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Somos um Movimento que se concebe no próprio movimento das idéias, na diversidade, no empoderar das vozes caladas. Somos a abertura do plural, da crítica e autocrítica, na construção de outro senso comum capaz de formular um novo projeto de sociedade. Somos e sonhamos de olhos, mentes e corações abertos, sem perder de vista o horizonte da militância diária. Somos a metamorfose honesta, construindo o concreto na dialética dos saberes, sem ceder nossos sonhos.

Somos a face sem face de um processo coletivo, que dá a cara a tapa na batalha das idéias. Somos frutos e parte de um processo histórico, um pedaço de movimento estudantil, um recorte de classes e identidades. Somos todas as cores de um novo espectro,


de outra práxis social possível que se faz no tempo presente, na luta presente, sem esquecer dos rostos e corpos mutilados, apagados da memória coletiva.

Somos tod@s honestinas

.

Honestinas pra quê? Somos o Movimento Honestinas. Uma galera que veio da Universidade de Brasília, aquela mesma Universidade de onde também veio Honestino Guimarães. Somos Honestinas. Sim, HonestinAS, com ênfase no “A” e no “S”. Somos a história que lutou bravamente e o presente que resiste e mantém acesa a chama da indignação (que brega!!!). Somos Honestinas e não abrimos mão do nosso direito de sonhar. Sonhar é abrir-se ao novo, é pensar, criar, agir e, por favor, INTER-AGIR. Honestinas são pessoas, sexodiversas, são subjetividades políticas. Que estão aí no dia-a-dia em cada palestra, em cada ato, em cada protesto, em cada texto, em

cada badalo mostrando a que veio, tomando partido. Somos instância de um agir-com-base-em-sonhos, agir esse que não deve ser descaracterizado pelos dirigismos de cima e nem pautado pela ingenuidade de que vivemos num mundo à parte. Somos prática porque fazemos o que somos/sonhamos. Honestinas é um estado de espírito de plena e incansável transformação. Somos espectro, somos o plural. Somos esquerda. Esquerda não apenas vermelha, esquerda colorida. Que fala através das artes e que, uma vez que se propõe a fazer política, se preocupa com a Estética. Porque Estética é política. Ponto final. Ora, já faz muito tempo que o velho Boal do Teatro do Oprimido alertou: se a opressão se reproduz através da Imagem, da Palavra e do Som, a proposta revolucionária de emancipação deve se apropriar dessas formas de linguagem. Por isso, somos uma nova cultura política, somos revolução estética. Somos Honestinas enquanto linguagem e por isso somos belas.

Somos belas porque belo é a consciência do

próprio corpo enquanto expressão, somos belas porque queremos ser. Quem pode dizer que não?

União Nacional dos Estudantes pra quê?


“E se não achar meu caminho, basta-me crer, buscá-lo de coração.” Honestino Guimarães

A gente chegou-chegando no espaço da União Nacional dos Estudantes não por achar que ela é essa tal entidade que tem um diálogo aberto e onde as estudantes podem, de fato, se integrar, propor e construir. Ó pai ó, é bem mais perto do contrário: a perpetuação de uma diretoria majoritária na UNE, afastada das lutas dos movimentos sociais combativos e agarrada com unhas e dentes ao projeto do Governo Federal tem se mostrado ferramenta ~das mais oportunas~ para silenciar as possibilidades da

entidade. Mas se é tudo isso mesmo, então o que é que a gente tá fazendo aqui?! Parece até de propósito (mas será possível?!) que todo esse processo é tão pouco receptivo aos vários grupos, e principalmente aos que não estão já integrados ao jeito-de-sempre. Falta clareza nas regras, falta orientação às mesas credenciadoras, mas tudo isso só é possível com base no desconhecimento generalizado dos processos que se desenvolvem antes e durante o Congresso. Fato que

se tem uma coisa que todo mundo sabe sobre a UNE é que quase ninguém sabe muita coisa: o descolamento da vida cotidiana estudantil é a (não) marca da entidade pro estudante desta geração, que se

fez à parte da sua própria União. O próprio processo de tiragem de delegados para esse CONUNE é exemplo disso: eleições esvaziadas, ínfima mobilização, completo desconhecimento sobre a instituição e sobre o Congresso pela maior parte das estudantes. Assim fica difícil... Optar por integrar a disputa de um espaço como a UNE é largar mão da ingenuidade de acreditar que todas as forças que se confrontam aqui estão dispostas ao debate de idéias e projetos políticos. A organização vertical, centralizada e SUPER burocrática, somada ao (interessado?) clima de confusão e despolitização dos espaços de deliberação ampla, que funcionam tipo “briga de torcida”, cumprem papel

