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Revista

Santa Cruz

Ano 82

2018 Nº 1

Janeiro - Março •••

Fraternidade e Superação da violência


Revista Santa Cruz Ano 82 – 2017 – Edição Nº 1 • Janeiro/Março

Revista dos Franciscanos da Província Santa Cruz Rua Sabinópolis, 50A - Carlos Prates Belo Horizonte - CEP 30710-340 www.ofm.org.br Equipe Provincial de Comunicação Frei Saulo José Duarte Frei Eduardo Vely de Mesquita Frei Kelisson Geraldo Machado Frei Laércio Jorge de Oliveira Assistente de Comunicação Tiago J. Theisen (RP: 0019670/MG) Revisão Ângela Marques Luana Galvão Diagramação Míriam Carla Alves Montagem e impressão Gráfica do Colégio Santo Antônio Coordenador Gráco Denilson Fonseca Expedição Secretaria Provincial


Editoial

A Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema foi “Fraternidade e superação da violência”, objetivou construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência. Desse modo, a CF de 2018 nos convidou a reconhecer a violência em tantos âmbitos e manifestações e, com confiança, fé e esperança, superá-la pelo caminho do amor visibilizado em Jesus Crucificado. Como o Papa Francisco manifestou na sua Mensagem aos fiéis brasileiros por ocasião da Campanha da Fraternidade de 2018, que publicamos nesta edição, "sejamos protagonistas da superação da violência fazendo-nos arautos e construtores da paz”, a Equipe Provincial de Comunicação resolveu trazer a temática da violência para reflexão. Para tanto, trazemos as reflexões “Superar a violência, desafios pós-Campanha da Fraternidade”, de Frei Oton, e “Campanha da Fraternidade 2018: Fraternidade e superação da violência”, de Frei Adilson. Agradecemos a contribuição de Frei Francisco Duarte Júnior, OFM e Frei Francisco Alexandre Viana, OFM. Desejamos a todos uma ótima leitura. Encontramo-nos na próxima edição, que versará sobre o Ano do Laicato.

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Sumáio

I. EDITORIAL ...................................................................................... 03

II. VIDA DA IGREJA Mensagem do Papa Francisco aos fiéis brasileiros por ocasião da Campanha da Fraternidade de 2018 ......................... 08 Homilia do Papa Francisco na Festa da Apresentação do Senhor e XXII Dia Mundial da Vida Consagrada ................................. 10 Mensagem do Papa para a Quaresma 2018 .......................... 13 Carta Placuit Deo aos Bispos da Igreja católica sobre alguns aspectos da salvação cristã .......................................................... 18

III. VIDA DA ORDEM Encontro do Ministro Geral e seu Conselho com os frades das Conferências do Cone Sul (Argentina, Chile e Paraguai) e do Brasil ....................................................................................... 30 Mensagem do Ministro Geral para a Páscoa ....................... 49 Eleito novo governo na Província de Santo Antônio ............... 54 Carta de Belo Horizonte .................................................... 55 Nota de repúdio ................................................................. 57 Curso para formadores, animadores e promotores vocacionais ...... ........................................................................................ 59 Primeiro Encontro Regional de Formação OFS e Jufra ............. 61

IV. VIDA DA PROVÍNCIA Comunicações do Definitório Provincial – Março 2018 .......... 64 Revista Santa Cruz

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Notícias da vida da Província Santa Cruz • Síntese do curso de Franciscanismo .................... 69 • Encontro da Jufra em Divinópolis ....................... 72 • Profissão Solene de Frei Eduardo Vely Mesquita .. ......................................................................... 73 • Visita do Custódio da Terra Santa a Belo Horizonte .... ............................................................................ 76 • Paróquia Santa Isabel realiza assembleia paroquial .. ......................................................................... 78 • Encontro da Faixa Etária VI ........................... 80 • Casa Copacabana... de cara nova! ...................... 81 • Admissão ao Postulantado ............................... 82 • Noviços recebem o hábito franciscano .................... 84

V. MEMÓRIA O Comissariado da Terra Santa no Brasil .......................... 86 Entrevista com Frei Francisco Duarte Júnior .................... 93

VI. REFLEXÕES Campanha da Fraternidade 2018: Fraternidade e superação da violência - Frei Adilson Corrêa da Silva, OFM ............... 100 Superar a violência, desafios pós-Campanha da Fraternidade - Frei Oton da Silva Araújo Júnior, OFM ..................... 103

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II Vida da Igeja

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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO AOS FIÉIS BRASILEIROS POR OCASIÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2018

do jejum, da oração e da esmola nos faz perceber que somos irmãos. Deixemos que o amor de Deus se torne visível entre nós, nas nossas famílias, nas comunidades, na sociedade.

Neste tempo quaresmal, de bom grado me uno à Igreja no Brasil para celebrar a Campanha “Fraternidade e a superação da violência”, cujo objetivo é construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência. Desse modo, a Campanha da Fraternidade de 2018 nos convida a reconhecer a violência em tantos âmbitos e manifestações e, com confiança, fé e esperança, superá-la pelo caminho do amor visibilizado em Jesus Crucificado.

“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (1 Co 6,2; Cf. Is 49,8), que nos traz a graça do perdão recebido e oferecido. O perdão das ofensas é a expressão mais eloquente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Às vezes, como é difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração, a paz. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver como irmãos e irmãs e superar a violência. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: “Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento” (Ef 4, 26).

Jesus veio para nos dar a vida plena (cf. Jo 10, 10). Na medida em que Ele está no meio de nós, a vida se converte num espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos (Cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 180). Este tempo penitencial, onde somos chamados a viver a prática

Sejamos protagonistas da superação da violência fazendo-nos arautos e construtores da paz. Uma paz que é fruto do desenvolvimento integral de todos, uma paz que nasce de uma nova relação também com todas as criaturas. A paz é tecida no dia a dia com paciência e misericórdia,

Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

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no seio da família, na dinâmica da comunidade, nas relações de trabalho, na relação com a natureza. São pequenos gestos de respeito, de escuta, de diálogo, de silêncio, de afeto, de acolhida, de integração, que criam espaços onde se respira a fraternidade: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), como destaca o lema da Campanha da Fraternidade deste ano. Em Cristo somos da mesma família, nascidos do sangue da cruz, nossa salvação. As comunidades da Igreja no Brasil anunciem a conversão, o dia da salvação para conviverem sem violência.

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Peço a Deus que a Campanha da Fraternidade deste ano anime a todos para encontrar caminhos de superação da violência, convivendo mais como irmãos e irmãs em Cristo. Invoco a proteção de Nossa Senhora da Conceição Aparecida sobre o povo brasileiro, concedendo a Bênção Apostólica. Peço que todos rezem por mim. Vaticano, 27 de janeiro de 2018. Franciscus PP.

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FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR NO TEMPLO XXII DIA MUNDIAL DA VIDA CONSAGRADA CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA PARA OS CONSAGRADOS ------------------------------------

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO Basílica de S. Pedro Sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Quarenta dias depois do Natal, celebramos o Senhor que, entrando no templo, vem ao encontro do seu povo. No Oriente cristão, esta festa é chamada precisamente «Festa do Encontro»: é o encontro entre o Deus Menino, que traz vida nova, e a humanidade à sua espera, representada pelos anciãos no templo. No templo, verifica-se ainda outro encontro: o encontro entre dois pares humanos, ou seja, os jovens Maria e José, por um lado, e os anciãos Simeão e Ana, por outro. Os anciãos recebem dos jovens, os jovens aprendem dos anciãos. Com efeito, no templo, Maria e José encontram as raízes do povo, o que é importante, pois a promessa de Deus não se

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realiza individualmente e duma vez só, mas conjuntamente e ao longo da história. E encontram também as raízes da fé, porque a fé não é uma noção que se deve aprender num livro, mas a arte de viver com Deus, que se recebe da experiência de quem nos precedeu no caminho. Assim, encontrando os anciãos, os dois jovens encontram-se a si mesmos. E os dois anciãos, caminhando já para o fim dos seus dias, recebem Jesus, sentido da sua vida. Assim, esse episódio cumpre a profecia de Joel: «Os vossos anciãos terão sonhos, e os vossos jovens terão visões» (3, 1). Naquele encontro, os jovens veem a sua missão e os anciãos realizam os seus sonhos; e tudo isto porque, no centro do encontro, está Jesus. Olhemos o nosso caso, amados irmãos e irmãs consagrados! Tudo começou pelo encontro com o Senhor. Dum encontro e duma chamada, nasceu o caminho de consagração. É preciso recordá-lo. E, se nos recordarmos bem, veremos que, naquele encontro, não estávamos sozinhos com Jesus: estava também o povo de Deus, a Igreja, jovens e anciãos, como no Evangelho. Neste, há um detalhe interessante: enquanto os jovens Maria e José observam fielmente as prescrições da Lei – o Evangelho repete-o quatro vezes – Revista Santa Cruz


e nunca falam, os anciãos Simeão e Ana acorrem e profetizam. Parece que devia ser o contrário! Geralmente são os jovens que falam com entusiasmo do futuro, enquanto os anciãos guardam o passado. No Evangelho, sucede o contrário, porque, quando nos encontramos no Senhor, chegam pontualmente as surpresas de Deus. Para permitir que as mesmas aconteçam na vida consagrada, convém lembrar-nos que não se pode renovar o encontro com o Senhor sem o outro: nunca o deixes para trás, nunca faças descartes geracionais, mas diariamente caminhai lado a lado, com o Senhor no centro. Porque, se os jovens são chamados a abrir novas portas, os anciãos têm as chaves. E a juventude dum instituto [de vida consagrada] encontra-se indo às raízes, ouvindo as pessoas anciãs. Não há futuro sem esse encontro entre anciãos e jovens; não há crescimento sem raízes, e não há florescimento sem novos rebentos. Jamais profecia sem memória, jamais memória sem profecia; mas que sempre se encontrem! A vida agitada de hoje induz-nos a fechar muitas portas ao encontro e, com frequência, por medo do outro. As portas dos centros comerciais e as conexões de rede estão sempre abertas. Mas, na vida consagrada, não deve ser assim: o Revista Santa Cruz

irmão e a irmã que Deus me dá são parte da minha história, são presentes que devo guardar. Que não nos aconteça olhar mais para o ecrã do telemóvel do que para os olhos do irmão, ou fixarmo-nos mais nos nossos programas do que no Senhor. Com efeito, quando se colocam no centro os projetos, as técnicas e as estruturas, a vida consagrada deixa de atrair e comunicar-se a outros; não floresce, porque esquece «aquilo que tem debaixo da terra», isto é, as raízes. A vida consagrada nasce e renasce do encontro com Jesus assim como é: pobre, casto e obediente. A linha sobre a qual caminha é dupla: por um lado, a amorosa iniciativa de Deus, da qual tudo começa e à qual sempre devemos retornar, e, por outro, a nossa resposta, que é de amor verdadeiro quando não há «se» nem «mas», quando imita Jesus pobre, casto e obediente. Deste modo, enquanto a vida do mundo procura acumular, a vida consagrada deixa as riquezas que passam, para abraçar Aquele que permanece. A vida do mundo corre atrás dos prazeres e ambições pessoais, a vida consagrada deixa o afeto livre de qualquer propriedade para amar plenamente a Deus e aos outros. A vida do mundo aposta em poder fazer o que se quer, a vida

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consagrada escolhe a obediência humilde como liberdade maior. E, enquanto a vida do mundo depressa deixa vazias as mãos e o coração, a vida segundo Jesus enche de paz até ao fim, como no Evangelho, onde os anciãos chegam felizes ao ocaso da vida, com o Senhor nos seus braços e a alegria no coração. Como nos faz bem ter o Senhor «nos braços» (Lc 2, 28), à semelhança de Simeão! Não só na mente e no coração, mas também nas mãos, ou seja, em tudo o que fazemos: na oração, no trabalho, à mesa, ao telefone, na escola, com os pobres, por todo o lado. Ter o Senhor nas mãos é o antídoto contra o misticismo isolado e o ativismo desenfreado, porque o encontro real com Jesus endireita tanto os sentimentalistas devotos como os ativistas frenéticos. Viver o encontro com Jesus é o remédio também contra a paralisia da normalidade, abrindo-se ao rebuliço diário da graça. Deixar-se encontrar por Jesus, fazer encontrar Jesus: é o segredo para manter viva a chama da vida espiritual. É o modo para não ser absorvido numa vida asfixiadora, onde prevalecem as queixas, a amargura e as inevitáveis decepções. Encontrar-se em Jesus como irmãos e irmãs, jovens e anciãos, para superar a retórica

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estéril dos «bons velhos tempos» – aquela nostalgia que mata a alma –, para silenciar o «aqui nada funciona». O coração, se encontrar cada dia Jesus e os seus irmãos, não se polariza para o passado nem para o futuro, mas vive o «hoje» de Deus em paz com todos. No final dos Evangelhos, há outro encontro com Jesus que pode inspirar a vida consagrada: o das mulheres no sepulcro. Foram para encontrar um morto, o seu caminho parecia inútil. Também vós caminhais, no mundo, contra a corrente: a vida do mundo facilmente rejeita a pobreza, a castidade e a obediência. Mas, como aquelas mulheres, continuai para diante, não obstante as preocupações com as pedras pesadas a remover (Cf. Mc 16, 3). E, como aquelas mulheres, primeiro encontrai o Senhor ressuscitado e vivo, estreitai-O ao coração (Cf. Mt 28, 9) e, logo a seguir, anunciai-O aos irmãos, com olhos que brilham de grande alegria (Cf. Mt 28, 8). Sois, assim, a alvorada perene da Igreja: vós, consagrados e consagradas, sois a alvorada perene da Igreja! Desejo que hoje mesmo possais reavivar o encontro com Jesus, caminhando juntos para Ele: isto dará luz aos vossos olhos e vigor aos vossos passos.

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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2018

"Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos" (Mt 24, 12) Amados irmãos e irmãs! Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão»,[1] que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.

dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenômenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

OS FALSOS PROFETAS Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas.

Com a presente mensagem desejo, neste ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (24, 12).

Uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

Essa frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta

Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se

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oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Esses impostores, ao mesmo tempo em que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demônio, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras desses falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rastro bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente ao nosso bem.

UM CORAÇÃO FRIO Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de

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gelo; [2] habita no gelo do amor sufocado. Interroguemo-nos então: Como se resfria o amor em nós? Quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós? O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, «raiz de todos os males» (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n'Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos.[3] Tudo isto se permuta em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas «certezas»: o bebê nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expectativas. A própria criação é testemunha silenciosa desse resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte. E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Revista Santa Cruz


Exortação apostólica Evangelii gaudium procurei descrever os sinais mais evidentes dessa falta de amor. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar, empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário.[4]

Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos [5], para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.

que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. A este propósito, faço minhas as palavras exortativas de São Paulo aos Coríntios, quando os convidava a tomar parte na coleta para a comunidade de Jerusalém: «Isto é o que vos convém» (2 Cor 8, 10). Isto vale de modo especial na Quaresma, durante a qual muitos organismos recolhem coletas a favor das Igrejas e populações em dificuldade. Mas como gostaria também que, no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina. Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade? [6]

A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia

QUE FAZER? Se porventura detectamos, no nosso íntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum.

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a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome. Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente conosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!

O FOGO DA PÁSCOA Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração. Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus! Ele sempre nos dá novas ocasiões, para podermos recomeçar a amar. Ocasião propícia será, também neste ano, a iniciativa «24 horas

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para o Senhor», que convida a celebrar o sacramento da Reconciliação num contexto de adoração eucarística. Em 2018, aquela terá lugar nos dias 9 e 10 de março – uma sexta-feira e um sábado –, inspirando-se nestas palavras do Salmo 130: «Em Ti, encontramos o perdão» (v. 4). Em cada diocese, pelo menos uma igreja ficará aberta durante 24 horas consecutivas, oferecendo a possibilidade de adoração e da confissão sacramental. Na noite de Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do «lume novo», pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica. «A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito» [7], para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor. Abençoo-vos de coração e rezo por vós. Não vos esqueçais de rezar por mim. Vaticano, 1o de novembro de 2017. Solenidade de Todos os Santos Francisco Revista Santa Cruz


[1] Missal Romano, I Domingo da Quaresma, Oração Coleta. [2] «Imperador do reino em dor tamanho / saía a meio peito ao gelo baço» (Inferno XXXIV, 28-29). [3] «É curioso, mas muitas vezes temos medo da consolação, medo de ser consolados. Aliás, sentimo-nos mais seguros na tristeza e na desolação. Sabeis porquê? Porque, na tristeza, quase nos sentimos protagonistas; enquanto, na consolação, o protagonista é o Espírito Santo» (Angelus, 7/ XII/2014). [4] Nn. 76-109. [5] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 33. [6] Cf. Pio XII, Carta enc. Fidei donum, III. [7] Missal Romano, Vigília Pascal, Lucernário.

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CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ ----------------------------------AOS

CARTA PLACUIT DEO BISPOS DA IGREJA CATÓLICA

SOBRE ALGUNS ASPECTOS DA SALVAÇÃO CRISTÃ

I. INTRODUÇÃO 1. «Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (Cf. Ef 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (Cf. Ef 2,18; 2 Pe 1,4). [...] Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação».[1] O ensinamento sobre a salvação em Cristo exige sempre ser aprofundado novamente. A Igreja, tendo o olhar fixo em Cristo Senhor, dirige-se com amor materno a todos os homens, para anunciar-lhes o inteiro desígnio de Aliança do Pai que, mediante

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o Espírito Santo, deseja «submeter tudo a Cristo» (Ef 1,10). A presente Carta pretende destacar, na linha da grande tradição da fé e com especial referência ao ensinamento de Papa Francisco, alguns aspectos da salvação cristã que possam ser hoje difíceis de compreender por causa das recentes transformações culturais.

II. O

IMPACTO DAS TRANSFORMAÇÕES

CULTURAIS DE HOJE SOBRE O SIGNIFICADO DA SALVAÇÃO CRISTÃ

2. O mundo contemporâneo questiona, não sem dificuldade, a confissão de fé cristã, que proclama Jesus o único Salvador de todo o homem e da humanidade inteira (Cf. At 4,12; Rom 3,2324; 1 Tm 2,4-5; Tit 2,11-15).[2] Por um lado, o individualismo centrado no sujeito autônomo, tende a ver o homem como um ser cuja realização depende somente das suas forças.[3]Nesta visão, a figura de Cristo corresponde mais a um modelo que inspira ações generosas, mediante suas palavras e seus gestos, do que Aquele que transforma a condição humana, incorporando-nos numa nova existência reconciliada com o Pai e entre nós, mediante o Espírito (Cf. 2 Cor 5,19; Ef 2,18). Por outro lado, difunde-se a visão de uma salvação meramente Revista Santa Cruz


interior, que talvez suscita uma forte convicção pessoal ou um sentimento intenso de estar unido a Deus, mas sem assumir, curar e renovar as nossas relações com os outros e com o mundo criado. Com essa perspectiva, torna-se difícil compreender o significado da Encarnação do Verbo, através da qual Ele se fez membro da família humana, assumindo a nossa carne e a nossa história, por nós homens e para a nossa salvação. 3. O Santo Padre Francisco, no seu magistério ordinário, referiu-se muitas vezes a duas tendências que representam os dois desvios antes mencionados, e que se assemelham em alguns aspectos a duas antigas heresias, isto é, o pelagianismo e o gnosticismo. [4] Prolifera em nossos tempos um neopelagianismo em que o homem, radicalmente autônomo, pretende salvar-se a si mesmo sem reconhecer que ele depende, no mais profundo do seu ser, de Deus e dos outros. A salvação é então confiada às forças do indivíduo ou a estruturas meramente humanas, incapazes de acolher a novidade do Espírito de Deus.[5] Um certo neognosticismo, por outro lado, apresenta uma salvação meramente interior, fechada no subjetivismo. [6] Essa consiste no elevar-se «com o intelecto para além da carne de Jesus Revista Santa Cruz

rumo aos mistérios da divindade desconhecida». [7]Pretende-se, assim, libertar a pessoa do corpo e do mundo material, nos quais não se descobrem mais os vestígios da mão providente do Criador, mas se vê apenas uma realidade privada de significado, estranha à identidade última da pessoa e manipulável segundo os interesses do homem.[8]Por outro lado, é claro que a comparação com as heresias pelagiana e gnóstica pretende somente evocar traços gerais comuns, sem entrar, nem fazer juízos, sobre a natureza desses erros antigos. De fato, a diferença entre o contexto histórico secularizado de hoje e o contexto dos primeiros séculos cristãos, nos quais essas heresias nasceram, é grande.[9]Todavia, enquanto o gnosticismo e o pelagianismo representam perigos perenes de equívocos da fé bíblica, é possível encontrar certa familiaridade com os movimentos de hoje apenas referidos acima. 4. Seja o individualismo neopelagiano que o desprezo neognóstico do corpo, descaracterizam a confissão de fé em Cristo, único Salvador universal. Como poderia Cristo mediar a Aliança da família humana inteira, se o homem fosse um indivíduo isolado, que se autorrealiza somente com as suas forças, como propõe o neo-

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pelagianismo? E como poderia chegar até nós a salvação mediante a Encarnação de Jesus, a sua vida, morte e ressurreição no seu verdadeiro corpo, se aquilo que conta fosse somente libertar a interioridade do homem dos limites do corpo e da matéria, segundo a visão neognóstica? Diante dessas tendências, esta Carta pretende reafirmar que a salvação consiste na nossa união com Cristo, que, com a sua Encarnação, vida, morte e ressurreição, gerou uma nova ordem de relações com o Pai e entre os homens, e nos introduziu nesta ordem graças ao dom do seu Espírito, para que possamos unir-nos ao Pai como filhos no Filho, e formar um só corpo no «primogênito de muitos irmãos» (Rom 8,29).

