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OcicerO de volta Às esquinas!

Edição zero julho 2013 R$ 2


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editorial

Ode ao centro Na virada para o século XX, São Paulo tinha ali seus 230 mil habitantes e um centro histórico em expansão, os bondes, a iluminação elétrica, o gás, os reservatórios d’água, uma modernização que foi esticando aquele triângulo sobre o vale do Anhangabaú até a Várzea do Carmo e teve como talvez o principal símbolo o Viaduto do Chá, inaugurado em novembro de 1882 e que para muitos alargou um centro velho, para outros tantos criou um centro novo ao alcançar um conjunto de casas no então Largo dos Curros, hoje Praça da República. A Calçada da Lorena, caminho entre a capital e o litoral paulista, deu lugar à estrada de ferro São Paulo Railway, e, num perímetro urbano que mal chegava ao rio Tietê, tinham ali

umas vilas isoladas, como Pinheiros e Cerqueira César, e a Avenida Paulista, larga que só ela e casa dos barões do café, e a Estação da Luz, imponente, e pouco adiante o gigantesco Theatro Municipal, e mais à frente o Palácio das Indústrias, e aquele crescimento todo fez o prefeito Washington Luiz, mandatário de 1914 a 1917, cravar que a cidade hoje é alguma coisa como Chicago e Manchester, detalhe: juntas. E neste século deu tempo do centro de São Paulo ser o melhor lugar do mundo, depois ser vendido como o pior, e agora esboçar uma reação tardia, mas ainda em tempo, que ao menos o recoloque no mapa. Em resumo, vamos dizer que a coisa começou a desandar quando novas zonas financei-

ras e comerciais passaram a surgir nos anos 1970 – além da migração do Palácio dos Bandeirantes pro Morumbi, um lugar que leva nada ao lugar nenhum – e o centro foi virando assunto ligado à decadência, perigo e sujeira. Ele acena pra uma suposta retomada, diga-se. Pegamos como exemplo a Praça Roosevelt, que viu bares receberem Johnny Alf e Elis Regina, depois sucumbiu ao abandono a partir dos anos 1980, virou casa dos teatros marginais – o próprio Satyros, ao chegar ao local em 2000, admitia que a região era sinônimo de violência e escuridão – e agora, desde a reinauguração em 2012, se tornou ponto de reunião política, manifestação de grupo social e tem como principal problema, veja só, que diferença, tem como principal problema a reclamação dos chatos egoístas quanto ao barulho dos skatistas, ó, que coisa, e já tem o Satyros de saída porque a valori-

zação imobiliária de cidades deste porte é mais rápida que tudo. As pessoas têm descoberto essa maravilhosa bagunça que passa por Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação, Liberdade, República, Sé e Santa Cecília. Das ocupações espontâneas de iniciativas culturais como o Baixo Centro até a tomada das ruas protagonizada pelo Movimento Passe Livre e que conseguiu encher as vias e revogar um aumento na tarifa do transporte público – quem imaginava, aliás, que 45 anos depois teríamos uma nova Batalha da Maria Antônia, esta entre jovens e a polícia, em 13 de junho último? Pois é, as ruas estão vivas, as ruas do centro estão vivas. Repletas de pessoas discutindo sobre uma saída para a problemática questão dos viciados em crack, ou por onde podem passar novos corredores de ônibus, ou o que fazer com o Minhocão. Gente que vive e que curte o centro, de

verdade. E é por aí que se idealizou OcícerO – homenagem que remete ao nome de um artista plástico, ator, repentista e poeta acreano -, numa das tantas noites em que engavetamos ideias na São Luiz: precisamos falar do centro, ressaltar o centro, valorizar o centro, fazer deste momento de nossas vidas uma declaração ao simples prazer de se viver num pedaço de nossa história. A partir daí falamos da atual situação dos cinemas de porta na rua, dos clubes de futebol já extintos, do atendimento nas lanchonetes e restaurantes, da arquitetura dos arranha-céus, da viagem daqueles que se deslocam até aqui todo dia ou de tempo em tempo, dos botecos que já foram, da boemia que vem agora, dos personagens, praças, viadutos. Um ode ao nosso centro, incrível e pulsante, pronto pra te convencer que é, porque não, o que de melhor se tem por aí. Ou melhor, por aqui.

Minhocão, sobe ou desce? O Elevado Presidente Costa e Silva foi construído em 1970, ao comando do então prefeito Paulo Maluf, com o fim de desobstruir o trânsito entre a Região Central e a Zona Oeste da capital. Considerado por urbanistas e críticos como “uma aberração arquitetônca”, foi o grande responsável pela trágica desvalorização do bairro de Santa Cecília - hoje em recuperação de prestígio - devido ao barulho, poluição e becos escuros herdados pela abrupta chegada da obra viária. Ela permanece viva aos habitantes de suas margens, sobretudo para a ex-charmosa Rua Amaral Gurgel, a grande afetada pela invasiva construção. Já no mandato de Luiza Erundinda, em 1989, ganhou horário de descanso, entre 21h30 e 6h30, além de domingos e feriados, servindo hoje como rara opção de lazer e passeio gratuito para quem mora pelas redondezas.

sobe

Concordo que esta obra seja “a grande pica que o Maluf deixou”. Dentre as inúmeras cagadas que o energúmeno construiu para congestionar São Paulo de automóveis, o Minhocão é sem dúvidas sua maior idiotice. Hoje, porém, devido ao mágico poder de transformação que nossa cidade possui, ele ganhou um status de parque linear que não pode ser ignorado. Sou contra a demolição e explico o porquê. Toda noite eu corro ou ando de bike por lá - e não sou só eu, mas muita gente - e aos domingos chego até a fazer piquenique com a minha namorada. O bom daqui é que as pessoas têm liberdade. O pipoqueiro vende sua pipoca para as crianças sem nenhum fiscal enchendo o saco vendo se o pipoqueiro usa luvas, casais andam de mãos dadas sem ter

que olhar pra faixa de pedestres, molecada jogando bola, rapaziada fumando maconha. Tem de tudo, mas ninguém briga, não tem assalto, treta, estupro. Eu acho que se fizessem igual fizeram em Nova York com o High Line, São Paulo ganharia mais um espaço de convívio social legítimo. O problema é só que tudo que vem pra melhorar é sempre cercado de balela. Aí um banco vem e coloca o nome na ciclovia, proibindo gente sem camisa e sem capacete, uma seguradora vem e patrocina o gramado proibindo o skate, criança correndo e por aí vai. Mas isso é outra história, não é? O lance é que quem mora na Amaral Gurgel já se acostumou com a rotina. O Minhocão é parte da cidade e não tem como negar. Nos resta aproveitá-lo. Arnaldo Lucrécia, ator de filmes adultos e morador das margens do Minhocão

desce

Por mim, já deveriam ter demolido essa joça faz tempo. Moro aqui desde 1965 e posso falar: isso aí foi coisa do diabo. Quando eu era pequena, a gente brincava na rua sem barulho e sem cheiro de escapamento. Hoje, se eu estou cozinhando, tenho de ouvir buzina de carro no meu ouvido a tarde inteira. Um dia, meu filho disse que a salada estava com gosto de fumaça. Em dias de chuva, isso aqui fica com cheiro de galinha morta. Grande bosta que essa joça pare de madrugada. E quem trabalha em casa durante o dia? E quem mora no segundo andar, que nem eu? Ninguém mais respeita uma dona de casa, essa é a verdade. Novela, aqui? Novela é um sonho. Quando eu quero assistir a das seis, tenho que ir na casa da Teroca, ali na Alameda Barros, porque aqui

novela das seis é motor de Chevrolet. Olha, eu te digo, só não saio daqui proque não tenho dinheiro. Por causa dessa desgraçada dessa ponte, meu apartamento só desvalorizou e hoje se eu vender só consigo comprar uma casa na periferia e olhe lá. E meu marido é um banana, adora esse lugar. Ele é engenheiro, o safado. O Damião acha que me engana, ele gosta mesmo é dos botecos aqui de baixo da Amaral Gurgel, cheios daquelas piranhas. Tem até traveco, imagina? Ai se eu descobrir que o Damião sai com traveco! Eu capo aquele filho da puta... (há uma pausa, dona Cintia exalta-se. Toma uma água e retoma) Ele é tão imbecil esse Damião, que se fosse um engenheiro porreta mesmo jogava dinamite nessa desgraça dessa ponte. Cintia de Paiva Bortolotto, dona de casa e moradora das margens do Minhocão


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São Paulo à mesa

A trajetória do centro pela ótica de sua gastronomia. por denise godinho No final da segunda metade do século XIX, São Paulo já não era mais uma cidade onde “a vida é de um bocejar infinito”, como Álvares de Azevedo cansou de se lamentar. “Aqui o céu tem névoas, a terra não tem verdura e as tardes não têm perfume” – ele desabafou –, “as calçadas do inferno são mil vezes melhores”, descreveu em sua peça de teatro Macário, em 1850. Em dois anos o escritor morreria, mas deixaria registrado para a posteridade que a única coisa boa desta cidade era o café. Mal sabia ele que este ingrediente - sim, o café, Álvares seria o responsável por alavancar um rápido progresso na Paulicéia das duas décadas seguintes. A historiadora Rosa Belluzzo, escritora do livro “São Paulo, memória e sabor” e ganhadora do prêmio Jabuti de melhor livro de gastronomia em 2011 por “Machado de Assis: relíquias culinárias” considera que o motivo inicial para intensificar o aumento de restaurantes na cidade foi o café. “São Paulo começou a se dedicar à gastronomia com a história da bebida, os primeiros italianos chegaram aqui no final do século XIX e foram trabalhar nas lavouras de café. Em troca trouxeram para cá a sua cozinha”. Além disso, o conceito de urbe evoluída que Paris espalhava pelo mundo fez com que outros países começassem a seguir o seu modelo. “À medida que a cidade se desenvolvia, também procurou se assimilar as principais ci-

dades europeias. Novos espaços como cafés e restaurantes surgiram, nos moldes do que muitos membros da elite paulista viam em suas viagens ao exterior. Foi quando o consumo de café deixou de ser apenas um costume caseiro, para ir a espaços mais refinados”, explica o jornalista e pesquisador Douglas Nascimento que se dedica a estudar a São Paulo de antigamente através do seu site “São Paulo Antiga”. São Paulo do café Em 1877 corria pela boca pequena que havia um projeto de viaduto que ligaria o centro da cidade ao próspero planalto central atrás do Morro do Chá, o qual daria nome à construção. Assim, os paulistanos finalmente não precisariam mais atravessar o Vale do Anhangabaú e encarar uma íngreme e cansativa subida para chegar ao outro lado. Mas por que deram a esta construção o nome de Viaduto do Chá? – se perguntavam. O jornalista Pau-

lo Cursino de Moura refletiu sobre este questionamento no seu livro “São Paulo de Outrora”, lançado em 1940: “Seria mais natural que se chamasse viaduto do café. Das duas bebidas de infusão é esta e não aquela que floresce nas nossas lavouras em bagas rubras que são d’oiro em quilates e quilates de riqueza”. Foi no mesmo ano da construção do Viaduto do Chá, a apenas dois quilômetros de distância, na Rua da Imperatriz, que o clássico italiano Café Girondino abriu as portas. Nas suas impecáveis mesas de mármore com tampos de ferro, o músico Paraguassú – conhecido como o “cantor das noites enluaradas” – bebeu o café com leite com broa de milho. “Talvez o mais comum mesmo para acompanhar o café, na época, fosse a broa de milho com erva doce. É citada por vários autores e memorialistas paulistanos como parte integrante do bate papo com café”, discorre o jornalista Douglas Nascimento. A localização do Girondino não poderia ser melhor, já que a Faculdade de Direito do Largo

São Francisco estava a apenas algumas ruas dali. Além disso, o ponto do bondinho de burro e, logo em seguida, o bondinho elétrico, ficava bem em frente ao estabelecimento. De dia, era possível se encontrar com os futuros advogados que se misturavam com os mais variados tipos de picaretas. De fato assim narrou o jornalista Afonso Schmidt em 1906 no seu livro “Bom tempo”: “O maior número de valdevinos nem sempre tinham casa ou qualquer cubículo para morar, ninguém sabia como passavam a noite. Mas, de dia, era de certo encontrá-los no Girondino”. Já corria o ano de 1888 quando a Princesa Isabel assinou a abolição da escravatura e, graças a esse acontecimento, era previsto que em no máximo um ano finalmente seria proclamada a república. Dito e feito. O escritor português Eça de Queiróz lamentou o ocorrido em carta para o seu personagem fictício Fradique Mendes: “A América do Sul ficará toda coberta com os cacos de um grande império”. Ora, agora que éramos uma

República, era natural que a Rua da Imperatriz mudasse de nome. E desde então o Café Girondino passou a ser encontrado na Rua XV de Novembro. Ainda em 1919, o Café Girondino fechou as portas. A ocasião deu o que falar nos jornais que anunciaram com pesar o leilão de todos os móveis do estabelecimento: “Importante leilão do conhecido Café Girondino, sito ao largo da Sé, na rua XV de Novembro. A saber: mesas com mármore, cadeiras austríacas, espelhos, quadros, relógios de paredes, louças, copos, vasilhames e encanamentos de chumbo e ferro”. E assim, de repente, foi espalhado pelas casas da Paulicéia pedaços do grande café símbolo da Belle Époque da cidade. São Paulo dos secos e molhados No ano anterior à proclamação da república, um conterrâneo de Eça de Queiroz abria as portas da Mercearia Godinho na Praça da Sé. Dizem que foi José Maria Godinho quem ensinou os paulistanos a degustar um bom bacalhau. Com a premissa de tocar a melhor casa de secos e molhados da cidade, o português montou um estabelecimento referência para comprar bacalhau, azeitonas, figos, castanhas, ameixas secas, queijos e vinhos. Numa época onde os prédios tinham no máximo quatro andares, pode se imaginar o rebuliço da grande cidade quando, em meados da década de 1920, foi inaugurado o primeiro arranha-céu de São Paulo. O Edifício Sampaio Moreira tinha 50 metros de alturas divididos em 12 andares em plena Rua Líbero Badaró, coração do centro paulistano. Era evidente que se José Maria Godinho queria alavancar os seus negócios, deveria mudar-se para um lugar que co-

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meçava a se tornar um grande pólo comercial. Naquele mesmo ano se instalou no piso térreo do ostentoso prédio. Mas, como o português não deixou herdeiros, com o passar do tempo a mercearia passou para mãos de outros proprietários, os também portugueses Luís Gonçalves da Costa e Casemiro Soares Leite. Outros sócios cuidaram do estabelecimento até que, em 1994, passou para as mãos do empresário Miguel Romano. “Na época da inauguração, a casa era frequentada pela classe média, classe alta e os imigrantes que vinham buscar os produtos das suas terras. Hoje está mais diversificado, temos um público mais misto, uns que frequentam há mais tempo, outros que vêm de bairros vizinhos. Páscoa e Natal é sinônimo de casa cheia”, diz o engenheiro químico com especialização na área de radiofármacos. Ele costumava frequentar a mercearia ainda desde muito jovem, se arriscou na área do comércio em meados dos anos 1980 quando abriu uma lotérica e depois um restaurante no centro e agarrou a oportunidade de virar sócio da Casa Godinho quando esta se apresentou. Com o tempo, comprou a parte dos outros sócios e se tornou o único proprietário da mercearia, mas sempre mantendo a mesma tradição - e também nome - do velho Godinho. São Paulo das lanchonetes A São Paulo dos anos 1920 era moderna, interessante e nada devia para outras cidades do mundo com verdadeiros conceitos de urbe como Paris. Em 1922 o poeta Mário de Andrade lançou o conjunto de poemas “Paulicéia Desvairada” e abriu a Semana da Arte Moderna. Assim ele descreveu a cidade daquele tempo: “Rápidas as ruas se desenrolando, rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos... E o largo coro de ouro das sacas de café! (...) Oh! este orgulho máximo de ser paulistanamente!”. No meio desta efervescência cultural, nascia em um prédio de três andares, no Largo do Paissandu, uma lanchonete que faria história. “Era um bar onde as pessoas se reuniam para conversar, beber e comer alguns petiscos. Quando foi inaugurado, em março de 1922, o local não tinha nome, mas devido às luxuosas instalações (as paredes eram revestidas de azulejos franceses, o balcão era de mármore italiano e os lustres também eram importados da Europa), passou a ser conhecido como um ‘lugar chic’ pelos boêmios da época, até ser batizado de Ponto Chic pelos próprios frequentadores”, narra Angelo Iacocca, jornalista e escritor do livro “Ponto Chic - Um bar na história de SP”.

