigualdades e a concentração de renda em níveis intoleráveis, tornando os ricos mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres, conforme já lembrava o Papa João Paulo II na Conferência de Puebla (1979). Nesse contexto e inspirados na Campanha da Fraternidade deste ano, urge reafirmar a necessidade de políticas públicas que assegurem a participação, a cidadania e o bem comum. Cuidado especial merece a educação, gravemente ameaçada com corte de verbas, retirada de disciplinas necessárias à formação humana e desconsideração da importância das pesquisas. A corrupção, classificada pelo Papa Francisco como um “câncer social” profundamente radicada em inúmeras estruturas do país, é uma das causas da pobreza e da exclusão social na medida em

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que desvia recursos que poderiam se destinar ao investimento na educação, na saúde e na assistência social, caminho de superação da atual crise. A eficácia do combate à corrupção passa também por uma mudança de mentalidade que leve a pessoa a compreender que seu valor não está no ter, mas no ser e que sua vida se mede não por sua capacidade de consumir, mas de partilhar. O crescente desemprego, outra chaga social, ao ultrapassar o patamar de 13 milhões de brasileiros, somados aos 28 milhões de subutilizados, segundo dados do IBGE, mostra que as medidas tomadas para combatê-lo, até agora, foram ineficazes. Além disto, é necessário preservar os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. O desenvolvimento que se busca tem, no trabalho digno, um caminho seguro desde que se respeite a primazia da pessoa sobre o mercado e do trabalho sobre o capital, como ensina a Doutrina Social da Igreja. Assim, “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas Revista Santa Cruz


nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 203). A violência também atinge níveis insuportáveis. Aos nossos ouvidos de pastores chega o choro das mães que enterram seus filhos jovens assassinados, das famílias que perdem seus entes queridos e de todas as vítimas de um sistema que instrumentaliza e desumaniza as pessoas, dominadas pela indiferença. O feminicídio, o submundo das prisões e a criminalização daqueles que defendem os direitos humanos reclamam vigorosas ações em favor da vida e da dignidade humana. O verdadeiro discípulo de Jesus terá sempre no amor, no diálogo e na reconciliação a via eficaz para responder à violência e à falta de segurança, inspirado no mandamento “Não matarás” e não em projetos que flexibilizem a posse e o porte de armas. Precisamos ser uma nação de irmãos e irmãs, eliminando qualquer tipo de discriminação, preconceito e ódio. Somos responsáveis uns pelos outros. Assim, quando os povos originários não são respeitados em seus direitos e costumes, neles o Cristo é desrespeitado: “Todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes mais pequeninos, foi a mim que o Revista Santa Cruz

deixastes de fazer” (Mt 25,45). É grave a ameaça aos direitos dos povos indígenas assegurados na Constituição de 1988. O poder político e econômico não pode se sobrepor a esses direitos sob o risco de violação da Constituição. A mercantilização das terras indígenas e quilombolas nasce do desejo desenfreado de quem ambiciona acumular riquezas. Nesse contexto, tanto as atividades mineradoras e madeireiras quanto o agronegócio precisam rever seus conceitos de progresso, crescimento e desenvolvimento. Uma economia que coloca o lucro acima da pessoa, que produz exclusão e desigualdade social, é uma economia que mata, como nos alerta o Papa Francisco (EG 53). São emblemático exemplo disso os crimes ocorridos em Mariana e Brumadinho com o rompimento das barragens de rejeitos de minérios. As necessárias reformas política, tributária e da previdência só se legitimam se feitas em vista do bem comum e com participação popular de forma a atender, em primeiro lugar, os pobres, “juízes da vida democrática de uma nação” (Exigências éticas da ordem democrática, CNBB – n. 72). Nenhuma reforma será eticamente aceitável se lesar os mais pobres. Daí a

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importância de se constituírem em autênticas sentinelas do povo as Igrejas, os movimentos sociais, as organizações populares e demais instituições e grupos comprometidos com a defesa dos direitos humanos e do Estado Democrático de Direito. Instâncias que possibilitam o exercício da democracia participativa, como os Conselhos paritários, devem ser incentivadas e valorizadas e não extintas como estabelece o decreto 9.759/2019. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33) O Brasil que queremos emergirá do comprometimento de todos os brasileiros com os valores que têm o Evangelho como fonte da vida, da justiça e do amor. Queremos uma sociedade cujo desenvolvimento promova a democracia, preze conjuntamente a liberdade e a igualdade, respeite as diferenças, incentive a participação dos jovens, valorize os idosos, ame e sirva os pobres e excluídos, acolha os migrantes, promova e defenda a vida em todas as suas formas e expressões, incluído o respeito à natureza, na perspectiva de uma ecologia humana e integral.

Assembleia da CNBB, e o Sínodo para a Pan-Amazônia, a se realizar em Roma, em outubro deste ano, ajudem no compromisso que todos temos com a construção de uma sociedade desenvolvida, justa e fraterna. Lembramos que “o desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de verdade – Caritas in veritate –, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas nos é dado” (Bento XVI, Caritas in veritate, 79). O caminho é longo e exigente, contudo, não nos esqueçamos de que “Deus nos dá a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é o nosso Tudo, a nossa esperança maior” (Bento XVI, Caritas in veritate, 78). A Virgem Maria, mãe do Ressuscitado, nos alcance a perseverança no caminho do amor, da justiça e da paz. Aparecida-SP, 7 de maio de 2019.

As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, que aprovamos nesta 57a

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Carta

da

Família

Franciscana em apoio à Educação Brasileira

Brasília, 15 de maio 2019. O Senhor lhes dê a paz!

A Conferência da Família Franciscana do Brasil, CFFB, acompanha com apreensão e indignação as mudanças na política educacional em curso no Brasil. Desde que chegamos à Terra da Santa Cruz, em 1500, temos procurado contribuir com a elevação cultural de nossa Pátria, por meio da educação. São inúmeras as atividades educacionais e promocionais assumidas por membros e instituições da Família Franciscana e outras. Portanto, nossa indignação com as mudanças que afetam as políticas educacionais nasce do compromisso com o incentivo de Revista Santa Cruz

uma educação que promova as pessoas, a consciência cidadã e a participação na construção de uma Pátria onde todos sejam verdadeiramente amados! Repudiamos o que se tem feito para o desmantelamento das Universidades Públicas, pesquisas científicas, políticas públicas, desmoralização dos profissionais da educação e o caos que vai se espalhando pelas escolas públicas e privadas país afora. Repudiamos ainda tudo que tem sido feito para dificultar o acesso dos empobrecidos, negros, quilombolas, indígenas, mulheres, população LGBT nas diversas áreas do sistema educacional, como se estes não tivessem o direito a uma educação de qualidade, proporcionada pelo Estado brasileiro, como forma de superação dos diversos abismos sociais. Repudiamos o incentivo ao armamento da população, inclusive nos ambientes educacionais, promovidos pelas Medidas Provisórias assinadas pelo Senhor Presidente da República. Repudiamos a retórica e gestualidade armamentista de quem deveria ser os primeiros educadores da Nação. A paz não se constrói com armas. A melhor e a mais eficaz arma para um país

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é seu povo educado e livre para pensar e exprimir suas opiniões. A melhor arma para o Estado é uma educação de qualidade, que promova a superação das desigualdades sociais e irmana povos e culturas. A todos aqueles que hoje saem de seus lares e de suas escolas e levantam a voz pelo bem comum do Brasil, a nossa solidariedade e comunhão franciscana. Vale lembrar, mais do que nunca, a

atualidade e a necessidade de se concretizar o dito popular: “povo unido não será vencido!”. Rogamos a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, que interceda por nossa Mãe-Pátria para que seu revolucionário cântico do Magnificat torne-se uma realidade entre nós. E que São Francisco de Assis, o irmão de todos, nos proteja nesta grande travessia! Frei Éderson Queiroz – OFMCap Presidente da Conferência da Família Franciscana do Brasil – CFFB

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Nota oficial da OFS do Brasil sobre o desarmamento

Como portadores de PAZ e lembrando-se de que ela deve ser construída incessantemente, procurem os caminhos da unidade e dos entendimentos fraternos mediante o diálogo, confiantes na presença do germe divino que existe no homem e na força transformadora do amor e do perdão. (Regra 19) Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2019 Vivemos tempos confusos, nos quais o nosso posicionamento de fé precisa ser bem claro e profético; e nada melhor que ir às fontes de nosso carisma para saborear a vivência dos que nos antecederam e, assim, encontrar fertilidade nos momentos de deserto. Revisitamos, portanto, a nossa primeira Regra da Ordem Franciscana Secular, Memoriale Propositi, de 1221, na qual somos conclamados a não receber e nem levarmos conosco armas mortais contra quem quer que seja. Contemplamos, assim, um dos nossos maiores tesouros pelos séculos de franciscanismo: Revista Santa Cruz

uma postura de Paz e contra o armamento, claramente inspirada em Francisco de Assis. Em memória bem mais recente, ouvimos ecoar as palavras do nosso então ministro nacional, José Carlos Andrade, que nos exortava a respeito da cultura da Paz por ocasião do referendo sobre desarmamento da população por meio da circular 11, do dia 27 de agosto de 2005. Assim nos disse: “Devemos criar cada vez mais uma cultura de paz. Todos os franciscanos têm um desígnio de paz para o mundo. A paz faz parte da identidade dos franciscanos, que usam a Paz e o Bem como forma de saudação. Devemos em todo o tempo defen-der firmemente a paz. A Ordem Franciscana Secular deve defender, propagar e buscar sempre o caminho da paz, da unidade e dos entendimentos fraternos mediante o diálogo”. Como base para sua circular, usou a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2005, com o tema “Solidariedade e Paz”, que incentivou as Igrejas no Brasil a se unirem na oração e na promoção da cultura de paz, e a nota emitida pela 43a Assembleia Geral da CNBB, realizada em Itaici–SP, de 9 a 17 de agosto de 2005, a respeito do Referendo sobre a proibição do comércio de armas

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de fogo e munição, que aconteceu no dia 23 de outubro daquele ano, quando na ocasião o povo foi convocado a se pronunciar sobre o aludido desarmamento. Os Bispos reunidos nessa Assembleia se posicionaram a favor da proibição do comércio de armas de fogo e munição em todo o território nacional. E conclamaram os cristãos e todas as pessoas de boa vontade a votar “SIM” neste Referendo. Da mesma forma, ao final da circular, nosso irmão José Carlos exortou a todos os irmãos e irmãs da Ordem Franciscana Secular do Brasil, em união com toda a Igreja, a se posicionar em favor da proibição do comércio de armas de fogo e munição. E, da mesma forma, nos conclamou a votar “SIM” pelo desarmamento.

Novamente estamos sendo desafiados a dar uma resposta firme em favor da Paz. Nosso lema e saudação nos impulsionam a dizer “SIM” à vida e “NÃO” às armas e, por força de nosso carisma, não cabe qualquer outra interpretação diferente desta. Nos preparativos para a celebração dos 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o Sultão al-Malik al-Kamil recordemos a força do encontro e do diálogo do Pobrezinho de Assis que marcou para sempre a história da humanidade com seu coração livre e suas mãos desarmadas. Fraternalmente e, a exemplo do Seráfico Pai, “comecemos, irmãos, a servir ao Senhor nosso Deus, porque até agora pouco resultado obtivemos” (LM XIV 1,3). Maria José Coelho - Ministra Nacional Hélio Gouvêa - Coordenador de JPIC

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Vida da

Ordem

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CARTA DO MINISTRO GERAL PARA A PÁSCOA

Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor (Jo 20,19-31) Meus caríssimos irmãos, O Senhor lhes dê a paz! Neste ano, eu gostaria de partilhar com vocês uma mensagem que possa colocar-se no contexto celebrativo dos 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o Sultão do Egito, al-Malik al-Kamil. Uma comemoração como esta ofereceu à Igreja e à Ordem a oportunidade extraordinária de abrir espaços de reflexão e estudo no âmbito do diálogo aberto e respeitoso com o Islã e, naturalmente, com as outras confissões religiosas. Portanto, aproveitando o ensejo do que escrevi no dia 7 de janeiro passado em uma carta a toda a Ordem a propósito deste importante aniversário, eu gostaria de convidar vocês a viverem o mistério da paixão, morte e ressurreição do Senhor à luz deste particular acontecimento que nos estimula a abandonar o medo e a abrir literalmente as portas da nossa mente, permitindo que Deus aja de modo novo no coração Revista Santa Cruz

dos homens e mulheres de boa vontade que, indistintamente, lutam por promover, em benefício de todos os homens, a justiça social, os valores morais, a paz e a liberdade (Cf. Nostra Aetate n. 3). Permitam-me, então, voltar o olhar para uma passagem do Evangelho que teremos ocasião de escutar no segundo domingo da Páscoa. Trata-se de uma das aparições de Jesus ressuscitado a todos os discípulos reunidos no cenáculo “na tarde daquele mesmo dia, o primeiro depois do sábado”, segundo a versão de João (Jo 20, 19-31). Na realidade, esse texto narra duas aparições separadas por um arco de tempo de oito dias. Creio que esses dois episódios nos ajudarão a estabelecer um contexto espaço temporal que permitirá compreender melhor a maturação da fé não só de Tomé, mas de todos os discípulos que tiveram o privilégio de contemplar com seus olhos a presença do Senhor ressuscitado. Primeira aparição: As portas do lugar onde se encontravam os discípulos estavam fechadas por medo dos judeus A expressão com que se inicia o texto, “na tarde daquele mesmo dia”, não é colocada por acaso.

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Pertence ao estilo narrativo do evangelista, que gosta de mostrar cenas naturais de contraste. Podemos imaginar um lugar pouco iluminado, onde se torna difícil até reconhecer os rostos dos outros, mesmo os mais próximos. É uma expressão que poderia representar a incerteza, a desilusão e o medo dos discípulos reunidos. Um medo do futuro, da novidade, do risco, da mudança, da eventualidade de perder alguma coisa. Por isso, torna-se necessário manter “as portas bem fechadas”. O estado de ânimo dos discípulos é, tudo somado, algo de absolutamente normal, considerado o que Jesus passou na cruz. Talvez tenham necessidade de tempo para assimilar o que viveram ou de alguma coisa que possa reativar neles o desejo de reviver, de sair, de buscar a luz, de transformar esse primeiro dia da semana em uma esperança ainda invisível. O sinal das portas fechadas representa a situação muito humana de quem busca tutelar a si mesmo e as poucas seguranças que possui. Veio Jesus e pôs-se no meio deles Sem entrar no debate teológico-exegético a respeito do novo aspecto de Jesus, capaz de atravessar as paredes com um corpo de características diferentes,

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procuremos deter-nos no poder que Jesus tem de “entrar” naquele lugar de portas fechadas. Nesse episódio, como em tantos outros, estamos diante da estratégia narrativa da mudança de situação caracterizada por uma transformação das circunstâncias, suscitada por uma iniciativa divina. No trecho depois que Jesus pronuncia as palavras paz a vós e mostra as suas mãos e o lado, o evangelista evidencia que, ao verem o Senhor, tristeza e medo se transformam em alegria (v. 20). É um texto esplêndido que propõe um itinerário a quem se lança na aventura da fé. Jesus teria podido escolher outro momento e outras circunstâncias para aparecer aos seus. No entanto, escolhe um momento marcado pelo medo dos apóstolos e pela ausência de um deles, Tomé, que será um protagonista-chave do texto. E exatamente nele eu gostaria de deter-me um momentinho, enquanto analisamos a segunda aparição. Segunda aparição: Passaram-se oito dias. Alguém poderia perguntar-se: Por que deixou passar tantos dias? Por que não tirá-lo da dúvida logo para dissipar a incerteza de Tomé que tinha ouvido dizer “vimos o Senhor”? O nome Tomé significa Revista Santa Cruz


gêmeo. Dídimo é um termo grego que o evangelista usa para traduzir o aramaico Ta’oma’. Para além desse jogo de traduções, como acontece com frequência no quarto evangelho, escondese uma intenção teológica. O gêmeo é uma cópia, é alguém que se assemelha a outro. No texto, Tomé desempenha um papel caracterizado por dois significados: é dominado pela dúvida que em seguida resolve quando encontra o Senhor e é, ao mesmo tempo, nosso gêmeo, porque nos representa na história. É aquele que, em nosso nome, pode encontrar-se face a face com o Senhor ressuscitado, passando da incredulidade à mais alta profissão de fé que o evangelho de João recorda: Meu Senhor e meu Deus. Tomé viu e tocou as feridas de Jesus. O texto fala claramente dos sinais dos cravos: o ressuscitado tem um corpo que está marcado por uma história de dor e de morte. Por isso, Tomé é nosso gêmeo: toca com as suas mãos as feridas do corpo, reconhecendo não só encontrar-se diante de um homem vivo, mas de Deus em pessoa. É uma história de dor e de morte que se repete todas as vezes que não somos capazes de reconhecer as diferenças e a riqueza da diversidade. É uma história Revista Santa Cruz

marcada por uma mentalidade dominante que explorou o nome de Deus para afirmar-se e crer-se depositária da verdade absoluta sobre o divino, chegando a agredir e matar somente para defender uma posição doutrinária. Este é o cenário dramático que durante a Idade Média se realizou no encontro com a religião islâmica e que hoje ainda se repete em alguns países onde as minorias não são toleradas. Escutemos o Santo Pai Francisco Provavelmente alguns pensarão que uma reflexão desse gênero, ou as aproximações significativas que a Igreja fez, de modo particular o Papa Francisco, não têm muito a ver com a realidade crua que ainda hoje se apresenta nos países onde convivem cristãos e muçulmanos. Alguns pensam que falar de diálogo ou mostrar abertura a um possível encontro seja sinal de fraqueza e de perda da identidade. O Papa Francisco foi duramente criticado por certos setores da Igreja pelas atitudes de abertura mostradas para com outras confissões, lidas como gestos que diminuem a imagem e a reputação da Igreja e dos cristãos. Embora respeitando essas opiniões, eu gostaria simplesmente de afirmar que um simples gesto de comunhão e abertura se torna

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mais poderoso, eloquente, eficaz e profético do que o desejo de uma autoafirmação muitas vezes baseada na autorreferencialidade. Recentemente, a propósito de sua viagem a Marrocos, o Santo Padre declarou que não há motivo de estar assustado pelas diferenças entre as várias confissões religiosas (Audiência geral, 3 de abril, Praça São Pedro). Como vocês sabem, o Santo Padre quis unir-se ativamente à celebração do 8o centenário do encontro entre Francisco e o Sultão al-Malik al-Kamil. Essa viagem, como a já feita aos Emirados Árabes, o testemunha claramente. O poderoso apelo ao diálogo e à edificação de uma sociedade aberta, plural e solidária, assim como a resposta que devemos dar diante da grave crise migratória, foram os temas centrais da sua mensagem. O Papa exortou fortemente a percorrermos juntos uma estrada que nos ajude a superar as tensões e incompreensões, abrindo-nos a um espírito de colaboração frutuosa e respeitosa (Cf. Discurso do Santo Padre: encontro com o povo marroquino, com as autoridades, com a sociedade civil, com o corpo diplomático, 30 de março de 2019). Eu gostaria, por isso, meus amados irmãos, de convidá-los a viver esta

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Páscoa à luz de tão grande evento. É verdade que uma escolha como a que o Papa propõe inclui certo risco e pode gerar em nós medo e incerteza, sentimentos muito semelhantes aos experimentados pelos apóstolos no cenáculo a portas fechadas. No entanto, é o próprio Pontífice que nos encoraja na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e suja por ter saído pelas estradas a uma Igreja doente pelo fechamento e pela comodidade de apegar-se às próprias seguranças (EG 49)”. Ouso fazer meu este convite e dirigi-lo a todos os frades da Ordem, às minhas amadas irmãs clarissas e concepcionistas e a todos os homens e mulheres de boa vontade que estão próximos da espiritualidade do Santo de Assis: saiamos, andemos ao encontro do diferente, abramos as portas para que entre ar novo, o sopro do Espírito (Cf. Jo 20, 22) que nos pede para abrir os olhos a uma realidade nova e fascinante. Não nos limitemos a crer que isso seja um sinal de fraqueza ou de renúncia às nossas convicções; pensemos antes que um mundo tão plural como este em que vivemos tem urgente necessidade de gestos eloquentes e proféticos que eduquem para uma santa e civilizada convivência. Revista Santa Cruz


O poverello de Assis foi um sinal para a sua época e continua sendo depois de oito séculos. Não podemos contentar-nos com comemorar um evento como este, se o nosso coração não se abre à experiência do outro. Viver a Páscoa neste ano significa seguir o itinerário proposto pelo evangelho de João que, sem ignorar o medo e a tentação de fechar as portas, nos mostra que o evento da ressurreição de Cristo é capaz de transformar a nossa tristeza em

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alegria (Cf. Jo 16, 16) e o nosso medo na coragem de testemunhar com a palavra e a vida que Jesus Cristo ressuscitou e que ele é o Senhor e nosso Deus (Cf. Jo 20, 28). Boa e santa Páscoa a todos! Roma, 14 de abril de 2019. Domingo de Ramos

Fr. Michael Anthony Perry, OFM Ministro Geral e Servo

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CARTA DO MINISTRO GERAL POR OCASIÃO DO 800o ANIVERSÁRIO DO ENCONTRO DE SÃO FRANCISCO E O SULTÃO AL-MALIK AL-KAMIL

Quae placuerint Domino (RnB 16,8)

Meus queridos irmãos da Ordem dos Frades Menores, todos os irmãos, irmãs e amigos da nossa Família Franciscana e todos meus irmãos e irmãs muçulmanas, O Senhor lhes dê a sua paz!