estratégico na manutenção desse estado de coisas. Avessa à crítica da Universidade que os programas estatais tentam reproduzir, desinteressada sobre a possibilidade de aproximação e politização das demandas estudantis (e porque não das próprias estudantes?), a ~atual~ [risos] diretoria majoritária cumpre o papel de manter a UNE (e as estudantes...) afastada de seu potencial propositivo e crítico. Beleza, muito fácil criticar, meter o pau. Mas o que diabos as Honestinas querem com essa entidade toda cagada? O que gente quer construir na União Nacional das Estudantes? Se é tão ruim assim, por que a

gente não procura coisa mais legal (?!) pra fazer, tipo construir a ANEL? (oi?) A resposta é simples: porque não temos a menor pretensão de nos pautarmos pelo medo do impossível. Ora, se temos plena noção de que o que hoje não está massa tem sido construído por alguém, tudo pode ser re(des)construído por um outro alguém... tipo nós. Eu, vocês e todas as pessoas da sua sala. Nesse espírito, a gente quer mesmo que a UNE seja uma entidade que represente o cotidiano estudantil e que se preocupe em transformar a realidade da educação brasileira. Talvez pareça muito óbvio, mas nessas circunstâncias vale à pena a gente se perguntar: quem sabe mais sobre o cotiano das próprias estudantes, se não elas mesmas? Ninguém! Quando questionamos qual o papel dxs estudantes na atuação do Movimento Estudantil estamos compreendendo, de modo bem sincero, que somos grupos


limitados. Assim, não estamos aqui para falar no seu nome, em nome da sua realidade, mas para abrir o maior espaço possível para que todas as vozes sejam ouvidas, sobretudo as historicamente mais caladas. Se estamos aqui é por não menosprezar a História e por acreditar que a UNE pode sim voltar a representar e mobilizar realmente as estudantes, sem as amarras do dirigismo partidário, sem medo da crítica, do protagonismo estudantil, da mudança. Não estamos sozinhas, somos muitas as que não nos conformamos, as que queremos nossa voz de volta. Organizadas aqui, espalhadas pelo Brasil, inquietas dentro das salas de aula. Queremos, no reencontro de todos esses sonhos, o reencanto pela disputa no dia-a-dia.

Universidade pra quê? “As lições fundamentais do primeiro ano de vida universitária ficaram indeléveis. (...) Uma concepção nova de ensino, ainda em caráter experimental, voltado para os reais problemas de nossa terra e nosso povo, com métodos democráticos – não paternalistas e autoritários, não expositivos e magistrais. A existência já efetiva de um real diálogo entre professor e aluno, sem a distância que o sistema catedrático colocava. Depois a imagem de tudo isto calcado por uma bota militar. A demissão coletiva de quase todos os professores, a parada por vários meses e o vazio do reinício.” Honestino Guimarães “Foi num ato de defesa própria que a ditadura dispersou aquele corpo de professores irredentos. Eles acreditavam que fôssemos perigosos. Gosto de pensar que éramos mesmo.” Darcy Ribeiro

Não passamos duas horas das nossas vidas sem aprender, nem sem ensinar. Aprendemos e ensinamos com atitudes, com experiências novas, conversas, quando ouvimos gente mais velha e crianças, com viagens e pessoas que pensam diferente, quando dançamos, beijamos, quando abrimos mil abas na internet durante uma aula, e até mesmo, vejam só!, com as próprias aulas. O que estamos aprendendo e ensinando na universidade, hoje? Que o único espaço de aprendizado é uma sala de aula, onde nos enfiamos cada vez mais apertados para ouvir uma sumidade das galáxias nos repassar todo-o-conhecimento-que-existe-no-universo? Que a universidade é uma fábrica de diplomas que serve para distinguir certas pessoas socialmente, e dizer que as outras são ignorantes e por isso não devem ser ouvidas, prestigiadas nem dignamente remuneradas? Que a única forma de aprender é enfiar a cara em livros empoeirados ou se virar nos trinta pra ler artigos de periódicos estrangeiros em inglês? (E se você não teve condições de aprender inglês, sorry, isso é problema seu... Universidade é só pra gente diferenciada, e não tem culpa de você querer invadir esse espaço).

