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O ESTAFETA ÓRGÃO DA FUNDAÇÃO CHRISTIANO ROSA DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

PIQUETE, MARÇO/2014 - ANO XVII - No 206 Foto JAF

EDITORIAL Nossa região passa por uma estiagem nunca registrada. Este verão que terminou foi um dos mais quentes e secos da história. Suas consequências econômicas ainda não foram mensuradas, mas já repercutem na escassez de chuvas e no racionamento de água. A excepcionalidade climática do mês de janeiro deste ano, com o forte calor observado em várias capitais dos estados do sul e do sudeste do Brasil, e uma seca intensa sem precedentes, levaram ao esvaziamento quase que total de reservatórios de água destinados às populações urbanas. O consequente rebaixamento das usinas hidrelétricas obrigou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a trazer energia gerada na região Norte e a acionar usinas termelétricas para suprir as regiões afetadas pela forte estiagem. As anomalias climáticas que repercutem em nossa região vêm acontecendo em escala global, com mudanças abruptas de temperaturas em escalas extremas. Considerando o excessivo calor associado aos déficits de chuvas observados na região neste início de ano – fenômeno que pode se tornar frequente no futuro – evidencia-se que é necessário que as cidades se adaptem aos novos tempos. Estudos apontam que a arborização urbana ameniza o clima da cidade. Da mesma maneira, a recuperação de nascentes, margens de rios e encostas são garantias de água para o consumo humano no futuro. Muitas sociedades entraram em colapso porque não evitaram a destruição ambiental por elas causada. A Serra da Mantiqueira, grande produtora de água, é berço de inúmeras nascentes de rios tributários do rio Paraíba do Sul e do rio Grande. Preservar essa cordilheira e suas nascentes se faz necessário a todo custo. Que todo proprietário cujas terras abrigam nascentes tome a iniciativa cidadã de recuperá-las. Busquem apoio e as preservem! As futuras gerações agradecerão.

Preservar a Mantiqueira e sua diversidade cultural e de paisagem se faz necessário. Que a recuperação de seus mananciais, encostas e microbacias se façam de imediato.

A questão do tombamento da Mantiqueira A serra da Mantiqueira nunca esteve tão em evidência como nos últimos anos. Volta e meia notícias veiculadas em diferentes meios de comunicação nos dão conta de que grupos ambientalistas se articulam reivindicando o tombamento desse maciço montanhoso. É inquestionável a importância ecológica da Mantiqueira. O assunto provoca debates acalorados. De um lado, os que defendem que a serra deve ser preservada a qualquer custo. De outro, moradores, também preocupados com sua preservação, que há gerações moram na região e defendem o direito de ser ouvidos, mas vêm ficando às margens dos debates. Hoje, com tantas informações acerca da importância de se preservar o meio ambiente, ninguém, em sã consciência, é contrário a esse preceito. No entanto, carecem de seriedade as propostas de preservação surgidas nos últimos tempos, como a criação de um Parque Nacional da Mantiqueira pelo governo federal, e, recentemente, do tombamento, pelo COMDEPHAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) pelo governo paulista. Se houvesse por parte dos governos preocupação com a Mantiqueira, as legislações ambientais já existentes – que não são poucas – seriam cumpridas. No entanto, não é o que ocorre. A Mantiqueira

é a primeira APA (Área de Proteção Ambiental) federal do país – categoria de conservação menos restritiva do que o tombamento pretendido. Foi criada em 1985, mas até hoje não foi feito seu plano de manejo. A área já é protegida também pela Lei Nacional da Mata Atlântica e pelo atual Código Florestal. Até o momento, porém, nenhuma autoridade se mobilizou para cumprir o que determinam essas leis. O que não faltam são estudos voltados para a Serra da Mantiqueira. Todos sabem que nela estão as nascentes de rios cujas águas são tributárias dos rios Paraíba do Sul e Grande. Ela também é prioritária para a preservação de sua rica biodiversidade, além de abrigar vegetação de campos de altitude, única no estado de São Paulo, além de espécies endêmicas. O que falta, portanto, para a preservação da Serra é o comprometimento de nossas autoridades, que não priorizam o meio ambiente nas políticas públicas e, pior, omitem-se quando do cumprimento das leis vigentes. Falta um efetivo trabalho dos órgãos fiscalizadores, além de parcerias com os municípios e seus moradores – maiores interessados na preservação da serra. Paralelamente, um continuado trabalho de educação ambiental para que todos da região tomem conhecimento da real importância desse patrimônio natural. ***************


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Imagem - Memória

Fotos Arquivo Pró-Memória

Um pouco da Fábrica de Pólvora... Nos últimos anos cresceu o interesse de parte de historiadores pelo resgate e preservação da memória, especialmente os que se voltam para a história das mentalidades. Estudos dirigidos para essa área procuram abordar aspectos do cotidiano da comunidade, da vida em família, dos hábitos e costumes, do trabalho, entre outros, que são, sem dúvida, pontos que remetem à constituição social da memória. Constata-se que a memória individual existe sempre a partir de uma memória coletiva, posto que todas as lembranças são constituídas no interior de cada grupo. Estas afirmativas podem ser observadas entre os piquetenses quando se referem à Fabrica Presidente Vargas e ao que ela representou e ainda representa para eles. Todos os anos, no dia 15 de março, quando a Fábrica comemora seu aniversário, um mecanismo ativa a memória e provoca lembranças... Essa indústria bélica aqui instalou-se em 1909, quando ainda Vila Vieira do Piquete, um lugarejo de pouco mais de mil habitantes, sem serviço de água nem luz. A mão de obra era pouca, porém barata. Vieram técnicos de fora, muitos aqui constituindo família. E a Fábrica foi tomando vulto. Por várias vezes mudou de nome: Fábrica de Pólvoras Sem Fumaça, quando da inauguração; Fábrica de Pólvoras e Explosivos de Piquete, em 1936; Fábrica de Piquete em 1939 e Fábrica Presidente Vargas, em 1942. A cidade passou a chamar-se “Piquete” em 1915. E as duas – Fábrica e cidade – cresceram lado a lado. Sempre houve, por parte da administração, a ideia de que uma empresa eficiente precisa cuidar de seu corpo social. Dentro deste espírito, surgiram, no campo da saúde, o hospital, inaugurado em 1948, com os