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Oitocentos anos atrás, nosso seráfico Pai São Francisco navegou rumo ao Egito, realizando o antigo sonho de ir ao encontro dos muçulmanos. Ele chegou ao campo das cruzadas, entre os Cristãos Latinos, que por anos pregaram e usaram a retórica da guerra santa para ensinar o desprezo pelos muçulmanos. Os mesmos muçulmanos tinham toda razão para desprezar Francisco, considerando que ele, como todos aqueles no campo das cruzadas, era um inimigo e não um portador de paz. Nós hoje celebramos o que ninguém naquele momento poderia prever: que um homem repleto do Espírito, sem nada consigo mesmo, atravessou as linhas de batalha desarmado para pedir um encontro com o Sultão, que foi recebido com benevolência pelo Sultão, alegrou-se por permanecer um considerável período de hospitalidade com o líder muçulmano e dessa visita surgiu nova ocasião para refletir sobre a missão dos Frades Menores. Francisco retornou são e salvo para a sua terra profundamente comovido pelo encontro e desenvolveu uma nova e criativa visão sobre como os seus irmãos poderiam ir entre os muçulmanos, sobre as coisas que os Frades poderiam fazer e dizer “que agradassem a Deus” (quae placuerint Domino, Revista Santa Cruz


RnB 16,8). O aniversário do encontro de Francisco com Al-Malik Al-Kamil em Damietta, em 1219, nos convida a perguntarmo-nos de novo quais ações e palavras que agradariam a Deus no meio do pluralismo e da complexidade do mundo de hoje. Discernindo os sinais dos tempos (Mt 16,3), a Igreja incrementou e evidenciou o diálogo inter-religioso como um elemento essencial da sua missão hoje. O Concílio Vaticano II exortou os fiéis cristãos para engajarem-se no “diálogo e na colaboração com os sequazes de outras religiões, com prudência e caridade, dando testemunho da vida e fé cristãs” (Nostra Aetate, 2). Em particular, o Concílio ensinou que a Igreja em relação aos muçulmanos tem muita “estima” e incita os cristãos a trabalhar com os seus irmãos e irmãs muçulmanas para promover a justiça social e o bem-estar moral, a paz e a liberdade, para o benefício de todos (Nostra Aetate, 3). São João Paulo II projetou a sua missão de diálogo no futuro de seu ministério como Bispo de Roma, mui especialmente quando ele chamou os líderes religiosos do mundo para a nossa casa espiritual, Assis, para testemunhar lá a transcendente qualidade da paz. Para aqueles que foram para rezar Revista Santa Cruz

pela paz, a “permanente lição de Assis” consiste na “mansidão, humildade, profundo sentido de Deus e compromisso de servir a todos” (João Paulo II, Discurso de Assis, 27 de outubro de 1986). Os Papas Bento XVI e Francisco, do mesmo modo, convidaram os líderes religiosos para fazer uma peregrinação em Assis e rezar pela paz, e o Papa Francisco invocou a intercessão do “Poverello” durante a sua viagem ao Egito, rezando para que cristãos e muçulmanos verdadeiramente chamem-se uns aos outros de irmãos e irmãs, vivam em uma renovada fraternidade sob o sol do único misericordioso Deus (Francisco, Discurso para a Conferência Internacional pela Paz, 28 de abril de 2017). Isto é então a Igreja universal chamando a Família Franciscana para animar essas fraternidades inter-religiosas no espírito pacífico de nosso Seráfico Pai. A Igreja nos chama a ressuscitar este momento fundamental de nossa história, a viagem de São Francisco ao Egito, para abrir em nós mesmos de novo a transformação que o Santo de Assis experimentou, e para caminhar juntos com muçulmanos e pessoas de outras crenças como colegas de viagem, como construtores de civilização e, mais ainda, como irmãs e irmãos, filhos de Abraão, nosso pai na fé.

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Eu encorajo a Família Franciscana para celebrar este aniversário como um momento em que a luz do Evangelho pode abrir nosso coração para ver a “imago Dei” na pessoa que é vista com medo e desconfiança, ou pior ainda, na pessoa que se incentiva para odiar. Para este fim, um grande número de recursos foi preparado para ajudar a todos inspirados por esse encontro a comemorá-lo em um caminho apropriado. Acompanhando esta carta, estão as intercessões que encorajo os Frades a usarem durante a Liturgia das Horas durante este ano de comemoração, as intercessões que podem ser usadas em uma variedade de ocasiões ministeriais quando apropriadas. Em abril, a Cúria Geral disponibilizará on-line um livro de recursos, preparado pela Comissão Especial para o Diálogo com o Islão, que trará uma base histórica, perspectivas franciscana e islâmica do encontro e outros materiais para comemorar Damietta. Em outubro, nossa fraternidade de Istambul, uma comunidade de Frades especialmente dedicados ao diálogo ecumênico e inter-religioso, será anfitriã de uma assembleia dos Frades que trabalham em países onde existe a maioria muçulmana. A Pontifícia Universidade Antonianum, igual-

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mente, organizou uma série de eventos públicos em diversos países durante o curso deste ano comemorativo. Seja acadêmico ou pastoral, eu os encorajo a participar ativamente nesses ou em outros eventos e ainda a verificar criativamente como a sua comunidade local poderia comemorar Damietta à luz da realidade local. Este aniversário oferece uma oportunidade única para a colaboração entre os diversos ramos da Família Franciscana. Muitos Frades, Irmãs e participantes de movimentos franciscanos e promotores do diálogo muçulmano-cristão prepararam publicações para divulgar durante este aniversário; eu convido vocês todos para reservar um tempo deste ano para uma reflexão estudada e rezada sobre como, em sua situação local, pode viver de novo em você a coragem e a abertura ao Espírito vista no Delta do Nilo há muito tempo. A Cúria Geral é entusiasta em partilhar as notícias de cada esforço para construir pontes de compreensão inter-religiosa. Por isso, peço que nos informem sobre os eventos e iniciativas para comemorar Damieta em sua comunidade e nas várias Entidades dos Frades Menores. Revista Santa Cruz


Nós vivemos em um tempo em que pessoas de várias crenças divulgam uma demonização dos muçulmanos e incitam outros a terem medo deles. Além do estudo e da oração sobre os temas do encontro e diálogo, eu encorajo os seguidores de Francisco que carecem de um contato pessoal com o Islão a retomarem a experiência de nosso fundador, dando um simples e concreto passo: encontrar um muçulmano. Vá conhecê-lo ou conhecê-la, além de ter um prazeroso e refinado encontro social para um café ou chá. Tentar aprender ou apreciar o que a experiência de Deus anima nele ou nela e permitir que o seu amigo muçulmano veja que o amor de Deus jorrou em seu coração através de Cristo. Apesar do Concílio Vaticano II insistir que os muçulmanos, como nós, “adoram o único e misericordioso Deus” (Lumem Gentium 16), muitas vozes de qualquer modo, infelizmente, insistem que o diálogo entre cristãos e muçulmanos é impossível. Muitos contemporâneos de São Francisco e do Sultão concordavam, vendo conflitos e confrontos como única resposta para mudar a situação. Os exemplos de Francisco e do Sultão testemunham uma opção diferente. Alguém não pode insistir por muito tempo que o diálogo com Revista Santa Cruz

os muçulmanos é impossível. Nós vimos isto e continuamos vendo na vida de muitos Franciscanos e de seus irmãos e irmãs muçulmanas que, com coração sincero e amável, partilham os dons que Deus lhes deu através de suas respectivas crenças. Fidelidade na visão de Francisco envolve partilha com humildade. De fato, o dom característico cristão que nós temos que partilhar com nossos irmãos e irmãs muçulmanas não é meramente um cristão humilde, mas a experiência de um Deus humilde. Único em sua época, Francisco louvou a Deus, dizendo: “Tu és humildade” (LD 4) e falou sobre a “sublime humildade”, a “humilde sublimidade” de Deus (CtO 27). A busca do coração cristão por Deus encontra repouso na humildade da manjedoura e da cruz, sinais de um Deus que se curvou para servir e humilhou-se por amor à humanidade. Francisco nos convida a refletir sobre esta humildade de Deus, no qual encontramos um primeiro passo no serviço e no amor. Além disso, a fidelidade na visão de Francisco nos chama a receber os irmãos e irmãs de outras crenças tradicionais com o sentido de reverência (CCGG 93,2; 95,2), com coração e mente abertos à presença de Deus naquele que encontramos.

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Eu reconheço que existem muitos na Família Franciscana que vivem como minoria em sua terra natal ou de adoção, que se encontram atingidos por conflitos políticos e sectários, e podem sentir-se ameaçados pela violência, como acontece hoje com muitos na terra que Francisco visitou um dia. Em alguns países, cristãos e muçulmanos partilham os sofrimentos da injustiça social e da instabilidade política. Eu convido vocês a refletirem sobre outro nome que Francisco usou em seus Louvores a Deus Altíssimo: “Tu és paciência” (LD 4), ou como os muçulmanos invocam a Deus: Yā Sabūr  (Alguém paciente!). Francisco mesmo aprendeu a virtude da paciência através de seu ministério junto aos leprosos, através das mudanças de suas viagens e através do rumo que tomou a sua Ordem no final de sua vida, quando os próprios irmãos abandonaram alguns dos ideais que ele nutria com carinho. Francisco meditou longamente sobre o amor paciente de Cristo mostrado em sua paixão, identificando eventualmente a paciência como um atributo de Deus misericordioso. “Tu és paciência”. Deus segue um programa desconhecido para nós e Ele comove os corações de homens e mulheres em caminhos

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desconhecidos para nós. Francisco esforçou-se para compreender o plano de Deus para aqueles que abandonaram o seguimento de Cristo como Senhor, e Francisco encontrou refúgio na oração de louvor que Deus é paciente. Que Deus nos dê a graça da paciência para que cada um de nós possa aprender a viver juntos. Aos nossos irmãos e irmãs muçulmanas quero dizer como nos recordamos calorosamente da hospitalidade oferecida ao nosso Santo Pai Francisco quando a sua vida corria risco. O interesse que muitos muçulmanos demonstraram em comemorar este aniversário testemunha o desejo de paz expresso muitas vezes por eles ao acolher alguém de outra crença. Eu rezo para que neste ano possamos aprofundar os laços de fraternidade partilhados sob os olhos de Deus criador de todas as coisas nos céus e na terra e que este laço continue se fortalecendo depois de 2019. Deus poderia ternos feito todos iguais, mas não o fez (Al-Shūrā 42.8). Com vocês, seus irmãos e irmãs franciscanas são entusiastas em mostrar para o mundo que os cristãos e os muçulmanos podem e vivem lado a lado em paz e harmonia. Concluindo, nunca nos esqueçamos de que o exemplo de São Revista Santa Cruz


Francisco foi a vida de conversão permanente. Como um jovem, ele repugnava os leprosos, mas uma ação de misericórdia mudou o seu coração e “o que me parecia amargo tornou-se doçura” (Test. 3). Esse momento, o início da vida de penitência de Francisco, é intimamente ligado à experiência de Francisco em Damieta, em 1219. O coração de Francisco abriu-se aos leprosos antes e, quando ele encontrou-se na presença de um muçulmano que aprendera a odiar, abriu-se mais uma vez. O chamado bíblico à conversão (heb. shuy; aram. tuy) ecoa no Corão como

repetido comando para retornar a Deus (tūb), para evitar o mal com a bondade e atos de caridade para com os mais vulneráveis da sociedade. Os crentes de hoje – independentemente do nome que eles usam para Deus e do modo com o qual o adoram – são chamados a ter a mesma coragem e abertura de coração. Em meio a um crescimento da compreensão inter-religiosa no mundo, que o nosso Deus humilde, paciente e misericordioso nos mostre a todos atos e palavras que mais lhe agradam. Roma, 7 de janeiro de 2019.     

Toda paz e todo bem,     Frei Michael Anthony Perry, ofm Ministro Geral e Servo

Prot. 108704 Revista Santa Cruz

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FRANCISCANO RECEBE PRÊMIO DE DIREITOS HUMANOS NA LITUÂNIA Com informação da Fraternitas no 266 e Delfi. Na capital da Lituânia, na cidade de Vilnius, o trabalho de um franciscano foi reconhecido nacionalmente. No dia 28 de março de 2019, Frei Evaldas Darulis, da Ordem dos Frades Menores, recebeu o Prêmio Nacional para a Igualdade e Diversidade, organizado pelo Fórum de Igualdade e Diversidade do país. O prêmio é reconhecido como o “Oscar” dos Direitos Humanos. Frei Evaldas Darulis, da Província de São Casimiro, é responsável pela criação do primeiro grupo de apoio a pessoas LGBT e familiares da Lituânia. Em entrevista ao site Delfi, o frade afirma que a ideia inicial era reunir os pais de pessoas LGBT para partilha de vida, troca de experiências e momentos de oração comum. Como não houve muita adesão, ele conta que então os paroquianos decidiram tornar o grupo aberto a todos que desejassem participar. A Lituânia, país da Europa Oriental, que possui mais de 2 milhões e 800 mil habitantes, apresenta uma

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das taxas mais altas de suicídio no mundo: são 30 vítimas a cada 100 mil habitantes. Na entrevista, Frei Evaldas aponta que um dos fatores que levam os jovens a cometer suicídio é o fato de se sentirem diferentes dos outros. “O que nos impede de entendê-los como seres humanos? Eles são obra de Deus, filhos amados de Deus. Em nossa espiritualidade franciscana, buscamos a paz. A guerra não é necessariamente armada, ela pode ser moral”, afirmou Frei Darulis. Para o religioso, o único impedimento para uma pessoa não ser aceita na Igreja é a não aceitação de Jesus Cristo. “O sacerdote, como espelho de Deus misericordioso, e a Igreja devem estar abertos a todo homem, seja quem for”, apontou o frade ao site Delfi. Revista Santa Cruz


Vida da

ProvĂ­ncia

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VISITA DO MINISTRO GERAL À PROVÍNCIA SANTA CRUZ Equipe Provincial de Comunicação Após visita realizada na Província São Francisco de Assis (Rio Grande do Sul), Frei Michael Perry, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, seguiu para Belo Horizonte, onde iniciou a visita fraterna à Província Santa Cruz. Na manhã de domingo, dia de Pentecostes, Frei Michael Perry, OFM, presidiu a eucaristia com os frades do Guardianato São Francisco das Chagas, na capela

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conventual da comunidade em Belo Horizonte, concelebrada por Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – e Frei Hilton Farias de Souza, Ministro Provincial da Província Santa Cruz. Em sua reflexão, Frei Michael Perry, OFM, lembrou de vários trechos em que São Francisco de Assis fala sobre o Espírito Santo, especialmente na “Carta a todos os fiéis”. De noite, houve uma confraternização com os frades de Belo Horizonte, Betim, Contagem e Ribeirão das Neves no Convento São Francisco das Chagas, ocasião em que Frei Michael Perry, OFM,

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pôde conhecer e conversar com os confrades presentes. Na segunda-feira, 10 de junho de 2019, o Ministro Geral, Frei Michael Perry, OFM, e o Definidor Geral, Frei Valmir Ramos, reuniram-se, na parte da manhã, com o definitório provincial para uma reunião e apresentação da história da Província Santa Cruz. Na ocasião, Frei Michael conheceu as instalações do centro administrativo e cúria provincial. Na parte da tarde, o Ministro Geral e o Definidor Geral para a América Latina se reuniram para uma roda de conversa com os frades Under Ten no Salão da Paróquia São Francisco das Chagas, no bairro Carlos Prates, em Belo Horizonte. Durante o encontro, Frei Michel Perry, OFM, conversou com nossos jovens confrades e utilizou uma passagem do Evangelho de Marcos (Mc 1, 9-15) para conduzir a conversa. Na terça-feira, 11 de junho, terceiro dia da visita do Ministro Geral à Província Santa Cruz, Frei Michael Perry, OFM, Frei Valmir Ramos, e Frei Hilton Farias de Souza, seguiram para a cidade de Montes Claros e foram recebidos pela comunidade do Noviciado São Benedito.

