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Tempo e Clima no Brasil

Iracema Fonseca de Albuquerque Cavalcanti | Nelson Jesus Ferreira Maria Gertrudes Alvarez Justi da Silva | Maria Assunção Faus da Silva Dias organizadores


A elaboração deste livro foi motivada pela carência de material didático, em cursos de graduação e pós-graduação em meteorologia e áreas afins, sobre os sistemas de tempo que atuam no Brasil e as influências da variabilidade climática. Além do caráter didático para os cursos de meteorologia e ciências atmosféricas e oceânicas, esta obra também é destinada a pesquisadores e alunos em ciências físicas e naturais ambientais interessados em conhecer, com um enfoque físico, a natureza, o comportamento e o impacto dos principais sistemas meteorológicos que atuam no Brasil. O material compilado abrange interesses de vários setores: educacional, agricultura, recursos hídricos, defesa civil, econômico e social. Da concepção até a publicação, foram mais de três anos, dois dos quais reunindo o material com os autores, até que tivéssemos os capítulos em fase final. A dedicação dos autores na preparação dos diversos capítulos contribuiu para que o livro se tornasse realidade. Os assuntos foram tratados de forma detalhada, com vários exemplos e ilustrações que esclarecem as explicações. O Cap. 1 fornece uma compreensão geral dos aspectos de tempo e clima, e as três partes em que foram divididos os capítulos subsequentes mostram os principais sistemas meteorológicos que atuam sobre o Brasil; o clima das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul; e as variabilidades climáticas. Alguns dos tópicos discutidos são: a apresentação dos sistemas meteorológicos que provocam chuvas em várias partes do Brasil e a discussão de seus comportamentos; as características do clima em cada região; a variabilidade climática que afeta os sistemas responsáveis por chuva em diversas regiões e que podem causar enchentes ou secas; os fatores locais ou remotos que contribuem para a redução ou o excesso de chuvas; e as projeções do clima futuro no Brasil. Esperamos que os conhecimentos aqui apresentados possam contribuir para o contínuo desenvolvimento de pesquisas na área, e que despertem o interesse não só dos alunos e pesquisadores, mas também do público em geral, o qual poderá ter uma visão ampla do Tempo e Clima no Brasil. Iracema Fonseca de Albuquerque Cavalcanti Nelson Jesus Ferreira

Prefácio


1 Para entender Tempo e Clima .....................................................................15 Parte I Sistemas Meteorológicos que afetam o Tempo na América do Sul ...................................................................23

Sumário

2 Zona de Convergência Intertropical do Atlântico ...................................25 2.1 Aspectos meteorológicos característicos da ZCIT ........................26 2.2 Variabilidade interanual ................................................................34 2.3 A simulação da ZCIT em modelos climáticos ...............................39 3 Vórtices ciclônicos de altos níveis que atuam na vizinhança do Nordeste do Brasil .........................................................43 3.1 Características gerais .....................................................................43 3.2 Mecanismos de formação de VCANs .............................................51 3.3 Deslocamentos ................................................................................53 3.4 Estrutura vertical ...........................................................................54 3.5 Variabilidade sazonal e interanual dos VCANs ............................56 3.6 Considerações finais .......................................................................59 4 Distúrbios ondulatórios de leste ................................................................61 4.1 Ciclo anual .......................................................................................64 4.2 Características cinemáticas do vento ............................................69 4.3 Comparação com análises do NCEP e de radiossondagem ..........73 5 Linhas de instabilidade na costa N-NE da América do Sul .....................75 5.1 Climatologia das linhas de instabilidade ......................................78 5.2 Variabilidade sazonal .....................................................................81 5.3 Variabilidade interanual ................................................................84 5.4 Mecanismos de propagação das linhas de instabilidade na Amazônia ............................................................86 5.5 Estudo de um caso de ocorrência de LI e condições atmosféricas associadas .............................................88 5.6 Sumário das principais características das LIs.............................92 6 Zona de convergência do Atlântico Sul .....................................................95 6.1 Definição, observação e teoria .......................................................96 6.2 Variabilidade espacial da ZCAS .....................................................98 6.3 Variabilidade temporal da ZCAS ...................................................101 6.4 ZCAS, topografia e interação com o oceano Atlântico Sul...........105 6.5 ZCAS e ocorrência de extremos de chuvas....................................106 6.6 Considerações finais .......................................................................108 7 Ciclones e ciclogênese ..................................................................................111 7.1 Classificação de ciclones .................................................................112 7.2 Mecanismos de formação dos ciclones extratropicais .................115 7.3 Ciclogênese a sotavento das montanhas .......................................117 7.4 Climatologia da ciclogênese ...........................................................122 8 Jatos de altos níveis .....................................................................................127 8.1 Definição Geral ...............................................................................128 8.2 Jato Subtropical e Jato Polar: diferenças e variabilidade sazonal ...................................................................128 8.3 O jato polar e sua importância no prognóstico do tempo............130 9 Frentes frias sobre o Brasil .........................................................................135 9.1 Critérios para a determinação objetiva de frentes frias ..............137 9.2 Climatologia da passagem de frentes frias para o período de 1979 a 2005 .......................................................138 9.3 Características da circulação atmosférica associadas às frentes frias .............................................................140


