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02 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO EDITORIAL

Nesta 26ª edição do jornal O Espectro, o

vesse sido Amelia Earhart a primeira mulher

nosso foco prendeu-se com a afirmação, o

a voar sobre o Oceano Atlântico e tal feito,

estatuto e os direitos da Mulher na socieda-

possivelmente, só teria acontecido mais

de civil. Durante o século XX, a imagem da

tarde. Na Grã-Bretanha, as mulheres con-

Mulher foi sofrendo alterações. Com o fim

duziam ambulâncias com inúmeros solda-

da Primeira Guerra Mundial, movimentos

dos feridos, enquanto que em 1934, Leono-

feministas atingiram o seu auge, destacan-

re Goldschmidt, uma judia, desafiaria Hitler,

do-se pela reivindicação de uma voz ativa e

ao descobrir uma falha na lei da educação,

um papel matriarcal das mulheres nas suas

que lhe valeu a abertura de uma escola pri-

famílias. Foi, também, nesta altura que se

vada, onde viria a proteger inúmeras crian-

começaram a desenvolver os primeiros car-

ças judias. Apesar da desigualdade de gé-

tazes que convidavam a integração das

nero e da percentagem de violência do-

mulheres nas forças armadas e no mercado

méstica ser muito mais elevada no mundo

de trabalho. “Os loucos anos 20” ficaram

feminino do que no masculino, a verdade é

marcados por uma atitude mais moderna,

que a mulher conquistou muito, como a Lei

por um avanço a nível da mentalidade fe-

da Paridade, que estabelece que as listas

minina. O guarda-roupa tornou-se mais có-

para a Assembleia da República, para o

modo, o soutien substituiu o espartilho e a

Parlamento Europeu e para as Autarquias

bainha da saia cada vez mais subida acom-

Locais sejam compostas no mínimo por 33%

panharia o processo da mulher na corrida

de cada um dos sexos (1/3 da Lista). Con-

pela cruz no boletim de voto, cujo exemplo

quistou o direito ao voto, conquistou um lu-

de determinação é Carolina Beatriz Ângelo,

gar em diversas profissões, a Mulher con-

a primeira mulher a votar em Portugal. Já

quistou respeito!

durante a Segunda Guerra Mundial, a mulher surge como alguém culto, com estudos universitários, como é de destacar o trabalho das enfermeiras desta altura. Na Rússia, no Batalhão da Morte, já existiam

diversas mulheres a pilotar aviões, não ti

Adriana Santos


16 DE MARÇO DE 2017 | 03 O ESPECTRO FICHA TÉCNICA Coordenação

Imagem

Adriana Santos, Madalena Branco e Patrícia Mouta

Ana Leites e Micaela Xavier

Vice coordenação

João Pedro Fernandes

Filipa Fiunte e Teresa Almeida

Redação

Revisão

Ana Leites

Adriana Santos, Patrícia Mouta e Rita Simões

Beatriz Ribeiro

Edição

Cartaz Cultural

Micaela Xavier

Adriana Santos e Patrícia Mouta

CONTACTOS

Plataforma de Comunicação

Facebook: facebook.com/OEspectro

Patrícia Mouta

E-mail: revisaojornalcp@gmail.com

MOSTRA A TUA AUDÁCIA E ESPÍRITO CRÍTICO ESCREVE PARA O JORNAL ‘O ESPECTRO’


04 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO

O

conceito de Feminismo necessita,

vaga de Feminismo surge na história pouco

ainda, mesmo com toda a informação

depois - no século XIX, concentrando-se na

que se encontra à nossa disposição, de ser

afirmação dos Direitos educacionais e de

propriamente definido antes de, em torno

trabalho das mulheres e fortemente marca-

do mesmo, se realizar qualquer tipo de de-

do pelo movimento sufragista.

bate.

O Feminismo combate o machismo, lutan-

O Feminismo é o movimento que pretende

do contra as desigualdades sociais, e nada

ver concretizada a igualdade social entre

a ela se assemelha. O termo soa “extremo”

homens e mulheres. O movimento, urgindo

aos ouvidos de alguns mas, como anterior-

no âmbito de defesa dos Direitos das mu-

mente evidenciado, existem causas históri-

lheres como Direitos Humanos. O termo Fe-

cas e políticas para que assim se denomine.

minismo, à semelhança daquilo que signifi-

Ora, torna-se assim claro o porquê do ter-

ca atualmente, surge após a Revolução

mo “feminismo” como movimento, pois sur-

Francesa (século XVIII), na qual homens e

ge num contexto de necessidade de eman-

mulheres lutaram pela emancipação dos

cipação do género feminino e não como,

seus direitos, contra o Feudalismo: a noção

por vezes se ouve, como algo designado

de que o Homem nasce livre e igual - igual-

por “machismo, mas ao contrário”.

dade perante a lei - liberdade de expressão

A conversa sobre a correta definição do

e económica, ensino primário gratuito e

conceito é, na realidade, algo bastante rele-

obrigatório, entre outros.

vante e recorrente. Numa atualidade em

No entanto, mesmo sendo uma luta con-

que todo o tipo de informação é obtida e

junta, estes Direitos não foram reconheci-

partilhada através das mais diversas plata-

dos de igual modo para as mulheres. É nes-

formas, surgem novas oportunidades para

te contexto que surgem os primeiros movi-

democratizar o conceito e levá-lo às mas-

mentos feministas, com o objetivo de ga-

sas, de forma a consciencializar um maior

rantir que estes Direitos abrangem ambos

número de pessoas, em relação aos seus

os géneros que por eles lutaram. A primeira

direitos enquanto seres humanos. Por outro


05 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO

lado, o excesso de informação, muitas das

atrás, surge um particular caso que merece,

vezes não sujeito a qualquer tipo de revisão

pelo menos, uns minutos de atenção: uma

ou triagem por entidades dotadas de co-

mulher espanhola decidiu abortar após ter

nhecimento para tal, pode originar uma

descoberto que ia ter um menino, afirman-

completa distorção do conceito de Femi-

do “eu não odeio homens, eu odeio o patri-

nismo.

arcado” e “o meu corpo atraiçoou-me”. O

A questão da distorção do conceito faz com

relato de Lana no seu blogue sobre este

que um número considerável de pessoas

episódio foi imediatamente transferido para

não se afirme como feminista, mesmo que

as redes de notícias mais mainstream, sen-

afirme defender a igualdade entre géneros

do descrita como feminista pela maioria

o que, na realidade, é a mesma coisa. Con-

dos sites de notícias e, por uma minoria,

trastando com esta situação, existe quem

com mais conhecimento sobre o conceito

não se afirme como feminista por associar o

ou simplesmente com mais vontade de in-

conceito a um movimento radical que pre-

formar e não chocar o público, descreveu-a

tende a sobreposição da mulher em rela-

como “feminista”. Infelizmente, é através

ção ao homem.

deste tipo de notícias que a ideia errada de

Na rede de notícias de há umas semanas

que o ódio em relação ao homem se en-


06 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO contra relacionado com o Feminismo, se

devem ser determinados e forçados por

banaliza. Logicamente, na realidade, este

padrões de género impostos por uma soci-

ato é denunciável por qualquer feminista,

edade patriarcal.

homem ou mulher.

