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de volta às esquinas!

edição três março 2014 R$ 2


2 – OcicerO – edição três – março 2014

VERÃO O QUÊ? havia muito não se via no país, tanto pela efervescente temporada que terminara a todo vapor com as manifestações populares nas ruas de centenas de cidades, quanto pelo que vem por aí, o dueto Copa do Mundo/eleições que absorve todos os trânsitos e agendas que se têm para 2014. Escolher um tema para a edição de OcicerO é a parte mais difícil na concepção do jornal. No primeiro, em julho/2013, o mote era um lugar, quando

com o período mais quente do ano, a reportagem de OcicerO visitou a Cracolândia paulistana, lembrou o racionamento de energia em Buenos Aires, narrou a história do Guarujá, falou com quem faz cinema em Pernambuco, contou a história dum livreiro em Florianópolis, resgatou a evolução dos trajes de banho e ainda passou, com crônicas, contos e perfis, por traumas, crises, constatações e devaneios, de pessoas e de insetos, de praia e de cidade, de amantes e de perseguidos por esses dias que vão de dezembro a março. Além disso, ilustrações, charges

e quadrinhos seguem dando forma a esse monte de histórias – nunca antes OcicerO havia reunido tanta gente, 32 no total. Ah, e o que cada página dessas tem a ver com o verão? Depende muito. Tem gente que pensa que tudo não passa do fato da Terra girar em torno do sol e, não bastasse isso, ainda ser inclinada, ou seja, alguma época do ano acaba tendo termômetros mais quentes que outras, ora. Este OcicerO discorda. Depois de muito suar e agonizar com um ventilador barato, só teria de discordar. Se o verão foi bom ou ruim? Isso a gente vê no outono. Até. isadora biella

Parece clichê, conversa de elevador, mas esse verão que está pra terminar foi quente. Foi quente porque dessa vez – ainda que pareça que isso é falado em todos os anos – as temperaturas bateram recordes de verdade na nossa cidade de São Paulo, o suficiente pro tradicional tá calor, né superar as médias tradicionais e virar assunto, desculpa, pauta. Quente também porque a virada do ano se deu num aquecimento social e político como

tratamos do centro de São Paulo e a produção se baseou na região, histórica e viva, pra falar de diversos assuntos que se dão por ali; no segundo, novembro/2013, a ideia central foi a do álcool, e então traçamos histórias onde a bebida foi parte fundamental das tramas; agora, a terceira edição lançada neste começo de março tem como eixo o verão, ideia que foi sendo amadurecida no pós-festas pra dar sentido nessas 36 páginas lançadas logo após o Carnaval e próximo do fim da estação. Partindo do princípio que tudo teria de ter alguma relação

Ar-condicionado: liga ou desliga? Diz uma história que a ideia de condicionamento de ar nasceu na Roma antiga, onde engenheiros informais utilizavam a água de aquedutos em forma circular através das paredes das casas. Aí chegou um chinês chamado Ding Huan, no século ii, que deu um tapa e fez uma espécie de ventilador montado com sete rodas; depois, também na China, eram construídos salões frescos, nome que os imperadores, frescos, deram para o agradável ambiente. A ciência evoluiu, a sociedade já vivia o século xviii e aí dois caras mostraram que não estavam de brincadeira: com éter e álcool, Benjamin Franklin e John Hadley criaram uma forma onde disseram ser possível gelar um cara até a morte num dia de verão intenso. Pra fechar, o ar-condicionado como a gente conhece hoje é obra já do século xx, de Willis Carrier, tudo isso pras pessoas agora ficarem discutindo: liga ou desliga o ar-condicionado?

liga “Minha vida é uma dentro e outra fora de um ambiente com ar-condicionado, entende? É uma questão de dignidade, de refinamento. Tenho tendência ao suor. E admito, não suporto suar. Acho uma reação grossa do corpo humano. Quando vejo alguém suando, tenho nojo, ojeriza. Me dá vontade de chegar no sujeito e dizer: ‘Cara, sai fora daqui com essa cachoeira de fedô!’. E não me venha dizer que uma mulher suando é sexy. Ah, não, não mesmo. Me dá soluços de desgosto quando uma garota chega perto de mim com aquela gotícula sudorípara rastejando pela nuca. Não consigo nem cumprimentá-la. Repudio mesmo, sem dó. No meu apartamento tenho quatro, um na sala, um na cozinha, um no banheiro e

desliga um no meu quarto. Esse país tem um verão úmido muito cruel, então nessa época do ano eu saio do meu apê fresquinho direto pro ar-condicionado do carro e depois já corro pro gelo do meu escritório. Trabalhando, coloco no máximo da potência. Costumo brincar que se acabar a força, eu derreto igual chiclete no asfalto. E digo mais, não viajo lá pra cima de Brasília mas nem por um milhão. Você está louco? Amazônia, essas coisas, que você sua na sombra, tô fora. Eu gosto mesmo é daquele frescor subindo pela minha lombar dando aquele arrepio gostoso. Ai, que delícia!” Maximiliano de Albuquerque, arquiteto morador do bairro de Higienópolis

“Rapaz, o lance é o seguinte, serei bem direto: pra mim ar-condicionado é desvio de caráter! Sim, porque o cabra que não admite a própria condição climática, que se mude do país. Minha teoria é clara: Deus deu o calor para quem merece! E lógico, nem acredito em Deus, mas foi pra figurar melhor. A questão é que essa abstinência que dá em certas pessoas quando estão num ambiente sem essa porra desse ar de cuzão é uma coisa demente, irracional. Uns me chegam com o argumento das mudanças climáticas, da poluição e coisa e tal. Mas esquecem que, em grandes centros, a enorme quantidade desses aparelhos ajudam a elevação de temperatura em ruas e avenidas cheias de edifícios refrigerados artificialmente. É mais um exemplo da tendência do conforto acima

de tudo, acima de todos. Meu pai me contava que na época dele todos tinham brotoejas saltando no pescoço, no verão, e que esses eram os mais inteligentes. Suar é expelir o que tem de ruim em seu corpo. O calor nos poros é a embriaguez natural, biológica. Nada mais belo que uma senhorita banhada em seu mar de suor, como se cada mulher tivesse uma Ipanema, uma Copacabana no próprio corpo. Não há suicídio no verão, podem notar. Não há depressão, não há falta de amor. Isso tudo é fenômeno do inverno, dos países frios. Eu só me sinto vivo quando começo a suar, e o ar-condicionado que vá pro diabo que lhe carregue.” Rica Sampaio, zelador de um prédio no bairro de Santa Cecília


OcicerO – edição três – março 2014 – 3

O Novo Verão da [outra] Lata

A vida de um artista plástico em plena Cracolândia. por raphael sanz carroça e voltou para a rua Glete. Já faz muitos e muitos verões que a Cracolândia é, literalmente, uma pedra no sapato daquela parcela enorme de paulistanos que despejam regras – para os outros, obviamente – vindas diretamente dos seus respectivos intestinos grossos. Até pouco tempo atrás, a operação sufoco aplicada pela gestão Gilberto Kassab dava carta branca aos guardas civis e policiais militares para que brutalizassem os usuários de crack da região a fim de expulsá-los mesmo – aqui n´OcicerO não precisamos dar voltas no assunto – para valorizar

de varrição e zeladoria com carga de 4 horas diárias, mais duas de qualificação, salário de R$15 por dia de trabalho e a oferta de três refeições gratuitas - dois hotéis oferecem café da manhã; nos outros, todas as refeições serão realizadas no Bom Prato da rua Dino Bueno. O serviço é do governo estadual, mas a prefeitura está pagando, através da ong Brasil Gigante, cada prato servido.” E muita gente perfumada chiou. Mas o programa não é nenhuma maravilha para muitos dos moradores. “Peguei o trampo lá, comecei a varrer, só que eu não curto não, porque muitos não varrem. Uns trabalham, outros não”, critica Índio Badaross. Ainda disse que uns se beneficiam mais do que outros e reclamou das instalações do hotel. “Aqui (no barraco da rua Glete) é mais fresquinho, enquanto lá no hotel é uma fornalha, não dá pra dormir direito, pelo calor e pelo barulho, porque aquilo é um ninho de cão.” Mas não chove aqui no seu barraco, Índio? “Não, olha só o ângulo desses prédios, quase não cai chuva aqui, mas nem tem chovido mesmo, pega nada. E aqui ninguém mexe comigo. Aqui nesse lugar, meu irmão, já estou há quase oito anos. Aí agora eu tô com um quartinho lá, mas um cara como eu, que passou muito tempo na rua, não se acostuma a ficar preso num quarto, não acostuma. Até porque lá não tem muito espaço para eu deixar minha arte, nem muita privacidade, você não pode levar ninguém, não pode levar visita, você tem que ficar tipo isolado, entendeu? Já aqui, não, posso receber vocês, posso receber as amiguinhas, ficar

de boa, entendeu? Lá é molhado, eles não deixam fazer nada.” Por “amiguinhas”, Índio se referia às suas eventuais namoradas. “Estava com outra esses tempos, mas tive que mandar ela ir embora, porque era muito brava, agora tô com essa aqui que até me tira a vontade de fumar”, diz apontando para o barraquinho onde a moça tirava um cochilo. “Eu, quando fumo o crack, o crack pra mim não traz essa energia ruim que traz pros outros. Eu fumo e consigo trabalhar, pintar, conversar... consigo satisfazer as mulheres, nunca nenhuma mulher reclamou de mim. Agora tem cabra por aí que fuma o crack e depois não levanta e a mulherada reclama. Graças a deus nenhuma mulher nunca reclamou de mim, não”, e enquanto terminava de dizer esta última frase, a moça gargalhou de dentro do barraco e disse para este repórter: “Isso é verdade moço, pode escrever.” Índio é artista plástico, pintou inúmeros quadros com os quais transformou a rua Glete em uma galeria de arte a céu aberto em plena Cracolândia, quebrando as pernas e fazendo morder a língua aqueles que discriminam os usuários. E ele não é bobo. Impulsionado pelo amigo Zezão, famoso grafiteiro que mora e possui ateliê ali próximo, Índio se autointitula o Basquiat brasileiro e não é à toa. Além de alguma semelhança física, o pernambucano de Petrolina estudou um livro do grafiteiro estadunidense antes de sair pintando por aí. “O Zezão me deu o livro e disse pra eu estudar. Li, estudei, passou um tempo, ele tomou o livro da minha mão e disse: agora vai lá e pinta,” contou. Seus quadros são gabriel uchida

Vivendo há oito anos na rua Glete, em um belo dia deste peculiar e desértico verão sem chuvas, nosso xará Cícero Rodrigues, mais conhecido como Índio Badaross, ganhou uma geladeira. Saiu do seu barraco na rua onde todos o conhecem e percorreu com a sua carroça algumas quadras até o local onde estava o doador. Muito educado, agradeceu, e carregou sozinho a carroça com a pesada geladeira. Cansado pelo calor, pela falta de umidade e pelo enorme esforço físico, Índio entrou dentro da geladeira – mais fresquinha, ainda que desligada – fechou-se lá dentro e tirou uma soneca. Em meio ao descanso, sentiu que alguém levantava e começava a puxar sua carroça. “Daí eu pensei: olha que lazarento, tá querendo roubar minha carroça e nem sabe que eu tô aqui, mas deixa quieto”, e ficou ali deitado, quietinho. Além da geladeira, ainda tinha um monte de latas e entulhos que ia levar ao depósito de reciclagem da Cracolândia para vender por uns trocados. O caminho deve ter demorado um pouco mais do que o normal devido ao peso carregado na carroça e Índio ficou ali, deixando quieto. Ao chegar no depósito, escutou o larápio negociando a troca dos objetos coletados e até da geladeira, a poucos centímetros da carroça. “Foi quando eu saí da geladeira”, conta, caindo na gargalhada. “Mas ele levou um susto, meu filho! Que eu nem consegui ficar sério, daí eu disse: pô, meu amigo, muito obrigado por ter trazido minha carroça aqui no depósito, eu tava cansadão e sem forças pra trazer, mas tu trouxe ela pra mim enquanto eu descansava”, e riu, mais do que falou. Negociou, por sua vez, os objetos que levava na

a região e abrir as portas da Nova Luz para a especulação imobiliária. Nova Luz? Era comum passar na região e ver enquadros gigantescos, policiais agredindo grupos de dezenas de pessoas a céu aberto e luz do dia e até mesmo repassando drogas, segundo apuração de dezenas de repórteres investigativos. Mas foi nesse verão, na temporada 2013/14, sem chuvas e com racionamento de água e de ventiladores, que essa abordagem do poder público começou a mudar. Não que ela seja, hoje, uma maravilha. Mas pelo menos não é mais uma completa desgraça de política pública. Com a saída do antigo prefeito neofascista após a vitória do novo prefeito filiado ao pt, o poder público municipal deu um salto estratosférico nessa questão. Acontece que o programa Braços Abertos, infelizmente, só foi posto em prática por questões estéticas, após a construção de uma “favelinha” nas ruas da região, que incomodava as vistas dos paulistanos cagadores de regras. Mas foi. E isso foi um salto. Entre dezembro do ano passado e o último mês de janeiro, usuários e moradores da Cracolândia ocuparam as ruas em frente à estação Julio Prestes e nela construíram seus barracos escandalizando as madames dos Jardins que sequer pisam na região e arrepiam seus cabelos cheios de laquê através das telas dos seus notebooks. O programa em si, já exaustivamente explicado em toda sorte de veículo de comunicação, funciona mais ou menos assim, segundo apuração da revista Carta Capital: “A operação prevê a hospedagem em um dos cinco hotéis conveniados da região, a contratação para serviço

Índio Badaross toca seus quadros sem largar o cachimbo: ‘Muitas vezes as pessoas perguntam: como que o cara pode estar louco e normal ao mesmo tempo?’


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que vêm na minha mente, entendeu? E depois eu fico ali, imaginando: pô, de onde que saiu isso? E sai na hora! Na hora que vem eu começo a fazer sem pensar muito e só depois que eu vou refletir pra tentar descobrir da onde veio essa ideia. Eles (os quadros de rostos) não são muito diferentes uns dos outros, mas eu não sei fazer o mesmo quadro, então eles saem todos meio parecidos, só que diferentes. É porque acontece alguma coisa comigo que só sai isso aqui, entendeu?” Entendi. Outra característica da sua obra é o fato de ele se utilizar de certa forma de uma técnica colocada há quase um século pelo célebre movimento antropofágico, lá nos tempos do Modernismo. Índio

me levou até a parede improvisada do seu barraco onde havia diversos quadros seus pendurados. Havia telas convencionais, mas também muitas placas de madeira e plástico encontradas no lixo que foram reaproveitadas pelo artista. Pegou um dos quadros para me explicar como funciona seu processo de produção. “Pra fazer um quadro dá trabalho, olha por exemplo aquele lá. Tem uns sete meses que eu fiz esse desenho. Esse aí era tipo um quadro com uns planetas desenhados e aí eu peguei e fiz essas caras em cima dos planetas”, e apontou para os rostos mais arredondados que o normal na sua obra. E a partir dessa obra, foi explicando com uma paciência e uma paixão impressionantes os

canibalismos de seus outros trabalhos. E reclamou. “Olha esse aqui, rasgaram! Tem gente que não gosta de mim, mas que não vem e desconta em mim, eles vai lá e desconta nas minhas coisas quando eu não tô perto. Aqui, ó o quadro rasgado, que sacanagem!” “Muitas vezes as pessoas perguntam, como que o cara pode estar louco e normal ao mesmo tempo? Mas eu sou assim, entende? A loucura pra mim não faz diferença, não mudo com ela, nunca precisei de roubar nem matar, eu só quero comer, beber, dormir, pintar, conversar, trabalhar, sempre fui assim, entendeu? Vivo a vida devagar, com calma. Há oito anos nessa rua aqui”, conta. Ao ser questionado se ele é realmente

indígena, Cícero afirma que não, mas que é descendente de uma mistura de índios com caboclos e fala da bisavó cabocla com muito orgulho e muita saudade. “A velha era brava, cabocla brava, até morrer ela cuidava da terra dela, plantava, colhia, cozinhava, fazia as coisas dela e ainda dava mocotó pro velho pra ficar legal de noite na cama.” Então é por isso que viveu tantos anos, rebati, e ele deu risada. “Mais de cem anos.” A família era dona de pedaços de terra no sertão de Pernambuco, perto de Petrolina, que, segundo ele, era um paraíso. “As vezes eu ia sozinho pro meio do mato e ficava lá, na maior paz, tenho muitas saudades daquelas terras, faz oito anos que não volto lá.” gabriel uchida

sempre muito parecidos, mas nunca iguais, na maioria rostos de pessoas fictícias com alguma influência bem visível, consciente ou não, do cubismo e do abstracionismo. Só para pontuar: ele sempre pinta quando está muito louco. “Eu só faço aí os meus trabalhos tudo é quando eu tô brisado, entendeu, irmão? Ou quando eu tô brisado ou com fome ou às vezes eu tô desgostoso porque ajudei as pessoas e elas pisaram em mim, mas aí eu não desconto em ninguém não, eu desconto é nas tintas. A minha maldade é pra mim mesmo, entendeu? Eu mesmo é que devia gostar mais de mim”, desabafa. E na sequência explica a fonte de inspiração que o faz pintar os rostos. “Essas caras aí são caras

‘Eu só faço meu trabalho quando eu tô brisado, entendeu?’, diz o artista, que se autointitula o Basquiat brasileiro

História secreta do crack Saudosista, o artista plástico conseguiu encontrar uma forma bem saudável de lidar com uma droga nem um pouco saudável, a qual sabemos tem a capacidade de definhar e até matar um usuário em um curto período de tempo. O interessante, e chocante, é a forma como é narrado a gênese do tráfico crackeiro no livro Aliança Sombria (Dark Alliance, no título original) do famoso jornalista investigativo estadunidense Gary Webb. O Aliança Sombria foi editado a partir de uma série de reportagens de Webb para o San Jose Mercury News, em 1996, na qual ele seguiu os passos do caso Irã-Contras e a partir dele passou a ir atrás de famosos traficantes, desvendando rotas do narcotráfico conhecidas da cia, a agência de inteligência dos eua, e fazendo uma denúncia, digamos, de “gente grande”. Webb foi acusado por todos os lados de utilizar falsas

fontes e manipular informações, foi ameaçado de morte, perdeu o emprego, sofreu bullying midiático nos eua e morreu em 2005. Pela a versão oficial, nosso valoroso colega cometeu suicídio. Segundo a obra do repórter “suicidado”, nos anos 80 a cia comprava crack e heroína dos contras da Nicarágua para financiá-los, dando-lhes capital de giro para a compra de armas para empreender a luta contra a recém-vencedora Revolução Sandinista que depôs o ditador Anastásio Somoza em julho de 1979 e a qual suas políticas contrapunham naquele país os interesses dos Estados Unidos. E com o atacado em mãos, a cia começou a promover o varejo. E o bastião capitalista da moral e dos bons costumes passou a vender e distribuir drogas para seu próprio povo. Fabricou traficantes milionários e diversas Cracolândias em cidades como Los

Angeles, Oakland e San Francisco, na costa oeste. Larry Pinkney, veterano líder do Partido dos Panteras Negras (ppn), fundado em outubro de 1966, em Oakland, deu recentemente uma entrevista ao site brasileiro A Verdade acusando o governo dos Estados Unidos de ter promovido uma guerra química contra os Panteras Negras naquela mesma época. Denúncia que é comprovada na investigação de Webb. “É um fato irrefutável que o governo dos Estados Unidos fez uso de guerra química, não apenas contra o Partido dos Panteras Negras, mas também contra os negros e outras comunidades. Não é mera coincidência que despejos de lixo e materiais perigosos são preferencialmente lançados próximos a comunidades pobres e negras e nas terras de populações indígenas nativas,” denuncia Pinkney. E prossegue: “É também um fato irrefutável que o governo dos Estados Unidos fez uso de um horrível tipo de subterfúgio pelo qual drogas pesadas, como a heroína, ficassem facilmente disponíveis especialmente em comunidades negras. Isso foi devastador para as comunidades negras, e suas terríveis consequências são sentidas

profundamente até os dias atuais. Além disso, hoje, o fenômeno do crack e da cocaína não só não é coincidência, como também serve tanto para facilitar a violência como a desunião nas comunidades negras e em outras, enquanto, ao mesmo tempo, promove outra arma legal para o governo botar na prisão massas de pessoas pobres,” afirmou. E isso pode ser facilmente revisto na realidade brasileira atual, tanto nas favelas e comunidades carentes da periferia quanto na Cracolândia do centro de São Paulo. Segundo a mesma apuração da revista Carta Capital citada no início deste artigo, assistentes sociais da prefeitura de São Paulo do programa Braços Abertos reclamavam que a maior parte do tempo ficavam a mediar conflitos entre os moradores da região, fortes usuários de crack. Isso sem contar os diversos relatos de brutalidade policial. Ainda segundo Larry Pinkney, “o fato é que o governo (dos Estados Unidos, no caso) é profundamente cúmplice do uso de drogas que ocorre hoje, pois essa situação serve para manter negros e outras comunidades neutralizadas e sob controle. A assim chamada guerra às drogas do governo, a exemplo de sua guerra ao terrorismo, é falsa e constitui mecanismo para repressão

e controle político. A responsabilidade do governo dos Estados Unidos nesse horror pode ser resumida em apenas duas palavras: subterfúgio e negação,” finalizou. No Brasil não é muito diferente com a Cracolândia. Até pelo fato mais do que batido de que todas as nossas ações antidrogas são cópias mal feitas de políticas dos eua, algumas delas até já descartadas pelos amos do norte por ineficiência e fabricação de danos. O fato de uma região central com inúmeras obras arquitetônicas exuberantes, como a Estação da Luz, a Sala São Paulo e a Estação Júlio Prestes, estar completamente abandonada e povoada majoritariamente por negros, pobres e viciados em crack é um prato cheio para o empreendedorismo canalha e desumano da gentrificação e da especulação imobiliária. É a versão tupiniquim, ou melhor, verde-amarelista do dueto subterfúgio e negação. Dueto esse traduzido em políticas públicas historicamente lamentáveis que não visam de forma alguma resolver o problema, pelo contrário, criam novos e mais complexos para aquecer os negócios dos financiadores privados de campanhas eleitorais.  (rs)


É muito, muito tesão, de quebrar o ovo, de balançar o exoesqueleto. Nasço, uma casquinha branca, frágil como o sorvete. Os sorvetes derretem lá fora e os humanos se esparramam nas calçadas, como baleias encalhadas. Eu me atrapalho para sair depressa. Os humanos matam os cupins, temos que ser rápidos, eles não gostam de dividir a madeira. Não gostam de dividir nada. Matam as aranhas por cantos que não usam, as moscas por uma comida que não vão comer. O fogo do meu abdômen é vulcão; é temporada de cio na praia para tudo que se move. As barrigas jambo das mulheres ovulando, o umbigo fértil. Os homens debaixo dos guarda-sóis, exibindo suados membros malhados. Quando usam biquíni ou sunga, quando nos espatifamos em suas havaianas, eles ficam prosa, porque somos uma praga. Mas também somos festeiros. O nosso bacanal é nas lâmpadas, o deles é no ar-condicionado. Siriris sabadavam num sábado qualquer. O ar tem que estar quente e úmido, como se fosse uma pocinha d’água para sorver com meu canudo natural. As fêmeas damas se arrastam, o vestido é de cobre. Há luz na esquina. E como se enfeitam, farfalham as asas, batendo-as contra o breu. É um baile, mas não de gala, é de funk. Aproximo-me. Meu quadril para lá, meu quadril para cá. Estou pagodeando. O humano fez a luz ser perigosa. Tem luz que eletrifica, queima, te torna mancha no chinelo. Tem luz que te cola, morrer de fome, de um desejo incompleto, o pau ereto do inseto. A luz que eu quero é redonda, às vezes amarela como queijo, às vezes branca, leitosa, meu copo de leite. A luz é ela, a menina, morena como barata. Eu a vejo de longe, as asas de purpurina, antenas tremulando. É rainha. Na revoada tem siriri, tem sarará, tem aleluia. Bate em mim a mariposa orgulhosa, mas tão louca da luz, adora tostar, um churrasco com asas. Tem gafanhotos, verdes, metidos a atletas saltadores. Tem besouros gigantes, negros lutadores de sumô. E tem os humanos, os animais no topo da cadeia, sem dentes nem garras, o exoesqueleto uma geleia, que eles lambuzam de loção. No verão se multiplicam pelados, rezando por uma chuva que não vem, mas maldizendo-a quando ela estraga sua ida à praia. Os dentes quadrados lotados de restos de caranguejo. O baile é na orla, tem batuque. O sol acabou de pousar e as pessoas são de areia, assando. Tem cheiro de chuva, mas é uma chuva silenciosa e cativa,

beatriz garcia

OcicerO – edição três – março 2014 – 5

Siriris sabadavam num sábado qualquer

Já parou para imaginar o que pensam os insetos que rodeiam a lâmpada do quintal? por cecília garcia barrada pelas montanhas. No canto do olho, as siriris dançam. Endiabradas, num frenesi, que delícia! Embaixo e chupando a água de coco, a criança quase me engole. É terrível, a morte dentro

da boca, é o fim mais nojento. Sabe, a siriri disse, me sorvendo com os olhos de âmbar, aqui parece um sertão. A asa fica seca, quebradiça. Olha a minha boca, ela me mostrou as pinças, seca

como um deserto. É um verão esquisito, ela reclama dengosa. Ai, a gente quer procriar, tá tudo eriçado, azucrinado, na discoteca dos insetos somos sempre os menores. Ela põe não sei quantas

patas na minha, na praia pode ser prelúdio de samba, mas aqui em cima, é festa particular. O protetor solar escorre que parece látex na seringueira, alguns irmãos são presos, outros esfarelados, os humanos gostam de matar. Então ela voa, e eu voo. A terra prometida, a Insetopia, onde o mel nasce do plástico e as formigas encontram o amor, fica no corpo moreno de uma siriri. Eu a sigo. Um carro bateu no outro, no cruzamento. Cheira sangue, mas é verão, então se faz uma algazarra, a folia é de todos, os confetes são feitos de dentes. A gente atravessa um imenso milharal de turistas loiros procurando uma luz mais íntima. O amor, até o das criaturas pequenas, é mais gostoso escondido. Nunca fiz isso antes, ela diz tímida, a bunda quase encostada na minha, soltando um cheiro amadeirado. Tenho medo de errar, tenho tanto buraco no corpo. Outros siriris já desceram e estão quebrantando as asas, como é de costume, porque casa de cupim é nas superfícies. Uma mulher berra da varanda, oh, querida, olha essa bicharada, tem que dar um jeito, e o jeito que a querida dá é abrir uma cerveja. O vento frio da geladeira arrepia tudo. Sentamos no balaústre, a luz fosforescente vai nos cegando e uma a uma, as fibras das asas vão caindo, fazendo tecido nupcial, como a siriri é linda, toda a intumescência translúcida do seu corpo. A tv está ligada e a siriri é furta-cor. Alguém morre na novela, mas é vida plena aqui fora. Escutamos a orquestra das latinhas se abrindo, expelindo cerveja como fontes de excitação. Sussurro, vamos colonizar Marte, morena, um planeta que sabe o que é calor. Mata de asas, selva, o esguicho do Raider, chuva de arroz sobre o nosso casório. Duas mulheres saem na varanda, vêm ser madrinhas. Elas riem e as blusas vão se empapando, moldando a carne bronzeada, eu nem presto atenção, eu me lanço, tal qual nunca fiz, num voo rasante, morcego, dá licença, aranha, hoje não, a siriri está lá, esparramada, no chão, aberta, terei mil ovos. Esbarro em algo úmido e delicioso, mas não é seu corpo. Levo um minuto para entender meu lodo. A boca humana aberta reclama do racionamento, minha asa presa em um molar. A cada abrir de seu maxilar o vislumbre do que seria um reino fértil. Entra luz, some luz, a mulher fica babando. No calor de uma praia seca, minha sina é morrer afogado. Nada de racionamento de água para mim. Eu morro, um túmulo úmido, com gosto de cerveja. Há savana no céu. 