requisitos necessários para todo tipo de atendimento: maternidade, centro odontológico e posto de puericultura. No setor educacional, os cursos sucederam-se: Escolas Industriais masculina e feminina; Ginásio, Escola Agrícola, Primário e Jardim da Infância, Curso Científico, Escola Normal e Curso de Aperfeiçoamento de professores. Tal organização impressionou o renomado pedagogo Lourenço Filho quando de sua visita em 1944, que assim se expressou: “A organização didática, bem como das instituições pré-escolares, para o aperfeiçoamento social e cívico dos alunos, pode ser apresentado como um belo exemplo de adoção de modernas técnicas pedagógicas e de segura compreensão do valor social da educação”. Desde 1914, quando foi criado, o Esporte Clube Estrela foi a paixão de todos os piquetenses. Embora mantido pela Fábrica, sempre foi o “Estrela de Piquete” para todos os adversários. A banda da Fábrica e seus “jazz-bands”, onde quer que se apresentassem, não deixavam jamais de ser “de Piquete”. Na parte residencial, construiu o núcleo da Limeira, o correr de casas da avenida General Carneiro, todas as casas da Vila Duque de Caxias, vila operária, além do bairro da Estrela. Não se esqueceu da assistência econômica ao operariado: armazém reembolsável, açougue, padaria, serviço fotográfico. Para recreação das famílias construiu o Grêmio General Carneiro, o Grêmio Duque de Caxias, o Cine Estrela, a praça Duque de Caxias, a piscina. Monumentos como o artístico pórtico e outros, doados à cidade. Deve-se incluir como presentes para o povo piquetense as igrejas de São José e Metodista.

Um valioso destaque é a constante vigilância na preservação do trecho de Mata Atlântica a ela pertencente, que resultou numa mancha, ainda hoje preservada, com espécies raras de flora e fauna. E quem usufruiu de tudo isso? Várias gerações de operários, seus filhos, parentes e outros que sequer tinham ligação direta com a Fábrica. Nessa época, eram raras as escolas estaduais, e as particulares, de alto custo. Quantos hoje, já aposentados, criaram famílias com profissão aprendida na Escola Industrial! Muitos tornaram-se militares, e outros tantos, nas mais diferentes profissões, continuaram seus estudos aqui iniciados. Não podemos nos esquecer dos inúmeros socorros emergenciais de material ou mão de obra que foram cedidos à cidade. Os tempos mudaram. A Fábrica reduziu seu número de operários e até sua área de ocupação, doando parte para o município. Centenária, ela continua insumo de memória afetiva e de lembranças.

O ESTAFETA Fundado em fevereiro / 1997 Diretor Geral: Antônio Carlos Monteiro Chaves Jornalista Responsável: Rosi Masiero - Mtd-20.925-86 Revisor: Francisco Máximo Ferreira Netto Redação: Rua Coronel Pederneiras, 204 Tels.: (12) 3156-1192 / 3156-1207 Correspondência: Caixa Postal no 10 - Piquete SP Editoração: Marcos R. Rodrigues Ramos Laurentino Gonçalves Dias Jr. Tiragem: 1000 exemplares A Redação não se responsabiliza pelos artigos assinados.


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Piquete, março de 2014

GENTE DA CIDADE Jorge Jofre

São Vicente de Paulo doou sua vida em prol dos mais necessitados de sua época. Com o apoio de Santa Luiza de Marillac, o “pai dos pobres” fundou a companhia das Irmãs Filhas da Caridade, que tem como missão estar junto dos pobres atendendo às suas necessidades e contribuindo para sua formação cristã e educacional. Pautado na filosofia vicentina, Jorge Jofre completará 74 anos de idade em 12/09 e 49 como vicentino no próximo mês de junho. Não esconde seu entusiasmo por participar de tão importante obra social. “Procuro viver sob os princípios da assistência social”, afirma. Atualmente é presidente da Confraria de São Benedito. Jorge Jofre é filho de piquetenses “da gema”... Seu pai foi funcionário da Fábrica e ele nasceu em uma casa próxima à entrada daquela indústria. “Foi uma infância muito boa... Brincadeiras saudáveis, respeito aos pais... Nadávamos no ribeirão Sertão... A mata da FPV, conhecia ‘na palma da mão’... Infância muito valorizada por mim e meus quatro irmãos”. O curso primário foi no Grupo da Fábrica. “Eu não dava muita importância aos estudos... Era esforçado, mas não persistia...”. Já com 14 anos, começou a trabalhar e deixou os estudos. O amigo Júlio Sardinha o aconselhou a não parar. O conselho foi seguido... Em 1959 foi prestar serviço militar na Aeronáutica, mas percebeu que não era seu lugar. Concluído o período obrigatório, retornou para Piquete e concluiu o Ginásio. Em 1962 prestou concurso para a FPV. Em 1964, a vinte e três de maio, casou-se com Hilma Freire Jofre, que conhecera em 1961. “Um casamento duplo: eu e Hilda, o Gugu e a Maria Alice, irmã de minha esposa”. Foi um dos fundadores do Grupo Escoteiro Puris, em 1981, onde permaneceu por cerca de dez anos. Em 1973, outro concurso propiciou mudança significativa de cargo e salário – “Foi um período complicado. Estava afastado do trabalho para cuidar da saúde de minha esposa e aproveitava as poucas horas livres para estudar. Mas valeu a pena; melhorou muito a situação”. A vida de Jorge Jofre foi sempre corrida. Se já não bastassem a família, o trabalho e as obrigações vicentinas, entrou para a política: preocupado com a qualidade de vida dos piquetenses, Jofre, aos poucos, foi se envolvendo com atividades que o levaram a se tornar vereador entre 1973 e 1976. Em seguida, foi eleito vice-prefeito, junto com José Armando de Castro Ferreira, no mandato de 1977 a 1981.