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Na parte da manhã, Frei Michael presidiu a eucaristia com a comunidade local e conheceu as instalações do noviciado. Na parte da tarde, Frei Michael, juntamente com Frei Valmir e Frei Hilton, encontraram-se com os frades das cidades de Montes Claros, Salinas e Jequitinhonha. No final da tarde, Frei Michael, Frei Valmir e Frei Hilton retornaram para Belo Horizonte. Na quarta-feira, 12 de junho de 2019, Frei Michael e Frei Valmir seguiram para uma visita ao Santuário da Serra da Piedade acompanhados pelo Ministro Provincial, Frei Hilton Farias de Souza, e pelos guardiães. No Santuário, Frei Michael e Frei Valmir se reuniram com os guardiães para um encontro na Casa dos Peregrinos Dom Silvério. Depois do encontro, Frei Michael presidiu a eucaristia na Ermida da Padroeira de Minas, Nossa Senhora da Piedade, na qual se encontra uma imagem de Nossa Senhora da Piedade atribuída a Aleijadinho. Em 2017, a Ermida recebeu do Papa Francisco o título de Basílica da Piedade, a menor basílica do mundo. Após a celebração, os frades almoçaram. Na ocasião, Frei Michael foi presenteado com o conhecido Queijo Frei Rosário, curado em Revista Santa Cruz


um cômodo rústico construído embaixo de uma grande pedra no Santuário da Piedade. De noite, no Salão da Paróquia São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, Frei Michael participou de um encontro alusivo ao Encontro de São Francisco com o Sultão. Na ocasião, estiveram presentes membros de várias comunidades e grupos religiosos, em especial membros da Comunidade Islâmica. Na alocução espontânea, Sheik Moqtar ressaltou a importância do encontro entre os representantes dos diversos grupos religiosos, mas salientou que o diálogo e o encontro precisam acontecer nas bases, nas comunidades locais visto que são os lugares onde a vivência da fé acontece propriamente. Já Frei Michael Perry transmitiu a seguinte mensagem: Em nome de Deus que criou todos os seres humanos iguais em direitos, deveres e dignidade, e os chamou a viver como irmãos entre eles, para povoar a terra e difundir os valores do bem, caridade e paz. [Papa Francisco, Grão Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayeb, Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a ConviRevista Santa Cruz

vência Comum, Abu Dhabi, 4 de fevereiro de 2019] Irmãos e irmãs em Deus Criador, cheio de misericórdia, O Senhor lhes dê a sua paz! As palavras extraídas do histórico “Documento sobre fraternidade” acima citado manifestam, pela primeira vez, duas figuras importantes, pertencentes a duas grandes tradições religiosas, o cristianismo e o islamismo, reunidas em Abu Dhabi, em 4 de fevereiro de 2019, as quais alcançaram um consenso comum sobre o reconhecimento de que o Deus criador, que é todo misericordioso e aberto ao perdão, está chamando todos os crentes a seguir os caminhos da paz, da fraternidade. Esta mensagem reconhece a dignidade espiritual e humana fundamental presente em todos os povos, independentemente de suas crenças religiosas. Antes de falarmos muito sobre esse encontro histórico e o “Documento”, vamos voltar à fonte de inspiração para esse evento histórico em Abu Dhabi. Refiro-me ao encontro de São Francisco de Assis, um pregador

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itinerante mendicante, e ao chefe espiritual e militar das forças muçulmanas que controlavam o lugar onde as águas dos dois Nilos se encontram com as do Mediterrâneo: a cidade de Damietta, no Egito. Diálogo com o sultão Francisco de Assis, no verão de 1219, foi para o Egito, para o acampamento que sitiava Damietta e, apesar da oposição do cardeal encarregado, conseguiu obter permissão para ir aonde o sultão Al-Malik Al-Kamil estava, com quem pôde ter um ou mais colóquios. O sultão tratou-o com cortesia e pôde retornar ao acampamento dos cruzados, de onde retornou à Itália no verão de 1220. Aqui podemos fazer algumas considerações. Em primeiro lugar, notamos que a experiência no Oriente foi de considerável importância na vida pessoal de Francisco de Assis, já que ele tomou a importante decisão de renunciar ao cargo de Ministro Geral, imediatamente após seu retorno do Egito. Muitas vezes me pergunto o que aconteceu no coração

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de Francisco enquanto ele estava no Oriente, o que era tão importante que o encorajou a renunciar. No Oriente, Francisco experimentou um “mundo diferente” em relação ao ocidental que conhecia e, em contato com o sultão, teve a oportunidade de vislumbrar outra cultura também marcada por uma profunda religiosidade. Segundo alguns, os traços de tais experiências são evidentes nos textos de Francisco, escritos depois da viagem ao Egito, por exemplo, no convite aos “governantes dos povos” para fazer ressoar os louvores do Senhor todas as noites por meio de um pregador, segundo o modelo do almuadem (muezim) muçulmano, que chama à oração cinco vezes ao dia. É agradável pensar que, desde a sua estada no acampamento muçulmano, Francisco aprendeu algo: como em qualquer diálogo real, em que as pessoas falam e escutam, estão dispostas a aprender e não apenas a ensinar. Outro traço de sua experiência pode ser encontrado nas normas do Capítulo XVI Revista Santa Cruz


da Regra Não Bulada para “os que vão para o meio dos sarracenos e outros infiéis”, com a descrição de um “método” que contempla duas maneiras de se comportar (texto no. 10): um modo é que não litiguem nem porfiem, mas sejam submissos a toda criatura humana por causa de Deus. O outro modo é que, quando virem que agrada a Deus, anunciem a palavra de Deus, para que creiam em Deus onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, Criador de todas as coisas, no Filho redentor e salvador, e para que sejam batizados e se tornem cristãos, porque quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus (Cf. Jo 3,5). Essas são normas que revelam o conhecimento do ambiente muçulmano, onde uma presença a longo prazo só é possível da primeira maneira; isto é, silenciosa e submissa. Essa humilde presença, por outro lado, contém em si os elementos essenciais da identidade dos Frades Menores e do diálogo, porque a rejeição das disputas se une à “confissão de ser cristãos”. Revista Santa Cruz

Portanto, não se trata de se esconder ou se disfarçar, mas de se apresentar como o que se é, sem tentar se impor e continuar sendo menor; isto é, mais pequeno, como em qualquer diálogo real, em que minha identidade não é apagada frente a outra, mas humildemente se propõe, a si mesmo, na aceitação respeitosa da identidade dos outros. É isso que também gostaríamos de aprender com o encontro de Francisco com o sultão. O modelo de diálogo marcado pelo sinal de cortesia e respeito talvez seja a mensagem com a qual nos sentimos mais sensíveis hoje; e queremos adotar essa característica, em consonância com o diálogo respeitoso que marcou os dois encontros históricos do Papa Francisco neste ano com o Grão Imame de Al-Azhar em Abu Dhabi e com o rei do Marrocos em Rabat. O próprio Papa, em seu discurso de 7 de janeiro ao corpo diplomático, vinculou explicitamente suas duas viagens a São Francisco, dizendo: “Estas serão duas oportunidades importantes para desenvolver ainda mais

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o diálogo inter-religioso e o entendimento mútuo entre os fiéis de ambas as religiões, no oitavo centenário do encontro histórico entre São Francisco de Assis e o sultão Al-Malik Al-Kamil. ” Ao discernir os sinais dos tempos (Mt 16,3), a Igreja enfatiza cada vez mais o diálogo inter-religioso como um elemento essencial da missão da Igreja hoje. O Concílio Vaticano II exortou os fiéis cristãos a participar do “diálogo e colaboração com os seguidores de outras religiões, para que, com prudência e caridade, dê sempre ao mundo testemunho de fé e vida cristã” (Nostra Aetate, 2). Família franciscana na celebração dos oitocentos anos do encontro Encorajo a Família Franciscana a celebrar este aniversário como um tempo em que a luz do Evangelho possa abrir seus próprios corações para ver a imagem de Deus em pessoas que às vezes olham com medo e desconfiança, ou pior, em pessoas a quem nos sentimos impelidos a odiar como inimigos.

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Os exemplos de Francisco e do Sultão apresentam uma opção diferente da que vemos no mundo. Não se pode mais insistir que o diálogo com os muçulmanos é impossível. Vimos isso e continuamos a vê-lo na vida de muitos franciscanos e seus irmãos e irmãs muçulmanos que, com um coração sincero e amoroso, compartilham os dons que o Senhor lhes deu através de suas respectivas crenças. A fidelidade à visão de Francisco nos compromete a compartilhá-lo com humildade. De fato, o dom cristão especial que devemos compartilhar com nossos irmãos e irmãs muçulmanos não é simplesmente o de um cristão humilde, mas a experiência de um Deus humilde. Único em seu tempo, Francisco louvou a Deus, dizendo: “Você é humildade” (Al 4), e falou da “sublime humildade”, da “humilde sublimidade” de Deus (Cta O27). A busca de Deus pelo coração cristão encontra descanso na humildade da manjedoura e da cruz, sinais de um Deus que se rebaixou para se tornar um servo e se humilhou por Revista Santa Cruz


nosso amor. Francisco nos convida a refletir sobre essa humildade divina com aqueles que estão dando o primeiro passo como servos e com amor. Em todo caso, a fidelidade à visão de Francisco nos convida a receber os credos e crentes de outras tradições de fé com um senso de reverência (CCGG art. 93.2; 95.2), com corações e mentes abertas à presença de Deus em tal encontro. Reconheço que alguns membros da Família franciscana vivem como minoria nas terras de seu nascimento ou adoção, estão envolvidos em lutas políticas e sectárias e podem sentir a ameaça da violência, como muitos hoje na terra de Francisco. Em alguns países cristãos e muçulmanos, eles compartilham o sofrimento da injustiça social e da instabilidade política. Convido vocês a refletirem sobre outro dos nomes que Francisco usou em seus Louvores a Deus Altíssimo: “Vóis sois paciência” (AID4), ou como os muçulmanos invocam Deus: Yā Sabūr - “Oh, Único Paciente!” Revista Santa Cruz

O próprio Francisco aprendeu a virtude da paciência através de seu serviço entre os leprosos, através dos desafios de suas viagens, e através das tendências que ele viveu na Ordem no final de sua vida, quando seus próprios irmãos abandonaram alguns dos ideais que ele apreciava. Francisco meditou longamente no paciente amor que Cristo manifestou em sua paixão, eventualmente identificando a paciência como um atributo de um Deus misericordioso. “Vós sois paciência.” Deus segue um esquema desconhecido por nós, e Deus move os corações de mulheres e homens por caminhos que também desconhecemos. Francisco lutou para entender o plano de Deus para aqueles que não seguiam a Cristo como Senhor, e encontrou refúgio na oração de louvor que afirma que o Senhor é paciência. Que Deus conceda a graça da paciência a cada um de nós para que aprendamos a viver juntos. Fraternidade compartilhada Às nossas irmãs e irmãos muçulmanos, deixe-me dizer-lhes como cordialmente

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nós, franciscanos, recordamos a hospitalidade demonstrada ao nosso Santo Padre Francisco quando sua vida estava em perigo. O interesse que muitos muçulmanos demonstraram em comemorar este aniversário demonstra o desejo de paz que é expresso cada vez que um muçulmano cumprimenta um companheiro crente. Rezo para que neste ano aprofundemos a fraternidade que compartilhamos no Deus que criou todas as coisas no céu e na terra, e que este vínculo continue a ser fortalecido muito depois de 2019. Deus poderia ter-nos feito a todos iguais, mas Deus não o fez assim (Al-Shūrā 42.8). Com vocês, suas irmãs e irmãos franciscanos estão ansiosos para mostrar ao mundo que cristãos e muçulmanos podem viver juntos em paz e harmonia. Em conclusão, nunca esqueçamos que o exemplo de São Francisco foi uma vida de conversão contínua. Quando ele era jovem, ele sentiu repulsa por leprosos, mas um ato de misericórdia mudou seu coração e “o que parecia amargo se mudou

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em doçura” (Test3). Esse momento marcou o início da vida de penitência de Francisco, e está intimamente ligado à experiência de Francisco em Damietta, em 1219. O coração de Francisco já havia sido aberto por leprosos antes e, quando ele se viu na presença de um muçulmano a quem havia aprendido a odiar, abriu-se uma vez mais. O chamado bíblico para a conversão (Heb, shuv; Aram. Tuv) ressoa no repetido mandato do Alcorão para voltar-se a Deus (tūb), para mudar o mal com a bondade e com atos de caridade para com os mais vulneráveis da sociedade. Os crentes de hoje — respeitando a diversidade com a qual eles invocam e honram a Deus — são chamados ao mesmo valor e abertura recíproca de coração. Em meio aos gemidos do mundo pela compreensão inter-religiosa, que nosso Deus humilde, paciente e misericordioso nos mostre a todos os gestos e palavras que mais agradam ao Senhor Deus. Paz e bem!

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Na quinta-feira, 13 de junho, quinto dia da visita do Ministro Geral à Província Santa Cruz, Festa de Santo Antônio, Frei Michael Perry e Frei Valmir Ramos seguiram para a cidade de Divinópolis. Em Divinópolis, no Centro Franciscano de Formação e Cultura, Frei Michael e Frei Valmir, na parte da manhã, tiveram um encontro fraterno com os frades das cidades de Belo Horizonte, Betim, Contagem, Divinópolis, Ribeirão das Neves, Santos Dumont e São João del-Rei. No final do encontro, os frades receberam o Tau e o Cântico das Criaturas das mãos de Frei Michael Perry, OFM. Além disso, o Ministro Geral presenteou a Província Santa Cruz, por meio de Frei Hilton Farias de Souza, Ministro Provincial, com um Tau, confeccionado com madeira de Oliveira de São Damião (Assis) como símbolo de sua visita fraterna. Na parte da tarde, Frei Michael e Frei Valmir encontraram-se com os formandos da etapa de Formação Inicial (Aspirantado, Postulantado e Tempo de Profissão Temporária). Foi um momento significativo na caminhada de nossos jovens. Após o jantar, os frades participaram juntos da Missa Solene da Festa de Santo Antônio no SantuáRevista Santa Cruz

rio Santo Antônio de Divinópolis. A Celebração Eucarística Solene das 19 horas no Santuário Santo Antônio, em Divinópolis, foi presidida pelo Frei Michael Perry, OFM. A celebração foi iniciada com um grande cortejo, no qual os devotos de Santo Antônio acompanharam, em procissão, a imagem de Santo Antônio nas ruas do entorno do Santuário. Na sexta-feira, 14 de junho, Frei Michael Perry, concedeu gentilmente à Equipe Provincial de Comunicação uma entrevista. Em clima fraterno e despojado, o Ministro Geral respondeu às perguntas da Equipe Provincial de Comunicação. A entrevista foi iniciada com temas mais amplos (Igreja, sinais dos tempos), passando por temas de interesse da Ordem (CPO, ecologia e jovens) até chegar a temas relacionados à nossa atuação como província. Pelo fato de a entrevista ter sido gravada, agradecemos aos nossos confrades Frei Laércio Jorge de Oliveira, OFM, e Frei Luciano Lopes, OFM, pela tradução dos áudios. Além disso, recorda-se que as respostas são espontâneas e, por isso, o texto das respostas possui algumas inconsistências próprias da língua falada. Procuramos mantê-las. Caso nossos leitores queiram ter acesso à íntegra da

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entrevista, disponibilizamos o arquivo de áudio em nosso site (www.ofm.org.br/downloads). EPC: 1 - Como o senhor avalia o pontificado do Papa Francisco? O Papa Francisco tem a cabeça de um jesuíta – discernimento – e o coração de um franciscano – sempre está atento às necessidades dos pobres e excluídos. Está buscando uma Igreja por e para os pobres. Uma Igreja que é pobre com os pobres. Tomar o nome de Francisco para mim foi um choque, porque é muito significativo escolher o nome de São Francisco, pois traz uma grande alegria e esperança para a Igreja, para a Ordem e para o mundo. Mas também impõe um tremendo desafio, pois devemos cumprir o que temos prometido: homem de Deus, homem do Reino, a serviço dos pobres, defendendo os direitos, promotores da dignidade da criação – Laudato Si’. Homem de Deus, capaz e tomado pelo diálogo com todo o mundo, assim como São Francisco há 800 anos no encontro/diálogo com o Sultão. EPC: 2 - Na opinião do senhor, quais seriam os “sinais dos tempos” que nós, franciscanos, precisamos estar mais atentos? Em primeiro lugar, um Cristo com identidade profundamente

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descentralizadora a fim de viver uma verdadeira relação fraterna e familiar dentro da Igreja, dentro das sociedades e dentro das nações, sem perder o sentido da direção e do bem comum. Com isso, imbuir de esperança as fronteiras: mental, de coração, geográficas [imigração]. Outro desafio dos tempos seria o de responder aos abusos de todas as formas: sexuais, de poder, financeiros e da dignidade das pessoas, especialmente os menores, crianças e pessoas vulneráveis. É um tempo de purificação institucional também, que necessita criar sistemas de controle para a Igreja e para a Ordem, Bispos e Religiosos, para garantir uma transparência com respeito a diversas acusações de diversas formas. Necessidade de reconstruir a confiança diante de todo o povo de Deus. Confiança da sociedade diante dos políticos e pessoas públicas agravada pela grave corrupção, pelos conflitos de interesses, pois se deveria garantir os direitos de todos os povos que se encontram em crise ambiental e, por consequência, um contínuo abuso e destruição da casa comum. Um sinal positivo deste tempo é a esperança promovida por aqueles que buscam criar um mundo melhor. Participando de projeRevista Santa Cruz


tos de serviços aos necessitados, exemplo de Creta Unber, uma sueca de 15 anos que criou o movimento dos jovens para proteger o planeta contra as forças de destruição, o desafio de enfrentar um futuro que, para alguns, não tem lugar para Deus e assuntos espirituais. Outro desafio é o da imigração, com 67 milhões de pessoas em movimento. Aqui no Brasil, muitos venezuelanos, africanos... segundo algumas congregações especialistas, haverá em 2040 mais de 150 milhões de pessoas em movimento. Este é um grande desafio para o nosso tempo. EPC: 3 - Quanto à “opção preferencial pelos pobres”, o senhor acha que isso ainda continua sendo uma realidade no itinerário da Ordem ou acha que precisamos avançar mais? Creio que podemos refletir sobre algumas propostas que aparecem no discernimento da vida de São Francisco, onde considerava também os pobres como seus mestres. Os pobres que nos mostram uma grande proximidade com Deus, os pobres que nos cercam, nos possibilitam a abrir-nos mais a Deus e também a capacidade de buscar uma solidariedade entre Deus, nós e com outras pessoas. Creio que para nós é Revista Santa Cruz

um grande desafio, porque temos as instituições que nos pedirão necessidades para se manterem as estruturas. Creio que o Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, aponta a identidade da Igreja, uma Igreja em saída, podemos reaprender como frades menores, como podemos acompanhar com o máximo de simplicidade e corresponder às necessidades dos pobres que nos cercam. EPC: 4 - Depois de um ano da realização do CPO (Nairóbi), como o senhor avalia a caminhada da Ordem? Posso dizer que são três palavras para indicar ou resumir um pouco a experiência do CPO. Um processo antes, processo durante e as propostas para um processo contínuo até o Capítulo de 2021 e também para o futuro: diálogo, diálogo e diálogo. São três palavras que o Papa Francisco utiliza, mas também nós. Diálogo para recriar o sentido na Ordem de ser uma Ordem Sinodal, entrar em processo de sinodalidade no qual todos os frades devem assumir um papel, todos são corresponsáveis pelo presente e pelo futuro da Ordem e para responder aos irmãos de Deus hoje, através da convivência com os pobres e excluídos, marginalizados, com os refugiados, com os jovens e

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respondendo também aos grandes desafios do planeta, do futuro da casa comum. Isso significa que esse processo, iniciado antes e durante o Conselho Plenário, deve continuar cada vez mais envolvendo todas as forças de cada um dos frades na ordem. Cada frade, ele mesmo, é o sucessor de São Francisco. Não é somente o Ministro Geral, Ministro e Servo, cada um dos irmãos é a presença de São Francisco no mundo de hoje, e devemos responder com gratuidade, com grande esperança e com grande disponibilidade. EPC: 5 - Quais iniciativas o senhor considera indispensáveis na Ordem, quanto à questão da ecologia? O senhor tem alguma sugestão de como podemos avançar ainda mais nessa temática? São diversos níveis sobre os quais devemos refletir e mudar essas ideias, essas experiências e reflexões sobre a experiência da realidade do planeta na condição da crise ambiental de hoje. Primeira mudança, devemos sair, sair de uma mentalidade de esgotamento da terra, não podemos continuar a servir-nos daquilo tudo que queremos sem levar em conta as consequências das atividades de cada um de nós e de nós juntos como humanidade. Cada frade deve estudar, estudar o que está