Refinado, mas popular; chique, mas sem perder o carisma - uma tarde no Café Girondino remete ao clássico com espaço pra cotovelos no balcão

Mário de Andrade e Oswald de Andrade sentaram diversas vezes nas mesas do Ponto Chic para comer um mexido e planejar suas revoluções artísticas. “Além dos petiscos tradicionais da maioria dos bares da época, como as porções de batatas fritas e de queijos, ideais para acompanhar o chope ou cerveja, no Ponto Chic já fazia sucesso o famoso mexido, uma fritada que, além de ovos, leva presunto e uma mistura de queijos”, descreve Iacocca. Foi neste estabelecimento que o então estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Casimiro Pinto Neto, imortalizaria o mais tradicional lanche brasileiro. Em 1934, o jovem que nasceu na cidade de Bauru deixou de lado as manifestações políticas contra o governo de Getúlio Vargas, entrou no bar e ditou ao garçom uma nova receita: pão francês sem miolo, rosbife, rodelas de tomate e de pepino, manteiga bem gelada e uma mistura fundida de queijo prato, suíco e gouda. A receita foi um sucesso e os amigos começaram a pedir o “lanche do Bauru”. Nascia desta forma o famoso lanche bauru. “Ele logo se tornaria o lanche mais pedido e depois também surgiu o rococó, uma variação do bauru onde a mistura de três queijos foi substituída por uma pasta de gorgonzola com aliche. Essas iguarias agradam até hoje”, enfatiza o escritor. São Paulo de agora Ali na Rua Boa Vista, a poucos metros da XV de Novembro, o Café Girondino reabriu suas portas. Apesar de manter a clássica arquitetura de outrora, nada ali dentro é genuinamente de sua época. Os únicos vestígios de sua

importante existência no início do século 20 são os quadros na parede com imagens do verdadeiro estabelecimento em seu tempo e o tradicional nhoque feito com mesma receita de outrora. O mesmo não aconteceu com a Mercearia Godinho. O estabelecimento se manteve firme contra lojas modernas e gastronomias contemporâneas ao seu redor. Está até hoje na Rua Libero Badaró, protagonista e testemunha de muitas histórias importantes da velha São Paulo. O jornalista Fernando Morais conta um caso curioso envolvendo o estabelecimento Godinho e Assis Chateaubriand em seu livro “Chatô, o Rei do Brasil”. O empresário enviou o repórter Rubem Braga para fazer uma crônica sobre a Mercearia Godinho. O que o escritor não sabia é que a matéria tinha sido arranjada para pagar uma dívida de Chatô com os donos da loja de especiarias. O empresário encostou um caminhão do jornal na porta, mandou encher com garrafas do melhor champanhe e foi embora sem pagar. Esta é uma das tantas histórias que fazem da Mercearia Godinho um marco. No início deste ano, o atendimento da mercearia se tornou o primeiro bem imaterial tombado pelo município. “Acho que essa é a essência da casa. Nós tivemos cuidado de manter o contato do vendedor com o cliente, algo que esteve presente desde a inauguração da loja. A gente precisou modernizar algumas coisas, mas nós mantemos a listinha de comanda no papel para ser colocado no computador apenas no caixa, na hora de pagar”, conta orgulhoso Miguel

Romano. Em 2000 o empresário colocou à venda no balcão as famosas empadinhas de massa podre. Sucesso absoluto desde então, a casa se mantém sempre cheia daqueles que buscam provar a iguaria. “As pessoas comiam e divulgavam no boca a boca. Mas, quando fomos eleitos a melhor empada da cidade, o movimento aumentou muito. Mesmo assim, não perdemos a essência inicial da mercearia, pois ainda vendemos o bom e velho bacalhau, carro chefe desde a sua abertura”. Já no caso do Ponto Chic, a lanchonete cresceu e alcançou outros espaços além do Largo do Paissandu. Isso graças à decadência do centro acentuada a partir da década de 1970. “Com a decadência, mudou o perfil dos frequentadores da maioria dos estabelecimentos. Muitos bares e restaurantes migraram para novos endereços, acompanhando a fuga das grandes empresas para outros pontos da cidade”, explica o escritor Angelo Iacocca. Agora a Ponto Chic possui quatro lojas, uma no bairro do Paraíso, outra em Perdizes, outra na cidade de Ribeirão Preto e a tradicional do centro. “O Ponto Chic ainda resiste no Largo do Paissandu, principalmente por uma questão de tradição e para preservar um pouco da memória paulistana”, completa o autor. Memória afetiva Na virada do século XX, o centro de São Paulo mesclava nuances de sua trajetória através de seus prédios. As clássicas fachadas de art nouveau se misturavam com construções modernas e espelhadas. Já não havia mais o trilho e

muito menos o bondinho. Carros de última geração zuniam pelas ruas, desatentos à história ao ar livre que os passadios apresentavam numa linha do tempo interessante e curiosa estampada nas suas esquinas. O café já não era mais café. Agora era café com baunilha, café com cem grãos, café com chocolate e outras mil invenções. O cheiro de cachorro quente do carrinho da praça se misturava com os aromas resistentes ao tempo, mantendo a clássica cozinha paulista íntegra. Era o cheiro do nhoque do Girondino, do bauru do Ponto Chic, do bacalhau da Mercearia Godinho. As três casas estão ali para contar a quem quiser um trecho da história de São Paulo. “Nos anos 1920, São Paulo era uma cidade provinciana, e o Ponto Chic era um gueto, um ponto de encontro onde quase todos se conheciam ou eram amigos. Hoje, isso seria praticamente impossível”, reflete Iacocca. O vai e vem desenfreado da movimentada cidade não nos permite mais sentar em um balcão de mármore e contar sobre os causos da vida enquanto tomamos um café com broa de milho. Não há mais revoluções nas ruas para que impulsionem a criação de um novo lanche e nem há mais dificuldades territoriais que impeçam os imigrantes de acharem seus ingredientes num lugar além de uma mercearia específica do centro. Mas estes marcos históricos estão lá, resistentes a este tempo moderno onde não há preocupação com a memória afetiva. “Se você não olhar pra trás, fica difícil entender o futuro. A memória é fundamental para continuidade”, finaliza Miguel Romano.


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é proibido vaiar

De Charles Miller ao profissionalismo, vida, obra e morte do futebol no centro de São Paulo. por paulo silva junior A linda moça agoniza diante dos lances viris e torce fervorosamente as luvas no estádio do Velódromo, palco da primeira decisão de Campeonato Paulista de futebol e que foi marcada para 26 de outubro de 1902, quando o São Paulo Athletic Club venceu o Paulistano por dois a um, ambos os gols de Charles Miller, principal personagem, artilheiro e árbitro do torneio. Mas nem o esforço para ser campeão estadual batendo um time de brasileiros – imagine um atacante de nome Blacklock, que só posso ver como um ligeiro ponta insinuante, partindo pra cima de Guilherme Rubião, alcunha de zagueiro-zagueiro, óbvio – foi o suficiente para tornar os ingleses conhecidos o bastante pelas ruas. Em junho do ano seguinte, quando um meio-campista do SPAC passava pela Praça do Rosário, atual Antônio Prado, rumo ao mesmo campo em que havia levantado o caneco um ano antes, um policial não o deixou nem chegar ao Viaduto do Chá, muito menos ao palco que virou Praça Roosevelt; andando já com o fardamento do jogo, o britânico foi detido por circu-

lar com trajes carnavalescos, não apropriados, fora de época, com a ofensiva ousadia de deixar as pernas à mostra em pleno centro de São Paulo. Atrasado, o médio foi procurado por dirigentes não só do SPAC, mas também do rival daquela quarta-feira Paulistano, e acabou encontrado na delegacia central, atrás das grades, de botas amarradas para o prélio, aliás. Aí sim se fez valer da fama: liberem o nosso centre-half, o match já está atrasado! O Paulistano venceu a revanche, diante dum meia preso por meia-hora, por dois a zero. Tommaso Bezzi nasceu em Turim pra se tornar o engenheiro e arquiteto ítalo-brasileiro responsável por projetar o Museu do Ipiranga e também dar uns tapas na Praça da República. Mas numa noite como tantas outras – vinho e divagações sobre a sociedade moderna com o alto escalão da política nacional – ele acabou convidado pela família Prado pra ser o homem por trás do Velódromo que iria beirar a Consolação: ideia de Antonio Prado, conselheiro que viraria nome de praça já citada, do filho dele, Antonio Prado Junior, que acabara de vol-

tar de Paris, e de Dona Veridiana, mãe de Antonio, avó de Junior e dona da grana. Foi ela, empolgada com os passeios de bicicleta nos finas de tarde do Campos Elísios (e você aí pedindo ciclovias pela cidade, ora!), que bancou a construção de uma pista de corrida pra duas rodas. Mas relembremos a noite de sexta-feira, 30 de novembro de 1900. Realiza-se hoje, às 7 horas da tarde, no salão da Rotisserie Sportsman, uma reunião de distintos moços de nossa sociedade, com o fim de tratar da fundação de um Club Athletico, escreveu o Correio Paulistano, nome homônimo do time que nasceria dali a pouco, na Rua São Bento, número 59, horas depois da meningite matar Oscar Wilde. E onde se juntam o Velódromo, mais importante praça de esportes da capital naquela virada para o século XX, e o Paulistano? É que entre as cabeças do clube que representaria a elite do esporte na cidade estava exatamente Antonio Prado Junior. E não demorou muito pra ele pedir um favor à vovó: empresta a pista de ciclismo pra gente fazer um cam-

po de futebol? Assim o Veloce Club Olimpic Paulista, situado entre as ruas Olinda e Martinho Prado, foi alugado por 250 mil réis por mês pra ser o ground do novo clube, mas acabou sendo palco do tricampeonato do grande adversário, o time dos ingleses do SPAC, vitoriosos nas ligas disputadas em 1902-03-04. “Vocês ficariam espantados ao saber como o football é popular por aqui”, o Charles Miller escreveu, à Inglaterra, em 1904, enquanto uma placa no Velódromo dizia que é proibido vaiar e as moças seguiam torcendo, torcendo as luvas, nervosas. Exatamente o Velódromo, enquanto principal estádio da cidade de São Paulo, é que acabou há exatos cem anos sendo o protagonista de uma ruptura e é essa história, passada em 13 de abril de 1913, que começou a mudar a cara do futebol local. Que fez do centro uma memória fúnebre pré-profissionalismo. Divisão do futebol paulistano Cinco clubes fundaram e participaram do primeiro Campeona-

to Paulista em 1902 sendo que o primeiro a ser criado oficialmente foi o São Paulo Athletic Club, o SPAC, de base inglesa, que saiu ao meio-dia numa boa mesa de bar na Rua São Bento onde engenheiros da São Paulo Railway enchiam a cara de gin tonic e decidiam que precisavam de clube para sair jogando críquete e matando a saudade da ilha. Ao mesmo tempo, naquele 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinava a lei Áurea num feriado declarado por Dom Pedro II. Mas e o começo do SPAC? Uma bola pesada rolando pra lá e pra cá na Chácara Dulley, no Bom Retiro, onde hoje estão Oficina Cultural Oswald de Andrade e Colégio Santa Inês. O maior nome foi, é e sempre será ele, Charles William Miller, o homem por trás da praça em frente ao estádio municipal e que vale um par de parágrafos mais a frente. Depois vem o Mackenzie, em 1898, e eu fico imaginando uns estudantes de moletom azul-marinho com aquele baita eme vermelho bordado com capricho pelas mais caprichosas costureiras do lado de cá do


