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O ESTAFETA ÓRGÃO DA FUNDAÇÃO CHRISTIANO ROSA PIQUETE, AGOSTO/2011 - ANO XIV - No 175

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Foto arquivo Pro-Memória

EDITORIAL Mais uma vez nos ocupamos em registrar a vergonhosa cultura da corrupção que permeia diferentes áreas dos governos. Sucessivas denúncias de desvio de recursos públicos vêm sendo manchetes nos meios de comunicação. Do âmbito federal ao municipal, novos escândalos de corrupção são descobertos quase que diariamente. Pior é que o dinheiro desviado por verdadeiras quadrilhas que se instalam nos governos deixa de ser aplicado em importantes setores de serviço, de maneira que saúde, educação, saneamento básico, infraestrutura e defesa nacional ficam sem recursos para seus projetos. Quando assistimos aos noticiários, temos a impressão de que a corrupção vem crescendo de maneira galopante. Mas isso não é a realidade. Para especialistas, a verdade é que cresceu a percepção desse fenômeno. Há uma maior capacidade de detectá-la, de maneira que ela tem aparecido mais e não aumentado. Outra causa que tem contribuído para o destaque da corrupção é que, nas diferentes esferas de governo, cargos importantes são loteados em troca de apoios, de maneira que a maioria dos indicados para ocupá-los são pessoas sem valores e sem princípios sólidos, que só pensam em se locupletar. É comum observarmos políticos se enriquecerem num curto espaço de tempo. Compram carros, mansões, sítios e fazendas, ostentando um patrimônio incompatível com seus ganhos. Nosso grande desafio é construir instituições fortes e tomar atitudes para reprimi-la. Nos lugares onde a corrupção diminuiu ao longo do tempo, isso ocorreu pele conjugação de avanços institucionais e intolerância da opinião publica. Entre os fatores que explicam essa mudança estão democracia plena, judiciário independente, serviço público profissionalizado, imprensa livre e independente e educação. Desses fatores, o que julgamos mais importante é a educação, uma vez que, com a população mais educada e mais bem informada, diminuirá muito a passividade dos brasileiros diante da corrupção. As mudanças já estão começando. São lentas, mas irreversíveis. A corrupção tende a diminuir. Hoje já assistimos políticos corruptos perdendo seus cargos e indo para a cadeia. As mudanças estão aí. É uma questão de tempo.

Conhecidos pelos nomes de jacazeiros, balaieiros ou cesteiros, os artesãos da taquara e do bambu estão cada vez mais raros na região. Usam, de preferência, a taquara-bambu e afirmam que a taquara deve ser colhida nos meses sem “erre”, o que lhes garante longa duração. Nos demais meses, só na lua minguante; do contrário, dá caruncho...

22 de agosto, Dia do Folclore Não há nada mais nacional do que a cultura de um povo, ou seja, seu folclore. Folclore não é apenas folguedos e festas, como muitos pensam. É a história construída pelos anseios, aspirações e esperanças de um povo. É uma linguagem na qual se manifesta a unidade que mobiliza multidões, que busca sua verdade na identificação da cidadania, preservando seus valores e mantendo vivas suas raízes ao longo das gerações. Em todas as partes do mundo, cada povo tem seu folclore, sua forma de manifestar suas crenças e costumes. O folclore se manifesta na arte, no artesanato, na literatura popular, nas danças regionais, no trabalho, na música, na comida, nas festas populares como o Carnaval, nos brinquedos e brincadeiras, nos provérbios, na medicina popular, nas crendices e superstições, mitos e lendas. O folclore brasileiro é um dos mais diversificados e peculiares do mundo, pois é formado pela mistura de elementos indígenas, portugueses e africanos e da influência de imigrantes provenientes de diversos países. Assim, cada região apresenta semelhanças e diferenças, o que torna riquíssima a cultura popular brasileira. Na área musical, por exemplo, são inúmeros e muito variados os ritmos e

melodias desenvolvidos em nosso país. É o caso do frevo, do baião, do samba, do pagode, da música sertaneja... Há, ainda, as danças típicas das festas populares, como o bumba-meu-boi, o forró, o jongo, a congada, a quadrilha e – é claro – o Carnaval, verdadeiro símbolo de nosso país. Um dos aspectos mais interessantes do folclore brasileiro são os seres sobrenaturais que povoam as lendas e superstições da gente simples. O mais popular é o saci, um negrinho de uma perna só, que usa um barrete vermelho, fuma cachimbo e adora travessuras como apagar lampiões e fogueiras ou dar nó nas crinas dos cavalos. Mas há outros seres fantásticos em nosso folclore: o curupira, um anão de cabelos vermelhos que tem os pés invertidos; a mulasem-cabeça, que solta fogo pelas narinas; a boiúna, cobra gigantesca cujos olhos brilham como tochas; o lobisomem, o sétimo filho homem de um casal que vira lobo nas sextas-feiras de lua cheia... Em 1965, o Congresso Brasileiro oficializou o dia 22 de agosto como Dia do Folclore, numa justa homenagem à cultura popular brasileira. A palavra folclore tem origem no inglês antigo: “folk” significa “povo” e “lore”, estudo das tradições, aquilo que nasceu do povo de forma natural, espontaneamente.