III. O DESEJO HUMANO DE SALVAÇÃO 5. O homem percebe, direta ou indiretamente, ser um enigma: eu existo, mas quem sou eu? Tenho em mim o princípio da minha existência? Toda pessoa, a seu modo, procura a felicidade e tenta alcançá-la, recorrendo aos meios disponíveis. No entanto, esse desejo universal não é necessariamente expresso ou declarado; ao contrário, esse é mais secreto e oculto do que parece, e está pronto a revelar-se diante de situações específicas. Com frequência, tal

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desejo coincide com a esperança da saúde física, às vezes assume a forma de ansiedade por um maior bem-estar econômico, mais difusamente expressa-se através da necessidade de uma paz interior e de uma convivência pacífica com o próximo. Por outro lado, enquanto o desejo de salvação se apresenta como um compromisso na direção de um bem maior, esse conserva também uma característica de resistência e de superação da dor. Ao lado da luta pela conquista do bem se coloca a luta de defesa do mal: da ignorância e do erro, da fragilidade e da fraqueza, da doença e da morte. 6. Com relação a essas aspirações, a fé em Cristo ensina-nos, rejeitando qualquer pretensão de autorrealização, que as mesmas somente podem realizar-se plenamente se Deus mesmo as torna possíveis, atraindo-nos a Ele. A salvação plena da pessoa não consiste nas coisas que o homem poderia obter por si mesmo, como o ter ou o bem-estar material, a ciência ou a técnica, o poder ou a influência sobre os outros, a boa fama ou a autorrealização.[10] Nada da ordem do criado pode satisfazer completamente ao homem, porque Deus nos destinou à comunhão com Ele, e o nosso coração permanecerá inquieto até que não repouse Nele.[11]«A Revista Santa Cruz


vocação última de todos os homens é realmente uma só, a divina».[12] A revelação, desta forma, não se limita a anunciar a salvação como resposta à expectativa contemporânea. «Se a redenção, ao contrário, devesse ser julgada ou medida pela necessidade existencial dos seres humanos, como poderíamos evitar a suspeita de termos simplesmente criado um Deus-Redentor à imagem de nossas próprias necessidades?».[13] 7. Além disso, é necessário afirmar que, segundo a fé bíblica, a origem do mal não se encontra no mundo material e corpóreo, experimentado como um limite e como uma prisão da qual deveríamos ser salvos. Pelo contrário, a fé proclama que o mundo inteiro é bom, enquanto criado por Deus (Cf. Gen 1,31; Sab 1,13-14; 1Tim 4,4), e que o mal que mais prejudica o homem é aquele que provém do seu coração (Cf. Mt 15,18-19; Gen 3,1-19). Pecando, o homem abandonou a fonte do amor, e se perde em falsas formas de amor, que o fecham cada vez mais em si mesmo. É esta separação de Deus – isto é, Daquele que é fonte de comunhão e de vida – que leva à perda de harmonia entre os homens e dos homens com o mundo, introduzindo a desintegração e a morte (Cf. Rom 5,12). Consequentemente, Revista Santa Cruz

a salvação que a fé nos anuncia não diz unicamente respeito à nossa interioridade, mas ao nosso ser integral. De fato, é a pessoa inteira, em corpo e alma, criada pelo amor de Deus à sua imagem e semelhança, que é chamada a viver em comunhão com Ele.

IV. CRISTO, SALVADOR E SALVAÇÃO 8. Em nenhum momento do caminho do homem, Deus deixou de oferecer a sua salvação aos filhos de Adão (Cf. Gen 3,15), estabelecendo uma Aliança com todos os homens em Noé (cf. Gen 9,9) e, mais adiante, com Abraão e a sua descendência (Cf. Gn 15,18). Assim, a salvação divina assume a ordem da criação compartilhada por todos os homens e percorre os seus caminhos concretos na história. Escolhendo para Si um povo, a quem ofereceu os meios para lutar contra o pecado e para se aproximar Dele, Deus preparou a vinda de «um poderoso Salvador, na casa de David, seu servidor» (Lc 1,69). Na plenitude dos tempos, o Pai enviou ao mundo seu Filho, o qual anunciou o reino de Deus, curando todo tipo de doenças (Cf. Mt 4,23). As curas realizadas por Jesus, através das quais se tornava presente a providência de Deus, eram um sinal que se referia à sua pessoa, Àquele que se revelou plenamente como Senhor da vida e

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da morte no acontecimento pascal. Segundo o Evangelho, a salvação para todos os povos começa com o acolhimento de Jesus: «Hoje veio a salvação a esta casa» (Lc 19,9). A Boa-Nova da salvação tem um nome e um rosto: Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador. «No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».[14] 9. Ao longo da sua tradição secular, a fé cristã tornou presente, através de muitas figuras, a obra salvífica do Filho encarnado. Fê-lo sem nunca separar o aspecto regenerador da salvação, no qual Cristo nos resgata do pecado, do aspecto da elevação, pelo qual Ele nos faz filhos de Deus, participantes da sua natureza divina (Cf. 2 Pe 1,4). Considerando a perspectiva salvífica no seu significado descendente, isto é, a partir de Deus que vem para resgatar os homens, Jesus é iluminador e revelador, redentor e libertador; Aquele que diviniza o homem e o justifica. Assumindo a perspectiva ascendente, isto é, a partir dos homens que se dirigem a Deus, Ele é Aquele que, como Sumo Sacerdote da Nova Aliança, oferece ao Pai o culto perfeito em nome dos homens: se sacrifica, repara

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os nossos pecados e permanece sempre vivo para interceder a nosso favor. Desta forma, verifica-se na vida de Jesus uma sinergia maravilhosa do agir divino com o agir humano, que mostra a falta de fundamento de uma perspectiva individualista. Assim, por um lado, o sentido descendente testemunha a primazia absoluta da ação gratuita de Deus; a humildade em receber os dons de Deus, antes mesmo do nosso agir, é essencial para poder responder ao seu amor salvífico. Por outro lado, o sentido ascendente recorda-nos que, através do agir plenamente humano de seu Filho, o Pai quis regenerar o nosso agir, para que, assemelhados a Cristo, possamos realizar «as boas obras que Deus de antemão preparou para nelas caminharmos» (Ef 2,10). 10. Para além disso, é claro que a salvação que Jesus trouxe na sua própria pessoa não se realiza somente de modo interior. Assim, para poder comunicar a cada pessoa a comunhão salvífica com Deus, o Filho se fez carne (Cf. Jo 1,14). É exatamente assumindo a carne (cf. Rom 8,3; Heb 2,14; 1 Jo 4,2), e nascendo de uma mulher (Cf. Gal 4,4), que «o Filho de Deus se fez filho do homem»[15] e, também, nosso irmão (Cf. Heb 2,14). Assim, entrando a fazer parte da família humana, «uniu-se Revista Santa Cruz


de certo modo a cada homem»[16] e estabeleceu uma nova ordem nas relações com Deus, seu Pai, e com todos os homens, na qual podemos ser incorporados para participar na sua própria vida. Consequentemente, assumir a carne humana, longe de limitar a ação salvífica de Cristo, permite-Lhe mediar de maneira concreta a salvação de Deus com todos os filhos de Adão.

Ele assumiu a nossa humanidade integral e viveu em plenitude a vida humana, em comunhão com o Pai e com os irmãos. A salvação consiste em incorporar-se nesta vida de Cristo, recebendo o seu Espírito (Cf. 1 Jo 4,13). Assim, Ele tornou-se «em certo modo, o princípio de toda graça segundo a humanidade».[18]Ele é, ao mesmo tempo, o Salvador e a Salvação.

11. Concluindo, e para responder, quer seja ao reducionismo individualista da tendência pelagiana, quer seja ao reducionismo neognóstico que promete uma libertação interior, é necessário recordar o modo como Jesus é Salvador. Ele não se limitou a mostrar-nos o caminho para encontrar Deus, isto é, um caminho que poderemos percorrer por nós mesmos, obedecendo às suas palavras e imitando o seu exemplo. Cristo, todavia, para abrir-nos a porta da libertação, tornou-se Ele mesmo o caminho: «Eu sou o caminho» (Jo 14,6).[17] Além disso, esse caminho não é um percurso meramente interior, à margem das nossas relações com os outros e com o mundo criado. Pelo contrário, Jesus ofereceu-nos um «caminho novo e vivo que Ele abriu para nós através [...] da sua carne» (Heb 10,20). Enfim, Cristo é Salvador porque

V. A SALVAÇÃO NA IGREJA, CORPO DE CRISTO

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12. O lugar onde recebemos a salvação trazida por Jesus é a Igreja, comunidade daqueles que, tendo sido incorporados à nova ordem de relações inaugurada por Cristo, podem receber a plenitude do Espírito de Cristo (Cf. Rom 8,9). Compreender esta mediação salvífica da Igreja é uma ajuda essencial para superar qualquer tendência reducionista. De fato, a salvação que Deus nos oferece não é alcançada apenas pelas forças individuais, como gostaria o neopelagianismo, mas através das relações nascidas do Filho de Deus encarnado e que formam a comunhão da Igreja. Além disso, uma vez que a graça que Cristo nos oferece não é, como afirma a visão neognóstica, uma salvação meramente interior, mas que nos introduz nas relações

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concretas que Ele mesmo viveu, a Igreja é uma comunidade visível: nela tocamos a carne de Jesus, de maneira singular nos irmãos mais pobres e sofredores. Enfim, a mediação salvífica da Igreja, «sacramento universal de salvação», [19] assegura-nos que a salvação não consiste na autor-realização do indivíduo isolado, e, muito menos, na sua fusão interior com o divino, mas na incorporação em uma comunhão de pessoas, que participa na comunhão da Trindade. 13. Tanto a visão individualista como a visão meramente interior da salvação contradizem a economia sacramental, através da qual Deus quis salvar a pessoa humana. A participação, na Igreja, à nova ordem de relações inauguradas por Jesus realiza-se por meio dos sacramentos, entre eles, o Batismo que é a porta, [20] e a Eucaristia que é fonte e culminância. [21] Assim, se vê a inconsistência das pretensões de autossalvação, que contam apenas com as forças humanas. Pelo contrário, a fé confessa que somos salvos por meio do Batismo, que imprime o caráter indelével de pertencer a Cristo e à Igreja, do qual deriva a transformação do nosso modo concreto de viver as relações com Deus, com os homens e com a criação (Cf. Mt 28,19). Assim,

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purificados do pecado original e de todo pecado, somos chamados a uma nova vida em conformidade com Cristo (Cf. Rom 6,4). Com a graça dos sete sacramentos, os crentes continuamente crescem e se regeneram, sobretudo quando o caminho se torna mais difícil e as quedas não faltam. Quando eles pecam, abandonam o amor por Cristo, podendo ser reintroduzidos, por meio do sacramento da Penitência, à ordem das relações inaugurada por Jesus, para caminhar como Ele caminhou (Cf. 1 Jo 2,6). Desta forma, olhamos com esperança para o juízo final, no qual cada pessoa será julgada pelo amor (Cf. Rm 13, 8-10), especialmente pelos mais fracos (Cf. Mt 25,31-46). 14. A economia salvífica sacramental opõe-se ainda às tendências que propõem uma salvação meramente interior. De fato, o gnosticismo está associado a um olhar negativo sobre a ordem da criação, inclusive como uma limitação da liberdade absoluta do espírito humano. Consequentemente, a salvação é vista como libertação do corpo e das relações concretas que a pessoa vive. Pelo contrário, como somos salvos «por meio da oferta do corpo de Jesus Cristo» (Heb 10,10; Cf. Col 1,22), a verdadeira salvação, longe de ser libertação Revista Santa Cruz


do corpo, compreende também a sua santificação (Cf. Rom 12,1). O corpo humano foi modelado por Deus, que nele inscreveu uma linguagem que convida a pessoa humana a reconhecer os dons do Criador e a viver em comunhão com os irmãos. [22] O Salvador restabeleceu e renovou, com a sua Encarnação e o seu mistério pascal, esta linguagem originária, e comunicou-a na economia corporal dos sacramentos. Graças aos sacramentos, os cristãos podem viver fielmente à carne de Cristo e, consequentemente, em fidelidade à ordem concreta das relações que Ele nos deu. Esta ordem de relações requer, de maneira especial, o cuidado pela humanidade sofredora de todos os homens, através das obras de misericórdia corporais e espirituais. [23]

VI. CONCLUSÃO: COMUNICAR A FÉ, ESPERANDO O SALVADOR 15. A consciência da vida plena, na qual Jesus Salvador nos introduz, impulsiona os cristãos à missão de proclamar a todos os homens a alegria e a luz do Evangelho. [24] Nesse esforço, eles estarão também prontos para estabelecer um diálogo sincero e construtivo com os crentes de outras religiões, na confiança de que Deus pode conduzir à salvação em Cristo Revista Santa Cruz

«todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente». [25] Ao dedicarse com todas as suas forças à evangelização, a Igreja continua a invocar a vinda definitiva do Salvador, porque «na esperança fomos salvos» (Rom 8,24). A salvação do homem será plena somente quando, depois de ter vencido o último inimigo, a morte (Cf 1 Cor 15,26), participaremos plenamente da glória de Cristo ressuscitado, que leva à plenitude a nossa relação com Deus, com os irmãos e com toda a criação. A salvação integral, da alma e do corpo, é o destino final ao qual Deus chama todos os homens. Fundamentados na fé, sustentados pela esperança, operantes na caridade, seguindo o exemplo de Maria, a Mãe do Salvador e a primeira dos que foram salvos, estamos certos de que nossa cidadania “está nos céus, de onde certamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao seu corpo glorioso, com aquela energia que o torna capaz de a si mesmo sujeitar todas as coisas”(Fil 3,20-21).

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O Sumo Pontífice Francisco, no dia 16 de fevereiro de 2018, aprovou esta Carta, decidida na Sessão Plenária desta Congregação no dia 24 de janeiro de 2018, e ordenou a publicação. Dado em Roma, na Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 22 de fevereiro de 2018, Festa da Cátedra de São Pedro. + Luis F. Ladaria, S.I. Arcebispo titular de Thibica Prefeito + Giacomo Morandi Arcebispo titular de Cerveteri Secretário [1] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, n. 2. [2] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus (6 de agosto de 2000), nn. 5-8: AAS 92 (2000), 745749. [3] Cf. Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 67: AAS105 (2013), 1048. [4] Cf. Id., Carta enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 47: AAS 105 (2013), 586-587; Exort. apost. Evangelii gaudium, nn. 93-94: AAS (2013), 1059; Discurso aos representantes do V Congresso nacional da Igreja italiana, Florença (10 de novembro de 2015): AAS 107 (2015), 1287. [5] Cf. Id., Discurso aos representantes do V Congresso nacional da Igreja italiana, Florença (10 de novembro de 2015): AAS 107 (2015), 1288. [6] Cf. Id., Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 94: AAS105 (2013), 1059: «o fascínio do gnosticismo, uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos»; Pontíficio Conselho

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para a Cultura –– Pontifício Conselho para o diálogo Interreligioso, Jesus Cristo, portador da água viva. Uma reflexão cristã sobre a “New Age” (janeiro de 2003), Cidade do Vaticano 2003. [7] Francisco, Carta enc. Lumen fidei, n. 47: AAS 105 (2013), 586-587. [8] Cf. Id., Discurso aos participantes da peregrinação da diocese de Brescia (22 de junho de 2013): AAS 95 (2013), 627: «neste mundo onde se nega o homem, onde se prefere andar na estrada do gnosticismo, [...] do “sem carne” – um Deus que não se fez carne [...]». [9] De acordo com a heresia Pelagiana, desenvolvida durante o século V ao redor de Pelágio, o homem, para cumprir os mandamentos de Deus e ser salvo, precisa da graça apenas como um auxílio externo à sua liberdade (como luz, exemplo, força), mas não como uma sanação e regeneração radical da liberdade, sem mérito prévio, para que ele possa realizar o bem e alcançar a vida eterna. Mais complexo é o movimento gnóstico, surgido nos séculos I e II, que se manifestou de formas muito diferentes. Em geral, os gnósticos acreditavam que a salvação é obtida através de um conhecimento esotérico ou “gnose”. Esta gnose revela ao gnóstico sua essência verdadeira, isto é, uma centelha do Espírito divino que habita em sua interioridade, que deve ser libertada do corpo, estranho à sua verdadeira humanidade. Somente assim o gnóstico retorna ao seu ser originário em Deus, de quem ele afastou-se pela queda original. [10] Cf. Tomás, Summa theologiae, I-II, q. 2. [11] Cf. Agostinho, Christianorum, 27,1.

Confissões,

I,

1:

Corpus

[12] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22. [13] Comissão Teológica Internacional, Algumas questões sobre a teologia da redenção, 1995, n. 2. [14] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de dezembro Revista Santa Cruz

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de 2005), n. 1: AAS 98 (2006), 217; cf. Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 3: AAS 105 (2013), 1020. [15] Irineu, Adversus haereses, III, 19,1: Sources Chrétiennes, 211, 374. [16] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22. [17] Cf. Agostinho, Tractatus in Ioannem, 13, 4: Corpus Christianorum, 36, 132: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6). Se você busca a verdade, siga o caminho; porque o caminho é o mesmo que a verdade. A meta que se busca e o caminho que se deve percorrer são a mesma coisa. Não se pode alcançar a meta seguindo um outro caminho; por outro caminho não se pode alcançar a Cristo: a Cristo se pode alcançar somente através de Cristo. Em que sentido se chega a Cristo através de Cristo? Chega-se a Cristo Deus através de Cristo homem; por meio do Verbo feito carne se chega ao Verbo que era no princípio Deus junto a Deus. [18] Tomás, Quaestio de veritate, q. 29, a. 5, co. [19] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 48. [20] Cf. Tomás, Summa theologiae, III, q. 63, a. 6. [21] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 11; Const. Sacrosanctum Concilium, n. 10. [22] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), n. 155: AAS 107 (2015), 909-910. [23] Cf. Id., Carta apost. Misericordia et misera (20 de novembro de 2016), n. 20: AAS 108 (2016), 1325-1326. [24] Cf. João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), n.40: AAS 83 (1991), 287-288; Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, nn. 9-13: AAS105 (2013), 1022-1025. [25] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.