Sim, os livros têm muito a nos ensinar, e a gente também aprende em salas de aula e bibliotecas, principalmente quando há espaço e condições ambientais adequadas, que têm faltado. Para garanti-las, é


urgente a ampliação significativa dos investimentos na educação pública gratuita, e lutamos pelos 10% do PIB para a educação já! Mas não basta reivindicar mais verbas, porém, se ao mesmo tempo não lutamos

também pela democratização da universidade brasileira em sua estrutura e em seu projeto pedagógico, perspectiva de ciência, cultura e saber. Não aceitamos ser apenas another brick in the wall, outro parafuso moldado, inserido e apertado em máquinas que não escolhemos operar. Clamamos à ruptura com o projeto de mercantilização da educação e de tecnoburocratização da ciência que vem sendo implementado pelos sucessivos governos nas últimas váaaaaaarias décadas. Superamos uma ditadura escancarada, mas ainda hoje precisamos escancarar e enterrar o seu legado autoritário e fechado à participação e à emancipação social. Por isso, somos a luta de Honestino

Guimarães e suas companheiras contra um passado que ainda se faz presente por meio da indiferença da Universidade às lutas populares, da ilusão ideológica do conhecimento despolitizado, da elitização e da

repressão velada à real democracia. Somos o espírito de rebeldia criativa da juventude latino-americana. Somos o movimento universitário de Córdoba, a memória da efervescente rebelião estudantil de 1918 contra o autoritarismo e o elitismo da educação superior, em defesa da universidade pública, gratuita, laica, autônoma, popular, extensionista e comprometida com a superação das injustiças sociais. Com Córdoba e Honestino, assumimos, como movimento estudantil, a postura de sujeito produtor da universidade democrática, como parte da missão de democratizar radicalmente, junto a outros sujeitos políticos insurgentes, a sociedade brasileira e latino-americana. Cada estudante que se rebela contra a educação como processo de dominação de si e das outras

contribui para forjar não apenas uma universidade democrática e uma cultura participativa, mas também a libertação social com a qual sonhamos. Esse movimento de tomar o controle da universidade nas nossas

mãos só pode realizar-se plenamente se for feito em conjunto com servidoras/es e professoras/es, mas também com os setores subalternos da sociedade, hoje invisibilizados e dominados. Só assim pode ser parte da construção de uma universidade comprometida com as lutas por um Brasil que pare de queimar índias, negras, trabalhadoras, homossexuais como combustível de seu “progresso”. Para além de espasmos de solidariedade a outros movimentos, convocamos todo o movimento estudantil a questionar(-se): a Universidade tem tomado o genocídios dos povos indígenas e da juventude negra, por exemplo, como problemas centrais de sua pauta cotidiana de ensino-pesquisa-extensão, ou tem se omitido? Como os currículos dos nossos diversos cursos contemplam essa questão? Produzimos conhecimento sistematicamente com esses grupos, como estudantes, ou estamos enclausurados na bolha de elitismo, colonização e segregação espacial, epistemológica, cultural e política da universidade? A gente quer um movimento estudantil que volte a ser subversivo e transformador não apenas na rua e no palanque, mas na própria práxis cotidiana de estudantes. Para isso, o nosso grande norte (ou sul...) é a extensão, sob a perspectiva da educação popular e da co-pesquisa com comunidades e movimentos sociais. Extensão não é assistencialismo, nem é mera difusão de conhecimentos produzidos na universidade; é servir à integração dos grupos sociais marginalizados à produção de certos conhecimentos e à formação de profissionais realizadxs na universidade. As cotas para negros/as, indígenas, estudantes de baixa renda e provenientes de escolas públicas foram um avanço importante, conquistado pela luta dos setores oprimidos. Porém, não basta garantir sua


presença de maneira compensatória, marginal ao projeto de universidade. É preciso ampliar os canais para a sua presença como produtores de conhecimento nas universidades brasileiras. Queremos uma Universidade-Laboratório: de novas práticas e mentalidades políticas, pedagógicas, artísticas e científicas, da educação que queremos, da sociedade com que sonhamos. Uma Universidade em que a arte, a literatura, a cor, a diversidade, a rebeldia tenham espaço – quando a criatividade seja objetivo pedagógico, e não rejeitos de uma pedagogia morta. Esse era o sonho de Honestino Guimarães. Tentaram destruí-lo debaixo de botinas e tanques. Tentaram e tentaram, de novo e de novo, mas não conseguiram, porque "Podem nos prender, podem nos matar, Mas um dia voltaremos, e seremos milhões" Honestino Guimarães

O sonho vive, e o Movimento Honestinas convida você a não deixar o sonho morrer. A sonhar junto com a gente o sonho ousado de uma universidade que faça todas e todos também poderem sonhar. De uma univer(cidade) cooperativa, solidária, popular, que ecoe os sonhos da sociedade, em especial das exploradas e oprimidas do nosso povo. Não quero mais saber da universidade que não é libertação!

