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Verde

ANO VI - EDIÇÃO No 338 FORTALEZA - CEARÁ - BRASIL Terça-feira, 20 de maio de 2014

PRAIA DO FUTURO

Nem a Copa trouxe o bairro para o presente

A região lembrada pela orla e barracas de praia sofre com ruas vazias, insegurança, falta de saneamento básico e outros problemas. A antiga Praça 31 de Março sequer ficou pronta para o Mundial da Fifa.

Págs. 6, 7, 8 e 9

ENTREVISTA

O mundo vive um momento de desindustrialização? Confira conversa entre o gerente executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria, Shelley Carneiro, e a editora do Caderno O estado Verde. Pág. 5

FOTO: TIAGO STILLE

CURIOSIDADE

A cada nascimento de uma criança, uma árvore será plantada

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FORTALEZA - CEARÁ - BRASIL Terça-feira, 20 de maio de 2014

VERDE

Coluna Verde TARCILIA REGO

tarcilia_rego@terra.com.br

ESTE ANO

Barbados é o país escolhido pela ONU para ser o anfitrião do Dia Mundial do Meio Ambiente. O pequeno Estado Insular, um país de 432km², população de 270 mil pessoas, é altamente vulnerável aos efeitos da Mudança Climática — dos impactos agrícolas à destruição de seus ecossistemas costeiros. É considerado o país mais oriental do Caribe. No entanto, essa pequena nação tem dado passos largos para reduzir sua pegada de carbono e fornecer energia limpa e renovável, bem como oportunidades para um crescimento econômico verde para sua população. Dentre outras coisas, Barbados se comprometeu a aumentar sua quota de energia renovável para 29% de todo o consumo de energia da ilha até 2029. Isso cortaria cerca de US$ 283.5 milhões de dólares do custo total de eletricidade e reduziria as emissões de CO2 em 4.5 milhões de toneladas, de acordo com o governo. Um belo exemplo a seguir. MAS POR AQUI... Cada dia as coisas ficam mais feias. A Copa está à nossa porta e a Cidade, como diria o meu pai se aqui estivesse, está muito “malamanhada”. Era assim mesmo que ele falava, emendado, “malamanhada” ao invés de “mal amanhada”. Ele não suportava ver a nossa Capital suja e desarrumada que falava a expressão, de que por sinal, gosto muito. DIA NACIONAL DA INDÚSTRIA É comemorado em 25 de maio em memória de Roberto Simonsen, que foi o patrono da indústria nacional, falecido em 25 de maio de 1948. Simonsen foi um engenheiro, industrial, administrador, professor, historiador e político, além de membro da Academia Brasileira de Letras. A solenidade comemorativa do Dia da Indústria, no Ceará, acontece na próxima quinta (22), às 19h, no La Maison Dunas. O governador do Estado, Cid Gomes; o ex-presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Materiais Elétricos do Ceará (Simec/CE), Valdelírio Pereira de Soares Filho, fundador da Microsol; e Francisco Demontiê Mendes Aragão, do setor de pedras ornamentais, serão os agraciados com a Medalha do Mérito Industrial.

OITIVA Do ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli, junto à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras no Senado, está marcada para hoje, terça (20); já o depoimento da presidente Graça Foster ficou agendado para a próxima terça, 27 de maio. Segundo a Agência Câmara, todos os depoimentos serão realizados a partir das 10h15, no plenário 2 da Ala Senador Nilo Coelho. Que falem a verdade. PASSOU Mais um Dia Mundial da Reciclagem. No sábado (17/05) a Reciclagem foi lembrada, pelo menos no calendário ecológico. A reciclagem é reconhecida como importante, mas parece esquecida até na data. O objetivo é conscientizar a sociedade sobre a importância da coleta, separação e destinação de recicláveis. No entanto, do sindicato patronal às organizações que congregam catadores, passando por Organizações Não Governamentais (ONG´s) com destacada atuação no setor empresarial e social, nenhuma comemorou a data, para não dizer, lembrou. Reflexão: “Muitas coisas não ousamos empreender por parecerem difíceis; entretanto, são difíceis porque não ousamos empreendê-las”. Sêneca.

AGENDA VERDE 21 DE MAIO DIA MUNDIAL PARA A DIVERSIDADE CULTURAL PARA O DIÁLOGO E O DESENVOLVIMENTO

• Dando seguimento à adoção da Declaração Universal da Diversidade Cultural, em Novembro de 2001, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o dia 21 de Maio como o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento. O Dia é uma oportunidade para se aprofundar a compreensão sobre os valores da Diversidade Cultural e para se aprender melhor sobre como “viver juntos”.

DIA 22 DE MAIO SOLENIDADE COMEMORATIVA DO DIA DA INDÚSTRIA

• A solenidade comemorativa do Dia da Indústria acontece no próximo dia 22, às 19h, no La Maison Dunas, em Fortaleza. Na ocasião, três personalidades que marcaram a história da indústria cearense, pelo empreendedorismo e contribuição ao desenvolvimento econômico do Ceará, serão homenageadas pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). O governador do Estado, Cid Gomes; o ex-presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Materiais Elétricos do Ceará (Simec/CE), Valdelírio Pereira de Soares Filho, fundador da Microsol; e Francisco Demontiê Mendes Aragão, do setor de pedras ornamentais, serão os agraciados com a Medalha do Mérito Industrial.

22 DE MAIO DIA INTERNACIONAL PARA A DIVERSIDADE BIOLÓGICA

• Foi criado pela Organização das Nações Unidas em 1992, no dia da aprovação do texto final da Convenção da Diversidade Biológica (Convention on Biological Diversity). O objetivo do Dia Internacional da Biodiversidade é aumentar a conscientização da população mundial para a importância da diversidade biológica, e para a necessidade da proteção da biodiversidade em todo o planeta.