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Anhangabaú loucos pra jogar bola, e é isso, é por isso que é considerado o primeiro time criado para jogadores essencialmente brasileiros, no caso alunos da escola que até hoje está ali, naquele pedaço de começo de Consolação pra quem sobe pros Jardins desde sempre. Teve entre os fundadores aquele rapaz que virou sinônimo de jogador leal e é até nome de prêmio pra defensor que não comete faltas, Belford Duarte, maranhense, que depois viria a fundar o querido América do Rio de Janeiro. Em 1899, dois clubes surgiram num espaço de vinte dias: em 19 de agosto, na casa de Leopoldo Vila Real, Rua Senador Queiroz, 5, esquina com Augusta de Queiroz, vem o Internacional, fruto de uma união de europeus e que logo assume a Chácara Dulley deixada pelo Paulistano. Mas Hans Nobiling, um alemão de Hamburgo, não gostou nada daquilo. Na votação pelo nome do time, ele escolheu Germânia, até teve um ou outro parceiro na empreitada – afinal, já era dono de um time amador apelidado de Hans Nobiling Team, ou vamos jogar contra o time do Hans -, mas viu o Internacional vencer. Não faz mal, pensou, e já marcou uma reunião pra 7 de setembro, Rua da Mooca, 115, casa de Rudolf Wahnschaff, para agora sim sair o clube genuinamente alemão, Sport Club Germânia, prazer, também tenho um time, bravou, escalado como titular para o primeiro jogo do campeonato inaugural, uma derrota por dois a um para o Mackenzie. O quinto e último fundador do Paulistão é o Paulistano, cuja história já foi narrada e voltará à tona quando o ano for 1925 e o lugar, a Europa. Enfim, voltemos a 13 de abril de 1913, a história da divisão do futebol paulista, um campeonato que começou com oito times, sendo um deles o Americano, fundado em Santos dez anos antes, debutante em 1907 e campeão paulista de 1912 após uma decisão polêmica: contratou dois uruguaios, isso mesmo, con-tra-tou dois jogadores, os irmãos Antonio e Juan Bertone, que bons que eram comandaram o time até um título invicto e uma movimentação de bastidores. Aquilo configurava, oras, o primeiro passo da profissionalização do futebol, ainda que jogadores não eram considerados assim oficialmente. Apesar disso ter sido um fator importante para o início da decadência, ou melhor, decadência nem tanto, indaga o leitor mais crítico, escolha, vai, escolha do futebol do centro sem ambição de se tornar profissional e que vai aos poucos deixando as cabeças, enfim, apesar disso tudo, o que moveu a divisão do campeonato, a fundação da Associação Paulis-

acervo c.a. paulistano

Atenção a mais um ataque do Paulistano, na Europa, em 1925, quando os brasileiros viraram ‘reis do futebol’

ta de Esportes Atléticos, a Apea, e a consequente briga de cachorro grande pelo protagonismo no esporte local foi: uma briga simbólica por um mando de campo controverso. Domingo de sol na Pauliceia, 13 de abril de 1913, e o Paulistano esperava atuar em casa, no Velódromo, com o combinado de receber 200 mil réis por aluguel pago pela liga para cada jogo disputado no estádio; já o Germânia ofereceu o Parque Antártica pelos mesmos 200 mil réis, mas por mês, o que agradou a liga, nem boba nem nada. Na hora marcada para Paulistano x Americano, cada time no gramado de cada campo e nada de jogo, num W.O. que a liga decidiu por vitória do time dos uruguaios, que levou os pontos e revoltou o Paulistano. O tradicional clube então fundou uma liga paralela, elitista, longe dos times populares, e usou do prestígio para trazer a companhia de Mackenzie e AA das Palmeiras. Achamos muito justos que os operários, os humildes, participem das refregas, mas os operários e os humildes que compreendam os seus deveres de sportsman, colocou o cronista do Estadão Antonio Figueiredo, se referindo a Ypiranga, que entrara na disputa em 1910, e Corinthians, em 1913. No campeonato da Apea, dos ricos, e do presidente Antonio Prado Junior, o neto da Veridiana e amante das bicicletas, deu Paulistano; na corrida dos pobres rumo à taça, o Americano remou sozinho e bateu Ypiranga, Corinthians, Internacional e Germânia – a partida decisiva foi no Parque Antártica, claro. O campeonato da elite durou quatro temporadas e sempre contou com os membros fundadores Paulistano e Mackenzie, ambos, inclusive, faziam o gran-

de dérbi do centro de São Paulo na época, no Velódromo, pra delírio das torcidas que já não mais só torciam as luvas: Aleguá, guá, guá Aleguá, guá, guá Hurra, hurra, hurra Paulistano! Aqui se vê Aqui se vê A.A.M.C. Mackenzie! E o Velódromo nasceu pra morrer em 1915, quando a Prefeitura disse que a modernização clamava pela Rua Nestor Pestana, vizinha da atual Praça Roosevelt (modernização? Qualquer semelhança não é mera coincidência: vivemos tempos parecidos, diga-se). Como bem descreve Rubens Ribeiro, autor de “O Caminho da Bola, 100 Anos de História da Federação Paulista de Futebol”, quando diz que o surto de progresso que se manifestava na capital paulista começava a devorar suas primeiras grandes áreas centrais para finais urbanísticos, sendo que na avalanche de desapropriações que se seguiu, o Velódromo Paulista foi atingido, e o progresso apagava dos anais da história esportiva de São Paulo uma página gloriosa. E aqui vai um trecho que vale aspas: “O Velódromo deixava de ser o palco das grandes pugnas do futebol, das inesquecíveis conquistas, das tardes de gala, nas quais se fazia presente o fino da sociedade paulistana”. Sem lenço e sem documento, a Apea conseguiu um acordo com a Prefeitura pra ao menos levar as arquibancadas do Velódromo para o Campo da Floresta, da AA das Palmeiras. O fim, parte I: os ingleses Foi na quase esquina com a

Rangel Pestana, bairro do Brás, que nasceu o menino Charles, Rua Monsenhor de Andrade, número 24, dia também 24, em novembro de 1874, filho do escocês John Miller e da brasileira Carlota Alexandrina Fox Miller. Mas a insistência do pai fez com que o pequeno Charles fosse estudar lá fora – veja só, mandaram o garoto prum intercâmbio com nem dez anos de idade. Lá aprendeu a jogar futebol, não só jogar como pegar gosto de fato por aquele esporte em Southampon. Quando retornou da Banister Court School, em 1894, já havia São Paulo Railway, onde Charles arrumou um trabalho no almoxarifado, e Viaduto do Chá. Mas que tem o viaduto com um moleque que volta da Inglaterra? Deixemos com Rubens Ribeiro: Se não houvesse ligação com os dois lados do Vale do Anhangabaú, explica Rubens, aqueles jovens teriam de fazer dura caminhada, alguns teriam de sair da Praça dos Curros (hoje República), passar pelo Rua do Paredão (Xavier de Toledo), descer a ladeira dos Piques (largo da Memoria), atravessar a ponte dos Piques e subir a cansativa ladeira de Santo Antônio (atual dr. Falcão) para chegar do outro lado e seguir, finalmente, rumo à Várzea do Carmo, ufa. A tal Várzea do Carmo ficava a nem um quilômetro da casa dos avós de Charles, onde ele nasceu, uma várzea mais exatamente entre a Gasômetro e a Santa Rosa, o bastante para que Charles, numa bagagem com duas bolas usadas, uma bomba e um livro de regras, passasse a falar do jogo pela cidade. Um ou outro funcionário foi se empolgando, imagine só, ouvir aquele jovem de uns vinte anos encher o saco sobre detalhes e definições até então desconhecidas sobre o fato de se

dividir dois times e chutar uma bola até um retângulo lá do outro lado. E Charles começou a juntar um pessoal da SPR, outro da São Paulo Gas Company, mais uns caras da London Banck para bater uma bola nela, a Várzea do Carmo. E lá ele organizou o primeiro jogo de futebol brasileiro que muitos – a maioria, imagino – considera, com as regras trazidas por ele e uma vitória de quatro a dois da São Paulo Railway, do dono da bola, sobre a empresa de gás. O próprio Charles Miller, anos depois, descreveu ao jornal Gazeta Esportiva, isso já 1942. “Logo que nos sentimos mais traquejados e que o número de praticantes do jogo havia crescido convocquei a turma para o primeiro cotejo regulamentar: The Team do Gaz contra o SP Railway. Ao chegar ao campo, a primeira tarefa que realizamos foi enxotar do mesmo os animais da C. Viação que ali pastavam, e logo depois iniciávamos nosso jogo, que transcorreu interessante, sendo que alguns dos companheiros jogaram mesmo de calças, por falta de uniforme adequado. Quando deixamos o campo já estava assumido o compromisso de promovermos um segundo jogo, sendo que a exclamação geral foi esta, que ótimo esporte, que joguinho bom!” E foi quando o SPAC passou a aceitar o futebol no clube que Charles Miller passou a dar os treinos na já citada Dulley, Bom Retiro, onde ele foi se tornando o principal jogador daquele começo de século, importador das regras, campeão, artilheiro e ainda árbitro do Paulistão de 1902. Em 1910, ele se aposenta com três títulos e dois troféus de melhor goleador do Estadual após um amistoso com o Corinthians da Inglaterra que fez uma excursão ao Brasil e bateu não só o SPAC por oito a dois, como também passou fácil por Fluminense e seleção brasileira – com estrangeiros – Palmeiras e ainda um combinado paulista. Se as histórias de São Paulo Athletic e Miller se confundem, fica ainda mais fácil ligar as datas quando o time da Visconde de Ouro Preto, travessa da Consolação, joga o último campeonato em 1912 por pregar o amadorismo e não concordar com os rumos do futebol. O SPAC, do futebol, mas também do rugbi, do hóquei sobre grama e até do badminton, segue firme e forte na mesma sede central – onde está inclusive um memorial com conquistas e muito, muito de Charles Miller – e também uma sede de campo à beira da represa Guarapiranga, em Socorro, onde os sócios jogam boas peladas. Fez 93 jogos na história do Campeonato Paulista, com 43 vitórias e quatro títulos.


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O fim, parte II: sem bengalas Nos anos 1920, o futebol ia começando a ter alguns elementos que conhecemos bem hoje, tanto que uma das decisões emblemáticas da Associação Paulista de Esportes Atléticos, a Apea, foi de proibir a entrada de torcedores com bengalas nos jogos do campeonato, visto que o instrumento poderia trazer risco aos presentes em caso de briga generalizada. Isso foi em 1926, e três anos antes já havia sido solicitada uma reunião com o secretário da Justiça para se tratar do mesmo tema: um plano de combate contra os arruaceiros dos campos de futebol na cidade. E 1923 foi também o primeiro campeonato sem outro dos clubes fundadores, o Mackenzie, com um fim de história que já se desenhava havia alguns anos – disputou as temporadas de 1920-21-22 como Mack-Port, quando em 1923 a Portuguesa, então parceira, conseguiu finalmente convencer a universidade do centro a ceder à vaga ao clube da colônia europeia. No fim das contas, disseram pessoas do Mackenzie, a ideia era largar o futebol naquele tempo de início de profissionalismo. Fez 137 jogos na história, com só 44 vitórias e nenhum título conquistado. No mesmo ano de 1922, despedida do Mackenzie, o Paulistano inaugurava uma nova sede no Jardim América, perto do campo. Em 1925 teve uma das duas passagens mais relevantes da história do clube: primeiro, com 11 títulos, é o único tetracampeão (consecutivo) paulista da história, 1916-17-18-19; segundo, fez uma marcante excursão à Europa onde fez 10 jogos, venceu 9, e foi ovacionado na volta ao Brasil. Olha ele aqui de novo, Antonio Prado Junior, desta vez, já como deputado, o grande idealizador de uma viagem dum time brasileiro num país que começara a viver a crise do café pra um continente que se reconstruía depois da I Grande Guerra Mundial.

Junior voltou mais do que entusiasmado de Paris: se preparem que a comitiva vai subir no Zeelândia, disse, se referindo a um navio. Pra reforçar o time e refazer um elenco com vários desfalques, o Paulistano convidou Durval Junqueira Machado e J. Seabra, do Flamengo, e Araken Patuska, do Santos, sendo que esse último não só jogou e marcou gols como ainda escreveu um livro sobre a epopeia, o clássico Os Reis do Futebol, nome que foi colocado pela imprensa de Paris que se rendeu ao time que venceu uma seleção francesa por sete a dois logo na estreia, na primeira da dezena de partidas em terras estrangeiras. Foi um baita passeio, que terminou com um seis a zero em Lisboa e contou com um total de onze gols de Friedenreich, que jogou todos os dez jogos em cerca de quartenta dias. E o time ainda se diz roubado, como escreveu Patuska sobre a derrota mínima para o Cette. O árbitro, Sr. Broghamer, teve uma péssima atuação na partida, desse modo, jogamos contra doze pessoas, sendo de notar que durante alguns minutos o nosso quadro esteve reduzido a dez homens, pois, Mario, seriamente machucado num pé, teve de se retirar de campo, reclamou o jogador-escritor, antes de dizer que o Paulistano foi derrotado numa cidadezinha do Mediterrâneo, sem grande importância, num jogo que pela renda nem lhe compensou os prejuízos financeiros da viagem de dois mil quilômetros ida e volta. “Naturalmente, o recozijo da população foi imenso”, destaca. No ano seguinte, em 1926, o Paulistano novamente fundou a própria liga, desta vez a Liga de Amadores de Futebol, LAF, vencida por ele próprio e que contou com oito times. Venceu também em 1928 e perdeu a final de 1929 para o Internacional – neste ano, ficou forte o rumor de que o Paulistano era beneficiado pelos

acervo c.a. paulistano

Paulistano antes de jogo na França: o primeiro em pé, à esquerda, é Prado Jr; o quinto, o gênio Friedenreich

árbitros, já que a AA das Palmeiras foi expulsa da competição depois de uma briga diante do Paulistano que o craque Friedenreich teria começado. Mas o time da elite paulistana ainda foi cordial após o vice: encontrou os campeões pra um brinde num boteco no centrão. Em 1929, o Paulistano desistiu do time, como conta a ata anual 1930-31 que pude ler no memorial do clube, no Jardim Europa, e aqui valem aspas e reprodução fiel, tamanha a formalidade do documento: “Com pesar, tivemos que extinguir, em 1930, a secção de futebol do nosso club, pois, foi neste esporte que o Paulistano iniciou a conquista dos seus asssignalados triumphos e logrou atrair para o meio esportivo nacional a admiriação daqueles que, até então, ignoravam o que no Brasil, já se fazia em pról da educação physica. Infelizmente, esta secção deixou de corresponder aos propósitos que animam bruno graziano

o desenvolvimento dos diversos esportes cultivados por esse club (…) O último embate em que se empenhou foi contra a turma do Antártica FC. O nosso quadro venceu-o galhardamente pela contagem de 6 pontos a 1, em 15 de dezembro de 1929, terminando, assim, a série de partidas que disputou”. Foram 336 jogos e 220 vitórias. O fim, parte III: anos 1930 Nos anos 1930, os campeões paulistas já passaram a ser basicamente os times que disputam os títulos até hoje e o campeonato de 1932, mais precisamente, marca o último ano em que Germânia e Internacional, fundados praticamente juntos, jogam o Estadual. Isso porque 1933 será para sempre lembrado como o primeiro torneio do futebol profissional paulista, título do Palestra Itália e oito times na disputa. O Germânia, campeão em 1906-15, foi a campo 315 vezes e venceu 98 até virar o hoje conhecido clube Pinheiros, no Jardim Europa. Já o Internacional, dono das taças de 1907-28, jogou 354, ganhou 111 e foi se juntar ao Antártica para dar origem ao Paulista, que mais a frente foi incorporado pelo São Paulo Futebol Clube.

Bola, cadê? Apesar do riquíssimo futebol de várzea da cidade de São Paulo e de uma distribuição plural de seus campos e jogadores, pra não falar do fluxo migratório das tardes de sábado e manhãs de domingo entre craques e bagres de toda a região metropolitana, falemos especialmente do futebol principal, profissional, de elite, aquele com os times que as pessoas torcem, digamos, Anhangabaú chora de saudade das botas apressadas de quem o cruzava rumo ao match na Várzea do Carmo oficial e formalmente.