O Feminismo é, intrinsecamente, um movi-

Assim, entende-se que o Feminismo é be-

mento de libertação e inclusão: o feminis-

néfico para ambos os géneros pois irá per-

mo é para todos e para todas; uma mulher

mitir-lhes sair da prisão que os padrões de

feminista tanto é aquela que vinga em

género, por vezes, representam; por exem-

áreas profissionais dominantemente com-

plo, “os meninos gostam de futebol e as

postas por membros do sexo masculino co-

meninas gostam de brincar com bonecas”,

mo a mulher que decide ficar em casa a

“os rapazes não choram” ou “mulheres ao

cuidar dos seus filhos, pois foi essa a sua

volante, perigo na estrada”. A ideia não é,

escolha de vida e não a vida que a socieda-

obviamente, crucificar raparigas que gos-

de e os padrões de género forçados para si

tam de rosa e bonecas mas sim certificar as

escolheram. O conceito de igualdade entre

gerações futuras de que se gostam de car-

géneros não é separável da emancipação

ros e futebol não há qualquer problema. A

do poder de decisão da mulher.

personalidade e os gostos individuais não

P u b l i ci d a d e

Releia as últimas edições do jornal https://issuu.com/oespectro


07 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO

O

ciclo iniciou-se com uma conferência

reveladas sobre a mesma demonstram da-

intitulada “Conquista das Mulheres na

dos que comprovam o sucesso da política,

Luta pelos seus Direitos”, com a participa-

como é desejo do Estado com a caraterísti-

ção de Alexandra Silva, da Plataforma Por-

ca natural da estatística de ocultar dados

tuguesa dos Direitos das Mulheres e Ana

que não sejam relevantes para provar aqui-

Cansado, da União de Mulheres Alternativa

lo que se pretende, acusa a oradora. Uma

e Resposta (UMAR) como palestrantes, e

das soluções para esta problemática, é a

Isabel Cabrita (docente do ISCSP) como

existência de relatórios-sombra ou relató-

moderadora.

rios alternativos que apresentam resultados

Inicialmente, em nome da Plataforma Por-

de forma mais independente e livre de in-

tuguesa dos Direitos das Mulheres, louvaram-se as conquistas atuais relativas à consciencialização da geração atual em relação às conquistas das mulheres ao longo da história, mas também as relativas à luta contínua que ainda se demonstra necessária, como evidenciado por movimentos como a Marcha das Mulheres após a eleição

de Donald Trump e pela quantidade de

media social relativo ao tema – algo que representa, simultaneamente, um desafio.

fluências e, também, mais especializada.

Para além do excesso de informação não

Seguidamente, colocou-se a famosa dúvi-

filtrada, num contexto mais prático, Alexan-

da: é mesmo necessário que se fale de fe-

dra Silva alerta para a importância e neces-

minismo em 2017? Após a questão são-nos

sidade urgente de uma ligação efetiva en-

apresentados dados relativos ao Índice de

tre políticas propostas, ou até aprovadas, e

Igualdade de Género, que analisam seis ca-

o quotidiano das mulheres. Após a aprova-

tegorias diferentes: trabalho, dinheiro, co-

ção de uma política, as estatísticas que são

nhecimento, tempo, poder e saúde e é ava-


08 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO liado numa escala de 0 a 100, sendo 100 a

nunca será considerado trabalho pelas em-

plena igualdade de géneros. Em Portugal, o

presas e existe ainda a problemática de a

Índice de Igualdade de Género é inferior a

mulher ser vista como uma contratação de

40, ainda distante da média da União Euro-

risco por poder engravidar.

peia de 52.9. As principais categorias, nas

Em Portugal, a solução apresentada para

quais a desigualdade mais se destacam,

resolver o problema foi a aplicação de co-

são o tempo e o poder o que explica, em

tas que estabeleçam um número mínimo,

parte, as desigualdades salariais.

considerado razoável, de mulheres em de-

O fim da desigual remuneração é algo que,

terminadas posições de poder. A solução é

de acordo com vários estudos recentemen-

vista como controversa, dividindo opiniões:

te publicados, nenhum de nós estará vivo

por um lado, oferece às mulheres a oportunidade de ocupar cargos aos quais o acesso é estruturalmente mais complicado do que para os homens; por outro lado, existe a ideia de que são cargos entregues meramente para preencher o lugar, algo que não satisfaz a mulher em questão nem os seus restantes colegas de trabalho. Ao longo desta discussão, alertou-se também para a forma como a mulher ainda é

para testemunhar.

vista como sendo inferior ao homem, com

A oradora Silva informa-nos ainda que, a

base em estereótipos atualmente reivindi-

disparidade salarial aumenta de forma pro-

cados por alguns políticos e, progressiva-

porcional ao nível da especialização, o que

mente, banalizados por quem os ouve. O

constitui mais uma desvantagem para a

caso destacado foi o do eurodeputado po-

mulher, tendo em conta que têm, atual-

laco que, durante o debate sobre as dife-

mente, mais formação em relação ao ho-

renças de pagamentos entre homens e mu-

mem, não sendo esta reconhecida pela re-

lheres, afirmou: “É claro que as mulheres

muneração e/ou subida de posição no seu

devem ganhar menos do que os homens,

posto de trabalho. Para além disso, o traba-

porque são mais fracas, são mais pequenas,

lho doméstico não é e, provavelmente,

são menos inteligentes. Elas devem ganhar


09 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO menos. É tudo”.

e desligado do impacto real que as suas or-

O Parlamento Europeu afirmou, de imedia-

dens executivas apresentam. Uma das pri-

to, que pretendia multar o deputado por

meiras questões abordadas por Trump,

tais declarações mas, uma parte considerá-

após a sua tomada de posse, foi a de cortar

vel da audiência e do público geral não fi-

o financiamento público para grupos inter-

cou particularmente chocado com as de-

nacionais que realizam abortos ou forne-

clarações porque "ah, não faz mal, é só um

cem informação sobre essa opção.

maluquinho a dizer isso".