9.4 Variabilidade interanual da frequência de frentes frias sobre o Brasil..............................................................145 9.5 Efeitos das frentes frias na precipitação .......................................146 10 Geadas e friagens...........................................................................................149 10.1 Geadas radiativas e advectivas.......................................................151 10.2 Friagens............................................................................................151 10.3 Influência orográfica........................................................................155 10.4 Processos físicos envolvidos............................................................160 10.5 Previsão de geadas e friagens.........................................................165 10.6 As geadas e o ENOS.........................................................................166 11 Jato de baixos níveis ao longo dos Andes...................................................169 11.1 Aspectos gerais................................................................................170 11.2 Variabilidade temporal....................................................................172 11.3 Importância do JBNAS na regulação do clima regional presente e futuro.....................................................179 12 Complexos convectivos de mesoescala na América do Sul......................181 12.1 Definição de CCM.............................................................................182 12.2 Ciclo de vida e locais de ocorrência................................................183 12.3 Modelagem numérica dos CCMs....................................................191 Parte II Climas do Brasil...................................................................................195 13 Clima da Região Amazônica.........................................................................197 13.1 Características do clima da Amazônia...........................................199 13.2 Variabilidade do clima na Amazônia.............................................207 14 Clima da Região Nordeste do Brasil............................................................213 14.1 Variação sazonal..............................................................................214 14.2 Variabilidade de baixa frequência..................................................218 14.3 Considerações finais........................................................................231 15 Clima da Região Centro-Oeste do Brasil....................................................235 15.1 Circulação da atmosfera..................................................................236 15.2 Variabilidade climática....................................................................236 15.3 Curiosidades sobre o clima da região.............................................241 16 Clima da Região Sudeste do Brasil..............................................................243 16.1 Características gerais do clima e seu caráter transicional............245 16.2 Especificidades dos elementos do clima na região Sudeste..........246 16.3 Problemas ambientais deflagrados por condicionantes atmosféricos, suas repercussões socioespaciais e potencialidades da região....................................255 16.4 Repercussão das mudanças climáticas no Sudeste brasileiro......256 17 Clima da Região Sul do Brasil.......................................................................259 17.1 Temperatura, umidade, pressão e vento na superfície..................260 17.2 Circulação atmosférica....................................................................265 17.3 Fluxos de umidade e ciclo anual de precipitação...........................268 17.4 Considerações finais........................................................................274 Parte III Variabilidade Climática....................................................................277 18 Bloqueios atmosféricos.................................................................................279 18.1 Bloqueios atmosféricos, descrição sinótica e critérios de identificação..............................................................280 18.2 Bloqueios no Hemisfério Sul: Climatologia...................................286