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victor britto

Recife quente

Premiado e reconhecido, o cinema de Pernambuco experimenta do árido ao frio, do céu azul ao preto e branco. por paulo silva jr. O senhor faz cinema pernambucano?, ouve Marcelo Gomes desde sempre, digamos que com maior difusão midiática desde que chegou a Cannes em maio de 2005 com seu primeiro longa na direção, Cinema, Aspirinas e Urubus, aquele que narra o encontro de Johann, alemão que foge do clima de guerra em 1942 para rodar o sertão vendendo o medicamento, e Ranulfo, nordestino que planeja tentar a vida no Rio de Janeiro. “E eu dizia que se você falar em cinema brasileiro, você está falando de Zé do Caixão, Meirelles, Glauber ou Padilha? É impossível delimitar isso num gênero. Imagina então levar isso ao cinema pernambucano, que está construindo uma nova tradição. Eu falei então que se eu tivesse fazendo um cinema pernambucano eu ia me sentir uma tapioca daquelas servidas em Olinda, um prato típico que você consome e tem um tempero específico”, diz o diretor recifense, direto

da Europa, ao atender OcicerO por telefone pouco antes de embarcar para Berlim, onde apresentou em fevereiro O Homem das Multidões, parceria com o mineiro Cao Guimarães. À época, Aspirinas venceu o Prêmio Educação Nacional no festival francês, onde o governo local seleciona um filme para rodar as escolas do país, e se tornou o primeiro nacional a vencer o prêmio máximo de melhor filme da Mostra Internacional de São Paulo, além de diversos outros títulos e menções em exibições dentro e fora do Brasil. E acirrava o debate em torno dessa posição de cinema com uma cara local, no caso, pernambucana. “Ranulfo é um sertanejo que tenta escapar do sertão para sobreviver. Mas não é o personagem-arquétipo dos filmes sobre o Nordeste. (…) Desde que Nelson Pereira dos Santos e Luiz Carlos Barreto, sob a influência de José Medeiros, reinterpretaram a luz brasileira em Vidas

Secas, não se via uma tradução tão orgânica do calor e da aridez do sertão no cinema. Sente-se na pele como é viver naquela geografia. Da mesma forma, os não-atores que contracenam com os dois personagens centrais adensam a trama e ajudam a torná-la específica”, escreveu o cineasta Walter Salles, de Central do Brasil e Linha de Passe, em crítica publicada no jornal Folha de S. Paulo no final de 2005. Ao mesmo tempo, Ranulfo, ou melhor, o ator João Miguel (de Cidade Baixa, Estômago, Era Uma Vez Eu, Verônica, entre outros) falou sobre o mesmo tema em reportagem do mesmo veículo. “Tenho orgulho de fazer um filme que não traz um sertão caricato, que não traz um sertão cartão-postal. É vivido no sertão, mas conta a história de dois homens”. Nesse contraste, o calor nordestino não passa despercebido. Aspirinas foi filmado entre nove da manhã e três da tarde, debaixo de um sol fortíssimo, praticamente

sem nuvens. Marcelo Gomes chegou a brincar que iria demitir o diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. caso ele fizesse um filme cheio de céu azul, como lembra o diretor quase uma década depois. “Eu construí um personagem, o Ranulfo, que estava migrando do Nordeste, uma região que estava expulsando ele por questões adversas, sejam políticas, sociais ou a própria seca. E o alemão estava chegando num lugar desconhecido. Então a luz do meu filme era importante para a dramaturgia dos personagens. O cinema brasileiro está mais maduro, então não vou filmar um sertão de céu azul porque é bonito e pitoresco, mas porque há envolvimento com o fluxo dos personagens”. Afinal, cinema pernambucano? Em conversas com quase uma dezena de profissionais que trabalham com cinema em Pernambuco, a dificuldade de se firmar um conceito de cinema pernambucano se dá principalmente por dois pontos: a diversidade entre gostos e abordagens dos diretores locais; e a universalização dos temas, agora, na maioria das vezes, mais urbanos e menos ligados ao estereótipo do interior nordestino.

“Eu começo te dizendo que nenhum realizador pernambucano gosta desse carimbo que circula de modo generalizado na mídia”, diz o jornalista Luiz Joaquim, por telefone, enquanto cobria para a Folha de Pernambuco o Festival de Tiradentes na última semana de janeiro. “Cada realizador têm uma assinatura muito particular. O que acontece é que tivemos, por exemplo, no ano passado, uns cinco filmes com boa exposição na mídia: Tatuagem [Hilton Lacerda], O Som ao Redor [Kleber Mendonça], Eles Voltam [Marcelo Lordello], Doméstica [Gabriel Mascaro] e Boa Sorte, Meu Amor [Daniel Aragão]. E também acho que não dá para colocar tudo no mesmo saco, como não dá para juntar o trabalho que fazem Cláudio Assis, Gabriel Mascaro, Kleber Mendonça, Marcelo Pedroso. Cada um tem um interesse muito próprio e talvez, se há um aspecto que interligue essas produções, é a liberdade”. Essa liberdade também é assunto para Paulo Caldas. O diretor de Baile Perfumado (1996, ao lado de Lírio Ferreira) e Deserto Feliz (2007), entre outros, acredita que essa forma de atuação dos cineastas em Pernambuco – baixos orçamentos, projetos autorais e consolidação de uma rede coesa de amigos que trabalham juntos – é a grande identidade dessa turma. “Se há coisas


em comum na produção pernambucana é nesse modelo de produção, nessa coisa de quem trabalhar num filme também trabalha em outro, nessa força cultural do grupo. E aí eu sei que muitos de nós questionam essa coisa de cinema pernambucano, mas eu não. Eu acho que é utilizado porque assim a gente é identificado. E agora, no Festival de Berlim, por exemplo, eu tive várias reuniões com pessoas por lá e é interessante ver que eles têm conhecimento de que há uma produção diferenciada pernambucana”. Voltando à discussão sobre a cara desses filmes, questiono os diretores em relação à forma com que essas produções mais recentes, principalmente aclamadas pela crítica, conseguiram englobar temas mais universais, menos presos a um possível estereótipo nordestino. No final de 2005, Marcelo Gomes, no lançamento de Aspirinas, falou à Folha: “Eu queria destruir a idéia do nordestino como bom selvagem: o homem apático, simpático, bonzinho, que faz rir da própria ignorância”; Karim Aïnouz, diretor de Madame Satã, O Abismo Prateado, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (e tantos outros) e que trabalhou no roteiro de Aspirinas e Cidade Baixa (ambos lançados naquele ano), destacou na mesma reportagem que o Nordeste é visto “constantemente com uma presença do arcaico ou do futuro, sem o entretempo do presente. Não vou ser pretensioso de afirmar que é inovador, mas acho que existe um frescor nesse desejo de olhar para o Nordeste e o sertão de um modo muito contemporâneo”. Roteirista de diversos filmes nessa safra (veja entrevista completa ao fim da matéria) e diretor do recém-lançado – e premiado – Tatuagem, Hilton Lacerda ressalta que “não é raro as pessoas lembrarem de Aspirinas como se fosse preto e branco. Lembro até de algumas dizendo que

divulgação

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Cinema, Aspirinas e Urubus rodou o Brasil e o mundo; no longa, o alemão Johann (Peter Ketnath) rodou o Nordeste exibindo propagandas e vendendo o remédio achavam que tinha sido filmado na Alemanha”. Ainda sobre o tema, com a palavra, o próprio diretor, Marcelo Gomes. “Acho que é uma ideia do Fernando Pessoa, de que quanto mais você fala do rio da sua aldeia, mais universal você é. Acho que é isso, o Brasil pode e quer falar de grandes temas. Meu filme atual [O Homem das Multidões] fala de solidão em cidade grande e podia ser em São Paulo, Rio de Janeiro, Praga, Nova Iorque, qualquer lugar com solitários urbanos. Mas claro, não deixa de ter um olhar nosso. Eu sou um pernambucano que faz cinema, e isso traz a cultura que eu tenho, está impregnado, minha herança cultural está presente. Agora, dizer que eu faço parte de um gênero que é cinema pernambucano é leviano”. E quem apostou no preto e branco foi Cláudio Assis. Diretor de produção em Baile Perfumado, ele estreou em longas com Amarelo Manga (2002), premiado em Berlim, Toulouse e Havana e que também levou tudo no Festival de Brasília – júri oficial, júri popular e crítica;

em 2006, com Baixio das Bestas, manteve no elenco nomes como Matheus Nachtergaele e Dira Paes, trabalhou pela primeira vez com Irandhir Santos e levou não só seis prêmios em Brasília, como foi o primeiro brasileiro a conquistar o Tiger Award em Roterdã; e com Febre do Rato, em 2011, consolidou a sequência, dessa vez em pb, com Irandhir como o poeta Zizo e já mais conhecido depois de viver Diogo Fraga, defensor dos direitos humanos e antagonista do Capitão Nascimento em Tropa de Elite 2 (2010) – o ator ainda se firma como uma das caras dessas produções pernambucanas ao atuar com destaque em O Som ao Redor e Tatuagem. “Eu já tinha isso do preto e branco um pouco em mente, mas foi uma decisão tomada por uma equipe – não só minha ou do Walter Carvalho (diretor de fotografia). Conversamos com a direção de arte, figurino, toda a equipe. Fizemos de uma forma que, se a gente quisesse voltar atrás, não ia poder mais. Não daria pra mudar na finalização,

no Final Cut. Para nós, o preto e branco ajuda você a ouvir a poesia e mostra um Recife que não é necessariamente o de hoje”, explicou Cláudio Assis na divulgação oficial do longa. Diretor da Rec Produções e produtor de Aspirinas (entre vários outros), João Vieira Jr. atendeu a reportagem por telefone. Ele acredita que as películas produzidas em Recife e região escaparam desse carimbo de regionalidade. “Houve um momento, há uns dez anos, quando o Aspirinas estava sendo lançado, que havia esse papel de que não se podia cair no pitoresco sempre, mas sim entender a gama das relações humanas, das realidades, do arcaico, do atual. A gente ultrapassou essa armadilha e hoje a produção é muito diversificada, com filmes mais pop, urbanos. Por isso que acho que tratar como pernambucano parece reduzir demasiadamente a capacidade que esses diretores têm de se comunicar. Defendemos que isso é cinema brasileiro”.

Também no meio da década passada surgiu Árido Movie (2005), filme que se tornou uma espécie de marca nessa retomada do cinema pernambucano. O diretor Lírio Ferreira, que uma década antes dirigiu com Paulo Caldas o sucesso Baile Perfumado, falou sobre o assunto durante o lançamento do longa em 2006. “Árido movie nunca foi um movimento nem um manifesto. É uma mística. Uma expressão cunhada pelo cineasta e jornalista Amin Stepple, com quem dirigi o curta That’s a Lero Lero [1994]. Uma mística sobre o momento em que a gente estava vivendo, em que o Marcelo [Gomes] estava escrevendo o roteiro de Cinema, Aspirinas e Urubus e o Cláudio [Assis] estava pensando no Amarelo Manga [2002], em que a gente estava acabando de sair do Baile Perfumado [1996]. É uma grande homenagem àquela época e àquele momento em que a gente tentava colocar Pernambuco na geografia cinematográfica do país. A gente sentava numa


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As primeiras produções cinematográficas que se têm notícia no estado são Três Meses em Pernambuco (1917), e Carnaval Paraibano e Pernambucano (1923), até que a arte ganha força no período conhecido como Ciclo do Recife, com nove produtoras fundadas, treze longa produzidos e outros cinco não terminados entre 1923-31 – a queda vem no início dos filmes com recursos sonoros. Nos anos 70, tem início o Ciclo Super 8 em Pernambuco, onde mais de 200 filmes, entre curtas, médias e longas, são produzidos de 1973 a 1983. Depois, já com a turma do movimento Manguebeat e a reunião de quem passara os anos 1980 produzindo diversos curtas, vem Baile Perfumado (1996), longa-metragem que marcou a retomada da produção local.

Baixio das Bestas [Cláudio Assis] Primeiro filme brasileiro a levar o Tiger Award, maior prêmio do Festival Internacional de Cinema de Roterdã Amarelo Manga [Cláudio Assis]

Cartola [Lírio Ferreira e Hilton Lacerda]

2002

2006

1996

2000

2005

2007

Baile Perfumado [Paulo Caldas e Lírio Ferreira] Produção que contou com nomes como Hilton Lacerda, Marcelo Gomes e Cláudio Assis marcou a retomada do cinema em Pernambuco e venceu o Festival de Brasília

O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas [Paulo Caldas e Marcelo Luna] Selecionado para o Festival de Veneza, abriu as portas para os filmes do estado em festivais na Europa

Cinema, Aspirinas e Urubus [Marcelo Gomes] Selecionado em Cannes, foi o primeiro filme brasileiro a vencer a Mostra de Cinema de São Paulo

Deserto Feliz [Paulo Caldas]

mesa de bar, discutia muito cinema e bebia muito uísque. Era uma ideia na cabeça e um copo na mão”. A partir daí foram surgindo diversos longas de temática, digamos, menos quente. O diretor Kleber Mendonça Filho, por exemplo, lança em 2009 o curta-metragem Recife Frio, exatamente uma ironia ao tema central desta reportagem. Num falso-documentário, a história mostra um repórter chamado Pablo Hundertwasser produzindo um programa sobre a mudança na vida da capital pernambucana a partir de uma súbita queda de temperatura. “Uma mudança climática que está revolucionando toda uma cultura e desafiando a comunidade científica internacional. Nesta edição, Recife, a cidade que deixou de ser tropical”, coloca o personagem, que encontra moradores locais para contarem como anda a vida sem sol depois de sete meses. Em 2012, o mesmo Mendonça vê O Som ao Redor fortalecer ainda mais a produção local ao monopolizar prêmios de melhor filme na Mostra de São

Paulo, Festival do Rio e Gramado, para não falar do prêmio da crítica no Festival de Roterdã, a presença na lista dos dez melhores do ano no jornal The New York Times e ao fato de ser a indicação brasileira para a seleção do Oscar, ainda que não tenha passado aos indicados da Academia. “Teve esse reposicionamento do olhar para a cidade, nos anos 2000 de forma mais urbana, mais concreta. O Gabriel Mascaro fez Um Lugar ao Sol, onde a partir da perspectiva de moradores de coberturas de prédios não só do Recife, mas também de São Paulo e Rio, ele apresenta um painel da classe rica brasileira. Ele fez também Avenida Brasília Formosa, que acompanha a população de um bairro popular do Recife. A Renata Pinheiro fez o Praça Walt Disney, onde critica um lugar que ninguém frequenta. E O Som ao Redor é como uma síntese disso tudo, vai além. Agora eu acho que o cinema no estado vai começar a relaxar um pouco em 2014 e 2015, falar de outros temas, mas não mais descartando essa inquietação com o crescimento urbano

Árido Movie [Lírio Ferreira]

da cidade”, aponta o jornalista Luiz Joaquim. Com vivência em diversas funções do audiovisual e morando no Recife desde 2012, O produtor Paulo Pucci lista, em contato por e-mail, ainda outros nomes. “Percebo que essas produções tendem a representar, na maioria dos casos, determinadas localidades da própria região e seus personagens, ao mesmo tempo que abordam temáticas hoje em dia não apenas da cultura tradicional nordestina, mas de questões que problematizam e representam o mundo moderno. Alguns deles são: Em Trânsito, de Marcelo Pedroso, Superbarroco, de Renata Pinheiro, Setembros, de Adalberto Oliveira, Muro, de Tião, e Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes” [ele coloca também o longa O Som ao Redor e os dois supracitados filmes de Gabriel Mascaro]. O Som ao Redor é, de fato, o filme brasileiro com maior repercussão na crítica internacional nos últimos anos. O próprio diretor disse, em entrevista no final do ano passado ao portal NE10, ter se surpreendido com

a seleção para Roterdã e que, “como observador”, diz que isso aconteceu pela “natureza universal do filme” – no festival foi escolhido como melhor longa pela Associação Internacional dos Críticos. E o som é, como o próprio diretor já admitiu, metade do filme, no mínimo. Um dos integrantes da equipe que construiu toda a sonoridade do longa é dj Dolores, na ativa desde os tempos de Manguebeat e que levou o prêmio de melhor trilha sonora em Gramado-2013 por Tatuagem, de Hilton Lacerda. “As produções são tão diversas que não consigo identificar o que há de comum entre elas. Houve a construção de valorização do cenário urbano, contemporâneo do Recife. Texas Hotel [curta de Cláudio Assis] foi um marco. Os principais filmes da atualidade redescobriram o Recife e – coisa interessante – botaram a classe média como protagonista”, responde à reportagem por e-mail. Aliás, essa ligação da produção musical dos filmes pernambucanos com os músicos ligados ao

Manguebeat é lembrada a cada resposta. A força do movimento que corria ao lado da inquietação dessa turma de cineastas – Da Lama Aos Caos, primeiro álbum de estúdio de Chico Science e Nação Zumbi, é lançado em 1994 – se reflete, portanto, na musicalidade das obras, como é descrito no trabalho O Novo Ciclo do Cinema em Pernambuco – A Questão do Estilo, dissertação de Amanda Mansur apresentada na pós-graduação em comunicação da Universidade Federal de Pernambuco em 2009. “O trabalho colaborativo com os mangueboys já começava a aparecer no cinema a partir dos curtas da década de 90, cabendo aos músicos do Manguebeat dirigir e/ou executar as trilhas de filmes como: Cachaça (1995), de Adelina Pontual (Fred Zero Quatroo); Maracatu, Maracatus (1995), de Marcelo Gomes (Chico Science e Canibal); Texas Hotel (1997), de Cláudio Assis (Lúcio Maia e Jorge Du Peixe); Simão Martiniano – O Camelô do Cinema (1998), de Hilton Lacerda e Clara Angélica (dj


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O Som ao Redor [Kleber Mendonça] Melhor filme em São Paulo, Rio e Gramado, prêmio da crítica em Roterdã e escolha brasileira para tentar ir ao Oscar (exibido em mais de 50 festivais) Era Uma Vez Eu, Verônica [Marcelo Gomes] Doméstica [Gabriel Mascaro] KFZ-1348 [Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso]

Avenida Brasília Formosa [Gabriel Mascaro]

2008

2010

2012

2009

2011

2013

Um Lugar ao Sol [Gabriel Mascaro]

Febre do Rato [Cláudio Assis] Selecionado em Roterdã, levou oito prêmios no Festival de Paulínia

O Homem das Multidões [Marcelo Gomes e Cao Guimarães]

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo [Marcelo Gomes e Karin Ainouz]

País do Desejo [Lírio Ferreira]

Recife Frio [Kleber Mendonça] Um dos mais bem sucedidos curtas feitos em Pernambuco: mais de 40 prêmios em 11 países

Dolores e Fred Zero Quatro); Clandestina Felicidade (1998), de Marcelo Gomes e Beto Normal (Fred Zero Quatro e dj Dolores); Vitrais (1999), de Cecília Araújo (Otto e Pupillo); O Mundo é Uma Cabeça (2005), de Bidu Queiroz e Cláudio Barroso (csnz, mlsa, Ortinho, Hélder Vasconcelos, Siba)”. Distribuição e público Nove filmes brasileiros superaram a casa de um milhão de espectadores em 2013 sob a liderança de Minha Mãe É Uma Peça – O Filme, que levou 4,6 milhões de pessoas ao cinema no ano passado. Lá embaixo, nas posições 25 e 29 de um top30 atualizado pelo portal Filme B e com números até 31 de dezembro último, estão O Som Ao Redor, com 94 mil pessoas, e Tatuagem, com 31 mil – este último ainda segue em cartaz e passou a marca dos 40 mil. E se a produção nacional está em pleno crescimento – segundo a Agência Nacional do Cinema, Ancine, foram 120 lançamentos no último ano diante de uma cronologia que não alcançava os três

Boa Sorte, Meu Amor [Daniel Aragão]

digitos desde 1986, e agora, para 2014, são previstos 136 – aumenta a concorrência para essas produções de Pernambuco. “Se antes o cinema mais autoral brigava com Hollywood, agora temos uma produção mais objetiva de filmes de comédia, com a chancela da Globo, que apertou ainda mais o nicho. E isso foi se transformando muito rapidamente. Tem um exemplo muito interessante que são os filmes do pernambucano Cláudio Assis. O Amarelo Manga fez 120 mil pessoas, o Baixio das Bestas fez 60 mil e o último dos três, Febre do Rato, alcançou 30 mil, isso num curto espaço de tempo. E esses filmes de forma alguma tiveram perda de qualidade, então se o filme não mudou, o que mudou foi o mercado”, coloca o crítico da Folha de Pernambuco, Luiz Joaquim. Entre soluções alternativas para essa dificuldade de distribuição, o jornalista cita o longa Pacific, de Marcelo Pedroso, que foi lançado no cinema de forma discreta e focou num projeto conjunto com a revista Continente, que levou o filme aos leitores.

Eles Voltam [Marcelo Lordello]

Sara Silveira, produtora de centenas de filmes, entre eles, Cinema, Aspirinas e Urubus, também tratou das alternativas na distribuição internacional em entrevista à revista Cinética, em 2008. “Foi vendido para uns 20 países [Cinema, Aspirinas e Urubus]. Mas é demorado, um trabalho difícil, filme lento, dois atores, com uma cor estranha, tudo feito no sertão. Nem posso falar tanto porque Aspirinas teve 150 mil espectadores no Brasil, mas porque foi a Cannes e representou o Brasil no Oscar. Aqui nós saímos com 17 cópias e em Paris foram 15. Tem o caso, por exemplo, de Estômago [2007, direção de Marcos Jorge e com João Miguel como protagonista], que teve na Bélgica e na França 17, 18 cópias, e no Brasil saiu com sete ou oito. A Holanda tinha 15”. João Vieira Jr. fala do assunto usando como referência Tatuagem, filme que produziu. “Chega como melhor filme em Gramado, cinco prêmios no Rio e do tamanho que podemos. Tatuagem foi lançado com 17 cópias e eu acho que o público tem necessidades maiores.

