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Aconteceu em Paris


Mauren R. M. Wetzstein Pelo Espírito André

Aconteceu em Paris 1ª edição Romance Mediúnico Casa Editora O Clarim Matão-SP 2010


1ª edição 10.000 exemplares

Junho/2010

Capa: Rogério Mota Planejamento gráfico: Equipe “O Clarim”

Casa Editora O Clarim (Propriedade do Centro Espírita O Clarim). Fone: (0xx16) 3382-1066 – Fax: (0xx16) 3382-1647 C.G.C. 52313780/0001-23 – Inscr. Est. 441002767116 Rua Rui Barbosa, 1070 – Cx. Postal, 09 CEP 15990-903 – Matão, SP http://www.oclarim.com.br oclarim@oclarim.com.br


Aconteceu em Paris

Dados para catalogação na editora 133.91 Mauren R. M. Wetzstein (médium psicógrafo) André (espírito) Aconteceu em Paris 1ª edição: junho/2010 – 10.000 exemplares Matão/SP: Casa Editora “O Clarim” 256 páginas – 14 x 21 cm

ISBN – 978-85-7357-097-7 CDD – 133.9 Índice para catálogo sistemático: 133.9 133.901 133.91 133.92 133.93

Espiritismo Filosofia e Teoria Mediunidade Fenômenos Físicos Fenômenos Psíquicos Impresso no Brasil Presita en Brazilo


Índice Primeira Parte Capítulo 1 – O Acidente..................................................................13 Capítulo 2 – O Jantar.......................................................................21 Capítulo 3 – A Culpa........................................................................25 Capítulo 4 – O Encontro Espiritual...............................................30 Capítulo 5 – O Débito Contraído..................................................36 Capítulo 6 – A Consagração no Teatro.........................................46 Capítulo 7 – O Oficial......................................................................54 Capítulo 8 – A Vingança de Madame Maisson............................64 Capítulo 9 – O Brutal Desenlace....................................................73 Capítulo 10 – O Funeral..................................................................83 Capítulo 11 – A Residência de Sofia..............................................95 Segunda Parte Capítulo 1 – O Retorno de André................................................101 Capítulo 2 – Surge a Verdade........................................................106 Capítulo 3 – O Baile.......................................................................117 Capítulo 4 – A Felicidade de André e Luísa...............................124 Terceira Parte Capítulo 1 – André e Luísa em Paris...........................................135 Capítulo 2 – A Agitação Social.....................................................140


Capítulo 3 – Os Panfletos..............................................................149 Capítulo 4 – O Sonho com Padre Carlos....................................156 Capítulo 5 – O Vulto......................................................................160 Capítulo 6 – A Hóspede Querida.................................................165 Capítulo 7 – Trocando Confidências...........................................171 Capítulo 8 – O Início da Tarefa....................................................175 Capítulo 9 – As Dificuldades........................................................180 Capítulo 10 – A Chegada de Sofia................................................185 Capítulo 11 – Conhecimentos de Magnetismo..........................192 Capítulo 12 – A Invasão................................................................196 Capítulo 13 – O Teatro..................................................................207 Capítulo 14 – Os Fantasmas.........................................................214 Capítulo 15 – O Destino de Jacques............................................220 Capítulo 16 – O Reencontro . ......................................................226 Capítulo 17 – Reencontros Espirituais........................................238 Última Parte Capítulo 1 – Nos Planos Espirituais............................................247 Capítulo 2 – Epílogo......................................................................252


