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O ESTAFETA ÓRGÃO DA FUNDAÇÃO CHRISTIANO ROSA DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

PIQUETE, NOVEMBRO/2011 - ANO XIV - No 178 Reprodução

EDITORIAL Crescem por todo o país vários movimentos pela moralidade. As denúncias que se sucedem, os escândalos que se multiplicam e os casos ilícitos que ocorrem nos diversos níveis da administração pública exibem, de forma veemente, a profunda crise moral por que passa o país. O povo se afasta cada vez mais dos políticos, como se esses fossem símbolos de todos os males. As instituições normativas, que fundamentam o sistema democrático, caem em descrédito. Os governantes, eleitos pela expressão do voto, também engrossam a caldeira da descrença e, frágeis, acabam comprometendo seus programas de gestão. A corrupção se instalou em todos os níveis do governo e o povo quer dar um basta. Em várias cidades do país, manifestações populares vêm acontecendo para que a corrupção seja considerada crime hediondo. Pela internet surgiu e vem aumentando o movimento “Todos juntos contra a corrupção”. Pela terceira vez, neste ano, internautas de todo o país saíram às ruas para protestar contra a corrupção. Nem a chuva fria e intermitente em todo o centro-sul do país no último 15 de novembro impediram as manifestações. Eram três as principais reivindicções: primeiro, o fim do foro privilegiado, que permite que autoridades sejam julgadas diretamente em instâncias superiores da justiça; segundo, que a corrupção seja considerada crime hediondo, tendo sua pena elevada; e, por último, que seja aprovada a Lei da Ficha Limpa, cuja constitucionalidade está sendo analisada pelo Supremo Tribunal Federal. Os protestos, iniciados nas capitais e grandes cidades, já alcançaram o interior. No dia 15, em Guaratinguetá, Lorena e outras cidades valeparaibanas, cidadãos foram às ruas. Outras manifestações estão sendo discutidas e organizadas nas páginas do facebook. Esses movimentos não são partidários; visam a acabar com a atitude de apatia e inércia dos homens que têm responsabilidade pública. Apesar da corrupção e da sensação de impotência da população, é preciso manter acesa a chama da esperança. O Brasil dos grandes valores, das grandes ideias, da fé e da crença no futuro precisa, urgentemente, da ação solidária, tanto das autoridades quanto dos cidadãos comuns, para se restaurar a ética e a moral, e, juntos, acabarem com a corrupção e com os corruptos.

A primeira bandeira republicana foi bordada por Flora Simas de Carvalho, em pano de algodão. A segunda, pela mesma senhora, em seda, tendo sido hasteada, com solenidade, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no dia de sua adoção oficial.

A Bandeira Nacional

Até algumas décadas atrás, as datas cívicas eram comemoradas com atenção especial por nossas autoridades e pela população. Os hinos pátrios, os feitos e personagens de nossa história eram reverenciados. Não sabemos porque, mas, hoje, lamentavelmente, não é mais assim. No último dia 15 de novembro, quando se comemorou a Proclamação da República, essa data histórica passou em branco para a maioria da população. Para muitos, exceto pelo fato de a data ser feriado nacional – um dia para se acordar mais tarde e não ir trabalhar, quem sabe com a perspectiva de uma esticada do fim-de-semana –, a data não teve importância. É preciso resgatar o espírito de patriotismo adormecido em muitos de nós. A palavra patriotismo, derivada de pátria, significa o amor e respeito que se tem pela terra natal. O patriotismo pode ser manifestado pela valorização da cultura do país, de suas belezas naturais e pelos símbolos nacionais. Dentre esses símbolos, a bandeira é o de maior significado. Admirando o quadro “A Pátria” (foto que ilustra este texto), pintado por Pedro Paulo Bruno, exposto no Museu da República, no Rio de Janeiro, somos estimulados a pensar no 15 de Novembro de modo especial. A cena, que retrata um momento de elaboração da bandeira nacional por uma família, pode ser interpretada como uma alegoria da edificação da nação brasileira por seus filhos, sob o regime republicano, unidos no mesmo empenho, com o mesmo foco. De fato, nada parece perturbar a

concentração das figuras reunidas na cena, as quais são movidas pelo objetivo comum de confeccionar o símbolo nacional mais poderoso – a bandeira. A bandeira nacional foi adotada pelo Decreto-Lei nº 4, de 19 de novembro de 1889. Foi projetada por Raimundo Teixeira Mendes e por Miguel Lemos, e desenhada por Décio Vilares, o qual se inspirou na bandeira do Império, que havia, por sua vez, sido desenhada pelo pintor francês Jean Baptiste Debret. A esfera azul, onde hoje aparece a divisa positivista “Ordem e Progresso”, substituiu a antiga coroa imperial. Dentro da esfera, estava representado o céu do Rio de Janeiro, com a constelação do Cruzeiro do Sul, tal como apareceu às 8h30min do dia 15 de novembro de 1889, dia da proclamação da república. Em 1992, uma lei modificou as estrelas da bandeira, para permitir que todos os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal fossem representados. Como símbolo da pátria, a bandeira nacional fica permanentemente hasteada na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Mesmo quando é substituída, o novo exemplar deve ser hasteado antes que o antigo seja arriado. Tradicionalmente, a bandeira é hasteada às 8h e arriada às 18h. Quando permanecer exposta durante à noite, deve ser iluminada. A primeira bandeira republicana foi bordada por Flora Simas de Carvalho, em pano de algodão. A segunda, pela mesma senhora, em seda, tendo sido hasteada, com solenidade, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no dia de sua adoção oficial.


