O Casarão nº oito

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Os polĂŞmicos e lucrativos jogos universitĂĄrios na pg.6

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“A informação liberta”

Entre, circule pelos espaços, abra portas e janelas Parece roteiro de cinema. A história da construção do novo prédio do IACS já atravessa quatro décadas cercada de solavancos e reviravoltas, e cenas insólitas, como o desabamento da sede da construtora responsável pela obra, que levou junto as plantas de arquitetura. Mas ao melhor estilo cinemão, o roteiro parece aproximar-se de um final feliz: retomadas ano passado, as obras devem ser entregues em 2015 (esperamos!). Nesta edição, contamos cada cena desta tragicomédia, com pequenos toques de enredo policial, e mostramos os próximos passos que nos levarão ao prédio hollywoodiano às margens da baía. Ainda pelo campus, encontramos a força das atléticas, associações esportivas que trouxeram novo gás para os atletas - profissionais ou de ocasião – e criaram boas oportunidades de negócios, movimentando a economia de pequenas cidades e criando um mercado para a organização dos jogos universitários. Das quadras para as salas de aula, conversamos com profissionais de Educação para entender como a sexualidade, a afetividade e as questões de gênero são tratadas nas escolas do Ensino Fundamental e Médio. Ou como deveriam ser... Também mostramos como, do outro lado da ponte, um grupo de moradores luta pelo direito de permanecer no seu espaço. O Vidigal, tradicional morro da Zona Sul, tornou-se alvo da especulação imobiliária e da ação do poder público, pressionado pela valorização pós-UPP. Exclusivo para O Casarão, revelamos o carisma de um dos mais talentosos escritores da América Latina, Eduardo Galeano, que nos recebeu para um gole de cappuccino com política, história e futebol num dos mais charmosos cafés de Montevidéu. Outro bom bate-papo aconteceu bem mais perto, na Maré, bairro carioca estigmatizado por sua associação com o tráfico de drogas e a violência, mas que revela sua força e potência criativa na voz de uma de suas moradoras, Renata Souza, jornalista e doutoranda em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Moradora da Maré e jornalista, Renata Souza fala sobre a realidade dos jovens da favela e o poder transformador da informação Por Bianca Alcaraz e Paula Rodrigues Desde criança, Renata tinha um histórico de frustração com o jornalismo. Nada que via na TV parecia com a sua realidade. Esta seria a primeira profissão dispensada por ela. Mas, aos 17 anos, o destino a surpreendera. Nascida em uma das famílias fundadoras do Parque da Maré, Renata Souza descobririu no jornalismo a possibilidade de dar voz àqueles que considera excluídos da opinião pública. “A informação liberta. Através dela as pessoas passam a ver sua realidade de maneira mais crítica. A mudança de postura diante dos problemas pode levar à ação, à reivindicação de seus direitos”, afirma. Aos 31 anos, a jornalista orgulha-se da sua trajetória de militância na comunidade. Desacreditada de sua capacidade de cursar o Ensino Superior, viu muitas portas serem abertas quando começou a fazer curso de teatro no Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré). Prestou vestibular e por três vezes pensou em desistir. O apoio familiar deu forças á “mareense” para cursarjornalismo e publicidade na PUC-Rio com 100% de bolsa. Hoje, é doutoranda da ECOUFRJ e trabalha na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Foi através do jornal O Cidadão, do bairro Maré, que Renata conheceu sua realidade. “Foi ali que comecei a acessar a própria comunidade. Notei as gradações de pobreza que existem em uma mesma favela”, conta. Apesar do leque de possibilidades que se abriu, Renata optou por permanecer na comunidade. Como foi a sua trajetória até o Ensino Superior? Você sempre morou na Maré? A minha história até chegar à graduação é engraçada. Fiz um teste vocacional aos 17 anos e indiquei o jornalismo como a profis-

“A minha certeza

é que na Maré está a minha história de militância. Aqui é o meu lugar.”

A casa é nossa. Publicação Laboratorial do Curso de Comunicação Social

Reportagem: André Borba, Arthur Figueiredo, Bernardo Oliveira, Bianca Alcaraz, Camilla Pacheco, Douglas Dayube, Fabio Peixoto, Felipe Magalhães, Francielly Baliana, Gabriela Novaes, Gustavo Xavier, João Pedro Soares, Leonardo Pimentel, Lucas Bastos, Luís Pedro Rodrigues, Marcos Kalil, Paula Rodrigues, Rafael Bolsoni e Thiago Medeiros Fotos: Fabio Peixoto, Jéssica Alves e Thiago Machado Capa: Luís Pedro Rodrigues ocasarao12@gmail.com fb.com/jornalocasarao @jornalocasarao issuu.com/ocasarao

arquivo pessoal

Orientação: Carla Baiense (18788 MTb) e Ildo Nascimento

são mais dispensável do mundo. Achava que o jornalismo não dizia a verdade sobre a favela. E quando via as notícias relacionadas à Maré sempre me questionava por que elas não correspondiam ao que eu via na rua. Então, a orientadora pediu para eu estudar a profissão e fiquei encantada com o mundo de possibilidades que o jornalismo oferecia, além do olhar crítico que o profissional poderia imprimir às reportagens. Descobri que poderia retratar a verdade. Em que momento começou a trabalhar no jornal O Cidadão? O que te motivou a participar desse tipo de comunicação voltada para questões sociais? O jornal promoveu um debate político entre os candidatos da Maré que pleiteavam um cargo de vereador na Câmara, em 2000. Ao final, me aproximei do editor e disse que queria fazer parte da equipe, porque achava importante aquele tipo de intervenção. Entrei no como fotógrafa, porque fazia um curso no próprio Ceasm, mas queria mesmo escrever. Quando acompanhava os repórteres em entrevistas, acabava me intrometendo. Depois fui para a reportagem e quando entrei para a universidade tornei-me estagiá­ria. Ao me formar, assumi o cargo de editora, a primeira moradora da Maré assinando como jornalista responsável. Foi uma felicidade imensa, e uma responsabilidade inigualável. Trabalhar no Cidadão foi um verdadeiro laboratório pessoal e profissional. Aprendi errando e acertando e fortaleci minha identidade mareense. Foi lá que comecei a acessar a própria Maré, desconhecida por mim enquanto moradora que não circulava pelos espaços. Comecei a notar as gradações de pobreza que existem em uma mesma favela, e fazia as inevitáveis comparações com a minha própria realidade. Nunca faltou comida na minha casa, por exemplo, mas conheci várias famílias que passam fome de verdade, com todo mundo desempregado, sem ter sequer documentos de nascimento. Tem gente na Maré que não existe para o Estado. Percebi o quanto o acesso aos direitos é limitado e quanto mais se acessa, mas certeza se tem de que os “favelados” não têm seus direitos respeitados De que modo você enxerga o cenário da comunicação comunitária/ alternativa atualmente? Vejo com muito otimismo. Antes, essas iniciativas surgiam e desapa-

