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2 de Abril de 2013 • Ano XXXVI • Nº 1892 • Preço 2,00 € (IVA incluído) • Fundadora: Vera Lagoa • Director: Duarte Branquinho

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Rui Verde:

"Sócrates devia regressar para ir para o banco dos réus e não para o banco da televisão"

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Grande entrevista com Adriano Moreira

“Nunca vivi uma situação tão difícil como aquela que Portugal enfrenta neste momento”

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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Entrevista

“Somos um protectorado. As relações com a ‘troika’

“Nunca vivi uma situação como aquela que Portugal DUARTE BRANQUINHO

Adriano Moreira é uma das figuras de referência em Portugal, professor universitário, foi ministro do Ultramar durante o Estado Novo e deputado e líder do CDS a seguir ao 25 de Abril. Com 90 anos de idade, a sua experiência é notória e o seu conhecimento é profundo. O DIABO entrevistou-o na Academia das Ciências, em Lisboa.

Historicamente? Sim. D. Afonso Henriques pediu logo o apoio da Santa Sé e comprometeu-se a pagar quatro onças de ouro por ano e o cronista diz que ele nunca pagou por esquecimento muito bem lembrado. Depois, tivemos a aliança inglesa, que ainda está vigente, mas que custou ao País sacrifícios enormes. Não apenas materiais, mas também do ponto de vista da dignidade, embora nos tenha deixado um império. Parte do império euromundista da frente marítima europeia. Dependíamos do império? Esta situação de império teve sempre uma curiosidade, que é a demonstração de que somos maus administradores. Porque o primeiro império acabou em

O DIABO

Ao longo da sua vida assistiu a grandes mudanças no País... Assisti naturalmente a mudanças estruturais no País, a última delas o fim do terceiro império, mas nunca vivi uma situação tão difícil como aquela que Portugal enfrenta neste momento. Tenho a convicção, e tenho escrito sobre isso, que Portugal, pela sua dimensão, precisou sempre de um apoio externo.

Alcácer-Quibir e o Estado estava falido. O segundo império acabou com a independência do Brasil e o Estado estava falido. O terceiro império acabou, com o império euromundista, e este Estado está na situação financeira que todos nós sabemos. A Europa foi a salvação? A Europa apareceu como a resposta a essa necessidade. Não porque Portugal tenha descoberto

a Europa, que a meu ver é um erro de perspectiva. Há a ideia de que vivemos afastados da Europa... Não é verdade. Na primeira dinastia a política de casamentos é na Europa. O D. Pedro de Alfarrobeira era europeísta. O que aconteceu foi a adesão ao projecto europeu. Houve em Portugal pessoas que defenderam isso e eu gosto de sublinhar uma

instituição que se chamava Centro Europeu de Documentação e de Informação (CEDI), cujos inspiradores foram o conde Coudenhouve-Kalergi, que tem ainda uma fundação com o nome dele, e o arquiduque de Habesburgo, que era grande amigo de Portugal e que tinha estado aqui em criança. Era uma organização que tinha delegações nos 14 países, da qual eu ainda fui presidente internacional.

Qual era o objectivo dessa organização. Era a defesa de uma unidade europeia, doutrinada pelos chamados projectistas da paz há séculos. Só falamos, em regra, do Kant, mas há dúzia de projectos. Acho que Coudenhouve-Kalergi foi o maior doutrinador da unidade europeia e ele falou sempre em federação. Federação em que sentido? Não era designadamente igual


O Diabo, 2 de Abril de 2013 •

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Entrevista

parecem as relações com os mestres de estudo”

tão difícil enfrenta neste momento” ao dos Estados Unidos da América, que pareciam grandes demais. Também não era igual à Suíça, que parecia pequena de mais. Era um maneira de definir a solidariedade que era preciso construir, sem opinião firme sobre qual seria a forma final. Esse projecto foi, a meu ver, animado por homens tocados pela santidade.

2015 e a mim preocupa-me que algum eurocrata, qualquer dia, em vez de ler 2015 leia 2051. A preocupação é esta: se a definição do mar europeu for anterior à nossa definição de que aquela Plataforma Continental é nossa, eu começo logo a lembrar-me de 1890, com os países europeus todos a dizer que isso tem que ser dividido porque é o nosso património. Por isso, eu próprio tive ocasião, num discurso de recepção do Presidente da Comissão Europeia, pela Universidade Técnica de Lisboa, como Doutor ‘honoris causa’, e como eu sou Presidente do Conselho Geral, eu chamei a atenção para este ponto. Sobretudo para que a definição do mar europeu seja dotada de uma gestão desconcentrada para não darmos origem ao mesmo desastre da Política Agrícola Comum. Portanto, temos essas janelas de liberdade, temos universidades a estudar, mas estranho que não esteja no programa de nenhum partido.

E Portugal? Quando o império euromundista acabou – é preciso não esquecer que não é só o império português que acaba, acaba o império da frente marítima europeia – este projecto europeu era o único projecto de apoio que Portugal sempre precisou. De maneira que foi uma decisão que na altura melhor correspondia aos interesses do País. Era inevitável? Sim, não havia outra saída. Não temos outra saída? Isso não significa que Portugal não tenha outras janelas de liberdade para o exterior. Quais são? São a CPLP e a Plataforma Continental, o mar. A CPLP, à qual nós não temos ligado a importância necessária. A Espanha e a França, que tiveram grandes

O DIABO

Como assim? Designadamente o francês, que na Primeira Guerra foi mobilizado para o exército alemão, devido ao território onde nasceu. Veja o sacrifício que ele deve ter vivido na sua vida. O Adenauer viveu sempre no fio da navalha, durante todo o nazismo e naquela fronteira naturalmente conflituosa entre a França e a Alemanha. E o italiano foi o mais jovem deputado do parlamento austro-húngaro, porque o território onde nasceu pertencia ao império. Ora estes homens, e daí eu falar tocados pela santidade, transformaram sentimento em sabedoria e resolveram que nunca mais poderia suceder o desastre que aconteceu à Europa e duas vezes na mesma geração. A minha admiração por esses homens é muito grande.

impérios, não têm uma CPLP. A Inglaterra tem a comunidade britânica que é uma comunidade, sobretudo hoje, de povoamento branco, porque as colónias do grande império estão a afastar-se. Portugal tem essa riqueza da CPLP que tem esta circunstância, não é apenas a língua que todos falam, é que são todos marítimos, todos precisam do mar e todos são pobres, com excepção do Brasil que está a crescer, embora ainda tenha muito que desenvolver-se. Isso pode levar à criação de iniciativas económicas, designadamente

na área da pesca, dos transportes marítimos, etc. O nosso tempo tem demonstrado que a união dos fracos ganha, mesmo em relação aos fortes. A segunda janela de liberdade é a Plataforma Continental, que me causa grande preocupação. Porquê? A Plataforma Continental é a maior do mundo. Independentemente das investigações de organismo oficiais, que têm feito bom trabalho, tal como as universidades, especialmente as Universi-

dades dos Açores, de Aveiro e do Algarve, que têm feito trabalhos de grande valia e a que não tem sido dada grande publicidade. Sabemos que essa plataforma tem riquezas incalculáveis e, naturalmente, isso causa-me preocupações. A Comissão Europeia anunciou a definição do mar europeu. Nós tínhamos a promessa de que a nossa plataforma fosse reconhecida em 2013, pelas Nações Unidas, de acordo com o Direito Internacional. Acha que está em risco? Já foi adiado para, salvo erro,

Não nos faltam também os meios militares necessários? Fui muitos anos professor no Instituto Superior Naval de Guerra e também fui colaborador e dei muitas aulas no que é hoje o Instituto de Estudos Superiores Militares, portanto tenho alguma sensibilidade para esses problemas. Há uma coisa que é bom nunca perder de vista: lembro-me que estivemos na NATO cinquenta anos de Guerra Fria e não há um único caso de censura a um oficial português. Porquê? Porque eles sabem e sabem fazer. E o saber e saber fazer é um património que, se se perde, leva muito tempo a recuperar. Aviões compram-se feitos, barcos também se compram feitos, agora o saber e o saber fazer é um capital que desaparece e se o deixam desaparecer é gravíssimo. É por isso que eu vejo com preocupação a privatização do Alfeite e, em Viana do Castelo, dos estaleiros. É mais grave perder o saber fazer do que a gravidade que é fechar a actividade. continua na página seguinte


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Entrevista

“O País foi vítima do novo-riquismo”

continuação da página anterior

É mais uma consequência da crise financeira? Não posso ser alheio à situação financeira a que nos conduziram e que naturalmente afecta todas as actividades. Não são só as Forças Armadas, é o ensino, que estar a ser afectadíssimo, por exemplo.

Hoje perdemos a nossa soberania? É verdade, mas é preciso, em primeiro lugar, não confundir a perda da soberania com a definição da soberania em cada época. A ideia de que a soberania nasceu com a modernidade não é verdade, na Idade Média falava-se na soberania. Neste momento, a interligação, as interdependências, obrigam a criar conjuntos. Como assim? Dou-lhe um exemplo, o organismo mais responsável pela segurança mundial chama-se Conselho de Segurança. Os países sabem, ou sabiam, na altura em que fizeram o Conselho, que quando a Carta afirmava que todos os países são iguais estavam ali a criar um grupo de países mais iguais que os outros. Mas esses países suponham e afirmavam-se como tendo ao mesmo tempo o poder militar e o poder financeiro e económico, porque os dois poderes é que fazem a supremacia. A evolução tem mostrado que isso não se verifica em relação a todos os que têm direito de veto. Não vejo motivo nenhum para que a França e a Inglaterra tenham direito de veto, porque não são capazes de enfrentar o globalismo. Terá que haver a criação de regionalismos que aparecerão ao lado de grandes potências.

O DIABO

Os nossos oficiais estão bem preparados... Sim. Veja a série de oficiais que estão a fazer doutoramentos nas universidades. São muitos e com alguns trabalhos notáveis. Isso tem que ser animado porque nós não podemos estar ausentes das obrigações internacionais, não podemos deixar de definir um conceito de segurança e defesa apropriado para a época em que estamos e limitado pelos meios de que dispomos, mas isso é compreensível, acho eu, e compreendido pelas entidades a que pertencemos. Não nos vão pedir um esforço que sabem que não podemos fazer, mas devem contar com o nosso saber fazer e o conhecimento e a ciência, porque isso é fundamental. Faz mais falta sempre em todas as intervenções. É isso que tenho sustentado, continuo a colaborar com as escolas militares, acho que para a identidade nacional é absolutamente fundamental que isso se mantenha.

E a Europa? A Europa ou está unida e é ela que deve estar no Conselho de Segurança, em qualquer reforma que se faça no Conselho de Segurança, ou, se deixa crescer os sinais de cisão, de falta de cumprimento dos objectivos e princípios, se continua a reconstituir inconscientemente o ‘limes’ romano, que é a fronteira da pobreza que passou para o norte do Mediterrâneo e coincide mais ou menos com o império romano, a Europa perde a voz do mundo, perde o significado do mundo. Portanto, se insiste no erro de imaginar que os países do Norte é que devem constituir um bloco, é a morte da voz da Europa no mundo. Por isso, sempre que haja interdependências formais, ainda por cima, e regionalismos como é a União Europeia, que é um símbolo para o mundo, a soberania passa a ter outra definição.

que nos factos e não por decisão formal não é uma situação que Portugal não tenha enfrentado. Quando eu entrei para a Faculdade de Direito, com 16 anos, a imagem de Portugal era a de que era um protectorado da Inglaterra. Mas nós conseguimos sair disso. Com esforço formidável e num mundo diferente daquele que é hoje.

A questão de Chipre é uma ameaça? Sim. Dizem-nos que a situação de Chipre é excepcional, ou seja, afirmaram o princípio da excepcionalidade. Isso é uma ameaça.

Quais foram os principais erros que a Europa teve? Em primeiro lugar, o alargamento da Europa nunca foi precedido de um estudo de governabilidade da Europa. Neste momento a Europa anda à procura de ter uma defesa e uma segurança comuns e não há nenhum estudo de fronteiras amigas na Europa. Naturalmente, esta situação não é propriamente a mais recomendável. Por outro lado, o conhecimento do que unifica a Europa não parece ter merecido a atenção suficiente. Acho que o mal europeu é que ainda não há um conceito estratégico europeu. Como não há, os órgãos responsáveis pela gestão não são os que estão efectivamente no poder.

Mas hoje somos protectorado... Sim, chegar ao limite a que nós chegámos, de sermos um protectorado, que é a situação em que nós estamos. Em que as relações com a ‘troika’ parecem as relações com os mestres de estudo, é uma situação de protectorado. Devo dizer

E como vê o actual Governo português? O Governo, primeiro, encontrou uma situação difícil e devo dizer que é difícil encontrar inocentes ao longo dos anos que nós temos vivido. Julgo que em vez de termos governos que tinham alternância ideológica o País foi

Como assim? Em primeiro lugar há sinais inquietantes de directório e o passado do directório na Europa foi sempre um desastre. Em segundo lugar, nós temos uma crise financeira enorme e uma crise económica. A distância entre a riqueza produzida e distancia em relação

E agora? Neste momento também não há uma definição formal de protectorado, mas os factos mostram que Portugal está num protectorado e devo dizer que esta questão de Chipre causou-me um alarme enorme.

vítima do novo-riquismo, que o levou à situação onde está e com uma evolução da Europa com erros tremendos.

à dívida global é incalculável. Se a crise é global, não é apenas europeia, quando é que reuniu o Conselho Económico e Social das Nações Unidas? Porquê? Porque esta distância brutal entre o que o globo produz, não é só a Europa, e o montante brutalíssimo da dívida está a exigir uma intervenção, que tem que ser global. Infelizmente, as Nações Unidas também, neste momento, dão a impressão que caminham para cima de um templo onde fazem orações a um deus desconhecido, porque têm o G20 e já sabem que não vão cumprir, têm a reunião do Rio de Janeiro e já sabe que não vão cumprir porque não têm recursos. Aquilo que encontramos no mundo, neste momento, é a anarquia. Vivemos em anarquia? Os centros que mandam ou são anónimos, na área financeira por exemplo, ou não são cobertos por nenhum tratado. O G20, por exemplo. Chega-se à Europa e é preciso estar à espera, neste momento, da eleição da senhora Merkel. De maneira que eu vejo que vamos ter dificuldades enormes e crescentes em Portugal. ■


O Diabo, 2 de Abril de 2013 •

Dívida pública aumentou 20 mil milhões em 2012

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Política

Vem aí (mesmo) o segundo resgate? FRANCISCO LOPES SARAIVA

Os economistas avisam: em Setembro não teremos dinheiro para pagar as nossas obrigações. No Ministério das Finanças, o assunto é tabu: já ninguém sabe como parar uma bola de neve que começou há 5 anos nos Estados Unidos com o rebentar da chamada “bolha do imobiliário”. Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças de Sócrates, garantia a pés juntos que o nosso pequeno País estava imune a tamanho ataque dos mercados. Errou. E errou o povo português por acreditar que a vida não podia ser pior do que já era. Mas foi… e é! A dívida pública terá atingido os 123,6 por cento do PIB em 2012, um aumento de quase 20 mil milhões de euros num só ano, bem acima da estimativa do Governo e da “troika”, feita há menos de duas semanas. O défice terá ficado nos 6,4 por cento. A “insustentável” dívida pública engordou mais mil milhões de euros em apenas 13 dias, o que dá um acréscimo anual de 99 euros na factura média por habitante, em Portugal. E esta não pode ser passada em nome de nenhum governante.

Prognósticos ao lado

Ninguém saiu totalista na hora de dizer com frontalidade o caminho que se estava a seguir com estas medidas insuportáveis de austeridade – impostas por Pedro, o governante, mas com mágoa de Pedro, o cidadão.

DR

O cenário de novo resgate financeiro é cada vez mais real. O DIABO tinha alertado há um ano, agora os prognósticos vêm de todos os quadrantes e até o Governo já estuda a hipótese. O valor real da dívida será de 410 mil milhões de euros.