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Imagem - Memória

Foto Arquivo Pro-Memória

Loja e armazém do senhor Anacleto Salomão, localizada à rua Dr. Américo Brasiliense. Na foto, de 1927, aparecem: Augusta, Flauzino, Benedito Jorge da Silva, ?, Salomão José Neto, Ricardo, Álvaro Beraldo, ?, Anacleto Salomão, Humberto Montano e Antônio Lucas.

Mascates e cometas: os árabes em Piquete Desde os primórdios das civilizações a atividade comercial tem alcançado pessoas distantes e levado soluções para velhas e novas necessidades. Tem colocado em contato as mais variadas culturas e encantado diferentes povos e públicos. Por isso, a atividade de comércio e serviços tem sido, marcadamente, inovadora em todos os tempos e lugares do mundo. É uma atividade que, por sua própria natureza, se antecipa, precede e estimula, empreende e toma iniciativa, interfere e invade, modifica hábitos e modos de vida, cria novos costumes e novas relações com a vida e as pessoas, sopra os ventos da novidade, carrega e expande as descobertas e as técnicas. No Brasil, depois de ocupar a orla marítima, as trocas comerciais traçaram rotas no desenvolvimento do interior criando costumes e tradições e alargando fronteiras. No Vale do Paraíba paulista, corredor natural de passagem em direção às minas gerais, a atividade comercial e de serviços espalhou-se pelos caminhos e descaminhos do ouro implantando comunidades ao longo das estradas. Falar na história do comércio é falar de relações humanas. É contar a trajetória de uma das mais antigas atividades sociais, das afinidades entre comerciantes e clientes, dos livros de borrões e das cadernetas. Encontramos histórias de amizades, de compreensão, de iniciativas, dificuldades e vitórias que traduzem a magia dos balcões simples ou sofisticados presentes em nosso cotidiano e no imaginário.

No Caminho de Minas, ao longo do qual Piquete nasceu, além dos inúmeros ranchos e pousos, foram erguidas, no século 19, algumas vendas e promovido um incipiente comércio de beira de estrada ligado ao principal meio de transporte da época – a tropa de muares. Com o crescimento do bairro do Piquete e a expansão da cultura do café surge a figura do mascate, mercador que trazia novidades da metrópole, indo negociar seus produtos de maneira ambulante de porta em porta. Especializaram-se no comércio de armarinhos, miudezas e tecidos, procurados pela população da cidade e da zona rural. Esses árabes visitavam as fazendas sob sol e chuva, levando suas mercadorias em lombo de burros, em canastras. Sua chegada era um acontecimento. Recebidos com amabilidade pelas famílias, a cena da abertura das canastras consistia em uma festa para os olhos. Tecidos finos, sedas, linho, fitas, botões, rendas, meias finas, perfumes... O nome mascate sempre ficou associado à imigração árabe no Brasil, resultante do grande contingente de imigrantes provenientes do Líbano e da Síria que se dedicaram a essa atividade. Em menor número chegaram, também, principalmente após a Proclamação da República, imigrantes de outros pontos do antigo Império Otomano, como Turquia, Palestina, Egito e Jordânia. Como tinham sotaque, eram nomeados “turcos da prestação”, pois naquela época o Império Turco-Otomano controlava boa parte do Oriente Médio. Como os imigrantes desses países vinham com a nacionalidade turca em seus documentos, ficaram conhe-

cidos principalmente por este nome. Com a instalação da fábrica de pólvora em 1909 e o aumento do poder aquisitivo da população, muitos desses comerciantes se fixaram em Piquete. A melhoria da economia local fez crescer, a cada ano, seu comércio e suas visitas às fazendas e bairros distantes. Muitos fixaram-se aqui. Constituíram família passando a contribuir para o crescimento da cidade. É sempre bom lembrar as famílias Salomão (Anacleto, José e Jorge), Seraphim (Luiz, Thomé e Alfredo), Raphoul (Nadras e João), Abrahão (Maria da Mala), Simão (José e Maria), Gosn (Michel, Elias e Nágila), Bufarah (Ana), Hankis (Elias), Curi, Atié (Mounir), Marraoui (Georgette), Balady (Antoine e Francisca)... Essas famílias árabes predominaram nas atividades comerciais de Piquete e ajudaram no engrandecimento da cidade. ***************

O ESTAFETA Fundado em fevereiro / 1997 Diretor Geral: Antônio Carlos Monteiro Chaves Jornalista Responsável: Rosi Masiero - Mtd-20.925-86 Revisor: Francisco Máximo Ferreira Netto Redação: Rua Coronel Pederneiras, 204 Tels.: (12) 3156-1192 / 3156-1207 Correspondência: Caixa Postal n o 10 - Piquete SP Editoração: Marcos R. Rodrigues Ramos Laurentino Gonçalves Dias Jr. Tiragem: 1000 exemplares A Redação não se responsabiliza pelos artigos assinados.