Universidade pra quem? A história da Educação é uma história de privilégio. Se a gente pensar bem, a exclusão é um processo decisivo pra quem tem acesso à Universidade, porque faz com que o conhecimento científico, acadêmico, se torne cada vez mais legítimo ( já que é tão difícil ter acesso ao *processo mágico* de construção desse saber-verdade). As conseqüências disso são aquelas ideias socialmente difundidas que beneficiam sempre mais as elites: só elas podem “ produzir verdade”, porque só elas tem representação na academia. A Educação é, então, um direito que foi negado ao povo, historicamente, para manter o controle

de uma parte da população sobre a produção de ~conhecimento legítimo~. Hoje a gente vê que as classes sociais que são maioria na população são, ao contrário, minoria na Universidade. Se só as “elites educadas” podem ocupar os principais cargos da condução política do país, que exigem diploma ou prestígio, a formulação de políticas está concentrada nas mãos de uma parte (uma pequena parte!) da população. E time que tá ganhando não se mexe! É assim que essa minoria privilegiada, na forma de Estado, segue administrando pela manutenção da estrutura social – e contra a democratização da universidade e o time de quem tá perdendo. Reproduza essa lógica muitas vezes e

tcharam! aqui estamos no Brasil de 2013, onde a educação continua sendo privilégio, e privilégio de classe. Só que educação deveria ser direito de todxs, certo? Por isso o Movimento Honestinas acredita que a


expansão universitária (e uma política de assistência estudantil condizente) é fun-da-men-tal para a

democratização da universidade, da educação, da ciência e do Brasil! Mas como essa expansão tem sido conduzida hoje, por um governo que administra a Educação segundo seu projeto de aliança de classes? Pra começar, como falar em democratização de cima pra baixo, sem debate e sem possibilidade de questionamento ou proposição? Como combater a desigualdade defendendo uma Educação diferente, sem acesso pleno à pesquisa, extensão, organização política, vivência etc., pra população que sempre foi excluída? Pois é: é esse “meio-acesso” que as políticas do REUNI e PROUNI ~proporcionam~, já que a gente pode ver a diferença entre a vida universitária de quem é pobre e de quem é de classe média. Essa diferença é estimulada pelo governo quando as/os estudantes não podem acumular bolsas de caráter sócio-econômico com bolsas acadêmicas de pesquisa e extensão; a gente vê o

descaso com os RU’s e Casas do Estudante, e sabemos quem precisa mais deles; é questionável ainda que muitas das universidades privadas não cumpram os parâmetros educacionais nacionalmente estabelecidos, prejudicando a formação da/o estudante do PROUNI. Defendemos 2 bilhões para o PNAES já! Mas por tudo isso, defendemos com mais gravidade a revisão dessas tais políticas de ~democratização~ da Universidade brasileira, que na verdade representam uma expansão conservadora que não é (não mesmo!) a revolução educacional com que as Honestinas sonham. Porque essa “nova” forma de enxergar a educação, como serviço, só faz criar aquela visão assistencialista e limitada das políticas de acesso e permanência... Ao governo, quando conveniente, cabe

dar uma ajudinha (oi?) pra quem “não pode”? A gente acredita que o papel do governo não é ajudar-porajudar algumas das exceções que superam o acesso excludente e entram na Universidade: é, mais do que isso, se comprometer a transformar toda essa estrutura social de desigualdade. Pra isso, a gente tem que se posicionar contra o tal do conservadorismo que se expressa hoje avesso às cotas, idealizando a meritocracia, põe a segurança do patrimônio em primeiro lugar e a extensão popular em último. O conservadorismo só pode ser receptivo à assistência estudantil como caridade: ele treme diante possibilidade de democratização da Universidade (e da sociedade!), na recusa em abrir mão de privilégios políticos, econômicos e culturais. Contrárias/os a esse projeto de manutenção, a gente do Honestinas compreende a democratização da universidade como parte de um projeto popular beeeeem mais amplo de sociedade. E esse projeto nega a meritocracia como forma de legitimar essas estruturas históricas de privilégio da elite sobre a educação. Porque nesse contexto, o discurso da meritocracia serve pra que a gente pense que a superação individual é a superação das limitações da sociedade. Mas a gente não se ilude com essa: queremos uma Universidade democrática e democratizante! O Movimento Honestinas luta sim pela assistência que viabilize as políticas afirmativas de acesso e combata a evasão; acreditamos sim na assistência que promova excelência acadêmica, pelo fim do “meio acesso” segregador e pela garantia da formação plena para todas as universitárias e universitários. Mas temos que pensar que, mais que isso, a democratização não é só garantia de acesso que beneficie o individuo em situação de vulnerabilidade: é parte do nosso projeto revolucionar a composição social da universidade, pra que ela seja democrática e popular. Deve ser parte do nosso projeto enquanto movimento estudantil de esquerda revolucionar o conhecimento e a educação, pra que deixem de ser produzidos com parâmetros elitistas e colonizados. Precisamos da sociedade brasileira na universidade e vice-versa, pra que a sociedade brasileira, inteira, pense os problemas do Brasil. Mas cadê o povo brasileiro