O último DNA Paulistano do instituto Datafolha mostra o que já é claro aos olhos de quem anda por aí: dos dez bairros considerados centrais pela pesquisa – imagine República e Sé por dentro e uma cruz com Bom Retiro no norte, Liberdade no sul, Brás no leste e Consolação no oeste – o Corinthians é o que tem mais torcedores em todos eles, em taxas que variam de 24% a 41% da população, sempre seguido por São Paulo e Palmeiras, às vezes de perto, às vezes à distância. Reflexo, portanto, de uma cidade que diferente do turbilhão vivido a cada final de semana por Londres ou Buenos Aires, por exemplo, onde pipocam clássicos nas mais diversas divisões a cada bairro que você passa. Aqui, sobraram seis, encabeçados pelo trio de ferro, com a Portuguesa abaixo, o Juventus como ponto fora da curva e o Nacional numa penumbra cada vez mais escura. A aberração Audax eu me recuso a contar, e ainda assim seria muito pouco. Pouco pra quem tem marcos tão relevantes que até viraram projeto de lei de resgate da memória do futebol – foram pontuados a antiga Várzea do Carmo, a Rua Três Rios (área do Colégio Santa Inês, local do primeiro campo exclusivo para futebol), o SPAC, o antigo Velódromo e o Museu do Futebol – e ainda convive com um centro que passa por tantos domingos às moscas, sem futebol. Pra quando o vendedor de mexirica da Ipiranga falar que não vai ao jogo porque perdeu a venda de ingressos pela internet e nem tem cartão de crédito, lembrar que a maior da finais acontecia ali, bem perto, atravessando a rua. E pensar que nem se podia vaiar.


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Multidão se aglomera no calçadão da Rua XV de Novembro em busca de um último pacote de pães italianos, famoso em Roma, raríssimo em outras partes do mundo como a Penha

panis et penhenses Porque quem mora na cidade acorda cedo pra ir à... Cidade. Se estivesse viva hoje, a paulistana Angelina Mandelli Bruno teria 89 anos. Quase nove décadas de Penha e de Ponte Grande, o bairro vizinho, da vizinha Guarulhos. Nem no bairro da Zona Leste, nem na cidade da Grande São Paulo, por maldição divina, havia uma padaria que vendesse pão italiano. Um ou outro mercado ali arriscava, sem sucesso, vender algumas marcas. Custava caro e a maioria das pessoas da redondeza não tinha o costume de comprá-las, fato que, por si só, justificava a retirada das prateleiras daquilo que Angelina sempre chamava de “porcaria que vale o olho da cara”. O pão italiano é uma espécie de símbolo nacional lá na Bota. Diferentemente da delicadeza do francês, traz em sua casca a dureza do povo da Calábria, o ranço do napolitano e a soberba siciliana. O italiano

é um pão duro. Angelina era pão dura. E era por causa desse DNA que aos sábados pela manhã eu sempre escutava minha avó, mas que diabos, gritando diante do meu quarto: “Bruno, acorda e te arruma! Vamos à cidade comprar pão italiano.” A cidade, no caso, é o centro de São Paulo, lugar que concentra os bairros Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação, Liberdade, República, Santa Cecília e Sé, segundo denominação da subprefeitura da Sé. Da mesma forma que minha avó buscava no centro o pão italiano barato e original, são muitos os paulistas e paulistanos que recorrem à região central da cidade, ou A Cidade, pelas mais diversas razões. E eu adorava ir à Cidade. Era um dos acontecimentos mais esperados na minha agenda de

menino suburbano – a ida ao centro aos sábados e o futebol do domingo, no rádio, na TV, no estádio. Com o coração na garganta, de susto e alegria, gemia um sim ao pedido da velha, já me ajeitando na melhor roupa que tinha. Afinal, ir à Cidade era algo que conferia classe ao indivíduo. E eu tinha classe. Mão dadas, ai se meus amigos me veem assim, a gente descia o morro pra pegar o ônibus. A velha, imponente, exalando alfazema e laquê Karina. Eu, mãozinha fria no peito, ia pendurado na mão direita, intoxicado. Quem diria: minha primeira experiência com os narcóticos foi inalar a minha avó. Mas isso já é outra história. Matávamos os 40 minutos de travessia da Celso Garcia, uma avenida horrível que nasce na Penha e desemboca no Mercadão Municipal, discutindo

por bruno sobrante

amenidades como o fato dela insistir em chamar ônibus de condução; o fato de todas as manhãs passar uma mistura de cerveja e babosa nos poucos cabelos que tinha e, claro, por que ela sempre chamava o centro de Cidade. Ainda embriagado, sorriso no rosto, flertava com o jornalismo e fazia da minha velha uma espécie de convidada ilustre no meu talk show particular. “Mas, vó, a gente já mora na cidade, né?” Sim, moramos na cidade. Acontece que em SP, especificamente, é comum a população que mora nos arredores do centro se referir à região como Cidade. E faz todo o sentido – é na cidade que tudo acontece, é na cidade que há de tudo, é na cidade onde está todo mundo. Essa movimentação de um grande grupo de pessoas transitando

entre a periferia e o centro é chamada pelos acadêmicos de deslocamento pendular. No Brasil, 7,4 milhões de pessoas trabalham ou estudam em municípios diferentes daqueles onde residem. Esse movimento é realizado, principalmente, por residentes nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, que registram 29,2% (2,1 milhões) e 13,2% (980 mil), respectivamente, do total do país. A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) concentra 54,8% (1,1 milhão) dos que trabalham ou estudam fora do município, e entre seus municípios, Osasco (116 mil), São Paulo (114 mil), Santo André (95 mil) e Guarulhos (94 mil) apresentam os maiores contingentes. Os dados são do Censo Demográfico de 2000. Sim, 2000, porque precisão neste texto é o de menos. Se já era assim há 13 anos, imagina


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como tá essa porra agora. Seguimos com a pesquisa para dar um tom jornalístico neste texto que tem como objetivo fazer você imaginar o lance por meio de anedotas, não por comprovação científica. Entre os residentes na RMSP que trabalham ou estudam fora do município de residência, 91% o fazem em municípios situados na própria RMSP, 6% em outros estados ou países e 3% em outros municípios do interior do Estado de São Paulo. Além disso, o Metrô de São Paulo registrou, em 2007, que dos 23,5 milhões de deslocamentos feitos diariamente na cidade de São Paulo, 30,8% são feitos a pé, 28,3% de ônibus (público, fretado ou escolar), 28% de carro particular, 10,1% de metrô ou trem, 1,7% de moto, 0,6% de bicicleta, 0,3% de táxi, e 0,1% outros. No final das contas, a Cidade tem muita gente que mora na cidade, mas que precisa ir à Cidade por necessidades que não são supridas nos bairros mais distantes, como acontecia com a dona Angelina. Mas deixemos o lance da minha avó um pouco de lado. Além dela, tem o lance do Carlos Augusto Rebhein, um catarinense que é garçom e trabalha servindo cerveja e porções e mais cerveja num bar do Mercadão. O conheci no churrasco que uma amiga fez no condomínio onde eles moram, lá na Cohab II, em Itaquera. O Mercadão abre cedo e, pra quem não manja, Itaquera está distante cerca de 20 quilômetros

da Cidade. Ele integra os 28,3% das pessoas que se deslocam na cidade de ônibus, e isso quer dizer que são necessárias pelo menos duas horas para chegar até A Cidade. “Trabalhar, né, Brunão. E o trampo tá no centro. Aqui é só pra dormir.” Itaquera é um bairro que serve de referência se você quiser entender o perfil dos bairros que vivem em torno Da Cidade e porque seus moradores vivem se deslocando. De acordo com dados do Datafolha, de 2008, 79% dos moradores vivem em casa, 70% têm telefone, 56% têm animais de estimação e 54% acessam a internet. Ou seja, Itaquera, assim como os bairros que circundam o centro, é residencial. Existe o comércio, claro, mas a maioria das pessoas vai até o centro em busca da grana para pagar o aluguel, o telefone, a banda larga e a ração do cachorro. Carlos é uma delas. Vai e volta espremido no transporte para deixar a Arina e o Felipe, patroa e filho, bem assistidos. Um homem exemplar, bom sujeito. Carlos é amigo de uma birita. Você aguentaria servir bebidas o dia todo e voltar para casa liso, que dizer, sem tomar uma gelada antes de encarar duas horas no ônibus lotado? Seria um desaforo ao espírito boêmio que sempre assombrou o centro da capital. De forma que Carlos costuma encostar vez ou outra num boteco ali perto do Mer-

cadão mesmo, perto da Cásper Líbero, lá na rua dos Andradas, Timbiras. Quando sobra uma grana, ou quando perde a hora entre um trago e outro na bebida, Carlos caminha até a República e frequenta bares dali. Quando consegue caminhar. “Brunão, já vi muita coisa na madruga da República. Imagine você que.” Numa noite, depois de uma rotina de grande movimento no Mercado Municipal, disse que acabou perdendo o horário do metrô e não tinha mais como retornar para casa, sendo obrigado a encostar num bar, quem nunca?, até às 4h40, quando o transporte sobre trilhos reabre. Já era sexta quando se aproximou um bebum-zumbi, como se refere Carlos aos engravatados que trabalham na Paulista e que descem ao centro para beber na madruga depois que os bares de lá fecham. Com o bafo das mil cervejas e a mão suja de amendoim torrado, o rei da noite disparou os treze mil pedidos: cigarro, cachaça, dinheiro para a juke box. Após a negativa de Carlos, o princípio de confusão na garrafa estilhaçada na quina do balcão. Depois vieram a chuva de perdigotos, os cinco impropérios capitais, os três soluços do desmaio! “Te juro, Brunão. Tinha armado a canhota, mas o infarto pegou ele primeiro.” O centro de São Paulo tem dessas e quem frequenta sabe que não pode vacilar. A vio-

lência é uma das características negativas dessa região. Segundo dados de 2011 da Secretaria de Segurança Pública do Estado de SP, a região do centro acumulou 2997 ocorrências por roubo, 585 por lesões de trânsito, 107 por tráfico de drogas, 15 por homicídios dolosos e 13 por estupro. Eu poderia citar outras características do centro, muitas delas positivas, mas como o papo com o Carlão foi para este caminho, achei pertinente esmiuçar alguns números sobre isso. Quem perde o transporte na volta para casa e opta por uma pernoite tranquila e longe da violência acaba indo parar nos hotéis do Centro. A Beatriz Percionoto veio de Piracicaba mas passou boa parte da vida entre A Cidade e a Brasilândia, bairro da zona norte de São Paulo. Como todo jovem sensato, costuma frequentar a noite da região central de SP. Conta que muitas vezes teve de ficar pelo centro e recorrer a hotéis baratos. Assim como ela, os amigos de outros bairros também tinham de ficar até o sistema de transporte voltar a operar. Mas não há área da economia mais vil e opressora que a rede hoteleira, sobretudo os Da Cidade. Experimente tentar negociar um quarto com os caras numa quarta-feira às 03h da madruga. “Mano, queríamos entrar todos no mesmo quarto pra pagar um valor apenas. É foda.”

É foda demais. A Cidade é uma cidade doente, cardíaca, obesa. O centro é como um grande coração que recebe e expele um volume estratosférico de sangue a cada pulsação. Um coração composto por veias e artérias enfartadas – no caso, são ruas e avenidas entupidas por gente e carros, muitos carros, luzes amarelas e vermelhas contrastando no horizonte infinito até as zonas periféricas. Um quadro magnífico do caos retratado na cara do motorista que vai perder o nascimento do filho, ou do outro que não vai conseguir ter um filho por causa do congestionamento. A fumaça do cigarro saindo pelo vidro desenhando no ar uma espécie de foda-se. O epilético babando no volante do automóvel que bloqueou a 23 de Maio sentido Ibirapuera. A mocinha, olhinho tremendo, que engatou a ré na picape roubada que vinha logo atrás no fluxo. A beleza do inferno, à sua maneira, fascinante aos olhos daqueles que buscam em suas entranhas trabalho, lazer, subsistência. Mas que logo a deixam vazia. Íamos eu e minha avó até A Cidade comprar o pão italiano, na Bela Vista, esse bairro carcamano. O pão sempre durava até o domingo seguinte, quando dávamos cabo dele no espaço entre o almoço e o jogo do Parmera. Ou do São Paulo. A Angelina durou até 2004, porra, e nunca mais fui ao centro pra fazer isso. Pra fazer isso.


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fotos: bruno graziano

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daria um filme

Quem é quem numa sala de cinema escura com portas pra calçada.

por luciano costa heloísa fleming

Wagner conta que “jogou dinheiro no lixo” indo ao cinema nesta terça-feira. Foram R$30 em três salas. mas o problema não foram os filmes. Na verdade, ele nem lembrava muito do que vira nas telas. Ele reclamava que encontrara apenas “dez sujeitos bem idosos” no Cine Dom José, na rua de mesmo nome, no centro de São Paulo. “Somente um ativo coroa comendo sem camisinha um vovô de quatro perto do telão”, resume, em tom de lamento. O Cine Dom José exibe apenas filmes pornográficos desde os anos 1980. Foi inaugurado ainda na década de 1950, com três andares e muito luxo. Hoje, tem estofados rasgados e cadeiras quebradas. Um funcionário diz que com homens sentando uns em cima dos outros por ali era difícil que elas resistissem. A sala, enorme, tem capacidade para 1.300 pessoas e lotava até meados dos anos 1970. O estabelecimento pertence à FJ Cines, do veterano Francisco Luccas e seu filho Giscard Luccas. Segundo eles, hoje só dá pra manter as portas abertas com filmes de sexo. Ainda assim outro cinema deles, o Windsor, também gigante na Avenida Ipiranga, fechou recentemente e virou estacionamento. Os tempos de grandes bilheterias definitivamente se foram. A era dos cinemas pornôs, inclusive, começara no Windsor, onde estreou o primeiro filme explícito brasileiro - “Coisas Eróticas”, em 1982. Agora as telas só deixavam de exibir pornografia durante a Virada Cultural, quando obras de terror tomavam as telas nas madrugadas. Voltando ao relato de Wagner, vemos críticas a outro cinema, o Kratos. Ele reclama que foi uma decepção: deserto, com uns cinco homens, todos “chupeteiras”. O cinema fica na rua Aurora e também é enorme. É o antigo Cine Áurea, construído em cima do local que era a “saudosa maloca” de Adoniram Barbosa. Quando o prédio foi erguido, derrubando as casas, o sambista escreveu a música. No terceiro cinema, o Paris - sala quase na esquina da Ipiranga com a São João que exibia filmões e hoje também passa DVDs pornôs - Wagner vê excesso de mendigos e “cheiro de suvaco e pinga”. No andar de cima, homens vestidos de mulheres - as “montadas” - agitadas como “abelhas atrás de mel”. Wagner não entrou, mas tam-

bém passou em frente ao Cine Globo, que já exibiu películas convencionais, já foi local de prostituição feminina e hoje tem filmes gays e cabines eróticas. A atendente da bilheteria disse que havia apenas duas pessoas por ali àquela hora. Segundo Wagner e outros membros de uma comunidade de Orkut dedicada aos cinemões de rua de São Paulo, as salas andam desertas e sujas. Há michês e travestis em algumas. O Dom José é o antro dos velhinhos e também tem as “travas”. No Paris, sempre muita sujeira e noias. O Kratos é novo, mas não tem público. O República, na São João, movimentadíssima, do lado de um McDonalds, é onde vão “manos” e michês. O Cine Arouche, no Largo de mesmo nome, às vezes recebe casais. Dentre os frequentadores há alguns bissexuais e os chamados “gaviões” - que se dizem héteros e ficam ali atrás de mulheres que muito raramente aparecem. Das sessões lotadas ao aluga-se Nos tempos áureos, o Art Palácio era um dos mais movimentados. O edifício na São João foi inaugurado em 1936 pela estatal alemã Ufa, com uma sessão de gala para 3,1 mil pessoas. Mais recentemente tinha travestis, michês, montadas e gays. Estes