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III Vida da Odem Revista Santa Cruz

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ENCONTRO DO MINISTRO GERAL E SEU CONSELHO COM OS FRADES DAS CONFERÊNCIAS DO CONE SUL (ARGENTINA, CHILE E PARAGUAI) E DO BRASIL

Durante uma semana, de 12 a 17 de fevereiro, o Governo Geral e o Definitório da Ordem dos Frades Menores não teve expediente em Roma. Nesta semana, a Cúria Geral se mudou para São Paulo com o Encontro do Ministro Geral e seu Conselho com os frades das Conferências do Cone Sul (Argentina, Chile e Paraguai) e do Brasil. Em nível mundial, a Ordem se organiza em províncias e custódias, cujos ministros formam conferências por região ou por afinidade linguística (de acordo com as Constituições da entidade, no Art 227). Entre os objetivos estão a colaboração entre as entidades no campo da formação e da evangelização, além da união entre elas pelo bem comum da Ordem. É com essas propostas que desembarcaram no histórico Convento São Francisco da Província da Imaculada Conceição, no centro de São Paulo, o

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Ministro Geral Frei Michael Perry, o Vigário-Geral Frei Julio César Bunader e os Definidores: Frei Caoimhín Ó Laoide (Conferência língua inglesa), Frei Ignacio Ceja (Conferências Guadalupana e Cone Sul), Frei Nicodeme Kibuzehose (Conferência Africana); Frei Ivan Sesar (Conferências Norte-Slovena e Sul-Slovena); Frei Jürgen Neitzert (Conferência Europa Central), Frei Lino Gregorio Redoblado (Conferências Asiáticas); Frei Valmir Ramos (Conferências Bolivariana e Brasileira) e Frei Antonio Scabio (Conferências da Itália e Península Ibérica). “Estando no Brasil, o Definitório Geral, que tem a missão de animar a Ordem inteira, terá a oportunidade de vivenciar um pouco a eclesiologia e o franciscanismo inseridos numa realidade muito próxima da vida do povo. A Conferência Brasileira já deu passos muito importantes de colaboração, seja no campo da formação ou da evangelização. Normalmente, o relacionamento dos ministros é muito fraterno, sincero, aberto à colaboração. Isto cria um ambiente muito favorável para unir as forças num Brasil tão grande e com tanta diversidade”, acredita o brasileiro Frei Valmir Ramos, destacando a Revista Santa Cruz


presença sempre muito atuante dos franciscanos no Brasil e o que podem oferecer para toda a Ordem. O último encontro do Ministro e seu Definitório no Brasil foi em Manaus, em 2011, quando era Ministro Geral Frei José Rodriguez Carballo. “Ao menos uma vez, a cada seis anos, as Conferências devem reunir-se com o Definitório Geral, tendo a finalidade de: comunicar as questões mais importantes, tratar assuntos relacionados à vida da OFM naquela região; propor assuntos de interesse comum para o Capítulo-Geral. Esses encontros permitem ao Definitório Geral conhecer melhor a Ordem espalhada pelo mundo”, detalhou Frei Valmir. Segundo Frei Valmir, o encontro com as Conferências teve o objetivo também de conhecer as várias realidades em que os frades vivem e atuam. "Sair de Roma significa investir neste conhecimento para ampliar a visão sobre a realidade da Ordem no mundo", explica. Para Frei Valmir, as "Diretrizes de animação do Definitório Geral para os anos 2018 e 2019" orientam a Ordem nos seus vários encontros, mas a metodologia do Ministro Geral Frei Michael é inicialmente ouvir. Revista Santa Cruz

ABRIR OS CORAÇÕES PARA A NOVIDADE DE DEUS No histórico Convento São Francisco, em São Paulo, teve início na segunda-feira, 12 de fevereiro, o Encontro do Ministro Geral e seu Conselho com as Conferências dos Frades Menores do Cone Sul (Argentina, Chile e Paraguai) e do Brasil. O representante de São Francisco de Assis, Frei Michael Perry, abriu esse evento franciscano internacional com a Celebração Eucarística, às 7h30, tendo como concelebrantes o anfitrião Ministro Provincial Frei Fidêncio Vanboemmel e o Ministro Provincial Frei Inácio Dellazari, presidente da Conferência Brasileira. O guardião Frei Mário Tagliari do Convento São Francisco deu as boas-vindas aos participantes. “É uma alegria muito grande e uma graça de Deus tê-los conosco nestes dias”, disse Frei Mário. Na sua homilia, Frei Michael refletiu sobre o pedido feito pelos fariseus a Jesus de um sinal do céu. “Uma das maiores dificuldades que nós, os humanos, temos é o nosso desejo incontrolável de ter uma confirmação absoluta do que chamamos de verdade. E quanto maior a nossa falta de imaginação e espanto, mais procuramos sinais

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de clareza, até extraordinários, para confirmar algo que, em muitos casos, sabemos que é verdade, mas, por uma razão ou outra, nos recusamos a aceitar”, expôs o representante de São Francisco na Ordem dos Frades Menores. Segundo Frei Michael, como no Antigo Testamento com Moisés, Jesus alimentou as pessoas no deserto, fazendo a multiplicação dos pães (Marcos 8, 1-10), dando um sinal de que ele se apresentava diante do povo como um novo Moisés, como o Mestre que mostra o caminho da vida. “Mas os fariseus não conseguiram perceber o significado da multiplicação dos pães. Essa capacidade não se refere à compreensão intelectual do que Jesus está pregando, dos milagres que ele estava fazendo entre as pessoas. Pelo contrário, eles optaram por fechar suas mentes. Para São Marcos, a questão não é o intelecto; é uma questão de coração. Eles não aceitaram nada do que Jesus havia feito”, explicou, citando que “Jesus suspira profundamente”, provavelmente sem alívio e tristeza com uma cegueira tão grande. “E ele conclui: ‘Nenhum sinal será dado a esta geração!’ Ele os deixou e foi para o outro lado do lago. Não serve de nada mostrar uma pintura bonita para aqueles que

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não querem abrir os olhos. Quem fechar os olhos não pode ver! Então, o que é preciso para cada um de nós abrir nossos corações para a novidade que Deus procura oferecer ao mundo, à Igreja e a nós que somos Irmãos Menores nestes tempos de mudanças tremendas nessas regiões da Ordem?”, perguntou. Para ele, os Frades Menores têm um caminho indicado por São Francisco de Assis. “No seu Testamento aos irmãos, ele revela como os discípulos de Jesus devem responder com fé ao que Deus está pedindo a cada um deles. Não é uma questão de conhecimento, embora devamos estudar os sinais dos tempos, como o Conselho do Vaticano II nos lembrou. Nem é uma questão de ter controle sobre tudo, como se o poder fosse a chave de uma fé mais profunda. Isso é algo que os governos e mesmo a Igreja, a Ordem, ainda devem aprender”, ensinou. Ele encerrou com um trecho do Testamento de São Francisco, que, segundo Frei Michael, recebeu uma nova visão de Deus e uma nova visão da humanidade, o que o levou a abraçar Jesus, os leprosos e todas as pessoas e a natureza como irmãos e irmãs de uma maneira completamente nova e libertadora. Revista Santa Cruz


“Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: Como estivesse em pecado parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia para com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disto demorei só bem pouco e abandonei o mundo”. O encontro do Ministro Geral e do seu Conselho com os frades das duas Conferências, do Cone Sul e Brasil, continuou no Salão São Dâmaso, no claustro do Convento. Além de Frei Michael, estavam presentes: o Vigário-Geral Frei Julio César Bunader e os Definidores: Frei Caoimhín Ó Laoide (Conferência língua inglesa), Frei Ignacio Ceja (Conferências Guadalupana e Cone Sul), Frei Nicodeme Kibuzehose (Conferência Africana); Frei Ivan Sesar (Conferências Norte-Slovena e Sul-Slovena); Frei Lino Gregorio Redoblado (Conferências Asiáticas); Frei Valmir Ramos (Conferências Bolivariana e Brasileira) e Frei Antônio Scabio (Conferências da Itália e Península Ibérica). Frei Jürgen Neitzert, Definidor da Conferência Europa Central, nem bem chegou a São Paulo teve de Revista Santa Cruz

retornar devido ao falecimento de seu pai. Da Conferência do Cone Sul estavam presentes Frei Isauro Covili (Província Santíssima Trindade – Chile), Frei Emilio Andrada (Província da Assunção da Santíssima Virgem do Rio da Prata – Argentina e Paraguai) e Frei Daniel Alejandro Fleitas Zeni (Província de São Francisco Solano, Argentina). Da Conferência do Brasil estavam presentes: Frei Inácio Dellazari (Província São Francisco de Assis); Frei Fidêncio Vanboemmel (Província da Imaculada Conceição); Frei Hilton Farias de Souza (Província Santa Cruz); Frei Rogério Viterbo de Souza (Custódia das Sete Alegrias de Nossa Senhora); Frei Marco Aurélio Cruz (Província do Santíssimo Nome de Jesus); Frei Francisco de Assis da Paixão (Custódia de São Benedito); Frei Bernardo de Souza Brandão Neto (Província Franciscana Nossa Senhora da Assunção); Frei João Amilton dos Santos (Província de Santo Antônio); e Frei Flaerdi Valvassori, da Custódia do Sagrado Coração de Jesus. Frei Inácio abriu as apresentações dando uma mostra da Conferência do Brasil e das dificuldades de os frades se encontraram num país tão grande como o Brasil.

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Em seguida, ele falou do trabalho evangelizador e da história da Província São Francisco, no Rio Grande do Sul, onde é Ministro Provincial. Frei Fidêncio fechou a manhã com a apresentação da Província da Imaculada Conceição, a segunda mais antiga do Brasil. O Ministro expôs o trabalho evangelizador que é feito com base nas cinco Frentes de Evangelização e no Plano de Evangelização para o sexênio. As entidades brasileiras continuariam as apresentações à tarde.

“O QUE DEUS ESTÁ PEDINDO HOJE PARA NÓS?” O segundo dia do Encontro do Ministro Geral e seu Conselho com os frades da América Latina começou com a Celebração Eucarística, às 7h30, na Igreja do Convento São Francisco. Frei Isauro Covili, Provincial da Província Santíssima Trindade do Chile, presidiu a Celebração, tendo como concelebrantes Frei Emilio Andrada (Província da Assunção da Santíssima Virgem do Rio da Prata – Argentina e Paraguai) e Frei Daniel Alejandro Fleitas Zeni (Província de São Francisco Solano, Argentina). As entidades do Cone Sul apresentaram durante a manhã seus relatórios ao Ministro Geral.

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No segundo dia em São Paulo, o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Michael Perry, falou diretamente, pela primeira vez, aos Ministros e Custódios das Conferências dos Frades Menores do Brasil e do Cone Sul. Na sua reflexão, apresentou desafios e oportunidades que ele percebeu “diante – e dentro – de nós enquanto caminhamos juntos como peregrinos e estrangeiros no caminho para o Reino”. Frei Michael deu um panorama da Ordem dos Frades Menores no mundo, que atualmente está em 122 países com 13.302 frades (incluindo os noviços), em 2.008 casas ou casas filiais, sendo que a América Latina reúne 3.257 frades (com os noviços). “É uma grande alegria para os membros do Definitório Geral e para mim estar com vocês durante esses dias para refletir juntos sobre a situação da Ordem no contexto de suas conferências e procurar responder à pergunta sempre relevante: ‘O que Deus está pedindo hoje para nós, Frades Menores, no contexto do mundo, da Igreja, da Ordem e, mais especificamente, na região da América Latina e do Caribe?’”, questionou Frei Michael, que desde a segunda-feira viu e ouviu atentamente as apresentações Revista Santa Cruz


das entidades brasileiras e sul-americanas presentes no Convento São Francisco, em São Paulo. Destacou os sinais de renovação visto nos relatórios apresentados e fez recomendações aos Ministros Provinciais e Custódios que participam deste Encontro com o Definitório Geral. Entre esses pontos estão: estabelecer projetos mais comuns de formação e evangelização; empenho das entidades que não fizeram ainda o Projeto provincial de Vida e Missão; acompanhamento dos formadores; clarificar o sentido de Formação Permanente nas entidades; promover mais o diálogo nas fraternidades; priorizar a formação dos guardiães; dimensão vivencial no capítulo local; falta de familiaridade entre os irmãos; risco do clericalismo para a identidade franciscana; dimensão social da evangelização; formação para os leigos como pede o Documento de Aparecida; estudo de documentos ‘muito franciscanos’ como Aparecida e Evangelii Gaudium; cada entidade tem que estar presente no processo formativo; acompanhamento dos jovens frades especialmente por parte dos Ministros; melhorar a vida espiritual através da oração pessoal e fraternal; firmeza em assuntos administrativos e transparência econômica. Frei Michael Revista Santa Cruz

agradeceu a disponibilidade de alguns Ministros para enviar irmãos ao serviço da Ordem, que trabalham nas casas gerais em Roma ou participam de várias missões que estão sob a responsabilidade da Cúria Geral. Já como recomendações, Frei Michael tocou na possibilidade de criar um projeto de acompanhamento dos irmãos em dificuldades; ter boa comunicação entre os Ministros e os irmãos; avaliação de estruturas para verificar em que medida elas respondem hoje à vocação e missão da Ordem; redimensionamento das presenças com a finalidade de ter irmãos para formação; não sobrecarregar jovens frades com responsabilidades; espiritualidade integral que abrange todas as atividades da vida fraterna; e um estudo sobre a atual configuração das Conferências da América Latina. O segundo dia terminou com o diálogo do Ministro Geral com os frades das duas Conferências.

SENTIDO DE PERTENÇA Em outro texto que entregou aos participantes para reflexão, Frei Michael inicia fazendo uma análise sociológica e filosófica da sociedade até chegar ao contexto da Ordem dos Frades Menores, em que lembra que

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é preciso “recuperar e renovar nossa identidade carismática e evangélica”. Ele citou o Documento Final do último Capítulo Geral – “Ir às periferias com a alegria do Evangelho” -, onde “é necessário reconhecer que não podemos permanecer desejando viver as formas passadas, certamente úteis em um momento particular da história, pois muito seguramente já não movem os corações humanos e nos impedem de avançar adiante como Abraão e Sara”. Frei Michael cita o recente livro póstumo de Zygmunt Baumann, sociólogo e filósofo polonês (Retrotopía, 2017), argumentando que o mundo está mais dividido agora do que nos últimos tempos. “O reaparecimento das narrativas de um passado idealizado, de um tempo mais perfeito, uma nostalgia de algo sempre desejado, nunca realizado, e agora transposto em formas que se expressam a si mesmas em símbolos e linguagens nacionalistas, fechados, intolerantes e separatistas. Sobre esse ponto me vêm à mente os movimentos separatistas nas nações da Europa, o plano ‘Trumpista’ para construir muros em vez de pontes, a narrativa da segregação religiosa mantendo os ‘bárbaros’ muçulmanos fora das supostas nações cristãs, e até mesmo católicas, e poderia

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continuar com a lista”, avalia o Ministro Geral, lembrando que alguns sociólogos descrevem esses movimentos como consequência dos diferentes tipos de “exclusão” e marginalização que as pessoas experimentam, vestígios do Iluminismo e do Subjetivismo pós-moderno. “Em meio a todos esses desafios graves e ameaçadores, ouvimos o clamor humano pela recuperação de um sentimento de pertença: pertencer a uma comunidade, a uma fraternidade, a um lugar onde a identidade e dignidade humana são apreciadas, celebradas e aprofundadas. Os jovens, as pessoas de meia-idade e os idosos procuram espaços e sinais que lhes deem a oportunidade de se sentirem parte de algo”, observa Frei Michael. Para ele, o isolamento, a ansiedade e o medo, as consequências do nosso mundo globalizado, tecnologicamente conectado, mas desconectado em si mesmo, estão empurrando as pessoas a realizar uma busca, uma viagem, que ofereça a possibilidade de recuperar ou descobrir pela primeira vez essa parte da nossa identidade humana que é social, comum e fraterna. Por último, o Ministro Geral propôs o desenvolvimento de Revista Santa Cruz


uma nova narrativa para nossos tempos. Essa narrativa deve estar arraigada no Evangelho, fonte de nossa fé e nossa vocação evangélica comum. Assim como as narrativas mais memoráveis, inclusive aquelas “perigosas” nas Sagradas Escrituras (por exemplo, Lc 1,46-55; 4,16-20), a nossa deve providenciar o seguinte: Uma visão teológica trinitária nos permitirá descobrir a verdadeira fonte de nossa “fraternidade”, a comunhão na diferença ao serviço de todos os povos e de toda a criação, um círculo onde o diálogo é a “forma comum de se comunicar”, e não algo reservado a momentos particulares ou limitados. A natureza sacramental das coisas, a morada de Deus em todas e cada uma das pessoas e elementos da criação, faz presente o amor, a misericórdia e a força de Deus cada vez que nos reunimos “em Seu nome”, como acontece na Eucaristia. Deve ver-se a si mesma como uma Comunidade Espiritual em Peregrinação, um Povo Peregrino (Lumen Gentium) que viaja com a humanidade, especialmente com os pobres, marginalizados e desumanizados, e com o universo criado. Sabemos pelas Fontes e pelo exemplo de sua vida que, para Revista Santa Cruz

São Francisco, o caminho para a liberdade autêntica e evangélica passa pelos filtros da simplicidade de vida e da identificação com os pobres. Essa liberdade se concretiza em uma fraternidade que vive e respira a epifania de Deus em simplicidade e solidariedade com todas as pessoas, começando pelos frades e se estendendo a todas as pessoas e a todas as coisas.

FREI VALMIR PEDE UMA CULTURA DE PAZ NO BRASIL O terceiro dia (14/02) do Encontro do Governo e Definitório Geral com os Ministros e Custódios das Conferências dos Frades Menores do Brasil e do Cone Sul teve início com a Celebração Eucarística, às 7h30, no Convento e Santuário São Francisco, no centro de São Paulo (SP). O brasileiro Frei Valmir Ramos, que é Definidor Geral, responsável pelas Conferências Bolivariana e Brasileira, presidiu a Celebração Eucarística, tendo como concelebrantes o guardião Frei Mário Tagliari e o pároco Frei Alvaci Mendes da Luz. A Celebração foi especial com o início na Igreja do Tempo Quaresmal e da Campanha da Fraternidade (CF). Frei Valmir, introduzindo o tema da CF – “Fraternidade e superação da violência” – foi enfático ao afirmar

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que os cristãos são convidados a abraçar a causa da Igreja, para construir a paz, para dizer não à violência e fazer nascer uma cultura de paz. Frei Mário deu as boas-vindas aos participantes e à comunidade paroquial, que lotou a Igreja. “É uma honra muito grande ter o Governo Geral da Ordem dos Frades Menores em nosso meio nestes dias de encontro”, disse o guardião. Em sua homilia, Frei Valmir destacou que hoje se inicia um tempo mais propício para dar início a um caminho de conversão, de penitência: “Sabemos que a Quaresma é um período de preparação para a Páscoa, a festa da vida, pois tendo Jesus abraçado à cruz e a morte, ressuscitou. Na celebração da Páscoa, temos a origem e sentido de todas as outras celebrações; por isso, se faz importante viver a Quaresma de modo muito concreto em nossa vida, com o ouvido bem aberto e inclinado para a Palavra de Deus, que vai iluminando o nosso caminho de conversão”, disse o Definidor Geral. Segundo Frei Valmir, Jesus pede que a oração seja do fundo da alma. “Isso significa orar de modo humilde, rezar de coração para coração, pois dizer muitas palavras não quer dizer que Deus vai nos

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ouvir, porque Deus ouve o silêncio do coração. É a oração humilde, com o coração, e também cheia de confiança, pois sabemos que Deus está nos ouvindo, não para nos condenar, mas para acolher-nos na vida Dele”, acentuou o frade, evidenciando a necessária confiança em Deus, e ao mesmo tempo comprometendo-se a percorrer com fidelidade o caminho da conversão. Segundo ele, Jesus ensina no Evangelho o modo de proceder e de praticar a justiça, que quer dizer, realizar obras de misericórdia. De modo concreto e por meio de ações que podem ser pequenas, mas sensíveis às necessidades do outro. “Jesus fala também da penitência. Ouvimos na primeira leitura uma expressão forte do profeta Joel: ‘Rasgai os vossos corações e não as vestes’, e isso significa que não se faz penitência para que os outros nos vejam, mas sim para que esta atitude possa mudar a nossa vida. O caminho de penitência é fazer crescer o amor ao próximo. O verdadeiro jejum não vai ser aquele em que nós não comemos hoje para comermos amanhã, mas aquele de partilhar o pão. O jejum é o de não comer e dar de comer aqueles que não têm, eis um apelo grande desta Quaresma”, ressaltou Frei Valmir. Revista Santa Cruz


Introduzindo a Campanha da Fraternidade, que acontece em todo o Brasil e que já completou mais de 50 anos, e que em todos os anos traz um tema importante de reflexão, oriundo do Evangelho, Frei Valmir apresentou o objetivo geral desta CF que é: ‘Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência’. “Neste ano a causa é a paz, por isso o tema da CF é sobre a superação da violência. Construir a paz, aí está uma missão para todos os cristãos, para nós franciscanos e comunidade em geral. Hoje nós vivemos num mundo que possui uma cultura desvirtuada, onde ao invés de se ter uma cultura de paz, como pede a CF, tem-se uma cultura de violência. Daí uma necessidade da promoção da paz”, disse, lamentando que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo. “E a Igreja não quer ficar de braços cruzados diante da violência, esperando pelos governantes que façam alguma coisa. Infelizmente nossos governantes não conseguem criar políticas públicas para acabar com a violência”, observou, ressalvando, contudo, muitas ações de construções de paz que não são feitas pelos governantes, mas Revista Santa Cruz

pelo povo de Deus. “E a Igreja quer ser uma dessas ações, por isso, meus irmãos, somos convidados, nesta Campanha da Fraternidade, a abraçarmos a causa da Igreja do Brasil, para construirmos a paz, para dizermos não à violência, seja em casa, na rua, onde for”, completou Frei Valmir. Em seguida, o celebrante prosseguiu com a bênção das cinzas: “Estas cinzas são um sinal de penitência e indicam uma disposição para fazermos o caminho de conversão”, disse, sinalizando na sequência a testa de cada participante. No final da celebração, Frei Mário convidou todos os frades do Governo Geral da Ordem dos Frades Menores a se dirigirem até a frente do altar e, com a ajuda de Frei Valmir, apresentou-os à comunidade do Santuário e Convento São Francisco. Nesse dia, os frades trabalharam em grupos e, à tarde, apresentaram os resultados na plenárias.