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GENTE DA CIDADE Wanderley Sardinha Nascido num lugar conhecido como “Viveiro Velho”, na Vila da Estrela, em Piquete, a 15 de outubro de 1938, Wanderley Gomes Sardinha é filho de Júlio Gomes Sardinha e Benedita Ramos da Silva Sardinha. Cresceu no vale do ribeirão Sertão, onde teve uma infância tranquila e despreocupada. Foi aluno do Departamento Educacional, tendo cursado o Grupo Escolar e o Ginásio da FPV. Amante dos esportes, dividia seu tempo entre os afazeres escolares e o Flamenguinho, time dirigido por Salvador de Souza. Ocupava a posição de goleiro, que exercia com maestria. Morador em uma área quase que exclusivamente militar, cresceu sonhando com a vida na caserna. Em 1956, sentou praça no Exército brasileiro. Após os estudos preparatórios, ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras, tendo sido declarado aspirante a oficial de Infantaria em 30 de dezembro de 1961. Integrou a Força de Paz das Nações Unidas, no Oriente Médio, em 1964, servindo no Egito, no deserto do Sinai, como parte das tropas internacionais que mediavam o conflito árabe-israelense. De volta ao Brasil, permaneceu durante sete anos no 5º Regimento de Infantaria, em Lorena. Cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Comandou o 61º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Após brilhante carreira militar, durante a qual percorreu o Brasil de norte a sul e recebeu inúmeras condecorações, encerrou suas atividades em 1993, com a patente de coronel. Reformado e de volta ao Vale do Paraíba, passou a escrever crônicas memorialísticas. Sardinha autograf

a seu “Lembranças

Piquetenses”

O menino que cresceu no vale do ribeirão do Sertão, sempre atento às pessoas e fatos de sua infância, passou a registrar suas memórias... Suas primeiras incursões literárias aconteceram no período em que residiu em Santo Ângelo, onde escreveu “O Combate da Ponte do Ijuí Grande” e “O Combate do Arroio Conceição”, nos quais descreve as batalhas ocorridas naqueles locais. A paixão por Piquete levou-o a se voltar para temas de seu torrão natal. Para a surpresa de seus admiradores, parece que sua capacidade criativa não tem fim: numa linguagem coloquial, vem conseguindo transferir para o papel histórias que vivenciou e que ouviu contar. Parece inesgotável seu baú de memórias, as quais permaneceram adormecidas por muitos anos! Assim, publicou “Narrativas Piquetenses”, “Memórias Piquetenses”, “Evocações Piquetenses”, “Diário de um Soldado Constitucionalista”, “Estórias Centenárias” e, recentemente, “Lembranças Piquetenses”. É membro fundador da Academia de Lorena de Letras, ocupando a Cadeira no 25, cujo patrono é o também piquetense Paulo Pereira dos Reis. Wanderley Sardinha é casado com Maria Olga Giffoni Sardinha, tem duas filhas, Ana Lúcia e Rosângela, e quatro netos.

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Palestra no Espaço Cultural “Célia Ap. Rosa” A Fundação Christiano Rosa promoveu, no dia 19 de novembro, uma palestra sobre “O Terceiro Setor”. Durante a apresentação, o professor Mário, assessor da deputada Ana Perugini, monstrou quais os procedimentos para se escolher corretamente o tipo de associação para cada finalidade, os meios para se iniciar e agilizar o processo de criação, além de possíveis fontes de recursos. Mário também se colocou à disposição da comunidade para orientar em futuras criações de entidades. Direcionada aos membros de entidades da sociedade civil, a palestra atraiu diversas pessoas de Piquete e da região ao Espaço Cultural “Célia Ap. Rosa”, onde foi realizada. Teca Gouvêa, que propôs e organizou a vinda do palestrante a Piquete, abriu os trabalhos, exemplificando a importância das informações com os trabalhos da Fundação Christiano Rosa, criada há 14 anos. Foram convidadas todas as entidades e instituições de Piquete possivelmente interessadas, além de pessoas físicas que pretendem se organizar formalmente. Compareceram ao evento 14 entidades, das cidades de Piquete, Lorena, Taubaté, Cruzeiro e Ubatuba.

Bebida alcoólica para menores

Já está em vigor a lei estadual que aperta o cerco para evitar a venda de bebidas alcoólicas para para menores de 18 anos, bem como o seu consumo pelos mesmos. Bares, restaurantes, lojas de conveniência e “baladas”, entre outros locais, terão a fiscalização redobrada para não vender, oferecer, nem permitir a presença de menores de idade consumindo bebidas alcoólicas. A venda já era proibida, mas agora os comerciantes podem ser responsabilizados e multados. Atualmente, estão em andamento várias campanhas educativas para orientar comerciantes e consumidores. Quem vender, entregar ou permitir o consumo de bebidas alcoólicas a menores poderá receber multas de até R$ 87,2 mil, além da interdição do estabelecimento por trinta dias e perda da inscrição no cadastro de contribuintes do ICMS. A partir de 19 de novembro, a Vigilância Sanitária estadual e o PROCON passaram a fiscalizar e exigir o cumprimento da Lei em todo o estado, com apoio da Polícia Militar. Pesquisa do Instituto IBOPE aponta que 18% dos adolescentes entre 12 e 17 anos bebem regularmente e 4 entre 10 menores compram, livremente, bebidas alcoólicas no comércio. O consumo começa, em média, aos 13 anos. O alcoolismo é a segunda causa de morte evitável em todo o mundo, atrás apenas do tabagismo.