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Imagem - Memória

Foto Arquivo Pro-Memória

As Solteironas dos Chapéus Verdes Sob a direção artística da Professora Nely Quadrado e a produção geral do Major Alberto Lessa Bastos, idealizadores do Grupo A.R.T.E. (Artistas Reunidos do Teatro Experimental), de Piquete, a peça Iaiá Boneca, encenada no Cine Estrela, em 1957, foi um estrondoso sucesso de público e de crítica. Essa mesma acolhida pôde ser observada nas cidades vizinhas onde a troupe se apresentou. Isso fez com que os jovens e talentosos atores que constituíam o grupo A.R.T.E. se entusiasmassem com o resultado da primeira peça de seu repertório, principalmente após o reconhecimento público manifestado por Ernane Fornari, autor de Iaiá Boneca, que veio do Rio de Janeiro especialmente para assistir à montagem do grupo de Piquete. Em 1958, a Prof. Nely e seu marido, Major Aldyr Quadrado, deixaram Piquete rumo a Nova York. Foram estudar na Universidade de Columbia: ele, assuntos técnicos; ela, assuntos pedagógicos. No entanto, os jovens atores não ficaram órfãos. Assumiu a direção do A.R.T.E. o Major Lessa Bastos, que passou a ensaiar quase todas as noites, no Casino da Estrela, uma nova peça. Assim, no dia 30 de abril de 1958, a principal casa de diversão de Piquete, o Cine Estrela, mais uma vez ficou superlotada para a apresentação de “As Solteironas dos Chapéus Verdes”, da escritora francesa Germaine Acremant. A expectativa do público era

grande, principalmente devido ao sucesso alcançado por Iaiá Boneca. Às 21h precisamente abriram-se as cortinas para que o Major Lessa Bastos fizesse a apresentação da peça. O romance “Les Dames Aux Chapeaux Verts”, escrito em 1921, é uma sátira à vida provinciana e obteve grande sucesso, reeditado inúmeras vezes e traduzido em mais de 25 línguas. Por todo o mundo, a peça extraída desse romance agradou. A história se passa numa pequena e antiga região de Artois, no extremo norte da França, no Departamento de Pas-DeCalais. Conta a vida, paixões, raiva e outros sentimentos vividos por mulheres da família D’Anvers, ao mesmo tempo tão juntas e tão separadas. Toda essa história é contada numa peça constituída por três atos e um quadro. Patrocinada pela FPV, a montagem de As Solteironas dos Chapéus Verdes, em Piquete, contou com um selecionado elenco formado por Mariza Mazza, Orquideia Bangoim, Dinah Encarnação, Lucy Mesquita, Suely Teixeira, Reginato Carvalho, Mirthes Mazza, Carlos Ramos da Silva, Oswaldo Peixoto, Nino Soares da Costa e Cézar Damico. Apesar de o palco do Cine Estrela não ser adequado para teatro, em que os movimentos de cenários, contra-regras, orientadores, artistas e outros exigem espaços maiores, a equipe contornou essas dificuldades. O incansável Major Lessa

Bastos com seu dinamismo e entusiasmo arrastou uma excepcional equipe de colaboradores: a montagem coube ao Professor César Dória, os cenários a Mendes Bastos e Mário Mendes, o maquinário a Willy Vieth, a parte de carpintaria a Benedito Souza, Romeu Dotta e Ércio Molinari, a parte elétrica a José S. Barbosa, os figurinos à Myrthes de Oliveira, a maquiagem a Alberto Lessa, os desenhos a Geraldo Nascimento e José P. Masiero. Foi assistente de direção Alda Vital Brasil. A contadora, a professora Odaísa Frota, e o ponto coube a José P. Masiero que, mais tarde, se destacaria como diretor de teatro. Ao término do espetáculo, os aplausos incessantes da plateia coroaram o grupo A.R.T.E. ***************

O ESTAFETA Fundado em fevereiro / 1997 Diretor Geral: Antônio Carlos Monteiro Chaves Jornalista Responsável: Rosi Masiero - Mtd-20.925-86 Revisor: Francisco Máximo Ferreira Netto Redação: Rua Coronel Pederneiras, 204 Tels.: (12) 3156-1192 / 3156-1207 Correspondência: Caixa Postal no 10 - Piquete SP Editoração: Marcos R. Rodrigues Ramos Laurentino Gonçalves Dias Jr. Tiragem: 1000 exemplares A Redação não se responsabiliza pelos artigos assinados.


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GENTE DA CIDADE Olegário A conversa começou despretenciosa e terminou em boas risadas, animada que foi pelo bom humor do mineiro de Liberdade, Olegário Alves Pereira, que, aos 77 anos, fica com os olhos brilhantes quando lembra momentos da infância passada em Piquete, onde está desde 1939... “Eu era terrível... Conhecia todos os arredores de Piquete... Saía pela manhã e só voltava ao final da tarde... Íamos caçar...”. Perguntado sobre alguns colegas “terríveis”, cita Gustavo Ecklund e Oyama. Daí a conversa toma outro rumo, para lembrar as famílias de amigos e as personalidades folclóricas do “Piquete antigo”: Dondoca, Salgado, Substância, Pingo de Ouro, Zé Ovo... “Eu me tornei o caçula dos quatro filhos com a morte de um irmão mais novo...”, faz questão de lembrar. Em Piquete, a mãe, Josina Alves Pereira, ele e os irmãos foram levados pelo pai, Luiz Antônio Pereira, que já estava na cidade, para o Hotel das Paineiras, de Maria Eufrázia, onde residiram por cerca de dois meses. Depois de curta temporada numa casa na Praça da Bandeira mudaram para a Vila Duque. “Aquele local era ótimo... De lá ficávamos sabendo de tudo o que acontecia. Vi muitas brigas na Praça da Bandeira...”. Conta que ainda não existia na cidade ponte alguma de alvenaria: “Não tinha nada... Muitas das vilas e ruas atuais ainda não existiam, eram morros e barrancos cheios de mato... No Bambuzinho eram poucas casas... Até mesmo na Praça da Bandeira só havia uns casarões velhos... A Praça 9 de Julho ainda era o Morro da Miquelina... Atrás do atual cinema era um brejo imenso, onde íamos caçar coelhos”. Seu pai, Luiz Antônio Pereira, empreeiteiro e dono de uma frota de carroças, foi o responsável por boa parte das mudanças que ocorreram na cidade a partir do início da década de 1940: realizou a maioria das terraplanagens do município, além da abertura da rodovia Lorena-Itajubá e de obras na área industrial da FPV. Cursou o Grupo Escolar da FPV, onde foi aluno das professoras Nina Cunha e