DIA DE INSERÇÃO NAS PERIFERIAS EXISTENCIAIS

Na quinta-feira, 15, os frades do Definitório Geral, os Ministros e Custódios do Brasil e do Cone Sul, reunidos desde o último fim de semana no Convento e Santuário São Francisco, tiveram um dia

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intenso de visitas e inserção nas obras do Sefras, Serviço Franciscano de Solidariedade. Tempo de ir às periferias geográficas e existenciais. Eles visitaram quatro dos 11 espaços atendidos pelo Serviço. O primeiro deles foi o Sefras Criança, Centro para Crianças e Adolescentes (CCA) Peri. Localizado no extremo norte da capital, no Jardim Peri, o serviço atende 120 crianças e adolescentes. Frei José Francisco, Brayan Filipe e Ângela Assis, do Sefras, deram as boas-vindas e acolheram os visitantes. Eles conheceram as salas e os espaços criados para atender a demanda. Como brincou Ângela, coorde-nadora do Sefras Peri, o local segue o padrão da comunidade, com vários “puxadinhos” criados ao longo do tempo. Os frades puderam conhecer um pouco das obras do Sefras e o perfil de trabalho em cada local. Frei José Francisco explicou que o Sefras, como instituição, existe há quase 18 anos, mas que muitas obras que estão dentro da organização existem há mais tempo, como é o caso do Cefran, que funciona desde 1994, além da Educafro, Chá do Padre e Casa de Clara. Nos 11 locais de atuação do Sefras e na Sede Administrativa,

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trabalham 190 pessoas e 33 voluntários regulares. São 1689 pessoas atendidas, com 33.030 atendimentos por mês. Para funcionar, o Sefras conta com 5400 apoiadores, além da parceria com a Prefeitura Municipal e outros órgãos. Um dos projetos apresentados por Frei José Francisco foi o Sefras Migrante, que funciona desde 2014. Ele foi criado para atender a demanda dos imigrantes haitianos, que vieram para o Brasil após o terremoto que assolou o país caribenho. O local acolhe 110 pessoas, que recebem refeição, estadia, aulas de português e atendimento jurídico para regulamentação dos documentos. O frade afirmou que a situação para os refugiados no país é muito grave. “Em 2016, 40 mil pessoas pediram refúgio no Brasil. O Governo respondeu só a 7500 pessoas”, alertou o frade, afirmando que os demais não foram atendidos, mas que continuam no país, muitas vezes vivendo em regime de escravidão. Do extremo norte da cidade, os frades seguiram para a Zona Leste, no bairro do Belém, onde funciona a Casa de Clara, Centro Franciscano de Convivência e Apoio ao Idoso. No local, os atendidos pelo projeto já esperavam ansiosos pelos visiRevista Santa Cruz


tantes. Frei Michael Perry, Ministro Geral, deu a bênção antes do almoço.

QUARESMA: TEMPO DE ABRIR O

Após a refeição, Frei Inácio Delazzari, Ministro Provincial da Província São Francisco (RS) e presidente da Conferência dos Frades Menores do Brasil (CFMB) e Frei Fidêncio Vanboemmel, Ministro Provincial da Província da Imaculada Conceição, deram a bênção à imagem de Santa Clara, que em seguida foi colocada no novo jardim interno, feito e cuidado pelos atendidos. Um gesto simbólico para marcar a passagem dos frades pelo projeto.

Como acontece desde a última segunda-feira, os frades se reuniram às 7h30 no Santuário São Francisco para a Eucaristia. O Vigário-Geral, Frei Julio Cesar Bunader, presidiu a Celebração e teve como concelebrantes Frei Francisco Paixão, Custódio da Custódia São Benedito da Amazônia e por Frei Ignacio Ceja, Definidor Geral para as Conferências Guadalupana e Cone Sul.

Na parte da tarde, o Governo e Definitório Geral e os Ministros e Custódios do Brasil e do Cone Sul seguiram de volta ao Convento São Francisco, para conhecer outro serviço do Sefras, o Chá do Padre. O projeto, que funciona no antigo teatro do Convento, atende diariamente 700 pessoas. Além de servir chá e pão – feito pela padaria do Convento – o projeto passou a oferecer chuveiros para banho, lavanderia e atendimento jurídico aos atendidos, além de atividades culturais e socioeducativas. O dia de visitas e inserção na realidade local terminou com um jantar oferecido no Sefras Migrante, na Bela Vista. Revista Santa Cruz

CORAÇÃO A DEUS

Em sua homilia, Frei Julio destacou que a oração, o jejum e a misericórdia devem ser colocados em prática, visando a algo maior. “Volte o seu coração ao Senhor e dê espaço a Deus em sua vida com estas práticas. Em si mesmas, não têm sentido, não têm razão de ser, se não for para deixar espaço no coração para Deus”, afirmou. O Vigário recordou que o coração é o sacrário do homem. É no coração que se dá o encontro pessoal com o Senhor. A partir desse encontro, a pessoa é capaz de discernir o bem e o mal. Frei Julio ressaltou que não há imposição por parte do Senhor para essa escolha, mas que é do próprio homem, a partir de sua consciência, o dever de optar pelo bem e pela vida verdadeira.

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Recordando o Evangelho do dia (Lc 9, 22-25), o frade destacou os três critérios apresentados por Jesus para o seguimento: negarse, carregar a Cruz e seguir Jesus. “Talvez a Quaresma nos ajude a sermos discípulos de Jesus Cristo, e que na prática deixemos mais espaço ao Senhor, porque a vida cristã, o discipulado e a vivência da Quaresma são uma graça, um presente, um deixar-se transformar mais profundamente por Jesus”, afirmou. “Na realidade se salva aquele que se perde, o que se oferece aos outros, o que é capaz de deixar o egoísmo de saber tudo para viver em Deus a insegurança de nossa vida frágil e temporal, que necessita do outro para ganhar significado”, afirmou Frei Julio Bunader, que concluiu sua homilia pedindo generosidade na entrega cotidiana dos dons ao Senhor.

COM AS BÊNÇÃOS DA MÃE APARECIDA E DE FREI GALVÃO As atividades do Encontro do Definitório Geral com os Ministros e Custódios das Conferências dos Frades Menores do Brasil e do Cone Sul começaram cedo na sexta-feira (16/02). Ainda não era dia e os frades já estavam de pé e entusiasmados por um motivo muito especial: visitar o Santuário

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de Nossa Senhora Aparecida (SP) e também o Seminário Frei Galvão, casa de formação da etapa do Postulantado da Província Franciscana da Imaculada Conceição, localizado em Guaratinguetá (SP). Num clima de muita alegria e convivência fraterna, os frades, todos trajados com o hábito marrom, chamavam a atenção dos peregrinos que visitavam o Santuário. A expressão de surpresa dos romeiros e o desejo de tirar uma foto com os freis revelavam a satisfação de quem encontrava os filhos de São Francisco na Casa da Mãe Aparecida. Além de conhecer a maior Santuário Mariano do mundo, os religiosos franciscanos também marcaram presença na celebração da Santa Missa, às 10h30. Logo em seguida, dirigiram-se para o Seminário Frei Galvão.

ACOLHIDA FRATERNA NO SEMINÁRIO FREI GALVÃO Frades e postulantes esperavam ansiosos pela chegada dos visitantes, especialmente do Ministro Geral, Frei Michel Perry, na portaria do seminário, local onde diariamente são acolhidos inúmeros romeiros e devotos do primeiro santo brasileiro, Santo Revista Santa Cruz


Antônio de Santana Galvão. Um almoço de confraternização foi servido para celebrar a ocasião. Depois, de forma muito espontânea, os frades de profissão temporária que se preparam para viajar à Angola, onde farão o Ano Missionário, mais os freis estagiários da Fraternidade Franciscana São Boaventura de Campo Largo (PR), juntamente com todos os postulantes, tiveram um bate-papo com o Ministro Geral, Frei Michael Perry, e também com o Definidor Geral, Frei Valmir Ramos, que é brasileiro e responsável pelas Conferências Bolivariana e Brasileira. Após uma breve apresentação de cada um, Frei Michael Perry contou brevemente sua história de vida: “Antes de entrar para os franciscanos, tive uma experiência no trabalho de construção de casas para os pobres, junto com os protestantes e os franciscanos. Esta experiência foi marcante para mim.” E continuou: “Depois o Senhor me puxou!”, disse, provocando risos. O Ministro Geral falou da importância de encontrar os jovens frades e postulantes. Para ele, o que inspira esses momentos de partilha de vida é a certeza de que Deus continua chamando jovens que sabem distinguir a Sua Voz Revista Santa Cruz

dentre tantas vozes do mundo. “Para todos vocês que são jovens e que vêm de diversas realidades, não percam a oportunidade de colocar a serviço de Deus e da fraternidade os dons que Deus ofereceu a cada um”, pediu o representante de São Francisco na Ordem dos Frades Menores. Perguntado pelo postulante Rodolpho Marinho sobre o número de frades da Ordem no mundo, Frei Michael respondeu que atualmente são em torno de treze mil. Questionado sobre a queda numérica pela qual a Ordem vem passando, o Ministro explicou: “Às vezes acontece que alguns que vêm até nós para serem frades não escolhem serem frades menores. A grande questão de hoje é saber o que significa 'ser menor'". Em seguida, Frei David Belinelli perguntou sobre o andamento do processo de unificação dos três ramos da Primeira Ordem, Capuchinos, Menores, e Conventuais, e Frei Michael delegou a Frei Valmir a resposta a esta indagação: “Para São Francisco seria uma grande alegria certamente, pois não tem sentido termos um mesmo carisma e uma mesma regra e vivermos em três ordens. Então, o que Frei Michael está fazendo agora, juntamente com os atuais Ministros Gerais dos Capuchinhos

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e Conventuais, é uma caminhada muito próxima, fraterna e bonita, porque reconhece que de fato nós somos irmãos, mesmo que historicamente tenhamos passado por alguns momentos difíceis. A tendência é que haja sempre uma proximidade maior", evidenciou o Definidor Geral. Em relação à diminuição dos frades, Frei Samuel Santos Soares perguntou qual é o principal motivo de tantas desistências. “É muito complexo”, frisou frei Michael, e prosseguiu: “às vezes as decisões acontecem em momentos de mudanças psicológicas e biológicas. Também quando não se tem uma qualidade de vida fraterna, o frade acaba buscando fora. Outro motivo é a questão do ativismo, pois não se pode mudar o mundo de uma única vez. Também aqueles que não possuem um bom cultivo da oração, da fraternidade e da convivência acabam desistindo”, enfatizou. Em referência à vivência do Evangelho a exemplo de São Francisco de Assis, o Ministro Geral sugeriu alguns pontos essenciais que indicam uma caminhada saudável na vida franciscana: “1- Você nunca pode perder a esperança em si mesmo; 2- É preciso aprender a cair, para ter forças de se levantar;

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3- É necessário aprender a perdoar a si mesmo e também aos outros; 4- Aprender a rir, mas não deixar de ser comprometido com aquilo que você possui; 5- Ir ao encontro das pessoas mais pobres e frágeis e estar com elas”, sugeriu Frei Michael. Finalizando esse rico momento de partilha, o representante de São Francisco ofereceu a cada jovem um Tau franciscano abençoado pelo Papa Francisco. E, ajoelhando-se, pediu que frades e postulantes o abençoassem com a bênção de São Francisco, momento ímpar e emocionante para todos os presentes.

SEJAMOS OS PRIMEIROS A ABRIR NOSSAS VIDAS PARA A RENOVAÇÃO

A Celebração Eucarística às 16h30 do sábado (17/02), presidida pelo Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Michael Perry, encerrou o Encontro do Definitório Geral com os Ministros e Custódios das Conferências dos Frades Menores do Brasil e do Cone Sul. Desde a última segunda-feira, os frades se reuniram no Convento São Francisco (SP) com a missão de animar a Ordem e vivenciar um pouco a eclesiologia e o franciscanismo inseridos nas realidades desses países da América Latina. Revista Santa Cruz


Durante a manhã deste sábado, os frades se reuniram para avaliar as propostas surgidas neste Encontro e traçar um itinerário de compromissos. Durante uma semana, Frei Michael apontou problemas como a ameaça do clericalismo à identidade de Irmãos Menores, insistiu na vocação para formar fraternidades onde se reconhece a presença de Deus em cada um dos irmãos e não economizou em palavras de esperanças. Sua homilia de encerramento deixou bem clara esta mensagem de persistência e compromisso para recuperar e renovar a identidade carismática e evangélica da Ordem dos Frades Menores.

HOMILIA DO MINISTRO GERAL Meus queridos Irmãos, o Senhor lhes dê paz! E logo, ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito, como pomba, descer sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem-querer’. “Em seguida, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e ali foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam”. Revista Santa Cruz

Dois versículos atrás da passagem do evangelho que acabamos de ouvir, narra-se a cena do batismo de Jesus por João Batista no Jordão. Marcos nos conta que ali Jesus é declarado Filho amado de Deus, em quem Deus se agrada. Talvez seja melhor traduzir “em quem Deus colocou toda a sua confiança”. Mais tarde, Jesus é “empurrado para o deserto pelo Espírito Santo”, uma figura que encontra sentido unicamente à luz de sua identidade como Filho de Deus “amado e confiável”, aquele que compartilha uma intimidade com o Pai e com o Espírito Santo. O Deserto é apresentado como um lugar onde Jesus se encontrará, face a face, com a tentação, isto é, tudo o que procura destruir a harmonia e a comunhão com Deus. No entanto, Jesus entra nesse lugar tendo a absoluta consciência de sua identidade: ele sabe quem é! O evangelho não menciona a missão de Jesus dirigida às “ovelhas perdidas de Israel” ou aos gentios, coisa que fazem outros evangelistas, mas enfoca a importância da identidade como ponto de partida na construção de uma vida espiritual robusta e consistente. Na verdade, o Pai diz: “Você é meu Filho, o amado”. Afirma desde o início quem é e por que é importante.

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Sabemos, de outras passagens das Sagradas Escrituras, que vários dos “escolhidos” de Deus foram testados e não podiam ultrapassar certas provas. Em Gênesis, por exemplo, vemos que Adão, o primeiro homem, falhou. Mais tarde, Noé passou pela experiência do Dilúvio, mas, literalmente falando, ele caiu de bruços quando protagonizou um incidente deplorável com seus filhos. Mais tarde, Abraão experimenta vários fracassos em sua vida. Moisés, por outro lado, vive a experiência do fracasso, porque depois de libertar os israelitas da escravidão no Egito e levá-los pelo deserto, não lhe foi permitido entrar na Terra Prometida. A sorte não era melhor no tempo do rei Davi, que também caiu em pecado. Menciono brevemente esses personagens do Antigo Testamento para mostrar o forte contraste com a pessoa de Jesus que vive uma experiência de vitória e triunfo, embora, para muitos, tudo tenha terminado como um fracasso, com a morte na Cruz. Segundo São Marcos, Jesus permaneceu no deserto durante 40 dias, sendo tentado por Satanás, presumivelmente todos os dias. São Lucas, por outro lado, apresenta a tentação de Jesus apenas no final de seu jejum, nos últimos 40 dias. Sabemos

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dos estudos teológicos que São Marcos é um pouco mais realista e dá uma ênfase mais direta à dimensão humana de Jesus e seus seguidores. Talvez esse pequeno detalhe possa indicar que Jesus reconhece que a tentação de abandonar o chamado de Deus ou renunciar à identidade que recebemos como filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo é um desafio de todos os dias. E acho que aqui vem o primeiro ensino concreto para nós hoje: todos os dias estamos sujeitos a fraquezas. Mas também, todos os dias, o Senhor quer que renovemos nossa resposta, deixemo-nos encher de esperança, de modo que, com criatividade e compromisso, vivamos a nossa vocação de irmãos e menores. Não podemos dizer: hoje sim e amanhã veremos. Mas … Todos os dias! Minha resposta é todos os dias. Com forças ou sem elas, com vigor ou fraqueza, com fertilidade ou aridez, o Senhor aguarda minha resposta todos os dias. “Agora faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5). O tema do discipulado cristão no Evangelho de São Marcos está diretamente relacionado à ideia de que a identidade é algo que deve ser continuamente reafirmado. Por esta razão, a Formação Permanente em nossa relação pessoal com Cristo e entre nós como Revista Santa Cruz


comunidade de fé e fraternidade da Ordem é fundamental para perseverar no compromisso que fizemos diante de Deus. Mas a Formação Permanente também tem outro propósito: nos mantém alerta aos novos sinais dos tempos, às novas oportunidades para viver mais plenamente a vida evangélica mesmo em meio à confusão da mudança constante, à instabilidade e às ameaças à dignidade humana ou à integridade da criação. O único antídoto contra a ameaça de se quebrar sob a pressão das múltiplas tentações que aparecem diariamente em nossas vidas é que adotemos um modo de vida que inclua o compromisso diário de seguir Jesus, conscientes de que sempre O seguimos como Irmãos em Fraternidade. Vejamos como Jesus o faria: Ele constantemente “se retira” ou “sobe” para um lugar calmo com seus discípulos, nunca sozinho (Marcos 3, 7.10; 6, 30-31). Jesus propõe um “moratorium”; uma forma de discipulado estruturada em torno do “tempo livre” de sua pregação, ensino e cura dos mais necessitados. Ele nos revela que essa forma “alternativa” de viver é vital para manter viva a chama do Espírito de Deus presente em nós e ardendo intensamente. Revista Santa Cruz

São Francisco teve essa mesma “visão” e colocou em prática esse mesmo método encontrado na vida de Jesus; e também convidou seus discípulos a abraçar essa maneira de viver sua fé cristã. Portanto, todos nós, os Frades Menores, começando pelo Ministro Geral, e continuando com todos os Ministros e com cada frade, precisamos aprender desta maneira de Jesus e Francisco, essa prática de renovação contínua de fé, esperança e amor, levando-nos a um “tempo de qualidade espiritual” para permitir que o Espírito Santo toque nossos corações, cure nossas feridas e nos abra à ação efetiva que nos impele a fazer escolhas sérias, responsáveis e significativas evangelicamente diante das necessidades de nossos irmãos e do Povo de Deus em geral. Se você não está disposto a gastar tempo para estar com ele, poderá ser um grande trabalhador, talvez cheio de muitas qualidades, talvez um excelente comunicador social, um bom elemento para a Província ou a Custódia, mas possivelmente alguém com pouca vida interior e, portanto, com uma “desnutrida espiritualidade”! Que o Espírito de Deus se derrame em nossas vidas e em todas as entidades da Ordem dos Frades Menores. Que nós, ministros, sejamos os primeiros a abrir nossas

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vidas para a constante renovação de nossas mentes e corações para que Deus possa trabalhar efetivamente em e através de nós. Irmãos, juntos com Francisco de Assis, nos comprometamos com essa renovação todos os dias de nossas vidas. Vamos começar, pois, até agora, pouco ou nada fizemos! No final da Celebração, Frei Michael entregou um Tau abençoado pelo Papa Francisco aos Ministros e Custódios que participaram do evento.

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MENSAGEM DO MINISTRO GERAL PARA A PÁSCOA

“Abriram-lhes os olhos e eles o reconheceram!” (Lc 24,31) Queridos Irmãos, A presença de Jesus ressuscitado e glorioso esteja com todos vocês! Neste ano a nossa Ordem celebrará o Conselho Plenário em Nairóbi, colocando no centro da reflexão o tema da Escuta como condição para poder interpretar criativamente aquilo que o Senhor diz em sua Palavra, nos acontecimentos cotidianos e na vida de cada um dos frades. Pensei então que esta carta pascal deveria estar em sintonia com esse tema, buscando na fonte inexaurível da Palavra alguns textos bíblicos paradigmáticos que podem ajudar-nos a compreender melhor o mistério da ressurreição de Cristo e sobretudo o efeito que provoca um evento tão grande na vida de cada um daqueles que creem. A Quaresma nos ofereceu chaves de interpretação muito importantes em nosso itinerário rumo à Páscoa. A cada Domingo nós escutamos algumas leituras que nos mostram Revista Santa Cruz

o empenho de Deus em oferecer o dom da salvação a um povo que a própria Escritura define como sendo de cabeça dura. No segundo Domingo da Quaresma, de modo particular, a liturgia nos ofereceu um trecho do Novo Testamento sobre a Transfiguração do Senhor que, sem dúvida, quer ser um prelúdio do esplendor da glória que o Filho viverá e fará viver todos aqueles que creem nele. Essa condição de glória, porém, não será possível sem antes ter que enfrentar uma das provas mais insidiosas e dilacerantes: a morte. Focalizo o olhar, em primeiro lugar, sobre esse texto porque nele evidencia-se claramente uma situação de perplexidade, confusão e até atordoamento por parte dos três discípulos que Jesus tinha levado consigo. Pedro, por primeiro, deseja um estado de bem-estar que contrasta com a frase que Jesus tinha pronunciado em precedência: quem quiser salvar a própria vida a perderá, mas quem perder a própria vida por minha causa e por causa do Evangelho, a salvará (Mc 8,35). A versão do evangelista Marcos evidencia o desânimo e a confusão que os discípulos experimentaram depois que receberam o anúncio da paixão e morte de Jesus. Tal perplexidade aproxima-se àquela que os discípulos de Emaús

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experimentaram. Eles pensam que entenderam o que tinha acontecido em Jerusalém, mas Jesus avalia como insensatos e lentos de coração (Cf. Lc 24,25). A cena da Transfiguração acentua particularmente o ato de “escutar”. Quando Jesus se transfigura diante deles, uma voz provinda da nuvem diz: este é o meu Filho, escutai-o (Mc 9,7); um imperativo muito útil para reafirmar a ideia de que o poder da morte e o suplício da cruz não podem superar a eficácia da tarefa messiânica e salvadora, mas que tal sacrifício tornar-se-á uma bandeira da vitória que proclama a derrota da morte (Cf. 1Cor 15,55). Escutar aqui significa escolher como escolheu Jesus, aceitar o estilo proposto por Ele, seguir atrás dele (Cf. Mc 8,34), em um caminho que inicialmente não é glorioso, nem cheio de estímulos, mas que levará cada pessoa à plenitude da vida, a uma vida verdadeira no amor, na paz e na comunhão com todos. Um segundo texto que eu gostaria de considerar, sempre em chave de escuta, é a narração pós-pascal do encontro de Jesus com os dois discípulos de Emaús (Cf. Lc 24,13-35). Um texto fascinante, escrito com uma habilidade notável, composto para ser um ensinamento sobre o caminho