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reciam na mesma velocidade por conta da falta de recursos financeiros. Com os avanços das novas tecnologias de informação, os meios de produção são mais acessíveis. Mesmo sabendo que o jornal impresso tem mais apelo nas favelas, por ser algo palpável, ou pelo fato do acesso à internet ainda não ser universalizado, a possiblidade da criação de um blog ou site evita a extinção dessas iniciativas. O próprio O Cidadão ficou um longo tempo sem sair em sua versão impressa e o blog acabou “segurando a onda”. Além disso, acho que as iniciativas alternativas ganham força diante do crescente descrédito que os meios de comunicação tradicionais e comerciais experimentam nos últimos anos. A internet, em especial as redes sociais, colocou em xeque a abordagem midiática sobre a cobertura dos fatos. Vide as manifestações de junho do ano passado, quando grupos independentes passaram a cobrir as manifestações sem edição de seu material. Quem estava nas ruas, e não foram poucas as pessoas, passou a comparar o que se via na televisão com o que efetivamente acontecia nos protestos. Quando os grandes veículos começaram a criminalizar os movimentos, as pessoas questionaram a suposta “neutralidade” que esses veículos juram ter. Acredita que esse tipo de comunicação é capaz de produzir alguma mudança na realidade das pessoas dentro da comunidade? Com certeza, porque acredito que a informação liberta. Através dela as pessoas passam a ver sua realidade de maneira mais crítica, a desnaturalizar aquilo que viam como comum na sua rotina. A mudança de postura diante dos problemas pode levar à ação, à reivindicação de seus direitos. Por isso, as pautas de qualquer jornal comunitário devem levar em consideração a realidade local. Quanto mais próximo estiver dos problemas que afligem a comunidade, mais identificação as pessoas terão com ele. Você continua morando na Maré. Por que a escolha de permanecer na comunidade? Hoje não tenho a menor vontade de sair da Maré. Pode parecer contraditório, mas o fato de ter acessado outro tipo de informação, diferente daquela disponível para meus pais, irmãos e vizinhos, me faz ter mais vontade de ficar na Maré e refletir sobre a realidade da favela vivendo-a cotidianamente. Sinto que a ausência do Estado fortalece o diálogo que tenho com aqueles que me cercam. No final das contas, a minha certeza é que na Maré está a minha história de militância. Aqui é o meu lugar!

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Lições de Vênus Por André Borba, Bianca Alcaraz e Camilla Pacheco

Amor, sexo e gênero discutidos em sala de aula

Você sabia que nascer com um pênis não significa ser homem? Que identidade de gênero independe do corpo e da sexua­lidade? Para Pedro Bessa, aluno de Relações Internacionais da UFRJ, essas questões já estão esclarecidas. Aos 21 anos, ele afirma que para fins documentais seu gênero é masculino, mas na prática o identifica como fluido: livre dos termos. E disso, Pedro entende bem. Apesar de só se relacionar com pessoas do mesmo sexo, ele evita o termo gay, “por motivos teóricos que me levaram a conceber que essa palavra tem um poder semântico opressivo”, afirma. Em uma explicação breve, o estudante apresenta o antônimo straight (direito/correto, em português) e mostra como gay soa incorreto nesta contraposição. “Straight é opressivo até falando de cabelo”, brinca. Pedro é um estudioso amador do tema, mas conta que pretende se especializar. Tudo que sabe sobre gênero e identidade sexual aprendeu por conta própria. Em muitos anos como aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, ouviu sobre o corpo e a sexualidade, mas nunca sobre a sua diversidade e sempre de forma heteronormativa - por ser uma instituição militar, ele acredita. “Lembro que um dos principais dirigentes afirmou: ‘se quiser ser veado, espera sair do colégio!’”, relembra. E ainda que não tivesse seguido conscientemente essa recomendação, de fato, Pedro só assumiu sua identidade depois que se formou no Ensino Médio. A visão homofóbica da direção do colégio contribuía para criar um ambiente hostil tanto para os alunos gays como para os que eram vistos assim. “Nenhum relato de bullying homofóbico surtia efeito, nada era feito, nenhuma retratação”, comenta Pedro. A sensação era de indiferença por parte de quem deveria proteger. Preocupado com os estudantes que não se encaixavam nos padrões tradicionais de gênero e sexualidade, o professor João de Melo Alves se empenhou para incluir esta pauta no debate entre os alunos. Com mais de 30 anos de sala de aula, há 10 leciona Biologia no Colégio Estadual Julia Kubitschek, no Centro do Rio de Janeiro. Foi lá que, em 2005, João implementou um projeto sobre sexo e reprodução. O intuito inicial era reduzir a evasão escolar de estudantes grávidas. Nessa primeira etapa, o sucesso foi absoluto: nenhuma das jovens que tinham ou estavam para ter filhos deixou a escola. Assim, João ganhou reconhecimento dos 3

colegas de profissão, dos alunos, da mídia e da Secretaria Estadual de Educação, que passou a incorporar o assunto no conteúdo programático da rede pública de ensino. A partir disso, ele ganhou autoconfiança para começar a pesquisar sobre homoafetividade, que se tornava cada vez mais comum no cotidiano da escola. Com uma pesquisa de opinião sobre sexo, diversidade sexual e preconceito, realizada com 226 alunos, divididos em seis turmas, o professor deparou-se com resultados bastante positivos no início do período letivo deste ano. O interesse dos alunos sobre o assunto surpreendeu o professor. “Eles querem participar, eles perguntam de forma descarada o que querem saber”, conta João, que já levou conceitos freudianos sobre a homossexualidade para debater. Por enquanto, o projeto educacional ainda não aborda a diversidade de gêneros. João entende que gênero e sexualidade estão ligados dentro de uma mesma temática, mas pretende esperar o amadurecimento do debate atual para apresentar novas questões. Seu principal objetivo é mostrar que a homoafetividade é natural. “Eles têm que sentir orgulho. Essa briga eu resolvi tomar porque nesse momento esse assunto está fervilhando na sociedade, só que as escolas não assumem isso”, afirma. Em relação às famílias, João comenta que também pretende levantar dados sobre a opinião e o conhecimento que têm sobre esses assuntos. A intenção é conseguir criar um diálogo entre os alunos gays e trans* e os pais, assim como conseguiram incentivar entre as alunas grávidas e suas famílias. “Eles têm que se agregar para discutir esse assunto. Hoje em dia os pais se omitem”, diz. Em Niterói, a professora Luciana Vieira, que leciona Biologia na rede estadual de ensino, também se inquietou com o grande número de adolescentes grávidas no Colégio Estadual Manuel de Abreu. E, aliada a essa realidade, havia uma carência, não apenas de informações sobre métodos contraceptivos, mas sobre afetividade. “Falta diálogo em casa e na escola. E, claro, muito preconceito, medo e insegurança”, afirma a professora. Assim, em 2009, Luciana criou o projeto Sexualidade de A a Z, que contemplava diversidade sexual, identidade de gênero e discussões sobre DSTs e gravidez na adolescência. Esses temas eram discutidos por meio de oficinas, conversas informais e exibição de curtas-metragens. “São assuntos que devem

