Issuu on Google+


ÍNDICE Quem não sonha o azul do vôo perde seu poder de pássaro.................................pág 3 Essa ciranda não é minha só,ela é de todas nós..........................................................pág 4 Não diga que as estrelas estão mortas só porque o céu está nublado...............pág 5 O fato de me perceber no mundo (conjuntura).........................................................pág 6 É sonhar, mas cavalgando o sonho (movimento estudantil)................................pág 7 Mulher TAMBÉM produz do conhecimento!..............................................................pág 9 Pela produção de conhecimento não machista!.......................................................pág 10 O espaço da universidade...............................................................................................pág 11 E pra odne vai essa roferma uintervisária? .............................................................pág 11 Expansão com qualidade para as mulheres...............................................................pág 13 Assistência estudantil......................................................................................................pág 13 Sou mãe, sou mulher, sou estudante!..........................................................................pág 15 Mulher e natureza.............................................................................................................pág 17 Legalizar o aborto – pelo direito à vida das mulheres..........................................pág 18 Lei maria da penha: limites e ponderações..............................................................pág 19 Façamos nós por nossas mãos! Contato Levante!...................................................pág 20

“Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro.”


Nós somos as mulheres do Coletivo Nacional Levante! Um coletivo de estudantes, de movimento, de vida. Somos aquelas que não conseguem ficar sentadas apenas olhando pra tudo isso. Queremos transformar a experiência na universidade em algo diferente. Não fechamos os olhos para as desigualdades que afligem os jovens e toda a população. Lutamos por democracia, pluralidade e diversidade na Educação brasileira. Uma educação que combata nossa cultura machista, que comba-ta a homofobia, e que contribua para líbertar e conscientizar. Que se oponha à qualquer hierarquia, ao autoritarismo do mérito, à hipocrisia dos títulos. Uma universidade para todos e todas, de forma igualitária, totalmente livre! Participamos de um Encontro de Mulheres e nos propomos a debater gênero, por compreendermos que a construção de uma sociedade igualitária passa, necessariamente, por uma mudança radical do que está posto. A superação do sistema sócio-econômico não

trará automaticamente o fim do machismo e de outras formas de opressão, e por isso é muito importante que desde já todas – e também todos – pensem coletivamente como isso se dará. Somos mulheres, estudantes, e não deixamos de sonhar... Utopias e desejos nos impulsionam a tecer todos os dias os fios de um novo mundo, onde homens e mulheres possam sentir verdadeiramente o significado de liberdade, e opressão seja apenas uma palavra para ser esquecida aos poucos. Se grandes são os nossos sonhos, não podemos esquecer a nossa realidade. Por isso, nesse EME propomos um passo à frente. Vamos ser ousadas, fazer algo novo, pensar novas formas. Ser Levante é pensar e construir nos DCEs, nos Centros Acadêmicos, em cada universidade e curso que atuamos um movimento estudantil capaz de reencantar os estudantes, acreditar na pluralidade das nossas idéias e lutar com autonomia.


Entendendo até aqui que as mulheres sofrem por diversos fatores e de diferentes formas – a opressão, é necessário pensar mecanismos para superar os obstáculos que, ainda hoje, oprimem as mulheres. Esta realidade, mesmo que por vezes aconteça na esfera privada, não pode ser individualizada, mas deve ser entendida como questão social, e só poderá ser transformada através da intervenção coletiva das mulheres. As mulheres devem ser protagonistas da mudança de suas próprias vidas. Paulo Freire já dizia que os oprimidos só mudam sua condição a partir de sua autoorganização. Ou seja, o grito de liberdade tem de ser dado por nós mesmas, ou ninguém o fará por nós. É neste sentido que o movimento feminista há algum tempo identificou a necessidade de espaços auto-organizados pelas mulheres. Os espaços políticos, no movimento estudantil e de uma forma geral, são masculinizados e as mulheres encontram obstáculos a sua participação. Isto pode ser observado claramente quando percebemos que, em sua maioria, os espaços políticos são compostos por homens. Temos que lidar cotidianamente com as piadas e cantadas que ouvimos nos nossos espaços de militância. Práticas como autoritarismo, personalismo e não coletivização das informações também dificultam nossa participação. Por isso, a democratização do movimento é fundamental para as mulheres. Quando analisamos esta e outras expressões da opressão às mulheres, é que defendemos que a construção dos espaços auto-organizados é fundamental para criar uma identidade coletiva que torna possível pensar na ação política das mulheres no campo público e social e não na esfera privada. Já que são as mulheres que sofrem as opressões no seu cotidiano, coletivamente podemos nos instrumentalizar para a nossa emancipação e participação nos espaços coletivos na construção de outra sociedade, visto que muitas vezes os companheiros inibem a intervenção das mulheres no debate de gênero, sempre deixando esta importante reflexão fora das prioridades. Garantir espaços mistos com este debate também é fundamental, tal como garantir que o debate pela ótica feminista perpasse todos os debates que fazemos para a construção de outra sociedade. Isto significa que precisamos garantir que o papel das mulheres nas diversas lutas da sociedade seja sempre colocado de forma relevante em todos os espaços e não só em espaços auto-organizados.