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dos discípulos que aprendem a reconhecer o Senhor ressuscitado. Os textos evangélicos que narram os encontros com o Ressuscitado são vários e diversos nas formas, nas modalidades, nos estilos, mas todos concordam em evidenciar como não foi fácil, nem mesmo para os discípulos que tinham vivido com Jesus, reconhecer o Ressuscitado. Os evangelistas coincidem em dizer que quando os discípulos encontravam Jesus ressuscitado duvidavam e não tinham certeza de quem era, pois não o viam como o tinham visto poucos dias antes, na sua experiência histórica, na carne de sua humanidade, pelo qual se confirma que o Ressuscitado é exatamente o mesmo, mas é completamente diferente. O evangelista Lucas afirma a ideia de que não basta ver Jesus para crer no Ressuscitado. É necessário fazer um caminho inteligente de compreensão das Escrituras para chegar, acompanhados pelo próprio Jesus, a um reconhecimento verdadeiro de sua presença. Em outras palavras, é a meditação das Escrituras e a aplicação destas a Jesus que na comunidade dos fiéis faz brotar uma convicção da veracidade da Ressurreição. A fé pascal não é só fruto do ver com os olhos, mas do repensar Revista Santa Cruz


as Escrituras, observando o seu cumprimento na pessoa do Ressuscitado. Eis por que a visão sozinha não é suficiente: não é a aparição que persuade, mas a explicação da Escritura e o itinerário de crescimento que se faz rumo a uma maturidade na fé. O próprio Paulo afirma na Carta aos Romanos: como poderiam invocar aquele em quem não creram? E como poderiam crer naquele que não ouviram? E como poderiam ouvir sem pregador? (Rm 10,14). Lucas ambienta o episódio em uma tarde em que o sol já vai entrando. Os discípulos dirigem-se para Emaús, em uma estrada de descida, é um caminho de retorno para casa, assinalado pela tristeza e pelo desejo de retirar-se em um ambiente privado, caracterizado pelo falimento e pela desilusão. Voltam porque pensam que erraram, que perderam tempo na vida deles. Seguiram um personagem, Jesus, esperando que fosse Ele que salvaria Israel, mas ao contrário, tudo acabou tragicamente. A um certo ponto Jesus se une a eles e caminha com eles. Os dois discípulos que deveriam conhecer muito bem Jesus, pois estiveram com Ele um bom período de tempo, agora não são capazes de reconhecê-lo. Por qual motivo? Depois dessa aproximação física do Ressuscitado em relação Revista Santa Cruz

aos discípulos, Ele ainda toma a iniciativa de perguntar: que palavras são essas que trocais? (Lc 24,16). Jesus mostra um comportamento educativo e faz uma pergunta retórica para fazêlos expressarem e envolvê-los. Não se manifesta imediatamente porque o reconhecimento do Ressuscitado requer um caminho. Parafraseando a pergunta, Jesus está dizendo: o que está no coração de vocês, qual é o interesse de vocês? À pergunta feita por Jesus segue-se uma longa resposta desses dois discípulos, carregada de presunção e com o desejo de querer ensinar algo; praticamente é a transmissão oral do falimento que eles estão experimentando naquele exato momento. Eis por que eles não o reconhecem. Eles estão convictos de saberem mais do que aquele forasteiro que acabaram de encontrar. Um particular que precisa notar está no fato de o evangelista colocar em cena os dois discípulos, mas nomeia apenas um, Cléofas. Quem poderia ser o outro? Considerando a natureza própria das narrações bíblicas do ponto de vista narrativo, o narrador deixa um espaço para que o leitor se sinta envolvido e ocupe também um lugar dentro da narração. O outro discípulo, então, sou eu, é você, é cada fiel que recebe esse anúncio. Existem

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outros particulares a evidenciar nesses textos, mas tentando vê-los integralmente gostaria, acima de tudo, propor uma pergunta: estamos convictos, nós os frades de nosso tempo, de reconhecer a pessoa do Ressuscitado que percorre o caminho também conosco? Durante as visitas que tive o privilégio de fazer em algumas Entidades de nossa Ordem, eu pude constatar que uma grande maioria dos irmãos e irmãs sabem testemunhar a ressurreição do Senhor com a própria vida; contudo, constatei também que ainda em certos âmbitos existem “rumores” externos e até mesmo internos, que obstaculizam a intenção de colocar-se à escuta do Senhor e impedem de percorrer um caminho de profundo discernimento semelhante àquele que viveram os dois discípulos do Evangelho, depois de terem vivido juntos com Jesus um momento eucarístico sublime e salvador. Para mim, nós estamos expostos a um duplo risco que consigo entrever nas narrações evangélicas expostas. Por uma parte, o medo e a perplexidade quando temos que enfrentar as adversidades que nos empurram a permanecermos em nossa “área de conforto”, evitando a escolha do caminho da cruz proposto por Jesus. É

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como se buscássemos economizar os momentos de desconforto para experimentar um estado de falso conforto que nos leva a dar prioridade ao nosso próprio projeto, deixando em segundo plano o projeto de Deus. Por outra parte, podemos adotar um comportamento inicial dos dois discípulos que vão rumo a Emaús, isto é, aqueles que creem saber tudo e instruir os outros, até mesmo no pessimismo e no desânimo, sem sequer parar um instante para escutar os interlocutores. Com dor, de vez em quando eu devo encontrar-me diante da realidade de irmãos que sofrem as consequências da falta de comunicação nas fraternidades locais e provinciais. Isto me confirma mais uma vez que as pessoas “cheias de si mesmas” dificilmente podem abrir um espaço para escutar a voz do outro, e não são capazes de fazer silenciar tantas vozes que falam ao mesmo tempo, para dar prioridade ao silêncio como um espaço privilegiado para escutar Deus e para ler os sinais dos tempos com audácia e sabedoria. O maior problema aparece quando as coisas não vão como estavam previstas. Acontece o mesmo que aconteceu com os discípulos de Emaús: chega a desilusão, o falimento, a desolação, o desejo Revista Santa Cruz


de deixar tudo para voltar atrás e não querer saber de mais nada. Assistimos então à ruína do projeto individual, pois acreditávamos que éramos o centro de tudo, deixando de lado Jesus, o autor verdadeiro e próprio de cada projeto. O evento da Ressurreição não pode ser reduzido à contemplação de um morto que volta à vida. A Ressurreição vai além da dimensão física e nos leva a uma experiência de autêntica salvação, com os efeitos que esta produz, assim como ocorreu com os discípulos da primeira geração. O evangelista Lucas insiste na ideia de que só se pode reconhecer o Ressuscitado se se caminha com Ele, enquanto nos ensina e nos explica as Escrituras e, de modo particular, quando se senta à mesa com Ele para partilhar o pão partido. Seus olhos se abriram e o reconheceram, diz o texto, para evidenciar que, apesar da insensatez deles, depois de percorrer o caminho com Ele, foram capazes de redescobrir a nova presença do Ressuscitado. Esta é a boa-nova declarada pelo próprio Evangelho: nós também seremos capazes de vencer cada tentação de autorreferencialidade ou de ceticismo se nos exercitarmos no escutar a Deus e aos nossos irmãos, se formos capazes de entender com a mente e com o coração a Palavra revelada que Revista Santa Cruz

nos foi entregue. Em São Francisco encontramos o claro exemplo de alguém que faz um caminho de vida evangélica, junto com os seus irmãos e com os pobres, e que chega com o coração cheio de alegria ao reconhecimento daquele que transformou para sempre a sua vida. Concluo esta carta com as palavras que nos presenteou o Papa Francisco na carta de Quaresma deste ano: "Na noite de Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do 'lume novo', pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica". "A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito", para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e caridade” (Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2018). Desejo a todos vocês uma abençoada e santa Páscoa na estrada da escuta e do discernimento, isto é, da vida renovada em Cristo. Frei Michael Perry, OFM Ministro Geral e Servo

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ELEITO NOVO GOVERNO NA PROVÍNCIA DE SANTO ANTÔNIO

Na Sessão Capitular na tarde de terça-feira (09/01), no Convento Santo Antônio, em Lagoa Seca (PB), foram eleitos os frades que comporão o Governo da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil. Para o serviço de Ministro Provincial, Frei João Amilton Santos, e para Vigário Provincial, Frei Sérgio Moura. Ambos foram reeleitos. Como definidores foram eleitos: Frei Rogério Lopes, Frei Paulo Araújo, Wellington Jean Souza, Frei Jonaldo Adelino, Frei Pedro Júnior Freitas e Frei Marcos Osmar Freire. Invocando o Espírito Santo, os frades pediram a inspiração divina e seguiram com a votação. Primeiro, para Ministro Provincial, depois para Vigário Provincial e, por fim, para Definidores. Consultados por Frei Fabiano Aguilar se aceitavam prestar tais serviços à fraternidade, os irmãos responderam positivamente.

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A seguir, todos os irmãos puseram-se em caminhada até a Igreja Conventual, onde se deu o Rito de Posse. O Ministro Provincial reeleito, Frei João Amilton, realizou diante do Presidente do Capítulo e dos demais irmãos a profissão de fé. Como representante do Ministro Geral, sucessor de São Francisco, Frei Fabiano Aguilar investiu o novo Ministro Provincial em seu ofício, conferindo-lhe “a autoridade, o poder e o ministério pastoral de todos os Irmãos”, simbolizado através da entrega do selo da Província. Logo depois foram confirmados no cargo o Vigário Provincial e os Definidores. Ao final da Celebração, os confrades impuseram as mãos sobre os membros do novo Governo Provincial, cantando solenemente a Bênção de São Francisco, seguindo-se a saudação fraterna da paz aos recém-eleitos.

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CARTA DE BELO HORIZONTE

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mateus 5,6) A Ordem Franciscana Secular e a Juventude Franciscana - Jufra - de Minas Gerais, reunidos em mais de 300 participantes no primeiro Encontro Regional de formação, no Colégio Sagrada Família das Irmãs Clarissas Franciscanas Missionárias do Santíssimo Sacramento, em Belo Horizonte, nos dias 16 a 18 de março de 2018, demonstram sua preocupação com a atual conjuntura que vive nosso país. Vivemos atualmente tempos de retrocessos. Muitos de nossos direitos, arduamente conquistados ao longo da história, têm sido atacados. Quem mais sofre com essa situação são as populações das periferias, sem-terra e sem-teto, pobres, principalmente mulheres, jovens, população negra, indígenas, LGBTs. Um dos lados mais perversos desses tempos de retrocessos é o assassinato de lideranças populares, defensores dos direitos Revista Santa Cruz

humanos, lutadoras e lutadores do povo que ousam denunciar essa situação. O recente brutal assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes não nos deixa esquecer de outras tantas tentativas de extermínio daqueles que trabalham pela dignidade humana, como nossa Irmã Dorothy e tantos outros mártires representantes da Igreja e de movimentos populares. Pessoas que dedicaram suas vidas, e pagaram com ela, para lutar por um mundo novo. Inspirados no princípio da Igreja em saída, comprometidos com a construção do Bem Viver, nós franciscanas e franciscanos empenhadas(os) na busca pela dignidade humana, não podemos nos calar diante da perseguição e do assassinato daqueles que ousam estar junto com o povo, clamando pelos direitos e denunciando as desigualdades sociais e injustiças. Não nos calaremos diante dessa situação. Somos inspirados em Jesus Cristo, que foi perseguido e assassinado na cruz por lutar por um mundo novo. Temos o exemplo de Clara e Francisco, perseguidos e injustiçados por seguirem os ensinamentos de Cristo. Continuaremos nos organizando, formando-nos e fortalecendo-nos

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enquanto povo em busca de uma nação soberana e livre, alicerçada na justiça social e na solidariedade. “Se calarem as voz dos profetas, as pedras falarão. Se fecharem os poucos caminhos, mil trilhas nascerão!” Belo Horizonte, 18 de março de 2018.

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NOTA DE REPÚDIO: DO LUTO À LUTA: POR MARIELLE FRANCO E O FIM DA VIOLÊNCIA INSTITUCIONALIZADA

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede são, tantas vezes, gestos naturais” (Podres Poderes – Caetano Veloso)” No dia 14 de março de 2018, a vereadora carioca pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Marielle Franco, e o motorista Anderson Pedro Gomes foram brutalmente assassinados. Marielle tem um histórico de lutas e de engajamento político-social, por isso, em 2016 foi a quinta vereadora mais votada, tornando-se uma das vozes mais eloquentes na defesa da população negra e periférica da cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, sua atuação não permaneceu restrita à sua cidade, mas se estendeu e se espalhou por outros estados, por isso sua morte é tão sentida e lastimada em cada canto deste país. A vereadora nasceu e foi criada na comunidade da Maré, periferia da cidade do Rio de Janeiro, onde Revista Santa Cruz

participou na juventude de um pré-vestibular comunitário. E é por isso que nós, da Rede Educafro Minas, sentimo-nos machucados e violentados, porque esta é uma realidade que também atinge nossos educandos e suas famílias. A violência que assola nossos educandos é a que matou Marielle e que ceifa, todos os dias, a vida de tantos próximos a nós. Uma mulher negra foi morta. Porém, Marielle não é mais um número na estatística, ela é, sim, o grito de socorro, a última gota das inúmeras injustiças que a população negra tem sofrido em nosso país: a mortandade de mulheres negras, que é maior que de mulheres brancas; o extermínio da juventude negra nas periferias dos grandes centros urbanos; a falta de acesso à educação e à empregabilidade; os autos de resistência etc. Infelizmente, existe uma violência institucionalizada que maltrata a população periférica, sobretudo negra, e que estava nas pautas de luta de Marielle, que, nos últimos dias, vinha lutando contra a intervenção militar no Rio de Janeiro, levou-a a se engajar ainda mais na denúncia dos excessos cometidos pela Polícia Militar na comunidade de Acari, onde dois jovens foram mortos.

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A violência que executou Marielle não é aquela que se diz estar sendo combatida no Rio de Janeiro pela intervenção, mas a violência institucionalizada, mantida e paga por agentes públicos que deveriam garantir segurança a todos, sem distinção. Marielle Franco incomodou, escancarou as portas da violência policial que chacina, executa e extermina uma população que, historicamente, já sofre com diminuição de seus direitos e sucumbe ao bel prazer dos “donos do poder”. Este é o momento de transformar o luto em luta, o silenciamento histórico em canções de transformação e engajamento. É a hora da união dos que prezam pelos direitos humanos, para a construção de um país mais justo, diverso e paritário. Marielle não tombou por si mesma, mas por todos os que lutam, pela população negra, pelas mulheres, pela população LGBTQI, enfim, por todas e todos que estão buscando a defesa de seus direitos e a garantia de sua dignidade. Marielle representa, por seu sangue, aquelas e aqueles que tombam todos os dias e não têm seus nomes estampados nos jornais. Ela é o nome que carrega consigo inúmeros outros nomes esquecidos. Ela representa populações que estão na mira dos po-

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derosos, que não aceitam que lutas históricas sejam levadas a cabo em nosso país. Nós, da Rede Educafro Minas e do Centro Franciscano de Defesa de Direitos (Cefad), repudiamos todo e qualquer ato de violência, por isso nos levantamos, exigindo a imediata e minuciosa investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes. Sabemos que uma investigação séria e republicana trará justiça não só a este caso, mas a tantos outros que precisam ser esclarecidos, porque aconteceram e permanecem à meia luz do estado democrático de direito. A Rede Educafro Minas e o Centro Franciscano de Defesa de Direitos se solidarizam com a companheira de Marielle, seus familiares e correligionários políticos, prestando-lhes nossos préstimos e sinceros sentimentos de solidariedade. Estes são tempos sombrios para aqueles que sonham e estão construindo alternativas para o nosso país, mas não é o momento de baixarmos a cabeça. Agora, só há um imperativo possível: lutar! Rede Educafro Minas Centro Franciscano de Defesa de Direitos Revista Santa Cruz


CURSO PARA FORMADORES, ANIMADORES E PROMOTORES VOCACIONAIS, REALIZADO PELO SERFE DA CFMB

Por Frei Arlaton Luiz Soares de Oliveira, OFM Acompanhar o itinerário formativo dos irmãos é considerado pela Ordem um verdadeiro ministério. Confiado não só aos ministros e moderadores da formação permanente, o ministério do cuidado espiritual (Cf. Rnb 4,6) e da guarda fraterna (Cf. Rnb 5,1), tanto em relação à comunidade como em relação aos frades e candidatos individualmente, é “exercido, de forma continuada, particularmente pelos guardiães, pelos formadores e pelos orientadores espirituais – a quem são confiados os outros irmãos” (RFF 92,1). Assim, segundo nossa Ratio Formationis Franciscanae, para exercer tal ministério, os responsáveis pela formação devem ser adequadamente formados para serem fecundos acompanhantes. A fim de garantir a formação dos novos formadores e a atualizaRevista Santa Cruz

ção daqueles que trabalham na formação, a Conferência dos Ministros Provinciais dos Frades Menores do Brasil (CFMB), através do Serviço para Formação e Estudos (Serfe) da Conferência, organiza, desde a década de 90, um curso para os frades, no qual se aprofundam aspectos antropológicos, espirituais e pedagógicos franciscanos, em vista da formação dos frades que atuam em diversas etapas da formação nas diferentes entidades. A primeira etapa do curso ocorreu entre os dias 5 e 17 de março, no Convento do Sagrado Coração de Jesus, na cidade de Petrópolis (RJ), e contou com a participação de 29 frades, das nove entidades da Conferência. Da Província Santa Cruz, participaram Frei Irwin Couto, Frei Arlaton Luiz e Frei Agmar Roberto. Os temas abordados nessa primeira etapa foram: • Teologia da Vida Religiosa, assessorada por Frei Fabiano Aguilar Satler (PSC); • Características da Evangelização na História da Ordem e no Brasil, por Frei Sandro Roberto (Prov. Imaculada Conceição); • O Jovem nos Cenários Contemporâneos, pelo professor Carlos Eduardo Cardozo (Unirio);

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• A Pedagogia Franciscana, por Frei César Külkamp (Prov. Imaculada Conceição);

• Formar para os Valores da JPIC, por Frei James Girardi (Prov. Imaculada Conceição);

• Formar para a Eclesialidade, por Frei João Reinert (Prov. Imaculada Conceição);

• Formação para os Desafios Contemporâneos, pelo professor Edmar Sena (PUC Minas).

• Formar para a Solidariedade com os Empobrecidos, por Frei José Francisco de Cássia (Prov. Imaculada Conceição);

Durante o curso, partilhamos a riqueza da diversidade cultural e do processo formativo de nossas entidades. A segunda etapa do Curso será também em Petrópolis e acontecerá de 2 a 14 de julho deste ano.

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PRIMEIRO ENCONTRO REGIONAL DE FORMAÇÃO OFS E JUFRA

Por Equipe Provincial de Comunicação No final de semana de 16 a 18 de março, aconteceu, em Belo Horizonte, o primeiro Encontro Regional de Formação da Ordem Franciscana Secular (OFS) e da Juventude Franciscana (Jufra). O encontro aconteceu nas dependências do Colégio Sagrada Família, das Irmãs Clarissas Franciscanas Missionárias do Santíssimo Sacramento. O encontro contou com a assessoria de Frei Arlaton, OFM, Frei Oton,

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OFM e Francisco Orofino. Frei Arlaton, OFM abordou a história da Ordem Franciscana Secular e da Juventude Franciscana; Francisco Orofino, biblista do Cebi, abordou a temática da penitência nas Sagradas Escrituras; e Frei Oton, OFM abordou o tema “ética e discipulado”. “Muita coisa foi sendo construída, e acreditamos que esse foi um momento muito marcante para a caminhada, tanto da OFS quanto da Jufra.” Marcaram presença 310 inscritos. Estes acreditaram na proposta formativa apresentada de se fazerem menores para vivenciarem esse “Capítulo das Esteiras”. A temática principal do encontro girou em torno da A alegria do Evangelho para uma Igreja em saída!

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Na celebração de encerramento, presidida por Frei Francisco Alexandre, OFM, foram admitidos seis jufristas à formação da OFS. Esse é um marco para a OFS, no caminho de sua renovação. Dos seis admitidos à formação, duas são jufristas de Betim: Fernanda Cristina e Noelle Carolina.

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Os participantes do encontro também demonstraram sua preocupação com a atual conjuntura que vive nosso país por meio da publicação da chamada Carta de Belo Horizonte, que foi publicada nesta revista na seção Vida da Ordem.