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Sabe de onde veio o canto do pic-pic? Ou será pique-pique? Aos cronistas interessa comentar a origem das coisas e explicá-las no recorte temporal no qual estão incluídas. Saber o porquê dos atos, das escolhas e das motivações são apanágio dos curiosos, dos pesquisadores e dos que se comprazem em buscar informações e divulgá-las. Privilégio dos humanos é a memória do imediato e do prolongado, por saber pensar, isto é, ter racionalidade, saber arquivar para ter o passado como razão do presente e projeção ao futuro. É selecionar e construir lugares de memória onde se diferenciam dos demais animais, e, com criatividade, revolucionar o conhecimento. Por nascer com a consciência de morte, o que o diferencia de outras criaturas, o ser humano lida com arquétipos para fixar traços culturais, divulgá-los, enriquecê-los e os colocar em prática para comemorações como marcas cronológicas e heranças patrimoniais. Assim, os batizados, as cerimônias de mudança como ritos de passagem de estágio de tempo: infância, adolescência, fase adulta e velhice, aniversários, diplomação, casamentos e... mortes. Além do uso da linguagem hoje física, a natural, pela qual articulamos palavras e usamos diferentes idiomas, e a virtual, das mídias digitais e de

computadores. Além disso, o uso das fotografias para congelar na temporalidade a imagem de um presente em estado de mudança. Para documentar entre ricos e pobres o valor da imagem como código de representação, em que os ricos dão o tom com a ajuda do estúdio do fotógrafo, com roupas, objetos e móveis, mostrando simbolicamente suas posses. Veja-se a foto do casal que O Estafeta publicou na edição anterior em matéria sobre a fotografia tirada de um álbum familiar e as que, em outros momentos e outras fontes, pessoas de classe hierárquicas inferiores vestem-se e propõem-se aos cenários para também parecerem bonitos, saudáveis, felizes e ricos. Nas cenografias fotográficas, os bebês valorizados como símbolos de inocência, nem sempre sorridentes e, às vezes, assustados. Chegamos, enfim, ao pic-pic ou piquepique para cantar e saudar após o “Parabéns a você”, pois, para muitos é necessária na cronologia a retenção da história do momento como brado ritmado. E aí, após o célebre e traduzido “Happy Birthday”, o grito da evocação “Para o Fulano, ou Fulana, nada! Tudo! Então como é que é? É pic, é pic, é pic, é pic, é pic! É hora, é hora, é hora,

é hora, é hora! Rá tim bum! Fulano(a), Fulano(a), Fulano(a)!” Contam estudantes de direito da USP que em seu prédio, no Largo de São Francisco, São Paulo, o das Arcadas, seus colegas do início do século passado saudavam com pilhérias um dos lideres das estudantadas (Ubirajara Martins de Souza, bacharelado em 1927). Vaidoso, consta que este aparava caprichosamente os bigodes com uma tesourinha que fazia “pic, pic”. Daí o apelido pelo qual era saudado: É o pic. É o pic! A cervejada comemorativa do aniversário do citado líder, de grande consumo, exigia a espera da refrigeração, quando esgotadas as disponíveis – o que poderia durar meia hora. Enquanto o relógio avançava e o desejo do consumo também, alvoroçavamse os jovens e o grito explodia: Meia hora! Meia hora! É hora! É hora! É hora! É pic. É pic. É pic! Rá-tim-bum. Convidados para festas de aniversários de moças casadouras de bom lastro e dote à vista, levavam seu retumbante apelo na saudação às aniversariantes. Difundiu-se e expandiu-se o costume. Hoje não há quem não o conheça. Variantes costumam ser incorporadas. Dóli de Castro Ferreira

Ponto de Cultura “Jongo de Piquete, um novo olhar” inicia Oficina de Fotografia dúvidas e orientou sobre formas de se obter o melhor desempenho de cada equipamento. Para os membros do Jongo de Piquete a atenção foi especial, já que a Oficina visa a garantir capacitação mínima para a utilização dos equipamentos e ferramentas adquiridos por meio do Ponto de Cultura. Uma das metas é possibilitar o registro das atividades do Grupo, contribuindo, assim, para a manutenção desse patrimônio cultural de Piquete e da região. O segundo encontro constará de trabalho de campo no município de Piquete. O terceiro e último dia servirá para avaliação das imagens produzidas durante o trabalho de campo e também para o ensino de técnicas de fotografia em estúdio. Tendo o grupo se mostrado bem motivado, está prevista a realização de uma exposição com as melhores

fotos de cada participante da oficina. A Fundação Christiano Rosa enxerga nessa oficina uma possibilidade de iniciar a capacitação de futuros profissionais, garantindo, assim, uma opção de geração de renda para os participantes da Oficina de Fotografia – o mercado é promissor! Paulo César Neves O fotógrafo e artista plástico Paulo César Neves, que já realizou trabalhos fotográficos em Piquete, é detentor de diversos prêmios de fotografia no Brasil e no exterior. É formado em Fotografia pelo SENAC, de São Paulo, e em Artes Plásticas pela FATEA, de Lorena, pós-graduado pelo SENAC e pela Photograph Society of America, além de membro da Federação de Arte Portuguesa (Portugal) e da Academia Nacional de Belas Artes.

Fotos Laurentino Gonçalves Dias Jr.

A Fundação Christiano Rosa promoveu, no dia 7 de novembro, o primeiro encontro de uma oficina de fotografia, com o renomado fotógrafo e artista plástico Paulo César Neves, de Guaratinguetá. A oficina é uma das atividades previstas no Ponto de Cultura “Jongo de Piquete, Um Novo Olhar”. Direcionada especialmente à comunidade piquetense do Jongo, a Oficina, nesta primeira etapa, contou com vinte participantes. Estão previstos três encontros. O primeiro, acontecido no dia 7, constou da base teórica sobre a arte de fotografar, estilos de fotografia e equipamentos disponíveis no mercado. Cada participante pôde conhecer melhor sua máquina e recebeu atenção especial do instrutor, que esclareceu


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Página 5 Fotos Laurentino Gonçalves Dias Jr.