Grupo de alunos

da Escola de Mat

erial Bé

Genésia: “D. Nina dava para levar, mas D. Genésia era brava...”, conta. Cita alguns colegas de escola: Beni, Sebastião Ferreira, Vera Meirelles. Em seguida, cursou Mecânica na Escola Industrial, finalizada em 1952 com os colegas Luizinho (da Farmácia), Beni, Gentil Pascoal, José Pedro Nunes, José Emílio... Destacou deste período os professores Caio Fox, em Desenho e em Tecnologia, Willy Wieth e Eurico Fernandes. Foi contratado, então, pela FPV, para trabalhar no Departamento Educacional, mas ficou pouco tempo, transferindo-se, em 1957, para o Exército. Cursou a Escola de Material Bélico, especialidade Armamento Pesado. Em 1984 aposentou-se: “Entre os períodos civil e militar foram 32 anos...”. Do “Piquete do seu tempo”, Olegário diz que “havia mais aconchego, as pessoas se tratavam melhor... Com o crescimento, isso diminuiu... Aí veio a televisão e contribuiu ainda mais para o afastamento das pessoas”. Olegário mora atualmente no Bairro dos Marins, zona rural de Piquete, no sítio São Francisco, onde mantém criação de gado, porcos e galinhas... “Lá é tranqüilo. O clima é mais frio – não gosto muito do calor... Durante a semana somos eu a Ana de Lourdes, esposa há 53 anos, desde 26/07/1958. Mas, nos finais de semana, sempre ‘baixam’ por lá alguns dos sete filhos... Isso sem falar nos 16 netos iro ne e 3 bisnetos”. Ja de o Ri lico, no

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Ponto de Cultura Jongo de Piquete, um Novo Olhar O Ponto de Cultura “Jongo de Piquete, um novo olhar” chega à metade do segundo ano. Nesse período foram realizadas seis oficinas de áudio-visual e de identidade negra. Também foram adquiridas, com recursos do governo federal por meio do programa Cultura Viva, câmera fotográfica digital e filmadoras visando a registrar essa manifestação cultural. Estão programadas para este ano ainda uma mostra de vídeos, publicação de um livro e produção de um CD. Coordenado em Piquete pela Fundação Christiano Rosa, o Ponto de Cultura “Jongo de Piquete, um novo olhar” tem como objetivo ampliar os meios de fruição, produção e difusão cultural do Jongo, garantindo à comunidade o acesso a eles. Por meio deste Ponto de Cultura estão sendo estabelecidos pactos com atores sociais que visam ao desenvolvimento humano sustentável, no qual a cultura seja a forma de construção e expressão da identidade, incorporando referências simbólicas e linguagens artísticas no processo de formação da cidadania. Com isso, amplia-se a capacidade de apropriação criativa do patrimônio cultural. Potencializar energias sociais e culturais, dar vazão à dinâmica própria da comunidade e entrelaçar ações e suportes dirigidos ao desenvolvimento de uma cultura cooperativa, solidária e transformadora não pode ser mais ativo do que quando seus fazedores e brincantes – neste caso o Jongo de Piquete – se vêem como protagonistas dessa ações. Tentase, assim, criar uma onda de transformação, de invenção do fazer e refazer, que envolva a todos, permitindo a ex´ploração dos códigos de diferentes meios e linguagens artísticas nos processos educacionais e uma reflexão crítica sobre a realidade em que os cidadãos se inserem. Geração de Renda O Ponto de Cultura “Jongo de Piquete, um novo olhar” vem possibilitando a geração de renda, já que a maior parte dos recursos fica na cidade. Por meio do Jongo, Piquete tem recebido vários turistas, que chegam por conta dessa atração cultural e se encantam com o poder de nossa hospitalidade: em maio, recebemos a comunidade de São Carlos; em junho, foi a vez do Jongo da Lapa (RJ) e de Embu das Artes (SP). Os grupos adquiriram lembranças, doces e artesanatos, além de conhecer o Bairro dos Marins.