Para finalizar, a oradora sintetizou os obejti-

Os detalhes sobre a sua punição foram re-

vos da Plataforma Portuguesa dos Direitos

centemente revelados, no dia 14 de Março,

das Mulheres, que consistem: no fim da vio-

e consistem, citando o jornal Expresso onli-

lência de género e cultura machista, na cri-

ne, na "perda das ajudas de custo diárias

ação de uma economia sustentável para

durante 30 dias (9210 euros), a suspensão

todos e para todas, no respeito e promoção

da sua participação em todas as atividades

dos direitos humanos, na integração desta

do Parlamento durante 10 dias e a proibição

luta em estratégias mundiais e europeias

do deputado representar o PE durante um

de forma a promover a igualdade real e no

ano."

reconhecimento legítimo e político do femi-

A questão de "é só um maluquinho a dizer isso" orientou a discussão para o impacto real de quem tem por hábito dizer coisas absurdas, ser progressivamente banalizado

nismo. Seguidamente, a oradora Ana Cansado, representante da UMAR, partilha os objetivos com a Plataforma Portuguesa dos Direitos das Mulheres e oferece uma pers-


10 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO petiva mais histórica da temática.

tização. Não especificadas nesta discussão,

A UMAR completa já 40 anos e, por mais

mas que se assumem de vergonha por par-

longínquo que nos possa parecer, nasce no

te da mulher e falta de informação sobre o

período conturbado pós-25 de Abril. A ora-

tema.

dora apresenta-nos um paralelismo entre a

No momento de questões e intervenções

forma como a expressão "há coisas mais

por parte da audiência, um aluno partilhou

importantes" é utilizada atualmente e afirma

connosco como se encontrava a situação

que se essa tendência não tivesse sido con-

das mulheres em Moçambique, reforçando

trariada na altura, a resposta dada na época

a abrangência do movimento feminista e

pós-Revolução de Abril, não teria consistido

terminando com uma nota de esperança:

numa verdadeira luta pelo sufrágio univer-

mesmo com a opressão e silenciamento

sal, e por isso, as lutas atuais são válidas e

das mulheres, durante os anos 80 e até à

necessárias.

década de 2000, após a sua emancipação

Para finalizar a sua intervenção, Ana Cansa-

na linha da frente de combate dos anos 60

do chamou à atenção para os dez anos

até 1975 (data da sua independência), existe

completos em fevereiro, da legalização do

na atualidade uma forte contribuição do go-

aborto, alertando para o facto de que após

verno para a escolarização. Surgem mais

o referendo que legalizou o aborto em Por-

movimentos feministas que incentivam a

tugal, a conquista plena desse direito foi

participação das mulheres na política e o

apenas obtida por via legislativa, pois exis-

cargo de Primeiro Ministro é atualmente

tem ainda bastantes entraves à sua concre-

ocupado por uma mulher, a Primeira Ministra Luísa Diogo.

P u b l i ci d a d e

Faz

na nossa página

www.facebook.com/OEspectro


11 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO

N

o decorrer do primeiro dia da Sema-

inclusão com a mulher em contexto de

na das Mulheres, houve a oportuni-

prostituição de rua através de projetos soci-

dade de estar presente na segunda confe-

ais. Os projetos sociais são espaços de refe-

rência do dia, iniciada pelas 15h no auditório

rência para a mulher, onde favorecemos a

do piso -1, cujo tema a abordar passava por

consolidação das suas potencialidades e o

“Perspetivas sobre a Prostituição e Interven-

seu crescimento pessoal.”1.

ção”.

O painel foi constituído por Helena

No CAOMIO são desempenhadas diversas

Fidalgo do Centro de Acolhimento e Orien-

atividades de forma a criar uma espécie de

tação da Mulher das Irmãs Oblatas, Concei-

safe house, um centro de novas oportuni-

ção Mendes da associação O Ninho e Dália

dades. Durante a apresentação, foram apre-

Rodrigues, assistente social formada no

sentados alguns dados referentes ao ano

ISCSP no curso de Serviço Social – esteve

de 2016 sobre o trabalho diário de equipas

também presente, como moderador e, pos-

de rua durante um circuito realizado a pé,

teriormente, interveniente, Bernardo Coe-

aqui se pode constatar que houve contacto

lho, sociólogo e investigador do Centro In-

com 345 mulheres onde parte dos contac-

terdisciplinar de Estudos de Género (CIEG-

tos decidiram fazer parte do acompanha-

ISCSP) e Centro de Investigação e Estudos

mento integrado e projetos de formação.

de Sociologia (CIES-IUL). A palavra foi dada primeiramente a Helena

Fidalgo que, como mencionado acima, é membro da equipa do Centro de Acolhimento e Orientação da Mulher das Irmãs Oblatas (CAOMIO). O CAOMIO é uma congregação religiosa fundada em Madrid em 1864 e que em 1987 – 123 anos mais tarde – se encontrou em Portugal. Na sua página

De seguida, passou-se a palavra a Concei-

do Facebook encontramos uma breve ex-

ção Mendes, assistente social na associa-

plicação do que é desenvolvido na associa-

ção O Ninho – fundado em Portugal em

ção, concretamente, “(…) um programa de


12 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO 1967, a sua história passa pelo seguimento

marketing” que nem são percebidas pelos

do modelo de O Ninho criado em Paris em

de fora de forma a tornarem os seus anún-

1936. Trata-se de uma Instituição Particular

cios mais “apelativos”. Muitas vezes afirmam

de Solidariedade Social com protocolos a

até mesmo serem jovens universitárias pois

nível nacional, internacional e articulados

no momento, os clientes não procuram

com outros serviços que “têm por objetivo a

aprofundar se realmente são aquilo que

promoção humana e social de mulheres ví-

anunciam, apenas serve como forma de

timas de prostituição”2, tal como pode ser

atração. Logo, ao se recusarem a não usar

lido no seu website.

preservativo pode levar à perda de clientes

“A prostituição é a efetivação de práticas

e também, à utilização da chantagem emo-

sexuais [heterossexuais ou homossexuais],

cional sobre elas, como por exemplo, “não

com diversos indivíduos em troca de renu-

queres fazer sem preservativo é porque de-

meração” – esta é a definição

ves ter doenças”.