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passando no meio ambiente, deve ler Laudato Si’ para iniciar, porque também para nós, irmãos menores, necessitamos de uma perspectiva, um ponto de partida da fé e também de uma necessidade de instruir-nos e aprender aquilo que se está se fazendo no mundo. Não quero convidar os irmãos a ler este documento, isto é, estes documentos do Conselho Internacional das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas, pois são documentos complicados, muito complexos, melhor iniciar com Laudato Si’, pois em Laudato Si’ se encontram muitos desses argumentos e a urgência de responder agora. Não é para amanhã, para o futuro. Alguns cientistas incríveis estão dizendo que precisamos nos preparar, porque daqui a 100, 150 anos, este planeta não será mais habitável para os seres humanos e, por isso, muitas entidades estão buscando possibilidades para sair e viver em outros planetas. Creio que cada frade, cada cristão deve responder e empreender passos concretos para reduzir seu impacto na destruição ambiental, simplificando seu estilo de vida e uso da energia entre outras coisas: não buscar sempre o carro para sair, conscientizar as pessoas com os meios de comunicação, nesta cidade [Belo Horizonte] Revista Santa Cruz


e outras cidades, usar o ônibus para reduzir nosso impacto sobre o meio ambiente. Creio que são pequenos passos, mas também colaborar com outras pessoas, outros grupos, na Igreja, grupos ecumênicos, inter-religiosos para estabelecer passos para reduzir o impacto que fazemos sobre o planeta. EPC: 6 - Quanto à formação de nossos jovens, quais pontos o senhor considera indispensáveis? São nove palavras: escutar, escutar, escutar, construir juntos, construir juntos e construir juntos. Escutando e estudando as contribuições do Sínodo dos Jovens em 2018, os bispos dedicaram tempo para escutar os jovens. No início, era pouco tempo para escutá-los e em pequenos grupos, mas depois de algumas semanas, pediram os jovens para falar na assembleia, ser coparticipantes na construção de algumas respostas. Creio que, para nós, irmãos menores, na formação inicial e permanente, devemos criar espaços para escutar e buscar juntos novas soluções e novas propostas. Não podemos simplesmente repetir aquilo que foi há 30, 10 anos. É necessário reimaginar quais são as necessidades que os jovens e aqueles menos jovens têm de ser acompanhados e escutados e se sentirem coparticipantes Revista Santa Cruz

da construção de modelos de formação permanente e inicial, para que ela responda realmente às questões de hoje e amanhã e não somente questões de ontem. EPC: 7 - O que significa para a Ordem o V Capítulo Under Ten, a ser realizado em Taizé? Taizé possui uma espiritualidade, um ambiente que é muito singular em três formas. Em primeiro lugar, é simbólico-místico, os irmãos e a comunidade de Taizé estão sempre criando espaços para iniciar ou reiniciar o encontro entre pessoas humanas jovens e com Deus. Eles criam um espaço de escuta, de encontro, um espaço no qual não há juízo sobre as pessoas que visitam, pessoas jovens, pessoas não jovens, crentes, não crentes, de outras religiões; é um espaço no qual todos se sentem acolhidos e por isso é um lugar místico. Segundo, o espaço também oferece possibilidades para os jovens de envolver-se e dialogar para reimaginar e reinventar respostas para a vida concreta de hoje. São momentos de rezar, momentos de escutar, dialogar e discernir pontos. Terceiro, é um lugar no qual os jovens, as pessoas que participam da experiência podem experimentar, abrir portas novas para aprofundar a fé e o sentido da fraternidade, da esperança para sonhar novamente com

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um futuro diferente. Creio que é isso o motivo pelo qual Taizé foi escolhida. Agora estamos, todo o definitório geral e o secretário de formação geral, preparando para acolher e caminhar juntos com os jovens para descobrir e discernir juntos novas possibilidades para responder ao nosso chamado evangélico hoje.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que iniciei no México, na Província de Jalisco, depois fui para a província de Porto Alegre, agora aqui, na Província Santa Cruz, e depois irei à Custódia do Sagrado Coração e por fim, na Província Santo Antônio; mas já quero dizer que todas essas realidades, estas entidades têm muita energia, têm jovens, estão profundamente envolvidos na vida dos pobres e excluídos, estão promovendo, mais ou menos, a formação dos leigos, sua identidade na Igreja, no mundo como codiscípulos, co-missionários.

dos leigos e superar a mentalidade de que eles são assistentes que nos ajudam; pelo contrário, nós somos os assistentes deles para ajudar a realizar o projeto do Reino de Deus. Esta não é uma ideia que estou inventando, é uma ideia que já se encontra no Documento de Medellín e mais forte no Documento de 2007 (Aparecida), que encontra ressonância e um desenvolvimento mais amplo em Evangelii Gaudium, do Papa Francisco. Creio que esta é uma primeira impressão, mas também um desafio para todos nós. Como todos na Ordem, os frades nas Províncias e entidades em América Latina e Brasil têm problemas na tarefa de promoção vocacional. Temos menos vocações para a vida consagrada nesse momento. Por isso, devemos reorientar nossa visão sempre para promover qual o sentido da vocação cristã para todos na Igreja e disso oferecer possibilidades e oportunidades aos jovens de considerar a reflexão sobre a possibilidade de entrar na Ordem para tornar-se parte desse movimento espiritual, o movimento para a humanidade, para o meio ambiente e também para Deus.

Creio que esta é uma primeira reflexão, que devemos na América Latina e em toda parte do mundo fazer algo a mais pela formação

Creio que também podemos falar um pouco dessa Província Santa Cruz e de todas as entidades do Brasil que devem submeter-se

EPC: 8 - Após visitar algumas Províncias da América Latina e, recentemente, do Brasil, é possível falar da possibilidade de construir projetos comuns interprovinciais? Idem, as províncias do Brasil.

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a uma séria reestruturação para ter em conta a realidade humana dos irmãos, a formação dos leigos para que estes possam assumir o protagonismo na Igreja e reimaginar o modelo de Igreja, sair de uma mentalidade de atendimento para uma visão missionária da Igreja em todos os lugares em que nos encontramos para criar centros missionários. Cada presença franciscana se converta em um centro missionário. Segundo, toda a teologia, a identidade da Igreja, pensada, atualizada (aggiornamento) para os tempos de hoje.

Segundo, creio que é um momento para toda a Ordem, todas as entidades, refletir sobre a formação inicial, isto é, desclericalizar a formação inicial. Regressar aos documentos da Ordem e também – recentemente – os da Igreja sobre a nossa própria identidade como Instituto Misto, que nossa primeira opção de vida é tornar-se irmão menor. Creio que é importante nos programas de formação inicial e permanente reavaliar o modelo e acreditar mais num modelo de frades menores e um pouco menos de formação sacerdotal.

EPC: 9 - Depois desse contato direto com alguns aspectos da realidade da Província Santa Cruz, ao longo desta semana, como o senhor avalia nossa caminhada? Algo lhe chamou mais a atenção?

Terceiro, creio que é um momento de ter um encontro de missão e vocações, de esforço e discernimento, de não abandonar a identidade missionária da província, da Ordem. Creio que é o momento de reavaliar a dimensão missionária, apresentando alguns irmãos para sair, para ir para outros lugares, mas também de criar uma nova mentalidade na província de ser uma Igreja, uma Ordem em saída. Acredito que isso seja um grande desafio para todos os lados, especialmente para os irmãos nesta província e em outras províncias da América Latina.

Vou responder timidamente. Todos os movimentos da Província, os movimentos que ela realiza, creio que é uma perspectiva positiva. As fraternidades estão buscando uma qualidade de vida de oração e de fraternidade, que é muito importante. Desejo que na Província cada uma das fraternidades tivesse um moderador para a formação permanente e inicial, que possa impulsionar os irmãos a aprofundar o desejo de permanecer em contato com Deus e com os irmãos. Revista Santa Cruz

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ORDENAÇÕES E PROFISSÕES

Ordenação presbiteral Frei Ronilson

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“Por causa da Tua Palavra, lançarei as redes (Lc 5,1-11)” Com muita alegria, Frei Ronilson, familiares, amigos, confrades, paroquianos da Paróquia São Pio de Pietrelcina de Betim, paroquianos da Paróquia São Miguel e Almas de Jequitinhonha se reuniram na Comunidade São Caetano, em Betim, às 18 horas, no dia 16 de fevereiro de 2019, para a celebração do 6o Domingo do Tempo Comum – Domingo das Bem-aventuranças.

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Nesta celebração eucarística, Frei Ronilson Caetano da Silva, OFM, foi admitido ao segundo grau do ministério ordenado para o serviço da Igreja e dos irmãos e irmãs pela oração da Igreja e imposição das mãos de Dom Hugo Maria van Steekelenburg, Bispo Emérito de Almenara. A animação litúrgica ficou a cargo do Coral Aedo — regido por Frei Higor Ferreira, OFM —, que abrilhantou a celebração com os cantos litúrgicos. A celebração também foi transmitida pelas redes sociais. Nem mesmo a chuva impediu os fiéis, que lotaram a Igreja, de participarem desse momento importante da vida de Frei Ronilson. Frei Ronilson é filho de Adilson Caetano da Silva e Neusa Maria da Silva. Nasceu em Contagem, no dia 8 de novembro de 1978, e ingressou na Ordem dos Frades Menores em 29 de novembro de 2008. Desempenhava sua missão em Jequitinhonha, na Paróquia São Miguel e Almas, que se fez presente na ordenação, apesar dos mais de 700 km de distância.

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Ordenação diaconal de Frei Adenilton e Frei Gabriel No dia 23 de março de 2019, a Província Santa Cruz esteve em festa por ocasião da ordenação diaconal de Frei Adenilton Reis Pereira Mendes, OFM, e Frei Gabriel José de Lima Neto, OFM. Com o tema “Fazei-vos servos uns dos outros, pelo amor” (Gl 5,13), na solene celebração eucarística presidida por Dom Gil Antônio Moreira, nossos confrades foram ordenados diáconos, para o serviço da Igreja e do Povo de Deus. A celebração aconteceu na Igreja Santo Antônio, em Santos Dumont. Frei Adenilton Reis Pereira Mendes, OFM, é filho de Aiton Mendes de Oliveira e Eni Pereira de Oliveira. Nasceu em 1989, na cidade de Contagem. Ingressou na Ordem dos Frades Menores em 29 de novembro de 2009.

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Atualmente é responsável pelo cuidado pastoral das vocações da nossa Província. Também colabora com o Secretariado de Formação e Estudos, na Pastoral Franciscana da Juventude e com a Ordem Franciscana Secular. Frei Gabriel José de Lima Neto, OFM, é filho de Lúcio Gabriel de Lima e Benedita Martins de Almeida Lima. Nasceu em 1976, na cidade de Pará de Minas. Ingressou na Ordem dos Frades Menores em 4 de fevereiro de 1995. Atualmente é Definidor Provincial, Secretário de Formação e Estudos, Mestre de Aspirantes e Guardião. Também colabora com o Secretariado de Administração, com o Serviço de Animação Vocacional, com a Pequena Família Franciscana, com o Comissariado da Terra Santa, com a Beneficência Franciscana e com a equipe de cerimoniários da Província.

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Ordenação Diaconal de Frei Robério, OFM “O Espírito vos conduzirá à plena verdade (Jo 16,13)” No dia 15 de junho, Frei Robério Antunes Ruas, OFM, foi ordenado diácono na Celebração Eucarística presidida por Dom José Carlos Souza Campos, Bispo da Diocese de Divinópolis e Presidente do Regional Leste 2 da CNBB. A celebração aconteceu às 19 horas, no Santuário Santo Antônio, em Divinópolis. Frei Robério é filho de Florisvaldo Pereira Ruas e Elidia Antunes Porto Ruas. Natural de Guaratinga-BA,

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onde nasceu em 4 de dezembro de 1980, ingressou na Ordem dos Frades Menores em 29 de novembro de 2011. Atualmente, Frei Robério reside no Guardianato Santo Antônio, em Divinópolis, e é responsável pelas atividades do Centro Franciscano de Formação e Cultura. Além disso, colabora com o Cuidado Pastoral das Vocações. Na celebração, estiveram presentes confrades da Província Santa Cruz, familiares, amigos e a comunidade. “Nunca perca de vista seu ponto de partida” (Santa Clara).

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Profissão Solene na Província Santa Cruz Como de costume na Província Santa Cruz, os frades Marco Antônio Abreu Lomar, Renieverton Telles de Oliveira e Marcos Alves Barroso professaram seus votos solenes no dia 2 de fevereiro, Festa da Apresentação do Senhor. A celebração aconteceu na Igreja São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, e contou com a presença de vários frades franciscanos, religiosos e religiosas, padres, amigos e familiares dos professandos. O Ministro Provincial, Frei Hilton Farias de Souza, admoestou os jovens a serem fiéis à consagração e para que procurem, a cada dia, não se distanciarem dos elementos caros à vida franciscana: a oração, a fraternidade, o trabalho manual e o cuidado com os pobres.

de origem, os frades e todas as pessoas dos lugares onde já passaram. Em seguida, convidaram a assembleia reunida a realizar um minuto em silêncio, recordando, especialmente, as vítimas da tragédia da Vale, em Brumadinho. Após a celebração, houve uma confraternização no salão paroquial. Aos nossos irmãos, nosso abraço fraterno e nossas orações. Que o Espírito que inspirou Francisco os conduza na radicalidade do Evangelho, a fim de serem “irmãos e menores em nosso tempo” e que a vida de vocês seja um sinal visível da presença de Deus no mundo, assim como foram Francisco e Clara de Assis.

Com muita emoção, os frades foram cumprimentados pelos irmãos da Província e por seus familiares. Ao final, todos tiveram a oportunidade de abraçar os frades. Nos agradecimentos, os neoprofessos recordaram todos aqueles que estiveram presentes em suas vidas durante todos esses anos: suas famílias, as comunidades

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FREI FABIANO E FREI VICENTE: 25 ANOS DE VIDA RELIGIOSA

Frei Daniel de Oliveira Faria, OFM “Eu disse: ‘Eis que venho, Senhor!’ Com prazer faço a vossa vontade. (Responsório Salmo 39)” Na sexta-feira, dia 8 de fevereiro, aconteceu no Convento Santa Maria dos Anjos, em Betim, a celebração do jubileu de prata de vida religiosa dos nossos confrades Fr. Fabiano Aguilar Satler, OFM, e Fr. Vicente Paulo do Nascimento, OFM. Em uma noite de muita festa e espiritualidade, o convento ficou agraciado com a presença de inúmeros confrades, familiares e amigos de nossos irmãos, que vieram prestigiar e participar dessa louvação.

emocionados com as palavras dos confrades sobre a experiência de uma vida dedicada à fraternidade religiosa. Foi um momento bonito e profundo de oração e ação de graças. Fica o agradecimento a todas as pessoas que participaram e prepararam esse momento e a todos que estiveram unidos em oração. Gratidão por todas as manifestações de carinho e apoio. Esses dois irmãos confirmaram novamente a entrega total de suas vidas ao serviço do Reino de Deus. Celebrar 25 anos é retomar o ponto de partida da caminhada vocacional, é ter nas mãos um pouco da história construída e vivida, é dizer: ‘Eis que venho, Senhor! Com prazer faço a vossa vontade!’. Que a cada dia eles possam continuar perseverantes nessa dedicação ao serviço do Reino de Deus.

Todo o ambiente e cerimônia foram preparados pelos amigos e pelos frades do tempo de profissão temporária, e a presidência da celebração eucarística foi realizada pelo Ministro Provincial, Frei Hilton Farias de Souza, OFM. Todos os participantes ficaram

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MANIFESTO DOS FRADES MENORES DA PSC ÀS VÍTIMAS DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO-MG

“Se falta o sentido do valor da pessoa humana, aumenta o desinteresse pelas outras criaturas e pela Terra”. (XXIII Jornada Mundial da Paz, 1990)

Os Frades Menores da Província Santa Cruz manifestam solidariedade às vítimas e aos familiares dos que foram atingidos pelo crime ambiental e homicídio coletivo ocorrido em Brumadinho-MG, com rompimento da Barragem Mina do Córrego do Feijão, na tarde de 25 de janeiro de 2019.

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Sob a égide da lógica capitalista selvagem, os avanços da exploração minerária em Minas Gerais, de modo obsceno e irresponsável, vêm deixando rastros de violência, ilusão, desamparo, miséria e morte. A estrutura socioeconômica, os modos e as relações de produção impostos pelo sistema ganancioso mutilam a dignidade humana e ferem a obra da criação de Deus. Nesse sentido, concordamos com o Papa Francisco, que nos alerta a respeito da existência de um terrorismo de base, que deriva do controle global do dinheiro sobre a Terra e ameaça toda a humanidade. Tal sistema é terrorista. Vislumbramos que, somente com a união de todos os que amam verdadeiramente a vida de forma respeitosa e plena, em

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torno de um projeto alternativo, conseguiremos superar os desafios do cenário aterrador. Montanhas são destruídas, pessoas morrem, rios são assassinados, peixes e outros bichos das águas apodrecem na lama... Os impactos socioambientais após a tragédia ocorrida nos últimos dias revelam a urgência de mudança de paradigmas. Nós não nos cansaremos de sonhar e de perseguir a utopia franciscana de um mundo mais justo e fraterno. Diante dos graves riscos ao meio ambiente, que se prenunciam pela atual conjuntura dos licenciamentos da atividade minerária, também denunciamos a ineficácia do Estado de Minas Gerais no controle, fiscalização e monitoramento de barragens de rejeitos minerários. Torna-se imprescindível adotar medidas que evitem a ocorrência de novas tragédias semelhantes, num contexto de inseguranças reais. Sentimos que a Terra grita por uma profunda conversão ecológica, que não pode ser adiada. Por isso, em comunhão com a Família Franciscana e com os movimentos que se engajam pela proteção de todas as formas de vida, rogamos por Justiça Ambiental e Paz. Juntamente com São Basílio Magno, elevamos ao Deus

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Altíssimo nossa prece de perdão e de súplica para que nossos olhos e nossos corações se abram ao compromisso e ao cuidado com toda a criação de Deus: “Aumenta, Senhor, no nosso íntimo, um sentido de comunhão com todos os seres vivos, a quem deste a Terra como seu lar comum conosco. Com vergonha reconhecemos que exercemos sobre os dons da natureza um domínio arrogante e cruel, e como consequência disso, a voz da Terra, que deveria ter-se elevado a Ti como um cântico, tem sido um gemido de aflição. Oxalá que consigamos aperceber-nos de que as criaturas que compartilham conosco a existência nesse mundo não vivem somente para nós, mas para si mesmas e para Ti, e de que elas também amam a doçura da vida!” Assim seja! Belo Horizonte, 28 de janeiro de 2019. Franciscanos da Ordem dos Frades Menores – Província Santa Cruz

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PRÊMIO BOM EXEMPLO: PRÉVESTIBULAR EDUCAFRO MINAS É O VENCEDOR NA CATEGORIA

A manhã de segunda-feira, 1o de abril, foi marcada por discussões e votações no Prêmio Bom Exemplo 2019, em Belo Horizonte. Os jurados se reuniram para escolher quais pessoas ou instituições mereciam destaque por sua atuação junto à comunidade, entre as iniciativas indicadas por parceiros do projeto. No encontro, os jurados definiram os vencedores de sete categorias: Ciência, Cultura, Educação, Esporte, Inovação, Meio Ambiente, Economia e Desenvolvimento de

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Minas. Na ocasião, também escolheram o cantor Milton Nascimento como Personalidade do Ano. Na categoria Ciência, foi definido como vencedor o professor Virgílio Augusto Fernandes Almeida. O jornalista, escritor e advogado Ângelo Oswaldo venceu a categoria Cultura. Em Educação, quem se destacou foi o projeto Educafro. O projeto Bom na Bola, Bom na Vida conquistou o reconhecimento dos jurados na categoria Esporte. Na categoria Meio Ambiente, a vencedora foi a ONG Waitá, Instituto de Pesquisa e Conservação. Guilherme Enrich levou o prêmio na categoria Inovação. Já o Prêmio Bom Exemplo na categoria Economia e Desenvolvimento de Minas foi para Eugênio Mattar.

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ENCONTRO DE IRMÃOS LEIGOS DA PSC Frei Ronaldo Dias do Val, OFM No dia 7 de abril de 2019, aconteceu o encontro anual de irmãos leigos da Província Santa Cruz no Convento de Santa Maria dos Anjos, em Betim-MG. Esse encontro objetivou promover reflexões e partilhas a respeito da vocação do frade menor irmão leigo na Província Santa Cruz e na Ordem Franciscana e, sobretudo, buscar a compreensão de que a vocação do frade menor irmão leigo nada tem de incompleta, mas, pelo contrário, “é uma voca-ção originária”, como foi ressaltado.

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Para as reflexões, tomou-se como base a atual conjuntura iluminada pelos ideais originários franciscanos, ideais estes incompatíveis com todo e qualquer tipo de clericalismo. Por este motivo, esses encontros tornamse necessários em vista do perigo de descaracterização da figura autêntica do frade menor irmão leigo, na maioria das vezes vinculada à figura de frades ordenados. No encontro desse domingo, também foram feitos esclarecimentos a respeito do III Encontro Nacional de Irmãos Leigos Franciscanos, que conta com a participação de frades das três obediências, que ocorrerá de 5 a 8 de setembro deste ano, em Lagoa Seca, Paraíba.