DIA 30 DE MAIO PRÊMIO ANA 2014

• As inscrições para o Prêmio ANA 2014 estão abertas até o dia 30 de maio. A premiação irá reconhecer boas práticas relacionadas à água em sete categorias: Empresas; Ensino; Governo; Imprensa; Organismos de Bacia; Organizações Não Governamentais (ONG); e Pesquisa e Inovação Tecnológica. Os trabalhos participantes devem contribuir para a gestão e o uso sustentável dos recursos hídricos do País. A Comissão Julgadora selecionará três iniciativas finalistas e a vencedora de cada uma das categorias. Os vencedores serão conhecidos em solenidade de premiação marcada para 3 de dezembro de 2014 em local a ser definido. Interessados em participar do concurso podem se inscrever no site www.ana.gov.br/premio. Em 2014, o Prêmio traz uma grande novidade para os vencedores de cada uma das sete categorias: além de receberem o Troféu Prêmio ANA, ganharão uma viagem com despesas pagas para o maior evento do planeta sobre recursos hídricos – o Fórum Mundial da Água –, que acontecerá

GESTORA E EDUCADORA AMBIENTAL

Verde

O “Verde” é uma iniciativa para fomentar o desenvolvimento sustentável do Instituto Venelouis Xavier Pereira com o apoio do jornal O Estado. EDITORA: Tarcília Rego. CONTEÚDO: Equipe “Verde”. DIAGRAMAÇÃO E DESIGN: Wevertghom B. Bastos. MARKETING: Pedro Paulo Rego. JORNALISTA: Sheryda Lopes. TELEFONE: 3033.7500 / 8844.6873


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CLIMA

Estudos alertam: camada de gelo da Antártida começou a ruir

Gases de efeito estufa continuam contribuindo para desestabilizar a camada de gelo na região. A Nasa demonstra preocupação com o resultado de estudos e destaca as conclusões DIVULGAÇÃO

POR TARCILIA REGO* tarciliarego@oestadoce.com.br

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ois artigos científicos divulgados nas revistas “Science” e “Geophysical Research Letters”, trazem novas previsões para a Antártida Ocidental, considerada há dez anos como um das regiões mais estáveis do mundo. Ambos os estudos descobriram que uma grande parte das geleiras imponentes começou a desmoronar e, aparentemente, seu contínuo derretimento não pode mais ser contido. A Agência Espacial Norte Americana (Nasa), considerando a seriedade das conclusões , convocou uma conferência de imprensa urgente, para destacar a urgência dos estudos. Durante a coletiva que aconteceu dia 12 de maio, em Houston, no Texas, os cientistas afirmam que o Aquecimento Global causado pela liberação de Gases de Efeito Estufa (GEE) resultado de ações antrópicas em todo o planeta, tem contribuído para desestabilizar a camada de gelo, embora outros fatores também possam estar envolvidos. É provável que o aumento do nível do mar continue a ser relativamente lento até o final do Século 21, mas os cientistas acrescentaram que em um futuro não tão distante, poderá acelerar significativamente, conduzindo a sociedade global a uma crise. Segundo o pesquisador, Thomas P. Wagner, “isso está realmente acontecendo”. Ele dirige programas da Nasa sobre gelo polar e ajudou a supervisionar algumas das pesquisas pertinentes ao tema. . “Camada de gelo da Antártida começou a ruir e não há nada que possamos fazer para deter o gelo”. Mas ainda estamos limitados por aspectos da Física como a velocidade do derretimento , disse o especialista, durante a entrevista na Agência Espacial Americana.

40 ANOS O estudo incorpora 40 anos de observações que levam à conclusão de que as geleiras próximas ao Mar de Amundsen “passaram do ponto de não retorno”, segundo o glaciologista e autor principal de um dos estudos, Eric Rignot, da Universidade da Califórnia (EUA). “Hoje apresentamos evidência observacional de que um grande setor da camada de gelo da Antártida Ocidental entrou em um recuo irreversível”, disse Rignot na coletiva de imprensa da Nasa. A camada de gelo da Antártida Ocidental fica em uma depressão no solo em forma de bacia, com a base do gelo abaixo do nível do mar. A água quente do oceano está fazendo com que o gelo que fica ao longo da borda desta tigela afine e recue. À medida que a extremidade da frente do gelo se afasta da borda e afunda na água, o derretimento passa a ser muito mais rápido do que antes. A equipe do Dr. Rignot utilizou medições por satélite e ar para documentar um recuo de seis geleiras que foi acelerando

ao longo das últimas décadas e escoam para a região do Mar de Amundsen. Com o mapeamento atualizado do terreno abaixo da camada de gelo, a equipe foi capaz de descartar a presença de quaisquer montanhas ou colinas significativas o suficiente para retardar este derretimento. O estudioso explicou que o desaparecimento apenas dessas seis geleiras poderia fazer com que o mar subisse em torno de 1,2 metros, possivelmente dentro de dois séculos. Ele acrescentou que o seu desaparecimento provavelmente irá desestabilizar outros setores da camada de gelo, de modo que o aumento final no nível do mar poderia ser o triplo disso. NO BRASIL O secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Carlos Nobre, em audiência pública do Senado Federal, dia 13 de maio, fez referência aos estudos que, para o pesquisador brasileiro, desafiam o postulado dos grandes mantos de gelo estáveis ao

mostrar a instabilidade e a possibilidade de esses blocos caírem no oceano numa escala de tempo de 200 a 300 anos. “Isso pode representar o aumento do nível do mar de alguns metros. Essas são as surpresas das quais não se falava há 20 anos”, comentou. “De fato, a manifestação dos extremos climáticos, principalmente aqueles decorrentes da Mudança Climática e do Aquecimento Global, estão se manifestando. Esse é um aspecto muito importante que deve nortear o debate sobre adaptação”, defendeu. SOBRE O MAR DE AMUNDSEN O Mar de Amundsen [o nome homenageia o explorador norueguês, Roald Amundsen, que explorou a área em 1929] é um mar localizado no Oceano da Antártida, ao norte da costa da Terra de Marie Byrd e permanentemente coberto por gelo, cuja camada, que chegava a 3km de espessura, está diminuindo devido ao Aquecimento Global. A Terra de Mary Byrd é uma porção de terra da Antártida ao sul do Oceano Pacífico.