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IV Vida da P ovíncia Revista Santa Cruz

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Notícias SÍNTESE DO CURSO DE FRANCISCANISMO Por Frei Fernando Resende da Silva, OFM

Ao longo de três semanas do mês de janeiro de 2018, participei do Curso de Franciscanismo no município de São Pedro, próximo de Piracicaba, no estado de São Paulo. Situa-se lá um edifício construído para retiros, encontros, formações e cursos; o edifício pertence aos frades capuchinhos. Os participantes do curso são oriundos de vários estados, todos eles da “família Revista Santa Cruz

franciscana”. O diretor do Instituto nos recebeu muito bem e dividiu-nos em grupos pequenos para que cada grupo pudesse conduzir as laudes, vésperas e celebrações eucarísticas, no dia a dia. A turma do 1O ano – da qual fiz parte – teve as seguintes disciplinas: Introdução às fontes franciscanas; Fontes Clarianas; História Franciscana. Notei que cada um dos professores domina

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bem o assunto. Além dos grandes fatos históricos, ouvimos também detalhes que, na verdade, são significativos e preciosos, e que não são facilmente detectados com uma leitura simples. Conforme o que vamos ouvindo, surgem em nós novas conclusões, mais apreciações, mudanças nas compreensões, interpretações mais verdadeiras e reorganizações na perspectiva que cada um tem sobre o carisma franciscano. Sobre o conteúdo visto nessas três semanas, cito alguns pontos: 1) A mais antiga representação de São Francisco de Assis está no Monte Subiaco, no interior da Capela São Gregório. Apresenta-se São Francisco com uma túnica cinzenta e em sua mão um pergaminho, escrito “paz a esta casa”; atrás dele um portal – trata-se de um afresco com data de 1227 a 1230. 2) Mais uma parte da obra de Tomás de Celano foi descoberta recentemente, no ano de 2014; antes disso, a última descoberta foi em 1975, e outra, em 1976. 3) São Francisco foi convidado a participar do IV Concílio de Latrão porque já era considerado pela Igreja um “prior”. 4) A tradução correta da famosa fala de São Francisco

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é: “Comece-mos, irmãos, a servir ao Senhor Deus, porque até agora pouco ou em nada progredimos”. 5) A emissão dos três votos como forma jurídica foi fixada primeiramente para a Ordem dos Trinitários. Vê-se que o número de votos coincide com o nome dessa Ordem. Em seguida ela foi fixada para a Ordem dos Franciscanos, em 1220; e aí imediatamente para todas as ordens e congregações religiosas. Os monges anteriormente faziam o voto para a vida monástica. 6) Em 1219, o Cardeal Hugolino estabeleceu para Clara e suas irmãs um estilo cisterciense para o mosteiro de São Damião, estilo que trazia a clausura também. Antes dos cistercienses a clausura era algo secundário. 7) Frei Elias Bombarone recebeu do Papa Gregório IX a incumbência de conduzir a construção da Basílica de São Francisco. Por causa disso, Frei Elias não conseguiu fazer visitas canônicas às províncias e custódias. 8) No século XIII a Igreja utilizava largamente a palavra “espelho” com o seguinte Revista Santa Cruz


significado: a meta cristã seria “refletir” a pessoa de Jesus Cristo para os outros. Décadas depois, surgiu a obra intitulada “Espelho da Perfeição”. 9) A definição de “legenda” é aquilo que deve ser lido para ficar mais bem conhecido. A legenda assegurava ao leitor um conhecimento mais exato de alguém em comparação a outros escritos. 10) Frei Bernardo de Bessa foi secretário de Frei Boaventura. Quando este faleceu, Frei Bernardo permitiu que os escritos sobre São Francisco fossem refeitos. E ele mesmo escreveu um, intitulado Livro dos Louvores. 11) Em 1371 os franciscanos entraram em mais uma circunstância que intensificaria divisões internas: a existência simultânea de dois papas. As outras ordens religiosas foram afetadas também.

tempo. Os “frades conventuais”, surpreendidos com este fato, insistiram junto ao papa para que Frei Boaventura de Bagnoregio fosse canonizado também. Diariamente todos os participantes do curso tinham sensação de bom entrosamento; os professores das três turmas dialogavam facilmente conosco durante as refeições; o ambiente natural que circunda o edifício encontrava-se bem cuidado. O curso encerrou-se no dia 27 de janeiro, em dia de sábado. Houve missa de encerramento neste último dia; no momento das orações espontâneas, alguns agradeceram a Deus pelo acontecimento, e outros pediram a bênção para a viagem de cada um(a) e também pela missão de cada um(a).

12) No século XV, a vivência franciscana de Frei Paulúcio de Foligno influenciou vários frades, os quais tiveram a ideia de formar um outro grupo; passaram a ser denominados de “frades observantes”. Desse grupo sobressai Frei Bernardino de Senna, canonizado em pouco Revista Santa Cruz

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ENCONTRO DA JUFRA EM DIVINÓPOLIS Por Frei Laércio Jorge de Oliveira, OFM Aconteceu entre os dias 27 e 28 de janeiro de 2018, no Centro Franciscano de Formação e Cultura, o Encontro Distrital da Jufra (Juventude Franciscana). O encontro contou com a presença de jufristas das cidades de Betim, São João del-Rei, Muriaé e da cidade anfitriã, Divinópolis. O tema do encontro foi: "Vocação e profissão: desafios e possibilidades para o mundo jovem", e o lema: "Senhor, que queres que eu faça?".

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Neste encontro, as reflexões tematizaram a questão vocacional do jovem e seus desafios relacionados às escolhas profissionais, abordando ainda o amplo significado da palavra vocação. Além disso, tivemos momentos interativos para assimilação dos conteúdos. Foi um momento de muita descontração, espiritualidade, dinâmica e formação.

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PROFISSÃO SOLENE DE FREI EDUARDO VELY MESQUITA Por Frei Marco Antonio Abrêu Lomar, OFM “E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho.” Quarenta dias após a celebração do Natal do Senhor, dia em que celebramos o Deus Emanuel, o verbo que se fez carne e habitou entre nós, o povo de Deus se reúne para celebrar a memória do dia em que Jesus foi apresentado no templo por Maria e José. A apresentação do Senhor é a festa de Cristo luz das nações, o Deus que vem ao encontro de seu povo fiel. A presença de Jesus enche de glória o templo, e sua luz irradiante é a luz verdadeira que ilumina as trevas deste mundo. O velho Simeão e a profetiza Ana contemplam Jesus Menino, promessa de salvação de todos os povos e culturas. A luz veio ao mundo e visitou-nos do alto o Sol nascente. Nessa celebração, movidos e iluminados pelo Espírito de Deus, somos chamados, assim como o velho Simeão e a profetiza Ana, a reconhecermos e contemplarmos Revista Santa Cruz

o Deus-Menino, o Verbo feito carne, que é conduzido ao Templo: o templo do nosso coração. É notável através da liturgia o gesto de Maria e José, de cumprir a lei, apresentando Jesus no Templo de Jerusalém, após quarenta dias do seu nascimento, a fim de dedicá-lo a Deus. Inspiram, assim, homens e mulheres a se consagrarem a Deus por meio dos conselhos evangélicos de Sem nada de próprio, Obediência e Castidade. Por isso, nesse dia a Igreja celebra o dia dos consagrados e das consagradas, homens e mulheres que buscam, por meio dos conselhos evangélicos, viverem uma radicalização do seu chamado batismal.

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Assim, impelido pelo Espírito do Senhor e inspirado pela mística do seguimento de Jesus Cristo, segundo Francisco e Clara de Assis, no dia 2 de fevereiro deste ano de 2018, no dia da Apresentação do Senhor, Frei Eduardo Vely de Mesquita emitiu, nas mãos do provincial Frei Hilton Faria de Souza, os votos evangélicos de viver em Obediência, Sem propriedade e Castidade, segundo a Forma de Vida e a Regra de nosso Seráfico Pai São Francisco de Assis. A celebração eucarística, na qual Frei Eduardo Vely de Mesquita emitiu os seus votos evangélicos, ocorreu na Paróquia São Francisco das Chagas, em Carlos Prates, Belo Horizonte, às 19h30min, com presidência do próprio Ministro Provincial. Nessa celebração, fez-se presente um grande número de pessoas envolvidas pelo espírito de louvor e gratidão a Deus, por alguém que se propõe, de coração sincero, a dar a sua vida pela causa do Reino de Deus, colocando-se a serviço dos homens e mulheres do nosso tempo, por causa de Cristo, na Ordem dos Frades Menores. Lá estavam confrades, religiosos e religiosas de diversas congregações, familiares, paroquianos e amigos, dentre os quais,

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destacamos os que vieram de bem longe, como os de Roraima, terra onde o professo esteve em missão durante o período de quase um ano, em 2015. A celebração teve seu início com a liturgia da luz, e, logo em seguida, recebemos a procissão de entrada dando continuidade à Liturgia da Palavra. Após a proclamação do Evangelho, feita pelo Frei Adilson Correia da Silva, deu-se início ao rito da profissão, na qual Frei Eduardo pediu publicamente para pertencer definitivamente à Ordem dos Frades Menores por meio da emissão dos votos solenes. Seguindo-se a homilia, o Ministro Provincial destacou que a presente liturgia também é celebrada por outras igrejas cristãs e que Jesus, por meio de seus pais, cumpre o primeiro preceito ritual e, assim, é acolhido entre o povo dos que creem, representados na figura de Simeão e Ana. De maneira especial ao jovem frade, salientou que ele deve buscar sempre a mesma fidelidade de Simeão e Anã, que esperaram com toda a sua força e incansavelmente o cumprimento da promessa: a vinda do salvador, o messias, luz para todas as nações. Recordando a fórmula da profissão, o Ministro afirmou ainda que ela contém, de forma sintética, o Revista Santa Cruz


-se continuidade ao rito eucarístico da missa.

fundamento daquilo que Francisco de Assis intuiu como projeto inicial e pediu ao frade que paute sua vida sobre o alicerce do Evangelho vivo que para Francisco significou a síntese de sua forma de vida. Mencionando Clara, salientou ao frade que não perca de vista o seu ponto de partida, assim como o viver a sua consagração com fidelidade. Ao concluir a homilia, retomou-se o rito da profissão, pela qual o Frade Eduardo Vely de Mesquita, com firme propósito professou solenemente os conselhos evangélicos. Terminada a oração de consagração do neoprofesso, foi feita a entrega da Regra de vida, seguindo os cumprimentos feitos pelos confrades e os parentes mais próximos. Após isso, deuRevista Santa Cruz

Ao término da celebração, Frei Eduardo Vely de Mesquita proferiu o seu agradecimento em forma de louvor a Deus. Ele louvou a Deus pelo carisma de seu fundador, pelos seus pais, formadores, confrades, amigos, entre outros, que se fizeram presentes na sua caminhada de fé até o presente momento. Seguindo-se da benção final houve um jantar de comemoração no salão da igreja. Como o velho Simeão, queremos render graças a Deus pelo dom da vida do jovem frade que foi acolhido definitivamente no seio da Ordem dos Frades Menores, na fraternidade da Província Santa Cruz. Rezemos para que, com o mesmo firme propósito ao qual ele fez suas promessas, também caminhe com fidelidade nas pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo, não perdendo jamais seu ponto de partida e sendo sempre uma testemunha fiel de Jesus Cristo, luz que ilumina todas as criaturas.

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VISITA DO CUSTÓDIO DA TERRA SANTA A BELO HORIZONTE Por Frei Francisco Alexandre Viana, OFM No dia 26 de janeiro de 2018, a Província Santa Cruz recebeu a visita do Custódio da Terra Santa, Frei Francesco Patton, OFM. No mesmo dia aconteceu a inauguração do Comissariado da Terra Santa de Belo Horizonte.

OFM e de Dom Walmor Oliveira Azevedo, as boas-vindas ao Custódio, a Frei Marcelo Cichineli, OFM (moderador da formação/ coordenador dos comissários) e a Frei Bruno Varriano, OFM (Guardião da Basílica de Nazaré).

Às 14 horas reuniram-se vários frades, colaboradores da Terra Santa, religiosos e outros convidados na sede do Comissariado em Belo Horizonte. Frei Francisco Alexandre, Comissário da Terra Santa, deu, em nome do provincial Frei Hilton Farias de Souza,

Na ocasião, Frei Francisco recordou a história do comissariado desde a criação da primeira casa em Ouro Preto, no ano de 1724. Recordou as várias casas que foram fundadas, como as de Sabará, São João del-Rei, Recife, Salvador, Diamantina, Araxá, Mariana, entre

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outras. Mencionou a influência e proteção que este serviço teve por parte da Coroa Portuguesa, na figura do Imperador Dom João VI, até a criação de um comissariado geral no ano de 1808. Frei Francesco Patton, recordando os 800 anos da presença dos Franciscanos na Terra Santa, falou um pouco mais sobre a realidade dessa presença em Israel, guardando os santuários cristãos. Este serviço foi confiado à Ordem Franciscana no ano de 1346 pelo Papa Gregório VI. Além disso, o frade italiano falou da realidade desafiadora da custódia nos tempos atuais, no diálogo inter-religioso, na presença nos trabalhos sociais, educacionais, acadêmicos e eclesiais, que a custódia desenvolve para a Igreja local de Jerusalém e no Estado de Israel. Apresentou dados sobre a presença atual dos cristãos na Terra Santa e os diversos trabalhos realizados pela custódia. Chamam a atenção os dados da Síria que, em 2010, contava 2,2 milhões de cristãos, numa população de 25 milhões de pessoas. Hoje, tem 15 milhões de habitantes, dos quais 1,1 milhão de cristãos. A queda brusca nestes números se deu por conta de uma guerra iniciada em 2011. Muitos habitantes da Síria deixaram o Revista Santa Cruz

país neste período. Sobre esse drama vivido na Síria, o Custódio explicou: “O serviço mais importante que os nossos frades desenvolvem em Alepo (maior cidade da Síria) é manter viva a esperança nas pessoas e ajudar todos a manter o coração livre do ódio e aberto ao perdão e à reconciliação. Desse ponto de vista, são muito importantes algumas iniciativas recentes nas quais estão envolvidos alguns dos nossos frades, para promover um diálogo entre aqueles que se disponibilizaram à reconciliação e à paz”. Frei Francesco agradeceu a acolhida e empenho de tantos colaboradores espalhados pelo mundo e, em seguida, homenageou os zeladores presentes pelo trabalho realizado em prol da Terra Santa, através do Comissariado de Belo Horizonte. Agradeceu, também, à Província e a Frei Francisco Alexandre, pelo trabalho realizado. No final inaugurou o comissariado. Por fim, foi oferecido, pelas zeladoras, um café bem mineiro, com vários pratos típicos da culinária mineira. Foi um momento bonito de confraternização e partilha entre todos.

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PARÓQUIA SANTA ISABEL REALIZA ASSEMBLEIA PAROQUIAL Por Frei Luciano Lopes, OFM

No dia 4 de fevereiro de 2018, aconteceu no salão da Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário, na Colônia Santa Isabel, em Betim, a assembleia paroquial da Paróquia Santa Isabel da Hungria. A assembleia foi coordenada por José Roberto Pacheco Silva e Willian, tendo como moderador Frei Antônio Teófilo, seus colaboradores, Frei Geraldo Machado, Frei Luciano Lopes e Frei Geraldo Luciano e as irmãs do Monte Calvário.

Lacerda. O bispo auxiliar integra o Comitê Gestor da Mitra Arquidiocesana (Cogem), acompanha as pastorais sociais, os projetos de ação pastoral no mundo do trabalho e habitação, articulados pelo Vicariato Episcopal para a Ação Social e Política da Arquidiocese de Belo Horizonte. Além disso, Dom Otacílio é bispo referencial da Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida (Rensa), que abrange 14 cidades da região metropolitana.

A assembleia se iniciou com a celebração eucarística presidida pelo bispo auxiliar de Belo Horizonte Dom Otacílio Ferreira de

A assembleia paroquial contou com a presença de 94 participantes (paroquianos, coordenadores de pastorais e movimentos das

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comunidades). A paróquia Santa Isabel dá assistência a cinco comunidades, a saber: Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora dos Anjos, Santa Luzia e São Francisco de Assis e também a capelania das Irmãs. Dom Otacílio deu início à assembleia falando do tema escolhido para animar a mística do Ano do Laicato: Cristãos Leigos e Leigas, sujeitos na "Igreja em Saída, a serviço do Reino", e

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do lema: "Sal da terra e luz do mundo". Após a divisão do trabalho em grupos, foram apresentadas as observações feitas em relação ao relatório das miniassembleias. Em seguida, mostrou-se a agenda anual das atividades da paróquia. A assembleia encerrou-se com a bênção do Santíssimo Sacramento na capela das irmãs do Monte Calvário.

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ENCONTRO DA FAIXA ETÁRIA VI Por Carlos Alexandre Lima, OFM Tendo em vista a continuação da nossa formação, os frades da VI Faixa Etária, juntamente com o nosso Moderador da Formação Permanente, Frei Jaime Ribeiro, reuniram-se dos dias 9 a 13 de fevereiro, na Casa Arca de Noé, na cidade de Guarapari-ES. Foram dias intensos marcados por oração, partilha e convivência que os frades puderam vivenciar; esta faixa etária corresponde aos frades que, em sua maior parte, encontram-se em seu processo acadêmico ou que vivem novas experiências pós o término de seus estudos. Momento forte desse encontro foram a celebração eucarística presidida por Frei Jaime e a partilha de nossa caminhada vocacional e institucional, onde pudemos expor os anseios e angústias que trazemos, principalmente no âmbito de um novo Projeto de Evangelização na PSC.

Nosso Pai, São Francisco, e irradiar o nosso carisma franciscano em terras mineiras. “Que possamos ter sempre em nossas vidas o gosto de estarmos juntos, e que encontros como a Faixa Etária e o Under Ten sejam sempre vistos como importantes para a continuidade de nossa formação permanente”, assim destacou Frei Jaime ao grupo. A VI Faixa Etária é composta pelos seguintes confrades: Ademilson Salvino, Adenilton Reis, Agmar Roberto, Arlaton Luiz, Bruno Laviola, Carlos Alexandre Lima, Eduardo Vely, Humberto Fernando, José Bandeira, José Roney, Kauê Roque Lima e Ronilson Caetano.

Enquanto frades jovens, partilhamos a importância de deslanchar num Projeto de Evangelização que corresponde a nossos anseios e que seja em nossa província um verdadeiro kairós, permitindo, assim, continuarmos o sonho do

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CASA COPACABANA... DE CARA NOVA! Por Irmão Sol

Há um tempo sonhávamos com a oportunidade de passar por algumas mudanças na estrutura da Casa, e o telhado era uma delas. Afinal, esta reforma vai além de uma melhoria estética, ela cria a possibilidade de continuarmos abrigando os sonhos dos nossos pequenos. A reforma era necessária devido a vários transtornos como: vazamentos, telhas quebradas, falta de calhas, entre outros. Sendo assim, neste mês de fevereiro foi realizada a reforma completa de todo o telhado da unidade. Revista Santa Cruz

Ressaltamos que a obra foi proporcionada pelos voluntários do Colégio Santo Antônio, grupo que sonhou conosco e investiu para que as melhorias fossem possíveis de ser concretizadas. A todos que participaram dessa campanha, o nosso MUITO OBRIGADO! A Casa Copacabana está linda! O resultado da obra é uma casa com um ar mais acolhedor, harmonioso e aconchegante para as nossas crianças. Um verdadeiro lar! Os nossos acolhidos estão radiantes com o novo ambiente.

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ADMISSÃO AO POSTULANTADO Por Equipe Provincial de Comunicação "Vem e segue-me!" (Lc 18,22) Na manhã do dia 4 de março de 2018, durante a celebração eucarística presidida pelo Ministro Provincial Frei Hilton Farias de Souza, aconteceu o rito de admissão de 11 jovens à etapa formativa do Postulantado. Concelebraram a Eucaristia Frei Jaime Eduardo Ribeiro (Guardião do Postulantado), Frei João Ricardo Teodoro (Formador) e Frei Saulo José Duarte (Secretário Provincial). A vida no Postulantado Franciscano da Cruz de São Damião

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está ligada à mística da terra. Localizado em meio às serras da região rural da histórica cidade de São João del-Rei – MG, o espaço do Postulantado possibilita aos postulantes a oportunidade de trabalhar o cultivo da terra, a criação e o cuidado de animais. O jovem realiza também todos os trabalhos manuais da casa, como um valor imprescindível de doação, dedicação e serviço ao outro. O isolamento e os morros da fazenda permitem um ambiente de silêncio, oração, contemplação e contato com a natureza. Ao longo do período do

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Postulantado, o jovem é chamado a conhecer e experimentar a maneira franciscana de viver o Evangelho. Aprende o sentido da vida fraterna, da minoridade, da pobreza e do trabalho. Vivenciam a dimensão do apostolado por meio da presença evangelizadora em diversas comunidades e pastorais.

• Sandro Alves Pereira de Jesus (Janaúba – MG)

Atualmente, a etapa do Postulantado, na Província Santa Cruz, tem a duração de dois anos. Os postulantes somam um total de 18 jovens (11 jovens no 1O ano de Postulantado e sete jovens no 2O ano de Postulantado). São eles:

• Alan Vitor Rodrigues Santos (São Bernardo de Campo – SP)

Postulantes do 1O ano • Anderson Moreira Lopes (Belo Horizonte – MG) • André Luiz Fernandes (Caraí – MG) • Diogo de Souza Carreira (Cachoeiro do Itapemirim – ES) • Fabrício Rodrigues Soares (Capitólio – MG) • Isaque Santos de Sá (Medeiros Neto – BA) • Jhonathan Sebastião de Souza (Lavras – MG)

• Vitor Francisco Prudêncio (Paraguaçu – MG) • Washington da Silva Costa (Ubaporanga – MG) Postulantes do 2O ano

• Anderson Neves de Souza (São Paulo – SP) • Igor de Sousa (Belo Horizonte – MG) • Luiz Felipe Teixeira dos Santos (Salinas – MG) • Mário Jorge Soares Moreira Júnior (Castelo – ES) • Pedro Henrique Ferreira Duarte (Mateus Leme – MG) • Tiago César Sousa Chitarra (São João del-Rei – MG) Que o Espírito Santo lhes conceda discernimento e perseverança no seguimento de Cristo, a exemplo de Francisco e Clara.