dada por Conceição sobre o

Porém, em janeiro de 1963, en-

conceito de prostituição: A alma

“A alma fica de trou-se na época do proibicio-

fica de fora, o corpo é que vai

nismo, onde a prática de prosti-

para o quarto. Foi então, em 1853, que a prostituição se tornou regulamentada. Tal “”decisão foi

fora, o corpo é que vai para o quarto”

tomada no intuito de combater

tuição e/ou as práticas de fomento e favorecimento a tal seriam punidas3, tendo esta proibição causado diversos transtor-

os estudos sobre a propagação de doenças

nos, citando Conceição Mendes, “(…) o Esta-

e tentar assim com que houvesse uma mai-

do não achou relevante os pedidos de aju-

or prevenção e controlo. Através da regula-

da (…)” e foi a partir deste “fechar de olhos”

mentação, as casas concebidas para os

que a igreja decidiu contactar o Ninho fran-

efeitos estavam sujeitas a fiscalizações pe-

cês e assim, em 1967, foi fundado em Por-

riódicas.

tugal para responder às necessidades sen-

Ainda hoje, Conceição revela-nos que mui-

tidas pelas mulheres e estruturar uma me-

tas vezes as mulheres prostituídas cedem à

todologia de intervenção.

pressão de não utilizarem preservativo, pois

A lei de 1963 revelou ter pouco efeito, ape-

condiciona a oferta e procura – estas mu-

sar da abolição efetuada. Dito isto, em 1983,

lheres utilizam muitas vezes “técnicas de

a lei foi parcialmente alterada de forma a


13 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO que a prostituição individual fosse permiti-

ram a mulher separar-se do sexo com amor

da, mas a sua exploração e encorajamento

e afeto para somente o sexo com fins de

continua a ser possível de punição. Hoje, o

dar prazer a alguém. O aprisionamento

Artigo 169.º do Código Penal cobre este cri-

emocional e psicológico não é só, na pers-

me, denominado de lenocínio: “1 - Quem,

petiva da associação, inaceitável em crian-

profissionalmente ou com intenção lucrati-

ças prostitutas – valoriza-se muito a impor-

va, fomentar, favorecer ou facilitar o exercí-

tância das palavras na definição de concei-

cio por outra pessoa de prostituição é puni-

tos dai a que a associação prefira utilizar o

do com pena de prisão de seis meses a cin-

termo “prostituída” pois considera que a

co anos.” A circulação do dinheiro, apesar de ser considerado crime, é feita em triângulo. É transferido do cliente para a mulher e, imediatamente a seguir, da mulher para o proxeneta. Ao longo da conferência, a perspetiva apresentada por parte de O Ninho foi a de serem contra a prostituição e, por isso, serem contra a sua profissionalização – questão que se encontra em debate recentemente pelas moções de regulamentação – Conceição afirma que “o Estado não tem nada que regulamentar aquilo que eu faço com o

mulher recorre à prostituição por ser força-

da pelo sistema atual.

meu corpo”, consideram a prostituição um

Luís Osório é citado, de forma pertinente e

problema social que tem de ser resolvido,

com impacto, “há palavras que salvam e há

pois implica a negação da sexualidade e dá

palavras que matam”.

a perceção do corpo como um mero objeto.

Em resposta ao enorme ponto de interroga-

Coloca-se então a pergunta: será que existe

ção que existe sobre a atual possibilidade

alguma idade para a prostituição ser tolerá-

de a prostituição vir a ser regulamentada,

vel? A resposta obtida foi de que, ao longo

Conceição elucida-nos da Holanda como

da vida, devem ter existido fatores que fize-

“mito”, pois considera um retrocesso na si-


14 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO tuação da atual legalização, pois as holan-

que num trabalho “nos devemos sentir bem

desas prostituídas não querem o seu nome

e dignos” e termos direitos. Por fim, existe

associado a registos de prostituição legais e

também o Centro Ocupacional Integrado

oficiais. Os problemas, apesar de parecem

que visa a integração de mulheres, cuja ida-

resolvidos, apenas se encontram realmente

de e/ou problemas de saúde não são

no papel – a realidade mantém-se igual.

abrangidos por nenhuma resposta social,

Como última oradora, tivemos presente Dá-

promovendo a sua condição humana e so-

lia Rodrigues, assistente social que nos

cial.

apresentou o lado mais intervencionista de

Todos estes processos e serviços são se-

O Ninho. Dália conta-nos sobre o LAR – re-

guidos de um follow up, onde se exerce um

sidência temporária de mulheres que não

acompanhamento psicossocial, tendo sido

tem resposta habitacional, existente desde

afirmado anteriormente por Dália que o

1969 - onde as mulheres encontram a res-

tempo para a intervenção psicossocial não

posta à necessidade de encontrar um espa-

é sujeito a estatísticas pois cada situação é

ço onde possam cortar com o ciclo de ex-

uma situação.

ploração da prostituição e onde contribuem

Ao encerrar a conferência, entrando mais

com uma porção simbólica de forma a usu-

numa conversa e debate, o moderador Ber-

fruírem de quartos e refeições, existindo

nardo Coelho demonstra a sua perspetiva

uma consciência emergente sobre os seus

como sociólogo. Ele assume que vê a pros-

direitos e deveres. Existe, também, o Centro

tituição como um fenómeno – existe prosti-

de Atendimento, um espaço de diálogo

tuição do homem, prostituição em casal,

num ambiente acolhedor e tolerante, as ofi-

prostituição transsexual, entre outros – e

cinas onde se promove a transição do mun-

todo este fenómeno envolve toda uma vas-

do da prostituição para o mundo do traba-

ta de atividades. Abriu-se, então, a oportu-

lho através da aquisição de hábitos de tra-

nidade de colocar perguntas aos oradores,

balho (desenvolvimento de capacidades e

apesar da típica reticência do público em

potencialidades), pois O Ninho não conside-

colocar questões inicialmente, acabaram

ra a prostituição como um trabalho, visto

por fluir questões pertinentes…


15 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO

A

segunda oradora do painel “Formas

maior que a dos homens, geralmente, este

de violência na mulher” é a Professora

conceito é referente à violência contra a

Dália Costa, docente no ISCSP. Imediata-

mulher – neste sentido, porém, é também

mente, deparámo-nos com o facto da pro-

mais comummente aplicada a noção de vi-

fessora se encontrar num estado de inca-

olência doméstica.