últimos disputavam os “héteros” que iam ao local atrás das “travas”. Está fechado desde o ano passado. Foi desapropriado e será aproveitado no projeto do Paço das Artes, com o qual a prefeitura tenta revitalizar parte da região central, que hoje tem muitos moradores de rua, vias pouco movimentadas à noite e a Cracolândia, onde os viciados lembram zumbis. Quando todas salas estavam abertas ao mesmo tempo, próximas umas das outras, passando os arrasaquarteirões de Hollywood, os tempos eram outros. Muita grana e glamour. Mazzaropi só fazia suas estreias no Art Palacio gostava da acústica. Nos anos 70, o filme japonês O Império dos Sentidos lotou as salas depois de estrear no Windsor. Eram cenas

de sexo explícito em pleno regime militar. Havia quem se masturbasse na sessão mesmo. Posteriormente o cineasta italiano Rafaelle Rossi colocou no Windsor o primeiro pornô brasileiro. As filas viravam quarteirões e o enriqueceram. Zé do Caixão diz que foi o “início do fim” do cinema nacional. Dali para a frente, o que não fosse pornô não teria atenção dos exibidores. Ele próprio se voltou a gênero, deixando o terror de lado. Depois, criticou esses caminhos dos exibidores em “24 horas de sexo explícito”, onde tenta chocar com a primeira cena de zoofilia. As estrelas são Vânia Bouer, de “Coisas Eróticas”, e um cachorro. Antes de fechar, o Windsor era o preferido dos “coroas” e a

presença de homens vestidos de mulheres e travestis era proibida. Agora há uma placa de “Aluga-se” em sua fachada. Na rua em frente, dezenas de pessoas fumam crack, principalmente a partir do final da tarde. Ali, durante o dia, funciona outro cinema, o Teatro Santana, onde prostitutas cobram por sexo oral, masturbação ou mesmo por programas - em cabines ou nas cadeiras. Quando começou a ficar vazio como estão os demais cinemas hoje, o Windsor fechou, conta Wagner, o do Orkut. Ele frequenta cines há alguns anos, uns três, sendo que no ano passado chegava a ir diariamente. Não é assumido. No trabalho, acha que já descobriram, mas tenta disfarçar. Acha que poderia atrapalhar sua carreira.

acervo pessoal

Marabá, o inocente que hoje exibe Velozes e Furiosos 6, nos anos 1970

Zezé de Camargo e mendigos Jorge mora no centro e frequentava as salas da região desde a infância. Quando adulto, todas já se dedicavam só a filmes pornográficos. Na primeira vez em que entrou em um cinema erótico “era tudo muito velado”, as pessoas discretas - “não faziam nada às claras”. A decadência dos cinemas rumo à pornografia ganhou força com a popularização do videocassete nos anos 1980-90. Homens casados que não podiam


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ver fitas eróticas em casa iam aos cinemas. Depois apareceu o público gay, que hoje sustenta o ramo. Nessa transição, alguns viraram estacionamentos ou igrejas evangélicas. O cantor Zezé de Camargo, quando tinha seus vinte e poucos anos, era um dos que ia aos cinemas. “Entrava lá duas horas da tarde e saía às oito horas da noite. Naquela época não se tinha o acesso pela internet que se tem hoje. Era no cinema que você via ‘aquilo lá’”. Segundo ele, “é impressionante, só dava homem, não tinha uma mulher, só a do filme”. O sertanejo, vindo do interior de Goiás, admitiu ao portal F5, da Folha: “aprendi muita coisa lá”. Enquanto isso, Jorge acredita que a cinelândia paulista come-

çou a virar território quase exclusivamente gay porque, em plenos anos 1990, “eram poucos os lugares” onde os homossexuais podiam se encontrar. Ele contaque “havia quem ia apenas ver o filme e arrumava confusão com quem estava caçando”. Mas acredita que “hoje ninguém entra mais num cinemão sem saber o que se passa lá dentro”. Os DVDs e a internet, como disse Zezé, ajudaram a tornar mais raros os espectadores interessados nos filmes em si. Antes da Parada Gay, explica Jorge, os homossexuais de São Paulo não tinham onde se encontrar e isso acabou fazendo das salas de projeção do centro um point - um período considerado “áureo” por ele. Muita movimentação e gente de todos os tipos,

inclusive muitos curiosos. “Os frequentadores sempre conviveram de forma pacífica, as pessoas iam para conhecer outras. Depois, chegaram as ‘montadas’ e os michês, o que afastou muita gente”. Wagner e Jorge dizem no Orkut que não frequentam mais os cinemas. Acham que estão caros - custavam o equivalente a 2 reais antigamente, contra até 15 nos dias atuais – além de abandonados, nojentos, malfrequentados. Na comunidade da rede social, muitos dizem ainda ir às salas, mas nenhum chega a elogiar suas condições. O cine Paris é muitas vezes chamado de “albergue” ou “esgoto” devido à grande presença de mendigos dormindo nas poltronas e ao cheiro de merda pelos cantos.

O engraçado é que, mesmo com os cinemas (e o Orkut) vazios, a comunidade voltada aos “cinemões” é movimentada, com 5,2 mil membros. Discute-se sobre tudo, até as manifestações em São Paulo, mas conta-se principalmente aventuras erótico-cinematográficas. Atualmente são 12 cinemas pornográficos espalhados pelo centro de São Paulo. Fecharam o Saci, no calçadão da São João, o Art Palácio, o Windsor. Alguns vão mudando de dono e de nome, como o ex-Áurea, hoje Kratos. Há ainda cinemas de rua que se dedicaram a filmes comuns e de arte até recentemente e agora fecharam – caso do Cine Belas Artes. O Marabá – inaugurado em 1944 - chegou a fechar em 1997, mas reabriu com sa-

las da Playarte dois anos depois e segue em funcionamento. É o único do centrão que sobrevive sem apelar aos hormônios dos espectadores, mas precisa da força dos blockbusters e das películas infantis para ter público. Entre o bravo sobrevivente, os capengas pornográficos e a tentativa de revitalização com a Praça das Artes, alguns dos grandes cinemas do centro de São Paulo ficaram pelo caminho, dando lugar a cultos ou áreas para carros. Um virou Igreja Internacional da Graça de Deus, do famoso pastor televisivo R. R. Soares. Das películas hollywoodianas, as salas foram às explícitas e a palco de sexo de todos os tipos, sendo que umas ou outras viraram casa de Deus e de dízimo. Daria um filme, não?

Edifício Itália, com orgulho Tamanho às vezes é documento quando a luz fica mais baixa numa sessão pornô vespertina. por hugo moura bruno graziano

O bilheteiro tem os olhos quase escondidos atrás das grossas lentes dos óculos de grau. Tão enferrujado quanto a catraca que devo girar em instantes, ele recolhe lentamente o dinheiro que coloco sobre o balcão. Passeia o dedo indicador pela língua, destaca de um bloquinho de folhas um ingresso que acabo de pedir e resmunga “obrigado” pelo buraco circular do vidro que nos separa. No pedaço de sulfite rosa, o nome do cinema e o preço do passaporte: Cine Windsor, cinco valorosos reais. Confiro o relógio e estou atrasado faz quatro minutos para a sessão que se iniciou às 15h. Em um cálculo mental rápido, acredito que esta seja a quarta exibição do filme “Bet Your Ass 4”, o único em cartaz neste cinema. O pôster, encaixado em um suporte de madeira antigo e fixado ao lado da bilheteria, exibe uma montagem tosca de uma mulher de seios fartos - desnudos, claro sentada sobre cartas de baralho,

como se fosse parte de um jogo de apostas em que o vencedor, suponho eu, ganha as partes de trás da moçoila. Não há fila na entrada, nem alguém que recolha o ingresso já rasgado pelo bilheteiro - como em cinemas convencionais. Dá até pra guardar em minha gaveta de recordações, penso. E invado o pomposo saguão. Diferentes perfis de homens se aglomeram por aqui. Um careca, um gordinho de fios grisalhos e um engravatado se entreolham agora que um rapaz com pinta de universitário surge de mochila nas costas. Uma prostituta decadente, de meia arrastão e saia curta, passeia pelo trio rebolando, mas ninguém se importa. Loira de um oxigenado quase branco, ela caminha até mim e sem rodeios me aborda apontando logo em direção à sala escura. Por três segundos, sinto-me De Niro em “Taxi Driver”, acompanhado de uma mulher em um cinemão pornô de rua, mas agradeço a

oferta e disparo a andar para observar melhor o Windsor. Três rolos de papel higiênico, expostos como obras de arte ao lado da porta de madeira que te leva para dentro da sala de cinema, parecem menos higiênicos quanto indica o sobrenome do próprio papel. Dois passos no escurinho e já percebo pedaços enrugados e umedecidos dos não-higiênicos espalhados pelo chão. E você só pode enxergá-los quando tem a sorte que a iluminação do filme na tela te acuse a presença deles. Quando a sala se perde na penumbra, o jeito é continuar a caminhada pelo campo minado de porra sem saber se um papel – ou quem sabe uma camisinha usada – ficou grudado na sola do tênis. O filme é heterossexual, mas só há homens buscando homens. Ou “cavalheiros”, como escrito na placa pregada na porta do único banheiro do cinemão. Sento-me em uma das poltronas vermelhas, na penúltima das

Janela de exibição dum pornô atual: sai a pipoca, entra o papel higiênico

cerca de 15 fileiras, e percebo um casal aqui, outro acolá. As madeiras das pobres cadeiras rangem ressecadas e ritmadas em momentos de maior excitação do público. E há espaço até para gemidos e sussurros sufocados de prazer. Um homem caminha entre as fileiras e senta-se na segunda poltrona depois do corredor central, que divide o público em dois. Em seguida, o rapaz que desconfio ser um universitário antes, no saguão, agora se desfaz da mochila e se curva para as partes baixas do telespectador já sentado. Não é um musical de sexo explícito, com orgias e posições do Kama Sutra, mas a criatividade e a empolgação dos caras em meio a um salão tomado por enormes poltronas poderia até servir de inspiração pra que se arranjem novas posições sexuais. Outro jovem, solitário em um canto da sala, assiste em pé a movimentação e, não menos excitado, parece orgulhoso ao acariciar seu Edifício Itália em plena tarde da Avenida Ipiranga para quem quiser ver. E não, ele não é o único orgulhoso e exibicionista de seu próprio edifício. Deixo a tela de cinema e me despeço mentalmente dos co-

legas de “Bet Your Ass 4”. De costas e já na saída da sala, um emaranhado de “fuck” e seus derivados, seguidos de gemidos animalescos, me fazem crer que os atores do filme também chegaram ao gran finale. Na porta que liga a sala de cinema ao hall, a dama da limpeza surge vitoriosa, com balde e vassoura a tiracolo - penosamente, alguém além da atriz peituda terá de lidar com esperma. No saguão, o jogo do flerte continua nas expressões desconfiadas dos homens do cinema. O silêncio me estranha o estômago. Pareço tolo se digo que estou constrangido de estar aqui, mas duas vezes tolo por receio de sair e encarar o primeiro que me trombar rua afora. No fim, a multidão que perambula no vai e vem enlouquecido da Avenida Ipiranga, no Centro de São Paulo, despreza minha saída do Windsor. Um casal de mãos enlaçadas faz companhia a uma velhota e sorri, um senhor de terno carrega uma pasta apressado, e eu, que suspeitava ser flagrado por olhares desconcertados de curiosos desalmados, sou apenas mais um fantasma em frente a um cinema que sabe-se lá se existe nesse mundo.