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ENCONTRO DA FAIXA ETÁRIA II

Frei Antônio Teófilo da Silva Filho, OFM Depois das celebrações da Semana Santa e da Páscoa de Jesus Cristo, motivados por uma esperança nova neste início de triênio, os freis da Faixa Etária II voltaram a se reunir para a partilha de vida e caminhada. O encontro aconteceu na casa Arca de Noé, em Guarapari-ES. Como de costume, procurou-se organizar e dividir as tarefas em equipes, de tal modo que se pudesse atender aos serviços comunitários e à oração. Para um bom convívio e proveito,

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começamos o dia com o café e a oração das Laudes, acrescida com intenções pelos irmãos da Província e pedidos diante de situações de sofrimento advindas por questões políticas e sociais no Brasil e no mundo. Depois, tivemos um horário livre até o almoço. Às 15 horas, retornamos para a partilha antecipada por uma breve oração. Tivemos a alegria de estar conosco Frei Adelmo Francisco Gomes da Silva, após retorno de estudos acadêmicos em Roma. E também houve a volta de Frei João Bosco Resende da Silva, que cumpriu sua missão de evangelização franciscana em Timor-Leste e em Boa Vista, Roraima. Alegramo-nos com Dom Dario Campos, que sempre marcou presença em

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nossa faixa etária e agora, como Arcebispo da Arquidiocese de Vitória-ES, continuará a missão de Pastor e Guia, à semelhança dos Apóstolos, com a tarefa de ouvir os clamores do povo, colocando-se ao lado dos pobres de forma profética. Partilhou suas experiências e expectativas a partir da realidade e contexto em que vive e exerce seu ministério. Porém, teve de voltar à Diocese no mesmo dia por causa de seus compromissos. Em seguida, alguns freis partilharam seus trabalhos, vida fraterna e expectativas, dentro das novas configurações pós-capitular. Ao final da tarde, fizemos caminhada na praia. À noite, durante o jantar e após, sentamonos para uma conversa mais livre e espontânea, desfrutando a brisa da noite. No dia seguinte, seguiu-se como de costume, desta vez com a presença de Frei Vicente Ronaldo, moderador da Formação Permanente. À tarde, às 15 horas, depois da oração, Frei Vicente Ronaldo, fazendo uso da palavra, falou-nos sobre a caminhada da Província, as vocações e as etapas da formação inicial e permanente. Logo após, os freis partilharam suas impressões e observações a

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partir de experiências pessoais e comunitárias. Neste tempo da pós-modernidade e mudanças de paradigmas, a formação para a vida franciscana e sua inserção na fraternidade têm exigências próprias. A necessidade do diálogo, o cuidado, o acompanhamento, a vida de oração e o trabalho possibilitam o crescimento e amadurecimento pessoal e comunitário. E também a abertura aos novos parâmetros que a Igreja e a Província propõem para responder aos desafios que nos apresentam hoje. Nas etapas de formação inicial e permanente, percebe-se a necessidade de um profissional nas áreas de relacionamento pessoal e comunitário. Acrescenta-se, ainda, o conhecimento nas questões políticas e econômicas do nosso tempo. Ao final, vimos que a partilha foi de bom proveito, diante da capacidade de escutar e do respeito pelo outro. No último dia, pela manhã, encerramos com a celebração da eucaristia presidida por Frei Vicente Ronaldo, que nos propiciou escutar a fraternidade em seus anseios e na busca por uma Igreja e vida franciscana como sinais do Reino de Deus.

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ENCONTRO DE GUARDIÃES – ANÁLISE DE CONJUNTURA

Frei Fábio L’Amour Ferreira, OFM O Encontro de Guardiães teve início com o almoço do dia 13 de maio, e à tarde aconteceu o primeiro momento do encontro, com a participação da maioria dos guardiães da PSC, ou seu representante, bem como com a presença do moderador para FP, Frei Vicente Ronaldo, do Ministro Provincial, Frei Hilton Farias, e dos secretários: para a Formação e Estudos, Frei Gabriel

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José; e para a Evangelização e Missão, Frei Valter Júnior. Após as boas-vindas aos participantes, os secretários da Formação e Estudos e da Evangelização e Missão fizeram uma breve partilha sobre os trabalhos realizados nos secretariados e um diálogo com o grupo, ressaltando os pontos relevantes da caminhada da província, especialmente a partir das resoluções do último Capítulo Provincial. O dia 14 foi dedicado inteiramente à partilha dos guardiães. No dia 15, em espírito de comunhão com as manifestações contra os cortes na educação, que tomaram o Brasil, o grupo fez uma profunda análise de conjuntu-

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ra, contando com a brilhante assessoria do professor Pedro Gontijo, membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP) da CNBB e professor adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UNb), bem como do programa de PósGraduação em Metafísica Política na mesma instituição de ensino. Colabora ainda com o Mestrado Profissional em Filosofia, pelo núcleo da Universidade Federal de Tocantins. Entre outras obras, escreveu os artigos “Bricolagem Metafísica ao Pensar a Ação Política e o Estado” e “O Ensino de Filosofia no Brasil: Algumas Notas sobre Avanços e Desafios”. A reflexão do dia foi dividida em quatro momentos: 1. Como chegamos até aqui; 2. Desafios conjunturais; 3. A resistência; 4. O papel da igreja nesse contexto. No primeiro ponto, de como chegamos até aqui, o assessor destacou a hipótese de que o Brasil não tem tradição democrática, pois, ao longo de sua história, temos, em um período mais recente, pouco mais de 40 anos de “democracia” propriamente dita. Dada essa carga

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histórica brasileira, Pedro analisa que está presente no Brasil uma forte tradição conservadora, antidemocrática, caracterizada por uma dificuldade enorme de conviver com o contraditório, que é próprio da democracia. Analisa que, em muitas situações, a democracia participativa pode ser vista como um empecilho à ordem e ao progresso, como algo a ser combatido. A ideia de “ordem” e “progresso” tem base positivista, que influenciou durante muito tempo, ou ainda influencia as várias esferas da sociedade brasileira, desde a educação até a política. Nesse contexto, a ordem social, concebida a partir do poder dominante, está imutavelmente estabelecida, de forma que tudo e todos têm o seu lugar social e isso não pode mudar, ou, ainda, que qualquer mudança de ordem social traz a desordem e, consequentemente, dificulta o progresso. Na segunda parte, dos desafios conjunturais, retomou-se a questão do sistema de privilégios versus uma política de universalização dos direitos. Falou-se também sobre a diferenciação entre ético e legal. Na ação profética, muitas vezes podemos encontrar até mesmo uma discrepância entre o que é ético, mas muitas vezes não é legal (em termos jurídicos), e o que é legal, mas que muitas vezes não é Revista Santa Cruz


ético, do ponto de vista dos valores humanísticos e cristãos. Afirmou-se que estamos vivendo em um tempo de mudanças e mudança de tempo. Tempos de incertezas e imprevisibilidades (os rumos para o futuro são imprevisíveis). Falou-se também de outras mudanças: no capitalismo, na geopolítica global, nos projetos referenciais, enquanto mudança de época, e na crise econômica e suas feridas: 1. Dinâmica dos ciclos de crise: menos períodos de expansão econômica e maiores períodos de crise; 2. Economia mundial dá sinais contraditórios; 3. Aumento da desigualdade, exclusão social (fome, imigração, etc). Um desafio se apresenta quando nos perguntamos, frente a um Estado violador de direitos, que persegue minorias e descumpre a constituição, qual o tipo de relação queremos ter com o Estado, especialmente pensando na perspectiva da importância do papel do Estado na implantação de políticas públicas e proteção social. Historicamente, houve sempre movimentos de transformações sociais que fizeram frente a forças sociais retrógradas, com a perspectiva de tomada de poder e implantação de um novo projeto de sociedade. Foi indicada uma Revista Santa Cruz

leitura sobre esse assunto, uma obra de John Holloway, intitulada Mudar o Mundo, sem Tomar o Poder. John H. é professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Autônoma de Puebla. O livro foi publicado pela editora Viramundo, em 2003. Por fim, na parte que trata da resistência, Pedro Gontijo afirma que resistir não é necessariamente fazer contra, é criar o novo, que pode ser contra ou pode ser simplesmente diferente do estado de coisas existentes. São ações de curto, médio e longo prazo. Há uma proliferação de ativistas de diferentes causas nos mais diferentes lugares. Paulo Freire fala do “inédito viável”. Há, sim, muitos espaços de resistência e de construção de alternativas, mas tem que haver uma possibilidade de nova leitura da realidade e de escuta dos clamores mais legítimos dos povos e das pessoas, ainda que seja alguém que se coloca totalmente contra as mudanças. Diante do progressivo ataque aos direitos sociais já conquistados, devemos encarar os direitos como “rizomas” (tipo de caule que cresce horizontalmente, geralmente subterrâneo), conectando-se uns com outros, o que pode fragilizar, mas que também pode potencializar as lutas.

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- O que aprendemos com os povos indígenas? - O que aprendemos com os povos quilombolas? - O que aprender no uso das novas tecnologias? - O que aprender com as tecnologias sociais? - Como trabalhar com os princípios da economia solidária? A Igreja, nesse contexto: - Sínodo da Amazônia; - Papa Francisco; - Campanha da Fraternidade 2019; - (CF) 2020: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”; - Semana Social Brasileira. Reforma da Previdência: material indicado: site da Auditoria Cidadã.

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ENCONTRO REGIONAL FRANCISCANO DE JUVENTUDES EM DIVINÓPOLIS Frei Daniel de Oliveira Faria, OFM Aconteceu entre os dias 17 e 19 de maio, em Divinópolis, no Centro Franciscano, o Encontro Regional Franciscano de Juventudes, organizado pela equipe da Pastoral Franciscana da Juventude e Pastoral Vocacional. Durante esses dias, jovens da região metropolitana ligados a paróquias, trabalhos e movimentos da PSC tiveram a oportunidade de trocar experiências, desilusões e anseios acerca do tema “Juventude

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e Políticas Públicas”. Tudo isso foi permeado de um forte espírito de integração e convivência, através de três oficinas principais: Teatro (Frei Renieverton), Sexualidade (Marluce) e Projeto de Vida (Frei Adenilton). Na perspectiva da fé, como tema formativo, foram refletidos, numa roda de conversa, os contextos de juventudes frente às políticas públicas, à luz da passagem de Isaías 27: “Serás libertado pelo direito e a justiça”. Que os jovens, ao voltarem para suas realidades, brotem como arautos da esperança, frente a todo desânimo político e social, visível em nossos tempos, para que assim sejam instrumentos da Paz e do Bem!

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4a CAMINHADA COM FRANCISCO: A FÉ INSPIRA A PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE

Padres, religiosos, agentes de pastorais, representantes de movimentos que buscam a proteção do meio ambiente e índios Pataxós se uniram para participar da 4a Caminhada com Francisco – juntos pela paz e o meio ambiente, que integra a programação da Arquidiocese de Belo Horizonte para a Semana do Meio Ambiente. Os participantes se encontraram em Betim e caminharam até a Lagoa Várzea das Flores, convidando a sociedade para reafirmar o compromisso de defender um precioso bem: a água. Durante o evento, foram realizadas oficinas de confecção de cartazes, pinturas e artes.

A Lagoa Várzea das Flores integra o sistema que abastece Belo Horizonte e sua Região Metropolitana. Esse sistema, no início do ano, perdeu uma de suas fontes: o Rio Paraopeba, contaminado pelos rejeitos de mineração, após rompimento de barragem da Vale. E a Lagoa Várzea das Flores sofre com a degradação ambiental. O bispo auxiliar dom Otacílio Ferreira de Lacerda conduziu momento de oração durante a Caminhada com Francisco e destacou: “Não existe vida sem água. Então este encontro é de extrema importância para preservar a Lagoa Várzea das Flores”. Realizada no sábado, dia 8, a Caminhada com Francisco inspira-se na Carta Encíclica Laudato Si’ – sobre o cuidado com a casa comum, do Papa Francisco. É realizada desde 2016, todos os anos, na Arquidiocese de Belo Horizonte.

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REGISTRO FOTOGRÁFICO DA VISITA DO MINISTRO GERAL, FREI MICHAEL PERRY, OFM, À PROVÍNCIA SANTA CRUZ Equipe Provincial de Comunicação

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com a Fraternidade São Francisco das Chagas após missa conventual em Carlos Prates, Belo Horizonte, Minas Gerais, em 9/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com o Governo Provincial após reunião na Cúria Provincial, em Belo Horizonte, Minas Gerais, na manhã do dia 10/6/2019. Revista Santa Cruz

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com os frades do Under Ten, em Belo Horizonte, Minas Gerais, após encontro ocorrido no salão da Paróquia São Francisco das Chagas, na tarde de 10/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com os frades do Under Ten, em Belo Horizonte, Minas Gerais, durante encontro no Salão da Paróquia São Francisco das Chagas, na tarde de 10/6/2019.

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – com Frei Jacir de Freitas Faria e Frei Valter Pinto Vieira Júnior durante confraternização, no Convento São Francisco das Chagas, com os frades de Belo Horizonte, Betim, Contagem e Ribeirão das Neves, na noite de 10/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – em Montes Carlos, Minas Gerais, com a comunidade do Noviciado São Benedito, na manhã do dia 11/6/2019, juntamente com Frei Hilton Farias de Souza, Ministro Provincial, e Frei Ronilson. Revista Santa Cruz

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – em Montes Carlos, Minas Gerais, com os noviços, durante a missa conventual, na manhã do dia 11/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – em Montes Carlos, Minas Gerais, com os frades de Montes Claros, Salinas e Jequitinhonha, no Noviciado São Benedito, na tarde do dia 11/6/2019, após encontro.

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – em Montes Carlos, Minas Gerais, com a fraternidade do Guardianato Santo Antônio, de Salinas, Minas Gerais, na tarde do dia 11/6/2019, após encontro.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – em visita ao Santuário da Serra da Piedade, em Caeté, Minas Gerais, com o Ministro Provincial e os guardiães, durante encontro, na manhã do dia 12/6/2019. Revista Santa Cruz

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM, Definidor Geral para a América Latina – em visita ao Santuário da Serra da Piedade, em Caeté, Minas Gerais, durante celebração eucarística, na Ermida da Padroeira, durante o encontro com os guardiões, na manhã do dia 12/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – em visita ao Santuário da Serra da Piedade, em Caeté, Minas Gerais, com o Ministro Provincial, guardiães e Frei Paulo Afonso, após celebração eucarística na Ermida da Padroeira, na manhã do dia 12/6/2019, durante encontro.

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – no Salão da Paróquia São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, Minas Gerais, durante participação em memória alusiva ao encontro de São Francisco com o Sultão, com membros de várias comunidades e grupos religiosos, na noite de 12/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com Sheik Moqtar, da Comunidade Islâmica de Belo Horizonte, no Salão da Paróquia São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, Minas Gerais, durante evento em memória alusiva ao encontro de São Francisco com o Sultão, na noite de 12/6/2019. Revista Santa Cruz

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – no Salão da Paróquia São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, Minas Gerais, conversa com participantes do evento alusivo ao encontro de São Francisco com o Sultão, na noite de 12/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com os frades das fraternidades de Belo Horizonte, Betim, Contagem, Divinópolis, Ribeirão das Neves, Santos Dumont e São João del-Rei, durante encontro no Centro Franciscano de Formação e Cultura, em Divinópolis, Minas Gerais, na manhã de 13/6/2019.

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – presenteou a Província Santa Cruz, por meio de Frei Hilton Farias de Souza, Ministro Provincial, com um Tau, confeccionado com madeira de oliveira de São Damião (Assis) como símbolo de sua visita fraterna, durante encontro, no Centro Franciscano de Formação e Cultura, em Divinópolis, Minas Gerais, na manhã de 13/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com os formandos da Formação Inicial (Aspirantado, Postulantado e Tempo de Profissão Temporária), durante encontro no Centro Franciscano de Formação e Cultura, em Divinópolis, Minas Gerais, na tarde de 13/6/2019. Revista Santa Cruz

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com os frades do Tempo de Profissão Temporária, após encontro, no Centro Franciscano de Formação e Cultura, em Divinópolis, Minas Gerais, na tarde de 13/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com os formandos do Postulantado, após encontro no Centro Franciscano de Formação e Cultura, em Divinópolis, Minas Gerais, na tarde de 13/6/2019.

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com os formandos do Aspirantado, após encontro no Centro Franciscano de Formação e Cultura, em Divinópolis, Minas Gerais, na tarde de 13/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – durante Missa Solene de Santo Antônio no Santuário Santo Antônio, em Divinópolis, Minas Gerais, na noite de 13/6/2019. Revista Santa Cruz

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – durante homilia na Missa Solene de Santo Antônio no Santuário Santo Antônio, em Divinópolis, Minas Gerais, na noite de 13/6/2019.

Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – acompanhado de Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – concede entrevista para a Equipe Provincial de Comunicação na manhã de 14/6/19, em Carlos Prates, Belo Horizonte, Minas Gerais.

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FREI FRANCISCO PRICK (05/05/1918 – 28/02/2018)

Frei Fabiano Aguilar Satler, OFM

Origens

e formação

franciscana

Uma biografia do nosso confrade centenário (faleceu três meses antes de completar cem anos), para ser-lhe justa postumamente, deve, obrigatoriamente, retroceder alguns séculos antes do seu nascimento. É fato conhecido que Fr. Prick dedicava-se com zelo ao estudo e conhecimento de seus ancestrais. Orgulhoso de suas origens, tinha o brasão da sua família emoldurado em seu quarto, organizava sua árvore genealógica e exibia sua origem nobre. O primeiro ponto a ser esclarecido para os incautos é a denominação precisa do seu país de nascimento. Em vida, para provocá-lo, bastava perguntar-lhe se ele era holandês. Afinal, qual a denominação correta: Holanda, Netherlands, Nederland ou Reino dos Países Baixos? A resposta correta: Nederland (em neerlandês, a língua nacional). Em português, a tradução para Revista Santa Cruz

Nederland – Países Baixos – realça o acento dado ao regionalismo histórico e arraigado de alguns povos, herança de um tempo em que o conceito de estado nacional moderno era inexistente. Os “países” que compõem os Países Baixos são, na verdade, doze províncias. Dentre elas, duas levam o nome de Holanda: Holanda do Norte e Holanda do Sul. Historicamente, devido à importância comercial dessas duas províncias, a parte passou a designar o todo, para desagrado dos moradores das demais províncias. Era essa a indignação de Fr. Prick ao ser referido como “holandês”. Frei Prick nasceu em Maastricht, uma das mais antigas cidades neerlandesas, capital da Província de Limburgo, localizada no sudoeste dos Países Baixos, num território estreito, encravado entre a Bélgica e a Alemanha e que possui

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uma língua própria. Ele nasceu no fim da Primeira Guerra Mundial. Os pouco mais de quatro anos de duração dessa que foi a primeira guerra moderna descortinaram uma nova era de violência na Europa e no mundo. Os Países Baixos, felizmente, diferente da Segunda Guerra Mundial, não foram particularmente afetados, conseguindo manter a sua neutralidade.