Há pouco tempo era muito difícil imaginar que teríamos uma presidente mulher no Brasil. “Agora elas podem”, repete a presidente Dilma Roussef, que instituiu pela primeira vez um Ministério com cotas 30% de ministras. Se por um lado essa feminização do poder é fundamental para alimentar um imaginário onde as mulheres tem livre acesso a vida política, por outro ela não tem se refletido num avanço das pautas feministas no governo. Ainda durante a campanha, a atual presidente associava sua imagem à grande mãe defensora do povo brasileiro e se comprometia com os setores mais conservadores da sociedade a não caminhar com o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3), sobretudo nos itens referentes à invasão de propriedade rural, direitos dos homossexuais e direitos sexuais e reprodutivos das mulheres (revisão da legislação punitiva sobre aborto). E logo no início do governo, já apresentou cortes de verbas nas áreas sociais, o que pesa mais sobre os ombros das mulheres. O Governo se comprometeu a continuar a política de combate à pobreza iniciada pelo governo Lula, que tem como principal o programa o Bolsa Família, bem como outras políticas de distribuição de renda limitadas. É preciso entender que os programas de redução emergencial da miséria são necessários, mas se tornam ineficazes quando não vem acompanhados de políticas públicas que garantam a autonomia da população - emprego, garantia de direitos trabalhistas ou aumento do salário mínimo. É importante lembrar também que a postura do governo brasileiro no cenário internacional tem sido por um lado a briga por uma inserção dependente no mercado globalizado a partir de nossos minérios,

cana, petróleo, florestas, perpetuando a histórica pilhagem dos recursos do país e por outro lado a sua ação, sobretudo a partir das multinacionais brasileiras na expansão imperialista sobre países da América Latina, desrespeitando sua soberania e depredando seus recursos. As mulheres têm em todo o mundo se colocado contra o capitalismo imperialista e tem sido fundamental na construção de diversas resistências. Não podemos deixar, que o governo brasileiro prossiga desta forma. No que tange a políticas públicas para mulheres, o governo Lula em seus mandatos criou a Secretaria Especial de Políticas Públicas para Mulheres, a Lei Maria da Penha foi aprovada e ocorreu a Conferência de políticas para as mulheres. No entanto há falta de compromisso político e orçamentário do governo para com esses encaminhamentos. Assim, vimos as resoluções da Conferência de Políticas Públicas pra mulher serem engavetadas, bem como a Lei Maria da Penha, que acabou por estabelecer-se apenas de forma criminalizante, com poucas políticas de combate à violência e de amparo às mulheres vítimas. De que adianta encaminhar a política e não garantir que ela aconteça? É preciso lutar. E para isso é necessário defender o direito à luta, contra a criminalização dos movimentos sociais cada vez mais frequente, bem como a cooptação de lideranças. Enquanto lutarmos é possível sustentar a esperança num mundo sem oprimidos e opressores. É preciso denunciar as farsas deste mundo baseado no consumo desenfreado e no lucro a qualquer custo, bem como os que preferem no poder conformar em vez de transformar. É preciso ousar defender o direito ao trabalho, ao próprio corpo, direito de viver e amar...


Nos últimos anos assistimos um processo de modificação e expansão do sistema capitalista que atingiu patamares nunca antes pensados. Hoje, para além da dominação de territórios, o capital expandiu seu alcance a todas as esferas da vida humana, passando não só pela produção, mas também pela reprodução, pelos sentimentos, pela cultura e pelos sonhos dos seres humanos. Tal processo, no entanto, se vincula absolutamente com a luta deste sistema por sobrevivência: na sede por mercados e mercadorias, o capital se introjetou em todo o mundo. Dentro dessa difícil conjuntura, de direitos cada vez mais escassos, onde cada vez mais viramos consumidoras, de produtos, remédios, cultura e informação de massa. Onde o desperdício de comida enquanto há fome, de guerras e dominação entre povos, de imensa violência, pobreza e desigualdade, as mulheres sofrem mais... As mulheres são hoje 70% dos pobres do mundo. São maioria entre os refugiados de guerras, entre os trabalhadores informais, precarizados, desempregados. Na sede de reprodução de si mesmo, o capitalismo aumentou a desigualdade social, a fome, a pobreza; diminuiu os salários, os direitos, os empregos. O sistema capitalista se apropriou da opressão da mulher e aprofundou a divisão sexual do trabalho, responsável por delegar o espaço público e produtivo aos homens e o espaço privado e reprodutivo às mulheres, qualificando o primeiro como mais importante e com mais poder. No dia a dia isso significa não só que as tarefas realizadas gratuitamente pelas mulheres – como lavar, passar, cozinhar, arrumar a casa, educar filhos, cuidar de doentes - são socialmente mais desvalorizados, mas também reflete na desvalorização da mão de obra feminina como um todo. Como consequência disso, temos visto as

mulheres se inserirem no mercado de trabalho de uma forma cada vez mais subalterna, dependente e precarizada, assumindo tarefas “tipicamente femininas” ligadas ao cuidado (família), à polivalência (tarefas domésticas), à habilidades manuais, à submissão à autoridade, por exemplo. Num mundo cada vez maior de mercadoria, somos nós, cada vez mais mercantilizadas como produtos, seja a partir do tráfico de mulheres (terceiro maior negócio ilegal do mundo) seja a partir da venda da nossa imagem de forma massiva em revistas, jornais e Tv, ou como “brindes” em produtos variados - carros, cerveja, roupas, automóveis. Geralmente veiculando um padrão quase único de beleza, as mídias e propagandas também ajudam a sustentar a industria de cosméticos, produtos de beleza e cirurgias plásticas, que cresce sobre a insatisfação das mulheres com seu corpo e é responsável por diversos distúrbios de ordem psicológica e física às mulheres. O império das grandes empresas e bancos também tem avançado no desrespeito ao meio ambiente, à biodiversidade, à vida. A opção por investimento no uso de combustíveis fósseis e a enorme produção de lixo causada pelo consumismo e pela irresponsabilidade tem agravado a poluição e a degradação ambiental. Também temos visto o direito da semente e da vida ser mercantilizada, patenteada, manipulada


pela produção dos alimentos transgênicos. A opção pelo lucro e pelo agronegócio em detrimento da pequena propriedade rural familiar tem tido consequências sobre a comida que fica cada vez mais cara e de pior qualidade. Vários fatores, nos levam a crer que não podemos desconsiderar um olhar sobre as mulheres nas análises conjunturais, e que nós, mulheres, assumimos cada vez mais uma posição estratégica quando pensamos capitalismo: em primeiro lugar, porque o capitalismo tem utilizado a situação de