Nesse período criou em Piquete o MOBRAL (Movimento Brasileiro para a Alfabetização). “Um trabalho muito gratificante. Tinha a ideia de que o MOBRAL era para adultos apenas. Vi que não... As ações eram abrangentes e incluíam cerca de 160 crianças...”, conta, entusiasmado. Por meio do MOBRAL, organizou a 1ª Festa do Folclore em Piquete, precursora das festas “do Tropeiro” e do “Peão Boiadeiro”. “Período muito rico para Piquete. A Festa do Folclore era educativa, apresentava a cultura da região...”, afirma. Também como vice-prefeito foi o responsável pela Defesa Civil no município. Ao deixar o Executivo municipal, assumiu cargos fora de Piquete por cerca de oito anos. Mais tarde, entre 1993 e 1996 seria novamente vereador. Deixou a vida pública como diretor do Hospital de Piquete, em 2000. Jofre é professor formado pela Escola Normal Municipal e Administrador de Empresas. Aposentado desde 1985, vive hoje a tranquilidade de quem cultiva a honestidade, a seriedade no tratamento da coisa pública, o desprendimento e o amor à família. Tem quatro filhos e sete netos, que lhe ocupam boa parte do tempo. O altruísmo continua: além da Confraria de São Miguel, Jofre é Congregado Mariano. Há mais de treze anos na Congregação, é o atual presidente. Iniciou, pensando na continuidade da tradição, um trabalho com jovens. “Hoje estamos com cerca de trinta ‘marianinhos’”. Nos encontros semanais, educação religiosa e muito carinho para as crianças e os pais acompanhantes. Jorge Jofre defende o ecumenismo. Seu lema é “que se pratique bem a religião, não importa qual”. Um cidadão ativo e que pratica o maior mandamento: “amar ao próximo”: assim é Jorge Jofre. Assim é a história de um homem que dedicou sua vida à família e ao próximo.

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“Il mio Papa” Laurentino Gonçalves Dias Jr.

O papa Francisco completou um ano de sua eleição para o Trono de Pedro em 13 de março de 2014. Para mim, a figura do Papa se encontrava desgastada com Bento XVI, que renunciou em 28 de fevereiro de 2013. Minha referência era o carismático João Paulo II e Bento XVI significou um retrocesso, em minha avaliação como “católico não praticante”. O “grande teólogo” me afastou ainda mais da Igreja. Sem discutir os motivos que levaram à renúncia Bento XVI, já que não teria argumentos para defender minha tese, a eleição de Francisco me foi, inicialmente, indiferente. Achei que ele serviria à Igreja Católica de acordo com um marketing milimetricamente planejado. Ledo engano! Participei, motivado por sentimentos até então estranhos ao meu comportamento como católico, da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em julho de 2013. Uma cena em particular que presenciei fez com que mudasse radicalmente minha opinião sobre Francisco. Percebi, naquele momento, a sinceridade de um homem que buscava se integrar com os que o buscavam com carinho, com admiração, com fé. Tive certeza de que não podia ser falsa tamanha demonstração de caridade e de respeito ao ser humano. Francisco mostrou-se, nos dias da JMJ, um papa ciente de sua importância, e, em minha opinião, assustado, pois sabia que deveria encarar um enorme desafio: resgatar muitos que, como eu, se afastaram da Igreja Católica com a morte de João Paulo II e por motivos outros. Neste primeiro ano de seu papado, Francisco só fez confirmar minha certeza de que ele era de quem precisávamos havia muito tempo: uma homem comum, com sapiência para reconduzir os católicos à espiritualidade igualitária, sem juízos, e à esperança nos preceitos originais da tradição católica. Com ele, consigo vislumbrar uma Igreja mais tolerante com a realidade atual, próxima dos mais humildes e, principalmente, evangelizadora por meio de exemplos. Estou certo de que muitos me creditarão como desconhecedor da Igreja Católica, afirmando que nada mudara em sua essência no curto período em que foi comandada por Bento XVI. Pode ser... Mas, particularmente, gosto de estar próximo de quem me proporciona bem-estar; e é por isso que gosto de estar próximo de Francisco – ele faz com que eu me sinta bem. “Il mio papa” é uma revista semanal inteiramente dedicada às atividades e à vida pessoal de Francisco. A publicação é italiana e será a primeira em que um papa é o tema central e único. Quando li a respeito, me agradou o título, pois Francisco resgatou em mim o sentimento de ter “il mio papa”. Que ele seja forte! Que permaneça firme em seus propósitos de resgatar a jovialidade da Igreja Católica! Que sua saúde seja de ferro e o mantenha por muitos anos no trono de Pedro! Francisco se diz “um homem normal, que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como toda a gente”. Tenho certeza, porém, de que ele é especial. Ele é “il mio papa”.