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ser debatidos. A Escola é o ‘lugar de a gente ser feliz’, como dizia Paulo Freire. Os alunos discriminados sofrem e não têm um aprendizado significativo. O abalo emocional tem reflexos na cognição”, declara Luciana, que buscou subsídios nos cursos de especialização do Instituto de Medicina Social UERJ e da Faculdade de Serviço Social da UFRJ. Durante o percurso, muitas dificuldades se apresentaram, como a falta de espaço e a carga horária inflexível da escola, que fizeram com que os alunos participassem no contra-turno, o que comprometia a frequência. Muitos docentes da própria escola não aderiram ao projeto, alguns por lidarem com o tema por um viés religioso, dificultando o trabalho interdisciplinar. Com a aprovação de Luciana em um novo concurso, obrigando-a a conciliar o tempo entre duas escolas, o projeto acabando suspenso em 2012. Amor e sexo Iniciativas de professores como Lu­ciana e João são exceções em uma sociedade que ainda vê a sexualidade e as suas diversas manifestações como tabus. Para a psicanalista e professora da Faculdade de Educação da UFF, Marília Etienne Arreguy, a dificuldade que o adulto enfrenta ao falar sobre esses temas com as crianças se origina na forma como ele lida com as suas próprias questões sexuais. Para Marília, sexo deve ser discutido nas escolas não como atividade reprodutora, mas também sob o viés do afeto, do desejo. “O educador geralmente mostra como elefantes, tigres, gatos e seres humanos fazem a reprodução sexuada. Assim, ele biologiza e dessexualiza o sexual. Fica mais fácil falar dessas questões sob o ponto de vista biológico”, aponta a professora. Outros aspectos ligados à sexualidade, como o amor e o prazer, complexificam a temática, mas não devem ser ignorados. “Como falar sobre o que a gente sente? Parece que isso ainda não tem lugar nas escolas”, comenta.

Em relação às políticas educacionais, a professora Marília acredita que elas estão car­regadas de arbitrariedade. “São sempre po­­líticas normativas que determinam em qual série se deve falar sobre sexo”. Para ela, deveria haver uma maleabilidade para que o mestre tratasse do assunto quando viesse à tona em cada turma. Mas nem sempre surge a oportunidade para os alunos se expressarem. “Na maioria das escolas o professor tem que seguir um currículo rígido. Essa atitude cala as perguntas vivas, a partir das quais se constrói o conhecimento”, destaca. Já a abordagem, defende, deveria ser de acordo com a idade dos alunos. “Não dá para falar sobre os picos de estrogênio e progesterona no ciclo menstrual para uma turma de crianças de três anos”, exemplifica a professora, que condena as clássicas histórias da cegonha e da sementinha. “As crianças normalmente se satisfazem com respostas simples. Mas a mãe inventa uma história, o pai outra e a professora uma terceira. Ela começa, então, a desconfiar do adulto. A criança vai buscar outras fontes, como amigos, revistas e internet, e vai alimentar o tabu em relação à sexualidade”, esclarece Marília. A grande quantidade de fatores capazes de interferir sobre a formação sexual de cada indivíduo é uma das razões para que a temática seja alvo constante de debate. Para a Doutora Ana Márcia Bastos, ginecologista do serviço médico da UFF, “a sexualidade não é dada apenas pela natureza biológica do ser humano, mas é construída social, cultural e psico-logicamente. Cada pessoa, desde a infância e ao longo dos anos, vai vivenciar fatos e ter experiências individualmente, e como num aprendizado, vai construindo sua própria sexualidade”, explica.


Ponham portas e janelas!

“Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha in­ten­sidade que se petrifica e nenhuma força o resgata.”

Parte I - Era um novo Casarão (nada) engraçado. Não ti­nha porta, não tinha nada. Ninguém podia estudar ne­le, não: havia muito capim no chão... E para não terminar a brincadeira de criança sem rima: o prazo estava na prorrogação. Carlos Drummond Essa cantiga bem poderia ser a trilha sonora de uma de Andrade novela de longos e monótonos capítulos, iniciada em 2007, quando a Universidade Federal Fluminense (UFF) deu início à construção da nova sede do Instituto de Arte e Comunicação Social (Iacs). A pedra fundamental foi lançada em 2008, e a conclusão da obra - orçada em R$ 7 milhões - estava prevista para 2012. O trabalho, entretanto, só começou em maio de 2010. Segundo Roberto de Souza Salles, então reitor da UFF, o atraso era efeito das leis “que burocratizavam os processos de licitação”. Determinado a cumprir os prazos, o professor garantia lutar em Brasília para “receber um tratamento especial”, com o objetivo de acelerar os processos. A informação consta do blog “Guia do Calouro”, produzido pela disciplina Redação de Hipertexto no segundo semestre de 2009. Quando os recursos chegaram, a surpresa: a UFF recebeu R$ 130 milhões do Reuni, distribuídos pelas unidades que apresenta-

ram seus projetos de ampliação, entre elas o IACS, contemplado com 17 milhões. O problema é que, aquela altura, o valor era insuficiente para viabilizar a obra completa. Dos 15 prédios que constavam no projeto inicial, apenas nove seriam construídos. Ficariam de fora justamente os seis prédios que abrigariam a maior parte das 27 salas de aula previstas. “O colegiado de unidade do IACS teve que fazer um ajuste, transformando alguns espaços de laboratórios em salas de aula. Dessa forma, conseguimos aumentar a oferta de salas de aula de duas para 11”, lembra o diretor da unidade, Leonardo Guelman. O Diretório Central dos Estudantes (DCEUFF) e os Diretórios Acadêmicos do IACS também se mobilizaram para garantir a integridade do projeto original. Com medo de que a Universidade licitasse apenas os nove blocos para a construção do prédio, os DAs lançaram, em 2012, o movimento “Quero o IACS inteiro e não pela metade”. Membro da diretoria do DCE desde 2013, à época aluno do curso de Cinema, Adil Lepri explica como isso aconteceu: “Levamos mais de 100 alunos do Instituto para a reunião do colegiado, e pressionamos pela licitação completa dos 15 blocos. Elegemos uma comissão para acompanhamento da obra, que se reunia frequentemente com o diretor Guelman, além do reitor da universidade”. Segundo Lepri, a pressão do “alunado” foi decisiva para o aumento do número de blocos na nova licitação, que passou de nove para 11. Com a expansão do número de prédios, a previsão de salas de aula saltou de 11 para 20.