desigualdade entre homens e mulheres para a precarizar e retirar direitos das mulheres, e também de toda a classe trabalhadora; segundo porque as mudanças necessárias à melhoria da vida das mulheres vão na contramão da transformação de tudo em mercadoria, ao contrário, dependem da ampliação de direitos, da democracia, do respeito ao meio ambiente, da construção de uma outra sociedade mais humana, fraterna, justa e igual. Em diversos movimentos anti-capitalistas e/ou de contestação da ordem vigente nos últimos anos, as mulheres tem mostrado a cara dizendo o quanto as saídas que o capital nos oferece nos são limitadas. São indígenas na América, árabes no Egito, ecologistas na Europa, são meninas, mulheres, senhoras que sabem que é, mais do que nunca, é necessário mudar o mundo para mudar a vida das mulheres!

O Movimento Estudantil é para nós uma grande ferramenta de transformação, social e individual. A luta por uma educação de qualidade e libertadora é também a luta por outro modelo de sociedade. E a igualdade entre homens e mulheres deve ser parte fundamental da luta do ME pela educação e pela sociedade que queremos. A participação das mulheres em espaços políticos é orientada por uma premissa social de que à mulher é reservado o espaço privado, reprodutivo, do cuidado e não o espaço público. A política e poder na sociedade patriarcal são funções masculinas. É bastante fácil perceber como a participação feminina é menor nos espaços políticos e que quando existe muitas vezes é desqualificada pelos homens. O ME não-machista precisa discutir novas maneiras de organização e a prática política cotidiana se quiser de fato incluir as mulheres. Espaços verticalizados e modelos tradicionais como os que para defender uma posição política é preciso sempre ir à frente, falar no microfone, subir no palco e etc.. não contribuem para o acolhimento das meninas que durante toda a vida foram educadas para se preservar e não assumir a frente. A democracia nos espaços do movimento, mais horizontalidade e o combate ao personalismo são fundamentais para a participação das mulheres.

É preciso uma nova pratica/cultura política e esta é necessariamente feminista!


E não nos basta à inclusão é preciso dar condições as mulheres de formular para o movimento e também de dirigi-lo. Formação política e os espaços de auto-organização são ferramentas importantes nesse processo. No dia-adia de nossas entidades e coletivos é preciso estar sempre vigilante sobre as posturas machistas e criar medidas de incentivo a participação feminina. Uma diretoria de mulheres precisa ser ativa, critica e propositiva. Tem que pautar a luta feminista no dia a dia da entidade. É possível dizer que a criação de uma diretoria mulheres em si já é um avanço, entretanto pouca coisa mudou na política da entidade. A UNE, de um modo geral, pouco incorpora o combate ao machismo como algo central. A UJS, que há anos dirige a entidade, nunca se empenhou seriamente em criar políticas para as mulheres estudantes ou mesmo para inserir mais meninas no espaço político. Um das políticas da diretoria o Encontro de Mulheres Estudantes tem se firmado como espaço de acúmulo e auto-organização muito necessários para as mulheres que participam da UNE. Entretanto gostaríamos de pontuar algumas questões tais como “onde esse acúmulo vai parar?”. O fato de o EME ser um espaço consensual no qual o “disputismo” é diluído pela importância do debate faz crescer muito o encontro. Entretanto a entidade pouco incorpora o debate e os avanços, prova disso é qualquer congresso da UNE nos quais vemos inúmeras atitudes machistas que pouco ou nada são repreendidas. Avançar na defesa cotidiana de uma política para mulheres nas nossas universidades requer autonomia do movimento frente a partidos, reitorias e governos, pois posturas de atrelamento ao governo impede que certas criticas sejam feitas. Devido as dificuldades das mulheres em se inserir no espaço político, como já tratamos, é preciso que pensemos em ações afirmativas que levem em conta a condição social dos indivíduos porque ainda que as mulheres tenham “direitos iguais” no ME, isso não se reverte numa igualdade de acesso ao poder. É importante lembrar que essa participação está diretamente ligada ao grau de hierarquia do movimento, ou seja, as mulheres estão menos nas direções e representações do movimento estudantil, ainda que participem amplamente da base do mesmo. Quanto maior o espaço de direção menos mulheres encontramos. Outro ponto a se discutir, é que a diferente participação das mulheres está ligada a uma divisão sexual do trabalho militante, que deve ser combatida, e que “joga” as mulheres para tarefas secundárias, de coordenação, de organização, enquanto os homens ficam com a “conversa de forças”, com o papel público, etc. Por isso é fundamental que a UNE tenha uma política concreta de inclusão dessas mulheres no movimento estudantil. Por exemplo, a resolução de cotas de 30% para mulheres na direção entidade é uma política importante, porém, a cota é cumprida na diretoria plena, mas quando se fala da diretoria executiva, que é a que de fato decide pela entidade e que recebe auxílio/liberação para o cumprimento de seu mandato, vemos uma maioria de homens. Além do preconceito que é reproduzido em relação às cotas, que precisa ser combatido. Levante-se para construir uma nova pratica política que liberte as mulheres. Uma UNE de esquerda, feminista, democrática e que combata as velhas praticas e vícios do ME é o que queremos.