De acordo com os dados agora divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, a dívida pública terá aumentado 15,3 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) face ao registado em 2011 (ambos os valores são provisórios), o que em termos de rácio está influenciado por uma forte queda no valor que serve de base a este cálculo, o do PIB nominal. Isto quer dizer que a dívida pública aumentou mais de 19,2 mil milhões de euros de 2011 para 2012, passando de 185.240,7 milhões de euros para 204.485 milhões de euros, o que representa também a primeira vez que o valor absoluto da dívida supera os 200 mil milhões de euros no final de um ano. Quanto ao défice orçamental do ano passado, ter-se-á ficado nos 6,4 por cento do Produto Interno Bruto. O valor inclui a anulação da receita da venda de concessão da ANA, e outros ajustamentos como a compra de ações ordinárias da Caixa Geral de Depósitos na ope-

ração para aumentar o seu capital, mais 750 milhões de euros, e ainda a transformação em suprimentos da Parpública, também com um impacto de 750 milhões de euros. O ministro das Finanças anunciou a 15 de Março que esperava que o défice em contabilidade nacional apurado pelas entidades estatísticas furasse a meta dos 5 por cento deste ano (apesar de nas con-

tas da ‘troika’ ter ficado dentro do limite) e que este podia chegar aos 6,6 por cento.

410 mil milhões de dívida

A 19 de Abril de 2011, o nosso jornal avisava em capa que a “dívida real do País” era de 410 mil milhões de euros. Os números eram da conselheira portuguesa junto ao FMI.

Camiões de dinheiro para Chipre chegaram durante a noite O Banco Central Europeu enviou para Nicósia, capital de Chipre, cinco mil milhões de euros em camiões blindados para permitir que os bancos cipriotas tivessem dinheiro e pudessem finalmente abrir as portas, na semana passada. Foi tudo feito em segredo e durante a noite. Ainda assim, a operação foi noticiada pela revista alemã “Spiegel” e os camiões fotografados pela agência Reuters.

Segundo o espanhol ‘El Mundo’, trata-se do maior transporte de dinheiro feito na Europa desde o nascimento do euro. As forças de segurança de Chipre, que foram posicionadas em todo o território da ilha desde cedo para evitar situações de saque ou crimes, estiveram a assegurar a escolta dos camiões que transportavam o dinheiro.

No total, segundo Estela Barbot, Portugal tinha em 2011 uma dívida externa bruta de 230 por cento: cerca de 410 mil milhões de euros. José Sócrates deixou, assim, uma factura de 9,5 mil milhões de euros para serem pagos durante os quatro anos de mandato de Passos, entre 2011 e 2015. Mais de dois terços - 6,5 mil milhões de euros - deste valor diziam respeito às PPP rodoviárias. As sete SCUT, construídas durante o último Governo socialista de António Guterres, e as nove concessões rodoviárias lançadas desde que José Sócrates chegou ao poder, em 2005, são as culpadas, em grande parte, pela dimensão dos encargos financeiros. Formalmente alheado de toda a história de uma crise com cinco anos, que tem no enredo mais de um milhão de desempregados e centenas de milhares de emigrantes, António José Seguro pretende surgir de “mãos lavadas” nesta tragédia que, sendo mundial, é também bem portuguesa. ■


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

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O NÚMERO 5 0 2 7 4 4 9 1 0 PODE SER UMA REFEIÇÃO. Escreva este número no quadro 9 do anexo H da sua declaração de IRS. Ajude a Missão de Emergência Nacional da AMI. Saiba tudo em ami.org.pt


O Diabo, 2 de Abril de 2013 •

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Sete Dias

Jardim diz que Governo não se demite por ter “apego ao poder”

Moção de censura do PS defende eleições antecipadas “Só um novo Governo, democraticamente legitimado, com forte apoio popular, estará em condições de interpretar e protagonizar o novo consenso nacional”. A frase faz parte da moção de censura entregue no Parlamento pelo PS e confirma, mais uma vez, a rejeição inequívoca dos socialistas de uma nova solução política de governação que não implique eleições legislativas. Assim, o PS defende novas eleições para dar legitimidade ao próximo Governo para “renegociar” com a Europa o programa de ajustamento e relançar a economia. “Este Governo não está à altura do momento e das responsabilidades que devia assumir”, justificou o líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho, numa conferência de imprensa realizada após a entrega da moção na mesa da Assembleia da República. O socialista invocou a existência de “um novo consenso político” no País sobre o caminho alternativo ao seguido pelo actual Governo. Um consenso, defendeu Zorrinho, que “não passa por este Governo, por esta maioria e por este primeiro-ministro”. A iniciativa parlamentar foi agendada para debate e votação para esta quarta-feira. O seu primeiro subscritor é o secretário-geral, António José Seguro, seguindo-se a presidente do partido, Maria de Belém, e o líder da bancada socialista, Carlos Zorrinho.

As farpas vêm da Madeira, do suspeito do costume. O presidente do Executivo madeirense atira em direcção a Passos Coelho, ao Tribunal Constitucional e até a José Sócrates.

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várias possibilidades, o chefe do Governo não tem que pronunciar-se publicamente sobre essa matéria, alimentando qualquer especulação”. “Todos nós, o Governo, o Parlamento e todas as instituições têm mostrado um elevado sentido de responsabilidade, que acompanha o elevado sentido de responsabilidade que todos os portugueses têm manifestado durante estes tempos muito especiais e difíceis”, acrescentou. ■

a qualquer decisão que esteja dependente daquele tribunal”. “Continuo a dizer que é um tribunal nascido de uma escolha política”, concluiu. O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, tem-se escusado a comentar os cenários políticos que possam decorrer da decisão do Tribunal Constitucional sobre a fiscalização de algumas matérias do Orçamento do Estado de 2013. Mas sempre adianta que “é natural que os partidos possam avaliar

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O presidente do Governo madeirense, Alberto João Jardim, está seguro de que o actual Governo se manterá em funções no caso de um eventual chumbo do Tribunal Constitucional a normas do Orçamento de Estado. A justificação é simples: porque tem “apego ao poder”. “Tanto quanto eu conheço, ou julgo conhecer as pessoas que estão neste Governo da República, não acredito que se demitam por causa de qualquer decisão do Tribunal Constitucional”, disse o governante social-democrata insular, que gozava uns dias de descanso na quadra da Páscoa na ilha do Porto Santo. “Penso que o actual Governo tem o mesmo apego ao poder que tinha o engenheiro Sócrates e a sua gente”, disse o responsável do Governo Regional da Madeira. Jardim reafirmou as críticas que tem feito ao funcionamento do Tribunal Constitucional, sustentando: “Tal como eu conheço o procedimento do TC, não posso ter qualquer expectativa jurídica sólida em relação

Papa Francisco lavou Coreia do Norte prepara ONU autoriza Novas Oportunidades os pés a duas raparigas ataque contra EUA neutralização de rebeldes encerram definitivamente O Papa Francisco celebrou na semana passada a cerimónia pascal do lava-pés de uma forma inédita. Não foi inédita pelo acto, mas pelos escolhidos: lavou e beijou os pés de dez rapazes e, pela primeira vez, de duas raparigas, uma delas muçulmana – um gesto que disse fazer “como padre e como bispo”. Francisco já renunciara aos adornos vermelhos, manteve a cruz de ferro que usava como arcebispo de Buenos Aires, recusa a viatura oficial e não dorme nos aposentos oficiais do Palácio Apostólico, preferindo residir em Santa Marta na companhia de outros prelados.

Segundo a agência noticiosa norte-coreana, Kim Jong-Un indicou aos seus generais que chegou à altura de “ajustar contas com os imperialistas dos EUA”. O líder da Coreia do Norte ordenou a preparação de um ataque contra bases norte-americanas na Coreia do Sul e no Pacífico. Na semana passada, dois bombardeiros furtivos norte-americanos, capazes de transportar armas nucleares, sobrevoaram a Coreia do Sul numa demonstração de força com contornos raros, ainda para mais por ter sido anunciada.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizou a criação de uma nova “força especial” da Missão da ON U na República Democrática do Congo para “neutralizar” os grupos rebeldes armados. A resolução, proposta pela França, foi aprovada pelos 15 membros do Conselho de Segurança e amplia por um ano o mandato da missão, até 31 de Março de 2014. A nova força terá três batalhões de infantaria e forças auxiliares sob o comando da MON USCO, sediada em Goma.

Os Centros Novas Oportunidades (CNO), umas das principais bandeiras dos Governos socialistas de José Sócrates, encerraram definitivamente, sendo substituídos por Centros para a Qualificação e Ensino Profissional (CQEP), com previsões de pleno funcionamento no início do próximo ano lectivo. A portaria que regula a criação da nova rede nacional de CQEP, que deve começar a ser instalada ainda durante o mês de Abril, e confirmou a data de hoje para o encerramento definitivo dos CNO, foi publicada na passada quinta-feira em Diário da República.


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Economia

Foi a maior quebra dos últimos cinco anos

CP perdeu 27 milhões de passageiros FRANCISCO LOPES SARAIVA

por diversas vezes nos últimos 5 anos, podem ajudar a explicar a perda de passageiros. Mas não explicam tudo. A empresa acredita terem contribuído para a redução de clientes as greves realizadas ao longo dos anos: mais de uma centena, segundo a empresa, nos últimos dois anos. Com a agudização da crise económica, financeira e social, os clientes da CP foram desaparecen-

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Os números são públicos (pelo menos enquanto a CP for uma empresa sustentada pelos contribuintes portugueses): em comparação com 2008, em 2012 venderam-se menos 27 milhões de bilhetes em toda a rede nacional de comboios. Esta é apenas a ponta do icebergue e a face mais visível de um problema criado pelo Estado português e pelos gestores da CP. A crise económica e a subida das tarifas,

“Paz social” acordada até ao final de abril Sindicatos e administração da CP acordaram manter um período de “tréguas” até ao final de Abril: as greves às horas extraordinárias e ao trabalho em dias feriado ou de folga foram desconvocadas e a empresa irá remunerar o trabalho nos períodos referidos com um acréscimo de 50 por cento sobre a totalidade das horas trabalhadas (e não apenas sobre metade das horas, como até aqui).

Segundo Jorge Oliveira, da Associação Sindical Independente dos Ferroviários da Carreira Comercial (ASSIFECO), a administração da CP “alegou sempre não poder pagar mais do que o estabelecido pelo Código de Trabalho, uma vez que o seu orçamento provém do Orçamento do Estado”, mas deu agora um “sinal positivo ao assumir esse custo para permitir negociações e um consenso até ao fim de Abril”.

do. De 2011 para 2012, a CP deixou de vender mais de 14,4 milhões de títulos. Foi a maior quebra dos últimos cinco anos. Antes, de 2010 para 2011, as perdas tinham sido de cerca de 7,5 milhões; em 2009-2010 de cerca de 1,3 milhões e entre 2008 e 2009 de 4,4 milhões. Os comboios da CP transportaram no ano passado 111,7 milhões de pessoas, número que traduz uma quebra de 11,4 por cento face ao número de passageiros transportados em 2011. Nessa altura, viajaram nas carruagens da transportadora ferroviária nacional mais de 126,1 milhões de pessoas. Na época, fonte oficial da companhia dizia que existiam várias razões para justificar a quebra da procura e que “as perturbações à normal realização de comboios por força das greves” de que a empresa tinha sido alvo pesavam significativamente “no comportamento da procura”. Mas existiam outros factores. A mesma fonte esclarecia que é preciso ter em conta “questões relacionadas com o ordenamento do território, com as alterações demográficas e com o investimento na oferta de modos de transporte alternativos”. Por fim, a evolução do número de passageiros não é alheia ao “contexto de crise económica que o País atravessa”.

Nos carris da incerteza

A empresa pública vive dias de grandes dificuldades. As perdas de clientes serão, logo que possível, um motivo para que o Governo se desfaça da CP através da privatização. Não deixa de ser irónico que

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Desde o início da crise, em 2008, os comboios nacionais deixaram de transportar o equivalente ao dobro do total da população portuguesa.

os caminhos-de-ferro, alternativa credível ao automóvel e em franco desenvolvimento noutros países da Europa, vivam em Portugal dias de tamanha amargura. Com o preço dos combustíveis a aumentar, com os portugueses a procurarem meios mais baratos, a CP continua a dar prejuízos… O argumento, aliás, serve para se aumentar o preço dos bilhetes, o que, por sua vez, faz com que se percam ainda mais clientes. As apostas da empresa ferroviária do Estado têm sido, no mínimo, discutíveis. Há, no Interior português, casos de verdadeiro desperdício público. Entre Caria e Belmonte, foram gastos 7,5 milhões numa rede ferroviária de dez quilómetros. Não aproveitam a ninguém, a menos que reabra a linha Guarda-Covilhã, fechada para umas obras que a crise teimou em suspender. A circulação de comboios entre a Guarda e a Covilhã foi interrompida em 2009, em nome de uma intervenção que visava dotar a linha de padrões de modernidade ao nível do que de melhor há na Europa. Há ano e meio, porém, a Refer suspendeu, já por força da crise, este investimento de 85 milhões de euros. Mas chegou a requalificar dez quilómetros, entre Caria e Belmonte, onde se vêem carris novos assentes em travessas polivalentes (que permitiriam, no futuro, converter a linha para bitola europeia). Reforçou as pontes, requalificou os túneis e modernizou

CP e hospitais vão consolidar no défice O debate sobre a inclusão de várias empresas públicas e de vários hospitais nas contas do défice já começou. Mas as alterações ficam para 2014. O défice e a dívida arriscam voltar a agravar-se devido às empresas públicas. No próximo ano, várias empresas deverão ser reclassificadas no perímetro das Administrações Públicas, passando a consolidar no défice. É o caso da CP e da maioria dos hospitais empresas (EPE), segundo o Diário Económico. A mudança já poderia ter sido efectuada, mas ficou adiada para 2014, ano em que entrará em vigor o novo sistema europeu de contabilidade nacional.

estações e apeadeiros, num troço de uma linha. Para nada. Para a Refer, este investimento justifica-se, porque “permite o fecho de malha e a redundância de rede, contribuindo não só para descongestionar a Linha do Norte - nomeadamente ao nível do transporte internacional de mercadorias -, mas também para tornar mais exequível a futura migração da bitola”, de acordo com fonte oficial da empresa. ■


O Diabo, 2 de Abril de 2013 •

Moeda nacional perderia quase metade do seu valor

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Economia

Regresso ao Escudo faria disparar preços O cenário está em cima da mesa há vários meses. O fim da moeda única atiraria os países do euro para níveis de vida dos anos 90, com o problema de ficarem com uma moeda muito mais fraca que a de então. A única a “sobreviver” a esta catástrofe seria (adivinhem quem!) a Alemanha... Com a crise a atingir Chipre, com a Europa de pés atados e as mãos carregadas de uma moeda demasiado pesada, em Portugal volta-se a pedir o regresso à velha moeda. Uma petição a correr na internet pede a discussão do tema na Assembleia da República. “Portugal precisa urgentemente de desvalorizar a sua moeda para conseguir aumentar o investimento externo, aumentar o consumo interno e diminuir o efeito recessivo provocado pela austeridade. Podendo depois aumentar as exportações e reduzir os impostos. Temos que ser realistas, se não o fizermos agora a bem, vamos ter que o fazer no futuro obrigados e em estado de calamidade”, lê-se no documento. De facto, nas duas primeiras intervenções do FMI no nosso País, a desvalorização da moeda foi uma das medidas tomadas para impulsionar a economia. E isso só pode acontecer actualmente se Portugal regressar ao Escudo. Mas uma moeda fraca traria a curto prazo um problema grave: a diminuição do poder de compra. Isto é, os preços iriam sofrer um aumento brusco, em média de 100 por cento, segundo estudos recentes de bancos europeus. Produtos importados, nomeadamente os cereais, veriam o preço disparar em flecha logos nos primeiros dias de Escudo. Ainda assim, há cada vez mais vozes a defenderem a saída de Portugal do euro. A receita da troika aplicada pelo Executivo mergulhou o País numa espiral recessiva onde não há fim à vista, ainda que quem se reversa no poder, qual timoneiro iluminado, garanta estar a ver a luz ao fundo do túnel. As últimas projecções da Comissão Europeia apontam para uma contracção da economia na

zona euro de 0,3 por cento e um modesto crescimento de 0,1 por cento em toda a União, um cenário que reforça o pessimismo. Vários economistas têm dado publicamente a sua opinião favorável à saída da moeda única. Octávio Teixeira, João Ferreira do Amaral, João Rodrigues, Jorge Bateira, Pedro Arroja, Braz Teixeira (ex-assessor do governo liderado por Durão Barroso), João Duque e Silva Peneda são as vozes a assumirem abertamente a saída, em prol do controlo do direito a controlarmos a nossa própria moeda.