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A Farmácia São Miguel A farmácia dos piquetenses, um bem patrimonial e memorialístico No capítulo das rupturas e continuidades, o processo histórico segue seu curso marcado pelos acontecimentos, suas efemérides, seus significados e significantes na constituição do discurso das narrativas. Marca-se o tempo contido no espaço, dinamizando-se os dois na efervescência das conquistas humanas, e histórias de vida são relatos para o registro das memórias. Assim, a tradicional e histórica Farmácia São Miguel transformou-se em Farmácia Santo Antônio, onde os conceitos de tradição e modernidade se conjugaram para continuar uma trajetória bem recebida pelo povo de Piquete, iluminada pelo fundador Joãozinho (João Ramos da Silva) e continuada felizmente pelo filho Luciano. Joãozinho, o apelido carinhoso, de sorriso sempre pronto, a fala calma, a sabedoria da prática do manuseio dos medicamentos era figura querida de todos nós. Ao lado da esposa Terezinha, caríssima amiga de infância, constituía um casal presente e atuante nos nossos encontros sociais. Luciano, ao continuar o trabalho com o pai, fez o aprendizado certo para o atendimento sempre solícito e prestimoso. Pois bem. No dia 9 de julho deste 2011, deu-se a inauguração da mudança da antiga farmácia da família Ramos da Silva, para continuar a mesma no mesmo endereço da

Avenida Luiz Arantes Júnior frente à praça 9 de julho, e a bênção da nova modalidade. O evento ocorreu no dia da data magna dos paulistanos pela Revolução de 1932. A manutenção dos armários e prateleiras e os balcões ao lado de novos arranjos, e a invocação de Santo Antônio (na continuidade da proteção de São Miguel), passaram a codificar uma mentalidade que precisava se ajustar aos novos propósitos. Lá estão guardadas caras memórias do Piquete, cujo povo recebia o atendimento personalizado do “seu Joãozinho” no estabelecimento, ou de bicicleta, a correr pressuroso as ruas da pequena cidade, sem esmorecer nem desprezar ninguém. E também em seguida, do Luciano, que guardou do pai e da avó a ternura do olhar e a atenção sempre disponível ao solicitado. O Joãozinho, fundador da Farmácia São Miguel, emparelhava-se ao Dr. Amoroso, o qual reconhecia nele um eficaz fornecedor de remédios e poções. Recomendava até procurar pelo Joãozinho em sua ausência, tal a confiança nele depositada, e não desmerecida. Nosso farmacêutico era cuidadoso e muito sério. No imaginário popular essas referências estão fixadas. Tratamos aqui de um tempo que se prolongou nos meados do século XX, até as décadas finais. A mudança de endereço do local mais acanhado na Rua Dr. Américo

Brasiliense, numa esquina plenamente identificável, para o mais amplo, que é o atual, na Luiz Arantes Júnior, retratou uma primeira ruptura que se conjuga com a de agora, para trocar de nome (ou de referência), mas continuar um caminho bem sinalizado. A harmonia desse sentido é prerrogativa dos detentores de posse. Afinal, os seres humanos buscam um mergulho em suas interioridades, provocados pelas alterações dos sistemas de produção e trocas, para realizar a ação simbólica das proposições espaçotemporais que enlaçam objetivamente suas formas de existência. Recriam-se projetos, mantêm-se os propósitos. Emblematicamente, os mais velhos, como eu, lembraremos sempre do Joãozinho a nos transmitir segurança e confiança, enquanto os remédios se aplicavam em suas funções, e da missão continuada do Luciano, que tem impregnada a indelével marca paterna. A Farmácia de São Miguel deve conter um imenso cabedal de histórias dramáticas e jocosas que animam suas memórias, principalmente por abordar a parte sensível de nossos corpos – a saúde. Quem dela partilhou sabe o sabor desse inestimável relicário. Nós, o povo, somamonos nelas. Dóli de Castro Ferreira

O Festival de folclore de Olímpia tradicionais de todas as regiões do país, proporcionando a interação entre os participantes. A troca de informações e as oportunidades de pesquisas durante o festival são de grande importância para o crescimento e fortalecimento dos grupos que nele se encontraram, vindos de norte a sul do país. Procurou-se, com isso, formar a consciência para a cultura e a paz. Estudiosos, pesquisadores e amantes da cultura encontraram neste festival condições para execução de seus trabalhos acadêmicos e pesquisas. Em decorrência de muitas manifestações folclóricas estarem em vias de extinção, vários grupos veem no Festival de Olímpia motivação para se manterem vivos, atuantes e, dessa forma, a

tradição e a cultura popular se mantêm preservadas. Milhares de estudantes de todos os níveis escolares aproveitam a oportunidade do Festival do Folclore como fonte de pesquisa e desenvolvem o espírito de cidadania e civismo por meio do conhecimento de suas raízes. O grupo de Jongo de Piquete, como em todos os lugares por onde se apresentou, atraiu os olhares curiosos de muitos que não conhecem essa manifestação da cultura negra. Logo a curiosidade se transforma em motivação para que entrem na roda e interajam com os jongueiros. As palmas, os cantos e os sons do tambu e do candongueiro seduzem e mexem com todos.