O site na internet dedicado à família Prick (www.genealogieprick. eu), consultado regularmente pelo nosso confrade, traz algumas informações sobre a origem do nome. Antes, porém, o próprio site traz uma informação, no mínimo, curiosa e que pode provocar algum riso. Embora a palavra

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não seja de origem inglesa, ela existe nessa língua para designar de maneira vulgar e pejorativa o órgão sexual masculino. Vários Pricks tiveram seu nome de família alterado por esse motivo, tal como o comissário-chefe de Nijmegen (nascido em 1916), que teve seu nome mudado para Perrick por causa de suas visitas frequentes aos Estados Unidos. Pesquisas em inglês pela palavra-chave “prick” na internet retornam informações sobre práticas sexuais pouco comuns e afins. Possivelmente, os Pricks foram, originalmente, ubianos, uma tribo germânica que viveu na época do Império Romano, à direita do Reno e que se estabeleceu a leste da linha de Maastrich–Heerlen em tempos muito antigos. Desde 1300 encontramos o nome Pryck (a grafia original antiga) entre os rios Reno e Maas. Os nomes mais antigos de Pryck vêm todos do território alemão atual, como um cavaleiro ladrão chamado Henricus Pryck van Hilgenroide, mencionado em 1339, ou Konrad Pryck, mencionado nos anais de 1381. Os primeiros portadores do nome Prick nos Países Baixos são encontrados principalmente na cidade de Schaesberg, na Ligúria. As primeiras fontes escritas são documentos e tratados de compra ou empréstimo que foRevista Santa Cruz


ram preservados até hoje. Os ancestrais próximos de Fr. Prick foram, portanto, proprietários, administradores ou juízes mencionados nesses documentos. Filho do professor Paulus Hubertus Prick (1874–1929) e de sua segunda esposa, Maria Sofia Odekerleen, Franciscus Paulus Hubertus Prick nasceu em 05/05/1918. Do primeiro casamento do seu pai com Anna Fey nasceu, no ano anterior, seu irmão Hubertus Paulus Franciscus, que se tornou monge trapista (Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância) com o nome de Dom Amandus Prick. Abade de 1956 a 1993 no Mosteiro Uelingsheide, em Tegelen, e superior ad nutum até 2002, Dom Amandus faleceu em 02/09/2016. Franciscus Prick fez os seus estudos primários de 1923 a 1930 na sua cidade natal. Os estudos secundários foram cursados de 1930 a 1937. Após concluir os estudos secundários, ingressou no noviciado franciscano em Bleyerheide, província de Limburgo, em 07/09/1937, com dezenove anos de idade. Adotou, durante o período pré-conciliar, o nome religioso de Aureliano. Sua primeira profissão ocorreu em 08/09/1938 e Profissão Solene em 08/09/1941, em Alverna. Cursou Revista Santa Cruz

Filosofia em Venray. A Teologia foi cursada em Wijchen, Weert e Bleijerheide. Seu desempenho nos estudos das disciplinas desse período oscilava de “duvidoso” a “mais que suficiente”. Foi ordenado presbítero em 19/03/1944, em Weert, por Dom Theodorus Antonius Leonardus Maria van Roosmalen.

Em terras gaúchas e no Vale do Jequitinhonha Dois anos depois da ordenação, Fr. Prick veio para o Brasil, em 1946. Ele narrou em primeira pessoa a sua vinda em um manuscrito guardado em sua pasta no arquivo provincial: Depois de terminar a Segunda Guerra Mundial e o mar estando livre de minas, transpassei o oceano em junho de 1946 em companhia de cinquenta padres e religiosos de diversas congregações (sendo dezoito franciscanos) e quarenta cabeças de gado holandês rumo ao Brasil. Foi no começo de julho que cheguei ao meu primeiro destino [no Brasil], Teófilo Otoni, depois de três semanas de viagem. Em Teófilo Otoni Fr. Prick permaneceu por sete meses, até

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fevereiro do ano de 1947, para o aprendizado da língua portuguesa. Talvez Fr. Prick tenha sido, entre os missionários que chegaram à Província Santa Cruz, um dos que tiveram dificuldade em dominar a língua portuguesa. Pelo menos na forma falada da língua, expressava-se com um forte sotaque estrangeiro. Depois da sua breve passagem por Teófilo Otoni, Fr. Prick foi transferido para o território gaúcho do então Comissariado. Excetuando uma breve passagem por Porto Alegre no ano de 1949, Fr. Prick atuou em duas paróquias do município de Lajeado, RS, nos anos de 1947 a 1962: Vila Fão e Vila Sério. Atuou a maior parte do tempo como coadjutor e somente no período de 1959 a 1962 atuou como pároco de São José de Vila Sério, em meio a comunidades de imigrantes italianos e alemães. Frei Prick sempre falava com orgulho de ter batizado uma criança durante seu trabalho em 1959 em Vila Sério, que foi ordenado bispo anos depois: Dom Gílio Felicio, nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Salvador, na Bahia, em 1998, primeiro negro a chegar ao episcopado nessa arquidiocese. Em 2002, Dom Gílio foi nomeado Bispo Diocesano de Bagé, no Rio Grande do Sul.

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Depois desse período de quinze anos no Rio Grande do Sul, Fr. Prick foi chamado de volta a Minas Gerais, onde exerceu a maior parte do seu ministério, antes de ser transferido para a região metropolitana de Belo Horizonte: 28 anos, de 1963 a 1991. Atuou em Teófilo Otoni, Novo Cruzeiro, Araçuaí e Jequitinhonha. É desse período no Vale do Jequitinhonha que emergem as histórias mais pitorescas e marcantes na vida do confrade, histórias típicas de pequenos fioretis da vida franciscana, principalmente quando a distância temporal já cicatrizou algumas feridas que porventura tenham surgido naquela época nas pessoas envolvidas.

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“O

padre holandês que

sequestrou o cigano”

No início do ano de 1968, Fr. Prick foi nomeado vigário da Paróquia São Bento, em Novo Cruzeiro. Enquanto exercia a função de vigário nesse município da região do Vale do Jequitinhonha, ocorreu um fato digno de nota, conforme noticiado no jornal Estado de Minas, na sua edição do dia 27/06/1969, com o título “Essa é a história do padre holandês que sequestrou o cigano”. Transcrevo-a literalmente a seguir. Há algum tempo, o delegado de Novo Cruzeiro foi procurado pelo padre holandês, que se dizia lesado por um cigano que passou pela cidade com o seu bando. A autoridade enviou radiogramas a todas as delegacias de Minas pedindo a localização do bando. O padre soube que o vigarista estava acampado em Teófilo Otoni e dirigiu-se até esta cidade. Por coincidência, viu um dos ciganos do grupo de Paulo Venotti. Chamou um soldado e mandou prendê-lo, levando-o à presença do coronel Atílio Falieri. O padre queria providências do delegado para apreender um carro do homem preso, Revista Santa Cruz

mas o coronel não concordou, por considerar a medida ilegal. Afinal, o cigano detido nada tinha a ver com a história. Apenas pertencia ao bando de Venotti, argumentou o delegado. O cigano foi posto em liberdade e prosseguiu viagem. Depois, o padre soube que o delegado de Lavras havia prendido um cigano, atendendo ao radiograma de Novo Cruzeiro. Advogados foram contratados e colocaram o suspeito em liberdade. O sacerdote viajou para Lavras mas não encontrou o vigarista por lá e voltou desolado à sua cidade. O padre ficou sabendo que o cigano Paulo Venotti residia em Campinas. Arranjou um jipe e rumou para aquela cidade na companhia de um sargento e dois soldados. A missão era recuperar o jipe, o gravador e a importância de NCr$ 3.500 entregues ao cigano como pagamento do trabalho “douração” das peças litúrgicas. Os vigaristas mandaram dourar e pratear os objetos da Igreja de Novo Cruzeiro com alumínio. O serviço estava contratado em 300 cruzeiros, mas o cigano forjou um contrato

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e exigia 6.500 cruzeiros. Para evitar um escândalo, o padre entregou os 3.500 e mais o gravador e o jipe ao vigarista para garantir o pagamento dos 6.500 cruzeiros novos. O delegado de Campinas foi procurado pelo padre e tentou prender o culpado, mas não o encontrou, limitando-se a ouvir o seu irmão Jorge. Diante disso, o sacerdote e os militares traçaram um plano para o sequestro do irmão do vigarista. Seguiram Jorge Venotti e o sequestraram, quando ele caminhava pelas ruas de Campinas.

do padre havia ultrapassado aquela barreira trinta minutos antes da chegada da ordem. Pouco tempo depois, o capitão Aécio, da Polícia Militar, conseguiu localizar e libertar o cigano, encaminhando-o às autoridades paulistas. O padre holandês e os três militares do destacamento de Novo Cruzeiro estão sendo processados em Campinas pelo sequestro do cigano. A PMMG instaurou inquérito para apurar a responsabilidade do sargento que chefiou a caravana policial.

A viatura do padre deixou Campinas e rumou para Minas. Um menino assistiu ao sequestro de Jorge e levou o fato ao conhecimento do chefe do bando. Imediatamente, a polícia de São Paulo pediu a prisão do padre e dos militares. Foi um alarme geral em todo o País. O cigano raptado é filho de um milionário paulista. O aviso pedindo a prisão do padre chegou à barreira de Teófilo Otoni, às 16h. O inspetor Samuel tomou conhecimento de que o jipe

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Araçuaí: Ação Social Santo Antônio No início do ano de 1973, Fr. Prick chegou a Araçuaí, transferido de Novo Cruzeiro. Ele foi designado para atuar como vigário da Paróquia Santo Antônio e assistente das atividades da “Ação Social Santo Antônio”. Com o encerramento da fraternidade dos frades nessa cidade em 1978, Fr. Prick permaneceu em Araçuaí, residindo e atuando na Ação Social como ecônomo e capelão. Os trabalhos da Ação Social Santo Antônio remontam ao tempo de Dom José de Haas como vigário em Araçuaí. No início da década de 1970, o trabalho ganhou novo impulso com a atuação de Ir. Pacifique Degen, Franciscana Penitente Recoletina, e Fr. Eliseu Tijdink. A ação social, antes atendendo a população vulnerável da cidade em suas próprias residências, ganhou sede própria para atender crianças, adolescentes e idosos, funcionando como orfanato, creche e asilo. Para lá Fr. Prick se mudou em 1978, juntando-se à comunidade das Irmãs Franciscanas. Residia em um dos quartos de hóspedes disponíveis e tomava refeição com a comunidade das irmãs. Uma questão fundamental, entretanto, não foi esclarecida e encaminhada Revista Santa Cruz

adequadamente. A comunidade das irmãs não administrava seus próprios recursos financeiros. Todo o trabalho desenvolvido pelas irmãs e pelos frades era trabalho voluntário. As aposentadorias das irmãs eram destinadas para o caixa comum da Ação Social. O caixa comum, por sua vez, estava sob a tutela do ecônomo da Ação Social, Fr. Prick. Esse arranjo mal-arranjado criava uma situação constrangedora, para dizer o mínimo, para a comunidade local das irmãs. Toda necessidade que demandava dinheiro devia ser comunicada a Fr. Prick, que se incumbia de providenciar o solicitado. Até mesmo a necessidade de roupas íntimas tinha que ser solicitada a Fr. Prick. As religiosas tinham que fazer rodeios e vencer o constrangimento para informar que estavam precisando deste ou daquele tipo de roupa íntima. A situação começou a mudar em 1987, com a chegada de Ir. Imaculada Laranjeira a Araçuaí, depois de finalizar seu mandato como superiora regional das Franciscanas Penitentes Recoletinas. Nessa altura, a Ação Social atendia 40 idosos e 70 crianças. As doações recebidas na Holanda para a Ação Social eram geridas pelo procurador da Holanda na Província Santa Cruz

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nessa altura, Fr. Abel Snel. Ele, por sua vez, em diálogo com Ir. Imaculada, propôs-lhe que a administração desses recursos fosse transferida diretamente para a Ação Social. Junto com a gestão desses recursos recebidos na Holanda, era necessário encaminhar a situação do caixa próprio da comunidade das irmãs, separando-o do caixa da Ação Social. Aquilo que deveria ser um processo normal e natural (basta observarmos que hoje a política do caixa da fraternidade distinto do caixa paroquial é consenso na PSC, além da remuneração do trabalho pastoral desenvolvido pelos frades) não foi naquela altura. A razão provável, arriscando um juízo que pode estar errado em parte ou em sua totalidade, devese à personalidade de Fr. Prick e, particularmente, à sua relação com o dinheiro. Pessoalmente, Fr. Prick foi um frade de vida simples e pobre. Entretanto, sua relação com o dinheiro manifestava uma neurose acentuada, para dizer o mínimo. As irmãs franciscanas em Araçuaí, certamente, tiveram que enfrentar essa dificuldade nesse período em que Fr. Prick residiu na Ação Social. A gota d’água do esgarçamento das relações entre o frade e as

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irmãs, entretanto, ocorreu em decorrência de algo banal. Uma das irmãs em Araçuaí, idosa, precisou ir a Belo Horizonte para tratamento médico e não pôde retornar mais a Araçuaí. Irmã Imaculada Laranjeira, depois de um tempo, empacotou os poucos pertences pessoais da irmã em duas caixas e encarregou um conhecido de levá-las para Belo Horizonte. Quando Fr. Prick viu as duas caixas e soube que estavam sendo levadas para Belo Horizonte, começou a acusar a superiora local de estar desviando bens da Ação Social. A acusação foi feita na ausência de Ir. Imaculada, durante a refeição, na presença das demais irmãs. Uma delas não aceitou tal acusação injusta e se recusou, a partir desse momento, a compartilhar a presença de Fr. Prick. Irmã Imaculada, ao tomar conhecimento do atrito, pediu que as duas caixas, que ainda se encontravam na Ação Social, fossem trazidas e, abrindo-as, mostrou o seu conteúdo a Fr. Prick: pequenos pertences pessoais, uma escova de sapato usada, papéis, velhos livros em holandês. Somada a outros atritos, a situação chegou a um ponto sem retorno. No final de 1988, Irmã Imaculada procurou o ministro provincial recém-eleito, Fr. Luciano Brod, e expôs-lhe o histórico de conflitos Revista Santa Cruz


que vinham se acumulando. Esses fatos, somados à necessidade de se resolver a situação de um frade de setenta anos, há mais de dez residindo fora de uma fraternidade de frades, acarretou a decisão de transferir Fr. Prick para a fraternidade mais próxima: Jequitinhonha. A transferência, entretanto, foi custosa. Demandou a ida do provincial e de seu vigário, Fr. Gerando van Buul, mais de uma vez, a Araçuaí. São interessantes os subterfúgios de que os frades, indistintamente – e Fr. Prick não foi exceção – lançam mão, vez ou outra, para não acolherem transferências recebidas. Na carta aberta à comunidade de Araçuaí, Fr. Prick afirma: Como uma peça da engrenagem, uma parte integral da ASSA e vice-versa, a ASSA faz parte da minha vida de tal forma que, como parece, não posso mais viver feliz sem ela. [...] Chegou para mim a hora de afastar-me totalmente ou parcialmente desta obra, que pensava de ser uma tarefa com que iria passar os anos da minha vida, que me restam ainda. [...] Uma consequência de eu ir-me embora daqui por ordem do superior é que tenho que me afastar da ASSA como presidente Revista Santa Cruz

ou membro da diretoria, consequência não prevista ou sabida pelo superior. Por isso falei [da necessidade] de um afastamento parcial, em consideração dos problemas estruturais, financeiros, de sucessão e de disponibilidade e atendendo a um desejo popular das massas e assim podendo continuar dando alguma assistência espiritual dentro das normas da diocese. Terminava, assim, um importante capítulo na vida do nosso confrade. Deixando de lado os conflitos decorrentes de parte de sua personalidade, outro lado não menos importante da sua vida, aquilo que, com o decorrer dos anos, foi decantado como o seu mais autêntico “eu”, Fr. Prick era uma pessoa alegre, acolhedora e querida por todos aqueles que passaram pela Ação Social. A vida da maioria de nós situa-se numa zona cinzenta entre a mais absoluta claridade e a mais espessa treva. Com Fr. Prick não era diferente: pessoa zelosa, mas sem trato; fraterno com as crianças e os idosos e duro com os funcionários; uma pessoa alegre, que rolava no chão brincando com as crianças, mas de difícil convivência. Ele viveu, até ao fim da sua vida, por onde ele andou depois de Araçuaí,

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com a presença dos seus “filhos e filhas” da Ação Social em Araçuaí, que o visitavam regularmente.

Humor:

amor com

H

Um palhaço, no sentido mais autêntico do termo. Esse foi um dos traços da personalidade de Fr. Prick. O palhaço é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. O palhaço não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é um personagem, ele é o próprio ator expondo-se, mostrando sua ingenuidade. É próprio do palhaço vestir-se, transmutar-se com sua roupagem interior, avessar-se, virar-se pelo avesso para vestir-se

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com aquilo que, interiormente, ele é. Essa natureza “palhaciana” e momesca de Fr. Prick talvez possa ser explicada, em parte, pela sua cidade natal, Maastricht, um de seus orgulhos. Maastricht é famosa pelo seu carnaval. Nos Países Baixos, a tradição de comemorar o carnaval é mais comum no sul, de maioria católica, onde se situa Maastricht. Já o norte, de maioria protestante, não festeja o carnaval. Em pleno inverno, no sábado de carnaval, o prefeito da cidade dá a chave ao Príncipe do Carnaval. É ele quem toma conta da cidade, que passa a se chamar Mestreech (como se

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chama a cidade no dialeto local) e as cores da bandeira – vermelha e branca – dão lugar ao vermelho, amarelo e verde, que lembram as roupas de um bobo da corte. No acervo de fotos de Fr. Prick, não faltam imagens dele fantasiado, maquiado, vestindo diferentes personagens, sempre bem-humorado e despertando risos. Frei Prick fez sua páscoa definitiva no dia 28/02/2018. Faleceu em Divinópolis, para onde ele havia sido transferido quatro meses antes, devido à reforma da ala da

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enfermaria da Fraternidade São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte. Antes da sua presença nessa fraternidade em Belo Horizonte, ele residiu em diferentes fraternidades em Betim e na fraternidade de Ribeirão das Neves. Nessa fraternidade em Ribeirão das Neves, no Sítio Rivotorto, ele descansa. Cada geração de frades da nossa PSC gesta frades que, de um modo diferenciado e especial, ocupam nossa memória afetiva e institucional. Frei Prick, claramente, é um desses irmãos.

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Reflexoes

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MINERAÇÃO – DESAFIOS E EXIGÊNCIAS PASTORAIS

Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, OFM Viver em risco permanente é o que nos revela a realidade da mineração. Diante da reincidência do crime de rompimento de barragens, em particular, o da Samarco (Vale e BHP Billiton) em Mariana, em 2015, e o da Vale em Brumadinho, em 2019, com muitas pessoas mortas e grande destruição ambiental, a mineração se desmascara diante dos olhos da população, como um negócio perverso, que gera riqueza para poucos, com o apoio dos poderes do Estado.

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Não só as barragens que se rompem, que matam, mas também as que no cotidiano contaminam, num crime invisível. Basta olharmos, Minas Gerais, para os riscos constantes da disposição de rejeitos com arsênio e cianureto, advindos da extração de ouro, pela mineradora Kinross, em Paracatu, ou dos rejeitos de material radioativo urânio, tório e rádio, depositados em uma mina de extração desativada de urânio, das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), empresa ligada ao Ministério de Minas e Energia, em Caldas. A contaminação de bário, cujos efeitos já duram por 37 anos, resultante de infiltração a partir dos rejeitos da mineração de nióbio, da mineradora CBMM, em Araxá. Trata-se de contaminações que carregam uma história de doenças e de centenas de mortes.