no meu campus, pensando os seus próprios problemas, não só recebendo, mas criando conhecimento critico? “Precisamos permitir que todas possam se identificar com a Universidade de Brasília e, mais, fazê-la, sê-la, existir nela.” [Programa do Movimento Honestinas, 2012]

Para além da lógica excludente de segregação segundo a classe sócio-econômica, a assistência estudantil deve ser referenciada como parte da política universal que é (ou deveria ser) a Educação no

Brasil. Fato que a igualdade deve ser promovida pelo combate às desigualdades, e as/os estudantes em vulnerabilidade social devem ter direito a políticas específicas que garantam sua permanência e vivência plena na Universidade. Mas o principio de Universidade Pública deve ser pensado assim como o da Saúde

Pública: não podem ser algumas/alguns que pagam por ela, enquanto outras/os são subsidiadas/os pelo Estado. O conservadorismo vive aterrorizado com a possibilidade de mudança, mas se a política é pública e universal, ninguém deve pagar por ela! Para isso, precisamos garantir que a taxação (que deve ser feita

sobre renda e patrimônio, não sobre o uso do serviço, orientada pela isonomia) consiga prover os recursos necessários e justos para a Educação. Desse jeito, defendemos a universalidade por princípio e por resultados. Isso porque sonhamos com uma Universidade onde todxs estudantes possam fazer extensão, mesmo que a família (e a $ajuda$ da família) seja contrária a ~essa perda de tempo~; onde nenhum/a estudante deixe de fazer pesquisa de gênero por sofrer ainda mais uma pressão (financeira, no caso) pra não sair do armário; onde nenhum/a caloura/o, de classe média ou não, precise ser já enquadrada/o pela lógica de mercado, condicionando sua formação por influência das demandas das empresas. A autonomia

da Universidade e da produção acadêmica depende, ainda que indiretamente, do financiamento dxs estudantes. Além disso, separar as/os estudantes entre “ric@s” e “pobres” pode funcionar pra agravar ainda mais a disparidade. É claro que a consideração dessa diferença se mostra necessária na busca da isonomia de fato; mas é também verdade que os e as estudantes beneficiárias dos programas da assistência

estudantil são várias vezes guetificadas pela sua ~condição especial~ (ainda mais nas universidades mais elitizadas!), de um jeito que as suas movimentações são invisibilizadas por uma pulverização mesmo da organização estudantil. As bolsas atrasam, as casas do estudante estão caindo aos pedaços, a vida das pessoas é afetada por todo tipo de problema da concentração burocrática, e a maioria das estudantes nem faz idéia do que seja isso... Aí fica difícil ampliar a solidariedade na luta e pressionar reitorias e governos se a maior parte das/os estudantes não é afetada pela ineficácia dos programas de assistência. É´ como chegar num hospital do SUS e a equipe decidir se vai cobrar ou não sua consulta ou exame com base na sua renda, ao invés de fazer essa diferenciação direto nos impostos: dá pra imaginar como todo mundo seria atendido igualzinho, né? Sóquenão, isso já acontece nas clínicas particulares e a gente não quer pras nossas universidades! Educação é política pública U-NI-VER-SAL! Também por isso, assistência para todxs! Então o Movimento Honestinas não cede seus sonhos: assistência estudantil para todxs estudantes! Essa é uma luta que vemos lá no horizonte porque, mesmo que distante das nossas possibilidades atuais de transformação da educação universitária, esse é um avanço muito importante pra consolidação da