18.3 Bloqueios e os processos de alta e baixa frequência na atmosfera..................................................................289 18.4 Alguns casos de bloqueios...............................................................293 18.5 Previsibilidade de bloqueio atmosférico........................................295 19 Monção na América do Sul...........................................................................297 19.1 Definição de monção e comparação com a circulação na região central da América do Sul...............................................300 19.2 Definição do início da estação chuvosa..........................................306 19.3 Fases ativas e inativas da monção..................................................307 19.4 Fluxos de calor na superfície e umidade no solo...........................312 20 Teleconexões e suas influências no Brasil..................................................317 20.1 Definição e histórico das teleconexões...........................................317 20.2 Análises de teleconexões.................................................................319 20.3 Principais padrões de teleconexão.................................................320 20.4 Teleconexões e forçantes tropicais, extratropicais e internas.................................................................325 20.5 Influências de teleconexões sobre a América do Sul.....................330 20.6 Influência de teleconexões sobre a América do Sul em simulações climáticas ...............................................................332 21 Variabilidade intrassazonal.........................................................................337 21.1 Características da OMJ....................................................................338 21.2 Influência da OMJ na ocorrência de extremos na precipitação...........................................................348 21.3 Previsão da OMJ..............................................................................349 21.4 Considerações finais........................................................................351 22 Variabilidade interanual do clima no Brasil..............................................353 22.1 Descrição da variabilidade interanual no Brasil............................355 22.2 Influência do El Niño-Oscilação Sul no clima do Brasil...............364 22.3 Mecanismos da variabilidade interanual.......................................370 22.4 Considerações finais........................................................................373 23 Variabilidade decenal a multidecenal.........................................................375 23.1 Variabilidade decenal no Pacífico...................................................375 23.2 Variabilidade decenal no Atlântico................................................379 23.3 Variabilidade decenal do clima na América do Sul........................380 23.4 Considerações finais........................................................................383 24 Variabilidade de mesoescala e interação oceano-atmosfera no Atlântico Sudoeste..................................................385 24.1 Caracterização do Atlântico Sudoeste............................................387 24.2 Processos e feições de mesoescala..................................................394 24.3 Impactos e Variabilidade do Atlântico Sudoeste...........................397 24.4 Interação local oceano-atmosfera...................................................401 24.5 Considerações finais........................................................................404 25 Mudanças climáticas: detecção e cenários futuros para o Brasil até o final do Século XXI........................................................407 25.1 Clima do Brasil no século XX..........................................................410 25.2 Projeções de clima futuro no Brasil para o século XXI.................414 25.3 Possíveis impactos das mudanças climáticas no Brasil................417 25.4 Mudanças no uso da terra e impactos no clima da Amazônia.....................................................................419 25.5 Conclusões........................................................................................420 Referências Bibliográficas..................................................................................425 Sobre os autores...................................................................................................459


32

Parte I – SIStemaS meteorológIcoS que afetam o temPo na a mérIca do Sul

Com respeito ainda à formação de “banda dupla” da ZCIT, mencionada em Waliser e Gautier (1993) e Uvo (1989), destacaram-se as imagens compostas dos satélites Goes-10 e Meteosat-9, obtidas durante o monitoramento do período chuvoso sobre o NEB em 2008 (Fig. 2.5). Nessas imagens, foram evidenciados outros dois episódios de “banda dupla” da ZCIT. Ressalte-se que, nos meses de março e abril de 2008, os totais pluviométricos ocorreram acima da média histórica na maior parte do setor norte do NEB (Climanálise, vol. 23, nº3 e nº4).

Fig. 2.5 Imagem composta (satélites Goes-10 + Meteosat-9), no canal infravermelho, ilustrando a atuação da ZCIT em (a) 22/4/2008 às 06:15 UTC e (b) 24/4/2008 às 20:15 UTC Fonte: INPE/CPTEC/DSA.

Outro aspecto relacionado à variação da posição da ZCIT no Atlântico Equatorial consiste na interrupção de seu deslocamento para o sul, retornando aproximadamente 1,5º para o norte e voltando novamente para posições mais ao sul. Essa variação latitudinal da ZCIT


2 — Zona de convergêncIa IntertroPIcal do atlântIco

foi denominada por Uvo (1989) como “saltos da ZCIT”, que geralmente ocorrem nos meses de fevereiro e março, particularmente em anos secos. O comportamento climatológico mensal da ZCIT, considerando a variável ROL com valores menores que 240 W/m2, para indicar as áreas com maior atividade convectiva, e o escoamento do vento em 925 hPa, para indicar as áreas de confluência dos alísios, é representado na Fig. 2.6. O deslocamento latitudinal da convecção e da zona de confluência durante as estações do ano ocorre de maneira consistente com os estudos anteriores. No verão e no outono, há um deslocamento para o sul; no inverno e na primavera, para o norte. Nota-se que a convecção mais forte da ZCIT está mais próxima da costa do Brasil em janeiro e fevereiro e mais próxima da costa da África entre julho e setembro. Nos meses de março a junho, a convecção se estende sobre o Atlântico

Fig. 2.6 Médias climatológicas mensais (1980 a 2004) de ROL menor que 240 W/m2 (dados obtidos da NOAA; Liebman e Smith, 1996) e escoamento do vento em 925 hPa (dados extraídos das reanálises NCEP/NCAR; Kalnay et al., 1996)