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ARTIGO

Como a sustentabilidade interfere na gestão de pessoas? A PRESERVAÇÃO AMBIENTAL NO DIREITO

POR ROBERTA VALENÇA*

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título também poderia ser “como a gestão de pessoas interfere na sustentabilidade?”. A verdade é que uma coisa depende da outra. Essa relação estreita se dá porque toda transformação organizacional necessária para as mudanças de impacto na estratégia empresarial dependerá do alinhamento dos objetivos da organização com cada um dos colaboradores. É fato que o RH é protagonista nessa discussão estratégica. Mas, além disso, há a oportunidade de ter um olhar interno para as próprias práticas, como o cuidado com o ciclo que envolve a gestão de pessoas, desde a contratação até o desligamento ou aposentadoria, com propósitos bem maiores do que simplesmente preencher vagas de emprego. Questões como “há alguma coisa que seja realmente importante em sua vida”, “tem capacidade de servir aos outros ou de servir um propósito mais elevado” ou ainda “deseja realmente contribuir para um mundo melhor” levam o gestor a observar a capacidade das pessoas de assumir compromissos na vida real e a avaliar a maturidade do colaborador. Quando ele já tem certo grau de experiência (e não me refiro à idade), sabe quais são as causas em que realmente acredita. O ideal não é contratar pessoas que precisam de emprego e sim as que compartilham as mesmas causas da empresa. Elas fazem em prol do que acreditam. Os objetivos, metas e indicadores devem estar carregados de significado,

crença e causa que geram o salto do patamar do planejamento para a ação. Também é uma atribuição do RH desenvolver bem o papel do líder nesse contexto. Ele deve ser a conexão para transformar aptidões coletivas em desenvolvimento de inteligências e capacidades maiores do que a soma dos talentos individuais. É necessário tempo para conseguir pensar com calma, identificar necessidades mais prementes no grupo e, assim, iniciar um programa de incentivo com recompensas de valor para a equipe. Trabalhar com o incentivo na visão de longo prazo é válido porque as pessoas estão no modo operandi e isso atrapalha a produtividade assertiva. Colaboradores no automático não enxergam razão no que fazem, não se envolvem e, consequentemente, produzem resultados medíocres. Como facilitadora de projetos de melhoria da qualidade de vida dos colaboradores, a área também deveria inserir na agenda da empresa contribuições em temas como ecoeficiência no uso dos recursos e, principalmente, no âmbito da diversidade, com objetivo de diminuir a desigualdade nas organizações, sejam elas relacionados à etnia, orientação sexual ou gênero. Os desafios são grandes e o RH tem pela frente a redefinição de seu próprio papel, ousando em camadas cada vez mais profundas e estratégicas para o core business da empresa. Vamos fazer a lição de casa? *Roberta Valença é CEO da Arator, consultoria especializada em projetos de sustentabilidade com inovação.

Ao emitir voto em uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, em 2005, o ministro Celso de Melo demonstrou sobejamente a importância que ocupa a preservação no ordenamento jurídico brasileiro. A seguir alguns tópicos: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Trata-se de um típico direito de terceira geração (ou de novíssima dimensão), que assiste a todo o gênero humano (RTJ 158/205-206). Incumbe, ao Estado e à própria coletividade, a especial obrigação de defender e preservar, em benefício das presentes e futuras gerações, esse direito de titularidade coletiva e de caráter transindividual (RTJ 164/158-161). O adimplemento desse encargo, que é irrenunciável, representa a garantia de que não se instaurarão, no seio da coletividade, os graves conflitos intergeneracionais marcados pelo desrespeito ao dever de solidariedade, que a todos se impõe, na proteção desse bem essencial de uso comum das pessoas em geral”. Incolumidade A incolumidade do meio ambiente não pode ser comprometida por interesses empresariais nem ficar dependente de motivações de índole meramente econômica, ainda mais se se tiver presente que a atividade econômica, considerada a disciplina constitucional que a rege, está subordinada, dentre outros princípios gerais, àquele que privilegia a “defesa do meio ambiente” (CF, art. 170, VI), que traduz conceito amplo e abrangente das noções de meio ambiente natural, de meio ambiente cultural, de meio ambiente artificial (espaço urbano) e de meio ambiente laboral. Doutrina. Os instrumentos jurídicos de caráter legal e de natureza constitucional objetivam viabilizar a tutela efetiva do meio ambiente, para que não se alterem as propriedades e os atributos que lhe são inerentes, o que provocaria inaceitável comprometimento da saúde, segurança, cultura, trabalho e bem-estar da população, além de causar graves danos ecológicos ao patrimônio ambiental, considerado este em seu aspecto físico ou natural. Equilíbrio O princípio do desenvolvimento sustentável, além de impregnado de caráter eminentemente constitucional, encontra suporte legitimador JORNALISTA E ESCRITOR

em compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro e representa fator de obtenção do justo equilíbrio entre as exigências da economia e as da ecologia, subordinada, no entanto, a invocação desse postulado, quando ocorrente situação de conflito entre valores constitucionais relevantes, a uma condição inafastável, cuja observância não comprometa nem esvazie o conteúdo essencial de um dos mais significativos direitos fundamentais: o direito à preservação do meio ambiente, que traduz bem de uso comum da generalidade das pessoas, a ser resguardado em favor das presentes e futuras gerações. Proteção pública É lícito ao Poder Público - qualquer que seja a dimensão institucional em que se posicione na estrutura federativa (União, Estados-membros, Distrito Federal e Municípios) - autorizar, licenciar ou permitir a execução de obras e/ou a realização de serviços no âmbito dos espaços territoriais especialmente protegidos, desde que, além de observadas as restrições, limitações e exigências abstratamente estabelecidas em lei, não resulte comprometida a integridade dos atributos que justificaram, quanto a tais territórios, a instituição de regime jurídico de proteção especial (CF, art. 225, § 1o, III).


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INDÚSTRIA

Shelley de Souza Carneiro JOSÉ SOBRINHO-FIEC

POR TARCILIA REGO tarciliarego@oestadoce.com.br

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onfira entrevista com o gerente executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Shelley de Souza Carneiro. O executivo participou da 13a Reunião do Conselho Temático de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Coema) da CNI, regionais do Nordeste, recentemente, na sede da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), em Fortaleza e conversou com Tarcilia Rego sobre energia, incertezas, desafios, sustentabilidade, Copa 2014 e desindustrialização.

[OeV] – Parece que buscar o mais fácil, é melhor... [SSC] – Sim, é o que você conhece, é a base do seu trabalho. É simples, larga de lado o que é incerteza, e a incerteza, que não é previsível, está começando a nos pegar. A atual complexidade dos projetos envolve uma maior participação do setor industrial e de todos os setores dentro de um processo não repetitivo e não linear, mas num processo que nos oferece grandes desafios e oportunidades, também.