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quinhentos metros de excitação

heloísa fleming

O beco que virou uma guerra libidinosa de luxo e arquitetura. por bruno graziano “Eu faço samba e amor até mais tarde, e tenho muito sono de manhã.” Fora proferindo esta carrancuda queixa que Mertila das Neves, moradora do Edifício Louvre, número 192 da Avenida São Luiz, acordou de mal-humor num abril recente. No petardo da noite anterior, enchera a cara de conhaque e cerveja no samba que toda sexta-feira toma a Praça Dom José Gaspar com um nostálgico fervor. “Uns dizem que é pagode, mas eu nem ligo”, defende-se a moça. Talvez Mertila nem saiba que tal frase já existe e pertence a Chico Buarque, imortalizada na canção “Samba e Amor”, de 1970. Setenta, por sinal, ano em que o tal Edifício Louvre foi entregue por completo para ser habitado pela classe média pulsante da época. Complexa e grandiosa obra arquitetônica projetada pelo maldito arquiteto João Artacho Jurado, gênio que não podia assinar suas criações por não ter um diploma de arquitetura e urbanismo na gaveta. Quando Mertila acorda de ressaca, 7h da manhã, rodopiando no apartamento próprio de 120 metros quadrados e apenas um dormitório (suíte) comprado pelo tio engenheiro ainda na planta, em 1965, para poder chegar as 7h30 no Edifício Itália, 344 da Avenida Ipiranga (mas que pertence territorialmente à São Luiz), onde fica seu escritório de engenharia, sempre agradece a qualquer um que não seja Deus pela proximidade entre sua moradia e trabalho. E se a boêmia contadora bela e esbelta de trinta e poucos anos, que não dispensa uma farra na Cachaçaria do Rancho, 86 da Praça Dom José Gaspar, pedaço de verde que lhe é paisagem frontal, imaginasse que a torre onde trabalha, a mais alta de São Paulo, com seus 168 metros de altura e 46 andares, já fora um clube de esbórnia para imigrantes italianos abastados no início do século passado? Talvez tornaria-se alcoólatra compulsiva e entregaria-se ao crack, juntando-se a outros fãs da pedra que dormem diariamente

na portaria do Edifício Moreira Salles, 141 da Avenida São Luiz, formando parte da dispersão recente dos usuários da rocha que saíram da concentração na Sé para queimarem seus cachimbos em becos escuros e quietos do centrão. Ironicamente, o ponto que escolheram na São Luiz trata-se de uma homenagem ao patriarca de uma das famílias mais ricas do Brasil. Voltemos à Praça Dom José Gaspar. Nela, encontra-se a Biblioteca Municipal, carinhosamente apelidada de Biblioteca Mario de Andrade (o fundador da poesia moderna brasileira e cunhador do profético termo “Pauliceia Desvairada”), além de botecos, restaurantes, lojas de telefonia celular e ela, a magnânima e incólume Galeria Metrópole. Dentre seus bancos e árvores nativas com duzentos anos de vida, também moram ali estátuas de Miguel de Cervantes, Goethe, Camões e Dante Alighieri. Hoje, em dois mil e treze, quem trabalha nos envoltos do início da Avenida Ipiranga, na própria Avenida São Luiz ou perto da Estação Anhangabaú do metrô, não tem opcão mais vasta, eclética e em conta que ganhe dos três andares da praça de alimentação e serviços charmosa e agradável da Galeria Metrópole. Lá, comemos desde um self service com jeitinho mineiro a R$16 o quilo, até um yakisoba sujinho, apetitoso e temperado por R$14. E o peão que suga a macarronada do almoço como quem chupa um picolé de chocolate na fome

e no calor, nem imagina que a tal praça carrega em seu nome a alcunha de um Arcebispo púdico e reacionário. Pois sim: Dom José Gaspar, o graduado católico chefe, morou na residência que fora demolida para a construção da praça. Morrera num acidente aéreo logo após a venda do imóvel, ganhando assim a cortesia. A casa fora comprada, enfim chegamos, da família Sousa Queiros. O Patriarca da família Sousa Queiros é Luís António de Souza Queiroz, o famoso Brigadeiro Luís António que mais tarde cederia seu nome para a crucial avenida que liga o centro à Avenida Paulista chegando até o Parque do Ibirapuera. Um dos latifundiários mais poderosos da história do país, Luís António (com acentos agudos como sua feérica ambição territorial) era proprietário de uma fazenda onde após sua morte praticamente todos os filhos, netos e demais descendentes morariam. Esta fazenda situava-se exatamente onde mais de cem anos depois arquitetos de renome fariam uma verdadeira guerra estilística de edifícios luxuosos e modernos em prol da verticalização do novo centro residencial, comercial e empresarial da cidade, num ponto chave que era a Avenida São Luiz. Esta, que por sua vez já fora apelidada – e que menosprezo - de “beco comprido” (assim mesmo, com letras minúsculas), ligava a Rua da Consolação com a Rua dos Cunhos (atual Avenida Ipiranga), duas artérias urbanas que na metade do século XIX represen-

tavam o fim do centro vigente. Esta primeira levava a fazendas distantes que pouco interessavam aos magnatas para fins de negócio e luxo. Tais fazendas se tornariam, já no debute do século XX e cerca de meio século depois, a primordial Avenida Paulista de casarões, riqueza e muita mística. Dentre os herdeiros do brigadeiro luso-brasileiro, destacam-se figuras portentosas do império. Ilídia Mafalda de Sousa Queirós, filha do militar e honrada com o título de Marquesa de Valença, uma perdulária dama e grande amiga da Imperatriz Leopoldina, é um bom exemplo. Teve também Vicente de Sousa Queirós, o Barão de Limeira, que mimou seu título nobiliárquico para a alameda que nas décadas de 60 e 70 seria a balbúrdia da região com bares, boates, bordéis e restaurantes mil. Não esqueçamos de Maria Angélica de Sousa Queirós, proprietária rural tão sagaz e vívida quanto o pai, que após sua morte daria o nome à charmosa e inquietante Avenida Angélica, a veia desobstruída do bairro de Higienópolis. É importante ressaltar que Luís António morava inicialmente na Rua Direita, participante do histórico triângulo do centro da cidade, juntamente com a Rua XV de Novembro e a Rua São Bento, no perímetro urbano que era o lugar mais movimentado da capital por boa parte do século XIX. Seus filhos encontraram na fazenda da São Luiz um espaço mais tranquilo

e acachapante para criarem suas numerosas e unidas famílias. “Aqui é um luxo só. Da minha sacada eu vejo a Praça da República, o Edifício Itália, parte do Copan e quando eu saio pra rua não encontro muro ou portão. Para comprar o jornal de domingo eu preciso andar uns sete, oito passos até chegar na banca e voilá: tenho minha Ilustríssima na mão!” Tachando este simplório privilégio como diferencial em viver no centro, o designer Guilhermino Lebowski há cerca de dez anos comprou um apartamento de 400 metros quadrados no Edifício São Thomas “por uma pechincha”. Pechincha esta calculada em R$400 mil, ou exatamento R$1 mil por metro quadrado – proporção menor que boa parte dos bairros suburbanos da capital na época, levando em conta a criminosa inflação imobiliária dos últimos dez anos e percebendo a indubitável desvalorização do centro. Hoje, estima-se que o apartamento valha R$1,6 milhão, custando R$4 mil o metro quadrado, proporção três vezes menor que bairros como Vila Madalena, Vila Nova Conceicão, Jardins e Paraíso. O Edifício São Luis é um patrimônio tombado e ainda refinado arranha-céu pertencente de forma oficial à Avenida Ipiranga, por sua entrada ser na via, porém de criação emocional são-luizística. Ainda durante a Segunda Guerra Mundial fora projetado por Wilson Maia Fina a trinca de edifícios habitacionais São Thomas, Santa Virgília e Santa Rita.


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Em 1945, ano último da grande batalha campal do universo, o napoleônico empreendimento causou frisson na elite e no povo com uma atilada estratégia de marketing: “Lançaremos o mais moderno e comfortável condomínio habitacional de nossa crescente metrópole. Aqui os senhores e senhoras desfrutarão do mais requintado primor arquitetônico que esta cidade já viu. Em tempos de procura da paz, o paulistano encontrará em nossas moradias as elegantes tendências vindas diretamente da França para suprir todas as necessidades que uma família de bem carece nos dias de hoje”. Recordistas de concreto Além de coqueluche, o trio de concreto batia alguns recordes simbólicos. Fora o condomínio residencial mais alto a ser construído no Brasil até então, além de obrigar uma revolução de engenharia, pois demandava, na época, a maior quantidade de concreto e ferro já carecida em toda a história do estado. Seus apartamentos que variam de 100 até incríveis 400 metros quadrados, abrigam hoje uma diferenciada gama de moradores. “Aqui mora a Bárbara Paz, o Hector Babenco, morava o Supla, que nos traiu e foi para o São Thomás, aquele japa que era dono de parte da 25 de Março, uma das donas daquele salão de beleza, o Jacques Janine, o fundador da Folha de São Paulo já teve apartamento aqui, já morou Caetano Veloso e até aquele rockeiro emo que é velho e se veste como adolescente (referindo-se a Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial), como é o nome?” , reflete Joelma Fofin, porteira há duas décadas do Edifício Santa Rita. “Mas aqui é demais. Esse hall de entrada parece a Disney, as pessoas chegam e tiram fotos, falam que o elevador é chique no úrtimo, que a cobertura é uma coisa de louco e coisas assim. Eu me sinto nas Europa trabalhando aqui!” De fato, o conceito Classicista Francês com toques de Art Déco de suas fachadas e interiores impressiona quem hoje entra no hall principal de um dos prédios. Sobretudo para quem está acostumado a ver aberrações como torres beges com muros altos e sacadas de meio metro quadrado, em apartamentos novos de bairros em expansão como Jardim da Saúde, Tatuapé, Freguesia do Ó e Santana. Os crimes cometidos pela especulação imobiliária ainda serão sentidos fortemente na pele de nossos descendentes. Mas isso é assunto para outro texto. Volto aos três ilustres da São Luiz. Quando lançados, já em 1950, os três reis abrigavam um público abastado e conservador. Eram todos atraídos, além dos

Não são mais os velhos jacarandás, mas as tipuanas ainda peitam os gigantes até o pé da Consolação

amplos e aprumados apartamentos, pela vida social agitada que a rua lhes proporcionava. A São Luiz tinha cinema, teatro, hotel, biblioteca, livraria, restaurante, bar, banco, lojas de roupas, joalheria, farmácia e sem contar as largas calçadas e o meio-fio com seus deleitáveis jacarandás que floriam vívidos na primavera e grafitavam as ruas de cores em pleno outono. “Era legitimamente um boulevard!”, ressalta Eusébio Leonor, engraxate residente há mais de 40 anos na Praça da República. Com 78 anos de idade inteiramente vividos no bairro, Eusébio decidiu cravar seu negócio na praça principalmente pelo movimento que vinha da São Luiz. “Os sapatos mais caros da época vinham dessa avenida, era trabalho que não acabava mais. E com gorjetas!” Hoje, diz que tornara-se um patrimônio humano. “Rapazes vêm engraxar comigo dizendo que seus pais a avôs vinham aqui. Sou uma referência.” E o “Aleijadinho do couro”, como é afetuosamente apelidado por amigos, ainda cita que deu seu primeiro beijo na São Luiz, bebendo cerveja numa lanchonete da avenida. “Ela era

linda, mas moderninha demais. Dizia que casar era coisa de mulher submissa”, pondera. E reflete, indiganado: “Essas feministas! Vai entender?” Os jacarandás de outrora morreram com a poluição e a indisposição vinda na década de 70. A partir do acúmulo irrefreável de automóveis vindos daqui e dali, indo pra lá e pra cá, chegando e saindo sem dar a mínima satisfação, deu-se o fim das adoradas plantas. Jacarandás precisam de muita luz para sobreviver. No passo que arranha-céus lhe roubam o sol, eles se espicham e se contorcem para cima em busca de um pingo de raio solar. Nisso, perdem seu floril belo e encantador, restando defuntas engalhadas com madeiras secas, propensas a doenças letais e o mais preocupante – a uma chorosa queda! Os jacarandás eram centenários, marcos arborísticos e práticos sombreiros para o sol forte do meio-dia. Faleceram, indefesos ao amanhecer dos novos tempos, fadigados pela invasão dos que não vinham. Jacarandás e a verticalização não se trombam. Jacarandás e automóveis fumacentos não se bicam. Jacarandás eram papéis amadeirados

para italianinhos apaixonados cortarem corações em canivete proferindo amor eterno para suas italianinhas catadoras de amora. Jacarandás eram sombrinhas do cigarro amigo do pós-almoço do doutor, da mocinha, do peão e do patrão. Jacarandás eram protagonistas. Em 1971, foram ligeiramente trocados por tipuanas muito mais resistentes e viáveis neste equilíbrio urbano obrigatório de uma grande cidade. E estas tipuanas são esforçadas, truculentas e pomposas, vivinhas da silva até os dias de hoje, aliás. “A São Luiz parece uma avenida carioca, só que maior, mais grandiosa”, cospe no ar Benetida Belizi, moradora do Edifício São Luis. Passando a impressão de que, ao sair na sacada, está em Ipanema ou Copacabana, sem praias, mas com um clima carioca metropolitano vigente no ambiente. Primeiro condomínio de luxo inteiramente residencial da capital paulista, o Edifício São Luis ficara pronto em 1944, antes da maioria dos irmãos arquitetados, tendo como rival apenas o Edifício Esther. Este, o emblemático modernista que se dividia em sua funções - residência e trabalho - além de não

ostentar a fama de tamanho luxo e requinte, pode ser considerado um dos cinco mais importantes prédios da capital pela sua representatividade e resistência. “Aqui na cobertura mora aquele chef, o Olivier Anquier. Comprou dois apartamentos e fez um duplex. Nunca entrei lá, mas dizem que ele mandou fazer três cozinhas diferentes na própria casa”, admira-se Belizi. Infelizmente, a entusiasmada moçoila está errada, pois Olivier Anquier, o renomado chef e apresentador de TV, mora no edifício Esther, o já citado marco arquitetônico moderno. Após uma reforma de oito meses, mesclou tendências neoclássicas com hipermodernas e deixou seu cantinho da maneira como quis. Das opções gastronômicas que lhe apetecem na região, estão o bar Dona Onça, no térreo do Edifício Copan, e o Califórnia, na Rua Basílio da Gama (a famosa rua de trás da São Luiz), onde come-se “o melhor bacalhau de domingo que se pode imaginar” segundo as palavras de seu proprietário. A arquitetura da Avenida São Luiz é um calabouço de notáveis. Franz Heep projetou o Edifício Itália e o Edifício Ouro Preto, com seus elementos brise-soleil de janelas do chão ao teto, ambientes abertos e projeção de interiores milimetricamente pensada. Artacho Jurado projetou o Edifício Louvre, que em suas portarias possui nomenclaturas de pintores italianos, além de uma faixada peculiar de cores rosas e azuis e medidas consideradas “bregas” por companheiros de profissão da época. Contudo, o renegado arquiteto teve como sua obra-prima o Edifício Bretagne, em Higienópolis, considerado nos anos 80 pela Revista Wallpaper um dos melhores condomínios para se morar no mundo inteiro. Artacho é responsável, no projeto do colossal Edifício Louvre, da primeira e única piscina da São Luiz. Situada na cobertura e abraçada por uma pista de cooper, fazia parte da característica marcante do criador: as áreas de lazer privilegiadas. Gregori Warchavchik projetou o Edifício Moreira Salles, retificando seu estilo prafrentex famoso pela criacão da primeira casa modernista do Brasil, encrostada na Rua Santa Cruz, no bairro da Vila Mariana. Também modernista, Oswaldo Bratke projetou o Edifício Linneu Gomes, ícone de seus diversos feitos arquitetônicos especializados em conjuntos de escritórios funcionais. Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia projetaram o edifício Metrópole, na época uma ambição dos donos do terreno em ser considerado o mais moderno e grandioso prédio do centro. Julio Neves, o controverso “Niemeyer do Maluf ”, responsável pelo alargamento e conceito urbanístico