pacidade temporária ao que, a própria, afir-

É apresentado então, num formato de apre-

ma que “realmente, só após estarmos numa

sentação digital, o Relatório Anual de Segu-

situação de vulnerabilidade é que percebe-

rança Interna de 2015 onde se pode averi-

mos que as portas são pesadas” sendo uma

guar os quatro crimes com a criminalidade

clara metáfora para com o facto de que só

mais participada (acima de 20 000 partici-

nos apercebemos das

pações).

fraquezas e problemas

lugar, encontra-se a

alheios

violência

quando

nós

Em

quarto

doméstica

próprios passamos por

contra

eles. Muitas vezes, se

análogos, tendo rece-

não passarmos por di-

bido 26 595 participa-

versas situações, aca-

ções – consideradas

bamos por interiorizar

como a ponta do icer-

o típico pensamento

beg devido à quanti-

cônjuge

ou

de que “só acontece aos outros”.

dade de casos não participados - onde 85%

Porém, o que é então a violência de géne-

das vítimas são do sexo feminino e onde

ro? A violência em si é um comportamento

57% das vítimas mantinha ou tinha mantido

deliberado e consciente que pode provocar

uma relação de conjugalidade com o/a

lesões corporais ou psicológicas à vítima. A

agressor/a denunciado/a.

violência de género é aquela que é exerci-

O perfil do denunciado/a é maioritariamen-

da de um sexo sobre o sexo oposto. Contu-

te do sexo masculino, estando os valores

do, como a preponderância para as mulhe-

nos 87%. 48% era casado ou encontrava-se

res serem vítimas de violência é nove vezes

em união de facto com a vítima, sendo a


16 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO idade média os 42 anos e 85% não depen-

ca, geralmente, existe muito movimento so-

dia economicamente da vitima. Acrescenta-

cial devido às festividades e encontros en-

se ainda que 9% possuía uma arma e 4%

tre os membros familiares, sendo que, des-

utilizaram efetivamente essa arma (2% de

ta forma o agressor controla os seus com-

uso com arma branca e quase 1% com arma

portamentos abusivos, podendo até a vir a

de fogo).

ser caraterizado como uma pessoa muito

Apesar de em 2015 este ser o quarto crime

simpática. As casas tornam-se assim numa

com a criminalidade mais participada, de

prisão, onde dentro dela existem muitas ar-

2011 a 2014 a violência doméstica esteve

mas.

em terceiro lugar na tabela.

“A violência de base afetiva difere em muitos aspetos da violência cometida por um estranho”, diz em letras vermelhas na apresentação enquanto a professora nos elucida de como a violência doméstica é um paradoxo, ao mantermos relações de amor com alguém que nos violenta. Existem diversas manifestações de violência sem ser somente a física, e parte delas constam nas declarações das participações efetuadas, como por exemplo: o número de

A média de participações declaradas e de-

participações da violência física consta em

nunciadas (não incluindo aquelas que não

68% e a psicológica em 82%; 3% é o número

foram expostas) é de 2 235 por mês: 73 por

que

dia e 3 por hora, sendo 80% dos casos em

(qualquer comportamento em que o (a)

casa, fomentando assim a “privacidade do

companheiro (a) força o outro a protagoni-

crime”.

zar atos sexuais que não deseja), enquanto

Algo que provavelmente não é percebido

que 9% diz respeito à violência económica

pela população em geral, mas que nos foi

(qualquer comportamento que intente con-

explicado pela Professora Dália Costa é que

trolar o dinheiro do (a) companheiro (a) sem

as denúncias encontram o seu pico na épo-

que este o deseje ou ameaçar retirar o

ca do Natal e do Ano Novo. Pois nesta épo-

apoio financeiro como forma de controlo).

diz

respeito

à

violência

sexual


17 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO Já 15% é referente à violência social

mas nunca surgiu uma vontade nacional

(qualquer comportamento que intenta con-

para expor este tipo de violência, mesmo

trolar a vida social do companheiro).

que morram mais mulheres nas mãos dos

Muitas vezes existe a desvalorização dos

companheiros do que pessoas na estrada.

atos isolados – um empurrão, um puxar de

O papel do Estado é insuficiente, as estatís-

cabelos, o oprimir psicologicamente –

ticas são desadequadas visto que tratam

quando, na realidade, a violência consiste

apenas de forma quantitativa, tornando as

exatamente no conjunto de todos estes

vítimas em somente mais um número. Não

atos

dita

existindo a separação dos homicídios e do

“banalidade”, tem um impacto bastante for-

feminicídio1, a impunidade é sentida, exis-

te no quotidiano de muitas mulheres. Um

tindo uma probabilidade muito baixa de re-

estudo realizado pela UMAR revela que os

almente haver uma pena atribuída ao

jovens, sobretudo, tendem a desculpabilizar

agressor – entre 2012 e 2015 em 4 140 casos

a violência no namoro, muitas vezes devido

somente em 59% houve condenação e não

a não estarem completamente conscientes

consiste, obrigatoriamente, em pena de pri-

sobre o que consiste um ato abusivo, dai a

são - e existe também uma enorme des-

ser mencionado que: “por vezes conside-

culpabilização destes casos, até mesmo por

ram o forçar a relação sexual como um ato

parte das entidades de segurança que, em

de amor”.

certos casos expostos na conferência, dis-

Segundo a professora, é aqui que entra a

seram à vitima para “tentar resolver as coi-

importância da vontade nacional, pois exis-

sas em casa”. Esta desculpabilização revê-

tem iniciativas de “Tolerância Zero” para si-

se na percentagem de casos que, alegada-

tuações como a sinistralidade nas estradas,

mente, não têm provas suficientes – 74%

isolados

e

apesar

da

sua

são levantadas questões, porque é que o

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18 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO testemunho da vitima não é suficiente? Ou

A desculpabilização, desfasamento ou até

até mesmo, será que é realmente efetuada

mesmo inversão da culpabilização encontra

uma pesquisa? Muitas vezes é mais fácil

-se nas pequenas questões que colocamos

deixar passar, pois mesmo sendo a violên-

em nós mesmos ou até na vitima - “porque

cia doméstica um crime público, o discurso

é que ela não sai?” e “porque é que ela não

ouvido é o de “é na casa das pessoas” –

o deixa?” – quando na verdade, não se de-

inutilizando assim a voz de quem teve a co-

veria inverter o problema nem banalizar a

ragem de participar.

violência e em vez disso, questionar antes

78% destes casos são arquivados e, neste

“porque é que ele não sai?”.