O estado Verde [OeV] – O País vive uma crise energética? Shelley de Souza Carneiro [SSC] – Não é uma coisa só, isolada. O mundo é muito mais dinâmico hoje, passamos por crise que nunca passamos. Mas o Brasil não precisa estar nesta situação, principalmente na área de energia, onde o País poderia “dar um banho”. Tem recursos naturais em abundância, grandes projetos. Existe sim, uma má gestão desse processo, indefinições jurídicas do processo. [OeV] – Como indefinições jurídicas do processo? [SSC] – Existe uma série de problemas decorrentes das pautas políticas que não são cumpridas ou cumpridas sem continuidade. Existe uma série de problemas que lá na ponta vai afetar o consumidor final. Estou falando sobre uma grande crise econômica, uma grande crise energética, uma crise de falta de água, e isso faz subir o preço da energia, assustadoramente. [OeV] – Energia barata traz mais competitividade para a indústria? [SSC] – Claro. Basicamente a eletricidade é o coração de todo o processo industrial, aliás, em tudo na vida. Para tudo a energia é fundamental. Posso dizer que todo o aumento que está fora da nossa perspectiva traz aumen-

com dificuldades financeiras tremendas em alguns segmentos, existem preocupações, dificuldades, eu sou um “cara” muito otimista. Eu não acredito na desindustrialização, nós precisamos da indústria. Vivemos um momento no qual a indústria tem que aprender a administrar as incertezas. É fácil trabalhar com certezas, ninguém quer aprender a administrar as incertezas que sempre são colocadas de lado.

[OeV] – Copa 2014 é uma coisa boa para o País como um todo? [SSC] – Poderia ser. Trouxe benefícios, sim, mas claro que podemos fazer uma coisa muito melhor. O Brasil tem competência para fazer melhor do que está sendo feito. Digo isso em termos de infraestrutura e participação mais integrada da sociedade e do Governo. Erramos, mas não deixa de ser um projeto importante.

to seríssimo para a competitividade do setor industrial. Você começa com um aumento na conta de energia e aí você vai somando na cadeia: tributos e uma lista de outras coisas... é uma questão de sustentabilidade, sem isso não temos como enfrentar um mercado global que já é vulnerável.

tar desafios. A indústria precisa ter uma planificação de seus custos, não pode ser pega de surpresa. A instabilidade afeta muito o dinamismo do setor industrial, muito, tanto na continuidade como na manutenção de seu processo predeterminado em termos de custos, mas também, na estabilidade de um mercado global.

[OeV] – Esse é um desafio? [SSC] – De fato nós não temos estabilidade, nada é pré-fixado no Brasil, o que inviabiliza a preparação do setor que sempre acaba sendo tomado de surpresa pelas decisões governamentais. Mas o setor industrial está acostumado a enfren-

[OeV] – O mundo vive um momento no qual a participação da indústria na produção e na geração de empregos está caindo. Vivemos um processo de “desindustrialização”? [SSC] – Eu não vejo dessa maneira, não. Mesmo vendo o setor industrial

[OeV] – Por que as reuniões do Coema acontecem nas regionais e não em Brasília? [SSC] – Levamos as reuniões para todas as regiões do Brasil. Elas são importantes para conhecer as particularidades regionais, os problemas do setor empresarial em torno de temas comuns e elaborar uma proposta padronizada trabalhando os problemas globais, nacionais, numa dimensão regional e local. Não adianta ficar em Brasília falando, discutindo coisas que muitas vezes são estranhas a determinadas regiões. Cada regional tem suas especificidades e precisamos entender suas dificuldades e potencialidades para que possamos ter argumentos mais fortes nas discussões em Brasília.


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PRAIA DO FUTURO

FOTOS: TIAGO STILLE

Nem a Copa trouxe o bairro para o presente

Nos finais de semana, barracas, sol, caranguejos e turistas. Durante a semana, a região tem ares de abandono, enfrenta problemas como pobreza, violência e a falta de infraestrutura POR: SHERYDA LOPES oev@oestadoce.com.br

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os fins de semana de sol ou feriados, a areia da praia fica cheia de banhistas. Às quintas-feiras, a famosa caranguejada e festas realizadas nas barracas atraem pessoas de várias idades. Estamos falando da Praia do Futuro, que é conhecida em Fortaleza como destino de turistas e fortalezenses. Porém, esse bairro da Regional II não se resume à orla marítima e seus atrativos. E enquanto nos finais de semana, a animação ocupa suas areias, nos dias úteis o que se vê é um bairro cheio de

problemas e de ruas vazias, além de expectativas de obras de revitalização. As construções de aspecto antigo, algumas abandonadas e inacabadas, contrastam com as estruturas modernas de algumas barracas que compõem o calçadão deserto. A falta de movimento inspira medo e andar por ali pode ser considerado sinal de loucura. A equipe de reportagem parou na Avenida Dioguinho para fotografar quando, em bom cearensês, um menino diz ao nosso fotógrafo: “Tu é doido, é má”? Com o seu jeito brincalhão, o garoto tenta alertar o profissional sobre o risco de assalto naquele lugar ermo, e que o ideal é que não deixe à mostra seu equipamento de tra-

balho. Não há passantes nas ruas, provavelmente para não serem assaltados ou terem sua sanidade questionada. SEM PLANEJAMENTO Segundo o arquiteto e urbanista Paulo Angelim, parte do aspecto de bairro fantasma deve-se a uma fundação histórica com baixo planejamento. Com a falta de espaços para comércio e outros serviços, poucas residências regularizadas se instalaram ali. “Historicamente foi um bairro onde as residências chegaram, mas a infraestrutura de comércio e serviço, não. Não houve a preocupação, de quem loteou no passado, de estimular ou criar uma centralidade de conveniência, dan-

do autonomia ao bairro”, analisa. Para ele, as ocupações irregulares de espaços públicos e privados também contribuem para degradar a região, mas não por conta da classe social dos que ali residem. “Há até donos de barraca de praia que moram no bairro, inclusive, o que é ótimo para questões de mobilidade. Porém, como o desenho urbano é caótico, criminosos se aproveitam da situação”, afirma. Sobre as diferenças de classes sociais entre os moradores, ele não crê que seja um problema. “O problema é não ter saúde, lazer e educação para todos. É perfeitamente possível que classes sociais diferentes convivam juntas”, defende.