Também já foi para algumas tvs e dez países. Mas é o que dá, lembrando que são todos filmes de baixo orçamento”. De fato, não há produções caras em questão. Mas um dos grandes avanços para essa geração é o aperfeiçoamento do edital estadual através do Funcultura, organizado pela Fundarpe, Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco. O fomento existe desde 2003, mas em 2007 passou a ter um programa destinado ao audiovisual e que já investiu R$43 milhões nas seis primeiras temporadas – as inscrições para 2013/14 terminaram em 21 de fevereiro numa linha que dedicará R$11,5 milhões à produção cinematográfica local. As duas histórias em paralelo – o aquecimento da produção cultural local com os curtas nos anos 1980, o Manguebeat e o pontapé dado por Baile Perfumado; e o fato do governo local se mexer para dedicar um fundo exclusivamente a esses produtores de cinema no estado – fizeram com que a sétima arte tenha se tornado assunto de extremo interesse no estado. Não

Tatuagem [Hilton Lacerda] Melhor filme do júri em Gramado, melhor filme do público no Rio

à toa, Luiz Joaquim, jornalista da Folha de Pernambuco, é um dos poucos do país que frequenta a grande maioria de festivais de cinema no Brasil e no mundo, além do jornal se notabilizar por dedicar bom espaço aos realizadores. “Ali pela segunda metade dos anos 90, eu, o Kleber Mendonça e a Luciana Veras, cada um num veículo, começamos a ir atrás de muita pauta de cinema. O Kleber saiu para se dedicar à direção, a Luciana virou assessora de imprensa e eu continuei. Hoje talvez eu seja o jornalista que mais circula pelo circuito de festivais mesmo”, conta. A proximidade entre crítica, imprensa e cinema também se dá pela formação de quem trabalha com audiovisual. Como lembra Paulo Caldas, toda uma geração estudou jornalismo porque não havia um curso de cinema – hoje existente na Universidade Federal do Pernambuco. Além disso, há agora outras carreiras em instituições privadas e até uma graduação em cinema de animação. Mas, o que fazer para aumentar o público? Caldas ressalta que esse


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problema no cinema independente, de arte e autoral é mundial. Há uma dificuldade para fazer crescer o alcance. Para ele, as distribuidoras trabalham com esses filmes como fazem com qualquer outro, e não há uma comercialização e publicidade específica. Marcelo Gomes fala em formação de público. Segundo o diretor, diante das comédias globais, precisa haver uma formação de um olhar de cinema, uma busca por uma visão mais reflexiva da arte. Falando em global, uma síntese dessa discussão entre distribuição de menor orçamento e grandes produções ligadas à gigante das

Em resposta, Cadu propôs: “Desafio o cineasta Kleber Mendonça Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo o apoio da Globo Filmes! Se fizer, nada do nosso trabalho será cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 mil, assume publicamente que, como diretor, ele talvez seja um bom crítico”. Na tréplica, Kleber devolveu outro desafio: “Que a Globo Filmes, com todo o seu alcance e poder de comunicação, com a competência dos que a fazem, invista em pelo menos três projetos por ano que tenham a pretensão

comunicações se deu no embate entre Kleber Mendonça e o diretor executivo da distribuidora Globo Filmes, Cadu Rodriguez. Em entrevista, Kleber, diretor de O Som ao Redor (orçamento de cerca de R$1,8 milhão), disse que “se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana. As produções são realizadas com muita grana e lançados com muita grana. Gastam R$6 milhões, mas parecem ter custado R$800 mil porque têm dois apartamentos, quatro atores da Globo, um cachorro e um gato”.

de ir além, projetos que não sumam do radar da cultura depois de três ou quatro meses cumprindo a meta de atrair alguns milhões de espectadores que não sabem nem exatamente o porquê de terem ido ver aquilo. Esse desafio visa a descoberta de novos nomes que estão disponíveis, nomes jovens e não tão jovens que fariam belos filmes brasileiros que pudessem ser bem vistos, se o interesse de descoberta existisse de membro tão forte da cadeia midiática nesse país, e cujos produtos comerciais também trabalham com incentivos públicos que realizadores autorais utilizam”.

Para encerrar o assunto, reportagem de Luiz Carlos Merten no jornal O Estado de S. Paulo nos primeiros dias de dezembro fazia um balanço de 2013 destacando essa dificuldade de mais filmes nacionais participarem ativamente do mercado: “Este ano, vai a 17% [participação de filmes nacionais nas bilheterias do país], mas, dos 115 longas lançados em 2013, 15 dividem, de forma desigual, 15% de toda a renda, cabendo aos outros cem os 2% restantes. Ou seja, o cinema brasileiro vai bem, mas a maioria dos filmes vai mal”.

Hilton Lacerda, diretor de tatuagem: “Pensar global e produzir local” OcicerO – Hilton, qual sua avalição do alcance que tem tido Tatuagem? Hilton Lacerda – Quando você faz um filme você tem algumas ambições, e o que você faz depois é uma constatação. Um público de 45 mil pessoas é considerado uma bilheteria extraordinária pela distribuição, ao mesmo tempo que ser considerado bom público é meio que estacionar nisso por uma questão de janela de exibição. Eu tô muito feliz com o resultado. No âmbito geral, o que eu acho preocupante é que essas janelas tão minguando um pouco, é muito avassalador, às vezes é uma sala numa sessão por dia, então é difícil fazer número. Se pegar O Som ao Redor, fez quase 100 mil e já é um marco. OcicerO – Com o sucesso de crítica desses filmes pernambucanos recentes, com por exemplo Tatuagem sendo melhor filme facebook: tatuagem – o filme

Depois de duas décadas trabalhando em roteiros de sucesso dentro da produção cinematográfica dessa turma de Pernambuco – Baile Perfumado, Amarelo Manga, Árido Movie, Baixio das Bestas, A Festa da Menina Morta, Febre do Rato, entre outros, Hilton Lacerda estreou na direção de longas de ficção com Tatuagem. O filme, que se passa no ambiente da ditadura militar em 1978, mostra um grupo de artistas resistentes à repressão e o encontro amoroso entre Clécio, lider do grupo de teatro, e Fininha, um jovem interiorano que está servindo ao exército. Com o filme ainda em cartaz (mesmo que em poucas salas) até o fechamento desta edição, Hilton falou ao jornal OcicerO sobre a distribuição do longa, a temática dos filmes dessa geração e evolução do cinema pernambucano. Ou melhor, para ele, cinema feito em Pernambuco.

Lacerda (esq.) e João Vieira Jr.: satisfação com a carreira do filme

do júri em Gramado e monopolizando os prêmios no Festival do Rio, como você estabeleceria uma cronologia no estado desde Baile Perfumado (1996)? HL – Acho que tem uma linha evolutiva no cinema feito em Pernambuco desde o Baile porque de certa forma ele respaldou as produções que vieram depois. Quando a gente fez o Baile era algo desacreditado porque o Brasil não vinha fazendo cinema como hoje. Ele participou dum prêmio de resgate do cinema brasileiro e foram feitos cinco filmes. O próprio tema do cangaço, com uma roupagem pop, com o movimento Manguebeat, tudo chegando pra somar, então ele apareceu provando que existia uma produção diferente. E deu certo. E aí foi se mecanizando e acho que a coisa mais importante é o amadurecimento do processo de produção que hoje tem um resultado muito eficiente. O que a gente conseguiu pelas leis a gente não precisa prestar contas em relação ao conteúdo, e o que é incrível é que não estão fazendo publicidade nem poética do estado, é bastante duro com relação ao embate social, aos embates políticos. O que é interessante é que esses cineastas não têm uma raiz única, essa raiz fica mais ligada ao processo produtivo. Se pegar Kleber Mendonça e Marcelo Gomes, eles não têm nada a ver; se pegar o Cláudio [Assis], então é mais gritante ainda. Aí você pega um cara igual o Tião, que fez o curta O Muro e vai lançar um longa agora. É muito variado. OcicerO – Esse sucesso também tem relação com a universalidade dos temas abordados? Os filmes hoje são mais globais e menos ligados a um ambiente especificamente nordestino?

HL – Acho que tem uma coisa muito importante na formação de uma geração toda que é pensar global e produzir local. Essa ideia sobre de que forma vamos apresentar uma região vai sendo criada com novas nuances. Se você pegar tematicamente, quando eu falo de Aspirinas eu falo de seca, alguém que quer fugir desse inferno e um estrangeiro que foge da guerra, agora qual a forma de tratar isso? Não é raro as pessoas lembrarem do Aspirinas como se fosse preto e branco, lembro que algumas pessoas pensaram que era na Alemanha, mas era um calor imenso, jogando balde na própria cabeça. O Baile Perfumado, por exemplo, trazia esse sertão meio pop, muito característico, em volta do rio São Francisco. O Amarelo Manga trouxe também essa discussão pro nível da urbanidade. E quando você chega em O Som ao Redor ou Era Uma Vez Eu, Verônica, já é outra classe: o que interessa é o eixo do presente, uma crítica do olhar. O Som sugere gênero como se houvesse suspense, ao tempo que trata de especulação imobiliária. Então não é que outros temas perderam o interesse, eles mudaram o eixo de observação. OcicerO – E o que você acha do conceito de cinema pernambucano? Como esse termo funciona para você? HL – Às vezes algumas coisas são nomeadas e você acaba fazendo parte. Eu sou bem contra o termo cinema pernambucano porque parece que está falando de uma unidade narrativa e que não é coerente com o que a gente faz. Gosto mais de cinema feito em Pernambuco. Agora obviamente que isso é uma faca de dois gumes. Pode ser que ela sirva também para os produtores negociarem melhor

o seu projeto, mas por outro lado é muito mais fácil você desqualificar um movimento maior do que cinema simplesmente pernambucano. Ano que vem são 20 anos de quando foi filmado o Baile, já passamos de uma década de produção, e ela vem aumentando. Mas acho que não dá pra evitar, eu pessoalmente não gosto da antipatia quando esse clima de enfrentamento é criado, quando você fala de cinema fora do eixo produtivo São Paulo e Rio, não é esse embate que interessa, mas sim que tipo de herança narrativa você tá dando pro cinema brasileiro. O que é importante pra gente refletir sobre isso tudo é que nossa produção não é uma Hollywood, mas sim é uma que se mantém com um caráter muito específico, uma conquista política de produção. Pernambuco, de 1964 até o final dos anos 1980, foi muito isolado de informação no resto do Brasil, tudo era muito local. E quando se deu essa chance de comunicação, isso vazou, teve uma coisa meio conjunta, teve o Manguebeat, movimento de tamanho que talvez não existisse desde a Tropicália, teve o movimento das artes plásticas. Teve uma explosão. Hoje você tem um centro de cultura digital no Recife muito interessante, hoje a região construiu um parque de finalização que funciona cada vez melhor. E de certa forma o Pernambuco encheu de coragem um monte de cinematografia pra fazer valer: o Ceará é um polo importante, a Paraíba também vem sendo, em Minas Gerais é sensacional o que vem sendo feito, o Pará começando, o Rio Grande do Sul, que era importante em 80, volta agora com uma nova geração. A gente que convenceu o estado, não ele que nos obrigou.  (psj)


fotos: rodrigo erib

OcicerO – edição três – março 2014 – 11


victor britto

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Leandro Tavalini se vira de um lado para o outro na estreita cama que ocupa no quarto coletivo de um hostel em Buenos Aires, capital argentina. O colchão está molhado. De suor. O calor é sufocante. É noite, mas ele se sente como se estivesse em uma praia carioca. Um ventilador se encontra a poucos metros de suas mãos, mas não é possível ligá-lo. A energia elétrica foi-se, sumiu, desapareceu. O pequeno hotel em que ele se abriga, no tradicional bairro de San Telmo, está lotado para a temporada. Ou talvez possamos dizer que estava. Sem luz, sem ar-condicionado, sem computadores, viu metade dos hóspedes bater em retirada. “Os gringos não tavam entendendo nada”, conta Leandro, que é jornalista, brasileiro e passava as férias de final de ano em terras portenhas. Tradicionalmente, Buenos Aires recebe muitos turistas em dezembro. A época é propícia para viagens e o câmbio desvalorizado – o peso argentino tem perdido valor rapidamente frente a outras moedas como o dólar, principalmente – atrai ainda mais gente, principalmente europeus e brasileiros. O verão portenho prometia ser quente. E foi, literalmente, a começar pelas temperaturas. Segundo o Serviço Metereológico Nacional (smn), a cidade de Buenos Aires enfrentou a pior onda de calor em 107 anos. Em dezembro, e principalmente na segunda metade do mês, o termômetro ficou acima dos 35º, chegando a 40º, enquanto a sensação térmica muitas vezes passou disso. Mas o termômetro subiu mesmo foi com o colapso do sistema de distribuição de energia elétrica da capital, que calcula-se ter afetado mais de 800 mil pessoas.

CALOR E CAOS NO PELO

Temperaturas recordes e colapso no sistema elétrico colocam Buenos Aires para ferver em um verão sem ar-condicionado. por luciano costa A maré de visitantes, assim, acabou surpreendida por um cenário um pouco diferente da esperada tranquilidade típica das férias. Havia, sim, muito suor, falta de ar e, calor. Calor, calor, calor, sem medo de repetir a palavra por uma linha inteira que seja. “Sou do Rio de Janeiro, onde o calor é muito forte, mas aqui é muito abafado, é um calor opressivo. Talvez seja o fato de não ter a brisa do mar. A sensação térmica é pior”, conta Daniel Oiticica, outro jornalista brasileiro que se aventurou por Buenos Aires. Há dez anos na cidade, Daniel lembra que o clima quente é comum por lá no verão, mas costuma ser amenizado com o uso da tecnologia à qual nos habituamos. Ar-condicionado sempre ligado, ventilador, cervejinha trincando na geladeira. Os portenhos ainda contavam

com uma vantagem em relação aos cariocas. A conta de luz, incrivelmente barata, permitia um uso despreocupado de tais “luxos”. “No ano passado uma amiga passou janeiro inteiro na minha casa. Eram dois aparelhos de ar-condicionado ligados o dia todo e a conta no final do mês foi de 100 pesos, algo como 25 reais. A tarifa é muito baixa, dá até vontade de rir”, diz Daniel. Ele sabe, porém, que a população não ficou muito propensa às gargalhadas quando começou a apertar em vão os botões de seus eletrônicos e eletrodomésticos. “Os argentinos estavam muito putos. Muito, muito. Imagina... teve lugar que ficou três semanas sem energia. Aqui no Brasil um apagão de dez minutos vira notícia de jornal”, compara Leandro, que já trabalhou em uma agência de

notícias carioca totalmente dedicada ao setor elétrico. Já Daniel estava no Rio de Janeiro no final do ano, mas acabou sabendo dos problemas por meio do relato de amigos. “Eu ficava angustiado acompanhando. Houve casos de velhinhos que não conseguiam sair de seus apartamentos porque não tinha elevador. Quatro, oito dias trancados, às vezes sem poder ir ao médico ou usar um aparelho nebulizador. As pessoas foram pras ruas, interrompiam o trânsito, queimavam pneus”, relata o jornalista. A cultura de protestos, afinal, é bastante arraigada na Argentina. É comum ver os tais “panelaços”, em que o povo vai às calles com panelas nas mãos para fazer barulho, ou passeatas nas avenidas principais. Dessa vez, no entanto, foi um pouco diferente. Como os problemas

de falta de luz atingiam, por vezes, apenas parte de um bairro, ou uma vizinhança sim e uma não – via-se até mesmo ruas metade claras e metade escuras –, as pessoas acabaram mostrando sua revolta exatamente nos locais atingidos, para chamar a atenção das empresas, do governo e da imprensa. Pneus e colchões queimados, cartazes, piquetes, trânsito parado, gritaria. Mas tudo sempre em grupos pequenos, de menos de uma centena de pessoas. Vizinhos que se juntavam para descontar a raiva e cobrar soluções. Um carro de uma empresa local de distribuição de energia, a Edesur, foi cercado por manifestantes. Assim como a casa do ministro da Fazenda argentino, Axel Kicillof, na frente da qual foram queimados cobertores até que a Polícia Federal chegasse para conter o tumulto. A revolta era puxada pela falta de luz, mas o calor insuportável funcionava como gasolina no fogo. Infernal, seco, no pelo, sem brisa de mar ou de ventilador que fosse. Ainda no final de dezembro o serviço de emergências contabilizava mais de 1,2 mil atendimentos a pessoas com sintomas causados pela alta temperatura, como desmaios e problemas de pressão. O fernet No dia 6 de dezembro, quando mal começava o mês, o ministro argentino do Planejamento, Julio de Vido, admitiu que havia a possibilidade do país enfrentar cortes de luz. Isso porque já se previa um verão dos brabos, o que aumenta muito o consumo de energia devido ao uso intenso de ar-condicionado. No mesmo dia já se registravam blecautes em algumas regiões, inclusive no bairro nobre


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Outras tantas resolveram comprar geradores a diesel. Os “chinos” – como são chamados pequenos mercados tocados por proprietários chineses – se valeram bem da energia gerada pelo óleo para se manter na ativa. Salvaram, ao menos, a sagrada cervejinha gelada de todos nós. “Quando o blecaute no hotel passou de três dias, o dono comprou um gerador. Três dias, naquele calor, imagina quantas cervejas deixei de tomar porque eles estavam sem geladeira”, brinca Leandro, que se virava pra matar a sede alcoólica nos mercadinhos chinos. O problema maior era mesmo outro, já relatado nas primeiras linhas desta reportagem. “Dormir era o pior. É do que todo mundo mais reclamava. Eu mesmo só capotava com muito fernet y un porro”. A culpa Em um final de ano tensíssimo, o governo argentino culpou as duas companhias de distribuição de energia que atendem a capital – Edesur e Edenorte, ambas pertencentes ao grupo italiano Enel – pelos problemas. O ministro De Vido ameaçou multas de milhões de pesos às empresas, que ainda não se manifestavam oficialmente. Ao mesmo tempo, pediu aos cidadãos que utilizassem a eletricidade de maneira racional, sem desperdícios. A presidente, Cristina Kirchner, não apareceu em público e nem nos noticiários. Comenta-se que estava de férias e em recuperação após uma cirurgia. Apenas na primeira semana de janeiro a Edesur veio a público pedir desculpas e prometer um plano de investimentos para recuperar a rede e evitar novas ocorrências. No dia seguinte, o órgão regulador do setor elétrico argentino, a enre, decidiu que as empresas deveriam pagar indenizações aos consumidores afetados, que variariam de 490 a 1,7 mil pesos, de acordo com o número de horas sem abastecimento. O jornalista Daniel Oiticica lembra que a Argentina tem apostado, desde os tempos da presidência de Nestor Kirchner

rodrigo erib

de Palermo. A Edenor, responsável pelo fornecimento de eletricidade para parte da capital, no entanto, dizia que eram problemas “pontuais”, que a rede estava em funcionamento normal. Podia até ser verdade. Mas dez dias depois Buenos Aires começava a enfrentar o pico da onda de calor veranista. E, claro, o apagão. As falhas agora se espalhavam por muitos e muitos bairros. Flores, Mataderos, Caballito, Belgrano, Palermo, Recoleta, San Telmo e vários outros. A duração dos blecautes também começava a aumentar. De 15 para 18 horas, e então 24, 36, e então dias, semanas. Além de luz, prédios mais altos ficaram sem água, uma vez que os aparelhos de bombeamento pararam devido à falta de energia. Quando a escuridão em algumas regiões já durava 11 dias, em pleno natal, 25 de dezembro, o jornal Clarín relata a morte de um homem que, ao exaltar-se em um protesto, acabou baleado por um policial de trânsito. No dia 28 o periódico contava mais de 40 pontos da cidade com trânsito parado devido a manifestações. Ainda na imprensa, uma senhora de 84 anos falava sobre o drama de não conseguir descer do 12º andar – além dos muitos degraus, a dificuldade era encarar a escuridão na escadaria do prédio. A velhinha completava, assim, dias sem sua dose diária de insulina. Água? Havia apenas o necessário para os usos mais básicos, que seu marido, de 86 anos, levava escada acima em baldes. “O negócio começou a ficar surreal. As pessoas migravam. Como o apagão não era geral, quem podia ia para a casa de parentes ou amigos em bairros que ainda estavam com fornecimento de energia. No meu hostel umas 15 pessoas foram para um outro hotel, na rua de trás, onde tudo estava normal”, conta Leandro. Outros argentinos apelaram para um jeitinho brasileiro – a famosa gambiarra, o gato – para puxar eletricidade de vizinhos afortunados. No mundo do trabalho, houve empresas que optaram por dispensar os funcionários mais cedo.

Música e cerveja (e ventilador ligado, claro) numa tarde de verão de um hostel em San Telmo, Buenos Aires

(2003–2007), num modelo de forte subsídio aos serviços públicos como transporte, água e energia. As tarifas são baixíssimas devido a esse apoio do governo, que congela reajustes mas diz abastecer o caixa das concessionárias para evitar que a falta de investimentos deteriore o sistema. “O governo falou na fiscalização desse dinheiro que vai para as empresas. O aumento do consumo e a falta de investimento nas redes de distribuição gerou o

que gerou. No passado o governo Kirchner chegou a estatizar uma empresa de água por problemas de abastecimento semelhantes aos de hoje, assim como nacionalizou a ypf (petroleira) quando eles deixaram de investir. Mas hoje o governo não tem mais caixa para expropriar e pagar indenizações”, analisa Daniel. Por outro lado, Leandro estranhou a ausência de explicações técnicas e definitivas sobre o que de fato ocorria na cidade. As

versões dadas, segundo ele, eram conflitantes e não ajudavam em nada. “O governo culpou as empresas, que no começo negavam e sequer davam as caras. Não apareceu um diretor que fosse pra explicar... tava muito estranho. No fundo, ninguém esclarecia nada, nem a imprensa, que só dava as mesmas matérias todos os dias”. E o povo? “Ah... o povo culpava todo mundo”. 


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Sob um calor desses, impiedoso, paulistano vira herói épico e incorpora Dionísio. por marcelo montoza A mocinha está nos trinques. Cabelos devidamente alisados, pele branquinha de maquiagem, um frescor. O padrão felicidade-determinação que os telejornais costumam levar até você, bom cidadão, logo pela manhã. Sorridente, ela dispara: “Mais um dia de tempo bom em São Paulo! Máxima de 35°!”. Sentado na frente da tv, coço no cotovelo umas picadas de pernilongo da noite passada. Dou uma risadinha também, por que não? E então se inicia um processo do qual só me libertarei quando cair de noite, bêbado, em minha cama quente: gotinhas de suor se acumulam no topo da cabeça correndo umas para as outras como sátiros numa orgia e formam uma gota maior, que escorre devagar pela têmpora, contorna a orelha e segue pescoço abaixo. Deixo que a primeira gota de suor do dia escorra e a dedico mentalmente à mocinha servil brilhando na tela e que, desde já, considero um dos anjos do apocalipse. A onda de calor já dura algumas semanas. Rios e córregos fedem como nunca. O ar quente que paira sobre São Paulo é uma galhofa dos deuses. Derretendo atrás de semblantes mais desanimados do que de costume, o ânimo do paulistano começa a dar sinal da calda quente em que tudo vai se transfigurando. Uma amiga contou que, outro dia, travada no trânsito da Radial Leste sob um impiedoso calor de 35°, surtou e se pôs a esmurrar o volante, aos prantos, balbuciando: “Por quê? Por quê? Por quê?”. De fato, questionar os princípios da civilização é plenamente compreensível, ainda mais nessas ocasiões, com o sol rasgando o céu sem tréguas, atiçando na cara da gente lascas de uma realidade em

chamas. De todos os lados, retrovisores brilhantes, cimento ardente, fumaça e fuligem. Afinal, por que é mesmo que não estamos todos pelados dançando numa cachoeira? Mas é precisamente no lado ruim das coisas necessárias que o paulistano se revela um verdadeiro herói épico. A odisseia de Ulisses é bobagem perto do que enfrenta um trabalhador para atravessar São Paulo num dia quente de verão. Encarar ciclopes, ser cativo de ninfas, navegar pelo Mediterrâneo seriam as desejadas férias para o cara de crachá curtindo uma ressaca no busão lotado. Grécia é coisa de turista bacana. Os heróis contemporâneos são anônimos suados, como a menina espremida no trem enquanto lê o livro da faculdade. A diferença essencial aí talvez seja que Ulisses tinha a lembrança doce do colo de Penélope à sua espera. Já o

paulistano segue sem freios em direção ao vazio, o que só aumenta a tragédia e o valor épico da coisa. A descrição pode servir para uma cena clichê do Tela Quente: pessoas desmaiando, vidros quebrados, gente invadindo os trilhos... Mas não. É só o metrô numa tarde infernal de fevereiro. Milhões de pessoas loucas para chegar em casa, impacientes, enfraquecidas. É o centro do capitalismo brasileiro e sua multidão de colaboradores. E o sistema não dá conta. Trava, dá pane. Parece haver vidas demais nos subterrâneos da metrópole, ilusões derretendo feito pedras de gelo em panela de pressão. Existem saídas para o verão de São Paulo? Sim, algumas,

como a Imigrantes ou a Ayrton Senna. Mas são medidas de desespero e que exigem o desprendimento dos sacrifícios humanos, pois justo na sua vez de descer ao litoral pode rolar a sensação de que todos os paulistanos tiveram simultaneamente a mesma ideia. O que, é claro, não será verdade, porque São Paulo é capaz de escoar um grande contingente e ainda assim gerar filas assustadoras dentro de si. É negócio de vocação, de dom divino. Esse talento se materializa, principalmente, aos finais de semana, quando multidões exaltadas invadem parques, clubes, piscinas do Sesc e semelhantes. A luta por um instante de alívio e relaxamento

heloísa fleming

ATÉ QUE SE TORNE tempo instável, definitivamente

vai além dos graus de compreensão da lógica ocidental. Mas o paulistano não esmorece, mesmo sofrendo de surtos ocasionais. Ele é, antes de tudo, um perseverante. Apesar dos pesares, uma constatação surge como luz no fim do túnel da linha 3 vermelha do metrô (operando com maior tempo de parada): a cidade não perdeu a alma durante o verão mais intoxicante em 71 anos. Contra a onda de calor e a onda de caretice – esta, convenhamos, bem mais nociva – estão lá o Baixo Augusta, a praça Roosevelt, a Mercearia, o Bar do Jão, a barraquinha do Bezerra no metrô Penha. Sim, os botecos florescem. E que outro analgésico para uma cidade com mais de 11 milhões de habitantes sem contato com o mar? O verão segue implacável e em plena segunda-feira as mesinhas nas calçadas se multiplicam. Garrafas e copos traçam planos abstratos e rotas de libertação. Se o paulistano é capaz de pôr Homero no bolso, também é capaz de incorporar Dionísio no ponto exato para enterrar a cabeça esvoaçante no travesseiro do cansaço. Porque na manhã seguinte a luta recomeça, a mocinha nos trinques, o anjo do apocalipse, anunciando mais um dia de tempo bom, 34°. Isso até que o tempo se torne definitivamente instável. 