Desvalorização de 50%

Saber exactamente quanto é que valerá o Escudo em caso de saída do euro é um exercício quase de adivinhação. Antes da chegada da “troika” a Portugal, um estudo do Banco america-

no Merrill Lynch apontava para uma valorização do Escudo em relação ao fim da sua circulação no início do milénio. Se o euro terminasse naquele período e os países tivessem de voltar às divisas nacionais, Alemanha, Irlanda e Países Baixos sairiam desvalorizados e Portugal, Espanha, França e Itália estariam valorizados. Porém, tudo mudou. O banco japonês Nomura fez novos cálculos. Ao fim de cinco anos sem moeda única, tendo em conta a perda de competitividade dos países e a inflação, apenas a Alemanha ficaria à tona e até conseguiria va-

lorizar 1,3 por cento face ao actual euro. Do lado oposto, afogada numa desvalorização de 57,6 por cento, ficaria a Grécia. Logo depois: Portugal. No segundo pior lugar entre os 17 países do euro, o nosso País, com o novo Escudo a sofrer uma desvalorização de quase 50 por cento, veria as importações ficarem, subitamente, mais caras. Já dentro do País, os preços tenderiam a cair. Um sobe e desce que poderia beneficiar, no entanto, as empresas nacionais não dependentes das importações, já que venderiam a um preço mais barato do que os seus concorrentes europeus. Espanha viria atrás, com a nova peseta a valer menos 35,5 por cento do que o euro, ficando assim pior do que a resgatada Irlanda, que sofreria uma desvalorização de 28,6 por cento.

Portugueses recorrem a cofres

A saída do euro nunca poderá ser realizada através de uma expulsão explícita. Não existem nos tratados europeus quaisquer procedimentos para a expulsão de um país da zona euro. Aquando da criação da moeda havia critérios macroeconómicos de acesso ao ‘Clube do Euro’ ligados ao défice e dívida dos Estados, mas não foram previstos critérios de expulsão. Ainda assim, com medo do fim do euro e do regresso do Escudo, o número de portugueses a alugar cofres nos bancos está a aumentar, revelam as principais instituições bancárias a operar no mercado nacional. A incerteza em torno do futuro da zona euro e o receio de um regresso ao Escudo justifica a maior procura por estas caixas fortes para proteger poupanças, ouro e outros valores. Em Portugal, a quase totalidade dos bancos disponibiliza o aluguer de cofres. Em 2011, a procura por este tipo de serviços já tinha aumentado, mas em 2012 o crescimento foi mais significativo. Em alguns dos bancos nacionais, a procura subiu 12,2 por cento de um ano para o outro – dados revelados em percentagem, não sendo público o número de cofres de cada instituição bancária. Regista-se mesmo um aumento da procura dos cofres de grande dimensão, os quais raramente estão disponíveis, por serem em menor número. O que também tem aumentado é o número de visitas aos cofres, principalmente na época das férias. Os portugueses procuram assim salvaguardar bens que não desvalorizem tanto, de modo a serem o menos afectados possível com uma desvalorização acentuada da moeda. ■


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Política

Oito manifestações por dia ao longo do último ano

Um país aos gritos No ano passado, o número de manifestações de rua triplicou em Portugal, um dos países da Europa com mais greves convocadas.

faseada, coordenada e metódica dos diversos níveis de intervenção operacional”.

Oito manifestações por dia, mais de três mil num só ano: este é o último dado estatístico sobre a indesmentível queda dos portugueses para se manifestarem na rua, com megafones, cartazes e bandeiras e uma multidão de repórteres atrás. Às vezes, mais repórteres do que manifestantes, reconheça-se… Em 2012, segundo há dias revelou a PSP, forças da ordem mobilizando 17 mil polícias foram chamadas a acompanhar 3.012 manifestações de rua em Portugal – três vezes mais do que no ano anterior. Só em Lisboa, em 2012 realizaram-se 579 manifestações, segundo adiantou o comandante metropolitano da PSP, superin-

Num outro campo da conflitualidade social, as greves voltaram a pontuar nos últimos anos o dia-a-dia dos portugueses. Encerramentos de empresas, salários em atraso e despedimentos têm suscitado um número cada vez maior de paralisações laborais. Até 2008, a tendência era decrescente. Depois de um pico grevista no final dos anos 80 (363 greves convocadas em 1986, por exemplo), o clima social acalmou progressivamente nos anos seguintes. Em 2000 já “só” houve 250 greves, 126 em 2005 e 99 em 2007. Mas o gráfico depressa se inverteu, acompanhando a subida de temperatura da crise.

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Paralisações

O DIABO

tendente Constantino Azevedo Ramos. Embora a generalidade das ‘manifs’ decorra de forma pacífica e sem incidentes, as quase 600 realizadas em Lisboa deram lugar a 33 detenções e à identificação de 149 pessoas. Segundo o superintendente Constantino Azevedo Ramos, citado pela Lusa, o número e a complexidade logística das manifestações de rua em Portugal aumentaram “sobretudo nos três últimos anos”, devido à “maior conflitualidade social” originada pela crise. Contudo, o comandante da polícia da capital sublinhou “o trabalho preparatório de contacto

e diálogo entre a PSP e as organizações de manifestantes, o planeamento criterioso de todos os movimentos tácticos e a aplicação

Em 2012, estima-se que o número de greves convocadas em Portugal (embora nem todas se tenham concretizado) se aproximou de 400. A questão entrou de tal forma no quotidiano dos portugueses que já existe um ‘site’ na Internet (“Hoje há greve? Veja se consegue chegar ao trabalho”) exclusivamente dedicado a anunciar as greves convocadas ou previstas (http://hagreve.com). No conjunto da Europa, o Sul latino e a Dinamarca (esta, por razões históricas e culturais, é a grande “campeã” europeia das greves) são os mais reivindicativos. Na zona centro-meridional, para além do nosso País, sobressaem nas estatísticas grevistas a França, a Bélgica, Espanha, Itália, Grécia, Chipre e Malta. Na zona central, a Polónia. E mais a Norte, a Irlanda, Reino Unido, Finlândia e Noruega. ■


O Diabo, 2 de Abril de 2013 •

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Sociedade

À beira de um ataque de nervos

Há 250 mil portugueses a ansiolíticos São os efeitos da crise. Em Portugal a dependência de diminuir a ansiedade e a tensão é cada vez maior. Os especialistas dizem que o consumo está em concordância com o número de casos de depressão na população nacional. Um inquérito da Associação Portuguesa de Defesa do Consumidor envolvendo mais de 12.500 pessoas indica que haverá cerca de 250 mil portugueses com sinais de dependência de fármacos. Foram analisados os utilizadores de ansiolíticos e hipnóticos, sabendo-se já que, neste grupo, os fármacos mais usados são as benzodiazepinas, que provocam dependência. Cerca de um quarto dos utilizadores destes remédios revelou sinais de “uso problemático”, com a sensação de que o efeito dos comprimidos está a diminuir ou que está a causar mais danos que benefícios. Segundo a revista “Teste Saúde”, da DECO, um quinto dos inquiridos que toma estes fármacos admitiu grande preocupação e nervosismo quando não tem os comprimidos à mão ou não os toma nas horas habituais. Quando deixam de tomar os medicamentos, as queixas apresentadas por cerca de 40 por cento dos doentes são problemas de sono e aumento da ansiedade.

O inquérito permitiu ainda concluir que os ansiolíticos e indutores de sono fizeram parte da vida de um quarto dos portugueses. Em relação a inquéritos anteriores, fica-se a saber que têm vindo a aumentar o consumo e a dependência. O consumo é mais frequente entre as mulheres, pessoas com mais de 65 anos, com dificuldades económicas, grupos com baixo nível de educação e desempregados. A maioria dos inquiridos recorre a estes fármacos para enfrentar problemas de sono (41 por cento), no local de trabalho (41 por cento) e acontecimentos traumáticos (29 por cento). Quanto à fonte de prescrição dos medicamentos, em metade dos casos é o médico de família o responsável pela receita, seguindo-se um psiquiatra. Mas há 6 por cento dos inquiridos que admitem tomá-los por conta própria. Os medicamentos ansiolíticos e hipnóticos, analisados no estudo, apresentam geralmente efeitos de privação e dependência que normalmente não são atribuídos aos antidepressivos.

Idosos mais vulneráveis

Também o psiquiatra Pedro Afonso já alertou para o aumento exponencial do consumo de antidepressivos e ansiolíticos em pessoas maiores de 65 anos, afirmando que sem esta ferramenta terapêutica o número de suicídios seria maior nesta faixa etária. O especialista no Hospital Júlio de Matos, do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, falava à agência Lusa a propósito dos dados divulgados no encontro “Avanços e controvérsias em Psiquiatria”. Os dados, fornecidos pela consultora IMS Health, indicam que em 2012 foram prescritos 7.753.193 ansiolíticos e 6.095.634 antidepressivos. Em relação a 2011, registou-se um aumento da venda de antidepressivos e estabilizadores de humor na ordem dos 7,7 por cento e de 1,2 por cento na venda de ansiolíticos. O aumento foi exponencial na prescrição destes fármacos a maiores de 65 anos, que subiu de 1.739.406 em 2011 para 3.577.838 em 2012, no caso dos ansiolíti-

cos, e de 1.439.591 em 2011 para 2.297.880 em 2012, nos antidepressivos e estabilizadores de humor.

Consumo dentro da média

Entrevistado pela DECO, José Pinto Gouveia, professor catedrático e investigador na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e ex-chefe dos serviços de psiquiatria dos Hospitais daquela Universidade, explica que o consumo está em proporção com os casos de depressão. “Se pensarmos no número de casos de depressão na população, talvez não haja: a Organização Mundial de Saúde prevê que, em 2020, esta doença seja a mais prevalente no mundo ocidental. Mas, se tivermos em conta que uma parte da população deprimida não está a receber tratamento, seria levado a concluir que há”, afirma o investigador. No entanto, José Pinto Gouveia alerta para o excesso de medicação. “As depressões que surgem no contexto de uma doença afectiva ou

bipolar exigem medicação, não há dúvida. O mesmo sucede com as depressões endógenas, que resultam de alterações no ciclo biológico (e não de acontecimentos pontuais). Quando há uma grande inibição psicomotora, os medicamentos também são úteis. Se os níveis de ansiedade forem muito elevados, é importante combinar antidepressivos com ansiolíticos, na primeira fase do tratamento. Nas depressões mais reativas, resposta a uma situação pontual, os medicamentos nem sempre ajudam. Imagine que trabalha com um chefe que o humilha sistematicamente. O que faz? Revolta-se e abandona o posto ou desiste e deprime. Neste caso, se a atitude do responsável se mantiver, o antidepressivo não pode valer-lhe. A única forma de resolver a questão é tentar modificar o seu modo de reagir e de ouvir o chefe: a desvalorização constante pode significar que não lhe dá os sinais de submissão que ele pretende ou que vê, em si, uma ameaça. Por isso, terá de treinar a melhor forma de posicionar-se”, ensina o docente. ■


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Política

Em vez de aumentarem a carga fiscal, alguns paíse

Sim, é possível esti alguns exemplos Espanha, França e Inglaterra mostram, com casos concretos de sucesso, como ajudar a economia a sair da fossa, criar riqueza e diminuir o desemprego. Se o governo português quisesse, era só adaptar… Porque será que alguns países da União Europeia vêem as suas economias a crescer, enquanto outros continuam a marcar passo no terreno pantanoso das dívidas e da falta de confiança? Será que não podemos aplicar em Portugal medidas de reanimação da economia que dão bom resultado noutros países e se revelam autênticos “ovos de Colombo”? O Orçamento do Reino Unido para 2013-2014 ajuda a dar resposta a estas perguntas: de forma concreta e com sentido prático, o governo de Sua Majestade prepara-se para acompanhar os cortes na despesa corrente do Estado (2,7 mil milhões de euros a menos para a burocracia estatal) com medidas de incentivo a sectores-chave da economia. Este incentivo permitirá manter as empresas desses sectores a funcionar e a criar emprego, o que por sua vez manterá endinheirada a classe média, que fará circular o dinheiro no mercado do consumo e manterá a economia a rolar como se não houvesse crise. A Grã-Bretanha não escapa à crise geral que assola a Europa. O défice público está nos 7,4 por cento do PIB e a dívida pública nos 80 por cento. Mas a economia continuará a crescer

George Osborne: ministro britânico das Finanças, apresentou um Orçamento virado para a recuperação da economia

nos próximos dois anos, embora a uma taxa modesta de 0,6 por cento ao ano, graças a uma política governamental assente em cortes na despesa do Estado e em estímulos aos sectores da economia mais enfraquecidos ou onde o desemprego mais incide. A mais inovadora medida de reanimação económica consagrada no Orçamento inglês para 2013-1014 é o programa “Help to Buy” – um esquema de estímulo à compra de casas novas que visa apoiar, ao mesmo tempo, o sector da construção civil e o sector para-bancário que em Inglaterra é responsável pela maior parte dos financiamentos/hipotecas à habitação. Esta é a mais significativa intervenção do governo britânico no mercado da habitação desde que, nos anos 80, um outro programa (“Right to Buy”) permitiu aos inquilinos de casas camarárias a sua compra em condições bonificadas.

Crédito do Estado

O programa, que entrará em acção já em Abril, funciona de forma muito simples e vai custar ao governo um total de cerca de 6,4 mil milhões de euros. “Help to Buy” assegura a todos os que queiram comprar uma casa (até 700 mil euros), construída de

Christine Lagarde: quando foi ministra da Economia de França baixou o IVA de 19,6 para 5,5 por cento

novo, um financiamento sem juros correspondente a 20 por cento do preço de compra. O governo prevê que o programa redundará em negócios imobiliários envolvendo a concessão de créditos bancários da ordem dos 150 mil milhões de euros – um “maná” para as instituições financeiras, que se têm retraído na concessão de crédito mas que poderão agora trabalhar com mais segurança graças à garantia governamental de 20 por cento do financiamento. Também os empreiteiros e os fornecedores esfregam as mãos com esta inesperada reanimação de um sector que tem vindo a atravessar uma crise profunda. Aumentará o emprego, crescerão os negócios colaterais. Numa segunda fase, a partir de Janeiro, o esquema será alargado a todas as compras de casa, seja ela nova ou usada. O governo inglês prevê que 500 mil pessoas venham a ter acesso ao mercado da habitação própria graças a este esquema de apoio financeiro. Quando o ministro das Finanças, o conservador George Osborne (o mais jovem responsável pela célebre pasta vermelha desde Randolph Churchill, em 1886), apresentou o Orçamento para 2013-2014 na Casa

Mariano RajoY: manteve o imposto sobre a restauração na fasquia dos 10 por cento, contra os 23 por cento em Portugal

Redução de impostos e legislação adequada ajudam as empresas a dos Comuns, no passado dia 20 de Março, a oposição trabalhista criticou o programa “Help to Buy”. Mas era impossível não ver nas críticas a má-consciência da própria esquerda britânica, sob cujos governos o sector da construção civil definhou e o sector hipotecário se fechou como uma concha. A crítica mais consistente dos trabalhistas reside na valorização geral do preço das casas que, inevitavelmente, o esquema governamental irá provocar. Mas nem os agentes imobiliários nem os 25 milhões de donos de casa própria se queixam, desde que a economia funcione e o dinheiro continue a girar.