Pensar o que é a produção de conhecimento nas nossas universidades passa por perceber que são os atores e atrizes sociais que o constroem e toda a sociedade que o envolve. Por isso, outra temática que carece de aprofundamento por nós, feministas, é a área da produção científica. O que hoje é a ciência moderna envolveu progressivamente um alto grau de formalização, com a fundação de instituições e o estabelecimento de normas que afastaramprogressivamente as mulheres. No começo da Revolução Científica, as mulheres européiaspuderam se envolveram com atividades científicas, seja observação de astros com o uso de telescópios em observatórios familiares, seja analisando plantas, insetos e outros animais com microscópios, juntamente com seus maridos, irmãos ou pais. As mulheres também detinham um grande conhecimento sobre uso de plantas e ervas medicinais, tratamento de doentes, além de serem as responsáveis pelo acompanhamento de partos e nascimentos. Com o desenvolvimento do capitalismo, a separação entre privado e público refletiu-se no modo de organização da produção científica e tecnológica e os cientistaspassaram a se profissionalizar em sistemas formais de ensino . As mulheres foram impedidas de freqüentar escolas e universidades, sendo “convocadas” a assumir o cuidado da casa e dos filhos. A ciência se estruturou, então, em bases quase exclusivamente masculinas, com um enorme desperdício de potencial humano e a produção de conhecimentos profundamente marcada por um viés androcêntrico. Se formos fazer um resgate histórico do reconhecimento das mulheres na produção da ciência, vamos perceber que foi necessário a recusa de Pierre Curie em receber o prêmio Nobel sozinho para que a comissão reconhecesse a contribuição de Marie, sua esposa, na área da radioatividade. Mais tarde, a contribuição essencial de Rosalind Franklin para a elucidação da estrutura do DNA foi completamente ignorada pela comissão do prêmio Nobel. Outros exemplos podem ser facilmente encontrados em qualquer livro bibliográfico sobre mulheres cientistas. Apesar de a situação ter se modificado um tanto, o momento de hoje não é lá essas maravilhas. Apenas 3-4% do corpo docente universitário em qualquer área de ciência e tecnologia no Reino Unido é constituído por mulheres. O mesmo é válido para os Conselhos de Pesquisa e demais órgãos governamentais. Quanto à participação feminina na produção do conhecimento, o primeiro ponto que deve ser considerado é completa falta de preocupação dos órgãos oficiais que coordenam o sistema de Ciência, Tecnologia e Informação no Brasil em desvelar a presença feminina neste sistema. Como os/as estudiosos/as da problemática de gênero não cansam de alertar, somente o olhar interessado de pesquisadores/as envolvidos/as com a questão pode encontrar a mulher onde as estatísticas insistem em tratar os diferentes como iguais. É importante destacar que as mulheres ainda são minoria no sistema universitário público no total de docentes ativos, ocupando ainda menos cargos administrativos nas instituições. Outro indicativo, que se soma à reduzida participação de mulheres em cargos administrativos das principais instituições de C&T do país, é a eleição delas para a Academia Brasileira de Ciências. Nas Engenharias e nas Ciências da Saúde não há nenhuma mulher entre os acadêmicos. No caso dessas


áreas, bem como nas de Física e Matemática, a ausência de mulheres entre os acadêmicos reforça ainda mais o estereótipo masculino associado a essas áreas. Mas, quando se observam os acadêmicos associados, uma posição certamente de menor prestígio, elas são mais representativas, representando cerca de 40% do total. Outro elemento a se considerar é que no Brasil, durante o percurso acadêmico, a licença maternidade é um direito reconhecido legalmente, mas quando concedida durante o mestrado ou o doutorado não se desconta este período do tempo de titulação da aluna, o que tem impacto nos indicadores dos programas e resulta em mecanismos de pressão variados sobre as mulheres. Mas uma questão que é fundamental a ser enfrentada é a representação paritária das mulheres em comitês das agências de fomento e nas instâncias de decisão das instituições.

PELA PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO NÃO MACHISTA!! A universidade não está descolada da sociedade como um todo, estando, assim, permeada de valores machistas, fazendo com que em determinados cursos alguns elementos sejam (ou não) mais aprofundados. Na área do turismo não é considerada a grave questão do turismo sexual associada à lógica do turismo predatório; nos cursos de nutrição não é considerado o impacto de um padrão de beleza que submete as mulheres a distúrbios alimentares à distorção da visão do corpo, sendo um verdadeiro desafio à autonomia do profissional, afinal “nutricionista bom é aquele que faz emagrecer!”; na área da medicina a temática sobre a legalização do aborto passa longe, o que contribui para continuarmos aumentando as estatísticas sobre mortes de mulheres que poderiam ser evitadas, além da reprodução da imagem da médica das áreas de ginecologia e obstetrícia, neonatologia, dentre outras que remetem ao cuidado; na área da enfermagem a visão sempre relacionada da mulher enquanto cuidadora; na área da História as mulheres continuam sendo invisibilizadas nos momentos históricos em que tiveram importante papel, como na Rev. Russa e Espanhola; na Pedagogia continuamos sem questionar um modelo de educação sexista passado às crianças e sem reivindicar a alteração dos materiais didáticos, que continuam representando as mulheres como donas de casa, aparecendo as mães sempre cuidando de crianças ou na cozinha e as filhas brincando de boneca, enquanto o pai aparece sentado no sofá lendo jornal e o filho brincando de carrinho, bola e soldado. É necessário, portanto, trabalhar para incluir temáticas que discutam a opressão de gênero na formação desses futuros profissionais e dedicar investimentos nas áreas de pesquisa para a produção de um conhecimento não- sexista! É preciso influir nos currículos escolares, nas estratégias pedagógicas e no material didático de forma a romper o ciclo de reprodução da dominação simbólica que repercute nas escolhas profissionais. Devem ser previstas formas de apoio aos núcleos, às redes, às publicações e eventos especializados nas temáticas que envolvam gênero, bem como o estímulo à criação e manutenção de grupos de trabalho e comissões nas sociedades científicas. As estratégias não podem se limitar ao estímulo de meninas ao ingresso nas carreiras científicas.


