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MARTA SAMPAIO SOARES

REPETIÇÃO


MARTA SAMPAIO SOARES

REPETIÇÃO

INAUGURAÇÃO Quinta Feira, 30. Março. 18H EXPOSIÇÃO 31 Março - 20 Abril Segunda - Sábado | 14H30 - 20H

Livraria Sá da Costa - Galeria | Rua Garrett, 100, 1º andar - Lisboa


Marta Sampaio Soares: Repetição

Esta vasta série de desenhos de Marta Sampaio Soares, de que se apresentam agora na galeria da Livraria Sá da Costa, sob o título genérico “Repetição”, apenas alguns poucos exemplares, é também um teste à resistência física da autora - no decurso do demorado processo de elaboração dos trabalhos, repetindo exaustivamente o mesmo gesto - e, simultaneamente, um desafio radical ao conceito tradicional de autoria. Neste sentido, estas obras incorporam uma fundamental dimensão performativa, na qual o acidental, o “erro”, o que não foi previamente pensado nem planeado, irrompe no espaço pictórico, diluindo a relevância autoral e instaurando um território de acrescida novidade e liberdade formais. Estes desenhos são, então, metaforicamente, cartografias ou, mais exatamente, tomografias psicossomáticas da artista enquanto máquina, repetindo gestos que impregnam e registam, na aparente regularidade inscrita no suporte, os desvios decorrentes das pulsões que foi experienciando durante o processo criativo e do grau de atenção ou do cansaço a que foi sendo sujeita. Neste ponto limite de abstração meditativa, o gesto, repetindo-se sempre igual, liberta-se do sujeito/médium que o executa e encontra um ambiente de abandono produtivo, no qual se enraíza um método e um estilo específicos. Um segundo aspeto estrutural que merece ser realçado sobre estes desenhos, refere-se à leveza etérea que transmitem, contrastando com o esforço hercúleo da sua génese. São trabalhos monocromáticos, realizados a caneta sobre papel vegetal translúcido, desenhos quase imateriais, de uma depuração e economia de meios extremas que, em alguns casos, parecem refletir sobre a exaltação mais do que substancial e luminosa da invisibilidade primeva. Podemos ainda anotar, por um lado, a evidente empatia destes desenhos com o minimalismo e, por outro lado, considerar que a tendencial desmaterialização destes desenhos se concretiza em proveito da sua maior eficácia espiritual.


Nas três pequenas esculturas monocromáticas expostas - vermelha, azul e branca, respetivamente -, o processo construtivo obedece aos mesmos princípios libertadores de qualquer norma pré-concebida; camadas sucessivas de algodão embebido e pintado sobrepõem-se como sedimentos geomórficos a que o tempo - “o tempo, esse grande escultor” -, o tempo de secagem generosamente outorgará uma forma definitiva aleatória e irrepetível. Neste contexto, o artista assume, de novo uma função do Demiurgo, do Princípio organizador! José Sousa Machado Março 2017

Marta Sampaio Soares nasceu em Lisboa, em 1968, onde vive e trabalha. Estudou no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual (2013) e concluiu o Master of Fine Arts no Chelsea College of Arts - UAL em 2014. Neste ano recebeu a bolsa José de Guimarães no Ar.Co e em 2015 foi finalista do 10º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso. Tem estado presente em exposições em Portugal, Espanha e Londres.


SÉRIE SÉPIA. (2012) Caneta sobre Papel Vegetal. 158.5 x 110 cm.


SÉRIE SÉPIA. (2012), detalhe.


SÉRIE SÉPIA. (2012) Caneta sobre Papel Vegetal. 152.5 x 110 cm.


SÉRIE SÉPIA. (2012) Caneta sobre Papel Vegetal. 158.5 x 110 cm.


VERDE CLARO. (2012) Caneta sobre Papel Vegetal. 169.5 x 110 cm (cada).


VERDE CLARO, detalhe.


UNTITLED. (2013) Caneta sobre Papel Vegetal. 91 x 66.5 cm.


ESCULTURA VERMELHA. (2017) Tinta Sobre Algodão. 33.5 x 17 x 20.5 cm


ESCULTURA VERMELHA (2017), lateral.


ESCULTURA AZUL. (2016) Tinta Sobre Algodão. 22.5 x 29 x 24 cm


ESCULTURA AZUL. (2016), frente.