33


130 Parte I – SIStemaS meteorológIcoS que afetam o temPo na a mérIca do Sul

8.3 O jato polar e sua importância no prognóstico do tempo

Fig. 8.3 Relação entre o jato polar e a frente fria

Os meteorologistas, após o estudo de várias situações, determinaram o papel do JP sobre os centros de baixa pressão em superfície. Dessa maneira, o JP exerce influência direta ou indireta sobre as mudanças do tempo. Quando o JP se desloca para o norte, seus movimentos são seguidos em superfície pelos sistemas de alta e baixa pressão e pelas frentes frias e quentes. Isso significa que, quando os meteorologistas conseguem prognosticar os deslocamentos do JP, podem também prognosticar os avanços ou recuos das frentes em superfície e, portanto, prever mudanças do tempo. Na Fig. 8.3 nota-se que o ar frio desloca-se para o norte, escorregando sobre a superfície horizontal do solo. A curva de contato entre o ar frio e o solo é a frente fria. Por cima do ar frio observa-se o sistema de nuvens da frente com suas precipitações. O cano ou conduto da corrente de JP encontra-se atrás do sistema de nuvens e por cima da superfície frontal. O JP quase sempre se localiza em direção oeste-leste, com velocidades que podem variar entre 150 e 300 km/h. A Fig. 8.4 mostra um corte transversal ao longo de uma frente fria. Observa-se a presença do eixo da corrente de jato aproximadamente na altura de 10.500 m, sobre a vertical da pendente da frente fria com a superfície isobárica de 500 hPa. No plano horizontal, e em relação à frente em superfície, o jato geralmente aparece algumas centenas de quilômetros atrás das frentes frias e na frente das frentes quentes. O vento atinge seu máximo valor (140 nós no desenho) apenas no eixo do jato. A velocidade diminui rapidamente para ambos os lados e, em geral, a diminuição é maior do lado frio do que do lado quente do jato. Na figura pode-se observar que a intensidade do vento diminui à metade, a uns 350 km do lado frio (sul) e a uns 600 km do lado quente (norte). Isso significa um gradiente horizontal de 20 e 12 nós / 100 km de distância, respectivamente. Em relação à variação da velocidade do jato com a vertical, observa-se um importante aumento do gradiente acima de 500  hPa (30 nós/km). Acima do jato, a velocidade do vento decresce rapidamente (25 nós/km, aproximadamente).


8 — JatoS de altoS níveIS 131

Fig. 8.4 Corte transversal de uma frente fria. Linhas contínuas em negrito: isotacas (nós); linhas contínuas: isotermas (ºC) Fonte: Eichenberger, 1976.

A carta de superfície apresentada na Fig. 8.5 (esquerda) mostra uma intensa frente fria na região Sudeste do Brasil. Esse sistema frontal frio esteve associado a uma forte incursão de ar frio sobre o centro-sul do continente sul-americano. Pode-se observar a presença do JP (Fig. 8.5, direita) sobre a região Sul do Brasil, entre o norte do Rio Grande do Sul e o sul de Santa Catarina. O JST aparece mais ao norte e acoplado ao JP.

8.3.1 Identificação da corrente do jato por meio de imagens de satélite A Fig. 8.6 mostra a imagem de satélite no canal infravermelho correspondente ao dia 8 de janeiro de 2008, às 17:45 UTC. Por meio da análise dessa imagem, pode-se identificar a presença do JP atravessando o continente, com leve inclinação de noroeste a sudeste, pelo sul do Chile e

Fig. 8.5 Carta de superfície (esquerda) e altitude (direita) correspondente ao dia 30 de maio de 2008, às 12:00 UTC. O JP aparece plotado em traço grosso laranja


248 Parte II – ClImas do BrasIl

Fig. 16.2 Temperaturas médias anuais da região Sudeste Fonte dos dados: Embrapa, DAEE, INMET, elaborada por Daniel H. Candido.

