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O ESTAFETA ÓRGÃO DA FUNDAÇÃO CHRISTIANO ROSA DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

PIQUETE, DEZEMBRO/2011 - ANO XIV - No 179 Reprodução

EDITORIAL Parece que o Natal chegou mais cedo este ano. Desde outubro, pela televisão ouvimos os chamados do Papai Noel oferecendo-nos facilidades para as compras de fim de ano. Esse personagem emblemático que chegou até nossos dias como sinônimo de Natal e associado ao consumo não foi sempre assim. Até o século 19, sua figura carismática de bom velhinho era descrita como a de São Nicolau, com fama de partilhar e presentear anonimamente pessoas pobres. Até então, Papai Noel estava associado à celebração propriamente religiosa. Mas o desenvolvimento do capitalismo fez com que ele fosse perdendo seus traços religiosos, passando a ter outro significado. Paralelamente aos chamados natalinos, assistimos pela TV a uma enxurrada de notícias antagônicas ao espírito do Natal: corrupção de toda espécie, má versação e desvios de verbas públicas por nossos administradores. Em todo o país, nunca se roubou o erário com tanta desfaçatez como nos últimos tempos. Políticos inescrupulosos lutam, de maneira criminosa, pelo poder, a qualquer preço. Desviam-se recursos que deveriam ser empregados na saúde, na educação e em saneamento básico. Quando próximo das eleições, para se manter no poder se vendem, fazendo os mais esdrúxulos acordos. Sem nenhuma visão de administração pública, lançamse, de maneira irresponsável, na aventura de se elegerem vereador, prefeito, deputado... Mas nem sempre foi assim. No passado, tivemos homens públicos capacitados, íntegros, que, no dia-a-dia, estavam preocupados com o bem-estar da população, exerciam uma política norteada pelo espírito cristão do Natal. Estamos em dezembro. Chegamos a mais um final de ano. Esperemos pelo Natal... Mas aquele que existe no coração de todas as pessoas, aquele em que os valores cristãos de renascimento e de boas novas prevaleçam. Feliz Natal para todos!

“Nada é mais avesso às tradições do Natal cristão do que a miséria e as desigualdades sociais. A simplicidade pacífica da manjedoura contrasta com a violência e o desrespeito dos dias de hoje.”

Em Belém, numa estrebaria, a Palavra se encarnou A cena é por todos conhecida: um casal angustiado busca hospedagem em pleno trabalho de parto da esposa. Pobres, encontram apenas um estábulo. Lá, José e Maria acompanham o nascimento de Jesus. Pastores acorrem à cena e, por fim, três homens sábios do Oriente trazem ouro, incenso e mirra. A importância do Natal e seu significado parecem muito óbvios para os cristãos de hoje. Talvez seja a festa religiosa mais notada de toda a tradição ocidental, atingindo o mês de dezembro inteiro. A partir dele, mesmo os menos crentes não aceitam compromissos alegando a “proximidade do Natal”. Uma semana depois se comemora a chegada do Ano Novo, feriado celebrado em referência a outro fato decorrente do Natal: a circuncisão de Jesus oito dias após o seu nascimento, como manda a fé judaica. Nem sempre foi assim. O Evangelho cronologicamente mais antigo, de Marcos, nem cita a Natividade como um acontecimento. O texto se concentra na pregação de um Messias adulto e poderoso. Para Marcos, o mistério da paixão e ressurreição era imensamente maior. Mas isso mudou rapidamente. O evangelista Lucas redigiu

detalhes fundamentais sobre o primeiro Natal. A data só cresceu desde então. Depois de atravessar os séculos incorporando novidades como o presépio franciscano ou a árvore decorada do norte da Europa, a festa do Deus Menino continuou sua trajetória de transformações, adaptando-se aos valores da sociedade, definindo-se como a conhecemos hoje. É sempre bom lembrar que o verdadeiro espírito de Natal é o da generosidade. Natal é festa de família, de reconciliação, em que não há espaço para o egoísmo e o desamor. Nada é mais avesso às tradições do Natal cristão do que a miséria e as desigualdades sociais. A simplicidade pacífica da manjedoura contrasta com a violência e o desrespeito dos dias de hoje. Muitos culpam o declínio do Natal ao avanço desenfreado do lucro e do próprio capitalismo. Na verdade, o Natal estará sempre presente no coração das pessoas. Sua vitória é inquestionável. Em dezembro, o espírito dos natais passados ecoa dentro de muitos. O espírito do Natal presente mostra que outro Natal é possível, que nossos valores talvez não estejam adequados ao conteúdo dessa festa.


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Imagem - Memória

Foto Arquivo Pro-Memória

Na foto de Dogmar Brasilino: Prefeito Luiz Vieira Soares, Pe. Pedro Verdumen, Oswaldo Coelho Nunes, Eunice Nunes, José Arantes (Cotinha), Dorvalina Meirelles. À direita, à frente, o maestro Carlos Vieira Soares, quando da primeira apresentação da Lira da Juventude Piquetense, no dia 29/09/1970.