Fotos Jongo de Piquete

Pela segunda vez o grupo de Jongo de Piquete participou do Festival do Folclore de Olímpia, que aconteceu em julho. O Festival de Folclore é um evento da cultura popular brasileira que, além de preservar e manter a cultura popular, fomenta o comércio, o turismo e os serviços da cidade de Olímpia e de toda região noroeste de São Paulo. Olímpia mantém e incentiva durante todo o ano grupos folclóricos locais. O estudo do folclore nesse município faz parte do currículo nas escolas públicas e privadas, e trabalha-se a criação da Universidade Livre de Folclore. Como nas edições anteriores, o 47º Festival objetivou resgatar, preservar e divulgar as diferentes manifestações


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A fotografia no Brasil Em 1839, o Diario do Comércio, do Rio de Janeiro, noticiava a invenção do daguerreótipo – aparelho capaz de fixar imagens em placas de cobre cobertas com sais de prata –, o primeiro aparelho a fixar a imagem fotográfica e também o primeiro processo fotográfico reconhecido mundialmente, criado pelo frances Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). No Brasil, a fotografia chegou no dia 16 de janeiro de 1840, pelas mãos do abade Louis Compte, capelão de um navio-escola francês (corveta franco-belga L’Orientale), que aportou de passagem pelo Rio de Janeiro. Ele trouxe a novidade de Paris para a cidade, introduzindo a daguerreotipia no país. Realizou três demonstrações do funcionamento do processo e apresentou o daguerreótipo ao imperador D. Pedro II. Foi a primeira demonstração no Brasil e na América Latina. O cronista do Jornal do Comércio de 17 de janeiro daquele ano registrou a facilidade como era possível obter “a representação dos objetos de que se desejava conservar a imagem...” e seguiu narrando as proezas do vistoso instrumento que, em poucos nove minutos, registrara o chafariz do Largo do Paço, a Praça do Peixe, o Mosteiro de São Bento... E todos os outros objetos circunstantes se acharam reproduzidos com tal fidelidade, precisão e minuciosidade, que bem se via que a cousa tinha sido feita pela própria mão da natureza, e quase sem a intervenção do artista”.

Em 21 de janeiro de 1840, D. Pedro II, aos 14 anos de idade, entusiasmado com a nova invenção apresentada por Compte, encomendava um equipamento de daguerreotipia em Paris. Em março de 1840, adquiriu um aparelho comprando-o diretamente de Felício Luzaghy, por 250 mil réis. Esta era, possivelmente, a primeira máquina desta arte em mãos brasileira. Tornou-se, assim, o primeiro fotógrafo brasileiro com menos de 15 anos de idade. Mais tarde, já grande colecionador e verdadeiro mecenas dessa arte, atribuiu títulos e honrarias aos principais fotógrafos atuantes no país. Promoveu a arte fotográfica brasileira e difundiu a nova técnica por todo o país. O maior e mais diversificado acervo de fotografias oitocentistas constituído por um particular é, justamente, a coleção que foi reunida durante vários anos pelo Imperador D. Pedro II. Oficialmente, ele é considerado o primeiro daguerreotipista brasileiro; fazia imagens de paisagens e de pessoas. A partir da segunda metade do século 19, com a evolução da técnica da fotografia, ela foi arrebatando interessados por todo o país. Surgiram oficinas que tiravam e vendiam retratos. Quando D. Pedro II adquiriu sua câmera, tornou-se o primeiro brasileiro, e, possivelmente, o primeiro monarca do mundo a tirar fotos. D. Pedro investiu muito nessa coleção. Mandava comprar tudo que se referia à fotografia. Ganhava ou comprava fotografias em suas viagens, tanto no Brasil quanto no exterior. Com o 15 de novembro e o banimento da família imperial pelo regime republicano, o monarca doou seu acervo fotográfico à Biblioteca Nacional. A única exigência foi de que mantivessem a unidade sob o nome da Imperatriz: “Coleção D. Thereza Cristina Maria”. É a maior coleção de documentos fotográficos brasileiros existentes numa instituição pública do Brasil. ***************

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Fotos Arquivo Pro-Memória


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O nó da gravata

Crônicas Pitorescas

Edival da Silva Castro

Fórmula empregatícia... Palmyro Masiero Anos atrás, puxava uma condenada de uma situação em São Paulo procurando emprego e nada conseguia. Passava horas em filas e, quando atendido, a velha história de deixar nome, endereço, que seria chamado caso fosse selecionado. Meu domicílio estava mais na praça que pulga em corpo de vira-lata. Num encontro, desabafei-me com o Trotipe, que me esculhachou: – Como é que você quer arrumar alguma coisa? Vai com essa cara de mendigo implorando a porcaria do emprego! – E como é que você quer que eu vá se estou matando muriçoca a grito?! – Ignorância dói... Espero que não seja pegativa! Me passa aí o jornal. Abriu na página de empregos e começou a ler. – Este está bom. Uma firma do Rio, de representações, vai abrir uma filial em São Paulo e quer um gerente. Entrevistas amanhã com o senhor Pereira, a partir das oito horas, na rua... – Você vai me arrumar este emprego? – Te manca, maninho... Teu pai, de saudosa memória, já morreu... Vou ensinar como se faz e tu que te vires depois... Vê se te arrumas como gente, que amanhã passo para te apanhar ali pelas nove horas... Quando se está por baixo, sapo é caviar! O bandido começou pela inversão do meu processo. Quando marcavam oito horas, eu chegava lá às seis e nunca consegui ser o primeiro da fila. E ele iria me apanhar às nove! Faltavam uns quinze minutos para as dez quando o Tro chegou, no dia seguinte. Trajava-se impecavelmente. Entrei e o debochado deu uma examinada na minha estampa, fez um muxoxo, um tanto pelo reprobatório. Quase o mandei para aquele lugar... Patife! Chegamos ao destino, lá pelas bandas do Ipiranga, e avistamos a fila que parecia uma cobrona. Estacionou, apanhou no porta-luvas um envelope fechado. Mostroume. Estava sobescritado a máquina “Ao Sr. Responsável da Distribuidora...”. Embaixo,