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Nos 105 anos da FPV, uma lembrança... No mês em que se comemora o aniversário de 105 anos da FPV (inicialmente Fábrica de Pólvora sem Fumaça), a Fundação Christiano Rosa a parabeniza publicando uma imagem do prédio que, originariamente, era o “Laboratório Químico Afonso Penna”. Ali foi assinada, no dia 15 de março de 1909, a ata de inauguração do que era, à época, a maior e mais moderna fábrica de pólvora da América Latina. Estiveram presentes e assinaram a ata o presidente da República, Afonso Penna, o Ministro da Guerra, Mal. Hermes da Fonseca, o presidente do Estado de São Paulo, Dr. Albuquerque Lins, o deputado Arnolfo de Azevedo, o chefe da Comissão Construtora da Fábrica de Pólvora sem Fumaça, Cel. Augusto Maria Sisson, o diretor geral de Engenharia, Gen. Modestino Martins, além de outros Ministros de Estado e muitas ou-

tras autoridades e convidados. A atual FPV, filial nº 01 do grupo IMBEL (criada em 1975), não ostenta mais a imponência que teve ao longo de quase setenta anos. Continua, no entanto, sendo a única indústria de porte em Piquete e merece todo o respeito e o carinho dos piquetenses. É por meio da FPV que se susten-

tam, ainda, inúmeras famílias em nossa cidade... A história da “Fábrica”, como é carinhosamente conhecida, e a história de Piquete se confundem. Ouso afirmar que Piquete não existiria e a história da região seria muito diferente se não fossem as obras militares daquele início de século batalhão militar, estrada de ferro, hospital militar e uma Fábrica de Pólvoras foram parte de um vitorioso projeto que alterou, definitivamente, Piquete e a região. Um desafio para os piquetenses: citem um só prédio de relevância arquitetônica ou histórica em nossa cidade que não tenha sido beneficiado pela Fábrica... Todo respeito à FPV! Todo carinho à FPV! Parabéns aos funcionários e à atual direção! ***************

Mulheres – Para lembrar de local e de estado. Chegou 2014 e a levou. Senti não tê-la visto nos últimos tempos. Era uma figura boa de se ver. Parece que nos acalmava com seu jeito afastado, desentendido, mergulhado em que ondas de refúgio ou de fuga. Lembra-me Tonha os seres quase incógnitos cuja existência passa mal percebida. Mas quem a conhecia dela gostava. De sua emoção aflorada. Tonha como gente da cidade marcava singelamente a paisagem humana que concede a Piquete a dimensão da diversidade. Dita Conheci Dona Dita, como Tia Dita na roda de leitura das obras de Guimarães Rosa no Instituto de Estudos Brasileiros (USP). Era figura ímpar. Lépida, animada, sorridente, companhia aprazível. Depois soube ser ela mãe do Gil – professor Gil, liderança do jongo de Piquete, manifestação que alcançou notoriedade extraterritorial. Projetado no Brasil, o jongo das tradições culturais desenvolvidas no país pelos descendentes africanos, notadamente na área cafeeira do Vale do Paraíba. Dona Dita era, entre outras, jongueira sempre pronta a participar das rodas do canto e dança. Desafio social para marcar a exclusão que dá aos praticantes do canto e dança a chancela dos constituintes de uma comunidade de força social expressa no toque dos tambores e na roda de participantes. O

toque que selou no desfile das exéquias, cavo e solene, o atestado de uma entrega plenificada. Além dos cânticos de muita gente sensibilizada com a emblemática representação da imagem da amiga na viagem da travessia maior. Aqui deixa encantadas as vidas, como disse Guimarães Rosa. Aurora Aurora, minha vizinha quase centenária, deixou-nos. Teve uma vida plena de esposa e mãe de família. Tomei conhecimento dela estando eu em tenra idade e ela, casada, ainda sendo mãe pela primeira vez. Conheci-lhe o pai, o marido e depois, a sequência dos filhos. Já escrevi nestas páginas sobre ela e a família. Nossa amizade durou a vida inteira. A rua Major Carlos Ribeiro teve em Aurora e família referência notável. Na cronologia dos tempos, Aurora marcou, com sua curiosidade e operosidade do lar, a história do cotidiano da cidade em grande parte do século 20 e inícios do 21. Marcou exemplarmente a crônica das irmandades a que pertencia – Apostolado da Oração e São José, das quais portava com disciplina os trajes, as fitas e os emblemas. Mulher de fibra, o sorriso sempre a nos cumprimentar, deixou um traço luminoso pela laboriosidade e alegria de viver. Dóli de Castro Ferreira

Fotos Arquivo Pró-Memória

Tonha Tonha, você nos deixou. Já dá para sentir sua falta, que se alonga. Esteve doente e depois partiu. Deixou-nos muitas saudades. Saudades de vê-la lá na vila onde morava, numa das casinhas alinhadas com jardim à frente. Na simplicidade absoluta dos que têm o mínimo para sobreviver. Sem reclamar. Não se notava desgosto – sorria sempre. Tonha sempre bem arrumadinha nos atos religiosos. Na capela de São Vicente nos fins das tardes de sábados, nas missas das 19h. Tonha, lá você aparecia sempre muito limpa e ansiosa por agradar – o sorriso e a simpatia expostos. Você, no limite das coisas inteligíveis mas sensíveis. Era bom vê-la. Bom dividir o banco. Apoiá-la se preciso fosse. Durante a missa era pontual: na hora do Evangelho – a homilia – ela se levantava e olhava para os lados. Hora de ir ao banheiro. A bexiga dava o sinal. Alguém precisava acompanhá-la. Era preciso uma guia e apoiadora. Lá ia Tonha. Serena, calma, caminhando cada vez mais devagar. Voltava ao seu lugar e a sua companhia se reacomodava. Tudo seguia normal. Ela olhava à volta toda. Reconhecia pessoas. Sorria livremente. Docemente. Cumprimentava ao som da Paz de Cristo. Contaram-me de sua partida, mudança