O espaço da universidade... À primeira vista é bem possível achar que a universidade é um espaço onde o machismo tem um espaço bem limitado. No entanto, basta olhar para os cartazes das chopadas, ou para as piadinhas em calouradas para percebermos que ainda temos muito a mudar... Um outro problema encontrado é preconceito e falta de reconhecimento encarado pelos cursos/profissões tidas como femininas. O preconceito dentro dos cursos por sua vez não é menor! São muitos os casos de constrangimentos em plena sala de aula por parte dos professores e colegas de sala enfrentados pelas meninas! Além disso, os campi pouco iluminados podem ser palco para filmes que tem sim a mulher como protagonista, mas que estão mais para tragédias do que para qualquer outra coisa. Nesse segundo olhar, podemos perceber que, ainda hoje, a universidade continua a ter um papel central na difusão do preconceito. As mulheres, mesmo no espaço da universidade, continuam a ser vítimas de um modelo se sociedade sexista. No entanto, essa mesma universidade que hoje é voltada para as empresas, pode ser um pólo de resistência, de construção de consciência coletiva de luta e de avanço para o povo, pois, como disse Mandel, “o que é impossível hoje à Universidade enquanto instituição, é possível aos estudantes individualmente e em grupos”.

E pra odne vai essa ROFERMA UINTeRViSÁRIA? Nos últimos anos, temos visto uma série de transformações nas nossas universidades. Nosso dia a dia tem mudado, nossa produção do conhecimento tem estado cada vez mais voltada para as necessidades do mercado, não temos políticas fixas e permanentes de assistência estudantil, segurança, dentre outros... esses foram alguns dos temas que vimos acima e que precisam ser mudados. Por isso é fundamental vincular a discussão sobre a mudança da vida das mulheres universitárias à uma leitura sobre os projetos de transformação do papel da universidade nos países chamados “em desenvolvimento”.


A defesa da universidade pública, 100% gratuita, para todos e todas e voltada para as necessidades sociais é uma pauta central também para as mulheres! Só é possível pensar numa universidade preocupada com as mulheres se pensarmos no compromisso social que essa universidade deve ter. A questão é que não é possível pensar em compromisso social quando as universidades trabalham como grandes cofres do Tio Patinhas, preocupadas apenas com lucrar mais e mais e produzir conhecimento voltado para o desenvolvimento das empresas e dos empresários. Hoje, as nossas pesquisas estão voltadas para os interesses das empresas. Uma grande linha de pesquisa da UFC é o Erlotinib®, remédio que só tem efetividade em mulheres com adenocarcinoma de pulmão, que nunca fumaram e que são asiáticas! E isso no Ceará! Enquanto isso, muitas mulheres morrem sem acesso ao atendimento mais básico, pelas conhecidas doenças negligenciadas. Isso porque historicamente os mercados nunca socializaram direitos, por isso defendemos a universidade 100% pública, e isso inclui a sua pesquisa e a sua extensão. Obviamente não somos contra @s estudantes das universidades privadas, que pagam e não deveriam, mas contra a lógica privatista que tem se implementado nas universidades públicas e contra a universidade privada. EDUCAÇÃO É DIREITO, NÃO MERCADORIA! Por isso somos contra as parcerias público-privadas, contra o PROUNI que compra dos capitalistas da educação as vagas que deveriam ser públicas e contra os cursos pagos nas universidades públicas, baseados nas fundações ditas de apoio. Nos perguntamos então: Como alterar o dia-a-dia machista da universidade sem haver possibilidade das mulheres se organizarem para lutar por isso? Como garantir a produção de um conhecimento nãomachista sem a garantia da pesquisa como uma função importantíssima da universidade, que deve estar vinculado ao ensino como um todo? Como assistir as mulheres da universidade de transporte, restaurante, alojamento, segurança e creche sem verbas para tal investimento? Não fica claro que a construção de uma universidade emancipadora para as mulheres tem absolutamente a ver com o modelo de universidade que queremos?

Batalhar para uma real transformação da universidade que temos hoje em direção a construção de uma universidade não-sexista e que consiga incorporar as demandas das mulheres para garantir a todas condições e qualidade de ensino é uma luta cotidiana nossa!


Somente 9 de cada 100 jovens estão no ensino superior. Destes, menos de 3 estão em universidades públicas. Fazer com que a universidade tenha vaga suficiente para todos que quiserem estar nela é fundamental. Dizem que somos, jovens, nós que não estamos preparados para a universidade, mas, se não há vagas suficientes, não é mais lógico concluir que é ela que não está preparada para a juventude? Se passamos do ensino fundamental ao ensino médio sem provas porque temos que passar pelo vestibular, um sistema excludente que evidencia a precariedade do ensino público brasileiro? Porque na universidade pública e gratuita não há vagas para todos! Defendemos a expansão das universidades públicas e o fim do vestibular (não o novo super-projeto do governo que implementa uma prova única para todas as universidades – o NOVO-velho-ENEM)! Queremos o fim das provas de seleção e expansão com qualidade que tenha verba para assistência estudantil, estrutura, professores, pesquisa e extensão! Por isso somos contra o REUNI, que expande a universidade de forma predatória, não garantindo verbas para assistência estudantil, que superlota a universidade e não expande a quantidade de professores! Queremos estudar! E queremos ensino de qualidade com bolsas, bibliotecas, creche, restaurante, transporte e moradias universitárias.