sector, a dimensão é maior do que em

Este tipo de comportamentos coloca a

qualquer outro dos crimes arquivados por

pressão na mulher ou na vítima. O pensa-

“falta de provas”.

mento simplista reforça a vitimização mes-

Ao abordar mais aprofundadamente a

mo sendo comprovado que, ao abandonar

questão da desculpabilização, a professora

a casa, a mulher aumenta o risco do homi-

passa então a explicar no que é que consis-

cídio pois quando a vitima se separa ou

te este ato que as pessoas tendem a cen-

ameaça separar-se, o seu agressor perde o

surar quando se deparam com o conceito.

seu “objeto”. Mesmo assim, muitas vezes ao

Porém, ao perspetivar as coisas fora da sua

fazer aquilo que muitos aconselham, termi-

pele, percebem que talvez já o tenham fei-

na a ouvir julgamentos como “porque é que

to, conscientemente ou inconscientemente.

ele te batia?”, “o que é que fizeste?” ou até mesmo, “olha agora saiu de casa, levou os


19 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO filhos e deixou o homem sozinho”. Em su-

mos vulneráveis”.

ma, como a professora aconselhou, deve-

É de se agradecer à professora Dália Costa

se procurar sempre pensar no “e se fosse

pela excelente conferência e pela excelen-

consigo?” pois, como na introdução deste

te forma de tentativa de consciencialização

mesmo texto foi exposto, “só percebemos o

perante um assunto que ainda é tão perti-

quanto as portas são pesadas quando esta-

nente nos dias de hoje.

N

o segundo dia de atividades, 7 de

definição do conceito de “violência contra

março, decorre uma conferência inti-

as mulheres”: “violência física, sexual e psi-

tulada “Formas de Violência na Mulher”, na

cológica praticada ou tolerada pelo Estado,

qual as oradoras, ambas docentes do ISCSP

onde quer que ocorra.”

- Paula Pinto e Dália Costa - informaram a

Esta alínea invoca a crucial discussão de

audiência sobre as diversas formas de vio-

responsabilização do Estado, por atos deste

lência que afetam maioritariamente mulhe-

tipo de violência. A conversa de “entre ho-

res, especificando a violência contra defici-

mem e mulher não se mete a colher” não

entes e a violência doméstica, respetiva-

se aplica, de todo, a casos de violência e o

mente.

Estado não pode ser participante neste ato.

A violência contra a Mulher é um problema

Para além de participar silenciosamente, o

que parece intemporal, no sentido de ser

Estado pode até contribuir para agravar a

algo que sempre conhecemos e que pare-

situação, embora não seja o mais comum,

ce nunca acabar. Em resposta a esta situa-

existe o caso recente da administração de

ção, continuam a surgir diversos instrumen-

Putin pretender passar uma lei que defende

tos para atenuar e, idealmente, acabar com

a não punição da violência doméstica caso

o problema. Por exemplo, a Declaração so-

esta seja praticada "apenas" uma vez por

bre a Eliminação da Violência Contra as Mu-

ano

lheres, da qual teve destaque na conferên-

“descriminalizar as tareias que não provo-

cia o artigo nº2, alínea c; relativamente à

quem danos à saúde”.

- apresentada

como

forma

de


20 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO

A situação das mulheres deficientes, rela-

justiça, este é um grupo de vítimas de risco

ta Paula Pinto, torna-se ainda mais compli-

acrescido pois encontra-se sujeito a diver-

cada graças ao estigma a que estão consta-

sas formas de violência específicas, que

te e estruturalmente sujeitas; estas mulhe-

não vêm registadas em estatísticas, tanto

res são vistas, por grande parte da socieda-

exercidas por familiares como pelos seus

de, como objeto de caridade e não cidadãs

cuidadores, como por exemplo: a privação

de pleno direito. Deste modo, o praticante

de mobilidade (retirando, por exemplo, as

de violência encontra-se em vantagem,

muletas de perto da vítima), sub ou sobre

pois a sua vítima pertence a um grupo du-

medicação para "não ter trabalho" a cumprir

plamente vulnerável. O mais problemático

todos os horários estabelecidos, tratamento

de toda a questão centra-se na dificuldade

compulsivo, isto é, contra a vontade da víti-

de acesso jurídico para proteção das víti-

ma quando se encontra consciente para to-

mas e penalização do agressor, algo intrin-

mar decisões. As situações acima apresen-

secamente ligado ao facto de as vítimas

tadas evidenciam a forte relação de depen-

não serem vistas como cidadãs de pleno

dência da pessoa portadora de deficiência

direito; na maior parte das vezes, a vítima é

para com o seu cuidador, assim, uma rela-

desacreditada e as acusações rotuladas co-

ção saudável entre ambos é indispensável

mo "invenções" ou "alucinações".

para o bem-estar da pessoa em ques-

Para além do difícil acesso ao sistema de

tão. Neste contexto, a oradora Paula Pinto,


21 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO alerta para os casos de abuso sexual prati-

vezes, até os imóveis construídos especifi-

cados pelos cuidadores; algo motivado pe-

camente para este grupo de pessoas, não

la falta de educação sexual para pessoas

estão devidamente adaptados às suas ne-

deficientes, não desculpabilizando, obvia-

cessidades.

mente, o abusador que é o verdadeiro cul-

No final da partilha de informação, foram

pado. A inexistente educação sexual, mais

sugeridas três formas principais de resolu-

uma vez, motivada pelo estigma de que as

ção dos problemas, que ao longo desta fo-

pessoas com deficiência são objetos de ca-

ram apresentados: a urgente promoção e

ridade e não de pessoas reais com desejos

efetivação da educação sexual para pesso-

humanos, leva, muitas das vezes, à banali-

as com deficiência, a valorização de dados

zação do abuso sexual pois, por vezes, tor-

qualitativos e não quantitativos para a não

na-se complicado para as vítimas distinguir

ocultação de problemas reais e a melhoria

um ato de afeto de um ato de abuso sexual.