16.2.2 Chuvas A chuva é o principal tipo de precipitação que ocorre na região Sudeste, reflexo de sua posição quase que totalmente intertropical. A distribuição da pluviosidade é fortemente influenciada pelos atributos geográficos da paisagem e pela dinâmica dos sistemas atmosféricos que atuam na área, e as grandes variabilidades inter e intra-anual e espacial estão entre as características mais marcantes do ritmo pluvial. A distribuição espacial da pluviosidade (Fig. 16.3) é fortemente controlada pela disposição do relevo, pela atuação das frentes polares e pela continentalidade, com quatro zonas de totais pluviométricos distintos na região. A primeira zona abrange as quatro classes de totais mais elevados da Fig. 16.3, estendendo-se pelo litoral paulista em direção S-N. O oceano Atlântico garante permanente suprimento de água para evaporação, além de núcleos de condensação que, aliados ao intenso fluxo de energia solar, favorecem as precipitações. Esse setor apresenta índices anuais de chuva com médias superiores a 2.000 mm, superando os 4.500  mm em Bertioga, no litoral central paulista, onde o traçado da costa é oposto aos fluxos oceânicos e àqueles provenientes do sul que, aliados à disposição da Serra do Mar, promovem essas alturas pluviométricas bastante consideráveis. Em termos de gênese, as chuvas convectivas – registradas o ano todo, principalmente no semestre primavera-verão –, de grande importância, são favorecidas pela maritimidade,


16 — ClIma da regIão sudeste do BrasIl 249

Fig. 16.3 Precipitação média na região Sudeste (1961 a 1990) Fonte dos dados: Embrapa, DAEE, INMET, elaborada por Andréa K. Vicente.

que contribui para a permanente umidade e as altas temperaturas. As precipitações pluviométricas de origem frontal, que ocorrem devido ao confronto entre massas tropicais e extratropicais, também são comuns na área, e em alguns trechos elas são dinamizadas pela posição do relevo, que nesse setor é oposto ao avanço dos sistemas extratropicais quando estes apresentam uma trajetória mais marítima. Ao se elevarem para transpor a Serra do Mar, os fluxos atmosféricos úmidos sofrem resfriamento adiabático e ocasionam precipitações abundantes nas áreas a barlavento da escarpa. A segunda zona, composta pelas três classes seguintes, é um setor que ainda apresenta pluviosidade destacada. Disposta no sentido SE-NW, estende-se do Rio de Janeiro ao oeste de Minas Gerais, com volumes em torno de 1.500 mm a 1.700 mm anuais. Coincide com a topografia da Serra da Canastra a noroeste e da Serra da Mantiqueira a sudeste, refletindo a influência da orografia na ocorrência das chuvas. Além disso, ocorre ali o equilíbrio dinâmico entre o anticiclone migratório polar e o sistema de alta pressão do Atlântico Sul, notadamente no verão, o que resulta na permanência das frentes polares na região, provocando chuvas intensas e muitas vezes prolongadas por vários dias. As perturbações de oeste também contribuem para a precipitação nesse setor. A terceira zona, com pluviosidade mais reduzida (entre 1.250  mm e 1.400  mm), situa-se mais no interior do continente. Compreende o Planalto Ocidental paulista, destacando-se as planícies


370 Parte III – Variabilidade Climática

bilidade da chuva de primavera e verão na América do Sul, associados ao ENOS e calculados a partir de simulações do clima atual (1961-1990) e do clima futuro (2071-2100) com o modelo acoplado ECHAM5-OM, Grimm e Natori (2006) verificaram que a forte e consistente influência do ENOS no Sul do Brasil na primavera se enfraquece na projeção do clima futuro, enquanto se fortalece no Norte/Nordeste do Brasil. Entre as razões apresentadas para tal mudança está a modificação nas anomalias de TSM associadas ao ENOS na primavera, que apresentam menor contraste entre equador e subtrópicos (diminuindo a propagação de ondas de Rossby para o sudeste da América do Sul, conforme Vera et al., 2004) e maior extensão latitudinal e intensidade no Pacífico Central e Leste (o que aumenta a subsidência anômala sobre a Amazônia). Além disso, o estado da atmosfera futura apresenta ventos de oeste mais fracos junto ao equador, no Pacífico Leste, diminuindo as condições favoráveis à propagação de ondas de Rossby para a América do Sul subtropical. Tais mecanismos são explicados a seguir.