Baixa imposto às empresas

O sector da habitação não é o único em que o Orçamento do governo britânico para 2013-2014 intervém

com planos de reanimação económica. Quase dois mil milhões de euros serão aplicados em medidas legais de apoio à actividade industrial (com forte investimento em novos ramos, como o aeroespacial), o que gerará riqueza e empregos. É cancelado o aumento do preço dos combustíveis que estava previsto para o próximo mês de Setembro (uma bela notícia para os automobilistas particulares e para as empresas). Os impostos sobre a cerveja baixam dois por cento, dando novo fôlego aos 60 mil donos de ‘pubs’ (cada um deles contribui, em média, com 120 mil euros anuais em impostos) e permitindo aumentar o consumo, que vinha a decrescer. E um “pacote” fiscal de bonificações facilitará, a partir do próximo mês, a criação de novas empresas com projectos de negócio rentáveis. De resto, a política orçamental


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Política

es europeus estão a apostar na redução dos impostos

imular a economia: Reduzir, em vez de aumentar

A restauração é um dos sectores mais protegidos em alguns países europeus

O programa inglês de apoio à compra de casa vai dinamizar o sector da construção e criar empregos

A descida do imposto sobre a cerveja permite reanimar a contabilidade dos ‘pubs’ ingleses

sair da fossa do governo conservador de David Cameron é, em geral, favorável às empresas produtivas e penalizadora para a banca especulativa. O imposto de 23 por cento que até agora incidia sobre a actividade empresarial será reduzido para 20 por cento. Em contrapartida, a taxa aplicada à banca e aos serviços financeiros sobe para 0,142 por cento. A par de tudo isto, o Orçamento britânico determina ainda o corte de um total de 2,7 mil milhões de euros nas despesas dos ministérios (metade em 2013, metade em 2014) e uma redução adicional de 3,5 mil milhões de euros nas despesas correntes do Estado. Esta última poupança será, não enterrada em mais despesa ruinosa e improdutiva, mas no reforço das empreitadas de infra-estruturas públicas, o que também ajudará a combater o desemprego. Por fim, ao longo da vigência do

Orçamento, o Reino Unido espera aumentar a cobrança fiscal em cerca de quatro mil milhões de euros. Ocupados que estão a resolver (e bem) os seus problemas, não surpreende que os ingleses mostrem pouca ou nenhuma vontade de ceder ao último capricho da Comissão Europeia: mais um pedido de reforço dos dinheiros comunitários para cobrir falhas dos países do Sul, manietados por programas de pagamento de dívidas que os levam a carregar na austeridade, com consequências trágicas para a economia. O “pedido”, aliás, chegou a Londres com contornos de chantagem: ou esse novo “buraco” nas contas da União (no valor global de 11,2 mil milhões de euros) é coberto, ou fica comprometido o corte de 3,3 por cento no orçamento europeu para 2014-2020, tão arduamente imposto pelos países do Norte. A contribuição do Reino Unido para a cobertura do “buraco” está estimada em 1,2 mil milhões de euros, mas Downing Street já fez saber que não está pelos ajustes: era como poupar em casa para depois ir esbanjar dinheiro com os outros…

Situação “calamitosa”

Mas não é só no Norte da Europa que se combate a crise com medidas concretas de apoio à vida económica. Num sector, pelo menos, “nuestros hermanos” espanhóis e “nos amis” franceses dão um exemplo de sucesso: o sector da restauração. Sabe-se o que em Portugal sucedeu: em Maio de 2012, o IVA aplicado a cafés, pastelarias, ‘snack bars’ e restaurantes galgou repentinamente dos 13 para os 23 por cento – um aumento real de 77 por cento na taxa fiscal do sector. Mais recentemente, a nova lei das rendas, o aumento dos custos da energia e o aperto da regulamentação sobre a emissão de facturas agravaram a situação dos empresários da restauração. Para a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), vive-se “a maior crise de sempre no sector”, “uma situação calamitosa”. O turismo é uma das áreas mais afectadas. A primeira consequência da subida do imposto, que o governo decretou com a esperança de aumentar a receita fiscal, não se fez esperar: poucos meses depois de entrar em vigor,

já metade dos empresários do sector não conseguia pagar o IVA exigido pelo Estado. De facto, o aumento real dos impostos levou a que a maior parte dos cafés e restaurantes visse a sua factura fiscal duplicar. Segundo a AHRESP, um restaurante com uma facturação mensal média de 10 mil euros pagava ao Fisco uma média de 915 euros em IVA – e passou a pagar 1.900 euros. A agravar a situação, e devido à retracção do consumo em tempo de crise, a restauração portuguesa, que envolve 90 mil empresas, chegou ao fim do ano passado com uma quebra de volume de negócios superior a 30 por cento (contra a quebra de seis por cento prevista optimisticamente pelo governo). A AHRESP estimou já que todos estes dados negativos conduzirão à extinção de 120 mil de postos de trabalho e ao encerramento de 54 mil estabelecimentos, o que significará para o Estado uma perda de mais de mil milhões de euros anuais em receitas fiscais e contribuições para a Segurança Social. Parte da previsão já se cumpriu: em 2012, fecharam 11 mil casas de restauração, fazendo perder 37 mil empregos. Como se isto não bastasse, a crise na restauração começou já a ter consequências sociais da maior gravidade, com nove suicídios registados desde o início do ano entre empresários do sector (dois no Porto e sete no Algarve). Longe vão os tempos em que, ainda na oposição ao governo de José Sócrates, o CDS-PP propunha no Parlamento a redução do IVA aplicado à restauração de doze para cinco por cento, para que “as empresas que estão no sufoco e na iminência de mandar pessoas para o desemprego possam respirar”…

Em Julho de 2009, o sector da restauração em França ameaçava seguir a tendência dos seus congéneres da Europa do Sul: perda de clientes, quebra nas receitas, falências e despedimentos. Antes mesmo que o cenário se tornasse crítico, o governo francês adoptou uma medida radical: baixou o IVA aplicável ao sector, de 19,6 para 5,5 por cento. A decisão, assinada pela então ministra da Economia, Christine Lagarde (hoje directora do FMI que impõe a Portugal duras medidas de austeridade), permitiu um abaixamento médio de 11,8 por cento nos preços dos menus, o que por seu turno estimulou o consumo e manteve empresas e empregos. O IVA sobre a restauração em França sofreu, entretanto, um pequeno aumento corrector (para sete por cento) em Janeiro passado, mas o governo de François Hollande já garantiu que o imposto se manterá nessa fasquia. Em Espanha, o governo socialista de Jose Luis Zapatero fez subir o IVA geral de 15 para 18 por cento – e, depois dele, o governo conservador de Mariano Rajoy aumentou-o ainda mais, em Setembro passado, para 21 por cento. Um sector, contudo, mantém-se sob a protecção especial do Estado: a restauração. Já no tempo do anterior governo a actividade da restauração estava integrada no “tipo B” de IVA, pagando apenas oito por cento. Nos últimos seis meses, o imposto subiu ligeiramente, para dez por cento – uma taxa inferior, em todo o caso, àquela que era aplicada em Portugal mesmo antes do último aumento. O IVA espanhol “tipo B” é aplicado ainda a alguns produtos alimentares (como carne, peixe e água), aos produtos sanitários e à construção de habitação. Por tudo isto, em Espanha, os restaurantes e os bares continuam cheios: o uso inteligente dos instrumentos fiscais permitiu a “nuestros hermanos” evitar uma crise de grandes dimensões na hotelaria, sector onde a taxa de actividade registou em 2012 uma quebra praticamente insignificante (menos de um por cento). Se outros países experimentaram, sem riscos e sem dramas, medidas práticas de estímulo da economia com resultados testados e garantidos, porque teimaremos nós em não fazer o mesmo? ■


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Viver SUGESTÕES Disparates do Mundo Autor: G. K. Chesterton Editora: Alêtheia

Esta notável análise das questões sociais e morais do b r i l h a n te escritor britânico é tão relevante e actual hoje como à época em que foi escrito, em 1910. O estilo de Chesterton é inconfundível, pela lucidez, desassombro, humor e actualidade com que escreve. Traduzido para português como “Disparates do Mundo”, o título original “What’s wrong with the World?” teve origem num desafio lançado em 1907 pelo jornal londrino “Times” a um grupo de eminentes filósofos e escritores, pedindo-lhes a resposta para essa mesma pergunta. De imediato G.K. Chesterton, acedeu ao pedido e enviou uma carta ao periódico com o seguinte teor: “Estimados senhores, no que se refere ao vosso artigo ‘What’s wrong with the World?’ (O que está mal no mundo?): estou eu. Com consideração, G.K.Chesterton”

As Regras de Ouro da nutricionista Ágata Roquette Autora: Ágata Roquette Editora: A Esfera dos Livros

Diz a autora que, depois do êxito de “A Dieta dos 31 dias”, “nas minhas consultas, por correio electrónico ou nas redes sociais as pessoas faziam variadíssimas perguntas, queriam esclarecer dúvidas, pediam-me conselhos e regras claras do que fazer ou não fazer quando estão a tentar perder ou a manter o seu peso ideal. Ao responder a todas estas questões, apercebi-me que era preciso criar um conjunto de regras de ouro da minha dieta. Cheguei a 50 regras claras, explicadas ao pormenor, que servem como ferramentas para o seu dia-a-dia, para saber escolher, tomar decisões, sem privar-se de nada. Só precisa de conhecê-las e utilizá-las em seu benefício.”

Fuja!

Sofrível

Interessante

Bom

Muito Bom

Excelente

COLÓQUIO

A Obra e o Pensamento de Pinharanda Gomes JOSÉ ALMEIDA

Ao longo de meio século, Pinharanda Gomes, velho amigo e colaborador deste jornal, produziu uma obra ímpar nos domínios da historiografia do pensamento português. Desde a “Introdução à História da Filosofia Portuguesa”, dos sete volumes da série “Pensamento Português”, “A teodiceia portuguesa contemporânea”, “A filosofia tomista em Portugal” ou dos três volumes da seminal obra “História da filosofia portuguesa” – na qual, pela primeira vez, a contribuição hebraica e árabe foram consideradas de um modo global e sistemático na constituição de uma corrente tradicional do pensamento português –, até ao volume sobre “Os Conimbricenses”, aos estudos dedicados à “Escola Portuense”, ou à sua valiosa colaboração em diversos volumes da “História do Pensamento Filosófico Português”, dirigida por Pedro Calafate, a produção do investigador Pinharanda Gomes, possuidor do cartão de leitor número 1 da Biblioteca Nacional de Portugal, tem-se

caracterizado pela seriedade intelectual, rigor hermenêutico, lúcida compreensão reflexiva de obras, autores e correntes, clareza expositiva e qualidade literária, que fazem dela um marco incontornável nos estudos contemporâneos da nosso património filosófico. Pinharanda Gomes legou-nos também uma importante obra de natureza especulativa, através de livros e ensaios como “Exercício da morte”, “Peregrinação do Absoluto”, “Teoria do pão e da palavra”, “Pensamento e movimento” ou “Saudade ou do mesmo e do outro”. São ainda merecedoras de referência a

sua contribuição para o estudo da história e etnografia, bem como os importantes trabalhos que produziu no domínio da história da reflexão teológica portuguesa e da história eclesiástica do nosso país. Com efeito, de forma a homenagear o nosso decano investigador e hermeneuta, o Grupo de Investigação “Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal” do Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em parceria com o Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro, organiza no próximo dia 9 de Abril, um colóquio subordinado ao tema “A Obra e o Pensamento de Pinharanda Gomes”. Este encontro terá lugar no Auditório Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a partir das 14h30, sendo a entrada livre e aberta a todos os interessados. Esta trata-se de uma justa homenagem a um dos mais importantes vultos ainda vivos da cultura nacional que, apesar ter sempre trabalhado à margem das fileiras académicas, há muito merece uma distinção maior por parte da Alma Mater. ■

REVISTAS

A América, a Europa e o Mundo O bimestre de Março-Abril traz às nossas bancas mais uma edição de “La Nouvelle Revue d’Histoire”. O tema central deste número aborda uma questão intimamente ligada à nossa actualidade – A América, a Europa e o Mundo. Problema polémico, criador de várias tensões e divergências ao nível das interpretações e leituras dele resultante, tornou-se ao longo do século passado absolutamente incontornável para compreensão do mundo actual e suas respectivas dinâmicas geoestratégicas e geopolíticas. A análise crítica à maior potência mundial é aqui analisada de forma crua, desvendando e denunciando aliados incómodos, bem como uma sociedade marcada pelas fracturas raciais e uma profunda desintegração social. Este dossier oferece-nos ainda uma perspectiva sobre uma outra América, de expressão portuguesa e castelhana, dada a conhecer através de uma entrevista com o filósofo Alberto Buela. Um velho conhecido nosso, colaborador da revista Finis Mundi,

que passou recentemente por Portugal onde deu uma conferência e foi entrevistado pelo nosso jornal. Destaque ainda neste número para a pu-

blicação de uma outra entrevista, com Éric Werner, onde é analisada a actualidade da nossa sociedade, empurrada para um abismo e encurralada entre democracia e mafiocracia. A leitura dessas páginas não deixa de ser curiosa caso as relacionemos com o artigo de Mathilde Tingaud acerca das fontes de Tolkien, ou com um outro da autoria Jean-Louis Voisin relativo a Marco Aurélio, o imperador estóico. Desafiando uma historiografia comprometida com obscuras agendas, alinhadas com interesses instalados, figura neste número da revista dirigida por Dominique Venner um incómodo artigo de Yves Nantillé sobre a deportação dos alemães do Leste europeu entre 1945 e 1950. Um episódio pouco conhecido da história mais recente da Europa, agora trazido a discussão a partir da obra “Orderly and Humane: The Expulsion of the Germans after the Second World War” do norte-americano R. M. Douglas. ■ J.A. Revista


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Viver CINEMA

SUGESTÕES

Imagens de um certo Oriente JOSÉ ALMEIDA O quarto ciclo em torno da representação da Idade Média no cinema, organizado pelo Seminário Medieval de Literatura, Pensamento e Sociedade, do Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, irá trazer durante as 4 quartas-feiras de Abril a projecção e debate de quatro filmes subordinados ao contacto entre o Ocidente cristão, de matriz latina ou germânica, e o Oriente muçulmano. As fantasias cinematográficas, procurando projectar as ideias concretas caem por vezes no erro da excessiva enfatização, aumentando a distância que separa a imaginação da realidade. Se por um lado o cinema nos pode estimular a visualização mental, é igualmente certo que pode facilmente induzir-nos em erro, devido à sua elevada capacidade de

Le Sang Intérprete: Le Revers Sanglant Editora: Twilight

persuasão. Não será por isso tão inocente a associação do cinema à propaganda político-ideológica de qualquer regime. A Sétima Arte não só propicia o despertar do espectador, como o pode conduzir, mesmo que involuntariamente, à perpetuação o erro. Deste modo, o Ciclo “Cinema e Idade Média – Imagens de um certo Oriente” apresentará um conjunto de 4 filmes dedicados à temática do diálogo entre o Ocidente e o Oriente durante a época medieval, acompanhados pelo seu respectivo comentário crítico. “The Thirteenth Warrior” de John McTiernan, “Al-massir / O Destino” de Youssef Chahine, “I Cento Cavalieri” de Vittorio Cottafavi e “Il fiore delle 1001 notte” de Pier Paolo Pasolini são os filmes escolhidos para este ciclo, cabendo a sua apresentação a Joana Gomes, Mariana Leite, José Meirinhos, Michel Kabalan, Maria do Rosário Ferreira, Ana Sofia Laranjinha e José Carlos Miranda. Estes encontros entre o Cinema e a Idade Média realizar-se-ão durante todas as quartas-feiras do mês de Abril, pelas 17h30, no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A entrada é livre. ■

Música

Integridade Henrique Silveira Crítico

Gonçalo Pescada, acordeão; Ian Mikirtoumov, piano. CD “ENCONTROS” com produção do próprio Gonçalo Pescada: goncalopescada@gmail.com, www.gpescada.com Tenho seguido a carreira de Gonçalo Pescada, desde que participou no Concurso de Interpretação do Estoril, um dos raros concursos portugueses de música clássica em que se avalia a interpretação independentemente do veículo musical utilizado, seja ele um instrumento ou voz. Gonçalo Pescada surpreendeu pela qualidade da interpretação e pela integridade e genuína força musical que deu às suas interpretações. Com toda a justiça ganhou o concurso frente a cantores de ópera ou instrumentos bem mais associados à música dita erudita, como o piano, o violino ou o violoncelo, aliás muito bem representados nessa edição. Posteriormente convidei Gonçalo Pescada a fazer um concerto para acordeão a solo no Instituto Superior Técnico, cujas temporadas musicais tenho organizado. Mais uma vez Gonçalo Pescada encantou o público pela sua música e pela sua atitude simples. O seu instrumento é em Portugal, in-

justamente, associado à música popular. Vítima de preconceito, o órgão portátil que é o acordeão, não aparece regularmente em concertos de salas mais importantes como a Gulbenkian ou a Casa da Música. Ao contrário da Europa Central e de Leste, em que compositores como Sofia Gubaidolina têm dedicado obras de grande envergadura ao acordeão, em Portugal pouco se compõe para acordeão. É neste contexto difícil que Gonçalo Pescado, um músico excelente, tem vivido. O CD em causa, edição do autor, reúne o piano de Mikirtoumov, de origem russa, maestro de coro, compositor diplomado pelo Conservatório Tchaikovsky de Moscovo, ao acordeão de Pescada. É uma panorâmica da composição para acordeão ao longo da história da música.