das condições arquitetónicas, de forma a

A vulnerabilidade deste grupo é ainda enfa-

que o acesso não seja condicionado e que

tizada pela existência de inúmeras barreiras

as pessoas se tornem o mais independen-

arquitetónicas, os espaços públicos e, por

tes possível. Publicidade


22 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO

A

pós a Paralisação Internacional de

festejar a luta feminista, porque queremos

Mulheres: Não me calo! que teve lu-

deixar de ser o resultado de uma educação

gar na Praça do Rossio no dia 8 de março,

machista, racista e competitiva que nos tor-

no sábado, dia 11 de março, pelas 15h reali-

na, num ou noutro momento, opressoras ou

zou-se a Marcha Constroem Muros, Apren-

oprimidas.” Porém, festejara-se também em

demos a Voar cujo inicio teve lugar no Lar-

Portugal o aniversário dos dez anos do sim

go Camões e, todo o tipo de pessoas, uni-

relativamente ao referendo do aborto por

das, andaram até ao Intendente.

opção da mulher, gratuito e legalizado, fora

No evento criado nas redes sociais, concre-

em 11 de fevereiro de 2007 que mais uma

tamente o Facebook, a contextualização de

vitória para as mulheres tinha sido alcança-

todos estes eventos que tiveram lugar na

da.

segunda semana de março consistia em

Estivemos presentes durante todo o decor-

“contrariar o conformismo e o isolamento e

rer da marcha não só porque queríamos ter


23 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO a oportunidade de falar com diferentes

Marcha. Ao ver alguém que ainda há dias

pessoas, com diferentes pontos de vista e,

nos tinha permitido tomar conhecimento

posteriormente, partilhar os seus testemu-

de diversas lutas realizadas pela UMAR e

nhos n’O Espectro, mas também porque,

pelas mulheres, ali presente, tomamos

como mulheres e apologistas dos direitos

imediatamente a iniciativa de a abordar e

humanos, é sempre revitalizante estar pre-

perceber se estava disposta a responder a

sente nestes eventos e perceber que, por

algumas perguntas. Demonstrou-se total-

mais que pensemos que sim, não estamos

mente disposta, sempre de sorriso no rosto.

sozinhas. A luta é real, a luta existe, as coi-

«Não é por sermos mulheres que faze-

sas continuam a acontecer, mas, pessoas

mos um pior trabalho»

de todos os cantos, estão cada vez mais conscientes e, felizmente, não se conformam mais com o conformismo.

Ana Cansado – UMAR Despedimo-nos então, no entanto frequentemente nos cruzamos ao longo da mar-

Não foi preciso ser-se um perito em rela-

cha, continuando de sorriso na cara e ar

ção aos locais da cidade de Lisboa pois, ao

nos pulmões enquanto todos, em uníssono,

aproximarmo-nos do Largo Camões, mas,

gritávamos diversos cânticos.

ainda um pouco distantes, denotou-se imediatamente o aglomerado de pessoas, cartazes e bandeiras de LGBT+ e diversos partidos de ideologia de esquerda. Era ali que se iniciava a marcha.

Ao estar presente em outras ações deste género, tivemos a oportunidade de conhecer pessoas que, mais uma vez, se encontravam presentes. Foi assim que estabelecemos contacto com a Flor que se encon-

A marcha tinha inicio para as 15h, porém,

tra afiliada ao Em Luta – organização sim-

entre murmurinhos, percebeu-se que a po-

patizante da Liga Internacional dos Traba-

lícia não permitia que começasse antes das

lhadores. Nem foram necessárias grandes

16h o que nos permitiu estabelecer o pri-

formalidades, a Flor tinha muito para dizer

meiro diálogo com uma cara familiar – Ana

e foi exatamente isso que fez, muito nos

Cansado da União de Mulheres Alternativa

disse.

e Resposta (UMAR) que tinha estado presente na conferência sobre os direitos das mulheres na Semana das Mulheres realizado no ISCSP e agora, estava presente na

«Eu penso que a sociedade capitalista em que vivemos se aproveita da exploração

maior das mulheres para ganhar mais lucro»

Flor – Movimento em Luta


24 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO Ainda não tinha terminado a conversa com

um bocado “deslocado” ou “perdido”, mas

a Flor e já a marcha arrancava. Os cartazes

que acompanhava a marcha lado a lado,

estavam agora à vista de todos, expostos

sem hesitar.

por quem os elevava no ar, as bandeiras es-

Ao iniciarmos o diálogo com eles, percebe-

voaçavam com o vento e os primeiros gri-

mos que não eram portugueses e que, até

tos ecoavam no ar. Despedimo-nos então

mesmo, se encontravam reticentes de res-

da Flor, agradecemos o seu contributo e

ponderem às nossas questões com medo

deixamo-la partir para junto dos seus enquanto nós, nos encaminhávamos também. Já se tinha sentido este sentimento anteriormente, na Marcha das Mulheres em Lisboa, em frente à Embaixada dos Estados Unidos da América, o sentimento de estar num lugar, a fazer algo onde não existe julgamento entre as pessoas de dentro apesar das pessoas de fora, mesmo entre os olhares de curiosidade e os sorrisos de aprovação, encontrar quem mande “bocas” menos

de não “saberem o suficiente”. Eles não pre-

generosas e se sinta incomodado. Talvez

cisavam de “saber o suficiente”, não existi-

seja por não se identificarem com a luta,

am respostas corretas, nem respostas esta-

talvez por não pertencerem a uma minoria

belecidas previamente. Só precisavam de

oprimida e pertencerem à classe opressora

se manifestar e partilhar connosco a pers-

ou talvez, só talvez, se terem resignado ao

petiva vista através dos seus olhos.

seu conformismo e não saberem como rea-

«É bom para um (indivíduo) sair à rua e

girem perante as ocasiões onde o descon-

dizer “não estou de acordo com isso”.»

tentamento não fica “preso na garganta” e

Manifestante

se revela perante todos.

Agradecemos e continuamos o percurso. O

“E a violência ‘pra quê? E o ódio ‘pra quê? E

único retrocesso que houve durante a mar-

a opressão ‘pra quê ‘pra quê ‘pra quê?”.

cha acontecera somente, cada vez que to-

Já a marcha ia a meio quando decidimos

dos andávamos para trás… “Como o machis-

abordar um casal homossexual que parecia

mo, andamos para trás” seguido de uma


25 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO correria tremenda para a frente pois, para a frente é a direção para onde o feminismo nos encaminha. No meio de fotografias e cânticos, encontramos uma figura peculiar, na perspetiva

de que não esperávamos que estivesse ali presente, o ex-coordenador e fundador do partido Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, encontrava-se na beira da estrada a presenciar tudo o que ali acontecia. Hesitamos, não sabíamos se nos estaríamos a ex-

zaram-se num grande circulo. Cartazes e

ceder ou sequer se ele estaria disposto a

bandeiras começaram a ser pousadas, mas,

testemunhar, mas, mesmo assim arrisca-

o espirito em si continuava presente.