Assistência Estudantil A divisão sexual do trabalho, existente na nossa sociedade, é responsável pela delegação de certas tarefas às mulheres e certas tarefas aos homens. Podemos dizer que à mulher, dentro desta forma de organização do trabalho social dividida entre os sexos, é delegada as tarefas do espaço privado, majoritariamente o cuidado da casa e dos filhos, e aos homens as tarefas do espaço público, o trabalho assalariado, a política e a vida pública em geral. Com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, podemos observar que, enquanto as mesmas passaram a realizar tarefas que antes eram consideradas “masculinas” o mesmo não ocorreu com os homens, ou seja, o cuidado com as tarefas de casa e dos/as filhos/as continuam sendo, senão majoritariamente, exclusivamente das mulheres. Essa situação constrói um quadro onde as mulheres acumularam funções e hoje estão sujeitas a uma dupla jornada de trabalho, ou seja, são duplamente exploradas: primeiro, como trabalhadoras; depois, como donas-de-casa. Hoje 27,5% dos domicílios brasileiros tem uma mulher como a principal provedora de recursos financeiros da família, no entanto, em 96% dos domicílios em que residem mulheres, uma mulher é a principal responsável pela execução ou orientação dos afazeres domésticos. Para reverter esse quadro tão caro à vida das mulheres, sobretudo às mulheres pobres, é necessário identificarmos duas vias fundamentais de ação. Uma delas é o avanço da luta feminista e a


exigência que os homens também se insiram nos cuidados domésticos. A outra é a criação de medidas “paliativas” sobre a dupla jornada de trabalho das mulheres, como é, por exemplo, o acesso a creches. No espaço da universidade o reflexo dessa realidade é sentida na dificuldade de acesso e permanência das mulheres estudantes. As políticas de assistência estudantil são voltadas a garantia da permanência dos alunos como um todo nas escolas e universidades, mas, por especificidades a que as mulheres estão submetidas como as responsabilidades com os cuidados domésticos e com filhos e pelo fato de serem as mulheres maiores vítimas de violência como assaltos e estupros é necessário que avancemos na formulação de políticas de assistência estudantil específicas para as mulheres.

Entre tais políticas podemos enumerar algumas. São elas: Cheches

– As mulheres são as

principais responsáveis pelos trabalhos domésticos, em especial da educação dos filhos. Muitas trabalham. Garantir que elas possam deixar seus filhos em local apropriado enquanto estudam é fundamental.

Alojamento:

A

dificuldade de deslocamento da moradia para a universidade de meninas que moram longe do seu local de estudo incide de forma mais acentuada sobre as mulheres já que muitas

vezes o local e o horário de ida e volta da sua moradia são especificamente perigosos para elas.

Transporte

universitário:

Para garantir que as mulheres estudantes possam ir e voltar da universidade em segurança.

Há que se incluir também no bojo das discussões sobre a situação das mulheres na universidade a discussão sobre os casos de violência dentro dos campi. No dia posterior ao término do CONEG, uma mulher, estudante da UFMS, foi estuprada dentro do campus, e em muitas localidades no Brasil é comum casos de agressões e estupros às mulheres. Responsabilizar a administração da universidade pela integridade física das mulheres presentes nela é fundamental. Será somente exigindo a não-invisibilização da violência nos campus que conseguiremos mudar essa situação. A assistência estudantil específica para as mulheres ganha uma significação especial quando a entendemos não só como responsável pela permanência como pelo acesso à universidade. Quantas meninas não deixam de entrar na universidade por não terem os suportes necessários? Garantir que as mulheres possam estudar é uma luta, antes de feminista, democrática. Nossa constituição diz que o acesso a educação é um DIREITO por isso é preciso garanti-lo também para as mulheres. Não menos importante também, garantir o acesso e a permanência das mulheres à educação é fundamental para sua libertação econômica, intendência financeira, ascensão social, etc, é uma forma de lutar contra a pobreza e a violência sexista. Por outro lado, o acesso à universidade é fundamental para a transformação da produção do conhecimento acadêmico e social, tão hegemonizado pelos homens ao longo da história e ainda hoje. Numa leitura diferente ainda, podemos pensar como a permanência das mulheres na universidade é fundamental quando percebemos esse espaço como um espaço de luta política. Só será possível ganharmos (mov. Estudantil) mais meninas para a luta feminista e pela transformação do mundo se forem dadas condições de essas meninas estarem na universidade com plenitude e isso significa para muitas ter algum tipo de assistência que as permitam não só irem para a sala de aula, mas entenderem a universidade socialmente.


Sou mulher, sou mãe, sou estudante! Políticas específicas para as mães estudantes Os dados ao lado nos fazem ver o quando a luta por creches deve estar presente no nosso dia a dia enquanto mulheres do movimento estudantil. No entanto, até hoje, essa luta foi pouco desenvolvida dentro das nossas universidades. Muito em parte pelo fato de que o movimento estudantil é um espaço extremamente masculino e onde as pautas “feministas”, como a luta pelas creches, são deixadas como a última das prioridades. Por isso, a inserção e protagonismo das mulheres no movimento estudantil é tão fundamental! Sabemos da ainda presente divisão sexual do trabalho, o do fato de que o trabalho reprodutivo, como cuidar da casa e das crianças, é, dentro dessa sociedade patriarcal e capitalista, tarefa ainda somente das mulheres. A creche, funcionando, tanto no período diurno quanto no período noturno, é um espaço fundamental para que as mães estudantes possam deixar seus/suas filhos/as e garantir a permanência na universidade. Além disso, sabemos que os cursos de graduação reconhecidos historicamente enquanto cursos de cuidados, como pedagogia, psicologia, enfermagem, nutrição, fisioterapia, economia doméstica, serviço social, dentre outros, são cursos com participação marjoritariamente feminina. Cursos esses que passam, nacionalmente, por um processo claro de precarização e falta de investimento. É também garantir a qualidade da educação dessas estudantes universitárias garantir uma creche universitária enquanto campo de prática e aprendizagem para as/os estudantes desses cursos, onde poderão ser desenvolvidas atividades de ensino, pesquisa, extensão e propiciando estágios, avançando para a construção de cursos de qualidade e voltados para as necessidades sociais. Podendo estender-se para outros cursos como odontologia, música, belas-artes, desenho industrial, fonoaudiologia, letras, comunicação social, agronomia, farmácia, medicina, artes plásticas, teatro e dança.