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o endereço dali e, em vermelho, com letras maiúsculas, num canto, “CONFIDENCIAL” e, um pouco mais à frente, entre parênteses, “Deverá ser entregue em mãos pelo portador”. Chegamos à porta, onde um homem segurava a cabeça da fila: – Quero falar com o responsável da firma aqui em São Paulo... Antes que o funcionário abrisse a boca, o Trotipe apresentou-lhe o envelope. O sujeito ali leu e indicou um outro a quem nos dirigimos, e que, em seguida, nos convidou a acompanhá-lo até o andar superior. Entrou em uma sala, logo retornando, mandando-nos para dentro. Nisso saía um provável pretendente ao cargo. Levantou-se o homem atrás da escrivaninha, cumprimentou-nos, indicou-nos cadeiras, e os três nos sentamos. Abriu o envelope. Dentro, apenas uma folha onde se lia: “Sou o homem certo para o cargo” e a assinatura. No canto direito, o nome completo do Tro, endereço e telefone. – Mas o que quer dizer isso? – perguntou o senhor Pereira, surpreso. – Doutor, desculpe-me o método não muito ortodoxo, mas sou de ação e jamais poderia perder tempo em filas. Tenho ambição, iniciativa e pressa em subir na vida. Vou fazer esta filial ficar maior do que a matriz. – Mas foi uma atitude desonesta de sua parte, retrucou o contratante. – Creio que inteligente seria o termo mais exato. Pode não ser muito formal, mas o mundo evoluiu pela ação dos nãoconformistas. – O senhor preenche todos os requisitos? – Todos os pedidos e mais alguns, chefe. – Qualquer coisa, lhe informamos. Despedimo-nos do cara lá e, já na rua, o Tro olhava o pessoal da fila com um ar de piedade que só ele sabe demonstrar. Tiro e queda! À tarde do mesmo dia o telefone dele tocou. Da firma. Convocandoo. Até hoje, se não conseguiram outro gerente, estão esperando por ele...

Você sabia... ...que a instituição do Dia Mundial da Fotografia em 19 de agosto se deve ao fato de que, nessa data, em 1839, o francês Louis Daguerre obteve o reconhecimento científico do processo que inventou o daguerreótipo (processo fotográfico feito sem uma imagem negativa)? Apresentado na Academia Francesa de Ciências, este processo foi o primeiro a ser popularizado no mundo inteiro. Por essa época, um francês radicado no Brasil, Hércules Florence, desenvolvia também experimentos que levariam ao mesmo resultado.

Um lavrador pediu a São Pedro para ter uma audiência com Deus. Precisava exporLhe algo importante. O benevolente São Pedro agilizou a audiência e avisou o velho lavrador. – Deus, tenho muitos anos de experiência na lida com a lavoura. Estou notando que ultimamente o Senhor tem falhado no controle do tempo. Eu plantei uma enorme horta, e quando ela estava no ponto de colher e vender os produtos, o Senhor mandou uma terrível chuva de pedra e acabou com tudo. Logo depois plantei trigo, feijão... O Senhor mandou pouca chuva e muito sol. Colhi muito pouco... Parte da plantação morreu por falta d’água. Eu tenho muita experiência com as lavouras. Veja minhas mãos... Estão calejadas pelo cabo da enxada. São tantos e tantos anos cuidando da plantação, e vejo que o Senhor não tem tanta experiência assim. Gostaria que me permitisse controlar o tempo, nem que seja somente na minha fazenda. Tenho certeza de que tudo vai mudar para melhor. – Meu filho, vou atender ao seu pedido. De agora em diante, passará a controlar o tempo. Porém, somente em sua gleba de terra. – Tá bem, Deus. Então quero uma chuvinha somente para molhar a terra, para que possa passar o arado. Vou plantar milho. A chuvinha caiu conforme o pedido do lavrador. – Agora quero um dia de sol para o milho germinar. E o sol brotou. E assim foi... Uma vez pedia chuva, outra pedia sol. Sol e chuva, chuva e sol... A lavoura pendoou. O milho produziu espigas viçosas. Aí, exclamou o lavrador: – Viu, Deus? Como valeu a experiência! O homem colheu as espigas e as armazenou. Passados alguns dias, foi tratar dos animais. Pegou uma espiga e viu que somente existia o sabugo. Pegou outra, e outra... Não havia nenhum grão de milho. Voltou a procurá-Lo. – Senhor, onde errei? Eu controlei tudo certinho... – É! Mas duma coisa você se esqueceu. Pediu sol e chuva, chuva e sol... Deixou de pedir o que jamais poderia faltar: o vento. Eu sempre o mando junto com a chuva, pois serve para polinizar e fecundar as plantas...