OcicerO – edição três – março 2014 – 15

A ESTAÇÃO E AS PRAGAS DO APOCALIPSE Sou aquele vento gelado que subiu pela tua espinha e te fez olhar ao redor, assustado. por bruno sobrante diversão começa onde a tua termina. Sou aquele vento gelado que subiu pela tua espinha e te fez olhar ao redor, assustado. Nalguinha dura e passo apressado, o plano de bater em retirada teria dado certo se eu não tivesse me adiantado e, no piscar de olhos, acelerar teus batimentos cardíacos. Caído na calçada após os sete soluços do infarto, a mãozinha em riste buscando em vão a bombinha – oh, maldição, do outro lado da rua! – pensando ser uma crise de asma a dor gelada no peito. Balbuciando o nome da mulher, a desgracida, o último suspiro já presenciado por uma dúzia de transeuntes, que comentam entre eles a urina amarela escorrendo pelas pernas do finado – falência dos rins. Quantos não foram os momentos de infortúnio que te fiz passar, incauto leitor? Justo naquelas férias programadas na praia, a brejinha gelada no isopor, o branco luar. Quantos foram os que fiz subir a serra de volta à cidade, mãozinha no bucho, com a crise de apendicite pressionando as tripas, uma hérnia inguinal, uma úlcera reaberta pela caipirinha batizada com cachaça vencida? Lembro muito bem de cada um de vocês que sofreram sob a minha batuta. E àqueles que ainda não trombei por aí, seguem algumas histórias narradas por mim ao escriba Bruno Sobrante, em cujo corpo estou incorporado nesse momento. São experiências vivenciadas por alguns entrevistados que, milagrosamente, sobreviveram ao que chamo de As Cinco Pragas do Apocalipse de Verão. O sexo No livro Trilogia Suja de Havana, o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez aponta que o “sexo não é para gente escrupulosa. Sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias.” Ou não é? Mês de janeiro, São Paulo, sensação térmica de 40 graus. Boca Leal, também conhecido como Boquita da Fiel, sai de seu apartamento por volta das 18

horas. O destino é um bar próximo ao metrô Vila Madalena, onde irá encontrar uma garota que conheceu pela internet. O objetivo da efeméride: foder. Boca é um fodedor profissional, e sua fama se espalhou da zona norte da capital para o mundo. Sandálias, bermuda e camiseta de abotoar, ele avista sua companhia sentada diante do copinho de licor de amendoim. Entre o papo inicial e a troca de tapas, na cama, foram

nono assalto, de soslaio, ele percebe algo sendo produzido entre uma e outra camada de gordura no abdômen alheio. Era branco, pegajoso, provavelmente tóxico à saúde humana. “Se Jesus transformou água em vinho, aquela mina produziu ricota a partir do suor”, revelou. A droga A cocaína é feita a partir da pasta base de uma mistura de elementos combinados com jorge maia

Antes de qualquer coisa, vamos às apresentações. Sou Áugure, alguns me chamam de Agouro, Mau Agouro, porque sou mau. Venho de lugar nenhum e estou por toda parte. Minha asa negra impera entre o céu e o inferno, e meu poder chega onde o teu deus nunca desejou estar. Em épocas remotas, fui o prego que partiu o pulso de Cristo em dois; o veneno que fez Cleópatra agonizar até o fim, o brilho no olhar do rato que espalhou a peste pela Europa. Na Era Moderna, fui a bala que atravessou os miolos de Kennedy; o tijolo que fez Brenner parar na estrada e a lâmina cortante que transformou Grael numa entidade do folclore nacional. Provavelmente nunca ouviu falar de mim, mas eu existo. Já nos encontramos por aí enquanto você se divertia. Sobretudo no verão, época escolhida por 10 entre 10 brasileiros para curtir uma libertinagem. No entanto, entre dezembro e março, da mesma forma que tudo parece se tornar mais lindo e feliz, o calor escaldante pode também tornar tua vida bem mais difícil. E é por esta razão que eu prefiro dar o ar da graça por estes tempos. Faz calor e os raios solares ativam tua circulação sanguínea. Estimulam o sistema endócrino, favorecendo os processos metabólicos e o aproveitamento dos nutrientes. Você nunca se sentiu tão saudável. Uma simples caminhada ao ar livre e a vitamina D começa a ser processada na tua pele, favorecendo a fixação de cálcio nos ossos e dentes. Então você sorri, amistoso. O grande relógio suspenso na praça marca os 32 graus enquanto o número de glóbulos vermelhos aumenta no teu sangue mais e mais, acelerando o fluxo de oxigênio por todo corpo, já sem camiseta. Você suspira, aliviado. No passeio público, a imagem da garota em trajes refrescantes contracenando com a quentura que emana do asfalto, estimula o teu sistema hormonal e rebate a depressão e a ansiedade. Foi uma ereção daquelas, não é mesmo? Nesse exato momento, eu apareço triunfante. Minha

Os perseguidos sabem: vale tudo para fugir da mais quente maldição

umas duas horas e 12 garrafas de cerveja. Boca seguia sua ofensiva no corpo obeso da mocinha, que apenas ria e tremia. Lá pelo sexto assalto, os corpos suados inundavam o lençol e já começavam a criar uma fedentina na atmosfera do quartinho sem janela. Pelo

um extrato retirado da folha de coca, também conhecida como o manjar do altiplano. A partir desse produto, os narcos adicionam outros elementos para que a pasta vire então o pó, tornando o consumo mais fácil, mais silencioso e, claro, mais fácil de estocar e esconder. O Sabbath

(? – setembro de 1959 – São Paulo, novembro de 2013), um hippie que habitava o ecossistema do metrô Penha, costumava dar suas cafungadas entre uma venda e outra de badulaques feitos com conchas marinhas e penas de arara-azul. Certa vez, numa noite quente de sexta-feira, as coisas deram errado. Uma demanda sem precedentes na sua tenda o impediu de escapar até o banheiro da estação para mandar uns tecos pra cabeça. O narcótico, escondido na meia sob uma forte pressão e alta temperatura, transformou-se em pasta novamente. Sabbath, logo que conseguiu se desvencilhar dos compradores ávidos, correu até o banheiro e, cego pela fissura, não percebeu o estado em que se encontrava o narcótico, enrolou uma nota e mandou tudo pra dentro numa puxada só. “Malandro, aquela parada entalou na minha garganta e me tirou o ar. E pra explicar pro médico o que era, lá no ps? Fiquei em choque”, disse. O desarranjo Frutos do mar, calor extremo e óleo vegetal velho, uma combinação mortal para qualquer tipo de organismo vivo. A Natalia Cunha quase entrou em óbito depois de saborear os efeitos de uma crise gástrica. Quando pequena, ela e a família sempre passavam as férias no litoral sul, especificamente na famigerada Praia Grande. Numa manhã qualquer, próximo da hora do almoço, a mãe solicita no quiosque uma porção combinada de porquinho, ostras e lula frita. Tudo devidamente mal conservado e mal feito, não demorou muito para Natalia sentir os primeiros sintomas. Tanguinha arriada nos calcanhares, os primeiros gritos de agonia ressoando a partir do banheiro químico gentilmente cedido pela prefeitura local para o conforto dos veranistas – sem água. No hospital público de Vila Caiçara, as cinco mil horas de espera, os treze mil diagnósticos, as dez toneladas de remédios! O pai, o nobre glutão cervejeiro, rechaça os apelos de retorno à capital paulista e decide montar uma espécie de uti na kitnet


bianca oliveira

16 – OcicerO – edição três – março 2014

Vai, corre, pensa que dessa vez tudo vai dar certo; a zica do veraneio chega de repente, sem avisar, e te joga de cara na areia sem fazer cerimônia

alugada – na mesinha arrastada até o beliche, uma jarra com chá de boldo, eparema, epocler, plasil e um aparelho celular. “Você abriu mão de 30 dias de cervejada na praia para cuidar da filha moribunda? Nem ele”, comentou a moça. O carro Rafa Domínguez tinha acabado de casar e estava muito contente com a vida nova que levava. O trabalho bem

remunerado, o banho a dois e os finais de semana em Buenos Aires davam cores a uma vida que outrora fora cinzenta e solitária. No retorno ao lar depois de um dia de labuta, parou em um posto de gasolina para comprar uma latinha de cerva. Afinal de contas, quem em sã consciência abriria mão de tomar uma gelada no caminho de casa só para esquentar os tamborins e amenizar os efeitos do calor?

Foi no trânsito pesado da marginal Tietê que a bexiga ameaçou abrir as comportas. Desesperado na busca por um canto para se aliviar, Domínguez não ouviu os pedidos da voz feminina no gps e acabou se afastando de sua rota original, se afundando mais no caos diário de SP. A cada tentativa de mudança de faixa, cada buzinada com o objetivo de abrir espaço em meio ao turbilhão de automóveis, cada ajuste no cinto de segurança, a

urina ia aumentando o volume e a pressão na uretra. Os impropérios disparados a deus e ao diabo favoreceram a vascularização em demasia de todas as partes do corpo, sobretudo os bagos, que cheios de sangue, dobraram de tamanho e pressionavam ainda mais a bexiga e todo o aparelho urinário. “O carro era zero, tava com aquele cheiro de novo, sabe? Minha ex espalhou nas redes sociais, a ingrata”, contou.

As baratas O primeiro trabalho costuma ser degradante para todos. Não foi diferente com o Wagninho, um rapaz da cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, que desempenhou o ofício de ajudante geral numa pequena tapeçaria de automóveis para ficar longe do crime e do nefasto e sem volta ao mundo dos entorpecentes. Pra sacanear, os demais funcionários, capitaneados por Ronaldo, o dono, mandaram o novato trocar o couro que revestia o banco de uma Kombi que era utilizada por um mercado local para fazer entregas em domicílio. Acontece que, com o calor extremo e os restos de comida, uma gigantesca colônia de baratas – ai, essas pequenas cavaleiras a serviço de Satã – se formou ali. Quando o Wagninho removeu os fios da costura e levantou o tecido, os insetos levantaram voo, e o desmaio foi inevitável. Wagner nunca mais trabalhou, fez terapia durante alguns anos e, toda vez que passava um helicóptero, escondia-se com medo do que chamava de “a grande barata vingadora”. Na roda de samba, após o jogo dominical na várzea, saía correndo aos prantos quando a moçada entoava o clássico A Barata, do grupo Só Pra Contrariar. “Na cadeia eu acabei trombando o Ronaldo, o filho da puta. Afoguei ele na fossa do presídio no primeiro motim. Puxei mais quatro anos por isso”, revela. 


OcicerO – edição três – março 2014 – 17

ensaio sobre o suor [ou ode às bermudas]

Explicações científicas podem sustentar o incômodo com esse aguaceiro que escorre por todo o corpo. por rafael nardini genitais. É interessante citar, ao bem dos fatos, que existem dois culpados distintos por esse inferno todo: as glândulas écrinas, muito presentes nas mãos, nos pés e na testa, e produtoras de um suor formado em 99% por água; e as glândulas apócrinas, que por sua vez, se concentram, principalmente, nas axilas e na região anal. São as segundas que fodem todo o rolê. Ricas em proteínas e ácidos graxos, elas emprestam ao suor um aspecto espesso e amarelado. Isso explica, em parte, aquelas manchas nojentas que se formam no uniforme do chapeiro da padaria ou naquela camiseta Hering branca que você comprou cinco anos atrás, mas insiste em usar. Esteja certo também que embaixo do chapéu e entre as sacolas de grifes estrangeiras, os trajes íntimos da madame também respingam fluídos amarelados enquanto ela vaga pela Oscar Freire. O aguaceiro, relatam as testemunhas, não exprime o mais frígido tesão. Ensina a ciência que o famoso “cc” é produzido quando as bactérias presentes na pele começam a metabolizar as proteínas e os ácidos graxos presentes no suor. Assim elas produzem substâncias que possuem um odor desagradável, como o ácido isovalérico e a androsterona. Tem quem sofra, por outro lado, de hiperidrose. Trata-se de um distúrbio que faz o organismo produzir mais suor do que necessita para regular a temperatura do corpo, deixando o cidadão com aquele aspecto seboso de quem correu na esteira uns bons quilômetros. Nesses casos extremos de derretimento, uma solução possível é a aplicação do botox. Uma busca rápida me mostrou que um dos defensores de tal ação é o doutor José Ribas Milanez, próximo ao Drauzio Varella e cirurgião do grupo de tórax do Hospital das Clínicas de São Paulo e do Hospital

Albert Einstein. Resumindo: você vai precisar suar muito para pagar pelo direito de não suar mais tanto assim. Faz sentido, sob esse calor senegalês, uma convenção imbecil ainda vigorar? A provocação surgiu na bem sucedida campanha Bermuda Sim. A página descolada feita por gente – teoricamente – descolada, mas endereçada para quem

ainda colava a batata da perna na calça jeans registrava exatos 17.844 fãs no momento do fechamento desta edição de OcicerO. Entre eles, nove eram tristes amigos – que julgo eu – ainda se viam obrigados a somarem cueca grudenta de fluídos corporais àquele indevido suor que escorre atrás dos joelhos dobrados. Houve quem se sensibilizasse.

jorge maia

Três-malditos-litros. É a quantidade máxima que um homem adulto consegue suar em condições de extremo esforço físico. Sob os trinta-e-seis-vírgula -quatro-graus registrados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) às 16h do dia 7 de fevereiro, houve quem dissesse que sentiu maior quantidade de líquido deslizar na pele. A sensação térmica era de imorais quarenta-e-três-graus. Viver o veraneio em São Paulo sempre foi intragável. Naquela primeira semana de fevereiro foi impossível. Recordes foram enfileirados como se um Usain Bolt, um Michael Phelps, estivessem à vera numa Olimpíada. Na abertura do mês, trinta-e-cinco-vírgula-nove-graus e a maior temperatura em 71 anos. Mal sabiam os esbaforidos gordinhos que esmagam senhoras na linha amarela do metrô e empapam as costas da camiseta com um suor engordurado e espesso que a coisa ficaria ainda mais imprudente seis dias depois. “O bom do calor é que a trepada parece que dura mais tempo. Cinco minutinhos e já está todo mundo cansado, suando para caralho.” Como se vê, nem todo mundo achou aquela semana uma completa falta de dignidade. Há, como em toda tirada ouvida nos corredores de uma empresa que se meta a fazer jornalismo ou publicidade, um tanto de autocomiseração e outro bocado de ego. O que explica, em parte, o suadouro que gruda os corpos durante o sexo é a necessidade do corpo se resfriar. Diz a ciência que essa substância é inodora. Mas quem já perambulou num transporte coletivo qualquer nesses duros dias de verão nega veementemente que isso seja verdadeiro. Em realidade, o suor é expelido pelas cerca de dois milhões de glândulas sudoríparas espalhadas em todas as regiões do corpo, tirando da conta apenas os mamilos, os lábios e os órgãos

Grandes conglomerados de comunicação – Terra,  wmCann, Publicis – e a grande invenção paulistana desde o congestionamento – o aplicativo 99Táxi – concederam alforria às canelas peludas. Até – vejam lá – o Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro e a prefeitura da Cidade Maravilhosa colocaram o terno em caráter facultativo. Mas, como em toda história com fundo de verdade, teve quem se fodesse mesmo assim. “O Zé falou pra gente que mandou e-mail pro rh pedindo pra usar bermuda nesse calor, mas a empresa dele acha que motorista trabalha melhor de calça e engravatado”, relata uma publicação no Facebook do Bermuda Sim. Não é pelo fato de já terem conquistado o direito de trabalhar sem ter nada que cubra as pernas que as mulheres sofram menos. De uma delas, branca, 28 anos, cabelos levemente encaracolados e altiva representante da classe média da Vila Madalena, pinço a seguinte frase: “Tento ser elegante, mas com bigode de suor fica foda”. 

O suadouro que gruda os corpos durante o sexo vem da necessidade do corpo se resfriar? Ou tem fogo demais por aí?


everton oliveira


heloísa fleming

20 – OcicerO – edição três – março 2014

Moda e tabu nas areias É na praia que o brasileiro conhece novas tendências e o tamanho de seu moralismo. por ricardo casarin

Estava marcado para 21 de dezembro de 2013, primeiro dia de verão, o Toplessaço. As organizadoras definiam o evento como um protesto contra a criminalização do corpo feminino. A principal motivação vinha da repressão policial sofrida pela atriz Cristina Flores. Enquanto posava sem blusa para uma sessão de fotos na Praia do Arpoador, ela foi abordada por três policias e obrigada a se vestir. Milhares de mulheres haviam confirmado presença no topless coletivo através do evento no Facebook. Porém, poucas tiveram coragem de levar adiante o ato, em vista da recepção que as aguardava. Jornalistas, fotógrafos e uma multidão de homens aguardavam as ativistas. Como cães no cio, cercavam as poucas que tinham os seios à mostra, gritando e ofendendo. A cena de machismo e abuso coletivo trouxe a triste conclusão que o arcaico Artigo 233 do

Código Penal, a Lei de 1940, que enquadra como ato obsceno os seios à mostra, ainda encontra eco na segunda década do século xxi. Esse não é o primeiro e nem será o último tabu a existir nas praias brasileiras. Apesar de estar fortemente impregnada à nossa identidade nacional, a praia como espaço de diversão, futebol e cerveja é uma invenção relativamente recente. O primeiro tabu foi a própria praia. Areia maldita Até o século xix, a praia não era um local nada nobre. Seu uso se resumia ao despejo de lixo e dejetos. Era também o cemitério de escravos, enterrados nas areias ou simplesmente lançados ao mar. “Praia queria dizer então imundice”, resume Gilberto Freyre, no livro Sobrados e Mucambos. Os colonizadores europeus jamais nadavam no mar e a visão de índios se divertindo nas águas causava estranhamento. “Coisa

de selvagens, incivilizados”, pensavam, em seus trajes pesados, sob o sol do verão tropical. Foi preciso algumas revoluções na Europa para que a colônia começasse a olhar para seus milhares de quilômetros de litoral com menos desdém. O carrapato do príncipe Em 1749, o médico britânico Richard Frewin publicou um estudo que tratava das propriedades terapêuticas do banho de mar e descrevia uma cura obtida através desse tratamento. Este estudo causou grande impacto na Europa e o banho de mar começou a ser receitado no combate a doenças físicas e mentais. Esse impacto só veio a refletir no Brasil em 1810, quando foi registrado o primeiro banho de mar oficial da história do país. E o banhista era ninguém menos que Dom João vi, príncipe regente do Império Português, residente no Brasil desde 1808, fugido da invasão Napoleônica.

Sofrendo com uma ferida infeccionada na perna causada por um carrapato, o príncipe recebeu como sugestão de tratamento sessões de banho no mar. E foi na praia do Caju, região central da cidade do Rio de Janeiro, que Dom João fez história. Mas não sem antes inventar o primeiro traje de banho brasileiro. O monarca temia pisar dentro da água e ser atacado por caranguejos. Por isso, só entrou no mar dentro de um barril. O equipamento tinha o fundo tapado e um pequeno buraco na lateral, por onde a água entrava. Apenas as sua pernas se molhavam. Após alguns desses banhos, o príncipe resolveu sua moléstia. Obviamente, o ato real teve grande impacto na sociedade e virou moda. Mas apenas os banhos e não o traje. Em vez de barris, os banhistas usavam longos calções, toucas e roupões. A praia então foi parcialmente

promovida de lixão para hospital. Entrar no mar ainda não era divertido, apenas terapêutico. A areia e o mar como espaço de lazer ainda levariam quase um século para se estabelecer. Praia: uma invenção inglesa O futebol não é a única grande contribuição britânica à identidade nacional brasileira. O uso da praia como espaço de diversão, quem diria, viria das areias escuras da Inglaterra. Os resorts do litoral inglês, antes estâncias terapêuticas da aristocracia e nobreza, se tornaram o divertimento das classes trabalhadoras a partir da década de 50 do século xix. Isso ocorreu graças ao desenvolvimento das linhas férreas que tornaram barato o acesso às cidades costeiras. As praias se tornaram local de lazer e prática de esportes, principalmente a regata. A popularização destas práticas pela Europa logo influenciariam os hábitos do


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brasileiro. Porém, a nova moda esbarrava na sujeira das praias. Em 1860, o governo se viu obrigado a construir os primeiros canais de esgoto e desenvolver vias de transporte para praias mais distantes das cidades. A partir de 1880 começaram a ocorrer as primeiras regatas no Rio de Janeiro. Finalmente, era socialmente aceito se divertir no mar. A evolução dos trajes Inicialmente, tanto homens e mulheres utilizavam trajes que cobriam o corpo todo, com mangas longas, toucas e calçados. Havia duas preocupações: o pudor de mostrar o corpo e a luz do sol. Uma pele bronzeada era mal vista no Brasil escravagista e racista. No início do século xx, o hábito comum era vestido e touca para mulheres e o macacão para os homens. Em 1917, o prefeito do Rio de Janeiro, Amaro de Brito, estabeleceu horários em que era permitido freqüentar as praias. De 1º de abril a 30 de novembro, podia-se entrar na água das 6h às 9h e das 16h às 19h. No verão, das 5h às 8h e das 17h às 19h. A lei determinava punição aos infratores com multas ou cinco dias de detenção, mas ao que consta, a medida não pegou e praticantes de regatas simplesmente a ignoravam. A nadadora australiana Aannette Kellerman foi a primeira mulher a utilizar um traje de peça única colado ao corpo. A medalhista da Olimpíada de Estocolmo chegou a

ser presa 1907 nos eua por atentado ao pudor por estar usando um de seus maiôs. Kellerman se aproveitou de sua popularidade para lançar uma linha de trajes de banho feminino. Porém, os maiôs ainda demoraram a ser assimilados pelo público em geral. Ainda na década de 20, os trajes ficaram apenas mais curtos e colados, parecidos com os macacões masculinos. Contribui para esse encurtamento a mudança de conceito em relação aos banhos de sol. Em 1920, Coco Chanel passava férias na Riviera Francesa quando acidentalmente adquiriu um bronzeado. A tonalidade de sua pele virou tendência e sinônimo de vida saudável. Mas foi só nos anos 30 que o maiô se popularizou, ainda que provocando escândalo por deixar as pernas das damas à mostra. O desenvolvimento de novos tecidos, como o látex nos anos 30 e a lycra nos anos 50, fez com que tecidos grossos fossem abandonados. Os maiôs ficam mais ousados, deixando ombros e costas livres. Como uma bomba Em 1946, o exército dos eua realizou explosões atômicas experimentais no Atol de Bikini, localizado no Oceano Pacífico. O evento inspirou Louis Réard a batizar sua invenção, um traje de banho de duas peças. O francês competia com um amigo para ver quem produziria o menor traje de banho do mundo. Para divulgar a inovação, Réard teve

que contratar dançarinas de cabaré, pois nenhuma modelo respeitável aceitou o trabalho. A estreia do biquíni ocorreu em uma piscina pública de Paris, chocando a todos os presentes. O escândalo foi tanto, que o Papa Pio xii baniu o uso do novo traje. Foi só nos anos 60, quando a revolução sexual se iniciava, que o biquíni ganhou espaço nas praias. Mas no Brasil, a novidade também teve que enfrentar a censura. Em 1961, durante seu ridículo mandato de sete meses, Jânio Quadros lançou uma série de proibições moralistas, entre elas o veto aos biquínis. Porém, a peça já se popularizava entre as brasileiras e a proibição foi totalmente ignorada. Também ajudaram as forças ocultas que afastaram o conservador populista do poder. Inspirando e chocando Helô Pinheiro caminhava de biquíni pela praia de Ipanema quando foi vista por Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A cena, ocorrida em 1962, não apenas inspirou a composição de Garota de Ipanema, como ajudou a estabelecer o biquíni como um vestuário socialmente aceito. Mas esse avanço não queria dizer que o brasileiro havia deixado de lado seu conservadorismo. Nove anos depois, na mesma praia de Ipanema, a atriz Leila Diniz escandalizou o país ao simplesmente posar de biquíni em meio a sua já avançada

gravidez. A seminudez durante o sagrado período da gestação causou no mínimo desconforto. Não ajudava o fato de Leila ter fama de mulher liberada e moderna. Ainda na primeira metade da década de 70, a atriz Rose di Primo inventou a canga. Ela conta que fazia os próprios biquínis e ao constatar que a parte de baixo havia ficado apertada demais, cortou os lados e ajustou com um laço. A invenção acidental pegou e é usada até hoje. Mas não eram apenas as mulheres que causavam barulho. No verão de 1980, logo após retornar de 10 anos de exílio, Fernando Gabeira apareceu no Posto Nove, em Ipanema, usando apenas uma minúscula sunga de crochê. Acostumado com a cultura do nudismo da Europa, o ex-guerrilheiro não pensou duas vezes em pegar emprestada a parte de baixo do biquíni de sua prima, uma vez que ele não tinha uma sunga ou calção para ir à praia. Naquele mesmo período, começavam a surgir os biquínis modelos asa delta e fio dental. A nova moda teve como expoentes modelos como Luiza Brunet e Magda Cotofre. Também começaram a aparecer as primeiras praticantes de topless. Aparentemente, o brasileiro é mais receptivo ao bumbum que aos seios, pois apenas o fio dental acabou aceito e usado em larga escala. O topless era praticado timidamente, somente

enquanto as mulheres se deitavam para queimar as costas. Lei e costume Em janeiro de 2000, Rosimeri Moura Costa tomava um banho de sol enquanto praticava topless na praia do Recreio, no Rio de Janeiro. Ela estava acompanhada de três amigas e do marido, quando foi abordada por dois polícias militares que pediram para que ela se deitasse de bruços para não constranger os demais banhistas. Apesar te ter atendido a solicitação, 20 policiais a cercaram, atiraram uma toalha sobre ela e pediram para que ela se cobrisse. Rosimeri se negou e acabou presa de maneira truculenta, tendo o braço torcido, algemada e arrastada para fora da praia. Seu marido foi agredido pelos policias ao tentar defendê-la. O caso, registrado por câmeras de televisão, revoltou a população e causou um pedido de desculpas oficial do então governador Anthony Garotinho. Apesar da opinião pública favorável em relação ao caso, o topless continua tabu 14 anos depois, como ficou demonstrado na ocasião do toplessaço de Ipanema e em outros eventos semelhantes em diversas cidades do país. E não é apenas uma alteração na lei que irá mudar isso. Dois séculos depois do barril de Dom João vi, a praia continua sendo termômetro das novas tendências e do moralismo do brasileiro. 