A construtora Prescon Projetos Estruturais e Construções venceu a licitação aberta em 22 de dezembro de 2009 com um orçamento de 17 milhões de reais. Dois anos depois, em janeiro de 2012, a UFF cancelou o contrato, alegando que a construtora havia paralisado as obras. A empresa não recorreu devido ao desabamento do prédio onde ficava sua sede, no Centro do Rio de Janeiro. No acidente, desapareceu toda a documentação que comprovava o andamento da construção. Àquela altura, a Prescon havia realizado cerca de 50% da obra, segundo Guelman. “Todos os blocos estavam em andamento. Alguns até avançados, com toda a parte de estrutura e alvenaria pronta. A empresa ou se tornou inadimplente ou houve algum problema jurídico que a impediu de receber. A redução de pessoal no canteiro de obras levou a Universidade a cancelar a licitação.” Em entrevista a O Fluminense, Sergio Giorgio Rita Fracassi, diretor técnico da Prescon, justificou a paralisação das obras pelo atraso no pagamento dos serviços. Ele afirmava que a Universidade devia ainda cerca de R$ 2 milhões pelo que foi construído. Na época, a UFF não comentou o assunto. A arquiteta Denise Nogueira, da SAEN, superintendência que fiscaliza as obras na Universidade, desmente a informação: “A Prescon parou porque ela não deu conta de cumprir o prazo; e a Universidade cancelou o contrato, porque a Prescon não estava fazendo o serviço. Tudo o que ela construiu foi pago. Como algumas coisas estragaram, o serviço não foi concluído”. A equipe de reportagem de O Casarão procurou a construtora, mas não obteve respostas.

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A União processou a Prescon. Em decisão judicial do dia 3 de outubro de 2013, o juiz Wilney Magno de Azevedo Silva determinou, pela terceira vez, que o reitor Roberto de Souza Salles informasse a existência ou não dívidas por parte da Universidade. A intimação, publicada no Diário Oficial de 9 de outubro de 2012, consta da última etapa do processo a que O Casarão teve acesso. Parte II - As obras foram paralizadas por cerca de dois anos, congelando o sonho do novo Iacs. Enquanto a situação não se resolvia, a UFF atacou outro problema: o projeto de sonorização, acústica e iluminação, que chegou a ser licitado, mas não foi entregue pela empresa vencedora. A nova licitação, aberta em 03 de Augusto Cury dezembro de 2012 e concluída em abril do ano seguinte foi vencida pela Pólus. A empresa consultou professores de cada departamento para especificar as necessidades dos laboratórios, como os de Rádio, Televisão e Fotografia. Segundo Ana Baum, ex-chefe do departamento de Comunicação Social, professores representantes de cada curso integraram a Comissão de Assessoramento à Direção do Instituto, “foram muitas reuniões para definir o que a gente queria nesses laboratórios”. Esta comissão se reuniu com a Polus para acertar os detalhes do projeto adicional, além de funcionar como “fiscal” do andamento das obras.As reinvidicações foram incorporadas ao novo orçamento, que também previa a construção de dois novos blocos de salas de aula e a recuperação estrutural dos já construídos, devido ao longo tempo que a obra ficou parada. A Galcon Construções e Participações ven­­ceu a licitação aberta em 03 de dezembro

“Apostar no outro, perdoar continuamente, dar sempre uma nova chance é fundamental para superar frustrações e criar novos vínculos.”

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Densa narrativa que pode (finalmente) ter fim Por Fábio Peixoto, Felipe Magalhães e Luís Pedro Rodrigues de 2013 para conclusão de todo o projeto, no valor de R$ 20.387.376,69. Segundo relatório divulgado pela Saen, em março deste ano, a etapa atual é de limpeza do terreno; elaboração de projeto executivo para estrutura; e testes de carga de estrutura já executada pela empresa anterior. O prazo para a conclusão dos 11 prédios é o dia 3 de fevereiro de 2015. O diretor do IACS é otimista: “a gente está com uma expectativa grande. Estamos trabalhando com a meta de entregar no primeiro semestre de 2015”. Luciana Azevedo, da Contécnica - Consultoria Técnica, que por exigência legal fiscaliza a obra, concorda: “a obra entrou em ritmo normal e já bate com o cronograma. No início, enfrentamos dificuldades para compatibilizar os projetos porque algumas coisas não estavam totalmente redondas. Agora, os novos blocos C6 e D4 estão indo para o segundo pavimento”. Apesar disso, a fiscal admite ocorrer algum atraso na entrega: “Eu acho que a empresa não consegue entregar a obra no prazo de 12 meses”.

forma de um tabuleiro de damas. Há espaços definidos para as coordenações dos nove cursos de graduação e cinco programas de pósgraduação; gabinetes para atendimento de professores; 20 salas de aula, auditório com sistema de projeção e laboratórios de fotografia, rádio, cinema e TV; xerox e cantina. No projeto, entretanto, não consta espaço para os DAs. Leonardo Guelman minimiza a questão: ”O assunto será submetido ao Colegiado do Instituto que poderá determinar a transformação de uma sala de aula no espaço para reunião das representações discentes. Desde sempre, trabalhamos com o princípio da reversibilidade de uso”, afirmou.

O novo projeto contagia os estudantes. Lepri, pós-graduando do Instituto, está ansioso pelo novo espaço. “O pessoal do curso de cinema é dos mais interessados. Na Casa Rosa da Lara Vilela os estúdios são bons mas tudo é meio adaptado. Se o prometido for cumprido, os alunos vão ter um ganho enorme, principalmente nas atividades práticas”.

frustração.”

circa 1983

O Casarão Rosa

O prédio da atual sede do Iacs foi construído no século XIX, para servir de residência do austríaco Othon Leonardos, considerado um dos fundadores da Geologia no Brasil e vice-cônsul da Grécia. De 1926 a 1968, o espaço foi ocupado pelo Gymnasio Bittencourt Silva, educandário de renome no Estado do Rio de Janeiro.A

Luís Pedro Rodrigues

Martha Medeiros

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Parte IV - Ten­tamos entrevistar, sem sucesso, os professores Roberto Salles, atual reitor, e Sidney Mello, vice e futuro reitor. A nota oficial solicitada não foi emitida até o fechamento desta edição. FIM (esperamos).