Lira da Juventude Piquetense Uma iniciativa sociocultural bemsucedida em Piquete, voltada para os jovens da cidade, foi promovida pela Comunidade de Base da Paróquia de São Miguel, na década de 1970. Foi um movimento novo da Igreja Católica que empolgou e envolveu os piquetenses. Visava a criar nos cristãos maior conscientização sobre sua importância e seu papel na solução de problemas comuns na sociedade. Entre as múltiplas finalidades desse movimento havia duas importantes, em função do alcance social nelas encerrada, embora não fossem as principais. A primeira era a de proporcionar maior relacionamento humano e espiritual entre as famílias por meio de visitas domiciliares, contatos pessoais, recreações sadias, brincadeiras, palestras, demonstrações artísticas, campanhas humanitárias e tudo mais que visasse a uma melhor compreensão entre as pessoas. A segunda, promover a integração dos jovens no meio social, oferecendo-lhes oportunidades de desenvolver suas aptidões culturais, artísticas e morais, a fim de que pudessem tornarse responsáveis pelos próprios atos, capazes e úteis para a sociedade. Dentro dessas diretrizes, alguns membros da comunidade de Piquete tiveram a feliz ideia de oferecer aos nossos jovens, gratuitamente, a possibilidade de se iniciarem na arte musical e terem, no futuro, uma profissão. Foi, então, constituída uma comissão para elaborar um projeto visando à criação de uma banda de música mirim. A ideia era esplêndida. Boa vontade não

faltava. Material humano havia de sobra. Foi pensado em se aproveitar a totalidade – ou a maioria – dos membros da Guarda-Mirim da cidade, mas o convite foi estendido a todos os piquetenses. Logo começaram a se apresentar os primeiros alunos para as aulas teóricas. A idade limite: 15 anos. A razão: a partir de 16 anos o candidato poderia continuar praticando em qualquer banda de música; aos 18, quando fosse servir às Forças Armadas, já estaria iniciado numa boa profissão, o que facilitaria sua vida militar. No dia 9 de março, aconteceu uma reunião promovida pelo coordenador da comunidade de base, professor João Vieira Soares, e presidida pelo padre Pedro Verdumen, pároco de Piquete, que contou com a participação do Prefeito Municipal, Luiz Vieira Soares, além de grande número de pessoas. Na ocasião, foi escolhido o nome da banda mirim, por sugestão do diretor da Corporação Musical Piquetense, maestro Júdice Colaneri: Lira da Juventude Piquetense. Na mesma reunião constituiuse a seguinte diretoria: presidente de honra: padre Pedro Verdumen; Presidente: Dorvalina Meirelles; Vice-presidente: José Arantes (Cotinha); Tesoureira: Eunice Prado Nunes; Secretária: Mariinha Motta; Diretor Artístico e Regente: Carlos Vieira Soares. Do Conselho Fiscal fizeram parte: Lourenço Silva, Oswaldo Cruz Coelho Nunes e Eneida Leite Dionísio Theodoro. Em abril de 1970, o maestro Carlos Vieira iniciou campanha para organizar a “bandinha” e, de imediato, mais de cem alunos

de ambos os sexos se inscreveram. As aulas de iniciação musical começaram no dia 15 de abril daquele ano e, no dia 1º de agosto, foram distribuídos os primeiros instrumentos aos alunos mais adiantados. O mérito dessa empreitada coube ao idealista Carlos Vieira Soares, que adaptou as peças musicais para a capacidade dos pequenos e novos alunos, de maneira que, após a missa festiva de São Miguel Arcanjo, padroeiro de Piquete, no dia 29 de setembro de 1970, se apresentaram, pela primeira vez. A partir de então, mais confiantes, passaram a desfilar pela cidade nos eventos cívicos. Enquanto o maestro se desdobrava nas aulas, capacitando novos alunos, a comissão trabalhava para aquisição de instrumentos e uniformes. A Lira da Juventude Piquetense foi um acertado trabalho comunitário a ser repetido nos dias de hoje.

O ESTAFETA Fundado em fevereiro / 1997 Diretor Geral: Antônio Carlos Monteiro Chaves Jornalista Responsável: Rosi Masiero - Mtd-20.925-86 Revisor: Francisco Máximo Ferreira Netto Redação: Rua Coronel Pederneiras, 204 Tels.: (12) 3156-1192 / 3156-1207 Correspondência: Caixa Postal n o 10 - Piquete SP Editoração: Marcos R. Rodrigues Ramos Laurentino Gonçalves Dias Jr. Tiragem: 1000 exemplares A Redação não se responsabiliza pelos artigos assinados.


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O ESTAFETA

GENTE DA CIDADE Luiz Leal

Conhecido por muitos pela alcunha de Luiz Palmeiras, devido à sua paixão pelo “verdão”, Luiz Rodrigues Leal nasceu em Piquete, nas proximidades do Portão da Limeira, na Vila Operária da Usina, em 27 de maio de 1934. Filho de Carlos Rodrigues Leal e Maria da Guia, é o caçula de dez irmãos. O pai trabalhava na Fábrica como feitor da mata. Luiz conhecia, como poucos, o vale do Ribeirão Sertão, quintal de sua casa. Foram seus vizinhos as famílias de Ildefonso Botelho, Pedro Ferreira de Castro, João Laurindo, José Brás, Arthur de Lima... Aluno do Grupo da Fábrica, recorda-se dos diretores Murilo, Acácio e Melchíades, e das professoras Genésia Arruda, Ivone Cipolli, Nina Cunha e Cenira Araújo. Conta que Juracy Faury, à época soldado convocado, era professor substituto. “Ia dar aulas fardado, pois eram os anos 40, da II Guerra...”. Aos 14 anos, matriculou-se na Escola Agrícola “General Osório”, mantida pelo Serviço Social da Fábrica e instalada no local conhecido como “fazenda do cafezal”, muito familiar para ele, pois foi lá que nascera. A escola funcionava em dois turnos, com áreas para os diversos ramos agropecuários. Além do corpo docente e dos funcionários, contava com mais de 150 alunos, muitos em regime de internato. Quando iniciou os estudos nessa escola, o diretor era o professor Zito, que foi substituído pelo professor Leopoldo. Foi aluno da professora Jandira Carvalho de Barros e de João Evangelista do Prado. No período da tarde, após o almoço na Fábrica, as aulas técnicas eram ministradas por Vicente Ramos, Sebastião Chagas, Geraldo Lemes, Jadyr Barbosa, Jamil Pinheiro... Concluída a Escola Agrícola, ingressou no Contingente da FPV, cujo comandante era o capitão Bartolomeu. Recorda-se de que da Vila Operária, onde morava, além dele, ingressaram João Vicente Coelho e Cecílio Aparecido Silva. Após o período do quartel, trabalhou nas administrações de José Geraldo Alves (1952-1955) e Juracy Faury (1956-1959). Cita duas obras desses prefeitos, das quais participou: a Caixa D’Água, quando trabalhou com o senhor Antônio