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José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil Foi com alegria que a comunidade católica brasileira recebeu a notícia de que o Papa Francisco assinará, no próximo dia 2 de abril, o decreto de canonização do padre José de Anchieta. Através desse decreto o Papa reconhece as virtudes heroicas e a trajetória apostólica, missionária e humanizadora do padre José de Anchieta. Nascido no dia 19 de março de 1534, na cidade de Tenerife, nas ilhas Canárias, com 17 anos ingressou na Companhia de Jesus, para, dessa forma, participar do processo de expansão do cristianismo em terras americanas. Sua vida foi direcionada para o ensino e o sacerdócio. Veio para o Brasil com o governador geral da colônia, Duarte da Costa, em 1553. Tornou-se uma das figuras mais importantes da cultura do país que começava a se formar e, já no primeiro ano de sua chegada, participou da fundação do Colégio de Piratininga, que deu origem à cidade de São Paulo. Ao chegar às terras brasileiras, mostrou grande interesse em conhecer profundamente a língua dos nativos. Com auxílio do padre Auspicueta Navarro, aprendeu os primeiros termos e expressões

do “abanheenga”, língua compartilhada por índios tupis e guaranis. Em pouco tempo, percebeu que as línguas faladas por várias tribos tinham uma mesma raiz formada por aspectos semânticos, gramaticais e vocabulares comuns. Seu interesse pelas Letras se manifestou na produção de uma extensa obra, que incluía a elaboração de poesias, sermões, cartas, peças teatrais e a produção de uma gramática intitulada “Arte da gramática da língua mais usada na Costa do Brasil”. Essa preocupação com a língua era de essencial importância para a consolidação do projeto evangelizador dos jesuítas, sendo que tex-

tos e apresentações artísticas eram produzidos na língua nativa como forma de facilitar a conversão ao cristianismo. Durante o período em que viveu em terras brasileiras, Anchieta andou bastante pelas regiões que hoje correspondem aos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. No ano de 1567, Anchieta alcançou o cargo de Provincial, o mais alto da Ordem da Companhia de Jesus, que ficara vago com a morte do padre Manuel de Nóbrega. A partir de então, o padre Anchieta andou por toda a extensão do território colonial orientando as atividades das várias missões jesuíticas espalhadas pelo Brasil. José de Anchieta faleceu em 9 de junho de 1597, na aldeia de Reritiba, na capitania do Espírito Santo. Em razão de seus trabalhos em favor da expansão do cristianismo nas Américas, este clérigo ficou conhecido como “Apóstolo do Novo Mundo” e “Curador de Almas”. Em 1980, foi beatificado pelo papa João Paulo II. No próximo dia 2 de abril merecerá a honra dos altares. Ilustração do texto: “A Glorificação de Anchieta”, de Lucílio de Albuquerque

A escassez de água no Planeta percentual, apenas 22% podem ser diretamente aproveitados por meio de rios lagos e aquíferos subterrâneos. O restante está acumulado em geleiras e montanhas. Conforme a dinâmica natural, mesmo essa pequena parcela de água consumível não deveria se esgotar uma vez que, através de seu ciclo, segue em contínua renovação. Acontece que a ação humana a vem degradando através da poluição ambiental, do mau uso e do desperdício, o que acaba acentuado pelo crescimento demográfico e, consequentemente, pelo aumento do consumo. A questão da falta de água não se dá somente em consequência da ação antrópica. A distribuição deste recurso não ocorre de maneira igualitária em todas as regiões da Terra. Geograficamente, certos países possuem muito mais água do que outros. O Brasil, por exemplo, detém enorme capacidade hídrica se comparado a países do nor-

te da África, do Oriente Médio e à China, que enfrentam problemas ainda mais graves com a carência de água. As previsões apontam para a possibilidade de uma crise de água no planeta nas próximas décadas. A expansão de nossas cidades, aliada à má utilização desse recurso natural e à poluição, é a grande responsável pela sua crescente escassez. O crescimento populacional, a industrialização e a urbanização das cidades são fatores que propiciam o aumento significativo do consumo de água. Acredita-se, todavia, que o problema atual se relaciona muito mais ao gerenciamento e à distribuição da água do que à própria escassez. Se quisermos propiciar um planeta que reúna condições de sobrevivência às próximas gerações, é necessário que busquemos a conservação dos bens naturais baseada na perspectiva sustentável e até nas pequenas ações individuais.

Fotos Arquivo Pró-Memória

A questão da escassez de água no Planeta é cada vez mais preocupante em todo o mundo. Já há alguns anos este assunto vem sendo debatido pela sociedade, forçada a discutir e buscar alternativas para equacionar esse grave problema que afeta todas as formas de vida. O esgotamento dos recursos hídricos já é realidade em algumas regiões do planeta, de modo que muitos países já sofrem extremamente com o problema. Estima-se que 18% da população mundial não têm água disponível para suprir suas necessidades e, para 2050, as estimativas são ainda mais catastróficas: caso a situação atual não se altere, três quartos dos habitantes da Terra não terão acesso a esse recurso essencial à vida. Embora vivamos em um planeta abastado desse precioso líquido, 97,5% dele encontram-se nos mares e oceanos. A água doce representa apenas 2,5% e, deste