Murillo Leal

Solicitamos informações à construtora Gal­con, sobre cinco itens: a situação das obras quando assumiu; o que pôde ser reaproveitado; se a UFF disponibilizou tudo corretamente e o que falta; o cumprimento do prazo; e se a Universidade tem seguido o contrato da maneira adequada. O diretor da empresa, Carlos Franco Neto, afirmou ter imenso prazer em atender ao pedido de entrevista mas que “que a maioria dos quesitos da reportagem diz respeito a assuntos anteriores à contratação, sobre os quais tem pouco a informar além do constante no auto do processo administrativo”. Parte III - O projeto arquitetônico da nova sede do IACS difere dos ou“Excesso de tros blocos em construção expectativa no campus do Gragoatá. São é o caminho 11 pequenos blocos de dois mais curto andares, intercalados por para a vãos abertos dispostos na

“Um esclarecimento é capaz de não esclarecer, mas uma dúvida é capaz de sustentar outras dúvidas.”

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União adquiriu o conjunto na década de 1960, para instalar o Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (ICHF-UFF). Com a transferência do Instituto para o campus do Valonguinho, em 1978, o IACS passou a residir no casarão rosa da rua Lara Vilela. Ao longo do tempo, o prédio sofreu diversas adaptações. No final da década de 1970 foram construídas uma lâmina lateral de salas de aula e, nos fundos, os laboratórios do Núcleo Áudio Visual. Nos anos 1990, o casarão passou por ampla reforma interna, mantendo preservada sua fachada original.

A partir de 2000, através do convênio MEC-BID, surgiu a possibilidade do IACS modernizar equipamentos e estrutura. Só que outras unidades acadêmicas da UFF também tinham essa pretensão. Então foi criada uma ordem de prioridades, segundo avaliações realizadas no âmbito do Conselho Universitário. De acordo com essa análise, em meados da década chegaria a vez de o IACS se reestruturar, como consta no Plano de Expansão e Reestruturação da UFF, de abril de 2008. É dessa época o primeiro projeto de deslocar a sede do IACS para o campus do Gragoatá. Pelo programa MECBID, abriram-se as licitações para a construção, e foram definidas as empresas vencedoras. Mas todo esse processo teve que ser interrompido, com o rompimento do acordo entre o Ministério e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, quando o Governo brasileiro declarou a moratória. Desde então, esse processo de ocupação do Gragoatá vem se arrastando. A situação ficou crítica com o surgimento de novos cursos de graduação e programas de pós-graduação atingindo o ápice em 2007, com a adesão ao programa Reuni, quando a unidade ampliou a oferta de vagas.


Combinação que vence jogo Relação próxima entre organizadores e dirigentes de atléticas é o segredo do sucesso dos jogos universitários, que reúnem até seis mil pessoas por evento, em quatro dias de esporte, festa e competição Por Marcos Kalil, Paula Rodrigues e Rafael Bolsoni nomes de quatro sócio-fundadores – Juan, João e os irmãos Rafael e Daniel Cotta –, ingressou nesse mercado, quase nada explorado, em agosto de 2010. A empresa venceu a primeira concorrência com outras empresas para a organização do OREM. Desde então, organiza os principais eventos universitários, como o Jucs, Jogos Universitários de Comunicação Social, e o Intereng, de Engenharia, ambos realizados recentemente em Vassouras, além do Super 15, que reuniu 21 atléticas de diferentes instituições. O negócio surgiu de maneira modesta. Após perceber que não seria efetivado no estágio, o então estudante de Direito da UERJ, Juan Guillermo Souza, hoje com 30 anos, convenceu os irmãos Cotta, à época, presidente e vice da Atlética de Direito a fundar uma empresa para organizar os jogos. Eles já haviam organizados os Jogos Jurídicos de 2003 a 2010, e resolveram transformar a experiência em negócio. “A dificuldade que tínhamos como atlética, enxergamos no mercado também. As empresas não se interessavam em organizar eventos universitários, achavam uma bagunça. Então, nós pensamos: ‘Cara, vamos tentar fomentar esse mercado de alguma forma!’”, explicou Juan. O objetivo inicial da JC2 era organizar os Jogos Jurídicos no Rio de Janeiro. No entanto, por serem da UERJ, foram rejeitados pela Liga Jurídica Estadual que, de meados de 2005 até hoje, organiza a parte esportiva desse evento. A Liga é formada por seis faculdades fundadoras, dentre as quais o Direito da PUC-Rio, à época liderado por Marcelo Queiroz, atual vereador mais jovem da cidade. Após esse primeiro fracasso, surgiu a oportunidade de conduzir a parte esportiva do OREM. “E já foi logo um batismo de fogo, porque em nenhum evento acontece tanta coisa como lá. Se você consegue levar um OREM até o final, leva todos os outros eventos até o fim”, disse, em tom orgulhoso, o “J principal”. O que mui­ tos desconhecem, no entanto, é que a empresa não organiza as festas dos jogos universitários nos quais trabalha – exceto quando o evento é exclusivamente dela.

A forma encontrada para ganhar dinheiro é a cobrança de valor fixo por pessoa para a organização da parte esportiva. “Óbvio que a gente ganha nosso dinheiro. Nossa intenção é alcançar o lucro, mas sem extrapolar. A gente poderia aumentar o preço todo ano, mas não faz isso”, afirmou Juan, que há três anos vive exclusivamente da empresa. Mas, então, quem é o responsável pelas tão comentadas festas, que tanto preocupam os treinadores em véspera de jogos? Sócio de uma boate em Copacabana e um dos principais nomes da noite carioca, o empresário Bernardo Egas afirma que mais do que retorno financeiro, os jogos são importantes como portfólio. “A gente acaba virando uma referência no ramo, ganha uma credibilidade no mercado que ajuda em outras coisas. Para mim, é importante ter essa marca que são os Jogos Jurídicos. Abre outras portas”, disse. Egas organizou, de 2009 a 2013, os Jogos Jurídicos quando perdeu sua primeira licitação para o evento que ocorreria em Petrópolis. “Quando você começa a fazer isso por muito tempo as pessoas crescem o olho. Duas empresas se juntaram e fizeram uma proposta muito fora do normal para disputar comigo. Acabaram ganhando”, contou. “No meio dos Jogos, a Liga me contatou desesperada. Tive que ir à Petrópolis no domingo com dinheiro emprestado apra resolver problema dos outros. Nesse ano, eu quis fazer o pessoal entender que os Jogos, com três dias de evento, em uma cidade diferente e problemas de liberação de órgãos públicos, demanda alguém com know-how”, defende ele, que não só venceu a licitação para 2014, como também fechou um contrato para os próximos três anos.