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“Tu é doido, é má”? Brinca o menino ao ver nosso fotógrafo e sua câmera tas da União e Polícia Federal. Somente na atual gestão de Fortaleza, em 2013, elas foram reiniciadas, mas novamente paralisadas a pedido da própria Prefeitura, devido à impossibilidade do uso do material anteriormente adquirido. Concluída, a Praça terá duas quadras, pista de skate, área de exercícios físicos para a terceira idade, paisagismo e amplo espaço para convivência, segundo informações da Secretaria Executiva Regional II (SER II). Enquanto isso, moradores e turistas convivem com o abandono como conta o empresário Pedro Guilherme Bor-

toluzzi. Ele escolheu o bairro para morar e abrir a Barraca Baronda, próxima a então 31 de Março, quando chegou em Fortaleza, há 20 anos atrás. “Aqui está terrível, as pessoas não podem passear sem serem assaltadas”, reclama o barraqueiro, que não sabe mais o que fazer para se recuperar do prejuízo. Ele torce pela revitalização da Praça e do Bairro, onde ainda prevalece o medo de assaltos, ruas desertas e obras inacabadas. OBRAS DE INFRAESTRUTURA A Secretaria de Turismo informou FOTOS: TIAGO STILLE

A CELEUMA DA PRAÇA Entre os atrativos para que a população possa usufruir das ruas estão as praças. Na Praia do Futuro, que tem duas, o caso de uma delas chama a atenção. É a Praça 31 de Março, rebatizada em abril de Praça Dom Hélder Câmara, que há décadas espera por uma revitalização que nunca chega. Por trás dos tapumes que cobrem a obra, a área já se encontra coberta de mato, devido ao tempo em que está parada. A reforma da Praça estava no pacote de obras para a Copa do Mundo. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Turismo de Fortaleza, o local aguarda a autorização do Ministério do Turismo para a sua retomada, por meio da liberação de verbas. As obras tiveram início em 2011, mas foram paralisadas semanas depois por causa de irregularidades que geraram processos no Ministério do Turismo, Tribunal de Con-

FOTOS: TIAGO STILLE

Para promover ruas mais movimentadas é necessário que haja estruturas que atraiam moradores, o que, na visão do urbanista, já está acontecendo. A chegada do shopping Rio Mar no bairro Papicu, e de novos empreendimentos imobiliários no bairro Dunas, devem causar mudanças de forma gradual, atraindo comércio e serviço de qualidade, pela análise otimista de Angelim. Ele reforça ainda que o Governo pode intensificar esse aumento, implantando residências multifamiliares onde as condições ambientais assim o permitam.

A Praça Dom Hélder Câmara, antiga Praça 31 de Março, coberta de mato, aguarda reforma há décadas

ainda que recentemente a Praia do Futuro recebeu obras de infraestrutura que devem, aos poucos, trazer os moradores às ruas para caminhadas e passeios de bicicleta, além de proporcionar crescimento imobiliário. Por email, o órgão informou que as obras de requalificação no bairro, com investimentos de R$ 83 milhões, receberam, além de drenagem, pavimentação de concreto e parte da Zezé Diogo duplicada, iluminação nova, calçadão ampliado e ciclovia. A pavimentação rígida, que deve durar cerca de 40 anos, receberá o tráfego do Porto do Mucuripe, o que deverá aquecer o comércio na Avenida Dioguinho. As obras da primeira etapa (Caça e Pesca até a Praça 31 de Março) foram concluídas em dezembro do ano passado, enquanto a segunda etapa (31 de Março à Avenida Vicente de Castro) está com 96% dos trabalhos concluídos. BARRACAS DE PRAIA Mais antiga que a promessa de revitalização da Praça Dom Hélder Câmara é a questão polêmica das barracas ins-taladas na praia. Elas movimentam a economia e o turismo, mas também levantam discussões sobre meio ambiente e privatização de espaços públicos. O professor do departamento de geografia da UFC e do programa de pós-graduação Jeovah Meireles é contra a permanência daqueles empreendimentos. Para ele, além de privar a população do acesso à orla, que é de propriedade da União, as barracas trazem sérios problemas ao meio ambiente e deveriam se instalar em terrenos na Avenida Zezé Diogo, mais afastada do mar.


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O professor elogia a relação da população do bairro que vive na área sem barracas de praia e o meio ambiente. “A comunidade leva cadeiras para aproveitar o sol e aproveita a areia, numa relação mais equilibrada e sustentável com aquele ambiente”, analisa. “Já na área das barracas, para eu sentar tenho que pagar, consumir”, critica. Para ele, as barracas sairão a exemplo do que ocorreu em Recife e Salvador. A advogada e consultora da área de meio ambiente, Daniela Saboia, também, concorda com a retirada. Entre os problemas apontados estão poluição visual e desequilíbrio no ecossistema. “Aqui, o lobby turístico é grande demais, inclusive alimenta-se a ideia de que as barracas são parte da cultura de Fortaleza. Pode até ser, mas temos que mudar essa cultura, porque está errada”, denuncia. Para a presidente da Associação dos Empresários da Praia do Futuro, Fátima Queiroz, o impacto causado pelos estabelecimentos é bem menor que aquele proveniente das favelas do Bairro. “Nós fazemos nossa coleta de lixo com uma empresa particular, sem ônus para os cofres públicos, e tomamos todo o cuidado para minimizar os impactos. Já essas comunidades despejam os dejetos no mar, por meio do sistema de drenagem, porque não tem saneamento adequado”, esclarece, destacando que a discussão em torno das barracas é “exagero dos ambientalistas”. A empresária afirmou ainda que os estabelecimentos movimentam a economia e geram cinco mil empregos, o que é “muito importante para a Cidade”. Sobre as obras que vêm sendo realizadas pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, Fátima afirmou que elas mudarão a relação das pessoas com o bairro, beneficiando turistas, banhistas e moradores. O projeto, segundo sua avaliação, tem estimulado iniciativas da construção civil, e está ocupando várias áreas no bairro. A dirigente empresarial espera que a Praça Dom Hélder Câmara seja entregue em breve. PREFEITURA É A FAVOR A titular da Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente, Águeda Muniz, informou, por meio de nota, que a Prefeitura de Fortaleza é a favor da permanência das barracas. “A praia é conhecida nacional e internacionalmente por ter esse tipo de ocupação. Por meio delas, criou-se e vem se criando uma centralidade urbana, e as centralidades urbanas são importantes para vitalidade das áreas”, defende.