Universidade que a gente quer. No momento certo, a universalização do acesso e da assistência estudantil vai aparecer como uma reivindicação central pra esquerda. Porque o sonho é isso mesmo, é tipo o sol lá no horizonte que não deixa a gente esquecer o caminho certo, mesmo enquanto a gente vai construindo a luta no pequenininho, em cada meta, cada transformação, a cada passo da estrada. Enquanto Movimento Estudantil, nossos sonhos são luta nas reivindicações que apresentamos. Mas o tamanho dos nossos sonhos não cabe hoje nesse papel: vemos no horizonte uma Universidade Universal, onde o vestibular e a tal vulnerabilidade econômica são só uma lembrança da época em que a Educação era um privilégio. Sem ceder nossos sonhos, gira o mundo, Honestinas! “É fundamental ter em mente, ainda, que as desigualdades econômicas não são os únicos empecilhos ao aproveitamento da universidade de modo pleno e em igualdade de condições. Os dados têm mostrado que, muitas vezes, as razões para a evasão e para as dificuldades acadêmicas têm razões psíquicas, relacionadas, por exemplo, ao enfrentamento de preconceitos, à falta de auto-estima e de interesse por parte das/dos estudantes. Essas razões psíquicas são condicionadas por processos sociais e pela estrutura pedagógica da universidade: por um lado, as opressões geradas pelo racismo, machismo, homofobia e preconceito social e regional impedem que a/o estudante sinta-se à vontade e confiante no ambiente universitário; por outro lado, a pouca abertura de professoras/es e da estrutura de poder da universidade à participação estudantil cria currículos e aulas desconectados dos interesses e anseios da maioria das/dos estudantes. As políticas pedagógica e de combate às opressões deste programa, assim, também devem ser entendidas como partes integradas às políticas de acesso e permanência.” [Programa do Movimento Honestinas, 2012]

Universidade de quem? Opressão é um termo transmórfico. Ora é ação, ora é ausência. Ora é substantivo, ora é adjetivo; mas nada impede que seja, também, advérbio. Opressão pode ser sufoco, sufoco que transborda em choro – angústias sem nome, mas tão compartilhadas nos espaços de exclusão. Opressão é a dialética dos semelhantes desconsiderados como tal; é fetiche: instrumento de coisificação do outro e de nós. Oprimidas somos todas que dançamos no tombadilho, sob o tinir dos ferros e estalar do açoite, legião de seres esquecidos pela noite, (con)fundidos em um só. Somos as negras mulheres madrugantes no transporte público a buscar o leite de todo dia. Somos as magras crianças, cujas bocas pretas racham o sofrimento da fome. Somos as moças nuas, violentadas e espantadas no turbilhão indigesto de um espectro monstruoso: machismo. Somos o amor preso nos elos de uma só cadeia, multidão faminta que, mesmo contra a ventania, não-cambaleia, na luta por um horizonte- horizontal. Somos a cara-a-tapa no combate de todo dia, o delírio consciente, corações sem raiva; somos o recrudescimento da coragem. Somos o branco que emerge tão puro sobre o mar; somos o olhar que ao fitar o céu que se desdobra, desmanda o capitão que manobra – somos a flor a quebrantar o rijo chicote do marinheiro. Oprimir é ignorar o locus de cada ser; é condensar a trama social em um bloco assimétrico de fios feito fôssemos linhas pré-dispostas à redução da forma. Oprimir é hierarquizar o gênero, a sexualidade, os caminhos. É fantasiar os trejeitos e futuros e aplicá-los indistintamente, reproduzi-los (in)conscientemente.


Nós, Honestinas, por isso, recusamos a inércia do silêncio que perpetua a opressão; assumimos o papel da luta e da voz; transcendemos ao outro: ocupamos a pele que é sua, dele, dela, nossa. Somos, assim, também oprimidas; somos, assim, a recusa definitiva do opressor que reside (e resiste) em todas nós. Somos presente e memória num desenho livre da dogmática das cores, dos símbolos desbotados, da moral contraditória e discriminatória. Somos a identidade que desbrava a margem, sob o Sol dos Trópicos a colorir a pele já colorida pela melanina da diferença. Acreditamos e defendemos que ser livre repousa justamente na inquieta (e genial) maneira de ser o que se é (e o que se quer) e poder, embora a sobra ou falta de arestas, ser visto por ângulos convertidos em uma só forma geométrica: a da pessoa humana. Entre a vigília e o son(h)o, a luta.