Mestres e op

Pereira, ajudando no manejo das tropas durante o “corte” do barranco; e a construção do Mercado Municipal. Enquanto estava trabalhando nesta última obra, em 1958, foi chamado para trabalhar na FPV, na 4ª Divisão, a Divisão de Obras. Foram seus Mestres Antônio Diniz, Benedito Chaves, Luiz Motta e Juca Claudino. Ressalta também duas obras das quais se orgulha de ter participado: as construções da “Capela do Hospital”, para as Irmãs Salesianas, e a Padaria da FPV. “O projeto da Capela foi do major Pita Xavier e o mestre de obras, Benedito Chaves. A Capela tinha um desenho arrojado para a época... Chamava a atenção de todos pela sua beleza... As duas obras foram completadas em pouco tempo”, diz. Tranquilo e bom de prosa, Luiz Leal fala com entusiasmo de sua infância e adolescência, das festas da Igreja de São Bom Jesus, no Bairro das Posses, dos finais de semana no Parque Zoológico, dos encontros na Praça Duque, dos bailes, carnavais e festas juninas no Elefante Branco... Conta, ainda, que foi um dos fundadores da Festa Junina no Portão da Limeira, local que nos meses de junho era conhecido como “Arraiá do Sapo”. Luiz Leal casou-se, em 1958, com Benedita Maria dos Santos Leal. Tiveram nove filhos. Em 1982, aposentou-se da Fábrica e mudou-se com a família para Cachoeira Paulista. Viúvo, reencontrou-se, em Piquete, com Nair Souza de Andrade, também viúva, que havia sido sua primeira namorada, no período de Quartel. Casou-se, então, novamente... “Estamos juntos há 66 19 Hospital ção da Capela do dez anos...”. erários na constru

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FCR finaliza Plano Estadual de Recursos Hídicos A Fundação Christiano Rosa entregou ao Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CRHi) o Plano Estadual de Recursos Hídricos – PERH 2012-2015, para a coordenação do qual foi contratada, em 2010, após vencer uma licitação pública. Plano Estadual de Recursos Hídricos No dia 10 de novembro de 2011 foi realizada, na FUNDAP, a Oficina Estadual de Pactuação do Plano Estadual de Recursos Hídricos – PERH 2012-2015, etapa final de um processo iniciado em 2010, cujos resultados se encontram consubstanciados em uma minuta de Projeto de Lei a ser referendada pelo CRHi e, posteriormente, enviada à Assembleia Legislativa do Estado. As diretrizes orientadoras do processo de elaboração do PERH 2012-2015 foram a articulação institucional e o estabelecimento de metas compromissadas, visando a estabelecer um pacto institucional que possibilite sua implementação. Nesse sentido, mais do que definir as práticas necessárias para garantir os recursos hídricos em quantidade e qualidade para o Estado de São Paulo, buscou-se o envolvimento e o comprometimento de todos os setores da sociedade representados no Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos – SIGRH, sem os quais entende-se que o PERH não se concretizará. A partir destas premissas, a articulação institucional, conduzida ao longo de toda a elaboração do PERH 2012-2015, foi capaz de mobilizar mais de 1.600 integrantes do SIGRH, representando as 22 Unidades de Gerenciamento de Recursos Hídricos – UGRHIs do Estado, 13 Secretarias, além de municípios e da sociedade civil. O resultado desse esforço conjunto foi a pactuação de mais de 340 compromissos pelas instituições e colegiados participantes, consolidados em 164 metas e distribuídos em 5 áreas temáticas: (1) desenvolvimento institucional; (2) instrumentos de gestão; (3) usos múltiplos e gestão integrada; (4) conservação e recuperação; e (5) desenvolvimento tecnológico, educação e comunicação. Os investimentos previstos no Plano perfazem um total de R$ 9,7 bilhões, concentrados, majoritariamente, em ações de saneamento (60,8%) e conservação e recuperação de recursos hídricos (38,4%). A implementação do PERH será acompanhada a partir das metas, executores, recursos financeiros e indicadores de acompanhamento definidos para cada uma das ações pactuadas, observando-se, ainda, a inserção dessas ações nos orçamentos anuais das instituições executoras, bem como as adequações operacionais e as articulações necessárias para sua execução, tendo em vista seu caráter multissetorial.