As empresas do segmento utilizam o conhecimento prático obtido na organização de eventos similares e o networking dentro da hierarquia das atléticas para ampliar os negócios. Essa mistura de informalidade e camaradagem não foge muito ao sistema de ingresso e organização das próprias atléticas, nas quais os cargos são preenchidos por indicação e confiança. “As atléticas não são uma entidade de representação estudantil. O negócio sempre passa do membro mais velho para o membro mais novo, que foi colocado por ele lá dentro. Isso pode parecer errado, mas é o segredo do sucesso”, detalhou Bernardo. “A alternância de poder é totalmente contra o que a gente faz. Para manter a consistência do evento, as atléticas se voltaram para uma hierarquia temporal. O presidente respeita os ex-presidentes. Fica bem familiar o evento.” Nesse arriscado misto de negócio e paixão, irmandade e parceria, integrantes de atléticas gastam tempo e dinheiro para defender até o último grito suas instituições no Rio, em Petrópolis, Volta Redonda, ou onde quer que seja. “É muito difícil você falar de negócio com algo que envolve sua paixão. É um evento onde eu estou e existem três mil amigos”, disse Egas. “Então, eu quero fazer o melhor evento possível. É muito difícil você separar seu hobby da sua paixão.” Do outro lado, os empresários responsáveis por dar forma aos quatro dias de jogos e loucura o fazem porque tem nos seus negócios a extensão de uma vida universitária que até pouco tempo ainda levavam. O resultado dessa combinação parece bem claro: no final, todos saem ganhando.

“ Nossa intenção

é alcançar o lucro, mas sem extrapolar. Poderiamos aumentar o preço todo ano, mas não fazemos isso.”

A rivalidade dentro da quadra contagia os torcedores 6

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Thiago Machado

Nos últimos anos, um fenômeno vem se destacando no ambiente universitário carioca: o crescimento das associações atléticas, organizações estudantis voltadas para o esporte. Responsáveis pelos jogos universitários, usualmente realizados em cidades do interior do estado, chegam a reunir seis mil pessoas por evento. O público-alvo – estudantes de faculdades públicas e particulares do Rio – paga cerca de R$ 500 por um pacote de quatro dias, que inclui transporte, hospedagem, ingressos para os jogos e três festas. Caneca na mão, nome da faculdade estampado no peito, grito na garganta e muita disposição para aguentar a maratona esportes-álcool-festas. Esse é o clima das 96 horas de evento. Victor Max Melo, 22 anos, é uma das figurinhas carimbadas que podem ser vistas, em dias de competição, a todo gás pelas ruas das cidades que sediam esses eventos – Vassouras, Volta Redonda, Friburgo, Petrópolis. E não poderia ser diferente. Afinal, o estudante de Engenharia Agrícola e Ambiental é presidente e fundador da Atlética de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF), a Associação Atlética Pio Orlando, cujo nome é uma homenagem ao zelador que há 40 anos trabalha no Campus. Ao ingressar na Universidade, em 2010, Victor, que desde a 5ª série competia pelas escolas onde estudou, resolveu criar a atlética a fim de manter acesa a paixão pela disputa esportiva. O presidente também não abre mão do cargo mais alto da Associação, que ocupa desde a criação. “Eu tinha esse sonho e não via ninguém com potencial para fazer, só gente querendo ‘sugar’. Eu montei a receita do bolo. Se outra pessoa entrar, vai acabar tudo. Quando eu vir a necessidade, a gente muda”, diz o estudante. Um mês antes de fundar a atlética, Victor também ajudou a dar forma ao Intereng, os Jogos Universitários de Engenharia. “Eu costumava fazer súmula de jogos de handebol e vôlei. Um dia, na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), um moleque de lá me perguntou: ‘O que acha de criarmos os jogos para o nosso curso, como os Jogos Jurídicos (Jogos de Direito) e o OREM (Jogos de Medicina)?’ Topei na hora”. Mas se já é difícil organizar uma simples pelada, que dirá um evento com mais de 15 modalidades. O problema foi resolvido de imediato: estavam presentes na ocasião alguns sócios da JC2, empresa organizadora de competições esportivas, que compraram a ideia. Formada por ex-alunos e integrantes da Atlética de Direito da UERJ, a JC2, cuja razão social faz alusão aos nomes ou sobre-


Invasão branca no Vidigal

Pelas mãos do poder público ou da iniciativa privada, antigos moradores se veem obrigados a deixar para trás o cobiçado morro da zona sul carioca Por Leonardo Pimentel e Thiago Medeiros cimento do custo de vida e a consequente expulsão da população original, numa espécie de remoção branca. No Vidigal, o conceito se aplica com todas as letras. No rastro da pacificação, chegaram os novos vizinhos, atraídos pela localização privilegiada e pelos preços baixos de alugueis e imóveis. Além disso, produtores de festas e empresários do ramo de hotelaria passaram a subir o morro, oferecendo valores entre R$ 100 mil e 200 mil pelas antigas casas. Dessa forma, adquiriram e reformaram diversos espaços e, com a vista privilegiada da orla do Leblon e Ipanema, passaram a produzir festas para um público elitizado, construir hostels e albergues. Muitos moradores se viram tentados a vender seus imóveis, e acabaram aceitando ir morar bem longe da região, onde construíram uma identidade e criaram raízes. O súbito interesse também acendeu o apetite do mercado imobiliário. Os alugueis dispararam, chegando aos R$ 900, expulsando muitos dos antigos moradores. Mas além da remoção branca, há outra mais explícita, levada a cabo pelo poder público. De fato, a ausência do Estado por décadas na região do Vidigal fez com que o crescimento desordenado das casas colocasse alguns moradores em situação de risco. Com a chegada da UPP à favela, o Posto de Orientação Urbanística e Social (POUSO), órgão vinculado à Secretaria Municipal de Habitação e que atua em diversas comunidades com policiamento ostensivo, passou a tentar regular a expansão das casas, criando regras para construção. O vice-presidente da Associação de Moradores, William de Paula, conhecido como “Ninho”, afirmou que o POUSO é rígido no combate à expansão de casas feita por moradores, mas, quando os empreendimentos que sobem são de empresários e construtoras, a rigidez