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Piquete, agosto de 2011

Jornada da Perseverança A Jornada da Esperança, organizada por José Augusto Costa, realizou neste ano a primeira “Peregrinação Romeiros de São Miguel do Piquete”, em homenagem ao poderoso arcanjo, Príncipe da Paz. O itinerário dessa peregrinação passou por áreas rurais que foram Caminho do Sertão Bravio – Caminho do Ouro e Estrada Real –, uma rota histórica que permite o contato com a natureza e proporciona uma reflexão sobre a vida espiritual. Os peregrinos se reuniram na Matriz de São Miguel, em Piquete, no dia 13 de agosto, de onde partiram rumo à Basílica Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Passaram pela Canção Nova, em Cachoeira Paulista, e pela Igreja de Frei Galvão, em Guaratinguetá. No dia da Festa da Assunção de Maria, 15 de agosto, dia em que se deu o início da Quaresma de São Miguel, chegaram ao Santuário Nacional, em Aparecida. Peregrinação Uma peregrinação (do latim per agros, isto é, ‘pelos campos’) é uma jornada realizada por devotos de qualquer religião a lugares considerados sagrados. O termo “peregrino” surgiu na primeira metade do século XIII para denominar os cristãos que viajavam a Roma ou à Terra Santa (onde atualmente se encontram o Estado de Israel e os territórios palestinos) para visitar lugares sagrados – às vezes como castigo autoimposto – com o objetivo de pagar pecados ou cumprir penas canônicas. Dessas peregrinações surgiria, mais tarde, a idéia das Cruzadas, grupos enviados para “reconquistar” os lugares que consideravam sagrados pelos cristãos e que estavam em poder de povos de outras religiões. As peregrinações ocorrem desde os tempos mais remotos, mesmo nos períodos em que predominavam costumes ou ritos pagãos. Existem registros de locais de peregrinação ofuscados pela própria religião cristã, como no caso da Catedral de Santiago de Compostela, que pode ter sido construída em uma rota de peregrinação pagã, a Finisterra (fim-da-terra), que levava à costa ocidental para ver o deus Sol “morrer” no mar e, no dia seguinte, “ressuscitar” no Oriente. As primeiras peregrinações do cristianismo datam do início do século IV e tinham por destino a Terra Santa. Para peregrinar há que se ter em conta não se tratar apenas do ato de caminhar ou executar um trajeto com determinado número de quilômetros; para peregrinar carece-se de “caminhar-se motivado ‘por’ ou ‘para’ algo”. A peregrinação tem, assim, sentido e valor específicos para cada pessoa que a executa. Para os que desejarem mais informações sobre a Jornada da Perseverança: Telefone: (12) 3156-2043 email: jornada.perseveranca@bol.com.br ou na página da internet: www.jornadaperseveranca.multiply.com

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Acertos e Equívocos Abigayl Lea Meu professor de Etnologia na Federal de Santa Catarina afirmou que a opção do Brasil em relação às terras indígenas foi a melhor possível. Americano, disse que os Estados Unidos concederam a propriedade de terra aos seus índios. Muitos deles se aventuraram em empreendimentos – serrarias, por exemplo – contraíram dívidas e tiveram de vender suas terras para saldálas. As terras que estão ao uso dos índios brasileiros pertencem ao governo federal, que tem a obrigação de protegê-las. Com segurança, podemos afirmar que os nossos indígenas não estão em suas terras ancestrais. Primeiro, porque obtinham seus alimentos na mata e seguiam as manadas dos animais. Também porque foram empurrados para oeste pelos colonizadores. Há, ainda, o caso de grupos que se dividiram por acontecimentos inusitados como a presença de um cetáceo desconhecido, o boto (sotalia brasiliensis), que assustou os xavantes. Os que não viram o animal atravessaram o rio das Mortes, afluente do Araguaia; os que viram, apavorados, permaneceram na margem direita do rio. É, portanto, infrutífera a discussão sobre se a terra pertencia ou não a determinada etnia. Para reforçar, basta citar o período mais recente que os índios do Acre e de Rondônia chamam de época da “correria”, quando eram obrigados a mudar constantemente suas aldeias, empurrados por madeireiros, seringueiros e garimpeiros. A Funai – Fundação Nacional do Índio – precisa ser o único órgão que se responsabilize pelos nossos indígenas. Ligada diretamente à Presidência da República, deve deter todo o conhecimento de atos e resoluções que a eles digam respeito, seja na saúde, na educação ou na ocupação de terras. Assim, devem ser evitadas as manifestações dos indígenas com relação a disputas de terras e áreas que serão utilizadas para barragens, estradas e linhas de transmissão. A Funai deve antecipar-se e discutir com os índios nas aldeias, colocando-os a par da necessidade dos empreendimentos. Já que as terras são federais, pode-se até discutir um ressarcimento, por exemplo, redesenhando-se o mapa da área. O indispensável é que haja mata e rio limpo. Seria, portanto, de bom alvitre que a Funai demarcasse com presteza as áreas onde se encontram os grupos não contactados.