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O peru de Natal Mais um Natal que chega. Mais um ano que se completa. A vida segue, se reinventa, flui, deixa marcas, propõe propostas. Aviva e amortece sensações, plenifica-se de memória, acumula acontecimentos, e, na linha do tempo, registra a história. A paisagem local se modifica pela dinâmica do processo de ocupação. O global se energiza nos efeitos gerados pela economia e pela política. Os embates guerreiros se registram. Na busca da paz, a guerra se materializa. No espaço cibernético, as tecnologias avançam para tornar tudo mais rápido, pois a velocidade é o apanágio da contemporaneidade. As ambiguidades e os jogos dos interesses se interpõem para justificar as ansiedades nas buscas das eficiências. Explica-se tudo ou envolve-se tudo nos véus das aparências? As luzes natalinas se acendem, e na profusão das linhas elétricas, as pequenas lâmpadas coloridas anunciam – e até tonteiam – a festa. O consumismo exacerbado domina a classe média, fique claro. Nas máquinas registradoras de valores o ritmo acelerado chega à exaustão, mas não param. As mesas natalinas se competem em iguarias, arranjos, fórmulas. A tradição da leitoa, esperada pelo trabalho no forno para o couro crocante e os acompanhamentos, registra a tradição e o costume valeparaibano, senão mineiropaulista, mas além de tudo, brasileiro. Por que o porco e os frangos? Porque esses eram os produtos dos mais velhos ocupantes desse espaço de tropas e de mineração, e também de abastecimento

gerado por uma economia que se rotulava autossustentável. Secular, o tempo se amplia. Os horizontes se expandem. A imigração espontânea ou forçada (dos escravos) contribui com outros componentes. Entre esses, entra o chamado peru-denatal. Incorporado às ceias, pontifica no lugar de honra na mesa ao lado da velha leitoa ou do tenro leitãozinho, para gáudio dos apreciadores que já se antecipam com os vinhos e a decoração. O costume implantado de ter o peru à mesa vem da influência norte-americana, que consagrou a ave como prato representativo da ceia familiar comemorativa do Dia de Ação de Graças, no final de novembro. E por que a celebração? Ela é representativa do reconhecimento pelos puritanos que, instalados no norte-nordeste do país, emigraram conpulsoriamente da Inglaterra anglicana. Embarcados no “Mayflower” (século XVII) a partir de 1620, acostaram no leste dos Estados Unidos após uma viagem trágica e difícil. As costas atlânticas do nordeste, ásperas, de dias nebulosos e invernos extremamente rigorosos receberamnos como exilados para ocuparem terras e lutarem para sobreviver com o trabalho rústico. Foi o que se fez. Dividiram as terras em porções familiares, e baseados numa fé inque-brantável, confiantes em Deus, lutaram para sobreviver com o trabalho das próprias mãos. Eram os “Pilgrims”, calvinistas e severos, que não faziam festas. O clima e o solo não eram favoráveis e, ponto negativo, mais tarde, na expansão territorial, perseguiram e exterminaram os índios. Ato

O Natal é uma das principais festas cristãs e, sem dúvida, a mais popular. Está enraizada na vida de nosso povo. É um momento mágico que impulsiona nosso coração a salientar os mais caros valores morais e espirituais, que acreditamos serem ingredientes indispensáveis para a felicidade de qualquer pessoa. Ao longo dos tempos, o Natal parece ter mudado, mas, em essência, continua o mesmo. A celebração do nascimento de Cristo se transformou na festa que conhecemos hoje. Popularizou-se. Conforme o relato dos evangelistas Matheus e Lucas, o Natal de Jesus Cristo é rico de fatos extraordinários, que facilmente foram visualizados na arte, e que, com

criatividade, ao longo dos séculos formaram rico patrimônio da humanidade em pinturas, esculturas, vitrais, músicas, teatro, cinema... Ao redor do fato central do nascimento de Jesus, os relatos bíblicos nos apresentam: a anunciação a Maria, a visita de Maria à sua prima Isabel, o nascimento de Jesus numa gruta em Belém, a presença da estrela, a adoração dos pastores e dos sábios do Oriente, a apresentação de Jesus no Templo, a perseguição de Herodes e a fuga para o Egito... Mais tarde, à tradição cristã, por influências várias, outros elementos foram acrescentados à comemoração e à festa de Natal, dando-lhe identidade única. Entre esses elementos estão o Papai Noel, a vela,

registrado como epopeia nos velhos filmes de cowboy, como os protagonizados por John Wayne, por exemplo. Mas contestados depois e, historicamente, deixados de lado. Mas e o peru, de que falávamos? Pois bem, a luta e o trabalho eram árduos. Entretanto, com a ajuda de Deus e o pragmatismo necessário, foram superando os obstáculos e se desenvolveram para construir uma parte regional norteamericana rica, mas contrastante, – a Nova Inglaterra, cujo ponto urbano emblemático é a cidade de Filadélfia. Formaram-se colônias de empreendedores independentes, isto é, sem ajuda da Coroa Britânica, que mantinha colônias ao sul, latifundiárias e escravocratas. Ah! O peru, ave criada nas tradicionais comunidades imigrantes, era prato principal no dia escolhido como de Ação de Graças pelo favorecimento divino. O chamado Thanksgiving é um feriado na quinta-feira da quarta semana de novembro, comemorativo da primeira colheita realizada no mundo novo para onde migraram os chamados “Pilgrims”. E os brasileiros, pelo menos, os do Centro-Sul, incorporaram-no, como o peru para o Natal. Daí ele não pode faltar à mesa. Aqui, em nosso local de raiz, nem tanto. Talvez só pelo modismo consumista, mas há quem diga que gosta. Inventam-se “mil maneiras” de apresentálo. Mas não o sacrifiquem pela morte, nos quintais domésticos, frente a outros da espécie. É uma experiência terrível. Depois eu conto. Por ora, Feliz Natal! Dóli de Castro Ferreira