ESCULTURA BRANCA. (2016) Tinta sobre Algodão. 28.5 x 15 x 16 cm.


ESCULTURA BRANCA, lateral


“A arte não pode ser desligada dos gestos que a produzem”

José Sousa Machado – Qual foi a génese destes desenhos? Marta Sampaio Soares – Quando fui estudar para o curso diurno do Ar.Co, em 2008, depois de dois anos nas aulas da noite, aconselharam-me a frequentar o curso de desenho, o qual melhor respondia ao trabalho que estava a desenvolver. De facto, eu sempre senti mais afinidade com o desenho do que com a pintura. Tive sempre o hábito de estar a riscar papeis enquanto fazia qualquer outra coisa; riscar mecanicamente, repetindo gestos parecidos e elementares, mas atentando, no que estava a acontecer no papel, como se o desenho ao fazer-se a si mesmo me devolvesse situações inesperadas enriquecedoras. Fui cartografando ou memorizando esses gestos simples, gestos que também fazia em criança relacionados com composições que elaborava com tudo o que tinha à mão; pauzinhos, pedras, etc. Comecei então a fazer desenhos figurativos, nomeadamente paisagens, usando sempre o mesmo gesto de riscar. Os desenhos foram-se progressivamente simplificando e tornando abstractos. Para mim a arte não pode ser desligada dos gestos que a produzem. Nesses desenhos figurativos a grafite sobre papel, o suporte foi sofrendo alterações. A páginas tantas estava a encher folhas de papel com gestos repetitivos. Depois surgiu a cor, surgiu o papel vegetal e depois uma escala muito maior, culminando nos desenhos da exposição. JSM – Quanto tempo demorou este processo? MSS – Desde 2009 até 2012. Estes desenhos são também um lugar, definem um lugar. JSM – Em que sentido?


MSS – São um lugar que resiste ao excesso do nosso quotidiano. Aparentemente o gesto que uso para fazer os desenhos e também as esculturas é quase nada, mas a sua repetição instaura um sentido e ele ganha importância porque define um território liberto do que é excessivo. Estes desenhos são o contraponto ao mundo repleto de coisas em que vivemos, às actividades práticas extenuantes. São um espaço de abandono, de despojamento. JSM – Em que usa o mínimo de recursos? MSS – Sim, o que fazer com este mínimo, com este quase nada. No início quando não gostava de um desenho, reaproveitava-o em novos trabalhos, em bom rigor, nunca falhava. JSM – E como entra a cor neste processo? MSS – A cor, o gesto, os materiais são os elementos com os quais um trabalho se realiza. Há três coisas que me interessam, respectivamente a cor, neste caso monocromática, a rarefacção minimalista e a exploração de novos materiais. Sim, gosto de poucas cores mas intensas. Talvez por isso não me interesse tanto o figurativo, porque na abstracção é mais fácil este monocromatismo. As esculturas reflectem bem este aspecto, mas também a importância dos materiais. Os materiais proporcionam-me uma aprendizagem interessante que consiste em descobrir as suas potencialidades. Agrada-me trabalhar com materiais que implicam descoberta, novidade e imprevisto. Gosto que os materiais não possuam um carácter convencional. JSM – Em todo o caso supervisiona a composição … MSS – Sim claro, uma das qualidades do papel vegetal é a sua luminosidade. Quando aplico a cor, deixando janelas vazias por onde passa mais luz, estou a interferir na composição.


JSM – Gostou de estudar em Londres? MSS – Foi um ano muito experimental. Quando lá cheguei, disseram-me para esquecer tudo o que tinha aprendido até então. Na altura eu estava a trabalhar com plásticos. A escola colocou à nossa disposição uma quantidade imensa de oficinas sobre as técnicas mais diversas – madeira, bronze, metais, cera, o que quiséssemos explorar. Escolhi trabalhar com cera porque é um material translúcido muito apelativo ao tacto. Fiz uma exposição no Espaço AZ com trabalhos realizados em Londres. Também foi lá que passei para a tridimensionalidade. JSM – Quais são as suas referências? MSS – Rothko e Eve Hesse e contemporâneos como Simon Callery, Anish Kapor ou Karla Black. Há um artista londrino de que gosto muito, o Ian Kiaer, mas as minha referências mais fortes estão, curiosamente, na literatura, em Fernando Pessoa, por exemplo. Porque a arte é um estado emocional e a literatura faz-me aceder mais facilmente a esse estado.