Primeira Parte Paris, Segunda metade do sĂŠculo XVIII


Aconteceu em Paris

Capítulo 1

O Acidente Paris despertava, naquela manhã, acariciada pela presença benfazeja dos raios solares que tornavam a paisagem alegre e iluminada. Pessoas circulavam nas ruas, a maioria apressadamente, dirigindo-se para o trabalho. Paris palpitava vida! A elegante habitação de Irene de Soissons, localizada em privilegiada área de Paris, recebia o abraço caloroso do grande astro, em sua fachada que dava para a rua. Iniciara cedo a movimentação dos empregados na residência de Irene. A cantora desdobrava-se nos preparativos para o jantar em que compareceria naquela noite, na casa dos Vilemont. À tarde, com mil e uma preocupações a envolvendo, Irene, agitada, lembrou-se do filho e foi encontrá-lo na sala onde se entretinha com seus brinquedos. Nervosa, Irene falou para o filho: – André! Resolvi levar-te junto no jantar na casa dos Vilemont. É bom que comeces a conviver com pessoas influentes e a te comportares como elas. Quero que te portes como um homenzinho hoje à noite. Já escolhi a roupa que haverás de vestir hoje. Está sobre a tua cama. – Tenho que ir, minha mãe? Essas festas estendem-se até tarde. É muito cansativo. – Já está determinado, André. Vou cantar e serei homenageada com faustoso jantar. Quero que te acostumes. Tens que pensar grande, meu filho. Preocupa-me esta tua simplicidade. Não és mais um menino da aldeia. Estás em Paris! Vais me 13


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acompanhar, sim! Chama Rosália e lhe dize que eu a mandei ajudar-te a se banhar. Perfuma-te e, depois que te vestires, desce para a sala e fica quietinho. Não quero que amarrotes tua roupa. Tens que estar belo hoje à noite! André deixou sua mãe envolvida com as preocupações da festa e procurou a empregada, transmitindo-lhe a ordem de sua genitora. Rosália acompanhou o menino até o quarto e foi preparar-lhe o banho. Quando tudo estava pronto, mergulhou o menino na água e brincou: – Prepara-te, que vou te esfregar até tirar toda a sujeira. Tua mãe te quer limpo e perfumado na noite de hoje. Não podes fazer feio. André achou graça e falou: – Por favor, minha boa Rosália! Deixa-me brincar um pouco. Gosto de água. Prometo-te que vou ficar bonito e cheiroso como minha mãe quer. – Menino safado! Depois tua mãe descobre que te deixei brincar, e vou ter que responder pela minha desobediência. – Ah! Rosália! Minha mãe está tão ocupada com a festa de hoje à noite que nem vai perceber. Faz um mês que ela só se preocupa com essa festa. Escolhe joias, compra vestidos, cuida da voz para que, no dia, esteja bem afinada... Só fala nessa homenagem. Deixa-me brincar, Rosália, por favor! — implorou o menino. – Está bem! – concordou a serviçal. – Sempre me prometo que não cederei mais aos teus desejos, menino... Mas, esta tua cara de anjo, misturada com esse jeito peralta, sempre me convence. Sou uma tola! – Obrigado, Rosália! Quando eu crescer, nunca te esquecerei. Dar-te-ei, de presente, uma casa bem grande! – Sim – riu-se a empregada. – Haverei de ficar esperando os meus presentes. Mas não prometas mais nada. Estás comprometendo todos os haveres que herdarás de tua mãe, quando fores 14


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moço, com presentes para mim. Olha lá! E não respingues água no chão, senão, da próxima vez, não cederei mais aos teus caprichos. Rosália encostou a porta e se dirigiu para o corredor, sorrindo. Gostava daquele menino. De uma esperteza que ele só! Inteligente, vivo, contagiava a casa com suas garridices. Rosália trabalhava havia pouco tempo com mademoiselle Irene, desde que esta adquirira a bela casa e “adotara” o pequeno André na aldeia de “C”..., trazendo-o para Paris. Irene não revelara a ninguém a verdade, ou seja, que Andrezinho era seu filho legítimo, que o entregara aos cuidados de uma camponesa chamada Maria, na aldeia de “C”..., logo que nascera. Mas, com a morte de Maria, o menino ficara desamparado, e a Providência Divina reconduzira a criança de volta ao seio de Irene, sua mãe legítima, pois o pequeno André tinha ligações profundas, de existências pretéritas, com Irene. A vida reunira-os novamente, a fim de caminharem juntos. Quando Irene dera à luz ao pequeno André, em localidade afastada de Paris, não assumira a criança que vinha justamente para despertá-la para os compromissos perante a vida. Irene providenciou a entrega da criança para a camponesa Maria, mulher digna e respeitável, juntamente com algumas joias de elevado valor que garantiriam o sustento de André nos primeiros anos de vida. Naquela época, Irene começava a galgar os primeiros degraus da fama e do sucesso. Sua voz afinada e sonora começava a ganhar destaque em Paris. Não jogaria o sucesso fora, depois de tantas lágrimas e humilhações que já suportara na vida, por causa de um filho que inibiria seus sonhos de crescimento e vitória. “A sociedade é desumana. Não perdoa os nossos erros. Pisoteia os fracos e combalidos e reverencia os poderosos”, pensava Irene. Também ela se tornaria idolatrada por essa sociedade que, intimamente, desprezava. Beijar-lhe-iam os pés e se curvariam à sua passagem. 15