A essência do Natal as bolas coloridas, o pinheirinho, a troca de presentes, de mensagens e, principalmente, a montagem de presépios. Deturpados ou não pela sociedade secularizada e dominada pelo mercado, eles constituem o eco do maior evento da história: a encarnação do Filho de Deus. Cabe aos cristãos relembrar, continuamente, que essa festa e os ingredientes que a identificam nasceram da fé, apontam para a fé, se concretizam em demonstrações de amor traduzidas em intimidade familiar, solidariedade para os mais pobres e luta pela vida, vida digna para todos, e luta pela paz.

Reproduções

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Página 5 Foto arquivo Pro-Memória

Por uma cidade sustentável Chegamos a mais um final de ano. Daqui a poucos dias viraremos o calendário... Que seja bem-vindo 2012! Nesses dias de dezembro tomados pelas festividades natalinas, observamos, mundo a fora, as cidades se colorirem e se iluminarem, decoradas com bom gosto, preparandose para saudar o Ano Novo. Pelas ruas, os moradores se confraternizam, fazem votos para que o ano vindouro traga bons auguros e planejam trabalhar para que suas cidades sejam cada vez mais sustentáveis, proporcionando-lhes qualidade de vida. Aliás, a palavra “sustentabilidade” caiu na mídia. Citada por muitos e entendida por muitos poucos, já vem sendo usada no discurso de alguns gestores. O fato é que viver de modo sustentável envolve muito mais do que banir sacolas plásticas e reciclar lixo, como pensam muitos. Envolve mudança de estilo de vida, conhecimento, avanço tecnológico, evolução espiritual e uma nova economia... A sustentabilidade é como a linha do horizonte... Serve para nos orientar para

caminharmos em direção a ela. Quanto às cidades, são feitas por pessoas e para pessoas. Somente mudam quando as pessoas mudam. Portanto, quando observamos nas cidades brasileiras um crescente movimento de pessoas se articulando para ocupar o cargo do Executivo Municipal nas eleições do próximo ano, pensamos: será que esses postulantes estão preparados para administrá-las? É preciso que estejam informados, conectados e preparados tecnicamente para propor e desenvolver soluções para os espaços urbanos. É preciso que cada pré-candidato tenha capacidade técnica para solucionar antigos problemas de suas cidades como falta de empregos, ausência de saneamento básico, degradação do solo, crescimento desordenado em áreas de risco, lazer, tráfico e consumo de drogas... Ao olharmos tantas pequenas cidades preocupadas com o futuro e avançando, já como referências de gestão pública, avaliamos: será que já não passou da hora de deixarem de brincar de

administrar e passar a fazê-lo com seriedade? Qualquer cidadão bem-intencionado e honesto sabe que muitas cidades estão há anos luz daquelas em que seus administradores são preparados. O desenvolvimento das cidades contemporâneas impõe os desafios e oportunidades do desenvolvimento sustentável e da gestão inteligente. Como tanta coisa no Brasil, há carência de posturas éticas pautadas na seriedade e no planejamento. Os adminis-tradores, em sua quase totalidade, são despreparados tecnicamente e, de modo geral, temem avaliações. Enquanto nos países mais desenvolvidos prima-se pela meritocracia – condição indispensável para o postulante ocupar cargo público –, no Brasil falta capacitação – base para o mérito. Que neste final de ano, cada um reflita sobre as diferenças e semelhanças entre a cidade que temos e a cidade que desejamos. O futuro está em nossas mãos! ***************

Portal da Sabedoria Que significa salvação? Que quer dizer tomar posse de uma das muitas moradas do Reino dos Céus? Significa atravessar o Portal da Sabedoria. De Natanael, também chamado Bartolomeu, foi dito: É um verdadeiro israelita. Dos escribas e fariseus, refestelados na Cadeira de Moisés, que repetiam à exaustão a Lei, se afirmou: Não fazem o que dizem. Quanto se deve pagar para atravessar o Portal da Sabedoria? Só atravessará quem se fizer humilde como uma criança. Humilde no aprender; humilde no agir. João Batista tem predisposição – ou predestinação para a Sabedoria. Está perscrutando a sua vinda e se prepara livrando-se de todos os apelos que distraem o ser humano. No momento do batismo, se inquieta:

Quem batiza quem? Nas agruras do cárcere, é assaltado por dúvida: A Sabedoria está entre nós ou ainda devemos esperar por ela? André de Betsaid não tem o aparato espiritual do Batista, mas se agita na curiosidade sobre o que se enquadra no bem e na verdade. Vai escutar João e comenta com o irmão Pedro e o conterrâneo Filipe – Está ali alguém que pode abrir caminhos para nós. Por apelos diversos, a cananeia, o centurião, a samaritana, o cobrador de impostos, Nicodemos e José de Arimatéia se encontram diante do Portal. Qual a predileção da Sabedoria? O espírito privilegiado de João, a curiosidade quase infantil de André, a argumentação desesperada da cananeia, a confiança exacerbada do centurião, a disponibilidade afetiva da samaritana, o impacto surpreen-

dente da escolha no cobrador de impostos ou o senso de justiça e compaixão brotado da Lei no fariseu Nicodemos e no membro do Conselho José de Arimateia. Ou será a simples e disciplinada obediência à Lei demonstrada por Natanael? O trajeto não é decisivo. A chave pode ter várias formas e tamanhos; e materiais de muitas procedências. O importante é acercar-se do Portal e estar disposto a entrar. Estamos diante de uma oportunidade ímpar. A Sabedoria está a caminho. Aproximase devagarinho, sem fazer barulho. Logo estará esperando por nós, entre palhas, em uma manjedoura. O Portal vai estar aberto de par em par. Não é preciso escolher hora. A luz da Sabedoria brilha ininterruptamente. Abigayl Lea da Silva


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Coisas do Natal

Crônicas Pitorescas

Edival da Silva Castro

Precógnito Palmyro Masiero Num obscuro cantão encravado na serrania da Mantiqueira, com a tarde que se ia escurecida, opaca, o quintalejo que abrigava a pequena choupana de taipa, coberta de sapé, foi palco de anúncios iniciais. Há tempos que se reduziam... Deixavam de anunciar... Eram... Viraram gemidos que adentravam a casa. Passos apressados deixaram o casebre, de encontro à noite, pisando descalços caneluras serpejantes através de boqueirões escuros... Sussurros sozinhos viviam à noite, já caída... Pios ao longe, vento maldoso gemendo galhos mais raquíticos naquela tebaida simplória. Com a simplicidade, algum cicio mais alto suplantava o lá fora. O lampião dançava sombras nas paredes. Na brumal Mantiqueira serpeava o rústico, o silvestre, a estria encarpada, coleante a pirambeiras negras de fundo, pisada por pés calejados cada vez mais rápidos, nervosos... A noite anoitecia mais e mais... O vento entusiasmava-se... Ao longe, clarões tonalizavam nuvens disformes. O espaço trazia zangados sons. Num quintal perdido da Mantiqueira, pés descalços corriam trilha. Em suas entranhas, numa pequena casinha erma, uma cantata dolorida. Natureza terrena aguardando desabafo aguado com carinho. Final de trilha, dedos-nervos produzindo batidas que

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despertavam gente dormida noutra casinha tão pequena, de taipa... Supérfluas explicações... Repassando ao inverso, dois pares de pés descalços subiam, em silêncio apressado, o sulco na serra. A floresta gritava ao vento, que trazia surpresas, barulhos-sustos... Passos corridos... Vento-vento de uma tempestade que chegava... Mataria contorcendo-se... Maria contorcia-se... Ingressão de passos no casebre... Gemidos confiantes... Fora, o tempo vivendo tempo de temporal desabrido, estrondeante... No silêncio interior, sombras movimentam paredes que trazem expectaesperanças... A procela imperturbável não perturba. Momentos rezados... Um leve vagido... Um choro passante enleva a mãe, que sorriu. E sorriu o pai, e sorriu a parteira... Num recôndito agreste da Mantiqueira, numa perdida casinha de pau-a-pique, prostrada em pequena plataforma vencida por trilha magricela, um menino nascia recebido com sorrisos ao final da espera. E isto me fez lembrar que há muitos e muitos anos, Alguém muito importante, precógnito, chegou quase assim. Sorriu a Mãe... Sorriu o Pai... Sorriu o mundo pelo fim da espera... ***************

Dezembro. O comércio agita-se à espera do Natal. As lojas arranjam-se, as promoções tomam conta das vitrines. Papai Noel retira do baú sua tradicional farda para desfilar pelas ruas da cidade ou então plantar-se num magazine. Numa das lojas do shopping center, a promoção é inédita. A criança menor de três anos que tirar a foto mais sugestiva nos braços do Papai Noel ganhará um prêmio surpresa no final do ano. Com esse evento, a loja passou a receber as crianças acompanhadas dos respectivos pais. As fotos foram se sucedendo. Crianças chorando, sorrindo, puxando o bigode, apertando o nariz, tirando o gorro... Teve uma que arrancou a barba postiça do Papai Noel. O patrocinador legendava as fotos e as ia exibindo em vídeo, num telão, enquanto os fregueses se aglomeravam para votar nas mais atraentes e insinuantes. Quando chegou ao último dia do ano, houve a apuração. A imagem da criança que apertou o nariz do Papai Noel, legendada com a frase “Que narigão!”, ganhou em terceiro lugar. O segundo ficou com aquela que lhe tirou o gorro; a legenda: “Que homem feio!”. O prêmio surpresa coube à criança que puxou a barba postiça do Papai Noel... A legenda: “Papai!!!”. O garoto havia descoberto sob a falsa barba o próprio pai.. Por tratar-se de um garoto, o prêmio surpresa fora uma camisa da S.C. Corinthians Paulista...

O que fizeram do Natal Natal. O sino longe toca fino. Não tem neves, não tem gelos. Natal. Já nasceu o deus menino. As beatas foram ver, encontraram o coitadinho (Natal) mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha alumiando Natal.

Ilustração: “Sagrada Família”, de Portinari. Poema: “O que fizeram do Natal”, de Carlos Drummond de Andrade, in “Receita de Ano Novo”

As beatas ajoelharam e adoraram o deus nuzinho mas as filhas das beatas e os namorados das filhas, mas as filhas das beatas foram dançar black bottom nos clubes sem presépio.