22.3 Mecanismos da

variabilidade interanual

As fontes anômalas tropicais de calor associadas a episódios ENOS perturbam as circulações divergentes de Walker (zonal) e de Hadley (meridional) sobre a América do Sul e produzem trens de ondas de Rossby (devido à divergência anômala em altos níveis), que são anomalias de circulação rotacional que se propagam para os extratrópicos, com importantes efeitos sobre os subtrópicos e extratrópicos do continente. Essa resposta está nos principais modos de variabilidade interanual da circulação atmosférica no Hemisfério Sul, de interesse para o Brasil. É o caso, por exemplo, do padrão Pacífico-América do Sul (PSA na sigla em inglês), que parece estar associado ao ENOS, correspondendo ao trem de ondas que se propaga para o sudeste a partir do Pacífico Tropical, e então para o equador, atingindo a América do Sul. Esses mecanismos são aqui descritos com ênfase na primavera austral, estação de maior impacto do ENOS nos extratrópicos do Brasil.

22.3.1 O Norte/Nordeste do Brasil

e a teleconexão trópico-trópico

A teleconexão trópico-trópico é instrumental para o impacto de ENOS sobre o Norte/Nordeste do Brasil. Em episódios EN, as anomalias quentes de TSM sobre o Pacífico Tropical Central/Leste produzem mais convecção nessa região tropical com subsidência climatológica (Fig. 22.2), o que resulta em maior divergência em altos níveis no Pacífico Central/Leste,


22 — VarIabIlIdade Interanual do ClIma no brasIl 371

e convergência sobre o norte da América do Sul (Fig. 22.11), associada ao ramo descendente de uma onda estacionária de Kelvin. Há, portanto, uma perturbação da célula de Walker climatológica, cujo ramo descendente no Pacífico Leste é deslocado para o norte da América do Sul, inibindo a atividade convectiva e causando a seca observada. A diminuição da convecção no Norte do Brasil perturba a célula de Hadley local, que é enfraquecida (Fig. 22.11), podendo afetar também os subtrópicos.

Fig. 22.11 Vento divergente anômalo em 200 hPa, associado a episódios EN na primavera austral (OND), e anomalias das células de Walker e Hadley, calculadas sobre as bandas latitudinais e longitudinais indicadas no mapa. Áreas sombreadas têm anomalias consistentes com nível de confiabilidade de 90%

22.3.2 O Sul/Sudeste do Brasil e a teleconexão trópico-extratrópico O Sul do Brasil tem um consistente sinal de ENOS na precipitação, que não é uniforme ao longo de um episódio, porque o estado básico da atmosfera no qual as ondas de Rossby se propagam varia ao longo do ano. O foco será novembro, mês de maior impacto. As anomalias de função corrente em altos níveis durante novembro (0) de EN mostram um trem de ondas que se estende do Pacífico Central para os extratrópicos com uma larga curvatura, e outro emergindo do Pacífico Oeste, o qual, na latitude do jato subtropical, é refletido para nordeste em direção aos subtrópicos da América do Sul, coerentemente com as características da propagação de uma onda de Rossby (Fig. 22.12, coluna à esquerda). Esse trem de ondas produz uma


O estudante, o agricultor, o planejador, o gestor de recursos hídricos, a defesa civil, o aviador e outros tantos dependem diretamente do tempo e do clima para realizar suas atividades. E as mudanças climáticas, como impactarão o Brasil? Esta obra científica vem, felizmente, preencher essa lacuna editorial. O capítulo inicial conceitua os fatores cuja interação determina as condições de tempo no território brasileiro, as quais, ao longo do ciclo anual, configuram o clima. Aprofundam-se, na primeira parte do livro, os principais sistemas meteorológicos que atuam na América do Sul e no Brasil, com a descrição dos respectivos fenômenos, devidamente enriquecida por modelos e registros. O clima das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul compõe a segunda parte, e a terceira tem por objeto a variabilidade climática, que acirra enchentes e secas. O aquecimento global, as mudanças climáticas e os cenários sobre o meio ambiente e as atividades econômicas no Brasil durante o século XXI conferem a Tempo e Clima no Brasil uma sintonia fina com as grandes questões ambientais a serem enfrentadas pela atual e pelas próximas gerações. Em 25 capítulos, a colaboração de mais de 30 pesquisadores, sob a direção dos coordenadores-autores Iracema Fonseca de Albuquerque Cavalcanti, Nelson Jesus Ferreira, Maria Gertrudes Alvarez Justi da Silva e Maria Assunção Faus da Silva Dias, reunindo instituições como CPTEC/INPE, USP, UNICAMP, UFRJ, UFPR e UFPA, logrou oferecer à comunidade um livro atual e instrutivo, valioso em qualquer biblioteca.


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