FOTOS: TIAGO STILLE

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Moradores da Comunidade Raízes da Praia vivem em condições precárias Segundo a nota enviada, a secretaria mantém constante diálogo com a Associação de Empresários da Praia do Futuro e a Câmara dos Vereadores, buscando combater os impactos gerados pelos estabelecimentos comerciais e definir o que é permitido e o que não é. “Inclusive estamos em vias de assinar um Protocolo de Intenções no qual as barracas terão direitos e deveres assim como a Prefeitura terá seus deveres e direitos como cobrar licenciamento e cobrar o bom uso da utilização do espaço”, informa. A Seuma também modificou uma portaria relacionada à utilização sonora nas barracas, além de possibilitar o licenciamento relativo à publicidade. Sobre a questão do saneamento dos estabelecimentos, questões jurídicas envolvendo a área impossibilitam a ligação de esgotamento das barracas. A reportagem entrou em contato com a Cagece solicitando informações sobre o saneamento básico e abastecimento da Praia do Futuro, mas até o fechamento desta edição, não obteve resposta. Já a Secretaria de Turismo informou que entre as obras realizadas no bairro está a padronização das barracas de praia. Segundo o órgão, a medida regularizou a rede de esgoto, resolvendo o problema dos alagamentos na área, além de acabar com as chamadas “línguas

negras” (faixa de areia de cor preta, por causa do uso da drenagem como esgoto). DISCIPLINAMENTO Hoje, às 15h, na barraca Marulho, os empresários da Praia do Futuro vão se reunir com o prefeito Roberto Cláudio e entidades como a Seuma, Superintendência do Trabalho, Bombeiros, órgãos de defesa do consumidor entre outros, para firmar regras de disciplinamento das barracas. O documento, após ser assinado pelos presentes, deverá ser encaminhado à 5a Região de Recife, onde corre ação do Ministério Público para a retirada dos empreendimentos. RAÍZES DA PRAIA Uma das ocupações que fazem parte do cenário da Praia do Futuro é a Raízes da Praia, que há cinco anos se instalou num terreno localizado na Avenida César Calls. Com esgoto a céu aberto, ligação de energia elétrica e abastecimento de água improvisados, as 80 famílias vivem em condições precárias. Uma das moradoras, Rosilene Lima Mendes, militante do Movimento dos Conselhos Populares (MCP) afirma que falta saúde, educação e lazer para a população pobre do bairro, e que grande parte dos adultos é analfabeta. Já as crianças e adolescentes ficam vulneráveis ao uso de drogas e ao crime.

A praia é a principal fonte de diversão e sustento da comunidade, que conta com aulas de surf realizadas por voluntários, além de praticar a pesca. Outra atividade é o artesanato, que é vendido aos turistas nas barracas. “Não queremos sair da Praia do Futuro, pois é aqui que ficam nossos amigos e nosso sustento”, afirma a militante, que teme que as famílias sejam removidas para ficarem longe dos olhos de turistas que virão para a Copa do Mundo. A Habitafor, por intermédio de sua assessoria de comunicação, afirmou que a posse do terreno já é das famílias, mas que as obras dos apartamentos populares ainda não começaram devido a entraves no processo judicial. Outro obstáculo para a resolução do problema é que os ocupantes não aceitaram o modelo proposto pelo órgão, que quer construir apartamentos populares, ao contrário do que deseja a Raízes da Praia, que exige casas e quer a integração de mais dois terrenos vizinhos à área ocupada. Rosilene nega a informação. Segundo ela, no começo a comunidade resistiu à construção dos apartamentos, mas depois aceitou a proposta. “Eles não querem é a gente aqui. Querem nos mandar para um bairro bem longe dessa gente rica”, diz. A Prefeitura afirma que a política de segregação de classes nunca fez parte da história de Fortaleza, e que não é essa a razão para o impasse.


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REDE ESTADUAL DE ENSINO Há oito escolas do Estado na Praia do Futuro, ofertando Ensino Fundamental e Médio, nos turnos manhã, tarde e noite. Desse total, as escolas Arquiteto Rogério Fróes e Bárbara de Alencar contam com Educação de Jovens e Adultos (EJA). Por meio de sua assessoria de imprensa a, Secretaria de Educação do Estado informou ainda que está em fase de conclusão a Escola Estadual de Educação Profissional do bairro. Semelhante às 100 escolas em atividade no Ceará, a unidade terá capacidade para atender, em tempo integral, das 7h às 17h, 540 alunos. SEGURANÇA O aparato de segurança da Praia do Futuro é dividido em duas equipes: uma para a segurança da orla até a Avenida Zezé Diogo e outra para o restante do bairro, sendo que essa segunda equipe também cuida de áreas no Vicente Pinzón, Cidade 2000, Papicu, Dunas, entre outros bairros.

Segundo o capitão Alexandre Silveira, comandante do Bptur, divisão responsável pela parte que inclui a orla, são de três a quatro viaturas patrulhando a área, além de um grupo tático com quatro motocicletas. Há também 20 postos de serviço, com cerca de 40 policiais a pé e divididos em duplas, alternando entre a faixa de areia e o calçadão. O capitão afirma ainda que oficiais fiscalizam o policiamento durante as jornadas. Nos fins de semana, feriados, ou quando há operações especiais a equipe recebe reforços. Entre as ocorrências informadas pelo

oficial, estão roubos e furtos a turistas “desavisados”, que se afastam das barracas pela faixa de areia. Os crimes são cometidos em sua maioria por menores de idade usuários de crack. No restante do bairro e regiões próximas, duas viaturas do Ronda do Quarteirão, duas equipes do Raio e duas viaturas do Policiamento Ostensivo Geral cuidam da segurança. Nos finais de semanas e feriados, equipes da Cavalaria reforçam o aparato. As informações são do capitão Vicente de Paula, comandante da 2 a companhia do oitavo batalhão. Entre

as ocorrências destacadas pelo oficial estão pequenos furtos, assaltos nas paradas de ônibus e crimes relacionados ao tráfico de drogas. Segundo ele, “nos últimos tempos tem sido uma área relativamente tranquila, sem muitas ocorrências”. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, em abril de 2014 houve duas vítimas de assassinatos na orla e 23 na área que compreende Praia do Futuro e bairros vizinhos. A população, segundo o Censo do IBGE 2010, é de 6.630 habitantes na primeira parte do bairro de 11.957 na segunda.

A chegada das ocupações na Praia do Futuro

Em 1955, com o inicio da urbanização da Avenida Beira Mar, e antes disso, com a construção do Porto do Mucuripe, famílias de pescadores que moravam na então avenida em construção foram desapropriadas pela Prefeitura e se mudaram para a região da Praia do Futuro. Firmaram moradia ao redor da Lagoa do Coração e em outros locais como dunas e próximos à orla. Outra parte dos desapropriados se instalou nos arredores do Porto do Mucuripe, formando o que hoje conhecemos como Serviluz e Farol.