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O ETERNO VERANEIO CHAMADO GUARUJÁ

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A paz apocalíptica de uma das mais famosas cidades de férias do Brasil. por bruno graziano

O céu estava nublado no dia 23 de julho de 1932. Era o inverno cinzento que contrastava com os tons vivos da natureza abundante ao redor. As nuvens filtravam as cores da luz solar deixando a colorimetria da visão desregulada, com o claro da areia rebatendo um tom esverdeado na face de quem relaxava deitado visando o horizonte. O Gran Hôtel La Plage, marco do turismo de luxo brasileiro construído em 1912 na ilha de Santo Amaro (vulgo Guarujá) por Percival Farquhar, estava consideravelmente vazio. Os poucos hóspedes trocavam palavras sussurrando no pomposo restaurante ou no máximo passeavam pela areia com sombrinhas e chapéus. Também pelo clima frustrante e mais pelo momento político vigente, os adoradores da orla e da brisa do mar estavam lúgubres. A Revolução de 32 já ocorria havia quatorze dias e a tensão tomava conta de todo o estado. Não se vivia uma época para o descanso e a elite paulistana frequentadora do La

Plage era justamente a elite que encabeçava a guerra, tomando a frente de interesses contra o governo de Getúlio Vargas. Alheio a isso, estava hospedado por lá um homem com condições deficitárias de saúde, que antes vivendo em Biarritz, na França, fora trazido por seu sobrinho de volta ao Brasil para tratar-se com ares mais propícios à sua recuperação. Esse homem tinha 59 anos e apresentava um desgosto pela vida incabível para sua história. De feitos aclamados, andava cabisbaixo em volta da piscina com as mãos no bolso e o chapéu tampando-lhe a parte superior da face. Quando seu atilado sobrinho lhe disse que daria uma saída rápida para resolver “abacaxis”, aproveitou e foi ver o mar. Desprendeu-se de certo pudor e, curioso à quentura da água, tirou os sapatos, arregaçou a barra da calça e pôs as canelas brancas de poucos pelos afronte às esparsas ondas. Ficou ali por alguns minutos, em silêncio, até que o som adiantou a imagem. Reconheceria aquele ruído de motor a quilômetros de distância,

e não demorou muito para que avistasse, acima de sua nuca, aviões de guerra sobrevoando a ilha em direção à capital. Voltou imediatamente para o Hôtel, marcando passos agitados e apressados. Sem cumprimentar ninguém, entrou em seu quarto, pegou a primeira gravata que encontrara, fechou-se no banheiro e se matou, enforcado na própria angústia. Os tais aviões que naquele dia seriam usados para um possível extermínio foram inventados e aperfeiçoados alguns anos antes justamente por ele e para fins muito mais nobres. Este homem era Alberto Santos Dumont. Réveillon 2014 Passei a virada do ano de 2013 para 2014 na praia da Enseada, no centro urbano do Guarujá. Além de mim, cerca de 1,3 milhão de pessoas tiveram a mesma ideia. Durante todo 2013, foram estimados 2 milhões de turistas frequentando a cidade em fins de semanas, feriados e nas épocas de férias.

A Baixada Santista, região metropolitana composta por nove municípios, entre eles Santos e São Vicente – os dois mais populosos – e o próprio Guarujá, recebeu nesta mesma virada de ano um total de 3,7 milhões de turistas. Mais de um terço deles foi para o Guarujá, que detém a segunda menor área entre as nove cidades. Só ganha em tamanho de Cubatão. O número de habitantes do Guarujá já beira os 300 mil. Portanto, durante o ano, sua população flutuante chega a ser quase sete vezes maior que a população fixa. Para se ter uma noção comparativa, a cidade do Rio de Janeiro recebeu 2,5 milhões de turistas no último Réveillon. Sua população fixa é de pouco mais de 6 milhões. Ou seja, a proporção de população flutuante na Cidade Maravilhosa em sua época mais atrativa chega no máximo a 40% em relação à população permanente. O Rio de Janeiro é o segundo destino mais procurado por turistas domésticos e estrangeiros – 29,6%

(dados de 2013 do Ministério do Turismo), só perdendo para São Paulo – 48,3% (impulsionada pelas viagens de negócios), sendo que a capital paulista tem uma população fixa de quase 11 milhões. O Recife, com pouco mais de 1,5 milhão de habitantes, recebeu 700 mil pessoas no último carnaval, sua época mais volumosa de visitantes. Também não passa de 50% de população flutuante. Há cidades históricas como Paraty e Ouro Preto, que com sua população de vida pacata, fervem em vários períodos, e também outras coqueluches praianas como Balneário Camboriú e Búzios. Nenhum deles, porém, sofre a histeria de veranistas de todas as classes, idades e cores buscando um único metro quadrado ao sol num 31 de dezembro qualquer. Hans Staden Há muito tempo atrás, lá próximo ao descobrimento, um alemão causou frisson nos estudos geográficos e antropológicos quando em 1557 publicou Duas


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refém por nove meses. Nessa gestação quase-antropofágica, o bravo germânico teve de usar e abusar de sua lábia corporal e mercenária, evitando que os selvagens tupinambás lhe comessem vivo – ou melhor – morto, decapitado e assado na fogueira. Sem uma luz no fim da aldeia, o alemão caçou, dormiu, comeu, tentou infinitos diálogos, participou de rituais religiosos, lutou junto contra outras etnias, flertou com alvoroçadas índias, brigou feio, chorou escondido, riu pouco e pensou muito, até ser salvo por uma embarcação corsária francesa chamada Catharine de Vatteville. Hoje, a obra de Hans Staden já virou filme (bem bom por sinal), foi publicada em várias línguas, editada, reeditada e refletida. Só que por alguns séculos o alemão ajudou o Brasil a ter uma fama nada ortodoxa de “terra de canibais”. É, meus amigos, o lugar nem sempre foi um sucesso turístico famoso por seu glamour e conforto à beira-mar. Tal fama só seria difundida mesmo, pra valer, 500 anos depois, na década de 1960. A Pérola do Atlântico O Guarujá é composto por 27 praias. Algumas delas, até hoje, de difícil acesso e habitadas por pescadores com costumes legitimamente caiçaras. Nelas só chegam turistas dispostos a encarar trilhas envoltas a uma Mata Atlântica, pasmem, ainda virgem. Além disso, são notificados de que ali nada se comercializa. Ao menos formalmente. Não há porção de peixe com fritas, não há milho no pote de plástico, não há tapioca de morango com chocolate e não há coca-cola. É o caso, por exemplo, da praia Cheira-Limão, a menor

da ilha com ínfimos 20 metros de comprimento, água cristalina e areia coberta de conchas pequeninas. Seu maior agito são as borboletas coloridas que, num supetão, voam em grupos formando uma constelação de arco-íris alados. Outro destaque é a praia do Sangava, que em tupi-guarani significa “alagado”. Escondida por uma vegetação imponente, possui uma caverna submersa com corais e peixes, banhada por um mar calmo de água verde-esmeralda. Uma estonteante piscina natural que tem em suas margens moradores como garças, gaivotas e albatrozes, também recebe as serelepes tartarugas que deságuam vez ou outra nas areias maternas. Tais praias, assim como outras tantas (a maioria), são frequentadas por canoeiros, mergulhadores, geógrafos, entusiastas da natureza, pescadores e alguns pouquíssimos curiosos. Também é destaque o conjunto de ilhas de diversos tamanhos e formatos que pontuam os extremos do arquipélago. Quem nunca avistou, tomando sua gelada ou comendo seu pastel de pizza na praia de Pitangueiras, a ilha Pompeba? Nela que, a irrisórios 200 metros de distância da areia, é possível caminhar na maré baixa a pé (ou a suaves braçadas), chegando rapidamente em sua superfície. Outra ilha não tão avistada é a dos Arvoredos, localizada a 1,6 km da praia de Pernambuco. Lendo a Revista Cidade&Cultura (Editora abdc Cultural, edição 01) especial sobre o Guarujá, conheci a história de Fernando Lee, engenheiro brasileiro que apaixonou-se por Arvoredos e iniciou uma saga comparável à lenda da Arca de Noé. Lee construiu abrigos, plantou espécies frutíferas, instalou sistemas de

energia solar, adaptou um refinado paisagismo ao verde nativo, entre outros feitos, visando uma autossuficiência entre ser humano e natureza naquele paraíso tropical. Chegou ao ponto de promover campeonatos de caça a vaga-lumes com as crianças locais afim de conseguir uma iluminação noturna orgânica e única para o local. Consciente, ensinava os pimpolhos a caçar sem maltratar ou matar os medrosos vaga-lumes. Quem sempre frequentou a Pérola do Atlântico, apelido publicitário certeiro que ganhou força na segunda metade do século passado, sabe de todos esses encantos. Ou pelo menos de alguns. Eis que o intrigante é justamente isso, pois o grosso de seus visitantes ocasionais que não têm interesse nessas belezas raras e deslumbrantes espreme-se todo ano em apenas 5 das 27 praias – Pernambuco, Enseada, Pitangueiras, Astúrias e Tombo. Elite à beira-mar Ramos de Azevedo, arquiteto classicista responsável por boa parte dos pontos turísticos da capital paulista como o Teatro Municipal, o Mercado Municipal e a Pinacoteca do Estado, projetou o Gran Hôtel La Plage na primeira década do século passado. O hotel já citado, local da morte de Santos Dumont, foi o principal responsável pela fama de “recanto aristocrático” da então ilha de Santo Amaro até os anos 60, quando fechou suas portas. De estrutura monumental, possuía importantes inovações tecnológicas para a época, como elevadores, aparelhos telefônicos particulares no quarto, torneiras e chuveiros de água quente. Também dispunha de acomodações suntuosas, como um jardim

principal com cabines de troca de roupa, sacadas largas e aconchegantes, academia de ginástica, jardim zoológico e até uma colina imitando um belvedere. Mas seu principal chamariz era mesmo o cassino, que numa época onde o jogo seguia legalizado, instigava os patriarcas das famílias mais poderosas de São Paulo (e consequentemente do Brasil, pois a pauliceia firmava-se a partir dos anos 20 como o principal centro econômico brasileiro) a levarem a família para longas temporadas no Guarujá. Os Prado, os Matarazzo, os Jafet, os Chaves, os Siciliano, todos, sem exceção, eram enlevados pelas roletas e cartas daquele faroeste praiano. O arredor ajudava no clima. Todas as construções por ali na verdade eram casas de madeira pré-montadas vindas da Georgia, nos Estados Unidos, que juntadas à uma estação ferroviária, uma igreja, poucos miseráveis e famílias poderosas, davam à mise-en-scène uma cara de Western abrazucado. Só que, para tristesa dos John Waynes fazendeiros e industriais, o jogo por aqui foi proibido em 1946. Acontece que no Brasil, quem não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte (como disse bem Nelson Rodrigues), e em 1947 foi inaugurada a via Anchieta, que trouxe um novo caminho para os apaixonados veranistas. O boom da indústria automobilística ainda não tinha amadurecido e quem tinha carro nos anos 40 era muito rico, ou no mínimo rico. E chegaram os anos 50, época de prosperidade nacionalista, seleção brasileira campeã do mundo, bossa nova, jk e por aí vai. Na eterna rixa Rio-São Paulo, os paulistas se orgulhavam da proximidade com que podiam dar um mergulho terapêutico no mar guarujaense. bruno graziano

Viagens Ao Brasil, livro que narra as experiências do aventureiro em terras tupiniquins. A primeira das duas odisseias fora relativamente tranquila. Partindo de Portugal rumo à capitania de Pernambuco, em 1548, Hans Staden chegou ao Nordeste com algumas dezenas de homens para uma missão corriqueira - trazer de volta pau-brasil, verificar se os franceses não estavam aliciando os índios das costas e levar alguns portugueses personas non gratas para a colônia. Só que chegando acá encontrou uma verdadeira revolta indígena com os portugueses aqui situados, numa calamidade beirando dores de chacina. Duarte da Costa, governador de Pernambuco, implorou descalço para que os cerca de 40 homens recém-chegados se juntassem aos 120 já preparados na guerra contra os nativos. Garbosos, maliciosos e velhos de guerra, levaram os oito mil índios a uma cruel derrota. Como citei, esta primeira viagem teve meios relativamente tranquilos. Foi na segunda que o bicho realmente pegou. Não deram nem um aninho de férias para o Hans, e já em 1549 o valente estava disposto ao mar rumo ao rio da Prata, lá pelas bandas da fronteira entre Uruguai e Argentina. A zica estava solta para a trupe da coroa lusitana, e os danados naufragaram próximos a Santa Catarina. Tiveram de esperar singelos dois anos por lá até se dividirem em direção a Assunção, no Paraguai. Metade por terra, metade pelo oceano. Gostoso à malemolência das águas, Staden preferiu a segunda opção e partiu seguro de que chegaria ao seu destino. Só que, como diria o poeta, a navegação é uma caixinha de surpresas, e vendo que teriam que fazer um pitstop de emergência em razão das complicações marítimas, escolheram como parada a praia de São Vicente. A sorte definitivamente não estava para os navegantes e o navio naufragou pela segunda vez, próximo a Itanhaém. Os sobreviventes que nadaram até a terra firme, caminharam por dias e enfim chegaram na calmaria de São Vicente. Em alta com os europeus aqui colonos, Hans Staden ganhou um emprego de artilheiro (espécie de linha de frente na defesa territorial) no Forte de São Felipe da Bertioga (localizado hoje no limite norte do Guarujá), um corredor de chegada de fanfarrões franceses e outros curiosos das riquezas da América. Com mérito e confiança, o aventureiro gabava-se todo, caçando sozinho nos arredores do forte, quando os buliçosos índios tupinambás o encontraram e o sequestraram. Mantiveram o pobre Hans como

O Guarujá é composto por 27 praias, mas os milhares de turistas se apertam em apenas cinco, pra alegria das borboletas coloridas de Cheira-Limão


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São apenas 95 km de distância do centro de São Paulo que fizeram com que, cada ano que passava, uma parcela maior da elite fizesse seu esforço para conseguir sua presença nesse apetecido costume. Mansões eram construídas nas praias de Enseada e Pernambuco, e edifícios de arquitetos conceituados eram erguidos em Pitangueiras e Astúrias. Em 1964 explode o Golpe Militar e, dentre todas as artes, a arquitetura fora a menos afetada pela repressão. Foi nesta época que grandes nomes se firmaram e construções até hoje veneradas serviram de experimento estilístico para fins públicos e privados. Não foi diferente nas orlas do Guarujá.

todas as suas unidades vendidas em menos de uma semana. Abusando dos conceitos da escola modernista formada na época por nomes como Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas e inspirados pelo francês Le Corbusier, Warchavsky deixou sua marca no que é até hoje um dos edifícios de praia mais aclamados do mundo. O projeto participou na época da Trienal de Milão e venceu o iv Congresso Panamericano de Arquitetura de Lima. O Sobre as Ondas é dividido em 44 apartamentos de um dormitório, 22 de dois e 22 de três quartos, contando também com restaurante, playground e salão de jogos, características fortes do modernismo, onde surgiram os “tipos condomínios” que privilegiavam o uso coletivo. Outros aspectos, bastante antenados ao uso ocasional do prédio, são elevadores com paradas de meio-nível,

bianca oliveira

Modernismo à prova de maresia O ano era 2010 e eu subia alcoolizado pela ladeira que liga o extremo direito de Pirangueiras ao canto esquerdo

de Astúrias. Distraído, cambaleava lentamente atrás de duas mulheres – uma mãe e uma filha, já tomado pela brisa do fim de tarde, quando começo a reparar na conversa: “Minha filha, meu sonho é que você se case aqui, no edifício Sobre as Ondas”. E a filha, animada, se pôs a concordar: “Seria um sonho!” Foi aí que reparei pela primeira vez na construção posicionada sobre as rochas, de traços arredondados abraçando o mar, sacadas volumosas e um terraço de mezanino com uma das melhores vistas de todo o litoral sul. Gregory Warchavsky, arquiteto responsável pela primeira casa modernista do país, em pé ainda hoje brilhando na Vila Mariana, em São Paulo, projetou o prédio cujo projeto foi aprovado pela prefeitura do Guarujá em 1945. O condomínio ficou pronto seis anos depois, em 1951, e teve

Praia do Tombo num domingo fora de temporada – na virada do ano, pessoas ocupariam cada centímetro desta foto

cozinhas-corredores – dando prioridade às salas espaçosas com janelas de parede inteira, e por fim as rampas de acesso, que além de anteciparem regras de acessibilidade atuais, dão o “estilo Niemeyer” tão famoso, influência assumida de Gregory em sua criação. Quando inaugurado, o Sobre as Ondas tinha apenas dois irmãos próximos, o edifício Pirangueiras e o edifício Monduba, este projetado pelo gênio Rino Levi. Existem centenas de obras arquitetônicas respeitáveis em toda a ilha. Nomes como Paulo Mendes da Rocha, Miguel Juliano, Rodrigo Lefèfre, Eurico Prado Lopes, Decio Tozzi, Eduardo Longo e Oswaldo Bratke são alguns dos mais famosos e notáveis. Pitangueiras foi a escolhida, por questões estratégicas geográficas, como o centro comercial e residencial do arquipélago. Com quarteirões quadrados, prédios altos e uma vida urbana intensa, seria numa comparação cínica uma mistura de Copacabana, Leblon e Ipanema. Já a Enseada, praia de maior extensão – 5,6 km – ficou durante muitos anos com os projetos dos casarões. Numa simples corrida à beira-mar, nota-se uma mescla apaixonante de escolas, criando um quebra-cabeça de estilos arquitetônicos – tem casa Barroca, Futurista, Neoclássica, Rococó, Art déco, Imperial e Rústica. Completam o quinteto Pernambuco, com as casas mais ousadas dos modernistas – e hoje semelhante à um condomínio de Alphaville; Astúrias, com menos atenção que Pitangueiras e hoje um amontoado de torres gigantes e sem carisma; e o simpático Tombo, um respiro de caos num cotidiano de orla sem tanta sombra e frequentadores menos vorazes. O auge do bom gosto e sabedoria do uso da arquitetura nas construções residenciais durou por cerca de três décadas. Chegaram os anos 80, o milagre econômico já era passado, o pib do Brasil não crescia mais 10% ao ano e a construção civil seguia com a política do “bom e barato”. O Guarujá não deixou de receber projetos imobiliários aos montes, pelo contrário. Chegou a ser a terceira cidade do país com mais lançamentos do tipo, mas tornaria-se vítima da especulação imobiliária do capital desvairado que assola esta terra sem ares de trégua. A elite não mais dominava o uso das praias principais e a classe média tomou gosto pela prática do veraneio. Há uma matéria do Jornal da Tarde, datada de 1777, cuja manchete é clara e elitista: “A decadência do Guarujá!”

Os anos 90 Curiosamente, eu comecei a frequentar as areias guarujaenses justamente em sua famosa época de decadência, no começo dos anos 90. Iniciei pelo jardim Acapulco aos três anos de idade, num casarão de um tio já falecido, onde a nostalgia me faz presente imagens claras de churrascos na piscina ao som de Roxette, Tom Jobim, Roberto Carlos e Bob Marley. As conversas sobre política e futebol dos carcamanos, a doçura das mulheres na cozinha, os trajes de banho vintage, as caipirinhas, as fotografias analógicas. Estes frames me vêm na mente tão ou mais claros quanto o que eu almocei hoje. Jung explica. Depois vieram uma enxurrada de apartamentos e casas que frequentei nos últimos 23 anos. O apartamento de meus falecidos tios na emblemática avenida da Saudade, quando a parte da rua ainda não era asfaltada e o vendedor de raspadinha caprichava no leite condensado por alguns centavos de cruzeiro, é a maior lembrança. Tiveram também mais de dez lugares diferentes onde eu já passei todos os feriados e épocas de férias existentes em nosso calendário. Sem dúvida, o Guarujá foi o lugar que mais tempo vivi depois de São Paulo. E nunca tive um apartamento por lá. Viagens com a família para ver os fogos do Hotel Casa Grande, viagens na adolescência com amigos para entornar cachaça até vomitar na sarjeta, namorico de verão, namoro sério com uma caiçara, idas a trabalho, confinamento de quinze dias na praia do Tombo para montar um filme, assaltos, brigas, êxtases, marasmos, encontros e desencontros. O Guarujá, se por um acaso nunca mais existir, já estará na memória para todo o sempre. O governo Collor dava calafrios diários em toda a classe média com sua instabilidade financeira, sua inflação e seus congelamentos de poupança. O começo dos anos 90 foram agitados negativamente para todo trabalhador brasileiro. Isso afetou diretamente o poder aquisitivo dos chefes de família, dos jovens e dos velhos, ocasionou um medo do gasto livre de dinheiro, pois ninguém sabia a bomba que poderia vir nas próximas semanas. O investimento das prefeituras foi estagnado, a desigualdade social foi alarmada e a política do medo herdada pela ditadura enclausurou a cuca de muita gente. O Guarujá, uma vila-balneário-cidade que em todo o século xx acostumara-se a ser uma evasão de problemas e um refúgio do caos, onde eram gastos com prazer os rendimentos dos dias letivos, naturalmente se viu num colapso. Os


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e tristes, justamente onde eles gostariam de estar morando e produzindo? O sociólogo dirá que cabem os dois. Já o urbanista dirá que tem que derrubar tudo e construir a cidade de novo. Talvez fosse o jeito.

caipirinha do Bar da Praia que os marmanjos ficavam tomando na sombra dos bangalôs do hotel”. Em 1997 a festa acabou, até que em 2006, a Sisan, incorporadora pertencente ao Grupo Silvio Santos, reformou o lugar investindo R$150 milhões e promovendo uma retomada de interesse imobiliário naquele pedaço, mesmo que sem o mesmo charme. Virou quase uma praia fechada, como é hoje a do Iporanga, que de tão complicado o acesso – RG, vagas limitadas, cabreirice com sua aparência etc, deixa o povão pouco instigado a comparecer. As festas dos hotéis e clubes deveriam ser de fato muito boas, mas quem, como nunca antes e talvez nunca mais, causou com as quatro patas um frisson de hedonismo permanente no Guarujá foi um industrial chamado Edmundo Maluf. Cansado das comemorações moderninhas e fechadas que via,

Cult No começo dos anos 70 o célebre colunista social José Tavares de Miranda alfinetou a alta sociedade com a seguinte provocação: “Em São Paulo costuma-se dizer que os pobres voam para Buenos Aires, os abastados para a Europa e os milionários autênticos para as praias do Guarujá”. Havia no deboche não só um raro bairrismo da classe como também uma situação verdadeira. Pelé, Silvio Santos, Emerson Fittipaldi, Di Cavalcanti, Kirk Doulgas, Manabu Mabé, Princesa Ira Von Fürstemberg, Florinda Bolkan e John Lennon. São só alguns nomes de ilustres que já tiveram residência ou