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Chute a lua

Crônicas Pitorescas

Edival da Silva Castro

Coisas da cuca... Palmyro Masiero Certa vez, num programa da Bandeirantes, foi entrevistado um psiquiatra badaladíssimo lá no Rio de Janeiro e a gente ouviu as mais diferentes perguntas e respostas. Justamente por causa deste programa que o assunto esteve em órbita em torno de quatro casais que descansavam num clube de campo. Uma coisa entre o grupo ficou patente: muitos ali não botavam fé neste campo da medicina. Todavia, outros discutiam sobre o assunto como se fossem íntimos de Freud, Adler e Jung. – Esses médicos psiquiatras – dizia um descrente – fazem é a cabeça do paciente, isso sim! – Você está enganado – retrucava um da ala crédula. É uma terapia demorada, mas que resolve. – O inverso daquelas pílulas antigas do Dr. Ross, que eram pequeninas mas resolviam – brincou um desligadão. Voltou o descrente: – A gente vai lá, fala, fala, fala; o homem ouve, ouve, ouve, anota, anota, anota sabese lá o quê e você paga uma nota! A cura eu creio que chega quando a grana do doente pifa. – Você está falando sem conhecimento de causa – seguro retornou o defensor. Deixe-me dar-lhe umas explicações: Freud revelou o fenômeno da repressão que chamamos recalque. Descobriu que tudo aquilo que já vivemos e nos magoou, aquelas emoções que a gente não suportou a barra, são recalcadas para o inconsciente. Essas emoções carregam consigo suas energias e vão encontrar um caráter equivalente nos sintomas neuróticos. E mais ainda: que esses recalques, invariavelmente, estão ligados à vida sexual dos pacientes. – Quer dizer que qualquer lelezinho aí tem problema sexual recalcado?! Chega ao consultório, deita no divã, solta a língua e tá resolvido o problema do compadre?! Enquanto o descrente chutava besteiras, o outro dava explicações que até ali ninguém suspeitava que ele, chefe de setor em uma empresa mecânica, estivesse por den-

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tro. – Esta questão de falar ao médico é científica. Freud reuniu suas interpretações com a descoberta de Breuer e com a doutrina de Charcot... – Quem são esses caras? – interromperam-no. – Joseph Breuer foi um amigo de Freud. Ele acreditava que a cura se efetuava pela sugestão, que canalizava para as vias normais a energia desviada. Já Jean-Martin Charcot, mestre de Freud, concluiu que determinadas manifestações físicas de histeria não são necessariamente físicas em seu princípio. Podem ser psíquicas, tendo em vista que é possível provocá-las por influência mental – em outras palavras, pela hipnose. E aprendeu que quando se dava à emoção perturbada e reprimida a oportunidade de se expressar, esse simples meio bastava para descarregar a energia e eliminar o sintoma. Daí, então, o motivo do falatório que o paciente joga aos ouvidos dos médicos. Deu pra entender? Todos estavam boquiabertos diante do fenômeno freudiano que tinham à frente. Os que não criam acharam por bem calar-se por falta de argumentos definidos a um debate em que, fatalmente, perderiam. O assunto poderia ter-se encerrado aí não fosse uma das mulheres ali presentes, que, no duro mesmo, tem a cuca mais fresca do que água de riacho de selva selvagem, falar: – Semanalmente eu vou ao meu psiquiatra. Custou para encontrar um que acertasse com meu caso, mas acabei encontrando. Este é ótimo. Sempre acha uma desculpa pras minhas frustrações. Coisa parecida com uma confissão: a gente conta os pecados para o padre, ele dá uma penitência e a gente sai da igreja pura e leve como plumas ao ar. Aí foi o marido dela que se meteu: – Então vá confessar toda semana, oras bolas... Sairia muito mais barato! – Acontece que confissão não dá status, meu bem... – com lógica e dengos respondeu... ***************

Os clubes existentes na cidade de Piquete não tinham piscina. A FPV inaugurou a sua em 27 de agosto de 1954, com o nome de Piscina Marechal Aquino, que era destinada a atender os servidores militares e civis, com seus respectivos dependentes. O uso da piscina ficou distribuído por círculos: C��rculo A – oficiais, químicos e engenheiros civis. Círculo B – subtenentes, sargentos, encarregados e mestres. Círculo C – demais funcionários. Os visitantes apresentados por militares ou funcionários permaneciam no círculo daquele que o apresentava. Os saudosos funcionários João Pereira e Romeu de Faria ficaram incumbidos de orientar e fiscalizar a frequência dos banhistas. Alguns meses após a inauguração, os círculos B e C passaram a ser os mais frequentados, principalmente pela molecada, que trocou os banhos de rio pela água azul da piscina. O saudoso João Pereira aproveitou-se deste mister e passou a ministrar aulas de natação e de saltos ornamentais, para ver se descobria algum garoto que demonstrasse aptidão para alguma das práticas. O amigo Paganini Masiero costumava praticar saltos de ambos os trampolins. Com orientação do João Pereira, chegaram ao salto que denominaram “chute a lua”, que consistia em sair correndo pelo trampolim mais alto, jogar o corpo de costas para água e, nas alturas, chutar o vazio, rodar o corpo e cair de cabeça procurando espalhar o mínimo de água. O salto tornou-se tão comentado e discutido, que outros garotos passaram a praticá-lo. A quase perfeição, no entanto, cabia mesmo era ao Paganini. A piscina ficava aberta à visitação de terça-feira a domingo, nos horários distribuídos a cada círculo. Nos meses de verão, quando o horário era alterado, a sirene de encerramento tocava às 20h, quando também o sol costumava se despedir. Logo que a piscina foi inaugurada, correu um diz que diz entre a molecada de que a água era tratada com cloro e, se alguém urinasse nela, formaria uma coroa colorida em torno do mijão e, consequentemente, o mesmo seria identificado e cassada a sua carteirinha de frequentador. No início, talvez essa artimanha tenha surtido efeito. Depois...

Obras de construção da “Base Dupla” As obras de construção da fábrica de pólvora de Base-Dupla foram iniciadas na administração do coronel José Gomes Carneiro. Esta unidade, que fazia parte de um novo grupo fabril, foi oficialmente inaugurada em 8-12-1942, pelo então Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra. Nessa ocasião a Fábrica de Piquete passou a ser denominada “Fábrica Presidente Vargas”.