Acesse na internet, leia e divulgue o informativo

“O ESTAFETA” www.issuu.com/oestafeta ou www. fundacaochristianorosa.cjb.net


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“O Presépio de São Francisco”, de Giotto (1266 - 1337)

Balancete 2011

O presépio de São Francisco Foi na Idade Média que a comemoração do Natal se consolidou, conforme descrito no Evangelho de Lucas, firmando-se no calendário das celebrações da Igreja com a representação da cena do nascimento de Cristo. Foi Francisco de Assis quem uniu a missa natalina com a representação do presépio na forma que conhecemos hoje. Tomás de Celano, autor da primeira Vida de São Francisco (1228), afirma que o santo, em 1223, havia decidido comemorar o Natal daquele ano de forma inusitada. Hospedado no vilarejo de Greccio, Francisco pediu que um certo João preparasse para a noite do Natal um cenário que imitasse a descrição bíblica, com boi, burro, feno e palha. Para a festa, foram convidados os frades da região e os moradores da vila. À noite, acorreram todos, com tochas e velas, ao local preparado, para assistir à “Liturgia Natalina” que Francisco havia imaginado. Naquele cenário bucólico, os frades celebraram a missa do Natal. Na reconstituição franciscana do nascimento de

Cristo, não havia personagem representando Maria, José, os pastores e nem mesmo um Menino Jesus deitado em berço improvisado. Apenas boi, burro e palhas. O autor da Vida de São Francisco, porém, registrou que um homem, presente na ocasião, teve uma visão extraordinária na qual via o Menino Jesus deitado sobre o feno, dormindo, e Francisco, aproximandose, o acordava de um sono profundo. Para Tomás de Celano, a visão era eloquente: Francisco de Assis, com seu gesto, trazia de volta à memória do povo cristão a lembrança de Cristo Menino, esquecido pela maioria dos fiéis. Ele elaborou uma festa de cunho comunitário e de enorme plasticidade, o que sensibilizou os presentes. Sua intenção era incutir nos espectadores o sentimento de compaixão diante da simplicidade e da pobreza de Cristo. Embora São Francisco não tenha propriamente inventado o presépio, não há como negar que os espíritos de piedade e solidariedade que se espera encontrar na noite natalina se devam ao santo de Assis muito de sua influência.

Reproduções

Interessante a condição de colaborador, digitador e diagramador de um Informativo... Leio antes de todos os artigos que sairão publicados uma semana depois da trabalhosa produção de “O ESTAFETA”. Parece simples, mas não é fácil amealhar textos de qualidade, garantir sua correção gramatical (leia-se Chico Máximo...), organizá-los no espaço disponível, escolher fotos pertinentes ao assunto e, ao mesmo tempo, interessantes para os leitores... Não é fácil, mas é prazeroso... A sensação de alcançar mais um dezembro consciente de ter colaborado nas onze edições anteriores é por demais gratificante. Sou suspeito para falar, mas a excelência do ESTAFETA é indiscutível. E “parir” filhos bonitos é sempre bom... Neste mês de textos ainda mais elaborados, esperei para ser o último a preencher uma coluna... Dessa forma, pude capturar a mensagem natalina dos demais colaboradores para tentar resumir o que li. Encantei-me com os textos... Concluí estarem todos os autores com a sensibilidade à flor da pele, tamanhas a beleza e a serenidade apaixonada (por mais antagônico que pareça...) que depreendi. O Natal bafejou seu espírito e inspirou simplicidade, clareza e poesia que – estou certo – os emocionarão. A mim, muito me emocionaram... Isso sem falar no conhecimento adquirido... Perene e inalienável... A chegada do Natal e a passagem de ano remetem-nos, sempre, à retrospectiva. Fazemos um balanço de nossas atividades ao longo dos doze meses decorridos, avaliamos os resultados e planejamos novas ações... É como uma “reunião de fechamento” em uma empresa. Importante lembrar que é saudável fazermos essas avaliações com maior frequência. Ao reduzirmos o período avaliado, aumentamos a possibilidade de alterar rumos, descartando medidas inócuas ou ‘erradas’, mitigamos os resultados ruins e aumentamos a probabilidade de “lucro”. Temos que administrar nossa vida de forma a garantir bons resultados: amizades, amores, paixões, alegrias maiores que tristezas (aquelas que dependem de nossos atos), boas saudades, fortes emoções (“o importante é que emoções eu vivi!”, conhecem?)... Neste dezembro, amparado na “literatura disponível”, acredito ter sido aprovado e, portanto, promovido a um estágio seguinte... É claro que houve algumas “notas baixas”, mas a média me aprovou... Espero e desejo que o mesmo tenha ocorrido com todos os leitores do ESTAFETA, meus amigos e aqueles “nem tanto”... Enfim, a todos, indiscriminadamente. Que 2012 chegue com novos professores, provas desafiadoras e excelentes resultados. Um beijo carinhoso de Natal e Ano Novo! Laurentino Gonçalves Dias Jr.