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Após o crime da Vale em Brumadinho, inúmeros alertas vão se multiplicando. Isso pode parecer, à primeira vista, como que se, do nada, mineradoras e a Defesa Civil do Estado de Minas Gerais tenham começado a reportar à sociedade uma série alarmante de elevação do risco de colapso das estruturas de barragens de rejeitos. Contudo, o fato é que se tornou impossível manter escondido aquilo que setores da sociedade civil, comunidades, organizações e movimentos sociais já denunciavam há tempos: a falta de segurança e o risco estrutural constantes na disposição de rejeitos. A partir dessa revelação, a incerteza invadiu a vida de milhares de pessoas. Populações em municípios como os de Nova Lima, Rio Acima, Ouro Preto, Barão de Cocais, Santa Bárbara, Belo Vale, Itabirito e Congonhas foram surpreendidas com acionamento de sirenes e a remoção de pessoas. Medidas de segurança, placas indicando “rotas de fuga” e “pontos de encontro” foram instaladas, além de sirenes. Tornou-se público que populações vivem em áreas chamadas de Zonas de Autossalvamento (ZAS), ou melhor dizendo, Zonas de Risco de Morte, onde uma vez acionadas as sirenes, cabe aos

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moradores correrem. Foi imposto em vários territórios urbanos e rurais o protocolo do Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM). Um sentimento de insegurança se espalhou por várias regiões de um estado historicamente espoliado pela mineração. Em muitos municípios são anunciadas reuniões com as empresas. O povo é convocado. Mapas, explicações técnicas, discussões e promessas são apresentadas. As pessoas se descobrem como atingidas pela mineração. O Estado, em estreita relação com as mineradoras, reforça a lógica perversa das mesmas, a de que para a população cabe estabelecer uma nova rotina, “permanecer atenta aos chamados de emergência” e correr, fugir, quando necessário. Minas Gerais se mostra então refém das mineradoras. O que estamos vivendo é uma política cuja estratégia é o abandono de ações de defesa e de combate contra a mineração predatória, irresponsável e de alto risco, para dar lugar a uma gestão de convivência com tais riscos. Opta-se por impor nos territórios ações de previsão antecipada, mapeamento, estabelecimento de equipamentos de segurança e de alarme, rotas de fuga e treinamentos, tudo sincronizado Revista Santa Cruz


com ações do sistema da Defesa Civil. Uns dirão que se trata de criar comunidades resilientes. Um nome bonito para definir uma comunidade que sabe fugir, correr na hora certa e se esconder; que cede seus modos de vida, suas formas de sobrevivência, suas moradias, histórias, tradições, cultura e terras; que se prepara para conviver com o desastre, que aceita a invasão de empreendimentos que matam e destroem; que se acostuma a viver sob tensão para que os lucros de corporações extirpem a vida e a alma do povo, em nome de uma adaptação propagandeada como capacidade humana de superar as adversidades. Naturaliza-se, assim, o crime, como parte do cotidiano. Capturadas pelas mineradoras, as instituições do Estado se rendem e negam o direito das populações em seus territórios; flexibilizam a legislação de proteção ambiental, facilitam concessões de licenças; permitem o automonitoramento por parte das empresas. Nos casos de grandes ameaças, desastres e crimes, com lama real ou invisível, cria-se uma verdadeira fábrica de acordos (Termos de Ajuste de Conduta), onde atingidos e vítimas são levados a sentar à mesma mesa com agressores, criminosos, sujeitando-se a suas vontades. Quem tem o controle dos territórios Revista Santa Cruz

atingidos ou sob ameaça, quem controla as cenas dos crimes, são aqueles que os perpetram, as mineradoras. Nesse processo de acordos, as mineradoras são descriminalizadas e o Estado reforça o poder destas nos territórios. Uma vez empoderadas, as mineradoras dividem as comunidades e aumentam suas propriedades, negócios extrativos e lucros. Empurra-se para fora dos territórios a população, destroem-se territorialidades e se redesenham os territórios, suprimindo a diversidade da vida e dos elementos da natureza. O modelo minerário está em colapso. O que está desmoronando, no município de Barão de Cocais, é um talude da cava da mina do Gongo Soco, cujo impacto pode resultar no rompimento da barragem sul superior, cuja estabilidade já apresentava condição crítica de estabilidade. Diante desse quadro, grandes são os desafios para nossa ação pastoral. Os crimes de rompimento de barragens de rejeitos, a insegurança constante dos processos de mineração têm se afirmado como causadores de dor e tristeza, apreensão, insegurança e medo. Podemos encontrar algumas pistas pastorais a partir

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do que se vive em Brumadinho. Bom ressaltar que se trata de uma Igreja que sofre e ao mesmo tempo escuta e acolhe. Desde os primeiros dias após o crime da Vale, em Brumadinho, a Arquidiocese de Belo Horizonte assumiu três atitudes, formas de aproximação, que se transformaram em base para uma ação pastoral junto às pessoas. O rompimento ocorreu numa sexta-feira, dia 25 de janeiro e, no dia seguinte, no sábado à noite, a comunidade de Brumadinho, junto aos bispos da Arquidiocese de Belo Horizonte, padres e seminaristas, celebraram uma missa em meio à dor e à incerteza de tantos mortos. Das homílias, eu resgato o que passou a serem realmente as três formas de aproximação e ação pastoral. A primeira vem da homilia de Dom Vicente Ferreira, que falou da compaixão, de estar junto, chorar junto, viver e sentir junto. A paróquia se abriu como espaço de acolhida, o próprio Dom Vicente, responsável pelo Vicariato daquela região, transferiu-se para Brumadinho. A segunda vem da homilia de Dom Joaquim Mol, ao explicitar de forma clara que o ocorrido se trata de um homicídio coletivo e de um crime ambiental. O trabalho de compreender o que houve, de fortalecer uma narrativa consciente sobre a realidade da

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mineração, do papel do Estado e de não se deixar enganar nos processos de negociação é parte do trabalho pastoral desenvolvido desde os primeiros dias, quando se organizou a primeira equipe pastoral. A terceira dimensão vem da homilia de Dom Walmor Oliveira, que afirmou o compromisso de lutar para se construir um novo modelo de desenvolvimento. Não se pode continuar vivendo num modelo baseado no lucro a todo custo e para poucos, de desastre em desastre. Um trabalho pastoral com dimensão política e social está se construindo aos poucos. O que ocorreu em Mariana e Brumadinho e o que vai ocorrer, com a permissão de mineração na Serra da Piedade, apontam para um desafio constante em relação à mineração. A primeira aproximação pastoral, no campo da presença, da compaixão, do estar junto e até mesmo no silêncio, encontra uma orientação na Carta Apóstolica Misericordia et Misera, na qual o Papa Francisco nos exorta: “[...] Quanta amargura perante a morte das pessoas queridas! E, todavia, Deus nunca está longe quando se vivem estes dramas. Uma palavra que anima, um abraço que te faz sentir compreendido, uma carícia que deixa perceber o amor, uma oração que permite ser Revista Santa Cruz


mais forte... são todas expressões da proximidade de Deus através da consolação oferecida pelos irmãos. Às vezes, poderá ser de grande ajuda também o silêncio; porque em certas ocasiões não há palavras para responder às perguntas de quem sofre. Mas, à falta da palavra, pode suprir a compaixão de quem está presente, próximo, ama e estende a mão. Não é verdade que o silêncio seja um ato de rendição; pelo contrário, é um momento de força e de amor. O próprio silêncio pertence à nossa linguagem de consolação, porque se transforma num gesto concreto de partilha e participação no sofrimento do irmão” (MM 13). Essa aproximação pastoral da compaixão encontra, na compaixão de Jesus, sua espiritualidade, expressão e força pastoral. Uma compaixão que não nos paralisa, mas nos abre para os outros, que é corajosa, e nos lança para a organização e a missão de promover a vida (Mc 6.30-56). Bem nos fala Papa Francisco da compaixão de Jesus, em sua Exortação Apostólica sobre o chamado à santidade no mundo atual, Gaudete et Exultate: “Olhemos para Jesus! A sua entranhada compaixão não era algo que O ensimesmava, não era uma compaixão paralisadora, tímida ou envergonhada, como Revista Santa Cruz

sucede muitas vezes conosco. Era exatamente o contrário: era uma compaixão que O impelia fortemente a sair de Si mesmo a fim de anunciar, mandar em missão, enviar a curar e libertar. Reconheçamos a nossa fragilidade, mas deixemos que Jesus a tome nas suas mãos e nos lance para a missão. Somos frágeis, mas portadores dum tesouro que nos faz grandes e pode tornar melhores e mais felizes aqueles que o recebem. A ousadia e a coragem apostólica são constitutivas da missão” (GE 131). A partir da presença e compaixão, gesto concreto de partilha, que escuta, que organiza solidariedade e se constrói uma Igreja em saída, em direção ao outro, ao diálogo que se abre para uma pastoral que leve a uma compreensão maior, de que aquilo que está em jogo é a necessidade de construção de novas relações na sociedade, e para com o planeta. O Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si’ nos diz que tudo está “interligado”, “inter-relacionado”, que existe uma relação entre “a natureza e a sociedade que a habita” (LS 139). Ele, a partir de Francisco de Assis, fala em “ecologia integral”, e nos diz que em São Francisco “podemos ver como são inseparáveis a preocupação com a natureza, a justiça com os pobres,

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o compromisso com a sociedade e a paz interior” (LS 10). Ele também afirma: “Seu testemunho também nos mostra que uma ecologia integral requer abertura para categorias que transcendem a linguagem da matemática ou da biologia e nos conectam com a essência do humano” (LS 11). A ecologia integral parte da necessidade de “pensar e discutir sobre as condições de vida e sobrevivência de uma sociedade, com honestidade para questionar modelos de desenvolvimento, produção e consumo” (LS 138), evitando “conhecimento fragmentado e isolado” (LS 138). No capítulo 5, da Laudato Si’, o Papa fala sobre “Algumas Linhas de Orientação e Ação”, e fala sobre “política e economia no diálogo para a realização humana”, nós temos: “Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana” (189). “Além disso, quando se fala de biodiversidade, no máximo pensa-se nela como um reservatório de recursos econômicos que poderia ser explorado, mas não se considera seriamente o valor real das coisas, o seu significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos pobres” (LS 190).

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Um passo importante no campo pastoral, a partir das exigências de Brumadinho e visando a uma ação pastoral mais ampla na questão da mineração, levou a CPT (Comissão Pastoral da Terra), o CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores), a Cáritas Brasileira Regional Minas Gerais e o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) a constituir um nó da Rede Latino-Americana Igrejas e Mineração, em Minas Gerais. Essas organizações já atuavam pastoralmente em várias regiões do estado de Minas Gerais, em áreas atingidas por mineração. A proposta agora é aprofundar a formação de agentes de pastoral, buscar um trabalho integrado e com uma visão mais ampla e sistêmica da questão da mineração e da atuação do setor minerário. Para a Rede Igrejas e Mineração, além da Laudato Si’, do Papa Francisco, a Carta Pastoral do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), lançada em 2018, sobre Ecologia Integral à luz da Encíclica Laudato Si’ – “Discípulos Missionários Guardiões da Casa Comum: Discernimento à luz da Encíclica Laudato Si” – são dois documentos base para o trabalho ligado às questões da mineração. Essa Carta Pastoral do CELAM trata dos “principais desafios que a Ecologia Integral apresenta ao Revista Santa Cruz


nosso continente, faremos uma pausa, em particular, para analisar o impacto das atividades extrativistas em nossa Casa Comum, especialmente aquelas relacionadas à mineração” (CP CELAM10) [...] queremos chamar a atenção para o fato de que o paradigma “reducionista” e “eficientista” (LS 104) da tecnocracia é absolutamente contrário a uma economia a serviço da vida humana e dos ecossistemas com sua grande biodiversidade. É necessário ter em mente que a causa da dramática crise ecológica advém justamente das intervenções técnicas do ser humano em larga escala em nosso mundo. Na mineração, por exemplo, as novas tecnologias podem remover milhares de toneladas de terra em um tempo muito curto e, assim, gerar impactos imensos so-bre o meio ambiente. Mas também exis-tem riscos frequentes, como a ruptura das barragens de rejeitos (como é o caso do crime ambiental de Mariana, no Brasil). Os múltiplos derramamentos de óleo são uma triste manifestação de que nenhuma Revista Santa Cruz

tecnologia é perfeita e que toda tecnologia, inclusive a mais desenvolvida, tem seus riscos de fracasso, muitas vezes irreversíveis. Por causa do grande poder que a tecnologia dá aos seres humanos, tem que discernir, com muito cuidado e cautela, seu uso e seus múltiplos impactos” (CP CELAM93). Em termos pastorais, tudo está em construção, numa realidade e conjuntura que mudam a cada instante, abrindo novas exigências. Um caminho de aprendizagem e de comunhão com o povo e a natureza.

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“NÓS VOS ADORAMOS, SANTÍSSIMO SENHOR JESUS CRISTO...” A PROPÓSITO DO USO DE UMA ORAÇÃO MEDIEVAL, ADOTADA POR SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Frei Joaquim Fonseca de Souza, OFM O presente texto pretende ser uma contribuição para melhor uso da oração “Nós vos adoramos...”, na prática litúrgica diária dos frades menores. A reflexão dar-se-á sob três aspectos, a saber: seu uso na tradição franciscana, o sentido bíblico-litúrgico do termo ‘adoração’ e uma sugestão para o uso adequado dessa ‘devoção franciscana’. 1. Na tradição franciscana Além da citação expressa pelo próprio São Francisco em seu Testamento1,há, nas fontes hagiográficas, informações de que essa oração era praticada pelos frades, a mando do Poverello de Assis2. Proveniente do uso litúrgico medieval, essa oração fora conservada no atual Lecionário Santoral, como versículo da aclamação ao evangelho, da festa da Exaltação

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da Santa Cruz (14 de setembro). Na piedade popular, a prece “Nós vos adoramos...” continua sendo dita, em nossos dias, antes de cada estação da Via-Sacra. Duas fontes hagiográficas nos levam a intuir qual o momento e quais os respectivos gestos (rituais), utilizados pelos frades, quando rezavam a oração “Nós vos adoramos...”. Juliano de Espira assim se expressa: “Com humildade, os irmãos colocaram isso em prática e, considerando esta palavra simples uma ordem a ser obedecida, inclinavam-se também para as igrejas que podiam ver ao longe e adoravam, prostrados por terra, como lhes fora ensinado”3. Na mesma esteira, a Legenda dos três Companheiros diz: “Quando Revista Santa Cruz


encontravam alguma igreja ou cruz, inclinavam-se em oração e, devotamente, diziam: ‘Nós vos adoramos...’. Pois eles, em todo lugar em que encontrassem uma cruz ou uma igreja, acreditavam sempre ter encontrado um lugar de Deus”4.Desses dois testemunhos, além da expressiva gestualidade (inclinação, prostração), se deduz que essa prece de adoração era feita no momento em que os frades deparavam com tais ‘sinais sagrados’ (igrejas, cruz). 2. Aprofundando o sentido da “adoração” A oração de que falamos inicia-se com o verbo “adorar” que, por sua vez, vem do latim adorare, cujo significado é: orar, pedir orando, render culto, prostrar-se, ajoelhar, venerar, reverenciar5.... Na tradição judaico-cristã, diversos textos sagrados nos reportam à atitude dos que se põem em adoração: “Vinde adoremos e prostremo-nos por terra e ajoelhemos ante o Deus que nos criou...” (Sl 95/94); “Eu, porém por vossa graça generosa, posso entrar em vossa casa. E, voltado reverente ao vosso templo, com respeito vos adoro” (Sl 5,8); “As nações todas hão de vir perante vós e, prostradas, haverão de adorar-vos, pois vossas justas decisões são manifestas” (Ap 15,4). Revista Santa Cruz

Na tradição litúrgica, especialmente na Celebração Eucarística e na Liturgia das Horas, o momento da ‘adoração’ corresponde aos ritos iniciais. Atendendo ao convite de Deus, a assembleia se põe na presença daquele que a convocou e, de “coração contrito e humilde”, prepara-se para a escuta da Palavra. Não raro, algumas antífonas de “Entrada” da Missa falam explicitamente de gestos de ‘adoração’: “Que toda terra se prostre diante de vós, ó Deus, e cante louvores ao vosso nome, Deus altíssimo6”; “Entrai, inclinaivos e prostrai-vos: adoremos o Senhor que nos criou, pois ele é o nosso Deus7”; “Ao nome de Jesus todo joelho se dobre, no céu, na terra e nos abismos; e toda língua proclame, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor8”. A ‘adoração’ também aparece explícita no “Glória”: “Senhor Deus, rei dos Céus, Deus Pai todo-poderoso, [...] nós vos adoramos...”. Quanto à Liturgia das Horas, no primeiro Ofício de cada dia, canta-se um salmo invitatório, com seu convite expresso à adoração: “Vinde, adoremos, e prostremo-nos por terra, e ajoelhemos ante o Deus que nos criou9...”. Este salmo, quase sempre aparece emoldurado por antífonas que

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reforçam o convite à adoração: “Vinde, adoremos, o Rei que vai chegar”10; “Vinde, adoremos, o Senhor que já está perto”11; “Jesus por nós nasceu: vinde todos adoremos”12; “A Jesus que se revela, vinde todos, adoremos”13; “Cristo por nós foi tentado, sofreu e na cruz morreu. Vinde, todos, adoremos”14 etc. No Ofício Divino das Comunidades, o convite à adoração é feito solenemente na “Abertura” do Ofício da manhã: “Venham, adoremos, Cristo ressurgiu! A criação inteira, o Senhor remiu”15; “Venham, adoremos a nosso Senhor, vem vindo em sua glória nosso Salvador”16; “Hoje um Salvador para nós nasceu, alegres, adoremos, ele é nosso Deus”17; “Venham, adoremos a nosso Senhor, a preparar sua Páscoa ele nos chamou”18; “Venham, adoremos a nosso Senhor, com a Virgem Maria, Mãe do Salvador”19 etc. Em suma, pode-se afirmar, sem qualquer hesitação, que a prática de São Francisco e dos primeiros frades de rezar o “Nós vos adoramos...” — assim que avistavam ou entravam em alguma igreja — corresponde ao sentido bíblico-litúrgico de vincular a ‘adoração’ com os ritos iniciais, tanto da Eucaristia, como da Liturgia das Horas.

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3. Quanto ao uso adequado dessa ‘devoção franciscana’, em nossos dias Uma vez que a oração “Nós vos adoramos...” é parte integrante da ‘devoção franciscana’ e, levando em conta o que foi dito até aqui, seu uso mais adequado é antes do início da Liturgia das Horas, bem como prelúdio de algum exercício de piedade como o “Rosário”, a “Via-Sacra”, a “Adoração ao Santíssimo Sacramento”. Melhor ainda se essa oração fosse utilizada como um “refrão meditativo”, como se costuma fazer na “Chegada” do Ofício Divino das Comunidades. Feito isso, dispensa-se, obviamente, seu uso no final de qualquer momento de oração. --------------------------------------

NOTAS:

[1] “E o Senhor me deu tão grande fé nas igrejas que, simplesmente, eu orava e dizia: Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que há no mundo, e vos bendizemos, porque, pela vossa santa cruz, remistes o mundo” (Test 4-5). [2] Cf. 1Cel 45,2-6; Jul 27,1-3; LM IV.3,4; LTC 37,2-3. [3] Jul 3. Grifo nosso. [4] LTC 37,2-3. Grifo nosso. [5] Cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. [6] Antífona de entrada do 2º Domingo do Tempo Comum. [7] Antífona de entrada do 5º Domingo do Tempo Comum.

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[8] Antífona de entrada da Memória do Bem-Aventurado Inácio da Azevêdo, presbítero, e seus companheiros mártires (17 de julho) e de Santo Inácio de Loyola (31 de julho). [9] Sl 95(94). [10] Advento, até 16 de dezembro.

[13] A partir da Epifania. [14] Quaresma. [15] Domingos do Tempo Comum. [16] Domingos do Advento. [17] Natal e Tempo do Natal.

[11] Advento, após 16 de dezembro.

[18] Quaresma.

[12] Natal até Epifania.

[19] Festas e memórias da Virgem Maria.