MARTA SAMPAIO SOARES

Vírgula , Museu Geológico, Lisboa 2015 10º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, Museu Amadeo de Souza Cardoso, Amarante EDUCAÇÃO Somos Solitários , Galeria Espaço AZ, Lisboa 2014 Exposição de finalistas MA FA, Chelsea College of Arts, Londres 2014 MA Fine Arts, UAL Chelsea College of Arts, Londres Collaborationem , Igreja de St Saviour, Londres 2013 Estudos Completos de Artes Plásticas e Projecto individual, Ar.Co Ar.Co Bolseiros & Finalistas´ 13 , Museu da Cidade, Lisboa Centro de Arte e Comunicação Visual, Lisboa 2013 Ar.Co Bolseiros & Finalistas´ 12 , Museu da Cidade, Lisboa 2006 1992 Licenciatura Gestão e Administração de Empresas, Exposição Anual, SNBA, Lisboa Católica-Lisboa Universidade de Gestão e Economia, Lisboa COLEÇÕES RESIDÊNCIAS Lisboa, 1968

2015 2012

Artista Residente no estúdio do artista Haroon Mirza, Londres Saída de Campo, prática de desenho 3, orientado por Pedro Tropa, Ar.Co, Lisboa

BOLSAS E PRÉMIOS 2016 2015 2013

FID Prize, seleccionada na fase Candidate Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, finalista Ar.Co, bolsa curricular José de Guimarães

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS 2017 2015

CAC - Centro de Arte Contemporáneo, Málaga Luciano Benetton - Imago Mundi BIBLIOGRAFIA Portugal: Open Window to the World, Contemporary Artists from Portugal, Imago Mundi, 2016 Artistas seleccionados e convidados, 10º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, 2015 Catálogo MA & MRes – Exposição Chelsea College of Arts and Design, 2014 Catálogo da exposição Ar.Co Bolseiros & Finalistas´ 13, 2014 Catálogo da exposição Ar.Co Bolseiros & Finalistas´ 12, 2013

Repetition , Livraria Sá da Costa - Galeria, Lisboa (inaugura 30/3) FORMAÇÃO TÉCNICA The Body , SNBA, integrada no EXD´15 As Far As The Mind Can See, Lisboa 2008 Curso nocturno de Pintura e Desenho, Ar.Co, Lisboa 2006 Estudos completos de Iniciação à Pintura, SNBA, Lisboa EXPOSIÇÕES COLETIVAS SELECIONADAS 1988 Curso de Pintura Tradicional de Azulejos, Associação de Artesões de Entrecampos, Lisboa 2016 Doze Artistas na Galeria Sá da Costa , Livraria Sá da Costa 1986 Curso completo de Corte e Costura, Escola Normal de Corte LUC, - galeria, Lisboa Lisboa PERIPLOS / Arte portugués de hoy , CAC Málaga, Málaga


OUTROS 2016 Participação na 7ª Abertura Ateliês Artistas Castel d´If, Lisboa 2014 Curadoria da exposição Interim Show MA Fine Arts, Londres


Este catálogo foi publicado para acompanhar a exposição REPETIÇÃO MARTA SAMPAIO SOARES de 31 de Março a 20 de Abril de 2017 na Livraria Sá da Costa - Galeria, Lisboa, com a produção Ocupart CONCEITO E DIREÇÃO DA EXPOSIÇÃO: Marta Sampaio Soares

CATÁLOGO DESIGN GRÁFICO E LAYOUT Ocupart - Inês Correia

EDIÇÃO Ocupart - Inês Correia

FOTOGRAFIA Marta Sampaio Soares João Dias

TEXTO Marta Sampaio Soares José Sousa Machado

CAPA: ROSA E AZUL. (2012), detalhe. Caneta sobre Papel Vegetal. 180 x 100 cm.

Rua Rodrigo da Fonseca, 135, 4º Direito - 1070-240 Lisboa| Tel: (+351) 917 071 693 (+351) 927 569 362 www.fb.com/Ocupart.pt | www.ocupart.pt

Proibida a reprodução total ou parcial de texto e/ou fotos deste catálogo, exceto se autorizado por escrito pelo autor e/ou editor


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Marta Sampaio Soares - Repetição  

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