Assim, se garante que seu/sua filho/a está num local seguro e recebendo tratamento adequado, melhorando a concentração, o empenho e diversos outros fatores que influenciam a qualidade do estudo dessa mãe. Nesse sentido é fundamental que o direito à creche seja um direito universal, que atenda a todas as mulheres que necessitem deste e que ele tenha qualidade, ou seja, se ele funcione efetivamente. Assim é importante considerarmos a discussão sobre a necessidade das creches em funcionamento também noturno, para garantir às estudantes que estudam no período noturno ou que estagiam ou trabalham nesse horário. Ao se depararem com uma situação adversa ou ao serem demitidas torna-se muitas vezes impossível para várias mulheres a continuidade dos estudos diante da necessidade de encontrar alguma forma de sustento para os filhos. Muitas meninas que engravidam passam momentos penosos, chegando até a perder cadeiras, por não saberem do direito de não assistir aula, de fazer avaliações diferenciadas, etc, sem perder a matéria pelo fato de estarem grávidas. No entanto, mais uma vez, não há, nas universidades, uma política de divulgação acerca desses direitos. Hoje 27,5% dos domicílios brasileiros tem uma mulher como a principal provedora de recursos financeiros da família. É necessário acumular sobre a discussão de

bolsas emergenciais específicas para mães e gestantes universitárias de baixa renda. Um ponto importante de discussão são as moradias universitárias. A política de moradias universitárias são, ainda hoje, pouco divulgadas para o conjunto da sociedade que presta vestibular. As vagas para meninas são geralmente em menor número que as vagas para meninos. O número de moradias exclusivas para meninas é extremamente baixo, não deixando que a mulher possa optar se quer uma moradia feminina ou mista. Além disso, um caso gravíssimo que existe em várias universidades é a expulsão de meninas grávidas de moradias universitárias. Somos contra a expulsão das meninas! Mas se por um lado a moradia universitária não é um ambiente adequado para uma criança, porque dificultar ainda mais a vida da estudante grávida? Seja a criação de moradias universitárias específicas para as mães estudantes, uma alternativa é necessária! Nas universidades pagas essa realidade é ainda mais dura. Para muitas que pagam a universidade em um momento difícil fazer a opção pelos/as filhos/as em detrimento dos estudos parece a única saída. É preciso também difundir as informações sobre o direito de licença-maternidade.

Os desafios são grandes, por isso: seguimos em luta!


Mulher e Natureza Durante toda a história da humanidade, a natureza é retratada como feminina e, geralmente, as mulheres são consideradas mais próximas da natureza do que os homens. A conexão fisiológica das mulheres com o nascimento e nutrição é responsável, em parte, por essa ligação. Partindo disso, surge na França, nos fins do século XX, uma corrente de pensamento: o ecofeminismo, que compreende as mulheres como impulsoras de uma revolução ecológica, que ocasione e desenvolva uma nova estrutura relacional de gênero entre mulheres e homens, assim como entre a humanidade e o meio ambiente. Importante dizer que antes da concepção do termo ecofeminismo, já se havia descrito na literatura feminista dos anos setenta uma conexão entre o ideário feminista e a ecologia, de onde se refletiam sociedades não opressivas para as mulheres, descentralizadas, não militarizadas e com um alto respeito pela natureza. Não existe uma definição única de ecofeminismo, mas é consenso que dominação das mulheres e a degradação da natureza estão profundamente conectadas, e os esforços ecológicos devem ser integrados à busca de superação da opressão sobre as mulheres. A sociedade patriarcal em que vivemos é baseada em alguns pilares como o sexismo, racismo, exploração de classe, especismo e destruição ambiental. As mulheres são tratadas como inferiores aos homens. A "natureza", como inferior à "cultura". E humanos/as são compreendidos como sendo separados e

frequentemente, superiores, em relação ao ambiente natural. É urgente que nós, enquanto mulheres estejamos dispostas a refletir sobre essas conexões, e analisar como elas degradam e oprimem tanto "mulheres" como "natureza". E, sob a ótica ecofeminista, não são somente as mulheres que são representadas como sendo "mais próximas da natureza"; etnias e classes sociais oprimidas também têm sido associadas junto à natureza, e, portanto, à inferioridade. Essa identificação com a terra, leva a diversas mobilizações impulsionadas por mulheres em defesa da Soberania Alimentar, da agricultura familiar, da proteção das florestas, contra os latifúndios, a monocultura, os agrotóxicos, as sementes transgênicas... Sendo assim, entendemos que a participação ativa das mulheres em um trabalho pedagógico de sensibilização é fundamental para a construção de uma sociedade mais igualitária, que supere as opressões de todo o tipo, e que respeite a mãe terra.

"Cuidado com as mulheres quando se sentem enojadas de tudo o que as rodeia e se levantam contra o mundo velho. Nesse dia nascerá o mundo novo." Louise Michel


Estima-se que cerca de 1 milhão de abortos são feitos por ano no Brasil. A questão que se levanta é como proceder diante desse realidade? Ignorá-la? Manter a legislação que pune a mulher que faz o aborto? Condenar as mulheres que recorrem ao aborto clandestino como uma solução viável diante de circunstâncias adversas? Deixar de assistir centenas de mulheres que tem complicações por realizarem abortos clandestinos? Desconsiderar a capacidade das mulheres decidirem de modo ético, sobre a interrupção da gravidez? Trazer ao mundo um novo ser deve ser fruto de um processo de escolha e cultivo de amor, desejo e carinho. Assim sendo é pouco razoável exigir que as mulheres se tornem mães apenas porque são dotadas da capacidade física de gestar; é pouco razoável que as mulheres não sejam reconhecidas como agentes morais com capacidade de decidir eticamente sobre seu corpo e sua capacidade reprodutiva. Ser mãe não é apenas algo que ocorre por 9 meses, mas algo que a acompanha por toda a vida. Por isso a decisão de ter ou não um filh@ deve ser da mulher. A luta pela defesa do Estado Laico é uma luta pela cidadania das mulheres. São as cidadãs que devem decidir se devem ou não práticar o aborto, se essa é uma prática correta ou não, se está ou não de acordo com seus valores religiosos. O Estado deve garantir que suas cidadãs possam decidir tanto por serem mães quanto por não serem e pensar a concepção, a anticoncepção e o aborto como direito de cidadania e direitos humanos, reconhecendo a democracia para as mesmas.