Rogério Thomé, da FUNCATE

Público presente

Dr. José Luiz, do IPT

Plano da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul Dando continuidade ao projeto de elaboração do Plano da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul, coordenado pela Fundação Christiano Rosa, foi realizada, em 18 de novembro, em Taubaté, num salão de eventos do Clube de Campo Abaeté, a última reunião pública de apresentação do Plano da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, trecho paulista (UGRHI 2) 2011-2014. Abrindo a reunião, depois de breve histórico do processo da elaboração do Plano de Bacias e contextualização do tema, a Arquiteta Ana Maria de Gouvêa, da Fundação Christiano Rosa, passou a coordenação dos trabalhos ao presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CBH-PS), Luiz Roberto Barreti, que compunha a mesa diretora juntamente com o presidente da FCR, Paulo Noia de Miranda, e o Secretário Executivo

do CBH-PS, Nazareno Mostarda Filho. Após os cumprimentos e considerações iniciais dos senhores Barreti e Nazareno Mostarda, passou-se à apresentação, pelo hidrogeólogo, Dr. José Luiz Albuquerque Filho, da Síntese do Plano, atualizada com as observações da reunião pública anterior, realizada em São Luiz do Paraitinga, em 17 de outubro. Em seguida, Rogério Thomé, da FUNCATE (Fundação da Ciência, Aplicações e Tecnologia Espaciais), apresentou o Sistema de Informações Gerencias. Na sequência, foi disponibilizada a palavra aos presentes. Ana Maria de Gouvêa fez uma síntese do processo de elaboração do Plano. Ressaltou que foi um processo rico de construção participativa e um trabalho do qual a Fundação Christiano Rosa fica

A Fundação Christiano Rosa (FCR) vem, nos últimos anos, trabalhando e desenvolvendo projetos voltados para a recuperação de matas ciliares e nascentes. Esses trabalhos são importantes, pois é sabido que preservação das nascentes ajuda a garantir a qualidade e quantidade da água de rios, córregos e outros cursos d’água, em especial os que contribuem para o abastecimento de água das cidades. Já foram efetivadas, por exemplo, ações que possibilitaram a revegetação, com espécies nativas, de trechos da bacia do Ribeirão Benfica e de uma área próxima à represa que abastece o município de Piquete. A Fundação desenvolveu e vem acompanhando, ainda, o plantio de uma extensa área

na bacia hidrográfica do Ribeirão da Limeira. Nessa bacia, recuperou uma extensa área de recarga e diversas nascentes, que tiveram seu entorno cercado e plantado. Esse trabalho precisa ser multiplicado por todo o município. O Estado de São Paulo desenvolve o programa “Adote uma Nascente”. Criado pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado, tem como objetivo incentivar a proteção de nossos recursos hídricos por meio da identificação, cadastro e compromisso de proteção das nascentes. Aqueles que tiverem nascentes em sua propriedade, mas não tiverem recursos para preservá-las, poderão disponibilizar a área a ser adotada por outra pessoa ou entidade.

Qualquer pessoa física ou jurídica poderá adotar uma nascente e garantir a proteção, manutenção e/ou recuperação da vegetação em seu entorno. Um agricultor familiar, um fazendeiro, um empresário, uma escola ou universidade, uma ONG, ou a própria Prefeitura podem fazer a adoção. A Secretaria de Meio Ambiente tem o papel de aproximar dos interessados em financiar a recuperação de uma área os proprietários que não possuem recursos próprios para recuperar suas nascentes. A adoção de uma nascente é um compromisso com a qualidade da água e a preservação de córregos e rios. É um compromisso com o futuro!

Área em 2011

Área antes do plantio

Área em 2011

honrada por ter sido a responsável pela coordenação. Ana Maria agradeceu a todos que colaboraram nas diferentes fases do processo e apontou alguns ganhos no processo de planejamento da gestão dos recursos hídricos. Enfatizou, também, que o fato de a Fundação estar, no mesmo período, participando do processo de Revisão e Pactuação das ações do Plano Estadual de Recursos Hídricos, como entidade prestadora dos serviços, contratada pela Secretaria de Estado, enriqueceu ainda mais o processo. No dia 25/11/2011 a Câmara Técnica de Planejamento do CBH-PS deverá apreciar a versão final do Plano para encaminhamento e aprovação da Plenária do Comitê de Bacias, em reunião convocada para o dia 08/12/2011. ***************

Adote uma nascente

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Os fujões

Crônicas Pitorescas

Reformas... O assunto, pela sua profundidade, necessitaria de uma pesquisa muito séria. Entretanto, devido à escassez de literatura e de documentação específica a respeito, vamos mandar nossa versão, fruto de alta reflexão sobre a gênese do evento, para fundamentar o que nos propomos. Um construtor de barcos, havia muitos e muitos anos, estava trabalhando uma canoa quando apareceu um seu desafeto e começou a quebrar o que fazia. Enraivecido, o operário apanhou um lenho e saiu correndo atrás de seu antagonista brandindoo no ar aos berros de “vou te mostrar com quantos paus se faz uma canoa!”. Alguns turistas, talvez tivesse até um argentino no meio, presenciaram a cena e, assim, sem mais nem menos, sem pagar qualquer direito autoral ao homem do pau, a partir daí, todas as vezes que queriam botar pra quebrar com alguém, mandavam lá: “vou mostra a ele(a) com quantos paus se faz uma canoa!”. Gerações se foram, ancestrais esquecidos, todos usaram e abusaram do palavreado do homem e é bem provável que o ministro Mantega venha se utilizando do desabafo para brigar com a inflação... Também, se não foi assim, não tem nenhuma importância... Não vai mudar a rota do Halley por causa disso... Serve apenas para mostrar nossa posição. Esta baseia-se no que consideramos um desrespeito ao cidadão primeiro, fabricante de canoas, que se utilizou daquilo que era de seu labor para mostrar sua verdade, razão pela qual se torna falta de personalidade, por exemplo, um aviador dizer isso para um acerto de contas... Cada um deve ficar na sua! Diante do exposto, propusemos umas reformas... Exemplificaremos com algumas profissões que servirão como modelo para outras não citadas, quando o nego pode pôr pra quebrar citando aquilo que lhe diz respeito. Por razões econômicas, daremos a profissão e o final da frase conveniente, senão para todos, pelo menos para alguns... Nada de generalizações que não sou besta