• Keven Daniel de Paula (Divinópolis – MG) • Nelson Carolino Neto (Juiz de Fora – MG) Revista Santa Cruz

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NOVIÇOS RECEBEM O HÁBITO FRANCISCANO Por Frei Kelisson Geraldo Machado, OFM

O domingo, dia 11 de março de 2018, foi um dia especial na vida dos jovens noviços da Custódia São Benedito da Amazônia: Frei Fernando da Silva Marques, Frei Lauro M. Costa dos Santos, Frei José Gonçalves Siqueira, Frei Gédson A. Cruz Rodrigues e Frei Gregório Gomes Moreira, da Província São Francisco de Assis, do Rio Grande do Sul, e Frei Uelinton Valentin Corsi. Neste domingo da alegria, eles receberam o hábito franciscano. O dia foi marcado por uma bela celebração eucarística, presidida pelo Ministro Provincial da Província Santa Cruz, Frei Hilton Farias de Souza. Estavam presentes também o Custódio da Custódia São Benedito, Frei Francisco Paixão, e Frei Blasio, da Província

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São Francisco de Assis, os quais chegaram uns dias antes para desfrutarem do convívio fraterno no Noviciado São Benedito. Também esteve presente o Moderador da Formação Permanente da PSC, Frei Jaime. Ademais, algumas pessoas amigas do Noviciado também marcaram presença na celebração. Às onze horas, celebramos a Hora Sexta, na qual aconteceu o rito da vestição. Frei Hilton, em sua breve alocução, exortou os Noviços quanto ao valor simbólico da veste Franciscana em forma de cruz. O hábito é um sinal do compromisso de seguir o Cristo pobre pela via da cruz. Após o rito da vestição, partilhamos um delicioso almoço preparado pelos próprios Noviços. Revista Santa Cruz


V Memóia Revista Santa Cruz

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O COMISSARIADO DA TERRA SANTA NO BRASIL

BREVE RELATO HISTÓRICO – FREI FRANCISCO ALEXANDRE VIANA, OFM (COMISSÁRIO DA TERRA SANTA EM BELO HORIZONTE) A história da presença dos frades da Terra Santa no Brasil é muito antiga. Remonta aos princípios do século XVII, precisamente o ano de 1615. Anteriormente, no século XVI, o governo geral da Ordem Franciscana, querendo dar um impulso ao trabalho em favor da Terra Santa, criou comissariados para as quatro grandes nações onde havia a presença dos filhos de Francisco de Assis (França, Espanha, Itália e Alemanha). O Brasil, neste primeiro momento, foi confiado ao trabalho dos esmoleres da Terra Santa vindos do comissariado de Madri. A primeira esmola de que se tem registro é a de Belchior Dias Moreira, do estado de Sergipe. Seu testamento data de julho de 1622. O primeiro nome de um esmoler da Terra Santa de que se tem registro é o de Frei Francisco do Fundão. Esse frade era português e pertencia à província de Nossa

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Senhora da Soledade. Desse período, até o ano de 1672, não se têm muitas informações sobre a atuação desses frades. Aos poucos, a nação lusitana reivindicou para si o direito de um Comissariado Geral ligado à província portuguesa. Antes, todas as esmolas destinadas ao cuidado dos lugares santos chegavam a Jerusalém vindas como resultado da corte espanhola, e não da portuguesa. Isso foi um dos motivos que levou ao descontentamento da coroa portuguesa, dos frades da província portuguesa e dos esmoleres da Terra Santa. Por sua vez, a coroa portuguesa foi colocando a obra da Terra Santa sob a sua proteção. Eram concedidos aos frades esmoleres e comissários patentes e passaportes para que pudessem fazer seu petitório em tranquilidade nas terras da colônia portuguesa no Brasil. Entre idas e vindas de frades portugueses e espanhóis responsáveis pelo trabalho da Terra Santa, temos um frade vindo da Custódia da Terra Santa: Frei Amaro Antônio Gonçalves de Almeida. Existe, no arquivo da custódia, um Breve de Clemente X, com data de 4 de janeiro de 1676, ao qual concede ao dito frade a permissão de habitar em terras das províncias portuguesas. Revista Santa Cruz


Em 1672, encerra-se o período da responsabilidade dos frades espanhóis sobre o trabalho da Terra Santa no Brasil. Começa a presença dos frades portugueses no desbravamento das terras brasileiras, com a intenção de angariar doações para a manutenção dos santuários cristãos. O ano de 1715 é decisivo para a história desses frades portugueses no Brasil. O próprio rei Dom João V era quem dava cartas de recomendação aos esmoleres portugueses, endereçadas aos seus representantes nas capitanias desta colônia. Nesse período, foram nomeados três religiosos portugueses como comissários regionais: Frei Tomé da Penha, Frei Manuel de Santiago e Frei João de Santa Clara. Esses foram nomeados para as capitanias da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco. Por volta do ano de 1710, os frades esmoleres da Terra Santa dirigiram-se às capitanias das Minas Gerais. Curiosamente, deve-se lembrar de que, no ano de 1711, foi proibida a entrada nessas capitanias de quaisquer religiosos, medida essa que não se estendia aos frades responsáveis pela Terra Santa. Diante da atuação sempre crescente desses frades e da dificuldade muitas vezes encontrada junto aos frades franciscanos das províncias Revista Santa Cruz

localizadas nesta colônia, foram criados os “hospícios da Terra Santa”. Esses eram “casas de hospedagem” para os frades da Terra Santa. Justamente, a etimologia dessa palavra quer significar: O “hospício” (do latim clássico hospitium, ‘hospitalidade’ e, concretamente, ‘pousada hospitaleira’) é derivado de hospes (“hóspede”), estando, portanto, no centro mesmo do campo semântico da noção de ‘hospitalidade’. Na verdade, eram conventos franciscanos pertencentes aos comissariados, que serviam como lugar de passagem, de descanso para os frades esmoleres. Possuíam um oratório interno para as orações pessoais e comunitárias. Não eram abertos ao público, pois esses frades não poderiam exercer o ministério de cura das almas, mesmo sendo alguns deles sacerdotes. Não possuíam um regulamento muito severo no que diz respeito às obrigações conventuais. Serviam para abrigar aqueles que, por seu ofício de peregrinar arrecadando esmolas, precisavam de um lugar digno para seu merecido repouso. Assim, a partir do ano de 1724, começam a surgir esses lugares. O primeiro hospício criado foi o de Nossa Senhora da Conceição, em Salvador, no ano de 1724,

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pelo vice-comissário Frei Francisco da Conceição. Sabe-se que o terreno fora adquirido dos monges beneditinos do mosteiro de São Bento, como paga de um frango por ano, recordando o mesmo tipo de contrato e proteção feito a São Francisco pela aquisição da igrejinha da Porciúncula, em Assis. Existem controvérsias quanto ao ano de fundação, pois alguns autores indicam o ano de 1725. O segundo hospício a ser fundado foi o de Vila Rica, na capitania das Minas Gerais, hoje a atual cidade de Ouro Preto. Ele foi fundado no ano de 1726. Devido à proteção da coroa portuguesa, essa foi, por muito tempo, a única casa de religiosos na dita capitania. Não se sabe ao certo quem seria seu fundador. Estudos apontam que teria sido o frade Frei Sebastião do Rosário. Em seguida, surgiram outros nessa capitania, a saber: Cachoeira do Campo (1756); Sabará (por volta de 1760; embora já se mencione que Frei João de Deus foi vice-comissário nesse hospício em 1740), Diamantina (por volta de 1751), São João del-Rei (1743), Araxá (1845) e Mariana (não se sabe precisamente quando foi criado. No ano de 1722, Frei Sebastião do Rosário obteve privilégios aos síndicos da Terra Santa em Mariana. Frei João de Santa Rosa de Viterbo

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morou nesse hospício entre 1750 a 1799). Esse hospício de Ouro Preto logo adquiriu o título de vice-comissariado geral da Terra Santa, ligado ao comissariado geral em Portugal. De Minas Gerais os frades se dirigiram às terras de Goiás. Assim nasceram os hospícios em Meia Ponte, hoje Pirenópolis, no ano de 1731; e o de Traíras de Tocantins, no ano de 1733. Em São Paulo, foi fundado um hospício por volta de 1830. O de Itu foi fundado em 1860. Este possuía uma capela com o nome de Santo Sepulcro, inaugurada em 1867. Em Campos dos Goitacazes, foi construído um hospício em 1814. Em 1751, foi construído um hospício na cidade de Vitória, no Espírito Santo. O hospício de São João Batista, na cidade de Pernambuco, foi fundado no ano de 1735, por frei João Batista. Depois de muitas controvérsias, foi fundado, no ano de 1736, o hospício de Sant’Ana na cidade do Rio de Janeiro, por frei Manuel de Santo Antônio. Aconteceram muitas intervenções, sobretudo pelos frades do convento de Santo Antônio. Estes eram terminantemente contra a fundação de outra casa religiosa franciscana na mesma cidade. Graças à intervenção de Dom Frei Antônio Revista Santa Cruz


de Guadalupe, bispo do Rio de Janeiro (1725 a 1739), é que pôde ser levada a bom termo essa fundação.

Nos hospícios existia uma hierarquia: em primeiro lugar, havia o vice comissário, que era ao mesmo tempo o superior da casa; em segundo, havia os frades esmoleres. Estes eram acompanhados pelos frades donatos da ordem III, bem como pelos escravos. E em terceiro, havia os síndicos apostólicos da Terra Santa (pessoas nomeadas e autorizadas a receber esmolas para a Terra Santa). Estes últimos eram divididos em síndicos locais e em síndicos regionais.

tudo os reis católicos de Portugal queriam favorecer e facilitar o seu trabalho de angariar esmolas. Eram dadas cartas de recomendação aos frades que partiam de Portugal rumo ao Brasil. Isso, desde o ano de 1715. Antes disso, em 26 de maio de 1657, foi dado um alvará que mandava a “todas as Justiças do Reino, a que for apresentado, que ajudassem a cobrar e cobrassem as esmolas dos santos lugares, e assistissem com todo o favor e ajuda ao comissário geral deles e seus companheiros até serem satisfeitos e pagos das mesmas esmolas”. Também houve o privilégio da cobrança executiva das importâncias que por qualquer título se deviam à Terra Santa. Esse privilégio era dado principalmente àqueles que se omitiam em encaminhar as doações feitas à Terra Santa, alegando a má conduta dos frades. Este foi renovado por Dom João V em 1715. Também Dom Pedro II baixou outro decreto, que ordenava a todas as câmaras das cidades, vilas e lugares do reino, seus estados e conquistas que dessem como esmola o valor de quatro mil réis do rendimento de 400 mil réis. E, no caso de terem cem mil réis de renda, deveriam dar quatrocentos réis.

Esses frades gozavam de privilégios por parte da coroa portuguesa. Em

Os favores concedidos anteriormente sobre os rendimentos das

Um hospício foi fundado em Petrópolis, no ano de 1880. Para esta casa foi transferida, por pouco tempo, a sede do Comissariado Geral da Terra Santa no Brasil, nesse mesmo ano. Em 1894, Frei Alexandre Brid, então Comissário Geral da Terra Santa, transferiu a sede desse comissariado geral para Cascadura. Em 1920, estavam concluídas as obras da construção da Igreja do Santo Sepulcro. Fala-se de muitos outros hospícios, dos quais nos chegaram poucas informações. São eles: Santo Amaro (1822) e Poção das Laranjeiras (1810).

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vilas e outras instâncias da colônia foram renovados por Dom João no ano de 1807. Na data de 23 de maio de 1803, foi nomeado esmoler e procurador da Terra Santa no hospício do Rio de Janeiro Frei Francisco de São José Belém. No ano da chegada da família real ao Brasil, em 1808, este era o superior local no dito hospício. Por duas vezes, o comissário Frei José levou as esmolas do Brasil a Lisboa, e de lá a Jerusalém sem embaraço algum. No mesmo ano de 1808, Dom João VI desligou o vice-comissariado do Rio de Janeiro da obediência do comissariado geral de Portugal, colocando-o sob a dependência direta do Custódio de Jerusalém. A proclamação da Independência trouxe alguns problemas à Terra Santa no Brasil. Primeiro foram sequestrados os hospícios da Bahia e de Pernambuco. Em vista de se garantir o valor dos imóveis da Terra Santa, tentou-se vender os hospícios de Minas Gerais. Sendo denunciada essa intenção, o presidente das Minas decretou o sequestro desses bens. Os frades viram-se obrigados a se refugiarem onde pudessem. Uns foram para o hospício da corte (Rio de Janeiro); alguns se refugiaram no palácio episcopal de Mariana, e outros voltaram para Portugal.

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Nesse período, é nomeado Comissário Geral Frei Leonardo da Encarnação Santana. Esse frade muito se empenhou em resolver a questão do sequestro, baseando-se nos direitos anteriormente concedidos à Terra Santa pelos imperadores portugueses. Assim, baseados na lei de 19 de dezembro de 1830, foram devolvidos alguns dos bens. Para isso, foi comprovado que os bens tratavam de propriedade estrangeira e que os monarcas católicos tinham apreço e protegiam o trabalho da Terra Santa. Depois da morte de Frei Leonardo, em 1855, foi nomeado Frei Damásio de São Vicente. Em 1894, a sede do comissariado geral foi transferida de Petrópolis para Cascadura. Por sua vez, esse Comissariado foi entregue aos franciscanos da Província Santa Cruz de Minas Gerais, de origem holandesa, por determinação da Comissão Geral da Terra Santa no Brasil. Este é o legítimo sucessor do antigo hospício do Rio de Janeiro. Um dos últimos comissários gerais do Santo Sepulcro em Cascadura foi Frei Júlio Berthens (+09.09.1939). Esse Comissariado adquiriu grande importância em nível de Brasil, por estar localizado na capital e ter suas ramificações, posteriormente chamadas delegações, em pontos Revista Santa Cruz


importantes do país, como São Paulo-Itu (SP) e Sabará (MG). Esse convento e essa igreja do Santo Sepulcro em Cascadura permaneceram com os frades holandeses até o final da década de 1970. Nesse período, foi transferido para o Convento de São Francisco das Chagas em Belo Horizonte, onde permaneceu até o ano de 2017, quando foi finalizada a construção da nova sede, na Rua Padre Eustáquio, 1174, na mesma cidade da capital mineira. Sabará foi a última casa remanescente desse antigo comissariado geral de 1724. Esta foi vendida no ano de 1970.

NOVA SEDE DO COMISSARIADO DA TERRA SANTA DE BELO HORIZONTE No ano de 2015, foi adquirido para o Comissariado da Terra Santa de Belo Horizonte um lote situado na Rua Padre Eustáquio, 1174. A finalidade era a de transferir a sede do comissariado para essa nova localidade. Havia nesse lote uma casa antiga, que logo foi demolida. Depois dos processos burocráticos de aprovação de projeto por parte da prefeitura de Belo Horizonte, no ano de 2016, deu-se início às obras de construção da nova sede em outubro do mesmo ano. Revista Santa Cruz

O desenho, pensado pelo comissário Frei Francisco Alexandre Viana, teve a intenção de imitar o estilo das casas da Custódia, seguindo um desenho simples e funcional que atendesse à sua função. A pedra escolhida foi a São Tomé, vinda da cidade de Três Corações, para dar esse acabamento. Não faltaram pessoas interessadas em ajudar nesse processo, quer seja pela doação de materiais de construção, quer seja através de doações. Destaco aqui a comunidade de Nossa Senhora das Dores de Antunes, paróquia de Santo Antônio de Igaratinga. Pela iniciativa de Manuel, Geraldo Luciano e Cristiane, essa comunidade doou todos os tijolos para a construção. Dela também vieram os fretes que trouxeram as pedras de granito para o piso de toda a obra, doados pelo Dirceu, Geraldo e José Rodrigues. Outras pessoas que ajudaram com muito carinho e empenho foram: Cinira, de Ubá; Otília, de Santo Antônio do Monte; Leda, de Belo Horizonte, e Enir, de Leandro Ferreira. Com especial dedicação e competência, destaco a administração do funcionário da Terra Santa, Jamil Hamoud. É importante lembrar a sempre valiosa contribuição das zeladoras da Terra Santa, na sua dedicação e empenho.

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Depois de atrasos, a obra foi finalizada em julho de 2017. Logo aconteceu a mudança para a nova sede. Em 31 de agosto desse ano, aconteceu a bênção final da construção. Para essa bênção, reuniram-se vários amigos e colaboradores diretos nessa obra. Estiveram presentes Frei Marcelo Ariel Cichinelli e Frei Sinisa, frades da Custódia da Terra Santa. A bênção foi presidida por frei Hilton Farias de Souza, Ministro Provincial da Província Santa Cruz. Após a bênção, foi oferecida aos presentes uma pequena confraternização.

Em seguida, foram homenageadas as zeladoras da Terra Santa presentes. Destaco a presença da senhora Terezinha Barreto, zeladora de Congonhas do Campo. Esta senhora completou 59 anos neste serviço à Terra Santa na sua cidade. A cada uma delas foi oferecido um diploma, em sinal de reconhecimento e agradecimento pelo trabalho realizado. Terminamos nosso encontro com um café bem ao estilo mineiro, com quitandas próprias de nossa culinária, oferecido pelas zeladoras e alguns colaboradores da Terra Santa.

No dia 26 de janeiro de 2018, esse comissariado recebeu a vi-sita do Reverendíssimo Custódio da Terra Santa, Frei Francesco Patton. Também vieram Frei Marcelo e Frei Bruno Variano. Foram realizadas duas palestras: uma proferida pelo comissário Frei Francisco Alexandre, que abordou a história da presença dos frades da Terra Santa desde a primeira notícia no ano de 1615 até a construção deste comissariado, e outra preferida por Frei Francesco Patton, que abordou os 800 anos da presença franciscana na Terra Santa, falando dos desafios para a construção da paz e do serviço de custodiar os lugares santos e auxiliar a vida dos cristãos na atual realidade.

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ENTREVISTA COM FREI FRANCISCO DUARTE JÚNIOR, OFM

Revista Santa Cruz - Como o senhor percebeu, ao longo desses anos, o caminhar da nossa Província Santa Cruz e quais deveriam ser os ‘lugares’ prioritários da missão franciscana nos próximos anos? Em primeiro lugar, obrigado pela oportunidade que a Revista Santa Cruz oferece para falar um pouco de minha vida como frade e presbítero na Província Santa Cruz, nesses 50 anos de vida presbiteral. Revista Santa Cruz

Como percebi a caminhada da Província ao longo desses 50 anos? Certamente, um caminhar com muita luta, muita fé, escuta do que o Espírito Santo vem soprando ao longo desta história, sempre no desejo de errar menos e acertar mais, nas respostas aos desafios que foram surgindo dentro e fora da instituição. Como em todo caminhar, percebe-se também, na história da nossa Província, aquele movimento de vai e vem! Minha entrada nesta história como frade e padre aconteceu naquele momento em que a Igreja vivia “as alegrias e esperanças” do Concílio Vaticano II, abrindo portas e janelas para o mundo, convocando toda a Igreja a uma “volta ao Evangelho”; e as ordens e congregações, a um retorno às fontes do carisma. Nossa ordem, é claro, se mobiliza nesta direção envolvendo todas as províncias neste processo de revisão e renovação da estrutura conventual, do carisma, da formação inicial e continuada e dos compromissos pastorais e lugares de missão. No que diz respeito à nossa Província, além do sopro conciliar, vários fatos e acontecimentos foram decisivos do seu caminhar: a separação do Rio Grande do Sul, o fato de a Província Mãe

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não conseguir mais enviar novos confrades e a crise vocacional. Iniciou-se então um novo processo de revisão e reestruturação da nossa instituição, acerca da vida conventual, dos compromissos pastorais (colégios e paróquias), dos chamados compromissos históricos, do processo de formação inicial e permanente, além da administração dos bens que herdamos dos antepassados. Atualmente somos uma Província com a maioria de confrades brasileiros jovens, alguns confrades holandeses idosos. Chegamos assim ao que somos hoje, com a graça de Deus e o empenho de tantos confrades que, ao longo desses anos, com muita fé e doação, respeitaram sempre o passado, os legados recebidos e também atenderam aos apelos e necessidades do momento presente; foram orientados, naturalmente, pelas decisões e moções capitulares, construindo e reconfigurando a nossa instituição. Assim aconteceu com o projeto da formação inicial e continuada, com a administração dos bens, o cuidado e a preocupação com a vida fraterna, espiritual e humana de cada confrade. Fizemos também uma revisão dos nossos compromissos pastorais e missionários.