A instalação dessas famílias ocorreu de forma desordenada e sem condições de implantar um sistema de saneamento básico. Assim, a comunidade foi se formando com pouca qualidade de vida, e mantendo-se com a atividade pesqueira na Lagoa e no mar. Posteriormente, com a especulação imobiliária, a Lagoa do Coração foi aterrada, mas os moradores resistiram à desapropriação, fundando, em 1979, o Conselho Comunitário da Lagoa do Coração. Mas a primeira comunidade instala-

FOTOS: TIAGO STILLE

SAÚDE, EDUCAÇÃO E SEGURANÇA NA PRAIA DO FUTURO A reportagem levantou com a Prefeitura e o Estado quais são os equipamentos públicos destinados a garantir os direitos básicos da população da Praia do Futuro. No quesito saúde, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o Posto de Saúde Frei Tito atende a 15.937 habitantes. Já o Posto de Saúde Célio Brasil Girão atende a uma população de 17.115 moradores. A estrutura proporcionada pelo Governo do Estado, segundo informações da Secretaria da Saúde, é composta por uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24 horas) que, desde sua inauguração em 2012 até 5 de maio de 2014, atendeu 264.644 pessoas. O funcionamento é de domingo a domingo e atende a moradores da Praia do Futuro e também de bairros vizinhos. Já a Secretaria Municipal de Educação informou que há três escolas (Dom Aloísio Lorscheider, Frei Agostinho Fernandes e Frei Tito de Alencar Lima) na região e que todas possuem Centros de Educação Infantil, atendendo a crianças de um a cinco anos. Duas das escolas possuem postos de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao todo, são 2.324 alunos, sendo 199 alunos da EJA. As instituições possuem os programas Mais Educação e Atleta na Escola. A SME informou ainda que estão previstas a entrega de uma escola de Tempo Integral e de um Centro de Educação Infantil até o final da gestão Roberto Cláudio.

da na Praia do Futuro, segundo levantamento histórico realizado em 2005 em pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC), foi a do Luxou, nome atribuído a um clube que existia na época e que foi ocupado por quatro famílias vindas de Canindé. Por volta de 1985, a situação saiu do controle, sendo a área tomada por imigrantes vindos de vários municípios do Estado, como Chorozinho, Acaraú, Eusébio e também do Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão. Por dia, pelo menos uma família chegava ao local.


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ECOTURISMO

Viagens a áreas inóspitas são oportunidade para a fotografia

Saindo do roteiro tradicional, surgem novas formas de turismo. Além de aproveitar o momento para o lazer, é possível fotografar e ainda, cuidar do meio ambiente RÉGIS CAPIBARIBE

SHERYDA LOPES

oev@oestadoce.com.br

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iajar proporciona diversas experiências. É possível conhecer novas culturas e pessoas diferentes, adquirindo uma visão de mundo mais ampla. Em alguns casos, a estrela das viagens é o meio ambiente e a prática da fotografia é uma das protagonistas do roteiro. O fotógrafo cearense Régis Capibaribe já realizou viagens em grupo onde o principal objetivo era fotografar. Em uma delas, para Porto de Galinhas, em Pernambuco, além de aproveitar o momento e registrar o visual, os turistas realizaram a missão de recolher garrafas PET, indevidamente, descartadas na praia. Em outra ocasião, Capibaribe conta que levou um grupo de estudantes à serra de Guaramiranga e durante o percurso, iam parando para fotografar. “Esse tipo de prática contribui para

Registros de Régis Capibaribe, fotógrafo cearense obter informação e o meio ambiente não sofre, pois o que capturamos é o momento”, conta o fotógrafo, reforçando que as imagens compartilhadas despertam nas pessoas o desejo de preservar, conhecer os lugares e ter contato com a natureza.

Jan Bryde promove viagens turísticas para áreas inóspitas como Polo Norte e Antártida

A primeira viagem internacional, para fins de turismo e fotografia, do cearense foi realizada em maio deste ano para o deserto do Atacama, no Chile. O objetivo foi levar um grupo que incluiu jornalistas, empresários do ramo de turismo entre outros para definir locações e roteiros de futuras viagens. Capibaribe ressalta, porém, que entre as principais vantagens desse tipo de prática está a liberdade para improvisar os roteiros. O projeto é o primeiro nesse estilo idealizado por empresas especializadas. ÁREAS INÓSPITAS Outro adepto da prática do turismo e meio ambiente é o fotógrafo alemão Jan Bryde, vice-presidente da empresa russa Poseidon Expeditions, que proporciona viagens turísticas a lugares remotos, como Antártida e Pólo Norte. Ele esteve em Fortaleza, na semana passada, para divulgar roteiros exclusivos e realizou, no dia 15, uma palestra na Livraria Cultura. Na ocasião, também ocorreu o lançamento do navio MV Sea Spirit, que navegará a partir deste ano pela Groenlândia e Islândia.

Em entrevista ao Caderno O estado Verde, Jan afirmou que o principal encanto em chegar a esses locais vem da possibilidade de ver, em seu ambiente natural, a fauna tão presente em livros, mas longe dos seres humanos. Entre os animais presentes nesses paraísos naturais, Jan destaca os pinguins e ursos polares, espécie em extinção. Para as fotografias, as texturas e cores projetadas nas grandes estruturas naturais de gelo são os elementos preferidos do fotógrafo. Jan defende também que quem gosta de praticar fotografia e turismo não precisa se preocupar tanto com a aquisição de equipamentos sofisticados e caros. Mesmo as tecnologias de celulares e câmeras simples ajudarão a divulgar as imagens daquilo que precisa ser preservado no planeta. “Nas excursões antigas, os registros eram feitos por livros e desenhos, e assim os outros continentes tinham conhecimento sobre o que havia do outro lado do mar. Hoje, você pode mostrar para os seus amigos as fotos de suas viagens pela Internet, e isso é muito importante”, afirma. Quem não tem tanto interesse pela técnica, mas gostaria de conhecer esses lugares, também pode participar. NAVIO NUCLEAR Segundo Jan, para as viagens ao Pólo Norte é utilizado um navio movido à energia nuclear, com 400 gramas de urânio em seus reatores. O sistema utiliza a água do mar para produzir vapor e mover a embarcação sem gerar resíduos. O empresário afirma que o procedimento é seguro e limpo, pois, além de não gerar resíduos, o navio é controlado por meio de uma manutenção severa, e é utilizado em ocasiões pontuais. “As viagens acontecem desde 1991 e nunca tivemos acidentes. A embarcação não navega todos os anos, o que ajuda a conservá-la”, diz.