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Edival da Silva Castro

Palmyro Masiero

nem nada para confirmar coisa alguma... Pedreiro: com quantos tijolos se enrola na construção de uma casa! Marceneiro: com quantos sarrafos de 3ª se constrói um estrado! Padeiro: com quanto bromato se estufa um pão! Feirante: com quantos gramas se faz um quilo de oitocentos! Açougueiro: com quanto corante se deixa uma carne fresca! Empregada doméstica: com quantos pratos quebrados se domestica uma patroa! Bombeiro: com quanta água se apaga um fogo! Caixa de banco: com quanta grana na mão se permanece duro! Banqueiro: com quanto de capital se participa do governo! Dono de supermercados: com quantas remarcações se entra pelo cano! Médico: com quantas receitas se faz um nome! Engenheiro civil: com quantos cálculos se derruba um prédio! Organizadores de concursos públicos: com quanta inutilidade se reprova um candidato! Jornalista: com quantas mudanças de opinião se permanece no emprego! Policial (vivo): com quanto chumbo no corpo se aposenta! Críticos: com quanta imbecilidade se torna um intelectual! Artista de teatro: com quantos palavrões se adquire talento! Prefeito: com quantas lâmpadas se acende um voto! Legisladores: com quantos “permaneçam como estão” se aprova uma lei! Senador: com quantos nadas se entra nos anais! Presidente: com quantos reais se nocauteia a inflação! Leitor: com quanto de indulgência se ganha lendo uma baboseira dessa!

Certa manhã, Tantã e Doidinho burlaram a vigilância de um manicômio e fugiram. Andavam por uma estrada quando, de repente, Tantã se dirigiu ao companheiro: – Doidinho, veja só o que encontrei! Agachou-se e pegou, jogado no acostamento, um volante de carro. Continuou: – Doidinho, agora estamos motorizados! Suba aí! Doidinho, como a um reboque, agarrouse à cintura do amigo. Saíram imitando um carro em movimento. Bem lá na frente, Tantã volta a chamar a atenção do companheiro: – Doidinho, a gasolina do carro está no osso... Temos que parar para abastecer. – Tudo bem, Tantã. Você tem dinheiro? – Doidinho, hoje em dia não precisamos de dinheiro. Tenho cartão de crédito... Agarrados, andaram alguns quilômetros até adentrarem um posto de gasolina. Tantã, que trazia o volante, dirigiu-se ao frentista: – Moço, pode encher o tanque; coloca álcool, pois este carro é flex. O frentista sorriu, olhou para o dono do posto, fez gesto de que ambos estavam loucos e falou em voz alta: – Patrão, deve estar faltando algum parafuso nesses caras. Tantã, ouvindo aquilo, cutucou o amigo e disse: – Não falei para você, Doidinho...? Estamos sendo reconhecidos como carro. Ao saírem do posto, Tantã, com as mãos esticadas, movimentava o volante em semicírculo pra cá e pra lá. Antes de alcançarem a estrada, para desespero do frentista, imitaram a troca da primeira para segunda marcha...

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19 de Novembro, Dia da Bandeira Salve, lindo pendão da esperança, Salve, símbolo augusto da paz! Tua nobre presença à lembrança A grandeza da Pátria nos traz. Recebe o afeto que se encerra Em nosso peito juvenil, Querido símbolo da terra, Da amada terra do Brasil! (...)” Trecho do Hino à Bandeira, com letra de Letra de Olavo Bilac e música de Francisco Braga

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Poder ajudar alguém não tem preço! O prazer de ajudar alguém não tem preço. O bordão “...não tem preço”, aplicado a tudo que nos dá muita satisfação, foi criado por uma importante marca de cartão de crédito. É uma grande sacada de marketing para uma coisa simples, digna dos grandes profissionais... O Globo Repórter de 11 de 11 de 2011 (data marcante...) trouxe uma reportagem sobre doação de órgãos. Foram cenas emocionantes, em que crianças e adultos podiam ser vistos nas diversas filas de espera por órgãos que lhes salvassem a vida. Foram mostradas ainda as diferentes condições em que se encontram alguns dos estados brasileiros no que se refere à política e efetivação dos programas de transplantes. São Paulo é, de longe, o mais desenvolvido. Surpreendem a condição de estados como Ceará, com bons resultados e avanços significativos, e o atraso do Rio de Janeiro no caso de transplante de córneas: lá, a espera é de quase seis anos; vindo para São Paulo, mais especificamente para Sorocaba, o tempo da fila desaba para aproximadamente cinco meses. Não dá para entender... Fiquei sabendo que o Brasil é o país com o maior programa de transplantes do mundo e detém tecnologia de ponta neste setor... Taí um dado que nos orgulha como brasileiros... Certamente existem dedicados executivos e médicos que conseguem se sobrepor à burocracia e à corrupção, obtendo resultados que salvam a vida de milhares de brasileiros. Mas nossos pacientes ainda aguardam em longas filas por órgãos como coração, fígado e rins... Isso tudo por falta de solidariedade! Imagino a situação de quem espera por qualquer órgão... Como fica a cabeça de uma pessoa que espera a morte de outra para se salvar? Não deve ser fácil... Mas se não há como evitar a morte de um ente querido, existe a possibilidade de proporcionar a possibilidade de prolongar a vida de alguém. É assim que devemos pensar... Solidariedade e altruísmo é de que necessitamos! Existem diversas maneiras de se registrar a vontade de doação de nossos órgãos... Façamos isso! Informemo-nos! Afinal, dependemos de quem fica para fazer valer nossa vontade. São muitas as crenças sobre o que acontece após a morte. Acreditemos no que for, sabemos que a sensação dos que ficam é de saudades... Sendo assim, por que não acreditar que, se endossarmos a vontade de quem se foi, estaremos fazendo com que ele se sinta melhor onde quer que esteja? Doar vida, doar o pulsar do coração, doar a beleza da luz e das cores, o alívio de um andar sem cansaço... Isso sim, não tem preço! Laurentino Gonçalves Dias Jr.