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das caóticas Avenida Brigadeiro Faria Lima e Avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini, além de guru do crescimento desenfreado da Vila Olímpia e do Itaim, também deixou sua marca com o Conjunto Zarvos, na esquina da São Luiz com a Rua da Consolação, incessantemente locado em cima do alvoroçado Alberta #3, no 272 luiziano. Em 2010 abria as portas uma casa noturna estilo pub, com três ambientes, decoração classuda e sem estacionamento, com o nome de Alberta #3, admitida inspiração da música homônima de Bob Dylan. A Rua Augusta, memorável veia de perversão, socialização, boemia, alienação e politização que logo no início da primeira década do século XX voltava a ser o centro das atenções das sextas e sábados, teve mais dez anos de fôlego endemoninhado até que a especulação imobiliária untada com uma bundamolice generalizada tomasse conta da queridinha da noite. Nos últimos anos, ocorre um vai-e-vem de estabelecimentos sem mística, morte de casas clássicas, prédios de muros altos e guaritas ultraseguras, com apartamentos custando R$13 mil o metro quadrado e quatro andares de garagem com uma vaga de carro para cada apartamento, sendo erguidos com a bizarrice de um estupro. Além, é claro, das leis dos bons costumes nefastas, cada vez mais moldando de forma apática a vida noturna da cidade (como a “Lei Antifumo” e a “Lei do Silêncio”). Desde então, cochicha-se que o centro seria (e é) a melhor opção para a volta da grande vida noturna paulistana. Calçadas largas para as mesas de boteco na rua, com papos que derrubam presidentes e levantam paixões, transporte público para todos os lados, beleza arquitetônica no envolto, boulevard prontos e ela, a mística. Não achemos a tão elementar mística uma miudeza qualquer, por amor. Um recinto

boêmio sem mística não sobrevive doze meses nem aqui, nem em Paris, nem em Viena, nem no Arpoador. E no tão assuntado centro de São Paulo, órfãos da Rua Augusta mergulham nas opções da São Luiz de forma pungente. Tem-se o caçula Espaço Walden, mescla de clã cultural, inferninho e clube de sinuca, os botecos da Praça Dom José Gaspar, carregados de música brasileira em geral, o Kenko Temaki, que em meio a cones de arroz com peixe cru dentro, até pouco tempo atrás vendia garrafas de Original e Serra Malte pela metade do preço da concorrência, e por fim o famigerado Alberta, que já nas noites de quarta-feira aquece a esquina com a Consolação com seu fumódromo chiqueirinho abarrotado até chegar ao sábado inspirado de indies canalhas cheios de fôlego e vaidosas indies fêmeas soberanas com panturrilhas definidas. Toma-se, antes das 22h, um chope pint ou um mojito sem pagar entrada, correndo o risco apenas de pagar um drink para a mulher de sua vida (ou ao menos a melhor transa do ano). O banheiro misto do segundo andar talvez seja o pontual charme. Afinal, uma esbarrada com um flerte no toalete não pode e nem deve ser uma esbarrada menor. Todos nós temos cú, todos nós podemos ter pênis, todos nós podemos ter vagina. E nessa certeza genital é que um sexo alucinante daqueles de sair faísca orgástica pode facilmente acontecer. Enquanto isso, na pista do subsolo só não está nu quem não tem olho. Depois do segundo copo, de um clássico dos Strokes ou de um hit do Franz Ferdnand, não há olhar que não se encontre, que não se perca e que não se prenda. É com esta certeza bravia que a matemática funciona no andar do meio. Seres humanos entram sozinhos e saem em duplas. E a capacidade máxima de duzentos lobinhos e lobinhas no cio tornam-se uma centena de

bruno graziano

Itália, um gigante entre os baixinhos que saem pra brincar na Ipiranga

pares encapsulados. No Alberta #3, só não trepa amando e goza apaixonado quem não quer. A disposição de importância urbana na “Pauliceia Desvariada” de Mario de Andrade está mudada. Oh, São Paulo. A Avenida Ipiranga já não és tua artéria mais frenética. Seu cruzamento com a Avenida São João já não és a esquina que mais representa tua alma. O Vale do Anhangabaú há muito deixou de ser teu grande símbolo e a Praça da Sé já esquecera-se de como era tida como principal ponto de encontro dos domingos. O Viaduto do Chá dorme triste lembrando de quando automóveis vinham de longe só para lhe fazer cosquinhas no peito, a Rua São Bento está pobre de atenção almejando os tempos de sítio econômico, a Santa Cecília nunca para de trocar farpas com o Minhocão e o

Arouche urra para um público de miados afirmando de pés juntos que ainda é o pedaço mais romântico da cidade inteira. Hoje, a Avenida Avenida Faria Lima, uma adolescente insolente, berra aos quatro cantos que já é mais gostosa que sua irmã mais velha, a Avenida Paulista. Sua irmã mais nova, a Berrini, ainda é sustentada pelos pais, mas diz que já sabe se virar sozinha. A Ponte Estaiada torna-se ponto turístico de marketing político de uma noite para a outra, a Vila Olímpia (única Vila sem casas do mundo) faz topless e deixa a nova classe média babando ao seu redor, a nova Praça Roosevelt não tem árvores, Moema canta alto seu refinamento congestionado e a Marginal imunda tem metros quadrados mais caros que Miami. A cidade para todos “Sem saudosismo, sem saudosismo!”, dirá o leitor. Paciência. E volto à São Luiz. Saía eu de casa ontem mesmo, com este texto terminado. Era cedo e só me restava trabalhar. Saltei do elevador, dei bom dia ao porteiro e bati a porta de entrada. Pisei na rua e olhei ao redor. Antes, ressalto que não fora aquela olhada singela e rotineira, aquela zapeada contida e robótica, mas sim uma destas olhadas que comprometem o sujeito por dias e dias, semanas, meses, e até, por que não, para todo o sempre. Em volta, a Avenida São Luiz. Paulo Mendes da Rocha, o grande arquiteto (vencedor do Prêmio Pritzker em 2006 – o “Nobel da arquitetura”), proferiu: “O que nunca tivemos e sempre desejamos, a cidade para todos!” E completou: “Nós já decidimos que não

queremos voltar para o campo porque queremos conversar e lá não tem com quem conversar!” Sagaz, o velho Rocha ainda palpitou: “O que nós temos aqui é nada além do que a paisagem que o homem criou. Sem isso, não teríamos nada. São Paulo seria um enorme vazio sem Rino Levi (Edifício Fiesp), Niemeyer (Parque do Ibirapuera), Franz Heep (Edifício Itália), Vilanova Artigas (Estádio do Morumbi), Artacho Jurado (Edifício Viadutos), Libeskind (Conjunto Nacional) e outros...” Considerado um brutalista, Paulo Mendes da Rocha, criador do MUBE, Museu da Língua Portuguesa, e responsável pela reforma da Pinacoteca e da Estação da Luz, limitou-se aos arquitetos modernistas. E se exaltou quando disse que “o objeto principal da arquitetura é evitar o desastre!” Sim, o desastre. Não somente a queda de um edifício ou sua inequívoca função podem ser tachados de inexoráveis desastres. Mas também a construção de torres isoladas com trinta andares, doze apartamentos por andar, muros e grades altíssimas, quatro túneis de garagem, isso tudo numa ruazinha que antes abrigava três casinhas. Não pode-se discordar que tudo isso trata-se de uma inolvidável estupidez, não é mesmo? Dei toda esta volta concretista para dizer que a Avenida São Luiz não é exceção. Pois todos os gigantes de concreto que ostentam suas calçadas também foram sobrepostos sobre casarões simpáticos, com jardins trabalhosos e recuos imensos, que abrigavam os membros da Família Sousa Queirós. Só que uma cidade que não cresce, enruga. É o bem ou mal dos tempos, vai saber. O que podemos destacar de nossa tão excitante e vistosa Via Santo Luigi ou Saint Louis Avenue ou Avenida Son Luis é que o bom senso não pode morrer. Terem transformado um “beco comprido” de quinhentos metros de comprimento numa grande avenida de tráfego intenso e dezenas de milhares de frequentadores diários, se não fosse feita com certa primazia, teria sido de uma fatalidade irreversível. A cidade para respirar, tem que fluir. E a São Luiz flui. Quando os comércios e serviços funcionam no térreo, as pessoas trabalham nos primeiros andares e moram nos últimos, existe transporte público próximo, opções culturais não são raras, carros e pedestres têm seus espaços equilibrados, a arquitetura é paisagem e há opção de verde para todos os lados, podemos dizer que chegamos muito perto da “cidade para todos” de Paulo Mendes da Rocha. É mais ou menos por aí. E assim ejacula vida urbana, diária.mente, nossa Avenida São Luiz com z.


OcicerO - EDIÇÃO ZERO - JULHO 2013 - 17

Foi um prazer, Kilt obtuario

Uma senhora que morreu sem deixar filhos, mas uma legião de órfãos.

por estevão bertoni

bruno graziano

Do alto desta cidade-continente, miro a Pauliceia e grito, imploro, me pergunto: já houve notícia, desde sempre, de um atendimento melhor que o do Bar e Lanches Flor da Pestana?

O castelinho ainda está de pé. Quem sobe a Martinho Prado no sentido praça Roosevelt e dobra à direita na Nestor Pestana, ainda vê, na esquina, o prédio de 550 metros quadrados com seis torres e 14 bonecos viquingues (alguns armados com lanças, outros dependurados pelas paredes) defendendo o local que, nos últimos 42 anos, esteve mais para playground do que para castelo. Esses detalhes ainda são vistos até por quem pega a rua na contramão, mas é preciso acessar o Google Street View. No mundo real, o castelo já não existe mais. Os soldados que ali faziam guarda não foram capazes de barrar a escavadeira Carterpillar 320D que, no dia 8 de setembro de 2012, a mando da Prefeitura de São Paulo, derrubou o prédio 266 do Bar e Lanches Flor da Pestana. Alguns foram pegos de surpresa com a mudança repentina da paisagem. Um vídeo de 21 segundos, postado no YouTube 20 dias após a demolição do castelo, no perfil de um internauta identificado como Paulo Soares de Camargo Neto, mostra um

homem de costas, com os braços abertos e a cabeça levantada para o céu. “Nãããoo!”, grita o sujeito de camisa polo com listras horizontais azuis e brancas, em frente ao terreno, enquanto os amigos dão risadas no banco de trás do carro. “Por quê? É tão cruel, Deus!”, lamenta, em tom de galhofa. Quando a Kilt Shows, o nome fantasia do bar e lanches, começou a funcionar na Nestor Pestana, em 27 de julho de 1971, num espaço de 50 metros quadrados, o Di Cavalcanti de 48 metros de largura por oito de altura, em mosaico de vidro, já estava ali ao lado havia mais de 20 anos, na fachada do Teatro Cultura Artística. No mesmo quarteirão da boate, que com o tempo ganhou fama com seus shows de striptease e sexo ao vivo, funcionam até hoje a Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Associação Cristã de Moços. A presença do castelo e dos bordeis vizinhos se fez mais forte e colou na rua do centro paulistano o apelido de Boca do Luxo. O empreendimento surgiu por iniciativa de Geraci Batista Maciel, que ainda nos anos 60

começou a pintar nas páginas policiais. Em meados daquela década, Tânia, como era conhecida, namorou Nelsinho da 45, traficante contemporâneo de Quinzinho, o Rei da Boca do Lixo, Carlinhos Bangue-Bangue, Baianinho das Tretas e Amparo Metralha, todos eles criminosos que assustaram a cidade nas décadas de 60 e 70. Seu apelido vinha da pistola automática calibre 45 com a qual muitas vezes resistiu à prisão. Em 1966, os jornais registravam a captura de Nelsinho, seguida de fuga, por espancar Tânia. Dois anos depois, saiu a notícia de que o traficante fora condenado a 3 anos e 1 dia de reclusão por tentar assassiná-la. A história do criminoso acabou em 1974: foi morto a tiros numa hospedaria da rua Augusta. Tânia e a sua boate nunca desapareceram das páginas policiais. Foram, ao todo, quatro prisões da empresária e incontáveis tentativas da polícia de melar o negócio. Só em 1996, o delegado Sebastião Lopes, do 4º Distrito Policial (Consolação), fechou o castelinho por três vezes, apontando sua dona como responsá-

vel por facilitar a prostituição, o que ela negava. A Kilt, que recebia cerca de 200 homens por noite, estava mais para agência de casamentos, como ela dizia em entrevistas. “Não posso me responsabilizar pela atitude das garotas que trabalham para mim da porta da Kilt para fora”, afirmou ao delegado, de acordo com a imprensa da época. Da porta para fora, seu controle era nulo mesmo. Em 1990, por exemplo, o dentista Wladimir de Oliveira Mendes, de 25 anos, após sair de uma despedida de solteiro de um amigo na casa de shows, acabou assassinado com uma facada no pescoço, num estacionamento da Nestor Pestana. O motivo do crime: gracejos feitos pelo dentista e um amigo ao criminoso, que estava acompanhado de um homem e de uma mulher dentro de um carro. Mas a fama do local, apesar de tudo, nem sempre foi má. A boate já foi “a casa da Fórmula 1”, por ter recebido pilotos como Damon Hill, David Coulthard e Satoru Nakajima. Na lista de frequentadores ilustres também aparecem Michael Douglas, Tom Cruise, Bob Dylan e Gene Simmons. Tânia contou em entrevis-

tas ter namorado um presidente da República. Ela acabou tendo com um segurança da boate a filha Christina, que serviria mais tarde de inspiração para a música “Japa Girl”, do cantor Supla. A ideia para a fachada do castelo (palavra que na Bahia também serve para designar prostíbulos) veio, como Tânia dizia, dos tempos em que ela era uma das maiores vendedoras do uísque Black and White no Brasil. Numa viagem à Escócia, encantou-se com um castelo onde teria morado a rainha Maria Stuart e voltou com aquilo na cabeça. Maria Stuart foi guilhotinada em 1587, aos 44 anos, dois a mais do que durou o prédio da Kilt, decretado imóvel de utilidade pública em 2009 e derrubado no ano passado para dar lugar a uma rotatória, numa tentativa da prefeitura de revitalizar a região da praça Roosevelt. O homem que grita em frente aos entulhos do prédio no vídeo do YouTube não tem mais motivos, hoje, para lamentar. A boate voltou a acender seus neons, sob nova direção, no número 189 da Nestor Pestana. A fachada nova é futurista.