da Silva Um grade parque pode ser demarcado ficando em seu interior as nascentes dos rios límpidos utilizados pelas aldeias. A mineração é hoje o maior problema para as aldeias indígenas pela presença dos garimpeiros, quase sempre de infeliz memória, e pela contaminação das águas. Os índios devem ser informados de que nem mesmo os civilizados têm direito às riquezas do subsolo. Os minérios pertencem à União, portanto a todo o povo brasileiro. É preciso obter licença para explorar uma lavra. As grandes mineradoras podem ajudar a solucionar o problema da degradação do terreno e da poluição das águas, indicando jazidas de pequeno porte e dando assistência técnica para os pequenos mineradores. O Governo compraria toda a produção, evitando a presença de especuladores. A jazida seria esgotada e os próprios pequenos mineradores fariam a recuperação da área. Cabe à Funai decidir se as jazidas existentes nas áreas indígenas podem ser exploradas exclusivamente por eles com assistência indicada pelo próprio órgão. Quanto à educação indígena universitária, somos de parecer que o índio brasileiro poderá freqüentar qualquer universidade pública ou privada, dispensando o regime de cotas. Como as aldeias indígenas muitas vezes se situam em locais distantes das universidades, a Funai poderia instar com a Universidade Federal mais próxima que crie cursos exclusivos para índios, os quais receberão bolsa integral. Temos notícias de que os índios brasileiros têm-se reunido com representantes tribais de outros países. Fico feliz porque nossas lideranças indígenas são equilibradas e podem carrear boas propostas para o bem-estar das sociedades tribais de todo o mundo. O bom do índio é que gosta de conversar, de trocar idéias. Aproveito a oportunidade para agradecer a todos os brasileiros (e estrangeiros) que prestaram algum serviço aos índios do Brasil, mesmo cometendo erros, mas sempre procurando corrigi-los. São religiosos, militares, cientistas, ongueiros, funcionários do Governo – executivo, legislativo e judiciário, que não deixaram as coisas acontecerem – tomaram providências. Sem esquecer os aviões da FAB. Homenageio a todos na pessoa da enfermeira protestante que percorria todo o estado do Mato Grosso, lutando para salvar os índios da tuberculose. ***************


O ESTAFETA

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Piquete, agosto de 2011

Foto Andréa Marcondes

José Palmyro e a paixão pela fotografia

Dia Mundial da Fotografia No dia 19 de agosto comemorou-se o Dia Mundial da Fotografia. As comunidades virtuais se movimentaram parabenizando os que vêm se dedicando a compartilhar imagens de nosso dia-a-dia com amigos e até desconhecidos. A fotografia, com o advento das máquinas digitais, tornou-se um hobby acessível a todos. Muitos vêm descobrindo o prazer de congelar paisagens e momentos. Se há alguns anos eram necessários rolos e rolos de “36 poses” para se registrar uma festa entre amigos, por exemplo, correndose o risco de as fotos não agradarem, hoje é possível tirar centenas delas, armazená-las todas em um computador e imprimir somente as melhores, com as quais se pode presentear os mais queridos. Não podemos esquecer, ainda, as facilidades de manuseio das imagens, que nos permite rejuvenescer, embelezar ou descartar algo ou alguém indesejável... Fotógrafos como Dogmar Brasilino, José Matos, Almir Pantoja e, mais recentemente, Ernâni e Alzira Beckmann e Dalva, tinham que tomar todos os cuidados para enquadrar perfeitamente as fotos e não “queimá-las”... Caso contrário, quem os havia contratado certamente ficaria uma fera... Isso sem falar no prejuízo financeiro... Entre os piquetenses vêm crescendo os amantes da fotografia. E talentos estão surgindo... Sem citar nomes, para não esquecer ninguém, basta uma visita às comunidades virtuais para encontrar imagens fantásticas que registram os mais diversos momentos – paisagens, encontros entre amigos, pássaros, denúncias... Em Piquete, os motivos para se fotografar são muitos. Aproveitemos...

Dizem que o melhor álbum de fotografias é a nossa memória, pois nela ficam gravados fotos reais de momentos bons e ruins de nossa vida. Dizem, ainda, que a fotografia é, antes de tudo, um testemunho. Quando se aponta a câmera para algum objeto ou sujeito, constrói-se um significado, faz-se uma escolha, seleciona-se um tema e contase uma história. Cabe a nós, espectadores, o imenso desafio de lê-las. Era com um olhar carinhoso e crítico que José Palmyro Masiero olhava quase diariamente para sua coleção de imagens de Piquete. Em 1968, mudou-se com a família para São José dos Campos. As circunstâncias levaram-nos para a cidade grande. No entanto, não se esqueceu da Cidade Paisagem – cognome dado por ele a Piquete em concurso promovido pelo IBGE, em 1962. A paixão pelo torrão natal fez com que colecionasse tudo que se referisse a Piquete: jornais, revistas, livros, documentos... Escrevia saborosas crônicas sobre a cidade, mas foi por meio de sua coleção de fotografias reunidas ao longo de toda a vida que preservou Piquete junto de si. Na fotografia, encontrava a ausência, a lembrança, a separação, as pessoas que haviam falecido... Para ele, olhar fotografias era um ato prazeroso. Era a necessidade de prolongar o contato, a proximidade, o desejo de que o vínculo com a cidade e seus moradores persistisse. No laboratório fotográfico mantido em sua casa, emocionava-se quando revelava negativos de Piquete. A cidade emergia sempre de uma forma nova

para o seu olhar. Parece que foi ontem, mas há dez anos, a 14 de agosto de 2001, “Yeyé” Masiero nos deixou. Não assistiu à rápida evolução das máquinas fotográficas e da fotografia. Em um mundo completamente imagético como o atual, a fotografia está presente em todos os momentos; seja por meio de câmeras comuns, digitais ou de celulares, a imagem tornou-se elemento central neste midiatizado mundo. Nos dias de hoje, fotografar Piquete é muito mais fácil. Se Yeyé estivesse vivo, certamente iria se deliciar com a tecnologia e a coleção de mais de três mil imagens deixadas por ele seria ainda maior.

Fotos arquivo Pro-Memória

Foto Arquivo Pro-Memória


AGOSTO 2011  

Ed. 175 - Ano XIV

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