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Madiba Principal arquiteto da nova República da África do Sul, Nelson Mandela (1918 – 2013), é considerado um agente destacado na história das lutas anti-imperialistas no século XX. Por sua postura revolucionária contra o separatismo (apartheid) imposto pelos brancos contra os negros na República Sul-africana, foi dado como comunista e terrorista e, por isso, aprisionado durante 27 anos no presídio de segurança máxima da ilha Robben. A condenação havia sido dada como prisão perpétua. A motivação se ligara ao movimento de Sharpeville (21-03-1960), um massacre com 29 manifestantes negros mortos por disparos da polícia. Houve 20 mil detenções e 2 mil reclusões sem julgamento. Foram proscritos o CNA (Congresso Nacional Africano) e o CPA (Congresso Pan-Africanista), duas frentes de lutas pelos direitos dos negros e contra as separações tornadas legais não só do ponto de vista étnico e social, mas também geográfico, obrigando os negros a habitar nos bantustões ou homelands, bairros isolados na periferia das cidades, nos quais só se poderia entrar e deles sair com passes autorizados. Passagens determinadas por tempo previsto requerido pelos locais de trabalho. Nasceu no clã Madiba, na região do Transkei, com o sobrenome Xhosa Rolihlahla, pertencia à linhagem aristocrática tembu. O nome europeu Nelson lhe foi atribuído pela professora primária Miss Mdingane. Formou-se advogado e passou à vida ativa com cargos importantes no CNA, onde sua frente de luta se consolidou. As frentes de luta renderam-lhe a necessidade de buscar a clandestinidade que não evitou a detenção após o conflito de Sharpeville, o julgamento por traição, e, embora absolvido, acabou sendo enviado para a ilha Robben. Encontrado em Liliesleaf Farm, após treinamento militar através da África e da Europa, foi acusado de sabotagem e planejamento de invasão armada. Julgado em Rivonia, em 1962, foi condenado à prisão perpétua. Em seguida, enviado para a ilha Robben para cumprir a pena num presídio de alta segurança. Ali passou a maior parte dos 27 anos em que permaneceu pre-

so. Finalmente, libertado pela mobilização de uma campanha mundial, saiu homenageado como figura exponencial de luta pela liberdade. A campanha denominada “Libertem Mandela” foi dada na comemoração do 70º aniversário do estádio de Wembley, em Londres. Após episódios de problemas de saúde: cirurgia de próstata (1985) e de tuberculose, em 1990 (11 de fevereiro), foi libertado. Eleito presidente do CNA (1991), foi em seguida (1993) agraciado com o prêmio Nobel da Paz, dividido com o chefe de Estado, De Klerk, branco, africâner, como são considerados os brancos nascidos na República Sul-Africana. Finalmente, Mandela em 1994 é eleito e toma posse como presidente da República e mantém-se ativo na luta pela reforma constitucional para abolir as discriminações da Lei do Apartheid. Desenvolve uma campanha intensa para a conscientização sobre o HIV/AIDS, reforçada pelo registro da estatística que dava a África do Sul como o país de maior índice de pessoas infectadas, e chega a perder um filho vítima do mal. A luta de Mandela foi sempre reconhecida no mundo todo pela paz, pela inclusão racial e social, pelos direitos humanos e pela liberdade. Em 2000, Mandela se retira da vida pública e emblematiza a admiração dos que lutam pela Anistia Internacional, os governantes dos diferentes países, como um exemplo reconhecido como um herói. Entretanto, algumas vozes se levantam para criticar as ações de Mandela, que não conseguiram afastar a corrupção, integrar totalmente o negro na sociedade sul-africana, onde resquícios do apartheid permanecem, e as lutas ensejadas não cumpridas plenamente. Afinal, toda figura histórica liderando grandes ideias tem mil faces expostas a seus admiradores e detratores. Mas Mandela, tornado mito, marcou indelevelmente o século XX. Deixou-nos uma biografia marcante dirigida pelo senso de justiça e pela luta na afirmação do direito de igualdade entre os sul-africanos. Dóli de Castro Ferreira

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Aonde foi parar o bom-senso? A internet e as redes sociais são, hoje, os principais meios de comunicação e divulgação de ideias. É por meio delas que tomamos conhecimento de fatos que acontecem em nossas cidades, estados, países... Também é nelas que são formados grupos de discussão a favor ou contra os mais diferentes assuntos – desde o personagem da novela, passando por política, educação, Igrejas, sexualidade... Enfim, tudo é assunto na internet. Nos últimos meses, o Brasil vem passando por momentos ímpares no tocante à demonstração de contrariedade, inconformismo e insatisfação com governos e políticos, especialmente. Também nesses casos a participação da internet é vital, pois é através dela que protestos e manifestações vêm sendo organizados. Quem “frequenta” as redes sociais tem todo direito de se manifestar contra ou a favor de tudo que é publicado, além de se decidir por engrossar ou não as fileiras de manifestações. Na maior e mais movimentada rede social do momento, o Facebook, têm-se a opção de curtir, comentar e/ou compartilhar todos os assuntos que apareçam em sua “linha do tempo”. E é o que acontece... Não me considero radical. Minha postura sempre foi a de respeitar a opinião de todos, tentando argumentar a favor do meu ponto-de-vista até onde julgo conveniente. Entro em determinadas discussões quando as avalio como imparciais, justas e interessadas no bem comum. Vislumbro, assim, uma forma de aprender e, se possível, passar parte do que é de meu conhecimento. Acontece que a internet é um “local” em que a democracia encontra seu ápice, afinal todos podem se expressar com liberdade, sem censuras. E é aí que mora o problema: muitos – numa crescente – confundem liberdade de expressão com falta de respeito, agressividade. Não podemos nos esquecer de que nossos direitos vão até onde começam os direitos alheios e qualquer questão além desse ponto deve ser discutida dentro dos princípios da boa convivência, da civilidade e do respeito mútuo. Infelizmente, não é isso que venho evidenciando. Hoje, usuários descontentes atacam a opinião de outros com voracidade, denegrindo-as de forma grosseira e – de acordo com meus conceitos – com total falta de respeito e do mínimo aceitável de educação. É da natureza do ser humano a sociabilidade e, para isso, a internet e as redes sociais, desde que usufruídas com responsabilidade, vieram para nos ajudar. Há que se praticar, porém, o bom-senso. Caso contrário, valerá a lei do mais forte, que há muito já se provou, no mínimo, inadequada. Laurentino Gonçalves Dias Jr.