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Quanto aos “lugares” prioritários da missão franciscana, percebo que a Província está se mobilizando no sentido de repensar estes “lugares” e será esse o tema principal do próximo capítulo provincial. Mas penso que os “lugares” prioritários da missão franciscana são aqueles por onde “Jesus andou”, São Francisco revisitou e que o Papa Francisco nos convida a priorizar: “Jesus evangelizador por excelência e o Evangelho em pessoa” identificou-se com os mais pequeninos (Mt 25, 40). “Isto recorda-nos a todos, cristãos, (e a nós, franciscanos, de modo especial) que somos chamados a cuidar dos mais frágeis da terra” (EG 209); “é necessário prestar atenção e debruçar-nos sobre as novas formas de pobreza e fragilidade e neles reconhecer Cristo sofredor: os sem abrigo, os dependentes químicos, os refugiados, os povos indígenas e os idosos abandonados” (EG 210);

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“O cuidado com a Casa Comum e a preocupação com as causas da desigualdade social que é a raiz dos males sociais” (EG). Somos chamados, por vocação cristã e franciscana, a ser “pescadores do humano”. O Papa diz também que nossa “opção preferencial pelos pobres” deve traduzir-se em solicitude religiosa e prioritária: “desejo afirmar com mágoa que a pior discriminação que sofrem os pobres é falta de cuidado espiritual” (EG 2007). Penso também que o momento assinala a importância do cuidado humano e espiritual com cada confrade e o impulso de rever novamente nosso projeto missionário. Percebo o governo da Província preocupado com a formação permanente, espiritual e humana de cada confrade.

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Revista Santa Cruz - Que momentos o senhor destaca de sua vida na Província? Os 12 primeiros anos pósordenação presbiteral foram mais dedicados a serviços internos da Província, como coordenador da Equipe de Formação (o que corresponde ao atual Secretariado de Formação e Estudos), mestre de noviços e membro do governo da Província. É bom lembrar que estamos em pleno pós-Vaticano II, tempo, como disse, de revisão e renovação. O Capítulo 70 (aquele do “abrasileiramento”) votou como uma de suas prioridades revisar o processo formativo e elaborar algumas linhas mestras para orientar os formandos, agora distribuídos em várias casas da Província. Isso aconteceu após o fechamento dos seminários menores, e, partindo do princípio de que “toda província é formadora”, os formandos e aspirantes deveriam continuar seu processo formativo nas várias casas da nossa província. Para realizar essa prioridade o governo, recémeleito convocou o primeiro Congresso de Formação realizado em Teófilo Otoni-MG, com ampla participação dos confrades. Como fruto principal desse congresso nasceu a Equipe de Formação com o objetivo de organizar um pouco o processo formativo, promovendo

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a unidade na diversidade das casas onde residiam os formandos e aprofundando o que se chamava de “profissionalização”. Aos poucos a Equipe de Formação (tudo era “equipe”!) chegou a uma primeira configuração da formação inicial, em etapas, reagrupando os formandos em “casas de formação” mais ou menos na forma como hoje se encontram: Betim: casa de noviciado e centro da Pastoral das Vocações; Santo Dumont: CJF (Comunidade de Jovens Franciscanos) e Aspirantado: PetrópolisRJ Pós-Noviciado (Centro de Estudos de Filosofia e Teologia). Na história da Província, não faltaram tensões, embates, insegurança e muito entusiasmo e amor a ela. Somos gratos a Deus e a D. Diogo (nosso provincial de transição).

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O segundo momento de minha vida na Província foi mais dedicado à pastoral paroquial, bem mais prazeroso, se posso dizer assim. Tive a oportunidade de participar do primeiro Projeto de Fraternidades Inseridas, no Vale do Jatobá. Éramos quatro confrades, padres: Frei Antônio do Prado (saudosa memória), Frei Basílio, Frei Eduardo Metz e eu, Frei Francisco Duarte. Muito interessante! Mais tarde, além de outras paróquias, tive a alegria de servir como pároco e capelão dos hansenianos na Colônia Santa Isabel durante cinco anos. Participei ainda, da entrega de três compromissos históricos (Monte Belo, Muzambinho e Pará de Minas), o que me valeu o apelido de “frade mais entreguista da Província” (Cfr. Frei Raul de Melo). Na verdade, estava contribuindo para o projeto de revisão de compromissos da Província intitulado, Mínimo do Mínimo (Cfr. saudoso Frei Raul Ruys). Agora estou aqui em São João del-Rei, Minas Gerais, de volta ao primeiro amor, onde completei meus 50 anos de padre. Destaco ainda o tempo de formação, em Daltro Filho-RS e DivinópolisMG. Sou muito grato aos nossos formadores e professores, que nos proporcionaram ótimas reflexões durante os cursos de Revista Santa Cruz


filosofia e teologia. Graças a Deus não ficaram presos às normas, introduzindo os formandos num processo reflexivo. Isso não passa! São essas as minhas experiências e ao mesmo tempo os momentos fortes de minha vida na Província. Revista Santa Cruz - Numa sociedade marcada pelo provisório, pela inconstância, o que significa um jubileu de 50 anos de ordenação presbiteral? Na verdade, tudo é provisório mesmo, não é?! Tudo passa! Penso que a vida religiosa consagrada e a vocação do presbítero nascem dessa experiência da provisoriedade das coisas e apontam para “algo mais”, presente e velado nelas mesmas. Esse “algo mais”, chamamos de “mistério”, de “transcendente”, Deus. Entendo que nossa vocação aposta na transcendência, sem tirar os pés do chão. Enfim, a busca de Deus. Há poucos dias ouvi alguém, refletindo sobre esta “inconstância” e este “provisório” da cultura pós-moderna, dizer o seguinte: "Vejo, na cultura da pós-modernidade, alguns sinais da busca do absoluto: a tatuagem e os esportes radicais. A tatuagem é algo que permanece; os esportes radicais nos falam do perigo e do arriscar a vida". E concluía: “estamos assistindo a Revista Santa Cruz

um 'rebaixamento' da vida religiosa consagrada, ou seja, ela está perdendo sua 'radicalidade', sua dimensão de 'perigo', de gestos inesperados de amor e doação e, com isto, perde sua força de atração”. Cinquenta anos de vida presbiteral, no sentido cronológico, é muito tempo! As pessoas acham bonito. Admiram. Mas tudo é graça! Eu me sinto feliz e, até certo ponto, realizado e também envergonhado. A vida presbiteral me ofereceu as mais diversas oportunidades de crescimento humano e espiritual. Pude também me confrontar com limites e

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branças de minha ordenação, escolhi símbolos da pesca e da Eucaristia e no verso escrevi como desejava viver o ministério que acabava de receber:

“A VIDA FRANCISCANA É ASSIM: OBSERVAR O EVANGELHO DO

SENHOR VIVENDO EM FRATERNIDADE, COMO MENORES

NO MEIO DOS HOMENS”.

fragilidades, até congênitos, e com o difícil exercício da liberdade nas escolhas de valores que poderiam aprofundar mais minha opção fundamental. Deixemos por conta do Senhor, que nos chamou, avaliar com misericórdia a qualidade das respostas que consegui dar durante esses 50 anos. Revista Santa Cruz - O que o senhor deixa de recado aos jovens franciscanos ou àqueles que querem ser franciscanos? Queridos jovens, celebro esse jubileu com muita gratidão no coração. Valeu e continua valendo colocar nossa vida a serviço do Reino de Deus! Quantas oportunidades de servir, de fazer o bem e de cuidar desse humano fragilizado como Jesus o fez; de celebrar os sacramentos, principalmente a Eucaristia; de anunciar a palavra de Deus e deixar-se tocar por ela! Nas lem-

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São Francisco continua sendo porta de entrada no mistério de um Deus encarnado por amor, presente em tudo e em todos. Somos convocados a ser “pescadores do humano” e a promover a “cultura do encontro” num mundo marcado pela indiferença globalizada. Revista Santa Cruz


VII ReflexĂľes Revista Santa Cruz

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CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018: FRATERNIDADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA

Frei Adilson Corrêa da Silva, OFM “Vós sois todos irmãos” (Mt 23, 8)

Como acontece há mais de 50 no Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil propõe, no período quaresmal, a Campanha da Fraternidade, lançando um olhar

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para a luta cotidiana do nosso povo, iluminado pela Palavra de Deus. O fruto dos exercícios quaresmais, oração, jejum e caridade, deve nos transformar, num caminho de conversão. As obras de misericórdia devem ir além de nossas orações e chegar concretamente às realidades de dor e sofrimento, renovando a esperança com gestos concretos de solidariedade. Nossas comunidades eclesiais são animadas a refletir e a buscar meios para, como povo de fé, superar toda a injustiça como sinal da presença do Novo Reino, apresentado por Jesus. A reflexão proposta como resposta concreta é o tema da superação da violência. Sabemos que vivemos num mundo violento. Mesmo o Brasil representando somente 3% da população mundial, ele apresenta índices alarmantes de todo tipo de violência, realidade que nos aponta para grupos com relevante representatividade em nossa sociedade. A violência tem atingido crianças, jovens, mulheres, idosos, homossexuais, negros, grupos religiosos. Isso se dá desde com o uso da força física até com as maneiras sofisticadas, como as redes sociais e os meios de comunicação. A leitura que conseguimos fazer é de que a violência não é causa, mas consequência de relações sociais, Revista Santa Cruz


econômicas e políticas fundamentadas em injustiça, corrupção e ganância. No povo brasileiro existe uma subjetividade histórica que norteia as diferenças sociais desde a origem, dividido entre aqueles que pertencem à "casa grande" e os que estão na "senzala”. Nisto, muitos se sustentam para as práticas mais abomináveis de violência, caracterizando muitas formas de sustentar boicotes, privilégios, silêncios, exploração, exclusão... acreditando existir uma natural diferença. Isso não pode continuar assim. Esta Campanha nos ilumina para a superação de toda forma de violência. Tratar este tema é embrenhar-se num contexto que nos expõe e nos compromete. Daí, muitas de nossas comunidades não conseguem avançar, pois poderão se deparar com situações complexas, em que encontramos mais perguntas do que respostas. Diante das inúmeras formas de violência apresentadas nos textos e reflexões da CNBB, podemos citar o tema da família, na violência doméstica que acomete muitas vítimas no cotidiano. Em sua maioria, essa violência fica resguardada pelo silêncio de vítimas coagidas por seus algozes, guarnecidos por costumes morais que validam esta maneira cruel de agir. De maneira Revista Santa Cruz

geral, diante das complexidades, encontramos, em nossas famílias, mulheres mutiladas ou assassinadas; crianças violadas, desnutridas e exploradas; jovens analfabetos, drogados e expulsos de casa pela sua orientação sexual; idosos abandonados, extorquidos e espancados. Muito mais é possível relatar do universo violento que se esconde nas paredes dos lares de nosso país. Esta é uma situação grave na qual vivem muitos que participam de nossas comunidades de fé e que, infelizmente, não conseguem traduzir fé e vida.

Em nosso contexto eclesial e fraterno, também podemos fazer uma breve leitura das violências que nos cercam no cotidiano de

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nossas vidas, desde a maneira como organizamos nossas pastorais, ministérios, movimentos e grupos, chegando ao modo como estruturamos nossa vida através de nossos estatutos e constituições. Percebemos um tremendo conflito entre serviço e poder, vocação e apropriação, fraternidade e individualismo. Não raro encontramos pessoas feridas que mudam de comunidade por não receberem acolhimento, diante de tantas outras que se tornam donas de funções. Quantos conflitos poderiam ser evitados ou sanados se realmente compre-

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endêssemos o Evangelho! Nós, frades menores, carregamos uma profunda experiência de paz herdada de nosso Seráfico Pai São Francisco. O Papa Francisco tem nos revelado, com seus gestos e palavras, que é possível ser homem de paz. A Igreja e o mundo esperam de nós sempre mais que sejamos instrumentos da paz e do bem. É o tempo, não vamos deixar este momento passar. Deixemos o comodismo, nossos conflitos, nossa estabilidade; arrisquemos a lutar pela paz. Pelo caminho da fraternidade, poderemos contribuir para a superação de toda ação violenta. O olhar para fora é importante para a superação de toda violência, porém não podemos abandonar o olhar para nossa realidade de Igreja, povo de Deus em comunhão. Um dos caminhos para superação de toda violência é reconhecermos que somos todos irmãos e irmãs. Portanto, devemos encontrar respostas coletivas e não individualistas, como armamento da população, construção de penitenciárias, diminuição da maioridade penal, intervenção militar... Somos Criaturas muito amadas pelo Criador. O reconhecimento e o respeito são os primeiros passos para a mudança e a transformação. Rezemos por um mundo mais fraterno, em que reine a paz! Revista Santa Cruz


SUPERAR A VIOLÊNCIA: DESAFIOS PÓS-CAMPANHA DA FRATERNIDADE

Sem a pretensão de ser definitivo, compartilho algumas conclusões pessoais, a pedido da EPC:

OS DIVERSOS TIPOS DE VIOLÊNCIA Frei Oton da Silva Araújo Júnior, OFM

A Campanha da Fraternidade (CF) é nossa velha conhecida. É só chegar a quaresma que já vemos o cartaz, o hino, pregações e o tema específico, alguns mais fáceis, outros mais difíceis. Há uns dias alguém me recordou que o tema de 2014 foi sobre o tráfego humano. Não me lembrava mais. Aliás, numa prova de gincana, perguntar sobre os temas da CF dos últimos cinco ou 10 anos exige um bom esforço de memória. Se é assim, o tema da violência, ou de sua superação, também cairá no esquecimento? É provável. O manual da CF trouxe uma série de dados estatísticos da violência e da criminalidade em geral. Porcentagens, comparações, prognósticos, que, francamente, não sei se nos tocam. Números, em geral, não nos tocam. Se as pessoas são atingidas por balas perdidas, viram estatística, e só. O que podemos então dizer que ficou a respeito da CF 2018? Revista Santa Cruz

Se pensarmos em termos restritos, violência pode ser vista como relacionada a bandidos, tiroteio, agressões corporais. Só isso já seria o suficiente para demonstrar sua gravidade, mas não para por aí. A CF 2018 nos ajudou a ampliar o olhar e perceber que nossa violência nem sempre tem a ver com murros e pontapés, mas com palavras mal-ditas, com olhares invasivos, com o ignorar a grandeza do outro. Dessa forma, perguntar-se 'sou uma pessoa violenta?' e 'como reajo à violência?' pode ser um bom exame de consciência. As estatísticas têm mostrado que as maiores vítimas de violência têm sexo, cor, moradia, escolaridade específicos. Apesar de todos termos a sensação da insegurança, a realidade grita em algumas pessoas de maneira mais forte. Aqui sobressaem as mulheres, jovens, negros, pessoas da periferia. "A violência racial no Brasil é uma situação que faz supor uma forte correlação entre três formas de violência: direta, estrutural e cultural. Os casos de violência

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direta parecem ser resultado mais concreto e evidente de questões socioeconômicas históricas, além de deixarem entrever representações culturalmente produzidas e já naturalizadas a respeito da população negra, do índio, dos migrantes e, mais recentemente, também do imigrante"1 – afirmou o secretário-executivo da Comissão Brasileira Justiça e Paz, da CNBB.

QUESTÃO DE POLÍTICA Afinal, violência é mesmo assunto só de polícia? Será resolvida com um maior efetivo policial, mais presídios, mais coerção? Certamente, todas essas iniciativas são importantes, mas não bastam. A CF 2018 ajudou a clarear que o assunto não se esgota na esfera da polícia, mas toca sobretudo a política, com ações afirmativas de promoção humana, destinação devida dos recursos públicos, mais atenção aos direitos da população. Infelizmente, não precisamos nos alongar sobre o cenário brasileiro para perceber que pouco se faz em benefício da população. Chegamos até a criar a expressão “política pública” que, em sua redundância, 1 Disponível em: <http://www.ihu.unisinos. br/78-noticias/ 576075-aberta-a-campanha-dafraternidade-de-2018-fraternidade-e-superacaoda-violencia>. Acesso em: 16 mar. 2018.

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parece se opor à "política privada", tão exercida em nosso tempo (lembremos que a CF 2019 será sobre políticas públicas).

MENTALIDADE VIOLENTA A violência se pulverizou e invadiu nosso palavreado, nossas músicas, nosso comportamento. Mais que justiça, queremos vingança. Sentimo-nos ameaçados o tempo todo. As mídias sociais ajudaram a proliferar os ódios gratuitos, em que a sensação de anonimato nos possibilita dizer, praguejar, insultar, sem receio do cara a cara o sem maiores consequências. A internet nos deu luvas de box. Não se trata propriamente de debates democráticos de ideias, mas da ira vociferada, sabe-se lá por quê. O outro é alguém para derrotar, humilhar, desmoralizar. Aliás, na chamada “guerra de quarta geração” (G4G)2, não é 2 Guerra de primeira geração (G1G): da segunda metade do século XVII até meados do século XIX, caracterizou-se pela rigidez das táticas e formações lineares, em terra ou no mar; guerra de segunda geração (G2G): incorporou o poder de fogo dos novos armamentos, produzidos em massa pelas indústrias. A evolução da G2G culminou com a Primeira Guerra Mundial; guerra de terceira geração (G3G): carro de combate, o submarino e a aviação. Na “guerra de quarta geração”, o conflito é multidimensional, envolvendo ações em terra, no mar, no ar, no espaço exterior, no espectro eletromagnético e no ciberespaço. Nesse novo contexto estratégico, o “inimigo” pode não ser um Estado organizado,

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preciso disparar tiros para derrotar o inimigo. Basta desmoralizá-lo com postagem do tipo “fake news”. Sobre elas, disse o Papa Francisco: “O drama da desinformação é o descrédito do outro, a sua representação como inimigo, chegando-se a uma demonização que pode fomentar conflitos. Desse modo, as notícias falsas revelam a presença de atitudes simultaneamente intolerantes e hipersensíveis, cujo único resultado é o risco de se dilatar a arrogância e o ódio. É a isso que leva, em última análise, a falsidade” (Francisco, LII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 13.05.18). De tão exposta à violência, nossa mentalidade se tornou violenta e capaz de justificar-se com argumentos julgados legítimos. Daí decorrem o apoio pela redução da maioridade penal, pelo armamento da população (“armar o cidadão de bem”), e a célebre frase: “bandido bom é bandido morto”. Passar da constatação à ação é o grande desafio que vejo na CF, não só deste ano, mas em todas elas. No ano passado, refletimos sobre os biomas, vimos quais são, onde mas um grupo terrorista ou outra organização criminosa qualquer. (in: http://www.reservaer. com.br/est-militares/guerra-de-quatro-geracoes. html 16.03.18).

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estão, os desafios encontrados em cada um deles. E fazemos o que depois? A eficácia do método ver-julgar-agir é muito provocadora, justamente porque, no fim, temos de dizer que, “em vista dessas demandas, agiremos assim”.

ONDE HOUVER ÓDIO QUE EU LEVE AMOR

A oração atribuída a São Francisco é bem desafiadora: para que as realidades de ódio, ofensa, discórdia e trevas se transformem, eu pessoalmente devo levar seus opostos: amor, perdão, união, luz. Ou seja, eu me implico diretamente no processo. Este não cairá do céu, apesar de muito rezar. Talvez este seja afinal o grande fruto a ser colhido: a percepção de que sou agente de transformação, instrumento de paz, que, afinal, é de Deus, e não minha. Mas qual é a paz que vem de Deus? No lava-pés, Jesus disse aos discípulos: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não a dou como o mundo dá. Não se perturbe, nem se intimide o vosso coração” (João 14, 27); e finalmente o Ressuscitado a confirma: "A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio". Depois dessas palavras, soprou sobre eles, dizendo-lhes:

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"Recebei o Espírito Santo" (Jo 20, 21-22). Lembrados de que a conhecida palavra Shalom, em sua origem, traduz uma realidade de plenitude, completude, abundância, também presente diversas vezes nas Escrituras – “o meu cálice transborda”, Sl 23, 5); “vida em abundância”, Jo 10, 10; “uma medida transbordante, socada”, Lc 6,38 –, a paz que Deus nos dá é a plenitude de vida, e, somente quando a vida for plena, teremos paz. Não nos basta saciar esta ou aquela dimensão, somos "gulosos" de vida plena, a qual nos é dada pela ação do Espírito, nosso grande plenificador. Se estamos fragmentados, divididos, desintegrados, não estamos em paz. Daí nossa missão de continuar a obra do Espírito, plenificar o mundo e nossas relações, não aceitar uma vida aos cacos. Se a sociedade está violenta, é porque os bens e os acessos estão mal divididos, mal gerenciados; de um lado, há carência de direitos, e de outro, há privilégios perpetrados. Em sua encíclica Laudato Si, Francisco elege a fragmentação como um dos grandes desafios atuais: “Os conhecimentos fragmentários e isolados podem tornar-se uma forma de ignorância,

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quando resistem a integrarse numa visão mais ampla da realidade” (Laudato Si, n.138); “que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária” (LS 160). Para fechar este breve ensaio, recorramos ao poeta português: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim, em cada lago, a lua toda brilha, porque alta vive (Ricardo Reis – Fernando Pessoa). Pessoalmente, sejamos inteiros, em todas as dimensões. Assim, nossas relações serão inteiras, verdadeiras, honestas. Como sociedade, sejamos inteiros, empenhemo-nos por um lugar onde todos possam ir e vir, viver e ser feliz. Podemos até nos esquecer do tema da Campanha da Fraternidade de 2018, mas que não deixemos que se apague nossa missão de sermos instrumentos de paz.

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Prossão Solene de Frei Eduardo Vely Mesquita

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