A opressão está presente em todos os âmbitos da vida social (da nossa vida!). Ela é presente e contundente, antes, durante e depois da Universidade. A exclusão aos espaços de poder e produção de conhecimento é auto-reprodutora, à medida que torna mais legítima a voz daquelas em posição dominante

dentro da sociedade. Este processo é História no Brasil, especialmente sob a perspectiva das classes sociais. Mas alguns grupos de pessoas (porque isso é problema sociológico, não do indivíduo) estão naturalizados no imaginário geral como pertencendo a ~posições inferiores~, retraídas ou marginalizadas, também conforme a cor da pele, o gênero, a sexualidade, as condições físicas, enfim, conforme os padrões de opressão arraigados na sociedade brasileira. Muitas vezes as opressões são pensadas como uma coisa da esfera do outro, do ultrapassado, do absurdo, que só existe na forma de agressão física, ou como subproduto umas das outras, ou sob perspectiva individualizante de meritocracia (como se a superação individual fosse a superação das limitações e privilégios estruturantes da sociedade).

“Mas pera aí, a Universidade tem aquelas tais de cotas raciais, num é? Então qual foi desse papo? E aliás, a capacidade no vestibular depende da cor da pele?” É claro que os indivíduos não se diferenciam naturalmente conforme sua ascendência étnica! Mas existe um processo social e cultural de inferiorização e periferização de negras e índias, por padrões históricos cujas estruturas, em grande parte, se mantiveram. Esta opressão está presente na manutenção, pela mídia, de padrões de beleza europeizados; tá nas piadas de bar; está no mito da hipersexualização aplicado à mulher não-branca, resquício da cultura de estupro que deu origem à ~famigerada~ miscigenação brasileira; está no tratamento diferente que as negras, pardas e indígenas recebem independentemente de suas classes sociais (não que justificasse...); está na concessão de privilégios às pessoas brancas; está na estrutura histórica que mantém as negras e as indígenas com níveis mais baixos de renda e escolaridade e com menor grau de contato e socialização com o que se tem como cultura brasileira “oficial”. Por isso, as cotas raciais devem ser defendidas e garantidas, e não dissolvidas em meio outros tipos de políticas afirmativas! É necessário que se informe o que elas são, como funcionam, qual seu motivo de implementação, o que se pretende combater e o porquê. Que elas sejam mantidas não “só” por reparação histórica, mas por excelência acadêmica; pelo protagonismo na pesquisa de suas próprias condições, por

perspectivas de diferentes socializações, para impedir a colonização da intelectualidade. É necessário, ainda, que o mecanismo de efetivação desta política de acesso sejam definidos em articulação com os Movimentos Negros.


“Ok, pode ser, mas a Universidade tá cheia de mulher e de homossexual, certo?” Certo, e ainda bem, graças a muita, muita luta! Mas ela não para por aí, na “mera” presença destas pessoas em ambiente universitário e em espaços de poder. Na medida em que o (antes) invisível assume a coragem de ser o que é, e esse processo de auto-reconhecimento se torna disponível ao olhar externo, há uma ruptura com os paradigmas tradicionais e aflora a necessidade do diálogo, respeito e alteridade entre os grupos que convivem e dividem o mesmo espaço. Uma sociedade patriarcal, enraizada de machismo e de homofobia, não só dificulta a saída do armário, como também retarda (e impede) a livre construção e exercício da identidade e individualidade de cada um/a.

O direito de ser quem somos é bloqueado pela violência que se personifica no olhar de repúdio; na determinação de papéis sociais que orienta até mesmo nossas escolhas profissionais; na mão que roxeia o corpo; na recusa diária que gera evasão e prejudica o rendimento e o empoderamento; no assédio,