Manter o aborto criminalizado somente colabora para a morte de milhares de mulheres, na sua maioria negras, pobres e jovens, todos os anos. São essas mulheres que não podem pagar os altos preços cobrados pelas Clinicas Clandestinas e recorrem a outros métodos como agulhas de tricô, chás e espancamentos. Enquanto as clínicas lucram, o Estado gasta mais para reparar os danos à saúde das mulheres provocados por métodos de abortamento inseguros. Mulheres sempre abortaram e continuarão abortando. Métodos contraceptivos não são infalíveis, pessoas não são máquinas, a violência contra a mulher é enorme e a situação de submissão e desigualdade nas relações sexuais também. Legalizar o aborto significa ter uma política de saúde responsável para com as mulheres e garantir educação sexual para prevenir, contraceptivos para não abortar e aborto seguro para não morrer. Significa eliminar o lucro abusivo das clinicas clandestinas e o medo e a solidão das mulheres que abortam.


Lei Maria da Penha limites e ponderações Falar em feminismo e não falar em violência doméstica contra mulheres não tem sentido. O ambiente doméstico é onde se sente mais duramente a opressão do machismo. É nele e para ele que são criadas as nossas meninas, que aprendem desde cedo qual deve ser o seu lugar na perpetuação da ordem vigente: na cozinha. A violência doméstica contra mulheres remonta aos primórdios de nossa sociedade. Com o advento da acumulação da propriedade privada e a necessidade de sucessão hereditária da mesma, a mulher é relegada ao espaço privado, do lar, e sujeitada aos homens de sua casa, que deveriam prover o seu sustento. Mesmo com o avançar da nossa estrutura social, tal situação continua a mesma. Tal como as mulheres gregas, que sequer eram consideradas cidadãs, as mulheres atuais, em sua maioria (sim, porque a maioria das mulheres é pobre), continuam presas ao espaço do lar e sofrendo toda a sorte de violência, seja ela física, moral ou psicológica. A Lei Maria da Penha é inegavelmente um avanço. Retirou o universo feminino do seio do lar e o trouxe ao seu devido lugar: a política. A violência doméstica passou a ser discutida nas aulas universitárias, nos corredores, nos fóruns, no meio social, espaço público antes proibido a questões como estas. Porém, parte-se do princípio que a legislação penal pode impor novos comportamentos, acreditando no poder de prevenção geral e especial da pena, o qual estudos criminológicos comprovam que não tem eficácia. A lei está intimamente relacionada com a consciência de uma dominação masculina, mas procura respostas superestruturais de caráter penal, criando um novo “tipo” (crime) específico. A violência doméstica não é algo que possa ser resolvido com a mera criminalização (publicização) das condutas privadas dos indivíduos. Primeiro, porque o medo da pena não ataca o fator gerador do problema: o machismo de nossa sociedade. Segundo, porque não há ações que visem impedir a ocorrência de novos casos, protegendo ou prevenindo contra a violência. Terceiro, porque a maioria pobre das mulheres vítimas tem seu salário apenas como fonte de renda complementar da família, sendo a fonte principal o salário do marido - desta forma, tê-lo encarcerado significa uma brusca redução do orçamento doméstico, do qual dependem ela e seus filhos. Faz-se necessário, ainda, analisar que a verdadeira mudança da lei depende de outra etapa, que é a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, onde a questão seria enfocada do ponto de vista interdisciplinar, criando uma rede de proteção à mulher enfocando a saúde, o acompanhamento psicológico e orientação da vítima. Tal ação ainda não foi implementada, e não há sequer previsão de implementação. Outra dificuldade é que o número de delegacias especiais ainda é muito reduzido e não dá conta de atender a demanda, principalmente na indicação de onde conseguir ajuda psicológica e jurídica, o que prejudica ainda mais a eficácia da Lei. A Lei Maria da Penha, portanto, não é capaz de atuar na prevenção do delito, tão pouco consegue oferecer um acompanhamento de qualidade às vítimas, nem a redução do número de agressões, havendo uma incompatibilidade entre o que deseja e o que de fato é capaz de oferecer no contexto do sistema penal brasileiro. O problema não será resolvido com a criminalização dos homens (saída superestrutural), mas com uma mudança estrutural nas formas de relação social.


Façamos nós por nossas mãos! Se você se indentificou com essas pautas, modo de construção e quer se colocar em luta pela transformação das nossas universidades e sociedade como um todo, entre em contato! Pois essa construção é de todas nós! UFC – Cláudia Araújo - claudia@alu.ufc.br - 85 88200025 UFS – Ize Benevides - ize.benevides@gmail.com - (79) 91983008 (Tim) UFES – Midiã Fraga - midifraga@gmail.com - (27)98239357 UFF – Mariana Jardim – mariana.jardimreis@gmail.com PUC Campinas – Raquel Teixeira - rbt_raquel@yahoo.com.br (19) 81438477 UERJ – Carol Castro - carolinesdc@gmail.com - (21) 9569-8386 UFMS – Mayara Morello - may_mmorello@hotmail.com UFRGS –Rejane Aretz - rejanearetz@yahoo.com.br - (51) 97262086 UFPel – Sabrine Gasperin – binagasper@gmail.com

Visite o nosso blog: http://coletivolevante.wordpress.com/

@levantenacional



Tese de Mulheres do Levante - IV EME