Brasil (e dos argentinos). A distância próxima não nega a mulata. Poderia haver uma ferrovia, claro, como poderia haver trens indo para todos os cantos do Brasil. Ninguém em sã consciência tem prazer de ficar até seis horas no trânsito da Imigrantes para chegar em sua sacada com vista pro mar. Mas o paulistano suporta, assim como suporta o trânsito diário da capital. É a lei de Darwin, o peão se adapta, mesmo sem aceitar. Não há projeto anunciado de uma reviravolta nessa questão do incomparável veraneio eterno que vive a ilha. Pelo contrário. Todo ano dezenas de condomínios fechados são alçados próximos às orlas com seus 30 andares de um chapado branco padrão, piscinas particulares com coqueiros falsos, portões duplos de acesso com muros altos, dezenas de funcionários, sacada e duas vagas na garagem. E quando acabarem os terrenos, acervo: rato a rigor

na ilha. Só que o erro enraizado não se desfaz tão facilmente. A cidade nunca conseguiu formar-se como um polo forte de empregos diretos para sua população fixa e os esforços ainda hoje são para os moradores que não a frequentam nem 30 dias por ano. Falta água em todo verão. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo) anunciou que tem capacidade para abastecer até 3,9 milhões de pessoas na Baixada Santista, número acima dos 3,7 que utilizam o serviço no pico de gente. Mesmo assim, sempre, e digo sempre, falta água. E na maioria das vezes é nas casas de pessoas que moram ali de fato. No final de fevereiro saiu uma notícia nos principais jornais informando que o Guarujá é o município com o maior número de roubos em comparação ao total da população. Foram 1.342 para cada 100.000 habitantes em 2013, contra média estadual

carolina jesuatto

calçadões estavam degradados, o tratamento de esgoto era quase nulo, a violência crescia, placas de “vende-se” pipocavam aos montes, hotéis estavam vazios, restaurantes fechando, gente desempregada. Foi aqui que surgiu um número cada vez maior de favelas e periferias nos morros adjacentes, formadas majoritariamente por nordestinos vindos para trabalhar na construção civil, que se viram sem trabalho, sem rumo e sem uma cidade que desse chance de sobrevivência em seu dia a dia. É incrível como o Brasil, ao longo de sua história recente, uniu-se em certas ações desastrosas. Não cabe a mim, aqui, citar nomes de governantes e cravar sentenças sobre lideranças políticas. Mas o óbvio está ai, na frente de todos, ainda hoje atrasando o convívio saudável nas cidades que dos anos 70 pra cá sofreram com um neoliberalismo meritocrático que deu prioridade aos bens particulares e praticamente afogou os serviços públicos básicos. A ode ao asséptico predominou e ainda vivemos uma pulsante ojeriza coletiva da classe média e alta perante aos pobres. A culpa é de todos. E a grande verdade é que eu, como um pirralho durante todos os anos 90, pouco reparei nestas decadências e, sem histórico de vida comparativo, achava tudo aquilo de uma diversão invejável. Os quiosques à beira-mar, os shows de verão repletos de bandas e eventos esportivos, os halls de entrada dos apartamentos com pé-direito alto e chão de mármore, as belas mulheres desfilando sobre a areia quente, as peladas de futebol com traves feitas de casca de coco ao anoitecer, o Churros do Gordo, as sorveterias por quilo, os bares da rua Rio de Janeiro, o parque de diversões, a feirinha de antiguidades, a vista do morro do Maluf, a pescaria da Ponta das Galhetas, as disputas de castelos de areia. Aos doze anos eu dizia que queria ser guardador de guarda-sol pois era a única profissão em que todos os dias trabalhava-se no nascer e no pôr do sol. De fato, a história mais importante de cada um é a própria nostalgia. O senhor de 80 anos vai dizer que o melhor Guarujá foi o dos anos 40, a mulher de 50 vai defender os anos 70, eu defendo os anos 90 e o moleque de 10 defenderá suas férias de 2014. No começo dos anos 2000 foram investidos R$10 milhões em projetos de infraestrutura básica no Guarujá. Os calçadões foram recapeados, o sistema de esgoto reformulado (mas até hoje somos obrigados a pular valas de despejo na Enseada), o transporte público reajustado e uma certa belezura voltou à tona

O contraste do Guarujá atual: para cada onda, um apartamento à beira-mar...

de 589. A análise é falha, pois não leva em conta justamente o cerne deste ensaio, que é sua sina eterna de veraneio. Mas é simbólica. Não se pode sair tranquilo usando um relógio, um tênis novo ou carregando um smartphone no bolso. Há quem diga que é assim em qualquer lugar do estado. Não, não é. O sentimento de insegurança por lá é realmente muito presente e peculiar. Além disso, quase 40% da população vive em favelas, segundo dados do ibge de 2010. Outras fontes mais recentes já apontam para o número de 45% de moradores de favelas na cidade, sendo 55% mulheres. Nesse contexto, há os que vão “tomar” a “playboyzada” com táticas dignas de malandros da década de 20. Não defendo aqui o crime, pelo contrário, mas estamos falando de seres humanos e seres humanos são territorialistas. Há uma guerra fria em disputa durante todo verão, visando quem realmente é o dono da praia. Quem são, afinal? Aqueles que têm apartamentos por lá em trechos privilegiados e vão duas vezes por ano (estão no seu direito)? Ou aqueles que moram longe do mar, mas estão presentes naquele dia a dia vendo os elefantes brancos vazios

hospedaram-se por temporadas e já foram fãs confessos das terras da Pérola do Atlântico. Ao fim do Gran Hôtel La Plage, nos anos 60, pelo menos três filhos pródigos tomaram conta do agito e das festas homéricas que aconteciam nos verões de ouro: o Clube Samambaia, o Hotel Casa Grande e o Hotel Jequiti. O primeiro, fechado em 2008 e localizado na divisa entre a Enseada e Pernambuco, teve em sua placa de inauguração nomes como W. Sshueltz Wenk, presidente da Volkswagen, Ermelindo Matarazzo, o banqueiro Gastão Eduardo Bueno Vidigal e o dramaturgo Alfredo Mesquita. Segundo Leonor Sampaio, 81, morador do Guarujá desde os 22: “Casamentos começavam e acabavam no Samambaia, era uma coisa de louco”. Leonor ainda contou que: “O Casa Grande era mais conservador, iam muitos idosos, casais mais caretas, era aquela coisa de tomar champanhe à beira da piscina e namorar até o dia seguinte”. O terceiro era o almejado Hotel Jequitimar, que Sampaio compara: “Uma Califórnia brasileira, onde as festas eram disputadas a tapas pelos famosos e emergentes e tinha a famosa

... já antes da barreira de prédios, o Atlântico até podia enxergar o continente

Edmundo  montava uma tenda árabe no topo do morro da Campina, divisa das praias de Enseada e Pitangueiras, e só descia de lá vestido de marajá. Era o sinal de que os trabalhos lisérgicos de suas festas estavam começando. Maluf perdeu tudo que tinha no jogo e de um dia pro outro abandonou sua regência de veraneio. Pois então, sempre que você caro leitor ouvir falar do tal morro do Maluf, não confunda com o político, o outro marajá, este da vida real, o Paulo, porque a homenagem informal é de fato ao Malufinho das Arábias. Invasão Chinesa O Brasil de Lula é ainda hoje um objeto de estudo. Se pegarmos pela perspectiva do litoral, cantam uníssonas vozes dizendo que: “Quem ia pra Praia Grande está indo pro Guarujá, quem ia pro Guarujá está indo pra Ubatuba ou Rio de Janeiro, quem ia pro Rio vai pro Nordeste, quem ia pro Nordeste vai pra Europa e assim por diante”. Este absurdo veranista pode apresentar parcelas fatídicas, mas não cabe no todo. O Guarujá seguirá sendo um destino comum a todas as classes sociais da capital, do estado e do

aí irão destruir os predinhos de três andares com pastilhas coloridas na fachada, apartamentos com tamanhos na medida e aconchegantes, estacionamentos viáveis no vão livre e apenas um funcionário – o zelador – para construírem mais e mais varandas gourmets. Numa terça-feira de abril, vemos todas as luzes apagadas. Ninguém mora ali. Astúrias é a campeã nesse quesito, parecendo uma Vila Nova Conceição deserta com barulho de onda. A Enseada dos casarões estilísticos vem em segundo, diminuindo calçadas e priorizando carros. Em breve, poderemos ter 5 milhões de turistas a fim de assistir ao espetáculo da queima fogos de artifício do Ano Novo. A terra não estica, mas a procura se multiplica. Torço para que não falte água, para que o mar não esteja infectado, para que os preços não se tornem mais caros que de Miami (se já não estão), para que a areia seja democrática e torço infinitamente para que outros, como eu, ainda tenham o Guarujá como sua eterna nostalgia. Torço. Até lá aproveitemos o que permanece digno. Desde 2008 ouço o boato de que um aeroporto internacional seria construído na base aérea


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Suor italiano em areias guarujaenses O suor escorria pela batata da perna e a sensação térmica era de forno industrial em potência máxima. O guarda-sol e o protetor solar não davam mais conta do recado e eu já ensaiava uma certa movimentação para voltar para casa quando escutei ecoar os gritos da minha entrevistada. Ela vinha devagar quase parando, com passos curtos, prestando muita atenção para não tropeçar em nada na areia. Havíamos combinado de nos encontrar às 8h, assim não atrapalharia seu trabalho e não teríamos que enfrentar o sol do meio-dia. O relógio já marcava 13h e acho que só não desisti de esperá-la porque emendei uma cerveja gelada na outra. Mesmo pulando e acenando freneticamente ela não notou minha presença e me fez correr em sua direção pela areia quente. “Dona Edda, tudo bem? A senhora se lembra de mim? Marcamos de conversar mais um pouco hoje. Lembra?”. A verdade é que nunca soube se ela realmente se lembrou, pois em todos nossos encontros sempre tive a impressão de que ela não tinha muita certeza de que já havia falado comigo. “Ohhh, sim, sim. Claro que me lembra sim!”. Sentamos embaixo do meu guarda-sol e ela aproveitou para tirar o chapéu e beber água. “Muito quente hoje, né?”, resmungou meio ranzinza, mas com a propriedade de quem já passou dos 80 e enfrentou todos os tipos de dias quentes de verão. “Na minha terra era quente, mas não era assim!”. Dona Edda viveu em Collecorvino durante a infância, um município italiano dentro da província de Pescara

– na região dos Abruzos. A família precisou sair do país às pressas fugindo da desgraça e da pobreza da Segunda Guerra Mundial e vieram se refugiar no Brasil. “Nós tínhamos male pra sobrevivência. Éramos 22 pessoas famintas em casa, sem trabalho e sem dinheiro. Hoje eu amo o Brasil mais do que amo a Itália”. Chegou por aqui ainda jovem e teve que deixar o futuro marido na Europa, já que ele não conseguiu entrar no país ao mesmo tempo que ela. Casouse por procuração e só depois de longos quatro anos de espera viveu sua noite de núpcias. “A espera era dura, ficava muito solo e triste, mas foi nesse tempo que comecei a me dedicar à cozinha. Não tinha nada pra fazer, poucos amigos, pouco dinheiro... Matava o tempo no fogão, fazendo massas, uns docinhos, essas coisas”. Assim que chegou se instalou em São Paulo, no bairro do Ipiranga, e lá começou a levar a culinária para além do hobby. “Eu saía todos os dias antes do almoço e procurava clientes pras minhas massas. Assim, pelas ruas mesmo. Carregava um isopor e levava tudo quentinho e fresquinho. Quando eu falava assim, com meu sotaque, ‘Olha o rondelli! Olha o ravióli!’ todos ficavam doidos. Vendia tudinho”, e ri descaradamente da sagacidade do brasileiro por um bom prato de comida italiana. Hoje continua vendendo tudinho, mas em um cenário diferente. Saiu das ladeiras do Ipiranga, desceu a serra e parou no Guarujá. Logo depois de perder o companheiro e uma das filhas ser diagnosticada com transtorno bipolar, Dona Edda achou que a maresia seria a solução pra tanta dor e veio afogar

todos seus problemas na praia do Tombo. “Quando cheguei no Guarujá sabia que ia ser feliz aqui. Foi só pisar na areia! É coisa estranha, a gente sabe que pertence ao lugar quando encosta na chão e arrepia”. Arrepiou tanto que decidiu fazer da praia mais do que lazer, transformou os dias de sol e a areia fofa em parceiros de trabalho. Sua rotina é acordar cedo, preparar a massa, o recheio fresquinho, colocar suas empadas para assar, abastecer sua cestinha e sair. Chega na praia o mais cedo possível, até porque, gosta de ir embora antes do sol apontar o meio dia.

marina frascareli

por camile liguori

sabia mais o que era ganhar tanta dinheira assim. E hoje eles estão com muita fome”, e sorria, o sorriso de quem tem ao seu favor disposição, ainda alguma ambição e ótima forma física. Aliás, a saúde dessa senhorinha é assustadora. Pouco mais de um metro e meio de altura, postura encurvada, rugas profundas pra todos os lados, olhos azuis escondidos atrás de óculos escuros com jeitão de brechó e chapéu de catadora de uvas. Características típicas de uma idosa frágil e indefesa, impressão que cai por terra quando a vemos aos gritos de “olha a empada, quentinha, empada, empadinha. vai uma empada?”. Não reclama de dor. Não reclama de nada. Pelo contrário. “A praia é uma grande família. Isso é o que mais me agrada aqui, me sinto muito bem todos os dias

Verão gordo para Dona Edda: às 13h, já estava na terceira cesta de empadinhas

Aquela estava sendo uma quinta-feira atípica, a procura por suas empadas era tão grande que Dona Edda já estava em sua terceira viagem. “Você me desculpa ter me atrasado, mas é que meus clientes precisavam de mim. A praia está cheia de segunda a segunda desde dezembro. Nem

por estar rodeada de gente jovens, bonitas, se divertindo”. “Mas vem cá, a senhora não cansa nunca?” “Canso todos os dias, minha filha. Mas eu amo a praia, amo trabalhar, estar no meio de pública. O verão judia da gente, mas eu preciso dele, espero por ele, amo”.  bianca oliveira

da cidade. Em 2012, o jornal O Estado de São Paulo publicou que ele ficaria pronto antes da Copa do Mundo. Não ficará. Em dezembro passado, o vice-presidente Michel Temer outorgou, junto à prefeita e demais autoridades, a construção do projeto. Ficará pronto em 2015, finalmente, e segundo eles, terá capacidade para até 500 mil passageiros/ano. No anúncio oficial, Temer ressaltou a importância de um aeroporto na região e citou que o governo enxerga com bons olhos o desenvolvimento da Baixada Santista. Recentemente, ouvi uma teoria da conspiração que dizia que os chineses iriam dominar o mundo pelas costas de países indefesos. E que no Brasil, o Guarujá era estratégico para essa legítima tática do jogo War. É só uma teoria da conspiração. Janeiro deste ano, num quiosque da praia da Enseada, eu lia Morte e Vida de Grandes Cidades, a bíblia da vitalidade urbana escrita por Jane Jacobs, quando decidi observar o horizonte. Em minha frente, uma família de pelo menos 14 chineses comia tudo que tinham trazido e jogavam as embalagens e restos na areia, sem pestanejar. Um deles, pai de um bebê recém-nascido, foi levar o meninão até o mar com ele no colo. Acendeu um cigarro. Seguiu fumando e carregando o chinesinho até uma altura do mar onde as ondas batiam em sua coxa. Ajeitou o bigrolho e começou a urinar. O filhote estava inquieto, e o china deu-lhe um tapa no bumbum. Esvaziando tranquilamente a bexiga no banheiro público que acabara de proclamar, puxou seu último trago no Eight vermelho e tacou a bituca no mar. Ajeitou o pau e não o guardou antes da balançada obrigatória. Ao terminar, voltou para o guarda-sol, pegou uma coxa de frango com a mão e se pôs a devorá-la. 

Plano aberto do Guarujá democrático: tem espaço pras amigas tomarem sol, pro solitário entortar de caipirinha e pros amigos discutirem o indiscutível: afinal, haverá um dia que os prédios invadirão o mar?


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Meu sonho de uma noite de verão Imagine poder mudar o curso da história de seus romances favoritos. por denise godinho

pessoa, faz com que esta se apaixone pela primeira criatura que ver ao abrir os olhos. O plano do rei dos elfos é estar presente quando a rainha das fadas acordar, mas, por um imprevisto, quem ela vê ao despertar? Um burro. E continua o verão. Eu estava decidida a não ler mais nenhuma história que acontecesse na estação, mas o inesperado aconteceu. Num piscar de olhos, meu quarto se ilu-

minou e Titânia, a rainha das fadas, estava a meu lado. Ela segurava uma flor vermelha que espalhava ao ambiente um forte cheiro de groselha. – Então você está descontente com seus livros preferidos? – ela disse. Passado o susto de ter uma rainha

das fadas sentada em minha cama, abri a boca em menção de me explicar, mas ela me interrompeu: – Esta flor dá duas gotas de sumo. E te dou a oportunidade de salvar dois personagens sofredores do verão. Mas, atenção: duas gotas, dois personagens, duas únicas chances. E, como se fosse

mágica, virou uma luzinha amarela e saiu cantarolando pela janela. A flor vermelha repousava sobre meu travesseiro. Deu-se que, num piscar de olhos, lá estavam elas: Daisy e Cecília. Foi assim que aconteceu: Daisy é aquele tipo de pessoa que desperta o melhor e o pior de você. Eu já me peguei a odiando e amando em intervalos de poucas páginas. Mas, me incomodava o fato de ela perder o amor da vida tão tragicamente só porque era uma péssima motorista. Fazer o quê? Sou uma romântica. Como raios eu poderia mudar o rumo do seu destino trágico?

Pe n s e i , pensei e repensei. Tinha que ser algo muito bem planejadinho, oras. Eu tinha apenas uma gota para salvar Daisy Buchanan. As páginas viravam em minha mente, enquanto buscava uma brecha na história que permitisse mudar o futuro.

A verdade é que eu sabia desde o começo o que deveria ser feito. Quantas vezes eu me flagrei torcendo por Nick Carraway? Esqueça o glamour, as festas, o romance tórrido de Daisy e Gatsby... A verdade é que o verdadeiro protagonista daquela história era Nick. Mais do que narrador, ele é um daqueles personagens completos, que evoluem cheio de defeitos e mistérios. Uma vez li em algum lugar que quando Fitzgerald entregou o livro para o editor, este o recusou. Para ele, o personagem principal era Nick e não Gatsby. Eu sempre preferi Nick. E sabia que ele merecia alguém melhor do que a fútil da Daisy, mas se eles se apaixonassem tudo mudaria. E a primeira gota teve sua serventia. Assim, Daisy não se renderia à paixão por Gatsby. Ela não pensaria em fugir com ele. Ela não atropelaria Myrtle com o carro amarelo. O marido de Myrtle não mataria Gatsby com um tiro. E Nick venceria na vida. Pronto, menos um fim trágico de verão. Ufa! Agora era a vez de Cecília. Lá estava eu, sentada na poltrona da sala principal da mansão dos Tallis. Todos se preparavam para a festa. Ao longe vi a fedelha da Briony. Ah, aquela menina enxerida! Esqueça a gota. Eu poderia enforcá-la ali mesmo e tudo estaria resolvido. Mais um fim trágico de verão concertado e uma personagem horrível a menos na literatura. Mas lá estava ela, caminhando para a biblioteca. Eu tinha que agir rápido. Não me interessava flagrar

heloísa fleming

Uma coisa estranha aconteceu enquanto eu lia antes de dormir. Fechei o livro com força, estava irritada com uma teoria. Tudo de ruim acontece no verão. É amor da vida baleado, separações, amores não correspondidos... Diacho que todo mundo sofre de amor nesta estação. Perceba: é verão. Há uma menina rica e fútil. Ela se apaixona por um milionário. Eles decidem ficar juntos e fugir. Ela entra no carango amarelo do amado e dirige em alta velocidade. Uma mulher, ironicamente a amante do marido da menina rica, é atropelada. O esposo da mulher atropelada enlouquece com a tragédia e decide matar aquele que é o dono do carro, pois supõe que este é quem estaria dirigindo. O milionário morre. E o verão continua. Perceba: é verão. Uma garota flagra na biblioteca de sua casa a irmã mais velha sendo atacada pelo filho do caseiro. A menina tem 13 anos e não entende as relações carnais de duas pessoas quando estão apaixonadas e supõe um ataque. Gemidos provam que sua irmã mais velha está com dor. Infelizmente, um estupro acontece durante uma festa. A garota afirma que foi o filho do caseiro, pois o viu atacando a irmã. O filho do caseiro é preso. A irmã mais velha fica com o coração partido. Todas as vidas se destroem. E o verão continua. Perceba: o rei dos elfos quer que a rainha das fadas se apaixone por ele. Ele manda buscar uma flor mágica. O sumo desta flor, despejado nos olhos da


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parede. Precisei forçar uma tosse repentina para que ela reparasse a minha presença. – E então, como foi? Percebi que ela tinha dois livros em cima do regaço.

– Ora, você mudou a história. Quando você fez Daisy se apaixonar por Nick, Gatsby perdeu toda a força para continuar sendo um personagem digno do título. O mesmo aconteceu com

não há história. Tinha arruinado dois clássicos porque queria dar conforto, só um pouco, para meus personagens favoritos. Mas não tinha percebido que elas eram o que eram justamente por divulgação

Cecília e Robbie transando, sabe? Aquela cena poderia arruinar a imagem que eu havia criado ao ler a história. Mais ou menos a sensação de quando um livro vira filme. Poxa, quando você lê, os personagens e cenários são criados pelo leitor. Não dá uma baita frustração quando o filme mostra tudo diferente do que você imaginou? Enfim, eu queria manter a cena do sexo tórrido na biblioteca como eu havia criado. Portanto, eu precisaria agir antes da pirralha abrir a porta. Como resolver este impasse com uma gota? A discussão em torno deste livro sempre foi calorosa. Briony é culpada ou tudo aconteceu por causa da inocência da idade que a fez não compreender a paixão da irmã com o filho do caseiro? A verdade é que sempre achei que ela é culpada sim, senhor. E como a missão de salvar Cecília estava em minhas mãos, o que importava era apenas o que eu pensava sobre a história, certo? E então decidi prejudicar Briony. Corri para o quintal na procura de qualquer criatura que aparecesse na minha frente. Lá estava o gato branco e felpudo. Coloquei-o no meu colo e fiz a maldade maior: com a gota do amor, fiz com que Briony se apaixonasse pelo gato. Não acho injusto, visto que Titânia se apaixonou por um burro. Pois é. Lá estava eu novamente sentada em minha cama. Titânia se admirava no meu espelho de

Cecília, retratada por Keira Knightley no filme baseado no livro Reparação; ou melhor, poderia chamar de Gato Branco?

– Acho que deu tudo certo. Ela esboçou um sorriso irônico e esticou os dois livros em minha direção. Numa passada de olhos pude ler os títulos: O Grande Nick e O Gato Branco. Franzi o cenho. Ela reparou o meu estranhamento.

Cecília. Você eliminou a chance de Briony errar e reparar a história. No fim, o livro virou um conto infantil de uma criança que se apaixona por um gato. A indignação. Como pude ser tão tola? Sem conflito, infelicidade e drama,

conta de todas as dificuldades que enfrentavam. Titânia sorriu como se lesse minha mente. Ela mesma era um ótimo exemplo disso. Shakespeare havia a criado e feito com que ela se apaixonasse por um burro. Que graça Sonho

de Uma Noite de Verão teria se não houvesse esta passagem? O barulho de hélice invadiu o quarto. E agora o quê? Um helicóptero? Meus olhos se abriram curiosos, porém lentamente. Os cabelos molhados de suor e o bafo quente que invadia o quarto naquela madrugada insuportável de verão... o ventilador, fiel escudeiro dos últimos dias, havia perdido a batalha. As hélices giravam lentamente com um barulho ensurdecedor de motor quebrado. Jogado em cima da cama, como um amante esquecido ao meu lado, um livro aberto. Apalpei aquelas páginas e, como se tivesse acabado de ser atingida por um raio, sentei e liguei o abajur. O Grande Nick, li na capa. Corri para a prateleira e lá estava o livro O Gato Branco. Desesperada, tento despertar de meu sonho de uma noite de verão. Meus dedos esfregam os olhos na tentativa de trazê-los para o mundo real. Será este o mundo real? Minhas narinas são invadidas por um cheiro de groselha e minha boca seca. De olhos esbugalhados, percebo que o sumo de Titânia já fez efeito sobre mim. Um negro franzino, sedutor e esguio caminhava em minha direção. Esfregouse em minhas pernas e... Latiu. Vingada por Titânia, estava apaixonada por meu cão Lupi.  ___________ * Texto baseado nas personagens: Titânia, de Sonho de uma noite de verão (William Shakespeare); Daisy, de O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald); e Cecília, de Reparação (Ian McEwan).