Reúne compositores como Bernhard Molique (1802-1861), transcrito por Hugo Hermann, o excelente Yakov Lapinsky (1925) no seu concerto da Primavera de 1981, o incontornável Astor Piazolla (1921-1992) com as suas Quatro Estações Porteñas, com transcrição do próprio pianista, e o célebre Lisbertango e os dois divertimentos de Adamo Volpi (1911-1980). Depois de um convencional, mas muito bem interpretado, Molique, segue-se um inspiradíssimo Lapinsky, em que Pescada e Mikirtoumov exibem um grande virtuosismo e capacidades expressivas numa obra exigente e muito bem escrita. O Astor Piazolla é um cavalo de batalha para o Bandoneão, lido aqui em acordeão por Pescada. A expressividade e beleza poética, sem esquecer a percussão feita no próprio instrumento, das obras são realçadas pelos dois intérpretes de forma muito eficaz, dando a este CD aquilo que o grande público mais depressa vai querer escutar, sendo o Libertango tocado de forma muito inspirada. Os dois divertimentos de Volpi são executados de forma vertiginosa e com grande energia rítmica, outra força motriz deste CD. O acordeonista algarvio Gonçalo Pescada é uma força da natureza e merece ampla divulgação no contexto português e internacional. Este CD prova-o amplamente. Paro de escrever neste ponto para escutar com prazer, mais uma vez, o Libertango que encerra o CD: o diálogo e o encontro entre piano e acordeão são perfeitos. ■

Foi em 2008 que tivemos as primeiras faixas do projecto Le Revers Sanglant, que tiveram a sua estreia em longa duração em 2011 pela Twilight Records. Cerca de 2 anos depois a mesma editora lança agora o seu segundo disco, intitulado “Le Sang”. O projecto francês apresenta neste seu segundo disco uma abordagem mais agressiva à sua sonoridade, com nove faixas sangrentas que lidam com conceitos como a morte, a melancolia e a vida que circula na nossa corrente sanguínea – e o quão fácil que é terminá-la. Uma sonoridade Marcial Industrial que tem uma forte carga poética associada, tornando este um projecto bastante interessante de seguir e reforçando a tendência de pujança que a cena musical francesa parece vir a manter nos últimos anos, em particular nestes géneros musicais. Apresentado em ‘digipack’. H.P. CD

Estreia em Aveiro

Depois de terem nascido nas profundezas das f l o re s t a s galegas, os Sangre de Muerdago mudaram-se para Leipzig de onde têm continuado a criar uma paisagem sonora bem característica. Nada como comprovar isso com a possibilidade de os ver ao vivo no nosso país, numa estreia absoluta. E para isso temos que agradecer aos amigos da Berkana e do Blindagem por terem permitido que essa data tivesse lugar, mais especificamente no próximo dia 5 de Abril na Associação Cultural Mercado Negro em Aveiro. Será uma boa altura de apreciar não só o material publicado até agora pelos Sangre de Muerdago mas também para ter um primeiro contacto com o novo material que estão a preparar para a edição do seu segundo longa duração de originais. Marquem na agenda e estejam em Aveiro no início de Abril, para uma data única e exclusiva. Lá nos encontraremos! H.P.


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Opinião

Pescas TOCAR A REBATE

Eduardo Brito Coelho Coronel Engº (res)

O Tribunal Central Administrativo do Sul confirmou, recentemente, a condenação do Ministério da Defesa Nacional (MDN) por omissão de fiscalização da pesca por embarcações estrangeiras na Zona Económica Exclusiva (ZEE) adjacente aos Açores, nos anos de 2002-2004. Este é, a meu ver, um triste exemplo de quebra do contrato que existe (ou deveria existir), num Estado “de direito”, entre os cidadãos e os órgãos que agem em seu nome. O MDN não terá feito, por motivos pouco claros, tudo o que devia para o bem-estar e a segurança de cidadãos nacionais: não defendeu a frágil comunidade dos pescadores açorianos, nem impediu, outrossim, que os estrangeiros rapinassem o que era nosso. Repare-se que o caso referido é anterior à entrada em vigor do famigerado Tratado de Lisboa (01-12-2009), segundo o qual a conservação dos recursos biológicos no mar, no âmbito da Política Comum das Pescas, é (passou a ser) uma competência exclusiva da UE. Ou seja, Portugal não é mais senhor dos recursos biológicos dentro da sua ZEE. Mas há, pasme-se!, pessoas satisfeitas, desde logo o Sr. Porreiro Pá, também conhecido por Sr. Espanha Espanha Espanha. E não é que Espanha, certamente por acaso…, é o principal beneficiário da transformação das águas portuguesas em águas comunitárias (ibéricas)? Parece mentira, mas é verdade – a Economia do Mar representa apenas 2% a 3% do PIB nacional. Compare-se com a Noruega, em que constitui 30% do PIB, para percebermos o absurdo da situação, sendo nós um “país de marinheiros”, com recursos e ‘know-how’ suficientes para produzir muito mais, houvesse estratégia e sentido patriótico. O Sr. Pedro Jorge Silva, armador e Presidente da Associação dos Armadores da Pesca Industrial, mostrava-se satisfeito, há dias, na TV, com indicadores bem medíocres, vá-se lá perceber porquê… Espanha pesca 4 vezes mais do que Portugal, utilizando as nossas águas como se fossem suas, com barcos maiores e melhores do que os nossos. Portugal pesca apenas um terço do pescado que consome. Ora, perante tal situação, que deveria levar o nosso governo a dar murros na mesa, o que é que acontece? A UE proíbe Portugal de construir novos barcos de pesca. Só permite modernizações dos existentes, indiferente ao envelhecimento da frota e visando manter inalterada a nossa capacidade de capturas. Após o Tratado de Lisboa, a UE impõe um controlo férreo sobre as pescas portuguesas, dando-nos uma pequena parte do que era suposto ser apenas nosso, mantendo o status quo que dá o maior quinhão a Espanha e eternizando o nosso subdesenvolvimento! ■

Esperança Manuel Silveira da Cunha

Escrevo na Sexta-feira Santa, o Inverno terminou formalmente, apenas formalmente, lá fora o tempo é miserável, chove intensamente e o vento açoita as árvores que se vergam perante a força dos elementos. O dia está cinzento e triste, fantasmagórico o nevoeiro mistura-se com a tempestade e cobre os montes das Linhas de Torres onde me encontro. É uma daquelas Sextas-feiras de trevas e silêncio, um silêncio pesado apesar do vento e da chuva, pesado porque o habitual canto dos pássaros não se faz sentir, quase como se pressentissem a morte do Senhor mais para o final da tarde. Cansado, ponho no CD uma Paixão Segundo S. Mateus, o evangelista canta a morte de Jesus na Cruz, as palavras de S. Mateus cantadas por Telemann, o compositor, ecoam através da noite dos tempos, penetram a tempestade e chegam até aos meus ouvidos. Primeiro sinal.

Para além de todas as ocorrências mesquinhas do quotidiano, para além de todos os ajustes menores de contas, para além do longo Inverno de Portugal, para além da taciturna e burocrática forma de vida que pauta o decorrer da existência, entre o repetido pagamento de taxas e impostos, marcando cada dia como as gotas que vão ecoando no telhado, existe um Inverno do nosso descontentamento, o mesmo Inverno que Ricardo III lamentava através das palavras de Shakespeare. Pobre Ricardo, descobertos recentemente os seus ossos, confirmada a sua desdita, morto em campo de batalha e difamado pelos seus sucessores, teve apenas um sucesso: ser difamado por um génio descontente ao serviço dos netos do usurpador. Este foi o segundo sinal. Algures em Roma, isto nas palavras do grande escritor Halldór Laxness no seu Romance “O Sino da Islândia”, multidões de peregrinos descalços curvavam-se perante o Papa e o viajante protestante, oriundo da Islândia, conselheiro do rei da Dinamarca, deixava-se seduzir pelo mistério e pelo misticismo daquelas massas em movimento, era tocado pela Fé que secretamente penetrava no seu coração.

A capital da cristandade chamava por ele, homem habituado às vastidões geladas e desabitadas, sentia o apelo da multidão imunda e estranha, havia uma força telúrica que arrebatava Arnas Arnaeus, assim se chamava o erudito diplomata. Ao mesmo tempo que Henrich Schütz morria e dava lugar a Bach, ao mesmo tempo que as chagas da Guerra dos Trinta Anos se saravam com dificuldade, ao mesmo tempo que Portugal se desembaraçava dos castelhanos numa guerra que duraria mais de trinta anos, Arnas Arnaeus deixava-se tocar pela imagem do crucificado. Esta lembrança foi o terceiro sinal. Não, não cederemos ao desânimo, nada nos obrigará a escrever sobre a mesquinhês dos pequenos ajustes. Só morremos quando nos tiram a esperança, quando nos tiram o belo, quando deixamos de acreditar. Apesar do manto pesado desta Sexta-feira Santa, apesar do manto deste terrível Inverno que tocou Portugal desde há mais de um século, apesar da chuva e do vento, apesar da ausência do rouxinol junto à minha janela, o Sol esconde-se por detrás das nuvens, o mesmo Sol que produz o vento e atormenta os elementos, e amanhã será Sábado de Aleluia. ■

Ressabiamento e vingança HORA DE PONTA

José Serrão

A entrevista de José Sócrates, para além de um pico de audiências na RTP, nada trouxe de novo, quanto à narrativa, quanto ao personagem e muito menos ao país. Sócrates foi, dentro do estilo que lhe é conhecido, fiel a si próprio e nunca permitiu que os entrevistadores o desviassem do seu guião. Cada palavra foi pensada, cada expressão facial e cada gesto previstos ao pormenor, visando a encenação perfeita para que “o filho pródigo”, regressado da longínqua Gália, fosse perdoado e recebido de braços abertos, quiçá, até, de novo entronizado. Porém, o “animal feroz” cometeu um

erro crasso. A sua “narrativa”, a sua versão dos acontecimentos, a sua história, as suas propostas políticas, a sua responsabilidade de governante, não foram derrotadas por Cavaco Silva, nem por Pedro Passos Coelho, mas sim pelo povo que nas urnas, de forma bem clara e inequívoca, o derrotou e lhe retirou o poder. O mesmo povo que lhe concedera uma maioria absoluta e uma nova vitória quatro anos depois, foi o mesmo a dizer-lhe que não o queria mais. E é ao povo que Sócrates não perdoa. Na aparência, atacou e acusou o Presidente da República, como sendo o mentor e o autor da sua queda mas, na realidade, Sócrates está mal e não perdoa ao povo que não teve a capacidade de o compreender e o derrubou. Esta é a reacção de todos aqueles que não sabem aceitar o julgamento popular e não têm a humildade democrática de o compreender. Sócrates revelou um azedume primário e, isso, impediu-o de ter aproveitado esta

oportunidade para se apresentar, dois anos depois, com uma outra atitude e uma outra dimensão de estadista, como gosta de ser reconhecido. Num momento tão crítico para a nossa vida colectiva, com a Europa numa crise política talvez ainda maior, com um futuro negro que se apresenta a todos, Sócrates deveria, pela responsabilidade do passado, ter dado um contributo para unir. Deveria ter-se assumido como um elemento agregador de vontades, que veio para lutar ao lado de cada um de nós, para partilhar a nossa sina e o nosso destino. Ao invés, Sócrates veio carpir as suas mágoas, auto-abrir as suas feridas, como se elas devessem ser também nossas, veio assumir o lugar de uma facção mais no quadro político vigente. Podendo ser uma Voz de esperança nos dias de hoje, foi a voz do ressabiamento e da vingança. Foi a sua própria voz. A sua entrevista não ficará para a história, a não ser pela oportunidade perdida. ■


O Diabo, 2 de Abril de 2013 •

Opinião

“Cristo foi crucificado democraticamente, de braço no ar...”

Ao encontro de Pacheco Pereira BRANDÃO FERREIRA

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Tenente-Coronel Piloto-Aviador

Se decidirmos que nos suicidamos, a resposta relativa às Forças Armadas está automaticamente dada. E, nesse caso, formamos o que resta da tropa, entregamos as chaves dos quartéis e dos paióis (vazios) a quem provar pertencer-lhe e mandamos direita volver, destroçar. Ou, então, revoltamo-nos, pois tal, podendo não ser nada democrático, é mais do que legítimo!...

O Dr. Pacheco Pereira (PP) escreveu um muito interessante artigo no jornal “Público”, de 9 de Março, com o título “Tem sentido manter Forças Armadas em Portugal?”, onde, entre vários considerandos e exemplos pertinentes, coloca a questão central de “Portugal precisar de ter FAs ou não”. Sendo uma questão legítima do ponto de vista democrático, como defende, convém enquadrá-la e pôr-lhe limites, sob pena de também passar a ser legítimo (e natural?) questionarmos se a Nação Portuguesa deve desaparecer – a velha questão de que “a Pátria não se discute mas defende-se” – ou de passarmos a discutir se podemos levar os nossos velhos para a montanha e abandoná-los lá (como se fez com o aborto). Se calhar o Ministério das Finanças até aplaudia… Podia, até, ser considerado legítimo. Mas seria moral, ou legal? E convém lembrar que Cristo também foi crucificado democraticamente. De braço no ar. Com isto dito, e sem querer pôr nada mais em causa, tenho que dizer que a questão central apontada, podendo entender-se, já não tem razão de ser pelo simples facto de estar ultrapassada.