O ESTAFETA

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Um banco endiabrado Outro dia fui almoçar na casa de um paroquiano e ao sentar-me à mesa percebi que o assento era um banco de igreja. Para matar a curiosidade perguntei: Seu Tião, de onde veio esse banco? O homem, um policial aposentado conhecido por “Cabo Veio,” disse-me que, certa vez, o Pastor de uma igreja evangélica, que alugara um pontinho próximo à sua residência, deixou de pagar o aluguel. O proprietário, enfurecido, confiscou os bancos da igreja e passou a vendê-los por quarenta reais, a fim de não sair no prejuízo. Foi assim que o “Cabo Veio” tornou-se o dono daquele banco no qual eu estava sentado. O velho policial contou-me que, tendo sido pagos os quarenta reais, antes de receber o banco, pediu àquele que lhe vendera que jogasse um pouco de água benta dada pelo vigário, para evitar que algum diabo, que tivesse sido tirado nos exorcismos realizados pelo Pastor e que estivesse encalacrado naquele banco, fosse parar em sua casa. O fato é que ou a água estava mal benta ou o homem que lhe vendeu o banco não jogou a água antes de lhe entregar a encomenda. Seu Tião disse que, mal o banco entrou em sua casa, o bicho pegou no seu filho, um rapaz de mais ou menos quarenta anos. Disse que o rapaz pulava como um corisco pelos cômodos da casa e só parou quando sua devota mãe lhe fez uma reza forte. O tinhoso, porém, só tinha dado uma trégua. Contou o velho Cabo que quando se deitou para dormir, o quarto começou a girar sem parar; o bicho danado que saíra de seu filho não havia voltado para o inferno coisa alguma; estava escondido esperando a hora certa de lhe dar o bote. Possuído pelo coisa-ruim o “Cabo Veio” ainda teve força para lembrar-se de uma reza que aprendera de um benzedor nos tempos de criança: “Sai, espírito imundo, e vai para as areias das praias salgadas”. Depois da reza o capeta sumiu.

Passados alguns dias, o velho disse que surgiram barulhos por toda a casa. A descarga disparava no banheiro, as panelas batiam, luzes acendiam e apagavam sozinhas, as torneiras jorravam água noite adentro. Todos estavam amedrontados. Até que o corajoso policial tomou uma decisão: subiu numa cadeira, puxou a mala de couro que estava sobre o armário, pegou seu velho Smith inglês, carregou o tambor com seis cartuchos, dirigiu-se até a cozinha, de onde vinham os ruídos infernais naquele momento, e descarregou, sem dó, o tambor de sua arma aposentada gritando: “Escafede pro inferno, lazarento!!!” Depois daquela noite, nunca mais o demo deu as caras por lá. Com o avanço do neo-pentecostalismo entre os evangélicos e entre os católicos carismáticos, têm se tornado cada vez mais comuns as supostas possessões diabólicas, que, na maioria das vezes, não passam de comportamentos histéricos e surtos psicóticos. Essas pessoas que, segundo a crendice pentecostal de alguns católicos e evangélicos, estão na posse de satanás, ao invés de serem tratadas por profissionais competentes, ficam sujeitas aos cuidados de fanáticos e ignorantes que, embora, muitas vezes, tenham boa vontade, mais acentuam as patologias psíquicas do que promovem alguma libertação. Lamento muito o fato de que esse tipo de prática religiosa primitiva e muitas vezes irracional esteja se estabelecendo e se tornando muito comum entre nós. Isso é um forte sintoma de que o cristianismo atual tem padecido de um perigoso fundamentalismo e de certa inconcistência doutrinária que pode se tornar crônica. Rezo a Deus para que o exorcismo feito pelo “Cabo Veio” não se torne moda entre os pentecostais católicos e evangélicos. Já avisei por aqui: na minha igreja ninguém entra armado! Pe. Fabrício Beckmann

“Lembranças Piquetenses” Wanderley Gomes Sardinha lançou, no dia 15 de novembro, seu nono livro: “Lembranças Piquetenses”. É o sétimo livro lançado no Espaço Cultural “Célia Ap. Rosa”, da Fundação Christiano Rosa (FCR). Baseado em lembranças próprias e nas conversas que teve com amigos e parentes, Wanderley aprimorou-se na linha memorialística, relatando casos e causos que

remontam à sua infância nas ruas de Piquete. Como sempre, o Espaço Cultural da FCR recebeu muitos convidados do piquetense, militar e amante das letras. Compareceram a família e amigos de Piquete, além de “piquetenses ausentes”, aqueles que moram fora há anos, mas não perdem a chance de uma visita à terra natal. ***************

Fotos Laurentino Gonçalves Dias Jr.