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CARTA AOS QUERIDOS CANTORES MORTOS

Uma mensagem de saudade para os gogós que se calaram e foram parar no cemitério naqueles tempos mais quentes do ano. por hugo moura Não sei porque você se foi,

Uma mensagem minha só po-

casa, afinal. Com certeza, se

de você foi através do Nando

logo me pediu que mandasse

Tim. O porquê, obviamente, eu

deria ser assim, em forma de

transformaria em um ponto

Reis, seu amigo de longa data.

um abraço a Pixinguinha e

sei. Afinal, é o curso natural

homenagem póstuma, porque a

a se visitar. Os paulistanos

Encontrei-o em uma festa, mas

a Ary Barroso. Acreditam que

da vida, que, por si só, termina

verdade é que nem nascido eu

se lembrariam mais de você e

ele estava muito bêbado e agi-

eles também faleceram duran-

na morte. Se daí do seu lado

era quando você se foi, ali em

seria um reconhecimento res-

tado. Não dava para abordá-lo

te o verão? E cumprimentem os

você já começou outra vida

19 de janeiro de 82, justamente

peitoso, sabe? Mas São Paulo

no meio da madrugada para

Mamonas Assassinas, que mor-

é que não posso dizer. Mas a

dez anos depois de “Águas de

não mudou muito de quando

perguntar sobre você. E faz

reram naquela tragédia aqui

questão é: por que tão logo,

Março”, em mais um verão ne-

você morou aqui pra agora. As

tempo que não ouço falar do

em Sâo Paulo! Aquele Dinho

por que tão cedo? Podia para-

gro para a música brasileira.

pessoas continuam sem tempo

Chicão, mas acredito que es-

era uma figura.

frasear alguma canção, como

Devo dizer que como não pude

pra nada. Até lembrar de gen-

teja bem. Ele parece ser mais

Bom, aqui na parte de bai-

no início desta carta – ali-

acompanhar sua carreira en-

te como você é difícil para

discreto, como você era fora

xo, a música anda xoxa e a

ás, podia fazer isso até o fim

quanto era viva, sou grato

o paulistano agitado. Mas se

dos palcos. Cássia, espero do

real é que nada se compara ao

dela – para enumerar quantas

aos usuários de Youtube (Elis,

nossa cidade não dá atenção

fundo do coração que essa

gogó de vocês três. Me lembrei

saudades eu senti, mas, além

isso é um site em que as pes-

a este tipo de coisa, fica ao

carta seja aberta por Tim,

agora que Chiquinha Gonzaga

de brega e piegas, seria in-

soas assistem vídeos sobre

menos o mais importante: suas

Elis ou por você. Nada da arte

também está aí. Em uma pesqui-

justo de minha parte. Porque,

vários assuntos; você adora-

músicas. Pelo que tenho acom-

imitando a vida – ou a mor-

sa, li que ela faleceu em 28 de

acredite,

Até

ria o Youtube, com certeza) e

panhado na imprensa, seus fi-

te, neste caso, enfim – como em

fevereiro de 1935! Se ela não

minha mãe canta suas letras,

foram

muitas.

companhia, que me proporcio-

lhos estão bem.

“e.c.t.”, que você tanto cantou.

já morreu por aí de novo, fi-

sabe? Suas músicas tocam em

naram te ver em shows e até

Esta carta precisa chegar aí.

quem de olho que ela não deve

festas de molecada e até de

em uma gravação, emocionante

esta

casamento. E, geralmente, as

de tão natural e genuína, do

pessoas pulam abraçadas no

disco com o Tom. “Como os nos-

refrão “não quero dinheiro,

Elis e Tim, favor mostrar

e

durar. E imagino que, se está

Eller, a quem gostaria muito

Eller, gostaria de escrever

viva, vocês tenham passado um

de ter conhecido pessoalmen-

a todos os cantores queridos

bom Carnaval. “Ô Abre Alas”

sos pais” foi a primeira músi-

te. Esta mensagem é para ela,

que, infelizmente, nos deixa-

toca aqui até hoje, acreditam?

eu só quero amar” – ainda que

ca que ouvi sua – se não era

também. Cássia, você foi ge-

ram em pleno verão, mas estou

Espero que ela tenha dado

muitas delas estejam bêbadas,

um clássico da MPB na época,

nial. Uma pena não ter ido a

sem tempo. Já encontraram o

pelo menos uma canja pra vo-

é verdade. Você adoraria as-

é hoje –, logo que minha tia

um show seu. Quando comecei a

Reginaldo Rossi por aí? Ele

cês no feriado.

sistir a uma cena assim por-

ganhou de presente uma caixa

gostar de rock, lembro-me de

faleceu um dia antes deste

Agora preciso me despedir

que, eu sei, você não brincava

com álbuns de toda a sua car-

uma imagem sua que me marcou

verão começar. Se não chegou,

porque, acreditem, o Brasil

em hora de serviço. Ou brin-

reira. Junto dos discos, veio

demais: a dos seus peitos de

fiquem de olho que logo ele

só começou a funcionar agora

cava até demais quando não

uma camiseta com uma imagem

fora. Desculpa, mas precisei

aparece. O Nelson Ned também

que passou o Carnaval. Vocês

largava o copo por qualquer

sua estampada, mas minha tia

falar. Se te conheço um pou-

faleceu em janeiro deste ano

sabem,

multidão em frente a um pal-

diz que não usa “para não

co, você não vai ligar. Era

e deve encontrar vocês em

Chiquinha funcionava assim.

co vazio. Você ganhava meu

desbotar a Elis”. Um sarro. E

muito novo, ainda, e aquilo

breve. Um abraço em Maysa e

Um século depois, continuamos

respeito com e­ stas atitudes!

você vai desacreditar em dois

me chocou. Pensei: “Cara, essa

Chico Science, dois grandes

na mesma. Penosamente, sobre-

E todo mundo comentava, jul-

fatos recentes que acontece-

mulher é doida”. E procurei

que também fizeram voto de

vivendo sem vocês.

gava. Achava incrível quando

ram comigo e me ligam com a

te conhecer além do Acústico

silêncio

você provocava esses episó-

sua vida: conheci uma mulher,

MTV, que todo jovem que se pre-

Quando disse ao meu pai que

Com carinho,

dios. E soava tão natural que

a Dona Leda, que te assistiu

zasse tinha em casa. Mas você

escreveria

Hugo Moura

se outros fizerem isso hoje,

no Festival da Música Popular

morreria já em 29 de dezembro

logo vão dizer que estão que-

Brasileira. Ela trabalha na

de 2001, ainda tão nova, ali

rendo te imitar. Mas por mais

TV Record desde 1967 e me con-

nos 39. Estava no interior de

que achasse esse mistério so-

tou que estava na plateia

São Paulo e me recordo bem.

bre você parecer ou não en-

quando você se apresentou. E

Cheguei em casa vindo de um

graçado, o melhor mesmo era a

está inteirona a senhorinha.

restaurante com a família e

hora em que você corria para

Por essas e outras, me revolto

um telejornal noticiou sua

o microfone e surpreendia a

quando cantores tão novos, e

morte. Aquilo foi tão estra-

plateia – que parecia aplau-

tão bons, partem tão cedo, como

nho porque você era jovem e

dir ainda mais. Eram os fãs

é o seu caso e o do Tim. Bom, o

todos diziam: “tinha tanto a

comemorando porque, sim, você,

segundo acontecimento entre

mostrar”. Mas com o tempo per-

bem ou mal, estava ali com

eu e você é que faz dois me-

cebi que, na verdade, você já

eles. Digno. Agora, uma coisa:

ses que fui a uma lanchonete

era uma artista mais do que

deixar este nosso mundão em

na rua Melo Alves, no bairro

completa; eu é que não te co-

pleno 15 de março de 98 foi

do Jardins, em São Paulo – sua

nhecia bem. Minha irmã, hoje

duro demais. Sabia do momen-

velha conhecida rua. E recebi

aos 14 anos, tem ouvido suas

to difícil, mas passar o verão

de um taxista, eu com um ci-

músicas no iPod dela (Cássia,

todo suando o cabelão pixaim

garro na boca e ele com outro,

iPod é como se fosse um to-

para sair de cena logo no

um lance revelador e que ja-

cador de fita portátil, um

fim? E ficamos todos ali, pa-

mais pude imaginar: eu esta-

walkman, mas sem fita K7; as

recendo “Águas de Março”, com

va justamente ao lado do pré-

músicas são digitais, é algo

pau, pedra, tudo errado, e você

dio em que você faleceu. Pode

bem moderno e muito utili-

no fim do seu caminho.

carta

para

a

Cássia

até parecer mórbido de certa

zado por jovens atualmente)

agora,

maneira, mas podiam pregar

e está dividindo as canções

preciso dizer que esta carta é

ao menos uma placa ali com

com as amigas de escola. Acho

para você, também, Pimentinha.

seu nome, não acha? Era sua

que o mais perto que cheguei

Pensando

na

Elis,

Senhores

em

Maia,

Regina

outros esta

desde

os

tempos

verões.

carta,

ele

obituário de veraneio dezembro Reginaldo Rossi – 20 de dezembro de 2013, (pe) *faleceu um dia antes do início deste verão Cássia Eller – 29 de dezembro de 2001 (rj) janeiro Nelson Ned – 5 de janeiro de 2014 (sp) Elis Regina – 19 de janeiro de 1982 (sp) Maysa – 22 de janeiro de 1977 (rj) fevereiro Chico Science – 2 de fevereiro de 1997 (pe) Ary Barroso – 9 de fevereiro de 1964 (rj) Pixinguinha – 17 de fevereiro de 1973 (rj) Nelson Cavaquinho – 18 de fevereiro de 1986 (rj) Chiquinha Gonzaga – 28 de fevereiro de 1935 (rj) março Mamonas Assassinas – 2 de março de 1996 (sp) Chorão – 6 de março de 2013 (sp) Tim Maia – 15 de março de 1998 (rj)

da


30 – OcicerO – edição três – março 2014

Como troquei o jornalismo por minha pousada em Ubatuba

Fim da linha: o repórter a um passo de dar um tiro na própria cabeça. por lucas borges Como se despedir dos concertos de futebol em gramados verde cor esmeralda, lançamentos milimétricos de três dedos e dominadas no peito mais elegantes que um refrão de Frank Sinatra sucedidos por noitadas de cañas e europeias pele de pêssego, para passar a madrugada escrevendo sobre um modorrrento 1 a 0 entre Palmeiras e Linense? Era inútil, e eu precisava escolher: minha saúde mental ou o jornalismo. O plano estava todo traçado. A ideia já existia havia muito tempo e a correspondência na mesa foi o estopim. banco santander/confidencial. Um rápido movimento e em segundos já estava trancado no banheiro com a chave para o sucesso em mãos, um cartão de crédito corporativo, uma senha e o nome do filho da puta, André Donke, o inescrupuloso chefe de redação, autor de acordos espúrios que

trocavam o silêncio sob negociatas obscuras do mundo da bola por anúncios publicitários polposos. A iminência da data mais importante da história do futebol brasileiro não me fazia sequer pensar em mudar de idéia. A trama seria consumida exatamente naquele 13 de julho, dia de Brasil e Argentina, final do Mundial 2014. O dilema do craque No momento em que a redação se agitava com a boa nova, ele estava estirado na maca. Os canalhas escreveriam no dia seguinte sobre as simulações, saltos e piruetas, diriam, mas ele sabia da dor, os roxos na canela não o deixavam mentir. E os filhos da puta no escritório acarpetado o julgando. Canalhas. Litros de cataflam haveriam de ser despejados naquela perna maltratada por bicas e pontapés, horas de gelo e conversas com a Bruna pelo Whatsapp. “Eu aqui,

bianca oliveira

Eram 15h de um sábado de sol torrencial, pés descalços, calça jeans arreada até o joelho e mangas da camisa no ombro, quando a notícia mais quente do dia entrou pela redação atropelando tudo: a Justiça Comum havia aceitado liminares do Brasil todo e baseada no artigo 213-i e ii e § 3º do Código do Torcedor, segundo o qual “uma agremiacão pode reivindicar participação em determinada competição desde que outra agremiação com a mesma alcunha que a sua tenha se beneficiado de manobra pouco idônea para participar desta mesma competição”, determinou que os Fluminenses de Araguari, Santana do Livramento, Salvador, Feira de Santana, Teresina, Niterói, Valença, São Paulo e de Porto Rico – ela mesma, a ilha pertecente aos Estados Unidos no Caribe – deveriam ser incluídos na Série a do Campeonato Brasileiro. Portanto, o torneio daquele ano teria 30 times e seria disputado em dois turnos de 29 rodadas, jogos dia sim, dia não. Em poucos minutos, o press release do movimento Bom Senso f.c. já estava piscando na tela do computador, “aquilo era um absurdo”, e como protesto os atletas jogariam a primeira partida do certame apenas de chuteiras, meiões e cueca. Para mim era o fim. Estava disposto a mandar uma bala pela cabeça. O trabalho não era ruim, não mesmo, havia momentos de prazer, viagens pelo mundo todo, contato com pessoas intrigantes. Mas eu havia chegado ao limite. Cuspir nos pratos de sashimi comidos depois de uma pauta coberta em um trem-bala japonês em Yokohama seria ingratidão, mas como voltar à realidade do almoço de 15 minutos, garfadas de arroz e feijão enfiadas goela abaixo sob telefonemas raivosos do editor ansioso exigindo que você enviasse as oito matérias sobre a coletiva de imprensa do ministro no estádio superfaturadamente construído para a Copa?

derrotado, e ela distribuindo beijos na novela.” Chega de Barcelona. Saudades de São Vicente, Santos e o José Menino, o Canal 2 e seus encantos. Neymar estava decidido. Era hora de largar o futebol. Impossível se esquecer das noitadas de Fifa 2014 com Alexis Sanchéz, os duelos no pebolim com Xavi e Iniesta, mas era preciso deixar tudo para trás. 21h30, o último voo Barcelona/ Guarulhos, a passagem para a felicidade. Ocultado pelo boné aba reta e pelo fone de ouvido gigante, o craque ignorou seu Porsche e na primeira de suas muitas ações mundanas tomou o ônibus como gente comum e se perdeu no mar de turistas japoneses de câmeras fotográficas no peito. Ainda deu tempo de ver de perto a Sagrada Família, as obras de Gaudí, todos aqueles monumentos que ele só havia visitado em montagens gráficas para alguma peça publicitária. A capital da Catalunha era bela fora do campo de futebol e da mansão em Pedralbes. Passaram cinco semanas desde o sumiço de Neymar. Pôsteres com

sua foto – como se isso fosse necessário para reconhecê-lo – foram espalhados pelo Brasil e pela Espanha a mando da Presidenta da República. A família mantinha a esperança de encontrá-lo vivo, o país alimentava o sonho de achá-lo inteiro até as 16h de 13 de julho. Sem o craque e atuando, todos, do 1 ao 11, com moicanos tingidos de loiro em homenagem ao atacante perdido, a seleção se classificara de forma sofrida à grande decisão. Não podíamos perder o caneco para a Argentina. Não outro Maracanazo, não para eles. Messi fomentava o drama com declarações enigmáticas sobre o paradeiro do ex-companheiro de Barça. Maradona provocava e se deliciava com a tragédia brazuca entre mulatas e caipirinhas no Copacabana Palace. Cinco semanas foram o suficiente para colocar tudo de pé. A casa foi comprada praticamente pronta, um sobrado, varanda espaçosa harmonizada com a Mata Atlântica, largas janelas de madeira, seis quartos para os hóspedes e o quintal com vista para o mar azul do Litoral Norte. Minha pousada em Ubatuba. O cartão corporativo cobriu os gastos até ser bloqueado, as mirradas economias do jornalismo arcaram com o resto. Estava pronto. O primeiro cliente desceu de manhã para o café. Barriguinha saliente recém-adquirida, bermuda, chinelos e o inseparável fone de ouvido. A atriz da novela fora trocada pela namoradinha de infância. Ele não poderia estar mais feliz. Enquanto saboreava o omelete com bacon, a televisão mostrava milhares de fãs enlouquecidos a caminho do estádio, cartazes de “Apareça, Neymar!”, horas antes da final da Copa do Mundo. Meu satisfeito cliente fez seu único pedido: “Parça, desliga essa tv, por favor”? 

A situação se tornou insuportável e tanto o jornalista com um grande futuro pela frente quanto o camisa 10 da seleção largaram tudo: o destino foi a praia, claro


OcicerO – edição três – março 2014 – 31 fotos: maria fernanda moraes

Eduardo é o homem que mora dentro de mim; foi trazendo calhamaços de folhas que eu não sabia para que serviam; percebi que contavam histórias; pessoas já pediam pelos nomes

HISTÓRIAS DO livreiro do Matadeiro Nunca fui bom entendedor das leis. Sabia era essas coisas que a gente aprende com o mar, que tainha dá na água fria e que vento sul é sinal de mudança no tempo. O mais difícil foi entender o que aquela coisa que iluminava a noite tinha a ver com a água do mar que se agitava e vez ou outra chegava até a pedra e alcançava meu alicerce de madeira. Uma vez, a água entrou com força, não se intimidou com as tábuas velhas da parede da frente, quase me tirou do lugar e levou livro, panela, sapato, computador, muita coisa embora. Flutuei e voltei ao lugar. Foi aí que comecei a entender. É a maré, é a maré, ralhava o homem de cabelos brancos enquanto tentava salvar alguns pertences. Me acostumei cedo ao escuro e a escutar o barulho das coisas. À noite, como o mar bate muito forte nas pedras, tenho calafrios, parece que trepido. Quando tudo está quieto, os grunhidos da vizinhança quase vencem o ranger das minhas tábuas velhas que balançam com o vento, mas tento silenciar o mais que posso para não atrapalhar o sono do homem que vive dentro de mim. Também não sou bom de contar o tempo, mas soube pelas notícias do rádio que o ano que chegamos à praia do Matadeiro foi um ano agitado para o país. Falava-se num negócio de caras pintadas que nunca entendi direito. Mas o seu Eduardo gostava daquilo que escutava no radinho de pilha. Fui descobrir depois, pelos documentos guardados numa caixa da prateleira, que o nome do homem que mora em mim era esse: Eduardo Mallman. Já ouvi ele contando a jornalistas e outras pessoas que o visitam de vez em

Entre livros e cervejas, o homem que toca um bar-sebo em Florianópolis. por maria fernanda moraes

quando que antes de mim havia um outro barraco, mais simples. – Comecei devagarinho, com um barraco menor, pra não assustar, e agora já faço parte da paisagem. “Chegamos” é modo de falar, porque eu vim ao mundo pelas mãos dele. Num lugarzinho no meio da trilha que liga a praia da Armação à praia do Matadeiro, concatenou que as duas pedras grandes que suportam o trilho de passagem das pessoas também serviriam de defesa contra a maré alta e levantou com as próprias mãos o barraco de tábuas de 3,25m por 3,25m. Nasci pisciano, no meio da alta temporada, e lembro como se fosse hoje quando logo no outro dia dois homens de camisa social branca engomada surgiram pelas pedras e entregaram um papel a Eduardo, que ainda arrumava as coisas dentro de mim. – Não adianta que eu não vou assinar nada. Só saio daqui se o governo me der garantia de casa e escola pro meu filho. Os senhores de branco falavam em degradação ambiental e aquilo não fazia muito sentido na minha cabeça. Quando dei pela minha existência aqui, a bica d’água, minha vizinha da direita que tinha chegado muito antes de mim, estava mirrando. Mas não deu muito tempo e o homem que mora dentro de mim trouxe-a de volta à vida. Junto com o nascer do sol, todos os dias, ele desce até a areia e recolhe o lixo. O pessoal que visita a praia já sabe que ele também faz coleta seletiva e reciclagem, além da composteira com o lixo orgânico.

Já ouvi ele contar muitas vezes com indignação e um pouco de sarcasmo que responde a um processo ambiental desde 2008 e já acumula uma dívida de mais de 250 mil reais. Ele sempre ri, tentando desdenhar de tamanha blasfêmia, e completa a história dando detalhes do processo. Lembra que, numa das audiências do processo, se sentou numa mesa no fórum que tinha uma área maior que o seu barraco. – Vê se pode uma coisa dessas? Além de degradação, sou acusado de ter interesse na expansão imobiliária do lugar. É um absurdo! Quero apenas ser reconhecido como zelador vitalício daqui. No começo, desconfiei que ele fosse cozinheiro. Arrumou uma panela grande, improvisou um fogão e fervia umas espigas de milho. Mas logo percebi um movimento de troca: as pessoas chegavam, se apoiavam numa testeira improvisada como balcão na janela que se abria de frente pra praia, lhe davam alguma coisa e ele entregava um milho. Depois, junto com as espigas, ele trouxe também umas latas, e percebi que se tratava de algum tipo de comércio. Só algum tempo depois ele conseguiu fazer o que realmente gostava. Eduardo foi trazendo para dentro de mim uns calhamaços de folha que eu não sabia direito para o que serviam. Foi erguendo pilhas nas paredes do fundo e como elas não deram conta, teve que construir prateleiras e espalhou-as pelas laterais do barraco. Logo

percebi que aqueles calhamaços contavam histórias porque as pessoas chegavam e já pediam pelos nomes. Lembro até hoje que um tal de Rubem Fonseca foi a primeira história que ele vendeu. Os livros o fazem companhia desde pequeno. A mãe, que era grande leitora, o incentivava ao hábito e ele então começou a comprar e emprestar livros aos amigos. Como não voltavam, passou a vendê-los, para não ter preocupação. Se essa fosse uma daquelas histórias bonitas que se lê nesses livros clássicos que ocupam minhas prateleiras, eu até poderia dizer que Eduardo é como o personagem de um de seus autores preferidos: o Homem do Subsolo, de Dostoiévski, sozinho e pessimista. Mas ele escolheu a vida eremita como se sentisse que só assim seria capaz de reconstruí-la. Buscou na solidão e nos rostos desconhecidos o sentido da sua existência. Logo que ele chegou aqui, havia também uma criança, um menino. E não entendi muito bem quando ele foi embora algum tempo depois. Mas, ouvindo alguns relatos aqui e outras conversas acolá, a história toda foi fazendo sentindo. Filho de pai alfaiate, Eduardo ainda seguia a tradição da família quando o governo federal bradou aos quatro cantos do país “Plante que o João garante”. Largou tudo em Porto Alegre, juntou as economias e foi rumo a Roraima, para participar do projeto agrícola proposto pelo governo João Figueiredo que previa ajudar pequenos agricultores a plantar de

forma ecológica com a supervisão de agrônomos recém-formados. Passou três anos em Roraima, no lugar onde hoje é a reserva indígena Raposa Serra do Sol, na fronteira com a Venezuela e a Guiana. Mas junto com as teorias furadas do projeto agrícola, também afundou seu casamento. Voltou, então, para o sul trazendo o filho, passou pelo Matadeiro e se encantou. Disse é ali, o amigo ah, não vai dar, não vai dar. Vaaaaai. Vão te expulsar, mas eu vou tentar, vamos ver quem é mais cabeçudo. Lá em Roraima eu já fui engambelado pelo governo e agora aqui em Florianópolis de novo? O estado vai me perseguir? Quando olho pra dentro de mim, vejo alguns mundos bem diferentes. No fundo, escondida atrás dos livros, a cama estreita de caixote disputa lugar com alguns pertences pessoais distribuídos em um banco e uma prateleira pequena à direita. Na cabeceira da cama, algumas tábuas de madeira deram lugar a telhas de acrílico, por onde a luz da manhã entra. Já escutei inúmeras vezes Eduardo dizer que precisa refazer a fiação. – Esse barraco.... é a providência que me protege, viu. Só gambiarra e tudo grudado com durex. A energia, puxada por um gato, como se costuma dizer, só funciona à noite. Durante o dia, a temperatura da geladeira onde ficam as cervejas e refrigerantes é mantida com o gelo restante. Uma porta nos fundos abre quase na encosta do morro. Só há espaço para algumas caixas e um vaso sanitário improvisado ali, a céu aberto, na terra. Na parte da frente, no meu canto esquerdo, fica o lado mais comercial. Perto da geladeira está o fogão desses


32 – OcicerO – edição três – março 2014 fotos: maria fernanda moraes

O livreiro não pesca, não nada, não surfa, isso porque um dia ficou traumatizado ao tentar salvar um cara que acabou morrendo afogado, mas garante: em abril, estará de volta ao mar

tipo industrial com duas bocas, onde Eduardo cozinha o milho e ferve a água para o seu chimarrão, a cada hora. Na parede principal, Marilyn Monroe, Van Gogh e um livro renascentista são o meu cartão de visitas, logo ao lado das batatinhas Ruffles que também estão à venda. Domingo é único dia que fecho as portas, como o dies Dominicus. Eduardo faz um trabalho voluntário na Seove (Sociedade Espírita Obreiros da Vida Eterna), uma instituição espírita de apoio aos idosos. Ele trabalha na triagem das doações que a instituição recebe, mais precisamente no setor de livros, sua especialidade. É ali também uma das formas que ele têm para abastecer seu estoque. Quando aparece um livro bom entre as doações, ele tem a prioridade na hora da compra, pelo mesmo preço que vai pra loja. As outras formas são o garimpo nos sebos do centro da cidade, onde compra e troca volumes, além das doações de amigos. – Às vezes me dizem: porra teus livros tão caros! Mas não sabem o

trabalho que me dá pra trazer esses livros pra cá. Além do mais, tenho que empacotar os livros por causa da maresia. Quando vou em um sebo, tiro quatro livros em duas horas, por exemplo. Eu faço seleção mesmo. Recebo até encomenda, porque sabem que eu garimpo. Isso aqui [aponta para os livros expostos no barraco] não é uma coisa convencional. Onde você pode encontrar Dumas, Truman Capote, Oswald de Andrade, Paul Austen, Kafka, Oscar Wilde? Isso é raro encontrar. Antes, o movimento na praia era menor e Eduardo costuma dizer que o seu negócio é um termômetro muito forte da ascensão da ‘tal da classe H pra classe E’, ironiza. – Os caras ascenderam economicamente, nos bens de consumo, mas a questão cultural não acompanhou. Então, tem gente que passa por aqui e acha que esvaiu da minha cabeça essa loucura, acha uma estupidez vender livros, porque na verdade não tá no universo deles. A cultura é renegada nesse país. Há um tempo atrás, essa praia era, digamos assim,

mais seleta. A venda de livros, que deveria aumentar proporcionalmente com o número de pessoas que vem aqui, não aumentou. – Você acha que a classe mais alta lê mais? – Sim, siiim, sem dúvida, diz ele numa mistura debochada de sotaque gaúcho e manézinho com as vogais prolongadas propositalmente. Mas não essa classe que ascendeu agora. Essa não... essa não teve o acompanhamento da cultura, ficou pra trás. Essa consome pra cacete, mas consome nesse nível, coisas como funk ostentação. Um dia desses passou um cara aqui com três mulheres. Elas começaram a ver os livros e ele disse: não para aí não que só tem porcaria. Tu quer o que imbecil? Tu quer Sidney Sheldon, tu quer Paulo Coelho? É isso que tu quer? Então realmente, só tem porcaria. Os turistas argentinos, responsáveis por boa parte do turismo na ilha na época de temporada, também não fogem da análise dele. – De cada dez argentinos, dois param. Dão uma olhadinha, perguntam se tem livro em espanhol.