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Mas a vida surpreende muitas vezes... O destino trouxe-lhe o filho de volta aos braços, para que assumisse seus deveres de mãe. Irene comprou a casa onde se instalou com o filho, ao trazê-lo para Paris. Contratou três empregados que a serviam e ajudavam a cuidar da criança. A adaptação à nova vida vinha sendo difícil. Justamente naquela época, a cantora atingia o reconhecimento e a fama tão sonhados. Multiplicavam-se os convites para festas e jantares. Diziam os convites: “Sentir-nos-emos honrados com a vossa presença em nossa casa. Não haveremos de aceitar escusa. E, para abrilhantar o nosso aconchegante jantar, aguardaremos a demonstração de vosso talento, de vossa voz aveludada, que é motivo de orgulho para todos nós.” Irene continuava cantando no salão de madame Maison onde iniciara a sua carreira, embora com os seus horários reduzidos e o salário aumentado, o que vinha criando um mal-estar a cada dia maior com sua patroa que odiava as exigências de Irene, mas também não podia dispensar seus serviços, pois, desde sua chegada ao salão, como cantora, a clientela fora melhorando. Ao invés de simples pessoas do povo, o salão era agora frequentado por oficiais e fidalgos da corte. As rendas aumentavam e madame enriquecia com a jovem artista, embora, intimamente, não se simpatizasse com ela. Era necessário disfarçar a antipatia e ir cedendo às exigências de Irene que sabia explorar muito bem o seu talento e cativar. ***** Irene não conseguia disfarçar o entusiasmo pela festa no palacete dos Vilemont. Seria, enfim, reconhecida publicamente em Paris. Naquele exato momento, estava a cantora se preparando com esmero diante de seu toucador. Uma serviçal a ajudava a se vestir 16


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e a se pentear. Comprara uma dúzia de vestidos, e ainda não se decidira qual usar. Queria estar radiante para desfrutar o coroamento de seu esforço. Tudo estava encaminhado para a grande festa. O espartilho cuidadosamente ajustado para realçar-lhe o corpo esbelto; a pele tratada com redobrados cuidados para se apresentar fresca e jovial no grande dia; o cabelo sedoso preso no alto da cabeça, destacando-lhe o rosto formoso; a armação do vestido estendida sobre o leito; no toucador, o bracelete e a gargantilha de esmeraldas, encomendados ao ourives mais famoso de Paris; as finas luvas brancas dobradas, cuidadosamente, na gaveta. tudo estava pronto! Não!... Faltava escolher o vestido! A grande hora já soava, mas Irene ainda não decidira qual vestido usar. Talvez o vestido azul que lhe ressaltaria as curvas esguias do corpo... ou, então, o vestido verde que contrastava com a sua pele acetinada, dando um efeito especial... – Oh! Dúvida cruel! Deveria escolher o mais belo e que lhe realçasse a formosura singular. Irene provou os vestidos uma dezena de vezes, pedindo a opinião de sua serviçal, deixando a humilde moça mais confusa a cada nova troca de vestido. Quando Irene se deu conta, já estava atrasada, e o filho batia-lhe à porta do quarto, lembrando-lhe o horário. Irene, nervosa, gritou com o menino e o colocou para correr. O menino voltou assustado para a sala. Irene decidiu-se, enfim, pelo vestido verde. Não havia mais tempo a perder. Contara cada minuto que faltava para aquela festa e não queria chegar atrasada. Irene terminou de se aprontar e correu para a sala espaçosa onde o pequeno André a aguardava. O cocheiro já estava a postos, aguardando-os na carruagem. Ao se instalar na carruagem com o filho, Irene ordenou a José, o cocheiro, que partisse, imediatamente, e que impusesse mais velocidade aos cavalos, pois tencionava recuperar o atraso, durante 17