Jéssica Alves

Na noite quente do outono carioca, eles se destacavam pelos olhos verdes, cabelos loiros e diferentes sotaques, em um claro contraste com a gente bronzeada do Vidigal. Não estavam ali, como de costume, para uma das badaladas festas que levam a juventude da zona sul a cruzar as ruas estreitas até o alto do morro. A presença estrangeira no último encontro da série de debates “Fala, Vidigal”, realizada em junho, indicava em que direção sopram os ventos da mudança que chegaram àquele pedaço do Rio, entre o Leblon e São Conrado, bairros com o metro quadrado mais caro do Brasil: eles reivindicavam seu espaço na condição de moradores. O encontro reuniu 150 moradores - além do coletivo Territórios da Paz, trazendo à luz os problemas que a comunidade enfrenta, alguns de longa data, como as tentativas de remoção. Diante de representantes da Secretaria Municipal de Urbanismo, UPP, UPP Social, Guarda Municipal e Light, questionaram os métodos e as consequências do processo de ordenamento que a gestão municipal adotou após a pacificação, e que está mudando a cara da localidade. As transformações na paisagem estão por toda parte. Dos rostos estrangeiros à nova arquitetura dos hostels, tudo nos lembra que há uma mudança em curso. Para estudiosos dos problemas urbanos o fenômeno tem nome, gentrificação, e acontece sempre que áreas habitadas por gente pobre sofrem uma súbita valorização e passam a ser alvo da especulação imobiliária: a chegada de novos moradores, o encare-

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não se aplica da mesma forma. Seu Delei, com mais de 30 anos de Vidigal, endossou o coro. “Nós vemos empreendimentos sendo construídos e levantados em espaço público e nada é feito, mas quando queremos expandir nossa casa já somos barrados”. Porteiro em um prédio de Ipanema, Marcos Oliveira vive há cinco anos no Vidigal onde comprou uma casa por R$ 30 mil. Meses depois da chegada da Unidade de Polícia Pacificadora à favela, foi surpreendido ao saber que o terreno – e muitas outras casas localizadas próximas ao Arvrão, famoso ponto no alto da comunidade - estava “condenado” pela Prefeitura, que iria removê-lo do local. Segundo Marcos, a decisão de despejo se deu em função da forte pressão das mansões de São Conrado, localizadas logo abaixo, com o pretexto de que o esgoto da região desembocava perto das residências e uma chuva mais forte poderia causar deslizamentos. Com dinheiro arrecadado entre os moradores, Marcelo da Silva, Presidente da Associação de Moradores, contratou um engenheiro que atestou não haver risco, portanto, a remoção seria desnecessária. Após várias reuniões entre Prefeitura, Associação e moradores, a demolição foi suspensa. “Seria péssimo, mas graças a Deus não aconteceu nada”, conta Marcos, aliviado. “A gente junta dinheiro com esforço, durante muito tempo, e aí a pressão dos bacanas lá de baixo vai fazer com que a gente vá morar longe de tudo?”. Membro da Associação de Moradores, André, o “Deco”, entende que é necessário ordenar as casas da favela, mas que a proposta do Aluguel Social no valor de R$ 400, é insuficiente. “Como alguém vive nesse Rio de Janeiro com essa quantia? Se a pessoa tem a casa condenada e deveria receber outra próxima à comunidade. Mas dão esse valor, que não dá para fazer nada nem na

Baixada”, reclama. O tratamento do poder público às festas na comunidade é também polêmico. De acordo com os moradores, enquanto festas privadas carregam as classes média e alta da Zona Sul para a comunidade, com preços que chegam a R$ 80, e transcorrem sem qualquer intervenção até de manhã, os residentes sequer podem fazer qualquer confraternização que logo são interrompidos pelos policiais. “A gente não pode fazer nosso baile funk nem pagode, porque o som é alto e o horário é tarde. Mas e as festas dos ricos em que rolam drogas, o som é ensurdecedor e vai até de manhã? Por que não barram?” Indagou Ivanete Aleluia, da Associação de Mulheres do Vidigal, moradora da comunidade há mais de 50 anos . “Quando tem as festas, as vias ficam obstruídas de carros, fica impossível de passar e não há ordenação nenhuma, nós temos que passar no meio da rua”, disse. Outra queixa recorrente foi a mão dupla da Avenida Niemeyer, uma das principais vias de ligação entre Barra e Zona Sul e que cruza a entrada da favela. Até as 10h30m, a avenida funciona em mão dupla para a Zona Sul, prejudicando o trânsito de moradores do Vidigal que trabalham na Zona Oeste. “A via dupla só beneficia os ricos da Barra que vêm para o Leblon e Ipanema.”, criticou a empregada doméstica Rosária, moradora há 20 anos da favela. O último encontro da série de debates do “Fala, Vidigal” deixou um ponto positivo: o território-centro da discussão estava sendo debatido mais a fundo, o que é saudável para a democracia. No entanto, a frase final de Seu Delei resume o sentimento do morador do Vidigal, que há décadas convive com o descaso estatal e anda cansado com tanto desmando. “É o quarto encontro e nós só recebemos clichês, nós queremos mudança, mesmo! Por que só tem uma creche funcionando? O dia em que essa favela descer, vocês vão ver a força que a gente tem!”, arrematou.


Uma das ruas mais antigas de Montevidéu abriga o Café Brasileiro, um charmoso espaço da Ciudad Vieja com arquitetura tí­pica do século XIX. Ali, onde o vento do lado de fora parecia fazer a curva para o continente, foi onde esperamos por Eduardo Galeano, um dos maiores escritores da América Latina. Enquanto contávamos os minutos para sua chegada, as fotografias nas paredes revelavam a proximidade entre o autor e o local. Não era, então, coincidência, estarmos ali, lugar escolhido por ele, naquela manhã de sábado. Devia ser seu mais aconchegante quintal, ao qual nos acomodamos logo, sem saber se pelo apreço visual da madeira fria, ou pelo cheiro de um café tão tipicamente próximo ao nosso. As duas coisas, talvez.

mais me chamou a atenção foi uma frase em um muro, que pedia que o governo brasileiro ‘fosse logo entregue às mãos de Charles Elbrick’, embaixador estadunidense na época”, assinalou, rindo do quanto aquela frase era certeira ao resumir suas impressões sobre aquele período. “Aquilo materializava a insatisfação diante dos rumos que o país tomava”, concluiu.

Acompanhado da filha Florência, Galeano entrou sorrateiro, sem que escutássemos o barulho de seus passos. Tomou-nos as mãos e cumprimentou-nos carinhosamente. “Veja se isso aqui não parece um romance policial”, atestou. “Quando olhei vocês dois aqui sentados, disse logo à Florência: são eles!”, sorriu com um humor de quem se sente em casa. Não demoramos a deixar nossos olhares curiosos de tudo focarem em seus olhos azuis, capazes de iluminar todo o ambiente. Antes mesmo de o café chegar, contamos a ele o motivo que nos levara ali – uma tenra admiração junto à vontade de estabelecer conversa com vozes e olhares. O que falaríamos a um jornalista que já havia concedido inúmeras entrevistas a tantos veículos? Que pudéssemos assentar em um sábado de sua vida e compreender o que as histórias e a despretensão de estar ali, junto a ele, nos trouxessem às mãos.