A questão sobre as missões e o modelo de Forças Armadas (FAs) a constituir tinha toda a razão de ser, por exemplo, a seguir ao abandono do Ultramar e, nomeadamente, em 1982, quando as FAs se integraram, plena e normalmente, nas estruturas do Estado. Mas tal não se fez nem nos anos seguintes em que a pergunta era recorrente em vários meios. A situação política e social do país, porém, descambou e apodreceu de tal maneira que passámos a ser um Estado falido e tutelado (e não só financeiramente) – que a inaudita posição do governo, muito bem referida por PP, de deixar a “Troika” pronunciar-se sobre cortes nas FAs, mais acentua – que é a própria sobrevivência de Portugal que está em causa. Ou seja, o que faz sentido questionar é se queremos, ainda, ter país ou não e que país pretendemos, a que a suicidária hipótese do Federalismo Europeu está longe de ser alheia (para já não falar no Iberismo). Tudo o resto está dependente desta resposta. Quer dizer, se nós decidirmos que nos suicidamos, a resposta relativa às FAs está automaticamente dada e, nesse caso, nós formamos

o que resta da tropa, entregamos as chaves dos quartéis e dos paióis (vazios) a quem provar pertencer-lhe e mandamos direita volver, destroçar. Ou, então, revoltamo-nos, pois tal, podendo não ser nada democrático, é mais do que legítimo!... Se por patriotismo do povo português, ou graça da Senhora da Conceição (de Vila Viçosa), acolitada por S. Miguel (Anjo Custódio de Portugal), a decisão for a de continuarmos a ter país, nesse caso também não faz sentido colocar a questão de precisarmos ou não de FAs, mas sim a de estabelecer quais as missões que se entende que elas devam estar aptas a cumprir. A estrutura, meios, dispositivo, etc., e recursos financeiros a alocar vêm, naturalmente, por acréscimo. O mesmo é válido para as restantes funções necessárias ao Estado, como expressão da Nação politicamente organizada. Outra coisa que é necessário entender – e não se vê referido em lado algum, mesmo em textos lúcidos como os de PP – é a de que a hierarquia (palavra tornada maldita) das funções do Estado existe e deve ser tida em conta. Isto é, o que deve vir à cabeça são as questões de Segurança, a seguir a

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Justiça, finalmente as de Bem-Estar. A ordem dos termos não é arbitrária, já que não se pode ter Bem-Estar sem Justiça, e ambas sem Segurança. Isto, que é evidente, assim não aparece aos contemporâneos. Os políticos portugueses (idem para os ocidentais, à excepção dos americanos, até ver) têm isto tudo baralhado. Ofuscados que estão com o lado material da vida e com a contagem dos votos – afinal a “democracia” depende deles – não querem ver mais nada e acabarão por não ter coisa alguma. Como está prestes a acontecer. E a “arte” da política consiste, justamente, em conseguir a harmonia entre as três áreas. Por outro lado, a importância dos problemas não é a mesma, nem se podem atacar todos eles ao mesmo tempo: há que estabelecer prioridades (e, já agora, não andar a inventar problemas onde não há…). As FAs são um pilar fundamental do Poder Nacional, e sem poder – poder efectivo, político, diplomático, económico, financeiro, cultural, militar e psicológico – não há política possível, por não haver qualquer capacidade de se poder escolher e manter seja que estratégia for; tão pouco escolher caminhos, minimizar dependências ou estabelecer alianças. A Portugal apenas resta poder residual; e arrasta-se por inércia. A Instituição Militar levou quase 900 anos a construir-se e está, em termos de conhecimento, ao nível das mais avançadas do mundo. Mas pode desaparecer de um dia para o outro, como um fogo destrói uma floresta (como por exemplo aconteceu, em 1807, quando Junot dissolveu o Exército. Atente-se no custo que isso acarretou, nomeadamente a morte de 10% da população!). Explicar as coisas por conceitos simples, que toda a gente perceba, ao contrário do que possa parecer, requer grande saber e capacidade de síntese e não está ao alcance da maioria. Infelizmente, tem andado arredio da generalidade da classe política, isto para não entrarmos no campo das (más) intenções. Estamos a aproximar-nos – com as devidas proporções – da sociedade que conheci na Guiné-Bissau “independente” (ah, ah, ah!): uma manta de retalhos em que os desgraçados dos habitantes (e são verdadeiramente desgraçados desde que uns díscolos de ideologias funestas os privaram, unilateralmente, da nacionalidade portuguesa!) fingiam que trabalhavam, e o simulacro de Estado fingia que lhes pagava - embora uns quantos enriquecessem. Vislumbro sérias tribulações. ■


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Cultura

Mostra fotográfica no Padrão dos Descobrimentos

Visita à Exposição do Mundo Português A exposição "Fotógrafos do Mundo Português 1940", patente no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, e reúne 119 imagens em grande formato da autoria de nove fotógrafos. Está aberta ao público de terça-feira a domingo, podendo ser visitada das 10 às 18 horas, pelo preço de três euros, até 26 de Maio. Uma óptima oportunidade para viajar no tempo e revisitar aquela que foi uma monumental exposição de celebração de Portugal.

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Este é um núcleo de fotografias que nos fornece uma informação precisa do que foi essa exposição, que se erigiu como coroamento das celebrações que se instituíram para assinalar a passagem do Duplo Centenário da Fundação e da Independência de Portugal. Num primeiro momento, elas permitem-nos avaliar a poderosa criação arquitectónica em que a exposição se traduziu e as personificações que se fizeram da História do país. Porém, num segundo momento, reparamos que essas imagens têm vida própria e que suplantam os muitos relatos que conhecemos dessa exposição, graças à valori-

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zação de certos enquadramentos, à escolha dos ângulos e ao tratamento da luz. ■

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A Exposição do Mundo Português foi inaugurada a 23 de Junho de 1940. As imagens apresentadas na exposição agora patente no Padrão dos Descobrimentos são assinadas por importantes fotógrafos da época e fornecem uma visão detalhada do que foi a Exposição. A selecção das imagens baseou-se nos espólios existentes no Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa e na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. Podem ver-se trabalhos realizados por Horácio e Mário Novais, Eduardo Portugal, Paulo Guedes, Kurt Pinto, António Passaporte, Ferreira da Cunha, Abreu Nunes e Casimiro Vinagre que invocam o poder da fotografia e dos fortes laços que mantém com o que reproduz. Nas suas versões, é possível ver a importância da iniciativa e a dimensão que tomou.


O Diabo, 2 de Abril de 2013 •

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Opinião

Vitórias democráticas em Espanha finis mundi

As Ediciones Nueva Republica, de Juan Antonio Llopart Senent, viram finalmente, passados quase dez anos (a apreensão dos livros data já de 2003) a devolução de dez mil livros que tinham sido apreendidos pelos Mossos d’Esquadra (polícia catalã). Espanha, que durante longos anos careceu de uma lei “antifascista”, foi durante muito tempo um oásis de liberdade para os vários nacionalismos, isto até que governo de Direita (do Partido Popular espanhol) ter achado por bem fazer aquilo que os governos de Esquerda nunca tinham feito e, provavelmente para se sacudir do ‘redutio ad hitlerum’, criou leis dúbias contra a apologia do fascismo e a livre investigação histórica, sendo o resultado mais prático a perseguição a editores (Juan Antonio Llopart e Pedro Varela, entre outros) e livrarias (Librería

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Flávio gonçalves

Europa e Fahrenheit 451, entre outras). Felizmente nem sempre a tirania democrática consegue levar a sua avante (os meus leitores habituais estão certamente já familiarizados com as denúncias que tenho efectuado acerca da Democracia se ter tornado no totalitarismo do séc. XXI,

como no século XX tivémos o Fascismo e o Comunismo e nos séculos anteriores os despotismos e as monarquias absolutistas, no século XXI a ditadura dá pelo nome de Democracia) e para além desta vitória da devolução de dez mil livros em Espanha também Pedro Varela viu alguma da censura que lhe é dirigida reconhecida pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, que exigiu ao governo espanhol o pagamento de uma indemnização no valor de 13.000 euros (8.000 euros por danos morais e 5.000 euros de custas do processo). A verdade é que estas “vitórias”, não deixando de o ser, têm um sabor amargo, pois ainda decorrem novos processos e foram alteradas leis antigas e criadas ainda novas leis que têm por alvo preferencial Pedro Varela e Juan Antonio Llopart, pese embora a decisão do Tribunal Europeu a verdade é que Varela passou 15 meses numa cadeia castelhana por outro processo movido logo após este primeiro. E assim vamos, numa Europa cada vez menos livre e mais tiranizada onde escrever, traduzir, editar ou até vender livros é já crime em muitos países. ■ flaviogoncalves@textoprincipal.com

O dolo das pequenas distâncias Com toda a naturalidade

Luísa Venturini

Quem, nestes dias, não volta a entoar baixinho, nem que seja num recanto escondido da alma, o Cantar de Emigração? O nosso José Niza (1938-2011) encontrou as notas certas por dentro das palavras da maravilhosa galega Rosalía de Castro (1837-1885) e, ciclicamente, as gentes portuguesas, como as galegas de então e de agora, tornam ao aperto das separações, das roturas inevitáveis que ninguém quer e a que o mundo obriga, àquela dor fina como uma lâmina que nos deixa doentes e irremediáveis de saudade e de solidão. Chega-nos à memória a toada medieva do João Ruiz de Castel-Branco, a “Cantiga sua partindo-se” e, tantos séculos depois, são ainda nossos os olhos “tão tristes, tão saudosos, tão doentes da partida” a ver, na aparente inevitabilidade dos nossos dias, como “partem

tão tristes os tristes, tão fora de esperar bem...” Há os que atravessam múltiplas fronteiras e oceanos, há os que aceitam contratos em locais onde o risco se avoluma à medida que os projectos avançam, há os que se obrigam a esquecer quase tudo o que aprenderam e que adormecem a mente para que não se lhes morra a existência, há os que conseguem encontrar um ímpeto de alegria na nova aventura e uma realização nas novas paisagens e há os outros todos que estão à distância de duas, de três horas – àquele tipo de distância que nestes tempos consideramos “mesmo ali” e que, nesse mecanismo de lógica enganosa, presume que não carece de preparação nem ser razão para lâminas ou apertos. Não sei do que dizem as estatísticas, mas sei do que dizem as famílias que conheço e esta fraudulenta não-distância talvez seja a que mais nos corrói convívios, a que mais nos rouba os regadores dos afectos, a que mais nos torna esparsos como tecido puído, com uma ilusão de família e de círculo de amigos na maior parte dos dias e com celebrações cada vez mais ousadas, por menos íntimas, em datas certas ao correr do calendário, sem espaço

nem tempo para o improviso de uma palavra, de um abraço ou de um beijo fora de horas. Que falaciosos se tornam os nossos tempos… Que venenos nos vemos forçados a beber… Na paisagem que se estende até à linha do meu horizonte, não vejo, não pressinto antídoto que nos sare, conforto que nos agasalhe. Só continuo a ouvir daqui, dali, de toda a parte, ecos dos cantares de Rosalía: “Adeus, glória! Adeus, contento! Deixo a casa onde nasci. Deixo a aldeia que conheço por um mundo que não vi! Deixo amigos por estranhos, deixo a veiga pelo mar. Deixo, enfim, quanto bem quero… Quem pudera o não deixar!...” Este parte, aquele parte e todos, todos se vão. Galiza ficas sem homens que possam cortar teu pão. Tens em troca órfãos e órfãs. Tens campos de solidão. Tens mães que não têm filhos. Filhos que não têm pai. Coração que tens e sofre. Longas ausências mortais. Viúvas de vivos mortos. Que ninguém consolará. Este parte, aquele parte. E todos, todos se vão. Galiza ficas sem homens. Que possam cortar teu pão. ■

Integrações e outras teimosias… da trincheira

Humberto Nuno de Oliveira

Uma recente notícia sobre um jogador integrante da selecção gaulesa que se recusou a cantar a “Marselhesa” antes dos jogos da respectiva selecção alegando que “Nunca o cantei em toda a minha vida e não o vou fazer agora”, levantou as duas possíveis opiniões sobre o assunto, podem os estrangeiros (utilizamos aqui a designação como equivalente a quantos não se pretendem integrar) fazer parte de selecções nacionais? A nossa opinião é conhecida e vai, evidentemente, pelo não! Porém arautos dos valores politicamente correctos e fundacionais da ditadura dos dogmas dos nossos dias (pergunto aos da minha geração se não sentem que a nossa liberdade é hoje muito mais limitada do que na nossa juventude?), logo levantam a bandeira da integração (um desses valores dos nossos tempos arvorados a algo que não se pode questionar sob pena de sobre nós cair um qualquer anátema) e, indo mais longe, como um nosso conhecido jornal diário desses muito modernos, perguntam se cantar o hino não será antes: “um sintoma de falta de identidade nacional?”. É uma clara subversão de valores e a colocação de postulados de pernas para o ar, mas também a esta prática vamos, infelizmente, estando habituado fazendo parte destes novos paradigmas da novilíngua dos tempos “modernos”. Mas tudo serve de desculpa para justificar o injustificável… Alguém nos perguntou, a gerações educadas num saudável: “em Roma, sê romano”, se esse tal valor da integração deverá ser considerado um valor supremo? Alguém nos explicou porque razão deve ser venerado, qual bezerro de ouro? A verdade é que quotidianamente assistimos a gente a quem todas as oportunidades são dadas – não raras vezes superiores ás que são oferecidas aos Portugueses – a adoptarem comportamentos marginais, a privilegiarem a cultura do “ghetto” e, pura e simplesmente, a recusarem a dita integração. A pergunta que muitos Portugueses fazem, e à qual os governantes não gostam de responder, é: vale a pena continuar a investir num modelo comprovadamente falhado e a tratar quantos não querem “ser romanos”, como membros da nossa sociedade? A resposta, não politicamente correcta, mas verdadeira, é um sonoro: Não! ■ hnuno.oliveira@gmail.com


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Viver

horóscopo

esfinge n.117 - Cruzadas e Charadas 1

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Palavras Cruzadas

Charadas

Original de “Aldimas” – Mouriscas

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Horizontais 1. Triste; Aquelas. 2. Perfumas; Bebedeira. 3. Pus; Cigano. 4. Elas; Compartimento. 5. Pastor; Imensidade. 6. Entre; Validam; Abalar. 7. Acabei; Vermelho. 8. Apreciador; Régua-tê. 9. Tocas; Bagatela. 10. Hino; Paleia. 11. Viúvo; Fugiras..

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PALAVRAS CRUZADAS

Verticais 1. "Cobalto"; Pelecípodes. 2. Acolá!; Afagado. 3. Garoupa; Pancada. 4. Iradas; Acerta. 5. Porque; Calotes. 6. Corifeu; Entusiasmo; "Presidente da República". 7. Silenciar; Igual. 8. “Ante-meridiano”; Ceifara. 9. Unira; Leitor. 10. Guardai; Bando. 11. Costas; Essas.

Soluções Esfinge n.116

1. Ralas; Aulas. 2. Eruca; Crema. 3. Citar; Ariel. 4. Orara; Maria. 5. Mirim; Arear. 6. P; Amoares; I. 7. Er; Antes; Pa. 8. Nau; Aas; Car. 9. Siri; R; Piri. 10. Aviam; Aiara. 11. Resmungaras.

Dez Charadas Aferéticas 1 – A RREMASSOU uma pedra com MOLESTOU o ladrão. 3, 2 2 – F icou a DESCOBERTO o lugar onde estava o RECLUSO. 4, 3 3–O  FRIGORÍFICO foi roubado e escondido no VIVEIRO. 3, 2 4 – A HERANÇA era grande e não é bom que alguém a ROUBE. 3, 2 5 – O ALVITRE do namorado só lhe deu PRESTÍGIO. 3, 2 6 – O GATARRÃO foi enterrado no CANTEIRO. 3, 2 7 – A GAIVINA, quando lhe roubaram o ninho, ficou cheia de FÚRIA. 3, 2 8 – O MENTIROSO nunca deixa RASTO. 3, 2 9 – O ZAROLHO ganhou na TÔMBOLA. 3, 2 10 – O roubo do CADEADO deu origem a um PEDITÓRIO. 3, 2

da

maya

Av. Inf. Santo, 2 R (recuado) - 2º Dt. – 1350-178 Lisboa Telf: 213530831 • Fax: 213530853

CARNEIRO Carta da semana: XX O JULGAMENTO

O Julgamento traz-lhe benefícios que são inteiramente merecidos. AMORES: Embora factores condicionantes persistam, o desaparecimento de alguns entraves é previsível. DINHEIRO: Tende, em ambiente laboral, a perder um tanto o controle; faça por reflectir mais. SAÚDE: Aumente os períodos de descanso.

TOURO Carta da semana: II A PAPISA

A conjuntura é de evoluções. AMORES: Semana muito positiva sobretudo para quem pretende manter a estabilidade. DINHEIRO: Podem surgir oportunidades de mudanças profissionais ou de novos negócios muito promissores. SAÚDE: Tendem a repetir-se sinais de cansaço.

GÉMEOS Carta da semana: XII O DEPENDURADO

A conjuntura é difícil, lenta e com obstáculos de que só se libertará com apoios. AMORES: Este nativo necessita de estar atento para não sofrer traições ou decepções. DINHEIRO: Deve cuidar e estruturar muito bem todos os novos projectos. SAÚDE: Todos os problemas estão minimizados.

CARANGUEJO Carta da semana: VII O CARRO

O Carro marca uma semana de muito trabalho e esforço. AMORES: A conjuntura é muito favorável; mesmo que tente actuar com racionalidade a paixão vai ser mais forte do que previa. DINHEIRO: O êxito da semana será obtido com esforço, disciplina e prestações regulares. SAÚDE: Está sujeito a contágios.