Piquete, novembro de 2011


O ESTAFETA

Piquete, novembro de 2011

Fotos Alzira Beckmann

Fotos arquivo Pro-Memória

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O jongo de Piquete: Patrimônio Imaterial do Brasil Ao longo do século XX, as comunidades jongueiras estiveram envolvidas em complexos e dinâmicos processos sócioculturais que condicionaram diferenças e especificidades. Em muitas das comunidades com descendentes de escravos no sudeste brasileiro o Jongo desapareceu, tanto pela dispersão de seus praticantes, em consequência da migração e de processos de urbanização, quanto pelo obscurantismo dessas práticas por outras expressões de maior apelo junto ao crescente mercado de bens simbólicos. Também a vergonha motivada pelo preconceito, expresso pelos segmentos da sociedade abrangente, relativo as práticas culturais

afro-brasileiras foi motivo do desaparecimento do Jongo. Em Piquete, desde sempre a comunidade negra dança o Jongo. Em algumas datas específicas, os jongueiros tradicionalmente se juntavam em roda para cantar e dançar. Mas, como ocorreu em outros lugares, aos poucos essa manifestação cultural foi fenecendo, de maneira que, com a morte de Terezinha Generoso – grande estimuladora do jongo em Piquete –, e de outros jongueiros, deixamos de ouvir os sons do tambu, das palmas e dos cantos. Mas, graças à perseverança, incentivo e força de Gilberto Augusto, o Professor Gil, estimulado por pesquisadores e estudiosos de

universidades de São Paulo e Rio de Janeiro, o jongo renasceu. E nos últimos dez anos ganhou grande visibilidade. Chama a atenção no grupo Jongo de Piquete o grande número de jovens, a maioria filhos ou netos de jongueiros. Eles mantêm grande integração, em que se fazem presentes a construção da identidade e a reafirmação de valores comuns. Muito alegre, o Jongo de Piquete vem se apresentando em vários locais, tornando-se conhecido em várias partes do Brasil. Registrado no IPHAN como patrimônio cultural imaterial do país, vem recebendo da Fundação Christiano Rosa, desde 1997, apoio e reconhecimento. ***************

Interpretação capenga Diz a literatura exemplar que tudo o que o rei Midas tocava virava ouro. Pois existem pessoas que transformam em mercadoria tudo o que tocam. Houve um homem chamado Iscariotes que estabeleceu um preço para um ser humano. Afirmou que valia trinta dinheiros. E o vendeu pela quantia estabelecida. Alguém julga possível que o Cristo, o Ungido, virasse mercadoria pela vontade de um ser humano desqualificado, desequilibrado pela ambição? A história nos dá notícia de vencidos em guerras que se tornaram escravos e submetidos a trabalhos forçados. Na construção da ferrovia da Birmânia (Mianmar), obra dos japoneses, morreram 105.000 operários. No canal do Báltico, construído pelos soviéticos, sucumbiram 100.000 prisioneiros de guerra. Estes seres humanos viravam mercadoria? De maneira alguma. Ninguém tem o poder de transformar alguém em mercadoria. O ser humano só vira mercadoria quando ele próprio estabelece um valor para si. Quando ele próprio se vende. Nossos livros escolares trazem figuras de homens e mulheres praceados. Seres humanos exibidos em praça pública, observados, medidos, avaliados e comprados.

Podemos dizer que os filhos da África Subsaariana viraram mercadoria? De maneira alguma! A escravidão negra nas Américas não transformou o africano em mercadoria. O africano não estabeleceu um preço para si. Não se vendeu. O homem vira mercadoria por livre e espontânea vontade. Quando estabelece um preço para o próprio corpo, para o próprio voto, para a própria vontade, para as próprias idéias, aí sim, o homem é mercadoria. Em tempo recente, os brasileiros estamos matriculados, à revelia, em um curso de falcatruas a distância. Estamos aprendendo como é distribuído aquele montante assustador que o impostômetro registra sem interrupção, com uma avidez que desorienta a cabeça do cidadão comum. O processo de compra e venda não é o nosso simples toma lá dá cá. “– Meu voto é seu, se você garantir o emprego para o meu filho. – Se você contratar minha empresa, vão para a sua conta bancária quinze por cento do valor da obra (e os quinze por cento já foram incluídos no preço pago pelos cidadãos). – Se o seu partido apoia a nossa emenda,

nós apoiaremos a emenda do seu partido. – Se o seu partido faz coligação conosco, nós repartiremos fraternalmente os cargos.” Quanta mercadoria existe por trás dos cargos em comissão! Estamos comemorando o dia da Consciência Negra. Se algum brasileiro de cor preta ainda pensa que seus antepassados foram mercadoria, faça um exercício de passar a limpo esta página da história. O negro africano não foi mercadoria, assim como Cristo também não foi. O negro africano não se vendeu, assim como Cristo também não se vendeu. Aproveito a oportunidade para fazer lembrar que: 1- A Constituição Brasileira já comemorou vinte e três anos. 2- O Art. 68 do Ato das Disposições Transitórias determina – “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estiverem ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Até quando os quilombolas vão esperar? Abigayl Lea da Silva ***************

NOVEMBRO 2011  

ANO XIV - No. 178

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