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AMIGOS DO VERDE

A cada nascimento de uma criança, uma árvore será plantada

Comissão aprova incentivo para município plantar árvore. Cada cidade decidirá sobre a forma de aquisição ou plantio das mudas

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Agência Câmara publicou que a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, aprovou proposta que institui o Programa Brasileirinhos Amigos do Verde. O objetivo da proposição é incentivar municípios a adotar medidas de preservação do meio ambiente e educação ambiental, por meio do plantio de uma muda de árvore a cada nascimento de criança no seu território. O texto aprovado dia 30/04 é o substitutivo do deputado Irajá Abreu (PSD-TO) ao Projeto de Lei 3712/12, do deputado Onofre Santo Agostini (PSD-SC). O projeto original prevê que as mudas serão doadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Já o substitutivo prevê que o município decidirá sobre a forma de aquisição ou plantio das mudas, conforme regulamento próprio, após avaliação técnica da região. O relator ressalta que a iniciativa deve ser discricionária do município, além de observar que é competência

exclusiva do Poder Executivo, seja federal, estadual ou municipal, a delegação de atribuições decorrentes das medidas de promoção e preservação do meio ambiente e educação ambiental. “Há municípios que podem destinar áreas para o seu plantio ou, de outra forma, podem adquirir as mudas mediante doação de ONG´s destinadas à preservação do meio ambiente”, afirma Agostini. Segundo a proposta, os municípios que aderirem ao programa terão prioridade no recebimento de recursos oriundos do Fundo Nacional de Meio Ambiente, criado pela Lei 7.797/89, além receberem a titulação de Cidade Amiga do Verde. “Além disso, principalmente, estarão contribuindo para melhoria de qualidade do ambiente com mais áreas verdes nos grandes centros urbanos”, destaca o relator. A proposta será analisada agora em caráter conclusivo pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

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INDICAÇÃO DE LEITURA POLÍTICAS ESTRATÉGICAS

Ipea lança livro sobre o papel do Estado O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lança no próximo dia 22, em São Paulo (SP), o livro Capacidades Estatais e Democracia – Arranjos institucionais de Políticas Públicas. Realizado por meio da colaboração entre pesquisadores do Instituto e universidades brasileiras e estrangeiras, a publicação

buscou analisar em profundidade os arranjos institucionais para implementação de políticas públicas representativas dos atuais esforços do governo em promover o desenvolvimento (nas áreas social, econômica e industrial). O lançamento do livro será às 13h, na Fundação Getúlio Vargas (FGV), na capital paulistana.

A obra traz novos conceitos e modelos analíticos, que possibilitam uma melhor compreensão da operação de atores no interior do Estado e suas interações (sinergias ou tensões) com instituições democráticas nos processos de implementação dos casos estudados. Participarão do lançamento, os

organizadores do livro, os técnicos de Planejamento e Pesquisa do Ipea Alexandre Gomide e Roberto Pires, além de três dos autores das pesquisas – Marco Antônio Carvalho Teixeira (FGV), Maria Rita Loureiro (FGV) e Mário Schapiro (FGV). Fonte: Ipea


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ADAPTATION FUTURES 2014

Em último dia de conferência, evento trata de políticas para secas

Workshop Internacional falou sobre adaptação às mudanças climáticas nas regiões áridas e semiáridas. O ministro da Integração participou do evento

FENÔMENO NATURAL OU CONSEQUÊNCIA DAS AÇÕES HUMANAS? “Não vou discutir se as mudanças climáticas acontecem por ações do homem ou por causas naturais, mas o fato é que o clima está mudando”, declarou o ministro, afirmando que vem mobilizando técnicos e órgãos para que o Brasil esteja mais bem preparado para conviver com tal fenômeno, e que vontade política é fundamental para lidar com

Teixeira falou sobre ações do Governo para as regiões atingidas pela seca o problema. O representante do Banco Mundial, Boris Utria, elogiou as ações federais de adaptação à seca e agradeceu pela “oportunidade de a instituição financeira ser parceira nessas questões”. Teixeira falou novamente sobre a importância de instalação do Projeto Monitor de Secas, que dará a possibilidade de o País se preparar com mais antecedência para as mudanças climáticas e desastres naturais, além de fornecer dados que podem contribuir com o setor agropecuário. O protótipo do monitor deve funcionar a partir do segundo semestre de 2014, e trará informações climáticas de todos os estados brasileiros. Na primeira fase do projeto, os estados do Ceará, Bahia e

Pernambuco estarão à frente dos processos, segundo informações de José Machado, assessor especial do Ministério da Integração. SALDO DA CONFERÊNCIA No último dia da AF2014, os participantes teceram elogios sobre as discussões realizadas no evento. José Marengo, do Instituto Nacional de Estudos Espaciais (CCST-INPE), afirmou que “não adianta o cientista trabalhar somente com estatísticas, ele precisa conhecer de perto o contexto do clima, por isso eventos como estes são importantes”. O climatologista Marengo é uma das principais referências mundiais em estudos do clima.

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SOBRE A AF 2014 A AF 2014 foi organizada pelo Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do INPE no Brasil, e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), através do Programa Global de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Vulnerabilidade, Impactos e Adaptação (Provia). A Conferência foi a terceira edição do Internacional Climate Change Adaptation Conference - Adaptation Futures 2014, que já aconteceu, em 2010, na Austrália e, em 2012, nos Estados Unidos. Segundo a organização, foram 600 participantes, entre palestrantes e público, vindos de 50 países.

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Third International Climate Change Adaptation Conference 2014 (Adaptation Futures 2014) foi encerrada com o Workshop de Alto Nível sobre Políticas de Seca em Regiões Áridas e Semiáridas, na última sexta, 16. A atividade teve a participação do ministro da Integração Nacional Francisco Teixeira. O governador Cid Gomes foi representado pelo presidente da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh), Rennys Frota. A Conferência aconteceu no hotel Vila Galé, na Praia do Futuro, durante toda a semana passada. Na abertura do Workshop, a experiência do Ceará em lidar com a seca e estiagem foi ressaltada a todo instante. Segundo a análise dos presentes, a forma de o Estado lidar com esses problemas evoluiu ao longo dos anos, pois ao invés de estimular a fuga das Terras Secas, as ações realizadas visam à adaptação aos aspectos climáticos locais. Com a expectativa de que, com as alterações climáticas, o problema piore esse olhar de prevenção e adaptação é fundamental para lidar com o problema, segundo os palestrantes.


O Estado Verde - Edição 22258 - 20 de maio de 2014