CHARADAS

1. Infindo 2. Ingente 3. Historiada 4. Lorota 5. “Anulada” 6. Alusão / I 7. Grudefé 8. Grulhaço 9. Mesura 10. Querido

LEÃO Carta da semana: XIX O SOL

O SOL traz influências luminosas perspectivando que não lhe serão colocados obstáculos fortes. AMORES: É altura de investir nos afectos com fé, esperança e dando o melhor de si. DINHEIRO: Esta semana, abrem-se novas perspectivas de trabalho, e expansão de actividades. SAÚDE: Semana de muita vitalidade.

O Diabo em casa

VIRGEM Carta da semana: III A IMPERATRIZ

Assinar O DIABO é receber comodamente em sua casa, todas as semanas, o mais independente semanário do País. Com um custo mais baixo do que pagará em banca, não deixe que o incómodo da chuva e do frio impeça a leitura de reportagens, das notícias e da opinião independentes, rigorosas e livres.

Período algo evasivo e flutuante. AMORES: Necessidade de tomar decisões que, embora com prudência, não deve retardar. Pretensos fins de ligações, ou seja, rupturas não definitivas. DINHEIRO: Possibilidade de ser confrontado com propostas, mas nem todas bem intencionadas. SAÚDE: Tendência a dores lombares.

BALANÇA Carta da semana: IX O EREMITA

O EREMITA mostra que é necessário abrandar o ritmo de vida e pensar nos próximos passos. AMORES: Não se desligue totalmente de uma relação. DINHEIRO: Os lucros e os bons resultados teimam em não chegar, mas não desanime, o tempo será o juiz de grandes questões. SAÚDE: Grande cansaço e desmotivação.

Assine já o seu O DIABO que, há mais de 35 anos, sem falhas, lhe oferece o retrato real do País e do Mundo.

ESCORPIÃO Carta da semana: XI A FORÇA

910 666 111

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A Força marca uma semana de elevado potencial energético que pode levar a grandes progressos. AMORES: A semana é dominada por afectos fortes nos quais vale a pena insistir. DINHEIRO: Pequenas desatenções podem gerar grandes problemas. SAÚDE: Passeie pelo campo e respire ar puro.

SAGITÁRIO Carta da semana: XIII A MORTE

A carta XIII A MORTE é uma carta positiva embora muito forte e mesmo radical. AMORES: Semana de grandes definições e mudanças que velará mais do que nunca pelos seus direitos. DINHEIRO: Terá esta semana muitos desafios; deverá rodear-se das pessoas certas. SAÚDE: Nada o vai incomodar

CAPRICÓRNIO Carta da semana: IV O IMPERADOR

O Imperador define uma semana muito construtiva; a conjuntura é promissora. AMORES: Boa disposição e vontade de transmitir essa sensação aos que o rodeiam. DINHEIRO: Importantes realizações a nível profissional; sentir-se-á satisfeito. SAÚDE: Dedique mais tempo a actividades desportivas.

AQUÁRIO Carta da semana: VI O AMOROSO

O AMOROSO é uma carta de apelos e solicitações variadas que o poderão deixar confuso. AMORES: Sentirá à sua volta uma onda de renovação. DINHEIRO: É o sector mais protegido embora tenha de ser muito firme e aceitar que alguns projectos só serão rentáveis a médio ou longo prazo. SAÚDE: Semana muito instável.

PEIXES Carta da semana: XXI O MUNDO

910 666 111

O Mundo permite-lhe adoptar posturas fortes, capazes de o libertarem de cargas negativas. AMORES: Os seus planos poderão ser subitamente alterados. DINHEIRO: Tendência para novos impulsos profissionais, nomeadamente através de financiamentos. SAÚDE: Tende a dores musculares.


O Diabo, 2 de Abril de 2013 •

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Viver LIDES

SUGESTÕES

Mestre Salvação Barreto, modelo para a forcadagem

Agenda taurina • S ábado, 6 de Abril, 16 horas: Festival

Teria completado há pouco 84 anos aquele que ainda hoje é um exemplo maior de dedicação à Festa: Nuno Salvação Barreto, fundador dos Forcados Amadores de Lisboa. Faleceu prematuramente em Dezembro de 1996, aos 67 anos, mas as saudades não passam. Figura lendária da arte do forcado, Nuno Salvação Barreto nasceu em 21 de Março de 1929 – passaram há dias 84 anos. Tal como a sua memória, a sua obra continua de pé. Gerações de portugueses habituaram-se a ver nele o modelo do moço de forcado português: franco, valente, leal, dedicado, profundo conhecedor do toiro e da Festa. Com ligações familiares a Alcochete, fundou aos 15 anos o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, do qual foi Cabo durante quase cinco décadas, entre 1944 e 1991. A sua vida foi dedicada aos toiros – e até a sua residência de muitos anos, junto à Praça do Campo Pequeno, lhe permitiu a proximidade da actividade tauromáquica. Filho de um empresário português e de uma Senhora sul-africana (daí lhe vinha, porventura, o requinte de sabor inglês que cultivava nas relações sociais), começou por ser bandarilheiro, com estreia numa corrida em 1942, em Cascais. Mas foi nas pegas que encontrou a sua plena

Nuno Salvação Barreto e o seu Grupo de Amadores de Lisboa realização taurina. Era já forcado de renome quando, com a fundação da RTP, no final dos anos 50, teve a oportunidade de se transformar num ídolo nacional, divulgando a arte da forcadagem através do pequeno ecrã. Para Nuno Salvação Barreto, pegar toiros era mais do que um acto isolado de bravura. “Num tempo em que vejo a juventude misturada com drogas e coisas dessas, sinto muito orgulho no facto de haver 23 grupos de forcados em Portugal”, disse ele numa memorável entrevista a Miguel Alvarenga, publicada n’O DIABO em Abril de 1989. “É uma escola de boas maneiras, em que damos quase tudo ou tudo de nós e recebemos nada em troca. É uma maneira de estar na vida”. Noutra entrevista, confessou: “Parti quase todos os ossos que tenho no corpo, mas foi uma grande vida e voltaria a fazer outra vez tudo o que fiz”. Incansável na promoção da Festa, foi um

Taurino (misto) em TOMAR. Toureio a cavalo: Rui Salvador, Francisco Zenkl, David Gomes e Bernardo Salvador. Toureio a pé: Sérgio Santos “Parrita” e Diogo Peseiro. Forcados Amadores de Tomar e da Tertúlia Tauromáquica do Montijo. Ganadaria: Juan José Cano. • S ábado, 6 de Abril, 16 horas: Festival Taurino (misto) em BARRANCOS. Toureio a cavalo: Duarte Pinto, Tiago Carreiras e Salgueiro da Costa. Toureio a pé: Mário Alcalde e Milagros de Peru. Forcadoes Amadores de Alcochete. Ganadaria: Couto de Fornilhos. • S ábado, 6 de Abril, 16 horas: Garraiada no SAMOUCO (Alcochete), continuação do ciclo das Grandiosas Vacadas. • Sábado, 6 de Abril, 16 horas e 30 minutos: Festival Taurino “Novas Oportunidades”, no REDONDO. Toureio a cavalo: João Soller Garcia, Manuel Vacas de Carvalho, David Gomes, David Oliveira, Jacobo Botero e Luís Rouxinol Jr. Forcados Amadores de Portalegre, Redondo e Monsaraz. Ganadarias: David Ribeiro Telles e Dias Coutinho. •D  omingo, 7 de Abril, 17 horas: Corrida de Toiros em ALCOCHETE. Toureio a cavalo: Rui Salvador, Luís Rouxinol e Marcos Bastinhas. Forcados Amadores de Montemor e Alcochete. Ganadaria: Infante da Câmara.

dos grandes impulsionadores da lide nacional no estrangeiro. Em 1966, foi desafiado pelo então Cônsul de Portugal em Bayonne (Manuel Domingues-Heleno, hoje administrador da grande Coudelaria M. Heleno - Haras Biarritz, constituída a partir da famosa eguada de Guilherme Gião) para ajudar a organizar a primeira corrida à portuguesa no Sul de França. Pouco dinheiro havia para a pôr de pé, mas o seu telegrama de resposta fala por si: “Manel, nós vamos de graça”. E assim foi, actuando os Amadores de Lisboa ao lado dos cavaleiros João Branco Núncio, José Barahona Núncio e José Samuel Lupi. A fama de Salvação Barreto galgara já fronteiras, em 1951, com a sua participação no filme “Quo Vadis”, protagonizado por Peter Ustinov e Deborah Kerr, em que lhe foi confiada a lide de um toiro em pontas. Voltou ao cinema em 1969, de novo pegando toiros, no filme “Ao Serviço de Sua Majestade”, da célebre série “James Bond-007”. Nuno Carlos Maria Silva Salvação Barreto foi casado, em segundas núpcias, com a

grande fadista Teresa Telles da Silva, bisneta da 12ª Condessa de Tarouca (cujo nome de família adoptou na vida artística). Deixou três filhas: duas do primeiro matrimónio, uma do segundo. ■

a ausência de produção de outros poluentes nocivos para o ambiente. O que dispensa a presença de mais e dispendiosos catalisadores suplementares. Apesar da presença de um motor desta cilindrada – mais penalizado em termos fiscais – a Mazda Portugal fez um esforço para assegurar um preço competitivo, fican-

do disponível a partir dos 32 mil euros. Um valor atenuado pela dotação de equipamento presente de série, apesar de o mais significativo se encontrar em versões de equipamento além dos 35 mil euros. Contudo, o CX-5 é inegavelmente um carro que vale também pelo prazer e agilidade da condução que proporciona, potenciada pela pronta disponibilidade de um motor que reivindica um binário máximo de 380 Nm, que começa a fazer-se notar pouco depois das 1.500 rpm. Mas também pelo conforto a bordo, pelo espaço traseiro (o lugar central é pouco indicado para um adulto) e pela qualidade pouco habitual neste segmento, que se mede pelo revestimento mais macio do tablier. Ou ainda pela versatilidade e carácter prático da bagageira (cuja cobertura acompanha a abertura da respectiva porta), com capacidade para 463 litros. O rebatimento dos assentos traseiros pode ser feito a partir da zona da mala e proporciona uma superfície plana. Pena que, sob o piso, não se aloje um pneu suplente e que, ao invés, sejamos brindados com um kit anti-furo e várias divisórias vazias para guardar pequenos objectos. Mais pormenores em www. cockpitautomovel.com

COCKPIT Mazda CX-5 2.2D 150 2WD

Activo e eficiente Primeiro de uma nova geração de modelos Mazda que utilizam princípios de design e de mecânica que visam a eficiência energética, o CX-5 acaba de ser eleito “crossover do ano” em Portugal. “Skyactiv” e “Kodo” são duas expressões estreadas com o CX-5, que a marca japonesa utiliza para designar elementos característicos e que, gradualmente, farão parte de toda a sua gama de veículos. O segundo a aplicá-los foi o novo Mazda6 que chega por estes dias ao mercado português, mas desse belíssimo e bem-nascido familiar falaremos noutra edição. “KODO” simboliza “A Alma do Movimento” e aplica-se às linhas fluidas e aerodinâmicas do CX-5. Quanto ao pacote de tecnologia “Skyactiv” aplicado neste SUV compacto, ele consiste em motores, transmissões, carroçaria e chassis convergindo num só objectivo: o de garantir prazer de condução e segurança, mas também assegurar valores de consumo e emissão relativamente baixos. Eles são-no, efectivamente: emissões de 119 g/km e um consumo estimado de 4,5 litros, apesar de, no final do ensaio, esse valor

ter ficado mais perto dos 6,0 litros. Para alcançar tal desígnio, além de uma política de redução de peso, a Mazda utiliza um bloco 2,2 com 150 cv, acoplado a uma caixa de seis velocidades e dotado de sistema start/stop. Este motor funciona em níveis de compressão relativamente baixos, assegurando, por via disso, emissões mais reduzidas e


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Registo

NA INTERNET http://jornalodiabo.blogspot.com

Editorial

Um pensador português A cultura é normalmente relegada para segundo plano numa imprensa que hoje abusa da crise económico-financeira, das tricas políticas e das frivolidades sociais. Assim, infelizmente, há notícias que passam ao lado do grande público. A celebração de um dos grandes vultos da cultura nacional contemporânea não deve ser algo relegado para um punhado de académicos. Pelo contrário, merece a nossa maior atenção enquanto portugueses que se preocupam com o destino da Pátria. No ano em que se assinalam os 90 anos do nascimento de António Quadros e os 20 anos desde a sua morte, há a referir a realização do Colóquio Internacional

“António Quadros: Obra, Pensamento, Contextos”, que decorrerá nos meses de Maio e Junho, em Lisboa, Cascais e no Rio de Janeiro. Filho de António Ferro e Fernanda de Castro, António Quadros foi um notável filósofo, escritor, pedagogo, escritor e tradutor que nos deixou uma obra impressionante, tanto pela sua dimensão como pela sua elevada qualidade. Numa das suas obras maiores, “Portugal, Razão e Mistério”, escreveu: “O que na realidade se esbateu ou desapareceu quase por completo entre nós não foi o patriotismo emocional que, por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado

Lusa e a RTP fazem contínua “lavagem ao cérebro” para convencer o povo das virtudes do marxismo, que em país algum gera prosperidade e justiça social. Dos países com melhor qualidade de vida (lista recentemente divulgada) nenhum tem governo à esquerda da social-democracia. As ideologias que governam os melhores países são por cá rejeitadas. Aqui fica o meu apelo de cidadão oprimido: credores, libertai-nos, para podermos produzir riqueza e pagar as dívidas; que não beneficiaram o povo mas que será o povo a pagar. Cândido Morais, Braga

Honrar a farda A condenação, há dias, em Lisboa, de dois energúmenos que usavam indignamente a farda da PSP para agredirem cidadãos indefesos e as notícias de polícias que usam tiros de pistola em simples casos de altercações entre jovens suscitam-me algumas reflexões. No primeiro caso, tratou-se de dois indivíduos então adstritos (2008) ao serviço na esquadra da PSP das Mercês, no Bairro Alto, que resolveram “punir” por suas próprias mãos um estudante estrangeiro que não tinha pago o bilhete do eléctrico. Levaram-no para aquela malfadada esquadra e agrediram-no barbaramente. Tiveram azar na escolha do alvo: sem medo dos capangas fardados de agentes da ordem, o jovem alemão apresentou queixa e levou os criminosos a tribunal. Apanharam agora quatro anos de prisão cada um. Mas a questão mantém-se: quantos desses marginais fardados continuam à solta, denegrindo a imagem da PSP e usando a farda para dar livre curso às suas taras? No segundo caso, falo de miúdos de 15 anos que estavam a fazer distúrbios num bar de

Duarte Branquinho dbranquinho@textoprincipal.com

Bem haja

Libertem-nos! Troika, fica mais 3 ou 4 anos! Liberta-nos dos socialistas e dos comunistas que nos empobrecem económica e moralmente, que ocupam a comunicação social, os ministérios, as empresas públicas, as câmaras, os institutos, as fundações… como “vampiros” que só têm direitos e exploram o povo mais do que antes do 25 de Abril. Nessa altura havia mais crescimento económico, menos desemprego, menos desigualdade e menos suicídios. O povo português passou de um Estado autoritário para a ditadura do proletariado. Só de fora alguém nos pode libertar, porque a

por ideólogos e demagogos de má fé, foi a relação fundamental da substância e dos princípios da identidade pátria com a sua razão teleológica em movimento, relação que um dia corporizou no projecto áureo português, centro vital e motor de tradição lusíada, e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições.” Em tempos como estes, de grande indecisão e ausência de referências, fazem-nos falta pensadores deste calibre. Regressemos aos nossos clássicos.