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o trajeto até a casa dos Vilemont, que ficava mais afastada da cidade, situada em extenso sítio, repleto de arvoredos e rodeado de longos muros que defendiam a sólida mansão. José conduzia a carruagem em velocidade acima do normal, obedecendo às ordens de sua patroa. Estava frio, e Irene ajeitou, cuidadosamente, a capa sobre as costas, sentindo o coração baterlhe em ritmo acelerado, no peito, enquanto recomendava ao filho que se comportasse bem e desse mostras de refinamento e educação. Andrezinho que, contrariado, acompanhava a mãe àquela festa, procurava anotar mentalmente os conselhos. Tudo transcorria bem, quando o inusitado aconteceu. A carruagem foi freada bruscamente, jogando Irene e o garoto para a frente. Irritada com o susto, Irene colocou a cabeça para fora da janelinha da carruagem e gritou inconformada. José, com as pernas amolecidas e tremendo muito, dirigiu-se até Irene e falou aflito: – Mademoiselle, pois não vedes que não tive culpa? Verificai vós mesma. Um menino atravessou correndo na frente da carruagem. Procurei frear os cavalos, imediatamente, mas o choque foi inevitável. O menino está agonizando. Olhai quanto sangue verte ele, mademoiselle! Antes que Irene conseguisse entender claramente o que estava acontecendo, ainda não totalmente refeita do susto, já o pequeno André abria a portinhola e, num salto rápido, abandonava a carruagem, partindo em socorro do menino agonizante, estendido no chão duro e frio, junto à roda da carruagem. Irene colocou o pé no estribo e, levantando as amplas saias do vestido, desceu da carruagem. A jovem cantora não esperava defrontar-se com o quadro doloroso que se desenhava à sua frente. Pálida e tremente, desferiu 18


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um grito e se sentiu paralisada, como se houvesse perdido o comando de seus movimentos. Tal estado de pânico apoderou-se-lhe das forças que sentiu que cairia, se o cocheiro, com o braço firme, não a tivesse sustentado. O menino, jogado ao chão, estertorava. Estremeções sacudiamlhe o corpo, enquanto que o sangue jorrava-lhe, com abundância, da cabeça. – Coragem, mademoiselle!– dizia-lhe o cocheiro que tremia tanto quanto a cantora. – Quem está pior aqui é o menino. Precisamos socorrê-lo o mais depressa possível. Ainda há sinais de vida! – Não! – gritou Irene, cujo eco soou na noite silenciosa, iluminada pela luz mortiça do luar. – Não! Vamos sair o mais depressa daqui! O menino já está quase morto mesmo! Tenho medo deste lugar sinistro... Estão nos esperando, na casa dos Vilemont... Estamos atrasados! – Minha mãe, não façais isso, pelo amor de Deus! – gemeu André, desesperado. – O menino não está morto. Precisamos salvá-lo! José, imediatamente, agachou-se diante do menino atropelado e já o recolhia nos braços, ajudado por Andrezinho, quando Irene, histérica, gritou novamente: – Eu já disse que não! Estamos atrasados! Não ousem desobedecer às minhas ordens! Entra na carruagem, André, e tu, José, retoma o teu lugar e segue viagem! – esbravejava Irene, com olhar alucinado. – André, nervoso, enfrentou a mãe e, desobedecendo-a, tentava, ele mesmo, arrastar o menino para a carruagem. Irene, transtornada, agarrou o filho pela casaca e, tomada de uma força incomum, pegou-o ao colo e, de um só golpe, jogou o filho para dentro da carruagem, ordenando ao cocheiro que tocasse a carruagem para a casa dos Vilemont. 19


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Andrezinho, como um animal acuado, encolheu-se no banco, soluçando e gemendo baixinho, enquanto que Irene, nervosa, tentava se recompor, ajeitando o vestido e o cabelo. Um clima de nervosismo envolvia os três personagens daquele drama lamentável que acabara de ocorrer, e a carruagem, em marcha acelerada, deixava para trás um corpinho de criança agonizante qual pobre pássaro ferido que estremece desgovernado, diante dos minutos fatais...

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Aconteceu em Paris  

Esta obra ambientada em Paris, século XVIII, trata de assuntos como magnetismo, culpa, solidão, preconceitos, etc.. Com uma abordagem envolv...

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