Ao se tratar de anos ditatoriais, contamos o quanto veículos brasileiros têm trazido à tona as memórias da resistência com relação ao regime militar. Citamos o exemplo das histórias que retratam a realidade das universidades brasileiras na época e o quanto esses espaços, que sempre foram considerados centros de resistência e formação ideológica social, foram claramente reprimidos pelo governo. Sobre isso, relatou a maneira similar com que a ditadura uruguaia agiu naqueles anos.

O primeiro gole de cappuccino veio quando comentamos sobre a propaganda política que vimos pelo caminho e sobre as eleições presidenciais que acontecerão esse ano no Uruguai. Galeano apontou para as ruas em torno do restaurante. “Eu não entendo a política uruguaia”, afirmou. “A divisão partidária me confunde. Aqui, dentro de um partido que se assume como “esquerda”, existem frentes conservadoras e outras de extrema esquerda que disputam entre si. Então, antes do embate eleitoral, existe uma discussão de quem é que lidera o partido. Nunca vou entender isso”, completou. Comentamos o quanto também é difícil no Brasil estabelecer identidade dentre os mais de 30 partidos existentes. “Eles deixam complexo o que é extremamente simples”, retomou, interpelando a si mesmo com a cabeça, colocando mais um gole do seu cappuccino sem açúcar na garganta. Sobre o governo de Dilma Roussef, afirmou que é um bom governo, de forma geral. “Teve muitos erros e acertos, mas uma coisa é fato: o governo Dilma é claramente uma continuidade do governo Lula, o que não é ruim. Continua com boas políticas sociais e de base, no entanto, por conta do perfil de política do PT, que vem mudando nas últimas décadas, Dilma se preocupou demasiadamente com o modo de fazer politica através das muitas alianças, e isso pode ter atrasado algumas medidas importantes à população”, destacou. O autor de “As veias abertas da América Latina” lembrou o peso histórico das ditaduras militares que se espalharam pelo continente no século XX. Exilado por duas vezes, Galeano esteve no Brasil em anos de chumbo, quando trabalhava para um jornal de Montevidéu, e seu editor pediu que escrevesse sobre a realidade social brasileira com a ditadura. “Ele pediu que eu fosse ao Brasil, mas, por ter ido diversas vezes ao país, disse que o faria do Uruguai mesmo. Insistiu e eu fui até o Rio de Janeiro. Queria que eu visse o modo como as pessoas viviam a ditadura nas ruas. O que

Àquela altura, o Café ganhara mais convidados. Um casal em uma mesa ao lado observava a naturalidade com que Galeano enunciava. Era terno ao fazê-lo. Não havia dúvidas de que sua sutileza com as palavras, expressa principalmente no “O Livro dos Abraços”, que contou-nos ser seu preferido, também se refletia na calma e tranquilidade de sua fala.

“A ditadura uruguaia agiu de forma parecida. Este Café, por exemplo, foi reconstruído pelas mãos da memória. Porque a memória tem mãos. Por três vezes, esse espaço foi destruído pela ditadura. Era considerado um local típico de encontro da classe intelectual daqui. Vinham com um caminhão durante a noite e desmanchavam o lugar. Arrancavam os pisos, retiravam mesas e cadeiras, roubavam os lustres. No entanto, os frequentadores sempre tinham a disposição de reconstruir o Café através de suas lembranças em fotos e fatos”, contou-nos com brilho nos olhos que ora miravam em nós, ora nas paredes com fotografias de velhos conhecidos. Lembrou-se também de uma vez que esteve em Leningrado - sua filha o cor­rigiu atentando ao atual nome, São Petesburgo -, quando as pontes da cidade, que haviam sido destruídas pela guerra, estavam sendo reconstruídas por moradores através de fotografias. A memória parecia darlhe as mãos, ali. O suspiro forte das lembranças abriu espaço para que nos entregasse dois de seus livros, “Mulheres” e “Dias e noites de amor e de guerra”, que trouxera especialmente para nos presentear. Assinou com doçura: “Abraços, Galeano”, desenhando um porquinho abaixo de seu nome. Também fez isso nos livros que trouxemos para receber sua assinatura. Quando perguntado sobre a escolha desse animalzinho, não demorou a dizer que “alguns escritores escolhem dragões e serpentes como mascotes de suas obras e assinaturas. Eu escolhi o porquinho, pois ninguém o havia escolhido. Gosto do porquinho”. Sua graça fez com que todos à mesa sorrissem. Sua filha, que pouco falou, também esboçou surpresa diante do humor do pai. A ele, entregamos presentes escolhidos com cautela. O livro “Deus foi almoçar”, do escritor paulistano Férrez, e o filme “O som ao redor”, do diretor recifense Kléber Mendonça Filho. Não poderíamos deixar o autor de “Futebol ao Sol e à sombra” partir sem indagarsobre uma de suas maiores paixões. Qual seria, então, sua opinião sobre o futebol sul-americano? Galeano foi preciso no chute. “Ele continua sendo uma característica muito forte de nossa cultura, mas as atuais condições do esporte no mundo, baseadas na comercialização do futebol, fazem com que nossos jogadores sejam vendidos muito cedo, o que provoca pouca contribuição ao nosso modo de jogar”, respondeu.

Um gole

com

Galeano Por Francielle Baliana e Diego Torres

Ressaltou, no entanto, que os jogadores sul-americanos têm um histórico de mudanças através de pequenas revoluções. “Há um movimento no Chile em que os jogadores se uniram e começaram a fazer parte da tomada de decisão na liga. O Bom Senso Futebol Clube também é outro exemplo. A Democracia Corintiana que surgiu na década de 1980, liderada por Sócrates - “muito meu amigo” - provou que futebol não pode se render à política de interesses que sempre dirigiu os clubes”. Em uma ocasião, o Sócrates foi questionado sobre nossa amizade e respondeu: ‘O Eduardo fala de poesia e eu falo de política. É simples’”, sorriu. O relógio marca meio-dia, mas o charme matinal uruguaio nos inspirava o sentimento de que ainda era nove da manhã. Galeano perguntou-nos onde vivíamos no Brasil. “Entre São Paulo e Rio de Janeiro”, respondemos. Como conviesse, perguntamos se lhe agradavam cidades como as nossas, mas nosso Eduardo foi enfático ao negar o apreço às grandes metrópoles. “Não gosto de cidades grandes como São Paulo. Elas têm caos demais, gosto de Montevidéu porque consigo compreendê-la. Não se pode compreender uma cidade como São Paulo. Por isso escolhi viver aqui e sempre para cá voltar”, disse. Eduardo e Florência se levantaram, carregando os presentes em mãos. Despedimo-nos com um cumprimento ainda mais carinhoso que o da chegada. “Vamos nos rever”, disse, por fim. “As mãos da memória sempre trabalham por encontros assim”, quisemos entender. Agradeceu com os olhos. Agradecemos.

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