mos e a única questão que colocou antes

Num banco e de megafone na mão, come-

de responder às nossas perguntas foi “qual

çou-se a ler o manifesto. Como sempre

é a vossa faculdade?” ao qual respondemos

houve, inclusive, o momento de microfone

com todo o grado e, de seguida, demos ini-

aberto onde qualquer pessoa se podia diri-

cio às questões.

gir e se expressar, que como o nome indica,

«Todos os impossíveis se tornaram batalhas

de forma aberta.

que podiam ser vencidas pela igualdade»

Enquanto as vozes ecoavam do megafone,

Francisco Lousã

começaram a ser montadas caixas de car-

O testemunho não foi dos mais longos pois,

tão com diversas palavras coladas a elas -

tivemos que continuar caminho, a marcha

palavras

não parava por nós e quando percebemos

“misoginia” e entre outras de caráter pejora-

já estava mais adiantada. Em passo rápido,

tivo. A finalidade dessas caixas com as res-

após agradecer e nos despedirmos, fomos

petivas palavras, era que fossem destruí-

atrás dela. O fim estava ao virar da esquina

das, criando assim toda uma situação sim-

e tínhamos, finalmente, chegado ao Inten-

bólica onde até crianças tiveram o gostinho

dente.

de dar um pontapé e participar. Até os mais

Na praça do Intendente, as diversas associações e o aglomerado de pessoas organi-

desde

“racismo”,

“machismo”,

pequenos estavam presentes. No topo de um prédio, na respetiva varan-


26 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO da, encontrava-se uma senhora que com

encontrava-se uma senhora com os filhos,

sorrisos e a sua presença, incutia-nos como

achamos que seria perfeito terminar assim,

um sinal de aprovação. A luta não tem cor,

então, dirigimo-nos a ela e perguntamos se

raça, orientação sexual e muito menos, ida-

estava disposta a nos dar o seu testemu-

de.

nho. Mais uma vez, obtivemos um sim reti-

Enquanto a emoção se acalmava, tivemos a

cente, um sim com receio de não dar a res-

oportunidade de ir obter o testemunho das

posta certa.

pessoas que constituíam um bloco libertá-

«Muita gente confunde feminismo com tan-

rio. A sua presença e força em diversas

tos outros conceitos que não são, de facto, o

marchas e manifestações é inegável e so-

que é o feminismo.»

bressaem sempre.

Manifestante

«A rua é das pessoas, não é dos partidos (...)

Agradecemos e despedimo-nos. Demos

é de cada pessoa, cada pessoa de si é que

então por terminada a nossa participação.

deve sair à rua.»

MAM – Portugal: Rata Dentata Aqui, encontramos uma perspetiva bastante diferente tendo em conta as suas ideologias. No entanto era essa mesma a intenção inicial, ouvir diversas vozes e diversas mentes.

Ao ter tido a oportunidade de obter testemunhos de pessoas com afiliações a associações ou partidos e de pessoas que simplesmente ali se encontravam porque acreditavam na luta pelos direitos humanos, deu para perceber que muitas vezes quem não está dentro do seio político encontra-se

O aglomerado de pessoas com o terminar

com receio de ser abordado e de não saber

da marcha tinha diminuído extremamente,

responder corretamente a assuntos que ca-

já só se encontravam presentes algumas

bem a todos e não só a quem é politica-

associações e algumas pessoas em conver-

mente ativo quando, na verdade, repetindo

sa, para dar por terminado para nós decidi-

o que foi dito acima, não existem respostas

mos procurar alguém que fosse simples-

pré-estabelecidas.

mente comum, que não se encontrasse afiliado ou que fosse representante de alguma associação e/ou partido.

Perto do amontoada das caixas destruídas

Estas marchas, apesar de terem uma energia superpositiva e de despertarem consciências, deixam no ar a questão de “será que

realmente o fazem?”. É difícil não ponderar


27 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO se a adesão de tamanha escala a estes

pela superioridade das mulheres, mas sim

eventos não só assim o será pois “está na

pela igualdade entre todos.

moda” e “fica bonito aparecer”. Apesar des-

Não nos encontramos com as mesmas ba-

tas incógnitas, entre o correto e o somente

talhas que existiam há cinquenta anos atrás,

politicamente correto, queremos acreditar

no entanto, ainda existem batalhas a serem

que até mesmo quem adira somente pela

vencidas e que, serão vencidas. Não são só

moda, acabe por se conscientizar daquilo

as mulheres que comandam o mundo, nem

que engloba todo o feminismo que não luta

os homens. Somos todos nós, em conjunto.

COLUNA DE OPINIÃO Ana Leites | ISCSP-UL Ciência Política | 1º Ano 18 Anos | Porto

Esquerda poético-fofa berrando pelo óbvio.

Estereótipos aparte, é essencial salientar

Entenda-se por Esquerda poética-fofa, a

que é neste tipo de eventos que consegui-

maioria dos participantes em marchas e/ou

mos presenciar o cheiro, não só a drogas

protestos, como foi exemplo a marcha de

leves, como o da esperança. A esperança

dia 11 de março, “Constroem Muros, Apren-

de uma mudança estrutural revolucionária,

demos a Voar”, que tinha como objetivo rei-

suficientemente grande para instaurar o ób-

vindicar os Direitos da Mulher.

vio.

É deveras interessante observar os interve-

O que é óbvio que estes esquerdalhos poé-

nientes deste tipo de protestação. Se não

tico-fofos tanto berram? É mesmo pelo

se conhecesse nada deste mundo, até se

qual gritavam ontem e gritarão amanhã,

pensaria que a esquerda detinha o mono-

porque enquanto a Mulher não tiver pleno

pólio dos Direitos Humanos.

controlo do seu corpo, da sua vida, da sua reprodução, a Esquerda sairá à rua berrando pelo óbvio.


28 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO


29 | 16 DE MARÇO DE 2017 O ESPECTRO

Gatilho da Felicidade

16 a 19 março Maria Matos Teatro Municipal Quinta, às 15h30 | Sexta e sábado, às 21h30 | Domingo, às 18h30

Agregado Nada Familiar

16 a 26 março Quinta a sábado, às 21h30 | domingo ás 17h Local: Teatro Turim

FILIPA CARDOSO - Fadista

17 de março Centro Cultural de Belém 21h.

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26ª edição de 'O Espectro'  

26ª edição de 'O Espectro'  

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