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A VISITA CANÔNICA DO SUPERIOR RELIGIOSO E A QUESTÃO DOS LIVROS PAROQUIAIS

Frei Alexsandro Rufino da Silva, OFM 1. Premissa A visita canônica tem um caráter específico e oficial, distinguindo-se, deste modo, de outros tipos de visitas como, por exemplo, a visita fraterna. Aquela acontece com uma periodicidade definida pelo direito próprio e contempla a dimensão espiritual, pessoal, apostólica e institucional. A visita canônica do Superior religioso consiste, em primeiro lugar, na animação fraterna dos religiosos e também contempla a

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acurada verificação da vida interna da fraternidade que vem a ser visitada, bem como a intensidade do testemunho evangélico dos frades e da fraternidade, segundo a Regra e o direito próprio do Instituto religioso. É, em segundo lugar, um momento oportuno não só de tomar conhecimento e de interagir com as ações apostólicas mantidas ou dependentes da fraternidade, mas também de conviver a comunidade eclesial e local, com as pessoas e instituições, aferindo potencialidades e limites inerentes à própria atuação dos religiosos, da Igreja e dos entes sociais. 2. Panorama histórico ou instituto da visita canônica As origens do instituto da visita canônica remontam à prática apostólica (1Cor. 4, 18-19). Segundo Clemente Romano, a

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finalidade da visita consistia em confirmar a comunhão na fé, a integridade doutrinal e moral, e a promoção da paz, da concórdia e do aperfeiçoamento espiritual dos fiéis (Primeira Carta aos Coríntios, LXV). Nos primórdios eclesiais, então, a visita vinculava-se ao labor pastoral do epíscopo, recebendo, pois, do Concílio Tarraconense (516) as primeiras normas canônicas regionais e, somente mais tarde, por volta da época carolíngia, é que se tem notícia de normas comuns que passaram a disciplinar o citado instituto na universalidade da Igreja. De toda maneira, o Corpus Iuris, especialmente no Decreto (1140), trata o instituto na sua parte II e demonstra que este era uma prática habitual na vida da Igreja. No entanto, a partir do século XIII, o mencionado instituto passou por uma fase de decadência, sendo posteriormente revigorado pelo Concílio de Trento e, nesta esteira, integrado ao Código Pio-beneditino (1917) e à normativa eclesial vigente. A normativa atual reconhece uma ampla tipologia do gênero visita canônica. Esta pode ser qualificada, de forma mais específica, como visita ordinária ou extraordinária; local, pessoal ou geral; informativa, corretiva ou reformativa; fraterna, admiRevista Santa Cruz

nistrativa ou judicial. O sujeito que realiza a visita pode ser o bispo diocesano, o metropolita, o ordinário ou ordinário do lugar e, no caso dos Institutos Religiosos, o Superior religioso. A visita, geralmente, é realizada pela própria autoridade eclesial competente, não excluindo a possibilidade de ser delegada a outro sujeito. 3. Objeto da reflexão ou a competência do visitador Focaliza-se nesta reflexão e de forma bem particularizada somente a visita canônica realizada pelo Superior no contexto de um instituto religioso pontifício. Tal visita contempla os frades, as fraternidades (casas) e atuação destes na vida da província, da Igreja e na animação cristã da sociedade. Neste sentido, sob o termo Superior compreende-se, então, o sujeito que realiza a visita, quer seja ele o visitador provincial ou o geral. Explicita-se, assim, que o preciso objeto desta reflexão consiste no seguinte questionamento: o Superior é ou não competente para verificar os livros paroquiais de uma paróquia que está sob os cuidados pastorais de um membro do mesmo instituto religioso? A questão poderia criar algum estranhamento porque extrapo-

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la o objeto específico da visita canônica realizada num Instituto Religioso. No entanto, ainda que hipoteticamente, a questão justifica-se, de um lado, em face de uma eventual interpelação que poderia surgir no curso da visita canônica do Superior e, de outro lado, o mencionado questionamento não deixa de ser uma oportunidade para revisitar o direito próprio e dele colher o objeto específico e os confins canônicos que disciplinam a dita visita. 4. Disposições canônicas ou normativa própria, doméstica e universal A fim de favorecer um entendimento cristalino sobre o supracitado questionamento, é oportuno averiguar a normativa do direito próprio da OFM. Este, em nível de Ordem, trata a visita canônica nas Constituições Gerais (CG, art. 199 e 213), nos Estatutos Gerais (EG, art. 162-164 e 184 §2) e também nos Estatutos peculiares da visita canônica (EPVC). Detendo-se exclusivamente nas disposições dos mencionados Estatutos peculiares, visto que eles têm o condão de concretizar as gerais disposições da Ordem, encontra-se a seguinte conceituação de visita canônica: “uma acurada verificação” não só rela-

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tiva ao “governo, vida e missão” da província, mas também concernente à “vida e missão dos frades” a ela pertencentes (EPVC, art. 1). O objeto específico da visita canônica, neste sentido, consiste em visitar “os frades e as casas” provinciais (idem, art. 2 §2), princípio este também substancial e formalmente presente nos Estatutos Gerais (EG, art. 184 §2), embora na ordem inversa, e no §1o cânon 628 do CIC (também na ordem inversa). Ignorando uma possível polêmica que poderia surgir concernente à primazia da pessoa (frade) sobre as coisas (casa), ou atinente à concorrência ou convergência destes elementos, direciona-se a atenção para o Estatuto Provincial da PSC, direito próprio e particular que disciplina a vista canônica nos artigos 83-92, sem, contudo, referir-se ou efetuar algum reenvio para os Estatutos peculiares da visita. Colocadas as bases canônicas sobre as quais assentar-se-á a análise do questionamento inicial, ingressa-se, ora, no mérito da questão e, para isso, retoma-se aquele princípio geral que já fora precedentemente colocado em evidência: o Superior é plenamente competente para “visitar todas as casas e os frades” da província, bem como as obras nas quais Revista Santa Cruz


eles atuam, o acervo cultural e patrimonial a eles pertencentes, dentre outras dimensões intrinsecamente inerentes e próprias da fraternidade visitada, não excluindo outras iniciativas dos fiéis que, em força do vínculo comum espiritual com a Ordem, são dependentes, associadas ou cultivam recíprocos laços com ela, como, por exemplo, mosteiro da II Ordem, Ordem Franciscana secular, etc. (EPVC, art. 15). Esse princípio estabelece os confins canônicos da visita canônica no âmbito de um Instituto Religioso. Ele evidencia que a visita canônica é circunscrita à própria realidade do mesmo instituto ou da fraternidade que vem a ser visitada. Concretamente, isto diz respeito à índole interna ou à identidade, vida e missão daquela fraternidade, por isto, legítima e plenamente o Superior é competente para acuradamente verificar todas as dimensões e instituições da mencionada fraternidade, sendo, além disso, competente para verificar não só seus livros e ali lavrar o termo de visita, como também o livro especial de missas de uma Igreja própria ou de um lugar pio (CIC, can. 945-958; can. 119 5o) e a reta aplicação da norma eclesiástica acerca das pias vontades e fundações Revista Santa Cruz

(CIC, can. 1300 e 1303). Nessa esfera interna da visita canônica, o Superior frui de autoridade total, (segundo o tipo da visita e relativo aos seus fins), executiva (exceto em caso de reserva do direito), acumulativa e medicinal. Uma vez que a fraternidade visitada participa da missão da Igreja, e os frades que nela habitam prestam seu serviço numa Igreja Particular, especificamente assumindo o cuidado pastoral de uma paróquia (CIC, can. 515; 520 §1), ressalta-se, conforme o §2o artigo 31 dos Estatutos peculiares da visita canônica, que [o] “Visitador indague [investigue] acuradamente se a administração das obras de evangelização, especialmente das paróquias, é distinta da administração dos bens da Província e das Casas e se os registros contábeis de recebimento e de despesas foram devidamente apresentados [exibidos] para a competente autoridade eclesiástica”.1 Preliminarmente, observa-se, de um lado, que o legislador geral da OFM privilegia o princípio da distinção administrativo-financeira, pressupondo a separação da gestão da casa (fraternidade) daquela da obra evangelizadora (especialmente a paróquia). Isso significa não só

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a efetiva separação dos caixas, das contas e da movimentação financeira dos entes mencionados, como também afasta a hipótese de uma provável administração que não distinga claramente as pessoas jurídicas eclesiais acima citadas; ou melhor: que não distinga a gestão da paróquia daquela da casa do instituto religioso – ou fraternidade. A propósito disso, inclusive e fazendo uma digressão no direito canônico e eclesiástico próprio do país, é conveniente salientar que o próprio Acordo Brasil-Santa Sé também acolhe e reitera tal disciplina do direito universal e próprio ao enumerar os diversos entes eclesiais dotados de personalidade jurídica, ou seja, na lista exemplificativa constante no caput do artigo 3o do mencionado Acordo, os supracitados entes (paróquia e Institutos de Vida Consagrada) aparecem precisamente distintos, já que são pessoas jurídicas distintas, bem como distinto é o governo de cada uma. De outro lado, é importante destacar a competência do Superior para indagar, inquirir, sobre a questão administrativa e, concomitantemente, sobre a prestação de contas para a autoridade competente. Concretamente, quem é esta autoridade competente? Como mencionado, o Superior

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é competente para indagar (“inquirat”), porém é incompetente para comprovar ou inspecionar (“comprobare” aut “inspiciat”) aquele registro paroquial e para ali assentar qualquer termo de visita em andamento na fraternidade religiosa – e não na paróquia, visto que ele é Ordinário, mas não Ordinário do lugar. Ora bem, para melhor colher a substância canônica constante no §2o artigo 31 dos Estatutos peculiares já anteriormente citado, é oportuno utilizar o velho e bom princípio da analogia das normas. Deste modo, toma-se da mesma seção do mencionado artigo outras duas disposições a título de comparação: o primeiro item de comparação é o §2o do artigo 30, a saber: “Visitator comprobare debet num leges ecclesiasticae observentur de stipendii et applicatione missarum […]” (o Visitador deve verificar se são observadas as leis eclesiásticas relativas às ofertas e à aplicação das missas) e o segundo item é o §3o do mesmo artigo 31, isto é, “Visitator inspiciat quomodo Provincia solidalis sit cum Ordine universali […]” (o Visitador controle/inspecione como a Província efetua a solidariedade com a Ordem universal). Assim sendo, constata-se, sem muita dificuldade, que a dicção do Revista Santa Cruz


§2o do artigo 31 – que explicita a competência do Superior no tocante aos registros paroquiais – difere clara e substantivamente destes dois últimos itens comparativos (EPVC, art. 30 §2 e 31 §3). Além disso, salienta-se a precisão do legislador a fim de evitar qualquer titubeação. Este utiliza três distintas dicções para três distintas situações (“inquirat”, “comprobare” aut “inspiciat”). A interpretação das mencionadas disposições, nesta ótica, não só deve “ser entendida segundo o sentido próprio das palavras, considerado no texto e no contexto” (CIC, can. 17), como também, salvo melhor juízo, veda, proíbe, qualquer interpretação extensiva da competência do Superior em face dos livros paroquiais. A competente autoridade eclesiástica, neste caso, não é o Superior, mas o Ordinário do lugar (CIC, can. 134 §2; 1287), justamente porque a paróquia, enquanto comunidade de fiéis da Igreja Particular, de um lado, está sob a autoridade (vigilância e controle) do bispo diocesano (CIC, can. 515) e, de outro lado, possibilita que a fraternidade religiosa ali expresse seu carisma religioso e o seu apostolado (CIC, can. 678), sob a vigilância do Superior, excetuando-se aqui os casos de Revista Santa Cruz

paróquias próprias de um Instituto Religioso, segundo privilégio apostólico, e que remontariam indubitavelmente à competência do Superior. Em relação às “tabulae accepti et expensi” (registro de entrada e despesa), o próprio Superior, por ocasião da visita ao Ordinário do lugar e que vem sugerida no artigo 29 dos mesmos Estatutos peculiares, poderia perfeitamente indagar a esta autoridade sobre a prestação de contas de dita paróquia confiada ao Instituto Religioso. No entanto, retomando ainda aquela hipótese de o Superior inspecionar ou fazer questão de supervisionar os livros paroquiais, outra coisa não se poderia dizer senão que tal interpelação é algo que extrapola a sua competência, é um anseio exorbitante ou, nas palavras do falecido cardeal Velasio De Paolis, isso “troppo spesso, proprio per la mancanza di una corretta informazione, dà adito a illazioni prive di qualsiasi fondamento” (frequentemente, devido à falta de uma correta informação, dá origem a ilações privadas de qualquer fundamento)2. Não obstante, poder-se-ia desdobrar a questão e repropô-la de outros pontos de vista, ou seja: seria o bispo diocesano competente para verificar, no curso

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da sua visita canônica ordinária, os livros da casa de qualquer instituto religioso pontifício e ali assentar o termo de dita visita? Evidentemente a resposta é negativa, tendo em vista, de um lado, a justa autonomia do Instituto Religioso que, neste caso, protege a sua vida interna, e, de outro lado, que o objeto da visita canônica ordinária do bispo diocesano é bem distinto do objeto da visita canônica do Superior. Ora bem, retomando a questão inicial: seria o Superior religioso competente para verificar os livros paroquiais e ali assentar o termo da sua visita canônica – que transcorre numa determinada fraternidade religiosa responsável pela administração de dita paróquia? Evidentemente, a resposta é negativa, tendo em vista que tal ação vai além da sua competência, justamente porque ele não é Ordinário do lugar. Além disso, seria o pároco ou administrador da paróquia sob os cuidados do instituto religioso competente para verificar os livros diocesanos e provinciais? Evidentemente, a resposta é negativa, visto que vai além da sua competência. Então, o que minimamente poderia justificar a interpelação de um Superior para verificar os livros paroquiais? Quais seriam as motivações intrínsecas que vão muito além das

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disposições canônicas universais e próprias? Haveria alguma sanção canônica para tal ação de dito Superior? E aquele religioso pároco, sujeito ao “duplo governo”, como deveria agir? Deixando tais questões para outra ocasião mais pertinente, acrescente-se, ainda, que o responsável direto pela paróquia, ou seja, o pároco – ou o administrador paroquial ou ainda o responsável pela equipe “in solidum” – é a figura que a representa em todos os seus negócios jurídicos (CIC, can. 532). Fica claro, deste modo, que não é o Instituto Religioso que é o pároco, tendo em vista que uma pessoa jurídica não pode exercer tal encargo (CIC, can. 520 §1), mas um membro do mesmo instituto que é preposto a tal função pública na Igreja e, como tal, está submetido à vigilância do Ordinário do lugar e do seu ordinário, prevalecendo, assim, o princípio da responsabilidade na administração da coisa pública eclésio-civil. Vê-se, neste diapasão, que aquela alegação de que o Superior é o responsável direto pela paróquia é algo inconsistente. Ele é sujeito ativo e passivo segundo a configuração estipulada com o Ordinário do lugar – e que envolve aqueles sob a sua obediência – acerca do cuidado pastoral de uma Revista Santa Cruz


paróquia, agindo, deste modo, como legítimo representante do instituto religioso a quem compete a apresentação ou indicação do(s) membro(s) preposto(s) a tal tarefa, exercendo sobre este a sua vigilância. Entrementes, tratando-se de três pessoas jurídicas distintas (diocese – instituto religioso – pároco/administrador, etc.) prevalece para cada qual sua competência – nos limites do direito – e segundo o princípio de subsidiariedade. Deste modo, um Superior que se arrogasse ao ímpeto de supervisionar cabalmente os livros paroquiais violaria não só os limites do poder de regime, mas também atentaria contra o convênio estipulado com o representante daquela Igreja particular e contra a própria justa autonomia do religioso pároco (administrador ou coordenador do grupo que age junto). Infere-se, à luz do bom direito e sem rodeios, que se trata de uma situação anômala, contrária à normativa eclesial, e que não se justifica razoavelmente, a não ser por excesso de um ímpeto controlador motivado por pura ignorância das normas eclesiais, posto que cada autoridade eclesiástica deve controlar as pessoas jurídicas que lhes são dependentes e segundo as suas competências milimetricamente estipuladas pelo direito Revista Santa Cruz

universal, próprio e doméstico (Acordo). Ao consolidar, desta feita, as disposições do direito próprio, doméstico e universal colhe-se, à luz dos dispositivos enunciados, que o objeto da visita canônica a um Instituto Religioso consiste, primariamente, na visita aos frades, às fraternidades (casas), suas obras e a atuação pastoral e social destes, bem como na visita a outras instituições ou iniciativas agregadas à fraternidade em força do carisma. Ademais, resulta evidente que o Superior é incompetente para verificar os livros paroquiais, dado que essa competência repousa mansa e serena dentre as atribuições do Ordinário do lugar. 5. Doutrina canônica ou hermenêutica principiológica Como derradeiro ponto desse aprofundamento, referencia-se o entendimento doutrinal canônico sobre o questionamento inicialmente suscitado. Neste sentido, retoma-se o que fora precedentemente indicado acerca do direito universal, ou seja: a normativa canônica sobre a matéria encontra-se no §1o do cânon 628 do CIC. A doutrina canônica, por sua vez, sustenta que na visita canônica

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dever-se-ia encontrar individualmente todos os membros da comunidade (paroquial) e, quando possível, também aquelas pessoas que particularmente estão envolvidas nas atividades próprias da comunidade (paroquial), como, por exemplo, os membros do Conselho pastoral paroquial, caso a comunidade (religiosa) cuidasse de uma paróquia: sem, todavia, adentrar nas questões pastorais que são de competência do Bispo diocesano, mas informando-se, em vez disso, dos serviços que os religiosos realizam na paróquia3. Coloca-se em evidência, nesta esteira, que o próprio termo utilizado pelo legislador eclesial, ou seja, «Superior» (can. 628 §1), indica que a visita canônica diz respeito à índole interna da vida da fraternidade religiosa como anteriormente mencionado. Sendo assim, distingue-se a natureza da visita canônica do Superior religioso daquela do bispo diocesano, pois esta última tem como objeto visitar “pessoas” (clérigos, fiéis leigos, religiosos com cura de almas, associações (de fiéis), comunidades paroquiais), institutos católicos (escolas, centros superiores de ensino, obras de religião e de caridade), “coisas” (utensílios sacros, relíquias, imagens sagradas, legados pios, bens

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temporais eclesiásticos, registros e arquivos paroquiais) e lugares sagrados4. 6. Considerações finais ou critério fundamental inviolável Colocou-se, inicialmente, a questão se o Superior era ou não competente para fiscalizar os livros paroquiais. Na esteira do direito próprio da OFM e da PSC, daquele canônico/eclesiástico do país e do direito universal, comprovou-se que tal competência não lhe diz respeito porque, embora ele seja Ordinário, não é Ordinário do lugar. Posição corroborada tanto pela disciplina do código canônico vigente, quanto pela doutrina canônica em mérito. À luz deste firme e pacificado entendimento, convém sublinhar que o critério fundamental que definitivamente elucida o inicial questionamento não pode ser senão a precisa delimitação operada pelo direito eclesial do âmbito de competência do sujeito que realiza a visita canônica. Essa delimitação preventiva imposta pelo legislador nada mais anseia do que evitar a intromissão de terceiros na seara alheia, uma vez que tal intromissão representaria uma ação que vai bem além do objeto da visita canônica – seja por parte do Superior ou do Ordinário do lugar. Revista Santa Cruz


Os fundamentos expostos, em suma, não só oferecem elementos suficientes para a construção de um reto discernimento diante de uma possível interpelação da autoridade acerca do tema abordado, como também demonstram, de um lado, a limpidez do direito eclesial ao disciplinar o objeto desta reflexão e, de outro, auxiliam a pessoa ou instituição visitada a recorrer, se preciso for e o quanto antes, ao Moderador Supremo do

Instituto Religioso caso aquele Superior se mantenha obstinado na sua intenção de verificar os livros paroquiais (neste caso, o Moderador irá orientar melhor seu delegado acerca do tema) ou, ao contrário, ao competente órgão eclesial se aquele Ordinário do lugar persistir no afã de querer verificar os livros próprios da fraternidade religiosa de direito pontifício.

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NOTAS:

[1] ““Visitator sedulo inquirat num administratio operum evangelizationis, praesertim in paroeciis, distincta sit ab administratione bonum Provinciae et Domorum et utrum tabulae accepti et expensi competenti auctoritati ecclesiasticae exhibitae sint”.

[2] V. De Paolis, I beni temporali della Chiesa, p. 222 (livre tradução). [3] A. Gardin, La visita canonica: considerazione e indicazione pratica, p. 110 - 111 (livre tradução). [4] V. Gómez-Iglesias, Comentario can. 397, p. 974 (livre tradução).

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Frei Michael Perry, OFM – Ministro Geral – e Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina – com o Governo Provincial, em Carlos Prates.

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Revista Santa Cruz - ano 83 - 2019 - n. 1  

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