potencializado pela hierarquia limitadora da Universidade; na linguagem que agride em apelidos e nomes insossos; no “estupro corretivo”; na diminuição, caricaturização e rejeição da transsexualidade; na falta de estrutura que culpabiliza as mães em vez de promover sua autonomia; na proibição de usufruir os espaços de maneira plena. Por tudo isso, a gente tem é que abandonar o mito da igualdade formal e assumir a (des)igualdade substantiva como ponto de partida para a construção de uma sociedade mais justa, escancaradamente colorida e horizontal. Queremos garantir a utilização de nome social por estudantes, servidorxs e professorxs transexuais e a continuidade e expansão dos serviços que hoje são prestados pelos HU’s à comunidade LGBTTT, especialmente em vista da atuação da EBSESRH; criar creches para alunas, professoras e servidoras (e para alunos, professores e servidores, certo?!); criar órgãos, internos e externos à Universidade, para recebimento de denúncias e acompanhamento de casos de violência; e remodelar os trotes, combatendo o trote homofóbico, machista e racista, a fim de que o trote possa ser um instrumento inicial de modificação do olhar do calouro e de inclusão. Existem outras opressões, tão naturalizadas e invisibilizadas que não costumam ser sequer problematizadas, são secundarizadas e vistas como alguma forma de caridade. “ Como é que é? Deficientes? Já não é o bastante colocarem vaga de trânsito pra eles?” Não! Pessoas com deficiência são todas aquelas que tenham adquirido, ao longo da vida ou desde a concepção, alguma característica, física ou cognitiva, às quais a estrutura de nossa sociedade, de forma geral, ainda é deficiente em adaptações. Pessoas que, durante a vida, passam por processos de inferiorização e desincentivo à participação de ambientes públicos, e, por isso, são esquecidas pelos interesses públicos, e é naturalizado o seu nãopertencimento a eles. “Necessidades especiais”, todas nós temos. Mas, para algumas adaptações, a sociedade “não está preparada”. Será mesmo? Mais do que adaptar a deficiente à sociedade, é preciso adaptar a sociedade à deficiente; afinal, essas adaptações só são necessárias porque os processos e espaços não são pensados por deficientes, nem para deficientes. É necessário então que se incentive (possibilitar já é um começo, né, reitorias?) a participação e vivência destas pessoas tanto nos meios estudantis quanto profissionais, culturais, artísticos e esportivos para não limitar sua vida em sociedade, sua autonomia e suas particularidades.

Queremos garantidas condições (ao menos) igualitárias de ingresso na Universidade, com apoio institucional específico, com tecnologias assistivas, acessibilidade física e cognitiva, orientação a


funcionárias e contratação de intérpretes. Somos pelo direito a uma escolaridade não padronizada, nas várias possibilidades modelos de ensino; pela opção entre escolas mistas ou de atendimento exclusivo a pessoas com necessidades especiais; e pelo direito de todas brasileiras de aprenderem suas duas línguas oficiais: português e LIBRAS; e pela cidadania plena das pessoas com todos os diferentes tipos de deficiência! As instituições de ensino, embora ambiente de sujeitos cognoscentes, têm vestido faz tempo os farrapos calados de mera reprodução das estruturas dominantes e conservadoras da sociedade. Os conflitos e as diferenças são relegados a pinturas nos corredores cobertas por cartazes quaisquer. Vigora a política da mídia; o debate só se introduz depois do consumo do trágico: quantas outras alunas terão de ser agredidas no estacionamento para que se combata a lesbofobia? Quantxs travestis terão de ser assassinadxs para que se encare o pré-conceito? Qual o abismo de desrespeito e violência que nos deixaremos cair? É nesse contexto que a gente visualiza a necessidade de adotar uma postura preventiva e combativa. É preciso promover o acesso à informação, a divulgação de meios e instituições que atuam

tanto na repressão quanto na reparação nesses processos de exclusão; dialogar com a sociedade civil e acadêmica com muito ato e muita intervenção, eventos culturais, palestras e oficinas; criar órgãos internos, formados por discentes, docentes, servidorxs e movimentos sociais, responsáveis por receber denúncias, desenvolver políticas de inclusão dentro e fora da Universidade, para acompanhamento, inclusive psicológico, de casos de violência; desconstruir o uso da linguagem heteronormativa por meio da utilização da linguagem inclusiva nos “atos escritos” da Universidade. A gente precisa de esforço ativo pela abertura da sociedade atual, em seus mais diversos âmbitos, para a discussão das opressões, assim como são necessárias políticas públicas e leis que garantam direitos iguais e também direitos reparatórios àquelxs que estejam em situação de exclusão e opressão social!

Morte e Vida Honestina O meu nome é Honestino, não tenho outro de pia.

Como há muitas Honestinas, na luta de todo dia,

deram então de me chamar Movimento Honestinas.

Como há muitos Honestinos com sonhos e utopias,

fiquei sendo o da ousadia por uma nova maioria.

Mas isso ainda diz pouco:


há muitos na travessia,

por causa de um coronel chamado hierarquia

e que foi o mais antigo senhor desta reitoria.

Somos muitas Honestinas iguais em tudo e na sina: a de não se conformar

com o poder que vem de cima, a de tentar despertar a UnB da apatia,

a de querer colorir

de arco iris onde há cinza. Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir

a história de minha vida, passo a ser o Honestino

que em vossa presença cria.

Chega mais! =)

facebook.com/movimentohonestinas honestinas.com


Manifesto Honestinas ao CONUNE 2013