Queluz, fugiram e foram perseguidos por agentes da PSP que, para resolver o assunto, sacaram de “shotguns” e pistolas, cujos tiros atingiram três dos miúdos. Quando se trata de assaltos violentos, de crime organizado, de casos graves, compreende-se o empenho posto nas perseguições policiais. Mas estas “perseguições” a miúdos envolvidos em disputas adolescentes mais parecem tiradas de filmes de série B, cenas indignas de uma polícia civilizada e com o sentido das proporções. “Shotguns” em cenas de garotagem não passam pela cabeça de pessoas com os cinco alqueires bem medidos. A PSP deve, definitivamente, apertar os seus critérios de admissão de pessoal e manter acções de formação que expliquem aos agentes o que é realmente manter a ordem pública e honrar a farda. Se não tem mão nos seus homens, dificilmente poderá dar-se ao respeito. E uma polícia respeitada é indispensável num país onde a criminalidade, a verdadeira criminalidade, está a aumentar a olhos vistos. Celina Martins, Lisboa

Deve ser louvada a atitude da Câmara Municipal de Elvas perante a miséria crescente no concelho. Em vez de ficar a lamuriar ou a dizer palavras bonitas sobre a solidariedade, o município resolveu usar o dinheiro do orçamento para fornecer diariamente 600 refeições a crianças do 1º ciclo escolar e dos

jardins de infância. Como esta refeição é fornecida ao fim do dia, muitas das crianças beneficiadas levam-na para casa, o que permite ainda atenuar as carências da família. Bem haja quem actua em vez de falar! Fernando X. Monteiro, Portalegre

Terceiro Mundo O novo Hospital de Vila Franca de Xira, que custou mais de 100 milhões de euros, começou a funcionar sem ter sido devidamente acabado o respectivo acesso rodoviário. Em Lisboa, o novo passeio da Ribeira das Naus, que até agora custou dez milhões de euros, foi inaugurado no sábado e dois dias depois já estava com buracos e pedras soltas que obrigam os automobilistas a andar aos ésses para conseguirem passar. Nenhum destes exemplos

tem uma gravidade por aí além e ninguém (espero) morre por causa disso. Mas mostra como este país funciona: tudo feito à matroca, sem rigor, com uma badalhoquice terceiro-mundista que envergonha o padrão europeu. O Sr. Kotter chamava a isto “Marrocos de Cima”. De Cima? Isto é abaixo de Marrocos, país que muito respeito e tem a vantagem de não querer ser o que não é. Isto, meus senhores, é Portugal. Delfim Marques, Soure

A Islândia e nós Anda aí pela Internet a sugestão de que “os povos de Portugal e Chipre deviam fazer como a Islândia”. Acho graça a esta parvoíce, pelo pitoresco. Mas, claro, não é para levar a sério. Três “coisinhas sem importância” nos distinguem da Islândia: o tamanho, a Justiça e o povo. A Islândia é uma ilha com 300 mil habitantes (um terço da população da Grande Lisboa), cujos tribunais funcionam tão bem que até antigos governantes que geriram mal os bens públicos foram parar à prisão. Mas a maior

diferença está no povo: quando, em 2009, foi preciso trabalhar para tirar o país da fossa sem a ajuda do grande capital bancário, toda a gente arregaçou as mangas. Um país que vivia artificialmente dos “serviços” voltou a produzir em grande e hoje a indústria e as pescas representam já quase 25 por cento do PIB. A indústria alimentar é uma das mais fortes da ilha, o que a torna independente de fornecedores externos. Agora vão lá dizer ao “portuga” para fazer o mesmo… Gualter S. Falcão, Porto

ERC n.º 104 231 Fundadora Vera Lagoa Director Duarte Branquinho Texto A. Marques Bessa, António José de Brito, Brandão Ferreira, Cândido Mota, Eduardo Brito Coelho, Flávio Gonçalves, Francisco Lopes Saraiva, Francisco Moraes Sarmento, Frederico Duarte Carvalho, Godinho Granada, Henrique Pereira, Henrique Silveira, Hugo Navarro, Humberto Nuno de Oliveira, José Almeida, José Serrão, Luísa Venturini, Manuel Cabral, Manuel Silveira da Cunha, |Pinharanda Gomes, Rogério Lopes, Soares Martinez, Vítor Luís Rodrigues Fotografia António Luís Coelho, Rui Coelho da Silva Grafismo Ana Sofia Pinto Redacção Azinhaga da Fonte, 17 1500-275 LISBOA Telefone: 217 144 315 / 910 666 111 diabo@textoprincipal.com ASSINATURAS Telefone: 217 144 315 assinaturas@textoprincipal.com

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O Diabo, 2 de Abril de 2013 • 23

A fechar

Memórias d’o Diabo Os ciclos da História

Cartoon de Augusto Cid publicado na edição de O DIABO de 17 de Abril de 1979. ■

Querida RTP Portugal Confidencial

Nos dias que correm (em que já nada surpreende) acaba por ser normal que recebas de braços abertos o teu amigo Zé Sócrates. Vocês são, afinal, camaradas de longa data. Se não fosses tu, o nosso serviço público de televisão, a colocar Sócrates e Pedro Santana Lopes como comentadores nos serões da RTP1 há uma década atrás, o que teria sido desses dois? Teriam sido convidados na mesma por Francisco Pinto Balsemão, pouco tempo depois, para o encontro do selecto clube Bilderberg em Stresa, Itália? Um evento que o Diário Económico descreve como “a reunião quase secreta dos mais influentes do mundo”? E teriam Santana e Sócrates ocupado na mesma o cargo de primeiro-ministro – um por seis meses e o outro por seis anos – poucas semanas após entrarem no Bilderberg? Como poderia eu esquecer cara RTP, que foste a última estação de televisão a falar nas muitas dúvidas que os portugueses tinham sobre o currículo do engenheiro? Numa altura em que até já a comunicação social estrangeira as noticiava? E que só referiste essas dúvidas dois anos depois de inundarem os blogues e as redes sociais? Nem podia esquecer que foste a televisão escolhida

DR

BASÍLIO MARTINS

pelo engenheiro para uma grande entrevista, a meio do seu primeiro mandato, onde os teus jornalistas se esqueceram de tocar em vários assuntos incómodos – como o facto de um dos seus professores, responsável pelas equivalências concedidas na Universidade Independente, ter sido ao mesmo tempo seu colega no governo. Querida RTP, trato-te por tu porque há muitos anos que te ajudo com os meus impostos. Digo-te que não tenho inveja do Zé e ele até pode fazer os comentários que quiser. Mas não nos estúdios de televisão que eu pago. Uma grande parte dos portugueses acha que ele devia era estar atrás das grades,

condenado por ter deixado o país na bancarrota. Acompanhado de todos os teus outros comentadores políticos, ex-políticos, ex-primeiros-ministros e ex-presidentes das últimas quatro décadas, que da esquerda à direita têm igualmente responsabilidades nesta catástrofe que definha os portugueses. Podiam fazer todos juntos um belo e democrático debate, mas lá dentro. É para isto cara RTP, que me tens andado a pedir o aumento da tua taxa do audiovisual? E não te andavas a queixar que o Miguel Relvas te queria privatizar? É que agora deixaste meio país com vontade de te fechar. ■ basilio@portugalconfidencial.com

Quando o nosso Sócrates, o sofista por excelência, o manipulador dos mais elaborados silogismos e, manda a verdade que se diga, o descendente em linha varonil do execrando Alípio Abranhos, entrou num período sabático e partiu para Paris, eu disse, numa destas crónicas destinadas a dois ou três leitores, que ainda a procissão ia no adro e que, mais tarde ou mais cedo, assistiríamos a um regresso triunfal desta interessante personagem. Sócrates, o nosso, deixou muitos assuntos por resolver, muitas vingançazinhas por exercer, muitas facturas de que se considera credor. O pé-de-meia que terá acumulado, por muitos suspeito de ilícito, não lhe chega para se retirar para a vida privada, gozando um resto de vida tranquilo e confortável, escrevendo, quem sabe, as suas memórias. Não. Sócrates, o nosso, necessita da notoriedade, do autoritarismo, da “chicane” política, da manipulação e da intriga, como outros precisam do oxigénio e do alimento para sobreviver. A sua passagem pela política, essa porca das mil mamas, foi para ele a criação duma base de sustentação composta por uma horda de dependentes, uma clientela cúmplice para quem ele é o único caminho e a fonte de toda a sua existência. Dentro do seu partido, eufemisticamente chamado socialista, a sua influência é inegável, o seu maquinismo continua a funcionar, com a regularidade dum bom relógio suíço. Ajudado por um secretário-geral sem carisma, sem ideias, sem coerência, sem personalidade e sem discurso. Se fosse lá posto por Sócrates, o nosso, não poderia ser mais favorável aos seus interesses. E também por um governo inacreditável dum PSD comandado, aparentemente, por um Passos Coelho criado nos aviários da JSD, mas na realidade por um marginal de origem obscura – Miguel Relvas – e um economista mestre em previsões falhadas – Vítor Gaspar. Para não falar do macaco político especializado em tirar o cavalo da chuva, o eterno sobrevivente Paulo Portas, do CDS sem Democracia Cristã. Para o beirão das moradias aprovadas à pressa numa Câmara amiga, passando por deputado, secretário-geral do PS, ministro do Ambiente, primeiro-ministro, o caminho ainda não está concluído. Ainda resta Belém, cargo neste momento ocupado pela figura digna de estudo sociológico chamada Cavaco Silva. E depois, quem sabe, a Europa. E também as Nações Unidas, esse areópago sem poder e sem representatividade mas que, como final de carreira, vale como um título honorífico, daqueles que se podem comparar ao de Doutor Honoris Causa para os que nunca se sentaram nos bancos duma Universidade. E isso, Sócrates, o nosso, compreende como ninguém… Tudo isto pode parecer fruto das extraordinárias capacidades de Sócrates, o nosso. É um facto que ele é hábil. Mas o caldo de cultura em que ele se move, se desenvolve e vai medrando, chama-se o povo deste País. Sócrates, o nosso, conhece bem os meios para dominar este Povo emotivo, crédulo, generoso e sempre pronto a acreditar no que mais deseja, sem analisar nem aprender com os erros do passado. Um povo de memória curta, para quem o estudo da História é uma maçada que tem de aturar na escola para passar, à rasca, no exame e que depois esquece alegremente. Que está sempre pronto a perdoar quem se lhe apresente como vítima. E nisso, Sócrates, o nosso, é mestre incontestável. Basta ver a sua entrevista na RTP, a primeira desde o seu regresso. Dei comigo a ir atrás do seu discurso, levado pela demagogia fácil e pelo malabarismo verbal do mestre da ilusão. Perigoso, este Sócrates que quis o destino que fosse nosso. E ele aí está de novo. Cuidado, companheiros. Nesta só cai quem quer… ■


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• O Diabo, 2 de Abril de 2013

Nuno Crato. O ministro da Educação confirmou que recebeu da Universidade Lusófona o relatório sobre as licenciaturas concluídas com recurso a créditos atribuídos com base nos currículos, incluindo a do ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, afirmando que haverá “novidades em breve”. Aguardemos.

Céu &Inferno

Alberto da Ponte. O presidente da RTP considerou que a decisão de chamar o ex-primeiro-ministro José Sócrates para a análise política na estação é “ousada”, mas que os comentários são “serviço público e trazem audiências”. Estranha ideia de “serviço público”... Com presidentes assim, a televisão pública só pode ir de mal para pior.

Instantâneo

O DIABO0

Espanhóis

A Frase

•Fome

Os nossos vizinhos acorreram em massa a Portugal para as férias da Páscoa. Em várias cidades os centros e os monumentos encheram-se com turistas espanhóis, o que dá uma pequena ajuda à nossa economia nestes tempos de crise e de quebra no consumo. Em frente à Sé de Lisboa, O DIABO deu de caras com um carro da polícia espanhola, ao lado de um da PSP. Será que estes turistas precisam da sua própria polícia para se sentirem seguros?

“A vocação deste Papa para o espectáculo irá com certeza mudar a face da Igreja”

É uma das consequências da crise que atravessamos actualmente. Segundo dados divulgados pela Polícia de Segurança Pública, os artigos de higiene pessoal e produtos alimentares foram os produtos mais roubados em supermercados durante o ano passado. Os alimentos subiram para o segundo lugar do ‘ranking’ dos produtos mais roubados nestes estabelecimentos. Os furtos já não são para chegar ao supérfluo, mas para garantir necessidades básicas. Este é mais um sinal bastante negativo. Com tanta austeridade, corremos o sério risco de a fome se tornar um problema nacional muito em breve, com as trágicas consequências dessa situação deveras preocupante.

Vasco Pulido Valente in “Público”

•Mon ami

Incrivelmente, há quem esteja muito contente com o regresso de Sócrates. Mário Soares disse que José Sócrates respondeu “com inteligência e muita paciência” às perguntas durante a entrevista que o anterior primeiro-ministro deu à RTP. Considerou mesmo que a entrevista foi “brilhante” e que Sócrates “é um político nato”. Depois de ter estado “absolutamente contra” o regresso de Sócrates, Soares rendeu-se aos encantos de um dos principais responsáveis pelo actual estado do País e telefonou ao político que agora veste a pele de comentador depois de um exílio parisiense. Que amigos que eles são! A lembrar outros tempos, será que Soares lhe disse “mon ami Sócrates”?

•Apartidário?

A crise está a deixar muita gente desesperada que decide protestar em manifestações supostamente apartidárias. Basta um mínimo de atenção para perceber que estas têm sido organizadas pela extrema-esquerda que tenta manipular quem vê a sua vida a deteriorar-se rapidamente. O jornal “i” revelou na semana passada que quatro dos seis membros que compõem o núcleo duro do movimento “Que Se Lixe a Troika”, que organizou as manifestações a 15 de Setembro do ano passado e a 2 de Março deste ano, são militantes activos do Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Comunista Português (PCP). É bom que as pessoas saibam em que é que estão a participar e onde se estão a envolver.

Pergunta d’o Diabo Responde Rui Verde, antigo Vice-reitor da Universidade Independente e autor do livro “O Processo 95385. Como Sócrates e o poder político destruíram uma universidade”.

DR

Como comenta o regresso de Sócrates?

Descrédito

•Submissos

Um estudo de opinião do Centro de Sondagens e Opinião da Universidade Católica (CESOP) para a Comissão Europeia, sobre o tema “Que meios para o nosso futuro: o próximo quadro financeiro da União Europeia”, revelou que a maioria dos inquiridos concorda ou concorda totalmente com um governo a partir de Bruxelas: 52% concordam e 19% concordam totalmente, contra 20% que discordam e 9% que discordam totalmente. Diga-se que o inquérito teve cinco grupos-alvo (deputados e eurodeputados, jornalistas, entidades destinatárias dos apoios comunitários, comunidade académica e população em geral) e que 51% destes são de esquerda. Coincidência?

Sócrates devia regressar para ir para o banco dos réus e não para o banco da televisão. O que veio fazer não foi um exercício da liberdade de expressão (art.º 37.º da CRP) como andaram para aí a alegar. Isso tem todo o direito de o fazer e ninguém o impediu. Mas, o que ensaiou foi utilizar uma espécie de Direito de Antena ou réplica política (art.º 40º da CRP), o que não tem qualquer cabimento. É um cidadão privado fora da política, ou não...? A ele também se aplica o princípio da igualdade. A luminária que se lembrou de lhe proporcionar o regresso à RTP mostrou, mais uma vez, que a seu rápido intelecto só funciona dentro dos muros da Lusófona. Como quer que seja, detendo Sócrates agora prerrogativas de organização política autónoma, com um inusitado direito de antena, aqueles que dele discordam também devem exigir o mesmo direito de antena e combatêlo, explicando as asneiras que fez e as aventuras em que se ( e nos) meteu enquanto governante. Talvez finalmente, se esclareçam as obscuridades dos anos socráticos e também se faça luz sobre a licenciatura que é um assunto em aberto, que preferiram ignorar na “brilhante”entrevista.

Existe uma moeda única? Supostamente deveria ser assim na chamada Zona Euro. No entanto, os recentes acontecimentos em Chipre e a forma como tudo foi gerido a partir das instâncias europeias fez com que vários economistas passassem a considerar que agora existem dois euros. Pior, o duplo discurso do presidente do Eurogrupo, que afirmou uma coisa à imprensa e o seu contrário numa conferência, mostra a total desordem em que nos encontramos. Mostr também como não estamos imunes a uma solução semelhante. Abriu-se a porta para a excepção, o que significa que pode haver excepções quando estes senhores precisarem de as aplicar. Este é agora um terreno muito perigo, de total insegurança. Para agravar a coisa, parece que só se falará de tudo isto depois das eleições alemãs... A UE é mesmo uma união? Parece exactamente o contrário. Esta é uma união monetária que está a cair no descrédito. A pique... FRA DIAVOLO

Edição 1892 do Jornal "O Diabo"  
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