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Brasil, 514 anos Faz 514 anos que “grandes canoas empurradas por enormes borboletas” chegaram à Terra de Santa Cruz. Segundo Werner von Braun, pelos conhecimentos científicos aplicados, a façanha de portugueses, espanhóis, genoveses e venezianos, na passagem do século XV para o XVI, pode ser comparada à epopeia espacial de russos e americanos na segunda metade do século XX. No turbilhão da história, surgiu uma nação colorida – de amarelos, brancos, indígenas, pardos e pretos, segundo o IBGE – em um território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. A nação é regida por um arcabouço legal que, muitas vezes mal compreendido e digerido torna difícil a vida do cidadão. As famílias que passaram do sítio à fábrica podem revelar o fato que determinou sua mudança de vida. O dispositivo legal dos Matadouros municipais, depois, dos Frigoríficos, bem como o da “Comercialização do Leite” fizeram com que muitas famílias deixassem o campo por não conseguirem sustentar-se na atividade rural. Todas as decisões devem ser cuidadosamente alimentadas com dados referentes a cada microrregião. Assim, tudo o que disser respeito à revisão agrária não poderá vir de Brasília. Todos os projetos devem ir dos estados para o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Em algumas microrregiões basta proporcionar assistência técnica e jurídica aos pequenos produtores para que haja paz no campo. Quando evocamos a figura do noviço José de Anchieta montando a gramática tupinambá para traduzir os Evangelhos para os índios, sentimos calafrios – o modesto colégio dos Campos de Piratininga se transformou na intricada capital do estado de São Paulo. As cidades, como os países, não conseguem absorver indefinidamente os movimentos migratórios. Temos lido notícia de Lampedusa, sul da Itália, com referência aos africanos que a tomam como porta de entrada para a Europa.

Onde alojar famílias inteiras, como alimentá-las? Onde vão trabalhar os pais de família em uma Europa que já sofre com o desemprego? Existem países exemplares, como a Jordânia, que se esforça para criar campos de refugiados para os sírios. Neste caso, assim que acabar a disputa na Síria, os refugiados voltarão ao seu país. Da mesma forma, uma cidade não consegue absorver indefinidamente populações do próprio país e de outros países. Como dizia Mário Covas: “Você cria 200.000 empregos hoje; amanhã 500.000 pessoas estarão buscando o mercado de trabalho”. Quem procura novos lugares quer ter uma vida melhor. A cidade de São Paulo tem os melhores hospitais, as melhores escolas, os melhores museus. É um centro desenvolvido de gastronomia, moda e esporte. É um ponto de atração para uma enorme população flutuante. São milhares de pessoas que chegam e saem todos os dias. Mas há os que chegam para ficar. E os que vêm para ficar trazem família. E os que vêm fugindo da pobreza e da catástrofe trazem família muitas vezes numerosa e demandam emprego, moradia, alimentação e escola para as crianças. A cidade é rica. Se atrai trabalhadores, atrai também criminosos, que se ocultam na multidão. Chega um momento em que não há mais soluções paliativas. Cremos que este momento já chegou

para São Paulo e Rio de Janeiro. É preciso examinar as providências tomadas nas grandes cidades do mundo que encontraram solução para determinados problemas. E elaborar um plano de gestão a longo prazo para orientar as intervenções de prefeitos que administrarão pelo menos duas décadas. O principal é que as cidades brasileiras de grande e médio porte aprendam com a experiência do Rio e de São Paulo e evitem o desenvolvimento desordenado. Invasões e o posterior processo de reintegração de posse são acontecimentos corriqueiros no aumento de população das cidades. Felizmente, o brasileiro descobriu o centro-oeste e avança para o norte. Gaúchos, catarinenses, paranaenses e paulistas adquiriram grandes áreas para a lavoura e a pecuária. Uma surpresa que anima o povo brasileiro é o MAPITOBA – os homens que sabem resolver problemas chegaram ao sul do Maranhão, ao sul do Piauí, ao Tocantins e ao oeste da Bahia. O Plano Diretor das cidades deve ser avaliado e aperfeiçoado para que sejam evitados os problemas que afligem os administradores e exigem verbas que inviabilizam os orçamentos. As cidades que estão crescendo ou ainda nascendo nas novas fronteiras poderão, assim, dispor de parâmetros que facilitem o seu desenvolvimento. O Brasil é agora. Ninguém quer mais ouvir as surradas ladainhas: – “O Brasil não se livra da corrupção porque o escrivão da armada já pedia um emprego para seu parente”. – “O Brasil foi o último país a abolir a escravidão negra”. O que vale é o Brasil de agora, de agorinha mesmo. Um Brasil que não tem negros. Que tem brasileiros de cor preta, parda, indígena, branca e amarela. Um Brasil que sem favor de quem quer que seja chegou ao Acre, a Rondônia, ao sul do Pará e ao MAPITOBA. Sopremos orgulhosos as 514 velinhas! Abigayl Lea da Silva

“De janeiro até o presente se fez ali uma pobre casinha feita de torrão e palhas com catorze passos de comprido e doze de largo, moravam bem apertados os irmãos. Ali tinham escola, enfermaria, dormitório, refeitório, cozinha e despensa (...). As camas era redes, os cobertores o fogo. Para mesa usavam folhas de bananas em lugar de guardanapos (...). A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio e, mais raramente ainda, alguma caça do mato (...). Todavia não invejamos as espaçosas habitações, pois Nosso Senhor Jesus Cristo dignou-se morrer na cruz por nós.” José de Achieta, em agosto de 1554, descrevendo as instalações do Colégio de Piratininga, o embrião da cidade de São Paulo


MARÇO 2014