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Centrais O ÚLTIMO PLIÉ Chegara no 1º Distrito Policial da Sé algemado e indignado. “Senhor, eu posso explicar...”, indagava, pedindo a atenção do delegado. O oficial mandara-lhe calar a porra da boca: “Vagabundo! Vai pro xadrez!” E Lorenzo era arrastado violentamente pelos capangas da lei. Já na cela, num cruzar de braços injuriado, dividindo um cantinho minúsculo e escuro com mais três provisórios, o rapaz pensava em alguma forma de recuperar a caixa. Quando preso tentando invadir o salão principal do Theatro Municipal, já após a calada da noite, com o sol espreguiçando às 5h45 da manhã, Lorenzo só preocupava-se com a caixinha de cobre, veludo e ouro banhado que segurava junto à barriga como se fosse um bebê. “Foi pego socando a porta de vidro e tentando pular para o salão principal da escadaria. Estava completamente perturbado. E falou o tempo inteiro sobre essa caixa”, dizia o policial civil ao delegado chefe, depositando a tal caixinha em cima da mesa. Abdias Louveira, a autoridade máxima da DP, abriu a caixa sem o menor cuidado e um bocado de pó fino e acinzentado transbordou sobre a papelada que estava ao redor. “Mas que merda é essa? O indivíduo é macumbeiro?” E ordenou que trouxessem Lorenzo para sua sala. Com os cotovelos na mesa e fuça de poucos amigos, olhou nos olhos do garoto e levantou a mão direita, com a palma aberta: “Explique-se, moleque. Mas rápido!” Tiraram as algemas de Lorenzo, que delicadamente juntou o resto de pó que caíra da caixa. “O que é

isso, rapaz? Anda, diz!” Lorenzo aturdiu-se em lágrimas: “São as cinzas da minha mãe!” Houve um silêncio na sala. Todos engoliram a saliva. “E por que raios você quis invadir o Theatro?” Lorenzo foi direto: “Para jogar as cinzas na escadaria principal. Foi o último desejo dela antes de morrer. Ela era bailarina e sempre sonhou em se apresentar no Municipal. Como nunca conseguiu, me pediu isso”. Até o mais durão dos homens naquele instante suava de comoção. E o delegado Abdias, famoso por lidar com a violência cotidiana do centro da cidade, não sabia o que fazer. Pensou por minutos, dando um ar de suspense umbrátil ao caso. No fim, lembrou de sua mãe, que mesmo uma setentona enxuta e longe da morte, sempre lhe pedia que prometesse: “Abdias, meu filho, quando eu morrer, quero minhas cinzas espalhadas pela cobertura do Martinelli. Ouviu, bem?” E se colocou na situação do pobre órfão. Gesticulou com os braços, fazendo careta, e cochichou: “Olha, menino, eu sou grande amigo de um dos bam bam bans do Theatro Municipal, entende? Eu vou falar com ele e você pode resolver essa situação toda, o que acha?” Lorenzo sorriu. “Vamos ao Municipal!” Chegando lá, cumprimentou funcionários e deu a carteirada: “Anda garoto, joga logo isso daí e vamos embora”. Lorenzo, então, subiu a escadaria lentamente, visivelmente emocionado. No andar intermediário, tirou a tampa e segurou com as duas mãos a caixinha. Num repentino segundo, nuvens de uma bailarina morta embelezavam todo o salão. Alguma música sublime tocava sem disco ou menos voz. A mãe de Lorenzo nunca sequer tinha entrado no Theatro Municipal. bruno graziano

bruno graziano

Arroz à grega Se chamava Pedro, mas era apelidado de Beija-Flor só porque já tinha outro Pedro no time, igualmente zagueiro e igualmente contador na Luz, veja só, outro Pedro, mas esses dizem ser um grande dum mulherengo que é visto acompanhado dia após dia na Ipiranga, mesa principal do Sujinho, contrafilé bem passado pra dois, troca o arroz branco por um à grega, duas taças de vinho e uma água tônica, café?, sempre, óbvio, pra distrair a moça enquanto preenche o cheque. Beija-Flor nasceu na Liberdade e foi engraxate ali no Mosteiro de São Bento até outro dia, mais precisamente até o Carnaval de 1996, de onde subia do Bexiga, onde fora comemorar o título da Vai-Vai, quando passou na casa dos pais pra ver que a tristeza chegara ainda antes da quarta-feira de Cinzas: o velho tinha morrido. Foi quando a mãe do Beija-Flor colocou o quarentão na parede: é hora de assumir o negócio do pai, seu moleque vagabundo! Era a redenção de um dos melhores zagueiros do Glicério, que aposentou o Nugget, nunca mais lustrou um sapato na vida e passou a ser um baita dum bom vivant, dono de uma sala daquelas das grandes e exímio boêmio namorador do centro. Passada essa vida e glória de Pedro Beija-Flor, do inferno ao céu num carnaval, voltemos à esquina da Ipiranga: é na mesa que dá rosto pra Rio Branco que pelo menos três vezes por semana Beija-Flor é visto com uma jovem mulher da vida que ele paga para lhe acompanhar num belo dum contra com fritas pra dois antes de seguir pro quarto e cozinha

que ele mora passando a Praça do Patriarca. Lá, dizem, deita as mulheres na cama com cabeceira virada pro Martinelli, veste nelas um da coleção de sapatos que têm – preto pras loiras, vermelho pras morenas e cano alto pras mais misteriosas, de pouca fala - e primeiro engraxa, depois faz valer a hora na cama por cento e vinte reais como prometera ao pegar as mãos de todas elas na hora do café no Sujinho, aquele que disfarça o cheque que ele jamais preencheu – o restaurante que não aceita cartão é cliente antigo do velho escritório contábil do pai – e deus – do velho Pedrão.

Mirante, Itália e Banespão O Bento queria ser limpador de vidros desde que ainda menino brincava de carrinho numa sala do quadragésimo quarto andar do Mirante do Vale onde a mãe trabalhava de segunda a sábado e ele esperava a última sexta-feira do mês só pra ver o limpador de vidros passar esfregando a bucha na vidraça do Seu Dias, a hora perfeita pro Bento baixar as calças e mostrar o saco de cinco anos de idade. E aos dezoito virou, finalmente, um grande dum limpador de

vidros dos mais requisitados da cidade, tanto que o Mirante do Vale ficou pequeno pro Bento dos Vidros, como já era conhecido aos trinta desde que saiu patinando sem fronteira por toda a parte, Paulista, Cambuci, Brás, criando um próprio centro expandido em torno do coração do Anhangabaú. O que eu gosto mesmo é de sentar no pé do prédio na manhã seguinte e ficar lá embaixo só vendo o vidro brilhar, contou o Bento, lata de cerveja na mão, cigarro na boca, bunda na guia da calçada que dá pé pro Edifício Martinelli. Gargalha que só ele, o Bento, é daqueles caras de risada fácil, mesmo quando me diz que tem patrão que paga mal pra cacete ou então que pouco tempo tem pra arrumar uma mulher, passo o dia pendurado lá em cima, como é que vou namorar quase caindo dum prédio de cinquenta andares?, pergunta. É maluco por essa coisa de prédio grande e vai contra quem pensa que o Mirante não é o maior arranha-céu de São Paulo – Mirante do Vale, Itália e Banespão, nessa ordem, e olha que eu subo e desço os três vira e mexe, o tempo todo, ah, dessa gente que diz que o Itália é maior, eu te provo com uma régua de escola, vamos lá. E foi me puxando pela Libero Badaró, parando de prédio em prédio pra fazer uma piada com o porteiro ou marcar uma limpeza com um zelador. Conhecido por toda a área que ele chama carinhosamente de grande Viaduto do Chá, é ainda motivo de brincadeira entre as crianças ali já perto de contornar a Biblioteca Mario de Andrade, ô, Bento dos Vidros, seu veado!, pega aqui, moleque, responde o limpador, mostrando o saco, me pedindo desculpas e contando sem dedos nem calculadora os andares do prédio ao lado. bruno graziano


OcicerO - EDIÇÃO ZERO - JULHO 2013 - 19 resenha

O paulistano de Irará

por miranda rodrigues Tom Zé é um gênio. Disso, ninguém discorda. Se discordam, paciência. O que interessa aqui é o acaso lírico de um baiano nascido em Irará que escolhera a frenética rotina de São Paulo para viver até os dias de hoje. Tom Zé mora em Perdizes, num prédio da zona oeste, cuida diariamente de seu jardim, compõe músicas na periodicidade em que corta as unhas, lançou discos pertencentes a listas de melhores de todos os tempos, já brigou muito no palco e retrata em suas letras as mudanças que São Paulo sofre desde os anos 1960. A São Paulo obsessiva de Tom Zé trata-se nitidamente da região central, onde define, ácido, como: “...são oito milhões de habitantes, de todo canto em ação, que se agridem cortesmente, morrendo a todo vapor, e amando com todo ódio, se odeiam com todo amor... Salvai-nos por caridade, pecadores invadiram, todo o centro da cidade, armadas de rouge e batom, dando vivas ao bom humor, num atentado contra o pudor, a família protegida, um palavrão reprimido, um pregador que condena, uma bomba por quinzena, porém com todo o defeito, te carrego no meu peito, São, São Paulo, meu amor. São, São Paulo, quanta dor....” (na música “São Paulo, meu amor”, de 1968, vencedora do IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record) Na formidável “A briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel” (música do disco Se o Caso é Chorar, de 1972), Tom Zé usa uma metáfora arquitetônica de-

bochada para externar o quanto o crescimento do centro o obrigou a receber novas tendências, novos moradores, novas rotinas e uma nova “cara”, sem nenhuma permissão ou menos ligeira parcimônia. A letra tornou-se ainda mais pungente quando o Hotel Hilton deixou o prédio da Avenida Ipiranga, em 2004, partindo para a Avenida das Nações Unidas, nas margens do Rio Pinheiros. Num trecho chave, temos a rixa: “...E o Hilton sorridente disse que o Edifício Itália tem um jeito de Sansão descabelado, e ainda mais, só pensa em dinheiro, não sabe o que é amor, tem corpo de aço, alma de robô, porque coração ele não tem pra mostrar, pois o que bate no seu peito é máquina de somar. E o Edifício Itália sapateou de raiva, rogou praga e até insinuou que o Hilton tinha nascido redondo pra chamar atenção, abusava das curvas pra fazer sensação, e até parecia uma menina louca, ou a Torre de Pisa vestida de noiva...” Já em “Augusta, Angélica e Consolação” (do disco Todos os Olhos, de 1973), Tom Zé profere um assaz jogo de nomes e significados com as agitadas vias femininas que tanto fervem a rotina do centro expandido: “Augusta, que saudade, você era vaidosa, que saudade. E gastava todo o meu dinheiro, que saudade, com roupas importadas e outras bobagens, Angélica, que maldade, você sempre me deu bolo, que maldade, e até andava com a roupa, que maldade, cheirando a consultório médico, Angélica, Augusta, graças a deus, entre você e a Angélica, eu encontrei a Consolação, que veio olhar por mim e me deu a mão”.

divulgação

Filme de 1965 narra a explosão do centro pelos automóveis

Em 2008, a fita define o anseio da classe média central

É dele também “A Gravata” (do disco Tom Zé, versão de 1970), onde o símbolo do homem trabalhador do mundo dos negócios que vai à cidade todos os dias para ganhar o pão é inserido na própria fisgada sentida por Tom Zé ao plantar raízes na capital. Porém, sempre irônico, o compositor usou das entrelinhas para mostrar certa angústia em acostumar-se com a pragmática Babilônica que acabara de aterrizar: “A gravata já me laçou, a gravata já me enforcou, além. A gravata já me laçou, a gravata já me enforcou, amém. Um cidadão sem a gravata é a pior degradação, é um coroa de lata, é um grande palavrão, é uma dama sem pudor, estripitise moral, é falta de documento, é como sopa sem sal...” E para fechar (pois não tenho mais toques disponíveis, caso contrário caberia mais uma dúzia de letras), destaco a deliciosa “Não buzine que eu estou paquerando” (do disco Grande Liquidação, de 1968, seu álbum de estréia), um ode ao amor inocente em tempos de caos urbano. Fina sem ser ridícula, bem-humorada e leve sem ser babaca, a canção detona qualquer estresse e aglutina todo um sentimento que nunca morre e nunca morrerá nesta cidade que nunca deixará de ser um canteiro de obras em trânsito e congestionada: “Sei que o seu relógio está sempre lhe acenando, mas não buzine que eu estou paquerando. Eu sei que você anda apressado demais, correndo atrás de letras, juros e capitais. Um homem de negócios não descansa, não. Carrega na cabeça uma conta corrente, não perde um minuto sem o lucro na frente, juntando dinheiro, imposto sonegando, passando contrabando pois a grande cidade não pode parar. Sei que o seu relógio está sempre lhe acenando, mas não buzine, que eu estou paquerando...”

colaboraram nesta edição bruno graziano, 25, nasceu na linha azul, mas foi viver na república pra correr na são luiz aos domingos e ficar comparando os prédios da avenida, sobre a qual escreveu para esta edicão.

gustavo gialuca, 34, não pode olhar pra sua cara que já sai desenhando no primeiro poste que vê pela frente: que bom que tivemos espaços em papel pra ele retratar boas caras do centro.

bruno sobrante, 28, é o primeiro a ir embora do bar pra não perder o último ônibus pra penha, ainda que sobre tempo pra contar de quando vinha ao centro com a avó, tema de seu texto.

heloísa fleming, 22, gastou uma caixa de lápis preto pra fazer as ilustrações desta edição – inclusive a capa – e emprestou o traço, literalmente, pra dar a cara às nossas ruas centrais.

denise godinho, 25, jura que não é parente direta dos donos da casa de mesmo sobrenome, mas foi lá que ela parou pra escrever pro nosso jornal – e comer uns bolinhos de bacalhau, claro.

hugo moura, 24, trabalha tanto que jura que tem faltado tempo pra ir no cinema, mas basta levantar a bola pra ver o quanto ele entende das velhas salas pornô – o windsor que o diga.

estevão bertoni, 30, escreve obtuários de gente de verdade e de prédios que não existem mais, mesmo que garanta que a saudade da kilt é questão profissional ou até que a morte os separe.

luciano costa, 25, é um profissional do jornalismo do sexo, e já perdeu a timidez em assumir que faz trabalho de campo (apuração, dizem os jornalistas) em casas escuras pela são joão.

guilherme horta, 31, risca a faca pela santa cecília desde que veio do inteior pra riscar páginas de jornal, inclusive aqui, onde salvou a pátria fazendo as linhas destes mais de cem mil toques.

paulo silva jr., 25, se irrita bastante com futebol, tanto que resolveu esquecer que ele existe pra falar de times que jamais viu jogar, mas adoraria, ainda mais aqui tão perto da ipiranga.

ocicero.com

jornalocicero@gmail.com facebook.com/ocicero edição zero – julho de 2013 tiragem: mil cópias preço: dois mengos gráfica: metromídia capa: heloísa fleming produção executiva: paulo silva jr. (11) 9.9494.8478 bruno graziano (11) 9.7465.1308 Redação: Avenida Ipiranga, 1071, sala 408 República, São Paulo-SP CEP: 01039-000


Não Buzine Que Eu Estou Paquerando Sei que o seu relógio Está sempre lhe acenando Mas não buzine Que eu estou paquerando Eu sei que você anda Apressado demais Correndo atrás de letras, Juros e capitais Um homem de negócios Não descansa, não: Carrega na cabeça Uma conta-corrente Não perde um minuto Sem o lucro na frente Juntando dinheiro, Imposto sonegando, Passando contrabando, Pois a grande cidade não pode parar Sei que o seu relógio está sempre lhe acenando, Mas não buzine, que eu estou paquerando A sua grande loja Vai vender à mão farta Doença terça-feira, E o remédio na quarta, Depois em Copacabana e Rua Augusta, Os olhos bem abertos, Nunca facilitar, O dólar na esquina Sempre pode assaltar Mas netos e bisnetos Irão lhe sucedendo Assim, sempre correndo, Pois a grande cidade não pode parar, (Tom Zé, 1968)


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