Ter eu tenho, mas é um García Lorca, um Márquez, Neruda, Borges. E nem sempre interessa. Mas Eduardo tem seu público cativo que sempre volta. Já percebi também que geralmente as pessoas passam pra comprar livros na volta da praia. Antigamente, o negócio funcionava de um jeito diferente, era uma espécie de empréstimo, aluguel de livros. Ideia revolucionária pra praia também, eu achava. Mas não deu muito certo. Aqui o tempo vira muito fácil, na mesma hora que o sol está brilhando, de repente, chuva. Aí o pessoal salva o guarda-sol, não deixa molhar o cigarro e o livro é o último a ser lembrado, vai embora pra casa na sacola junto com as bananas esmagadas. No fundo, eu sei que os livros são só a diversão dele. Pra viver de livros, só se eu fosse franciscano, vive dizendo. O que mais rende no fim do mês é a venda de milho. Ele não tem nenhum vício pra sustentar, parou de beber há oito anos, – bebia como uma cabra, diz – e não faz nenhuma extravagância. O gasto maior é com

a internet, que lhe possibilita ler o jornal toda manhã. O telefone, que vem no combo da Vivo, o incomoda, porque sempre ligam oferecendo alguma coisa que ele se irrita facilmente. Mas é a forma com que mantém contato com a família em Roraima. Os dois netos, Juliana de nove anos, e Vitor de sete, ainda não me conhecem. Toda vez que Eduardo fala neles, fica alguns segundos em silêncio, como se fosse o tempo suficiente para lembrar de cada peripécia das crianças que já presenciou. O menino tem muito jeito para o teatro, diz, é só incentivar, tem uma cabeça muito criativa. Dá um longo suspiro e lembra que a solidão vez em quando aperta o peito. As pessoas acham graça quando ele conta que não costuma tomar banho de mar, não pesca, não nada, não surfa. Não entendem porque ele escolheu viver na praia. Porque eu contemplo, diz logo, sem cerimônias. Mas esse desprendimento esconde algumas verdades que Eduardo não revela logo de cara e que lhe


OcicerO – edição três – março 2014 – 33

trazem algum sofrimento. Só conta depois de alguns dedos de prosa, com mais intimidade. – Levei um cagaço muito grande e acho que talvez isso me traumatizou um pouco. Um cara foi puxado pela correnteza, fui tentar salvar, mas ele morreu. Voltei com o cadáver nos braços. Mas eu vou voltar pro mar. Tô negociando um longboard pro mês de abril, já consegui uma roupa também. Quando não está cozinhando ou atendendo os clientes, Eduardo senta-se numa cadeira de plástico acomodada perto da bica d’água e descasca o saco de milho que traz da vila. Coloca uma tábua de madeira no colo, corta as duas extremidades da espiga batendo um martelo na faca e risca a palha. Retira a parte exterior e reserva a palha de dentro para usá-la quando o milho estiver cozido. Com o milho sem casca, usa uma vassourinha para tirar os fios da espiga. O trabalho já é automático e ele vai conversando com quem

passa na trilha enquanto isso. Uns pedem para guardar alguns pertences enquanto vão mergulhar, outros perguntam por palha para enrolar um beque, e há ainda aqueles que pedem indicação do melhor restaurante da praia. – O último lá na praia, o Mergulhão. A comida é boa e é o mais barato. Mas não está aqui quem te falou isso hein! O bom humor também é o mesmo quando os clientes mais desavisados chegam e pedem: senhor, me vê uma cerveja? – Senhor? Quem é senhor aqui? – Ah, é mesmo, desculpa, senhor está no céu. – Pois é, e olhe lá se estiver hein! Para reabastecer a despensa, ele percorre a trilha até a Vila da Armação de seis a sete vezes por dia. Pra mim, nem há tanta necessidade, mas já percebi que é uma forma dele manter contato com as pessoas nos dias que a solidão aperta. Costuma dizer com graça que os 500 metros

dessa trilha são os responsáveis pelas pessoas que moram no Matadeiro não serem gordas. Ouvi ele dizer um dia desses sobre uma tal de prosopagnosia, que não chega a ser uma doença, mas uma deficiência que torna muito difícil reconhecer a feição das pessoas. Ele explicava que pode, por exemplo, conversar com alguém num momento e passar por ela dali a uma hora e não reconhecer. Não lembra da feição, mas pode se lembrar da voz ou algum outro detalhe que marcou. Foi depois que escutei essa conversa que fui ligando os pontos. Na parte de dentro da minha testeira, próximo à janela da frente, ele escrevia com caneta colorida algumas coisas que não faziam sentido. Foi aí que percebi que eram os nomes de algumas pessoas que tinham passado por aqui. – É horrível isso, todo mundo me conhece aqui na vila mas o inverso não é real. Morar numa vila tem a parte boa porque eu me sinto protegido. Se algum desavisado

chegar aqui e me enfiar a mão na lata, dificilmente ele vai chegar até o rio. Isso me dá segurança. Às vezes, ouço ele falar em sair daqui. Fala umas coisas de ciclo que já passou e até silencio, olho pra praia pra tentar disfarçar o aperto que sinto e até faz ranger minhas madeiras velhas. Mas logo ele lembra da saudade que sente quando fica alguns dias fora e já muda se assunto. Dia desses ele estava pesquisando na internet algum curso de inglês. Está planejando uma viagem a Berlim no fim desse ano, começo do ano que vem. Comentou com um cliente que quer começar agora um bom curso de inglês, pra chegar lá com o idioma bem afiado. Sei que ele tem uma boa noção de alemão, porque vira e mexe solta umas palavras, mas disse que queria aprofundar um pouco mais. O que não me sai da cabeça é essa história da prosopagnosia e, então, resolvi pesquisar mais.

normal. Antes da primeira mordida vem a hashtag é claro, #yummy, como dita a moda. Ir ao restaurante durante o tempo livre por simples prazer se tornou um evento à parte em boa parte dos restaurantes de São Paulo. A chegada de um prato na mesa é celebrada com múltiplos flashs e hashtags, e sem esquecer de dar check-in no Foursquare, afinal, enquanto você engole a comida rapidamente, os seus seguidores dão likes nas suas fotos e prometem uma breve visita acompanhadas de seus celulares. Há tempos que o culto dos prazeres da mesa não é mais a arte de cozinhar ou de satisfazer aqueles que buscam alimentos mais refinados. Tudo o que já era saboroso e apetitoso agora surge com uma nova roupagem, o chamado gourmet plus um filtro do Instagram chiquérrimo. Afinal, o lagostim

pode fugir do prato se você não chegar a tempo do clique. Para todos os efeitos, a gastronomia ainda é a arte que fez gênios como Leonardo da Vinci criar um acessório de cozinha que leva o seu nome e até se tornar o precursor da nouvelle cuisine; a gastronomia também fez Camilo Castelo Branco descrever um saboroso caldo verde; e fez ainda de Eça de Queiroz crítico gastronômico ao mencionar inúmeros restaurantes em suas obras literárias. Comer é o maior prazer da vida – de todos e para todos. Por isso, se há um direito que todos deveriam possuir é o de comer bem. Quando foi que o gourmet roubou os nossos paladares e a nossa carteira? Enquanto salivamos durante a cruel dúvida do que pedir, os cifrões são rapidamente adicionados a nossa conta. Aí, nós, parte da geração gourmet, nos rendemos ao prazer do paladar, aquele que substituímos por sexo, trabalho ou qualquer outro hobby. Afinal, há coisa melhor? Para experiências gastronômicas inesquecíveis e cliques irreverentes:

Descobri que a doença tem dois grandes subtipos. O mais simples é a prosopagnosia adquirida, que surge quando, por causa de derrames ou ferimentos, essas áreas sofrem algum dano. Já a prosopagnosia congênita – ou hereditária – é a mais comum, e a mais misteriosa. Até o momento, a ciência só sabe que ela tem origem genética. Eduardo acha que a sua é de origem genética, já comentou que a mãe não sente cheiros e um dos seus seis irmãos é daltônico. Pra mim, embora o pinus que me reveste não me dê o discernimento suficiente de fazer julgamentos, penso que a prosopagnosia é o que o mantém firme. Quando se resolve traçar o próprio caminho e abdicar – ou ser abdicado, não se sabe – da convivência em família, é preciso achar nos rostos estranhos a justificativa para seguir em frente. E se isso não puder ser feito, há de ser inventado. 

gastronomia

CADA GARFADA É UM FLASH! por marjorie niele Dizem que o termo gourmet surgiu para designar aquele que tem paladar apurado ou um ideal cultural, segundo o precursor e gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarin, no livro Fisiologia do Gosto, ou, como diria Millôr Fernandes, “o gourmet é um comilão erudito”. Contudo, o modo de apreciar esta arte foi criando nova forma e hoje surge como um

show de neologismo e retomadas da antiga cozinha. Quando que comer virou algo tão pretensioso? Em tempos modernos, com o super invento do Iphone e seus aplicativos de fotos e filtros que tem a habilidade de fazer qualquer um ficar com água na boca no simples ato de rolar a barra do feed de notícias das redes sociais como Facebook ou a timeline do aplicativo de fotos queridinho Instagram, isso é absolutamente

Se jogue no filtro hefe: Hamburgueria queridinha da Vejinha. R. Bandeira Paulista, 164, Itaim Bibi, São Paulo Pork bun. Pãozinho chinês feito no vapor recheado com carne de porco, pepino agridoce, cebolinha e molho coreano à base de pasta de feijão. prato principal Mushroom burger. Hamburger de 180g com cogumelos e queijo mussarela com ‘house ketchup’. sobremesa Milk shake de Bailey’s entrada

butcher’s market

Para abusar do filtro lomo-fi: Restaurante japonês contemporâneo com background novaiorquino. R. Pedroso Alvarenga, 554. Itaim Bibi, São Paulo. Crispy rice. Bolinho de arroz frito com spicy tuna, molho tnt, pimenta srirracha, teriyaki da casa e mini pimentão verde.

entrada

fisherman’s table

arte: bianca oliveira

Lobster roll (quente). Lagosta na manteiga, alho e vinho branco no pão de hotdog com molho agridoce levemente picante e batata frita. sobremesa Squid ink icream. Sorvete de tinta de lula servido com creme inglês e “hawaian black lava salt”. prato principal


34 – OcicerO – edição três – março 2014

fotos: bruno graziano

brasas

POMBOS Ignorava qualquer ironia. Quando lhe proferiam um olhar de repulsa, seguia em frente com seus cuidados. Até que, um dia, um rapaz mal intencionado o alugou por algumas horas, gritando xingamentos em sua direção: “Porca! Safada! Quem gosta de pombo é o demônio, sua idiota!” Inchada de ira acumulada, limitou-se a um gesto de comando, com os braços erguidos para o alto e um grito agudo e contínuo. Em questão de segundos, plumavam no ar centenas de pombos atacando sem dó nem piedade o xingador cruel. Picavam-lhe a cuca formando um tornado incessante, como se imitassem o filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, numa orquestra de lealdade e amor. Maitê era bela para poucos e feia para muitos. Não se cuidava como uma modelo de passarela e nunca usara maquiagem da marca mac. Desde pequena, adorava pombos. Quando assistiu Esqueceram de Mim 2, implorou a sua mãe para ganhar um pombinho branco de estimação. Ficava brava quando diziam que eram “ratos com asas”. E retrucava: “São anjos malditos, seu bobão!” A garota tinha uma fixação pelos voadores urbanos. Na pracinha próxima de onde cresceu, alimentava-os religiosamente todos os dias com milho e pão velho. Um dia, por alguma razão, o famoso francesinho na mesa do lanche da tarde estava contado. Pois, sem nenhuma dúvida, deixou de comer o pão

do lanche para alimentar seus pássaros amigos. Falando em amizade, dizia a todos que seus únicos amigos eram os pombos, os malditos pombos. Foi quando decidiu, de uma vez por todas, viver como eles, selvagens urbanos com um sangue animal dependente. Batia as asas, tentando voar baixo, e lambia a calçada de piso em formato de território paulista, caçando milhos duros e miolos secos para se alimentar. Andava quase nua e largou tudo e todos pelos pombos. Dormia rodeada por pelo menos sessenta. Estava feliz, misturada aos que sempre lhe satisfizeram. Isto é o ser humano, um pombo frustrado, que sabe ser maldito sem perder a sublimidade. Fim.

A PRINCESA E O PELUDÃO Amanda era a primeira das amigas a se pronunciar: – Não gosto! – Mas por que, amiga? Diziam todas, beirando os dezessete. –Não me desce, tenho nojo. Uma delas foi mais a fundo. – Não sabes o que é ter um peito cabeludo de travesseiro. Quando souberes, virá me procurar. E Amanda foi sumária: – Nem morta! Acontece que a moçoila cresceu, fez vinte e um e seguiu com essa trava, essa barreira com homens peludos. Escolhia para namorar os mais jovenzinhos, que ainda estavam na puberdade ou que não tinham evoluído o corpo masculino por completo. E

com nenhum deles conseguiu ter uma relação séria. Certo dia, deitada na cama, recebeu no quarto sua mãe. – Minha filha, escuta. – Diga, mãe. – Estou preocupada com você. Sabe que eu te amo, sim? – Sei disso, mãe. Mas por que a preocupação? – Minha filha, somos amigas, não somos? – Claro, mãe. – Então, pode se abrir. Por que só escolhe garotos? – Como assim? – És uma mulher formada, de quadris suntuosos. Tens o rosto de uma Cláudia Cardinale, a beleza de uma rainha. – Quem é essa Cláudia? – Minha filha, me diga, por que só escolhe garotos? – Coisa minha, me deixa. – Tens que procurar um homem, um verdadeiro homem, como teu pai. – Mamãe, eu amo meu pai, mas como ele, jamais. – Assim fico ofendida. Por que jamais? Não admira teu pai? – Não, não é isso. Amo papai, já disse. É que tem pelos, entende? Sempre que papai me abraça, sinto vergonha. Não consigo o abraçar. É muito peludo. Amanda levanta da cama, ajoelha e abraça a mãe. – Entende, mamãe? Não consigo. Com pelos, dou coice em qualquer macho. Qualquer um! O tempo passou e nada mudou. Amanda completou quarenta anos sem nenhum casamento, sem nenhum namoro duradouro. Quando suas tias lhe colocavam na parede, era clara: “Homens têm muito pelo, não consigo”. Chegou ao ponto que Amanda tentou experimentar o sexo com outras mulheres, mas entendera rapidamente que não era esta a sua vontade. E após todo esse tempo de angústia, tornara-se uma mulher dura e fria. Dizia a todos: “Não quero ter filhos!” E via todas as suas amigas casarem, divorciarem, casarem de novo e assim por diante. Chegara o dia em que todos ao redor tinham a causa como perdida, e sua fama já era a de “a velha dos gatos”. Foi quando, num sábado, veio o anúncio. Aman-

da organizara um jantar em sua casa e iria finalmente apresentar seu namorado. Seus pais, já idosos, estavam animados. As amigas, endiabradas. Amanda dava pulos de alegria e, como toda apaixonada, era uma irracional. Declarava seu amor com uma ênfase invejável. “Vocês vão ver, ele é o máximo!” Na sala de seu apartamento, todos suspiravam ansiedade, até que finalmente entrou e de mãos dadas com o felizardo. – É com muito prazer que lhes apresento o Osmar, meu amor, meu grande amor! E a reação, se não curiosa, foi fatal. Ninguém acreditava no que via e muito menos queria acreditar. Seu pai ficou estático. Sua mãe começou a chorar. Umas amigas, mais maldosas, riam caladas. – Me dá um beijinho, Osmar, meu querido! E Amanda beijou seu amor, um chimpanzé legítimo, Pan troglodytes primata de um metro e vinte de altura e beiço plástico e mãos e braço compridos. Era peludo até os dentes e soltava pelos por onde passava. Amanda então percebeu a reação geral e lhe agarrou pelo pescoço, gritando para todo mundo ouvir: – Eu te amo, meu macacão!

Reizinho Momo Gramado do estádio do Morumbi encharcado, final do Campeonato Paulista de 1974, final de tarde de 22 de dezembro, Rivellino é a esperança corintiana

de tirar o time da seca de títulos que completara duas décadas, é o camisa 10, formado em casa, o craque, o parceiro de Pelé no esquadrão de 70, o herdeiro da camisa do Rei e artilheiro do escrete brasileiro na Copa de 74, o cara que aperfeiçou o drible do elástico – aprendeu com um colega japonês, Sérgio Echiro, nos aspirantes -, que esbanjava um belo bigode e era ídolo máximo dum garotinho argentino chamado Diego, um adolescente que seria mais conhecido como Maradona: tem perfil melhor para coroação do ídolo num caldeirão com 120 mil pessoas, mais de 100 mil alvinegros diante de uma minoria verde e branca, exatamente o maior rival, o Palmeiras? Mas Rivellino falhou, falhou como qualquer um falha, quer dizer, falhou como o bando de bundas-moles hoje falham a todo momento, e olha que o Rivellino perdeu uma bola em lance duvidoso – hoje seria falta, escândalo, mas cair no chão durante um jogo em 1974 não era motivo de incriminar o beque – e viu o gol palmeirense, marcado por Ronaldo, sair só na sequência da jogada, já lá longe. Mas não deu outra: Rivellino, craque ou blefe, estampou a gente boa Folha de S. Paulo de quatro dias depois. “Quem me tirou do Corinthians foi a crítica, não a torcida, a crítica, foi a crítica”, me repete o Reizinho do Parque em fevereiro último, a poucos quilômetros do lance que o tirou do time do coração há 39 verões. Time do coração? “É, eu era palmeirense, todo mundo sabe, minha família é de origem italiana, eu torcia pro Palmeiras e hoje tenho duas paixões, Corinthians e Fluminense”. No Flu, ele estreou nem dois meses depois do jogo fatídico, no sábado de Carnaval de 1975, exatamente um amistoso contra o Corinthians, que dispensara seus serviços na virada do ano. No Maracanã, fez gol de rebote, de cabeça, de cobertura, comemorou todos eles correndo pra geral e viu o tricolor meter quatro a um no ex-time. Nega ter qualquer rancor por ter sido expulso de casa. Mas, daquele sábado, sambou até a quarta-feira de cinzas.  


OcicerO – edição três – março 2014 – 35 resenha

por halder gomes E quem disse que Deus num tem lá seus momentos de exibicionismo? Ora, se prestarmos atenção, veremos este ato de vaidade divina na beleza de um tigre asiático, na autoestima de um tubarão branco, na elegância de um galo indiano e, claro, na sublime e suprema beleza como forma de sua obra-prima, nela... melhor, nela: Brooke Shields! Mas Deus, por ser incrédulo pra muitos, precisou de Hollywood pra exibir sua masterpiece, razão da existência do filme A Lagoa Azul – que divide o recorde de exibições na Sessão da Tarde com Gremlins. Mas se Deus quis exibir sua obra-prima no cinema – aos moldes da beleza de Nossa Senhora, dizem –, o satanás se meteu no casting e escalou o caba (Chris Atkins) que se perde na ilha com ela. A proposta do capeta não era só tentar arrochar* a obra divina, mas matar de inveja alguns bilhões de seres asilados* por Brooke Shields – este que escreve, inclusive. O fi duma égua conseguiu as duas coisas! 2x0 pro capeta... Putz! Ah, mas a “oposição” vai dizer que a Brooke Shields, no Lagoa Azul,

divulgação

Brooke Shields, em Lagoa Azul não era uma Meryl Streep em sua atuação ou obra de prima de Deus, por sua beleza... Acuma*? Olhe direito, hoje, em Full hd, e verá que, de tão perfeita, ela sequer tem uma marca de vacina ou de catapora – vá lá, tem uma marquinha de catapora na testa. Mas ali á assinatura de Deus, em bom e alto relevo. Daí o leitor vai perguntar: e quando vai falar sério sobre o filme? Ôxe, tô falando sério! E tem mais: o filme é sensacional até hoje, assim como Brooke Shields continua detentora do título de ser – entre todas as espécies vertebradas e invertebradas – mais belo que já habitou a Terra desde a era Jurássica. E qual seria a vingança divina diante da derrota pro capeta no case A Lagoa Azul? Simples assim: bater Gremlins na Sessão da Tarde. Se depender de mim, meu Deus, vamos ganhar esta. Só duas coisas me fazem não mudar o canal em hipótese alguma – independentemente de estar passando um jogo de Copa do Mundo: um episódio do Chaves ou A Lagoa Azul.  ___________ * arrochar: pegar, comer (no contexto sexual) * asilados: doido, obcecado por algo * acuma?: Como é que é?

A atriz que encantou Halder Gomes aparece de tempo em tempo assim, formando um casal seminu, na vespertina Sessão da Tarde

colaboraram nesta edição alexandre camaleão, 34, trabalhou na arte da última página direto da calorosa Goiânia

denise godinho, 26, ainda quer mudar o mundo, mas por enquanto muda os finais dos romances

isadora biella, 26, vai à praia de sempre em sempre e de lá mandou a foto do editorial

paulo silva jr., 25, tratou do cinema pernambucano, nunca foi ao recife, mas imagina o forno

beatriz garcia, 22, ilustrou os insetos mais próximos que qualquer um já viu

everton oliveira, 26, juntou citadinos no centrão de são paulo e fez a foto da praia urbana

jorge maia, 30, sempre gostou de fotos quentes – e o tema da edição caiu como uma luva

rafael nardini, 27, não tá nem aí pra pizza debaixo do braço e fez um tratado sobre o suor

gabriel uchida, 27, é conhecido por fotografar futebol, mas aqui trocou o pacaembu pela Cracolândia

leandro durazzo, 27, é o poeta que fecha o jornal: virem a página e verão (tsc)

raphael sanz, 27, deu um pulo na Cracolândia e encontrou uma reportagem da boa

bianca oliveira, 28, desenhou o jornal e perdeu os bloquinhos de rua no carnaval breno ferreira, 28, é o quadrinista que espera a estação quente pra fritar os miolos bruno graziano, 26, segue arrumando desculpas profissionais pra dar um pulo no guarujá bruno sobrante, 26, reclama, reclama, mas nas crônicas deixa claro: curte um perrengue camile liguori, 26, entrevistou a vendedora de empadas e é contra dietas de verão cecília garcia, 23, está feliz com a vida de homo sapiens, mas encarnou um siriri

guilherme horta, 32, diagramou como sempre, e elogiou o climatizador da redação improvisada

lucas borges, 26, sonhava cobrir a final da copa, mas largou o jornalismo ainda antes da convocação final

ricardo casarin, 26, vestiu sua sunga vermelha e escreveu sobre os trajes de praia

luciano costa, 25, solidário aos bebedores de cerveja quente, retratou a falta de energia em Buenos Aires

rita barros, 29, é poeta, todos lembram, mas nessa edição trocou poesia por revisão

marcelo montoza, 29, nem precisou checar termômetros pra escrever sobre o verão mais sinistro da vida

rodrigo erib, 32, usou o desespero de um amigo com calor para emplacar uma fotonovela 

heloisa fleming, 24, ilustre ilustradora de mais uma edição

maria fernanda moraes, 28, é paulista, mas vive em Floripa e de lá mandou uma boa história de praia

társio mendes, 26, é o artista da capa; tem coisa mais verão que uma velha tomando sorvete?

hugo moura, 25, nostálgico como sempre, escreveu uma carta aos cantores mortos

marjorie niele, 23, tem um paladar com refinamento inglês – vai ver por isso sugere o itaim bibi

victor britto, 26, ilustrou reportagens com photoshop, cerveja e um ventilador de teto

gustavo gialuca, 35, trouxe à edição suas três grandes paixões: charges, mulheres e sorvetes halder gomes, 47, diretor de Cine Holliúdy, foi convidado para escrever sobre sua musa do cinema

edição três – março de 2014 tiragem mil cópias preço dois mengos gráfica metromídia capa társio mendes

produção executiva paulo silva jr. 11 9 9494 8478 bruno graziano 11 9 7465 1308

redação avenida ipiranga, 1071 sala 408 – república são paulo – sp cep 01039 000

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