O ESTAFETA

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Piquete, dezembro de 2011 Fotos arquivo Pro-Memória

Arejando a memória... Há dez anos, Piquete ganhou de presente da IMBEL/FPV uma antiga locomotiva e um vagão de trem que, restaurados, foram estacionados junto à Estação Ferroviária “Estrella do Norte”, compondo um harmonioso conjunto que se tornou cartão-postal da cidade. A iniciativa de restaurar a estação com seu jardim e trazer a locomotiva para Piquete foi do coronel Alfredo Araújo, morador da Casa 2 da Vila da Estrela, o qual contou com o apoio incondicional do então presidente da IMBEL, general Armando Luiz Malan de Paiva Chaves. Atendiam a um desejo dos piquetenses... O apoio financeiro da FHEPOUPEX foi fundamental para a concretização do trabalho, tendo sido obtido graças ao seu diretor à época, general Burmann, ciente do valor histórico e do pioneirismo das obras do Exército em Piquete, no início do século 20.

É inquestionável a importância das ferrovias para o desenvolvimento econômico brasileiro. Desde o final do século 19, os piquetenses acalentavam o sonho de ter um ramal ferroviário. Graças ao Exército, o Ramal Férreo Lorena-Bemfica foi construído para atender a Fábrica de Pólvoras sem Fumaça. Inaugurado em 15 de setembro de 1906, o trem circulou pela última vez em 31 de dezembro de 1977. Com a desativação do ramal e a retirada dos trilhos, restaram as estações Rodrigues Alves, Estrela do Norte e Limeira, todas preservadas. A exemplo do que acontece em outros lugares, o crescimento e a transformação das cidades fazem com que parte de seu patrimônio de valor históricocultural seja perdido. Hoje, neste mundo globalizado, mais do que nunca a preocupação com esse patrimônio deve constar da pauta de todos os governantes. Os

bens de valor cultural da sociedade expressam aspectos das tradições do povo; são testemunhos das experiências históricas, em sua diversidade. O patrimônio cultural traz à tona aspectos tangíveis e intangíveis, materiais e imateriais, da história e da memória de nosso povo. Revela, ainda, elementos representativos de nossas raízes sócioculturais. A valorização das referências culturais de Piquete pela IMBEL/FPV serve de referência na busca do conhecimento de uma história aberta às diversidades e na abertura de caminhos para a constituição da cidadania. A principal razão da preservação se associa à melhoria da qualidade de vida da comunidade, o que implica em bem-estar material, espiritual e garantia do exercício da memória e da cidadania. ***************

O Natal quebra o queixo dos orgulhosos Na noite de 25 de dezembro, uma grande porção da humanidade – sobretudo no ocidente, em que esta data foi fixada no calendário –, irá, como acontece a cada ano, fazer memória de um fato que marcou profundamente nossa história e continua a nos afetar. O evangelista Lucas registra essa tradição com estas encantadoras palavras: “Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria: hoje na cidade de Davi nasceu para vocês um salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura”. Quando leio essas palavras nas escrituras, sinto que me falam mais do que ao intelecto; não cabem apenas na cabeça. Essas palavras têm a magia de trazer um sentimento de paz também ao corpo. Talvez nosso corpo compreenda mais que a razão o mistério da encarnação. A palavra de Deus está na carne, não é etérea, não faz mais parte do plano espiritual; está em Jesus menino, deitado na manjedoura. Um recém-nascido não sabe doutrinas, não possui projetos, não almeja posições sociais, não tem nada das coisas que o mundo costuma valorizar. Um recémnascido tem apenas suas necessidades

corpóreas: fome, sede, frio, calor, sono e amparo materno. Na manjedoura, a palavra de Deus não é coisa de livro, é da vida. Como podemos compreender isso? Aprendemos que Deus é o Todo Poderoso, Onipotente, Onisciente, Onipresente, Criador incriado, Motor Imóvel. Ouvimos que

Deus possui atributos tão grandiosos que devemos sempre adjetivá-lo usando superlativos: Perfeitíssimo, Belíssimo, Boníssimo, Santíssimo e assim por diante. Tudo isso, porém, parece não ter muita consonância com o menino encontrado repousando na manjedoura, sustentado na existência pelos cuidados de Maria, sua mãe, e de José. É frágil e vulnerável como os bebezinhos que conhecemos. Esse Menino torna simples o que era complicado, acessível o que não estava ao alcance de nossas mãos, terno o que parecia ameaçador... Ele revoluciona

nossa compreensão sobre Deus, abala os alicerces da fé. O Natal quebra nossos queixos, subverte nossos padrões, aponta-nos caminhos novos para a existência. Agora ser imagem e semelhança de Deus tornou-se mais fácil, sobretudo para os pequenos deste mundo. Ser imagem de Deus não mais significa ser autossuficiente, poderoso, perfeito, importante, sábio, amado e respeitado por todos. Deus não é assim... Ao menos não se revelou assim no Natal. Ele é apenas um pobre menino que não teve lugar na hospedaria, nasceu num curral e lá dorme em paz, num grande silêncio, amado e cuidado por sua mãe. Quantas vezes os cristãos se esqueceram disso, preferiram o caminho da grandeza, da conquista do poder temporal, da erudição, distanciandose do que ensina o Natal. Hoje estive visitando o Miguel, um menino com apenas dez dias de vida. Ofereci alguns presentes e o contemplei como os magos do Oriente fizeram com Jesus menino no passado. O pequeno Miguel apenas dormia com a cabecinha apoiada em seu travesseirinho. Ali em seu quarto havia uma grande paz, a paz que as nações tanto buscam sem jamais encontrar. Os bebezinhos são os portadores da paz... Não os grandes do mundo, mas os bebezinhos, nos ensina o Natal. Pe. Fabrício Beckmann


DEZEMBRO 2011