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especial - NOVEMBRO - ano 5 - 2016

OC A UP O D

novembro 2016 - especial

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ENTREVISTA

(PRE)OCUPAR?

Ocupar Nunca um verbo esteve tão presente dentro das salas de aula. Ao redor do país, em diversas universidades públicas, estudantes inventaram um jeito diferente de fazer política. Em vez de cruzar os braços, pôr mãos à obra. A rotina das ocupações mostra que há uma demanda por novos espaços e formas de educação. Um movimento que se coloca contra a PEC, mas também a favor de um projeto que leve em conta o protagonismo do aluno. Em torno dessas duas bandeiras, que preocupam educadores e conectam jovens universitários e secundaristas de norte a sul, construímos esta edição especial. Discutimos as estruturas verticais que definem o lugar o aluno no sistema de educação. Questionamos as perspectivas para os próximos 20 anos, diante de um projeto que não apenas congela os gastos públicos, mas reduz efetivamente o papel do Estado em áreas em que tem a obrigação constitucional de estar presente. Junte-se a nós nesse debate, que analise, ainda, a cobertura do Impeachment pela grande mídia e a crise do próprio sistema político, baseado numa multiplicidade de partidos que pouco se diferenciam uns dos outros. Ocupe! Este espaço é nosso!

PUBLICAÇÃO LABORATORIAL DO CURSO DE JORNALISMO

Orientação: Carla Baiense (18788 MTb) e Ildo Nascimento Reportagem e fotografia: Aline Morais, Aman­ da de Oliveira, Camilla Shaw, Carolina Lopes, Edson Gon­ çalves, Fabrycio Azevedo, Felipe Gelani, Ga­ briella Balestrero, Luísa Verçosa, Marcella Ramos, Vitória Lopes e Wladmir Lênin. Ilustrações: www. facebook.com/ildo.nascimento.31 Agradecemos o apoio dos advogados Alexandre Mari­ nho Vilela dos Santos, David Ferreira Bastos e Pedro Daher de Souza Carvalho na impressão deste número.

jornalocasarao.com ocasarao12@gmail.com fb.com/jornalocasarao issuu.com/ocasarao

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especial - novembro 2016

Foto de Aline Morais

EDITORIAL

OCUPAÇÃO

por Amanda de Oliveira e Camilla Shaw

“Todo movimento social é um pouco profeta, porque ele tem uma mensagem para passar. As ocupações possuem uma mensagem, a de que essa escola que está aí não dá mais, ela tem que ser melhor do ponto de vista material, estrutural e simbólico. Precisa ser mais dialógica, menos hierarquizada.” nhecem seu caráter limitado em termo de socialização. Agora, reconhecer o caráter limitado, não é decretar desimportância das instituições, pelo contrário, é fazer uma autoavaliação e saber qual é a contribuição na educação das novas gerações. Certamente não é manda quem pode obedece quem tem juízo. Certamente não é aqui quem manda sou eu.

Paulo Carrano é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense e coordenador do Observatório Jovem do Rio de Janeiro. Estudioso da juventude contemporânea, ele comenta sobre o cenário das ocupações e da educação no Rio de Janeiro. A responsabilidade da escola nesta construção Toda análise do que é ser jovem revela um alargamento do campo de autonomia que, evidentemente, vai esbarrar e se confrontar com todo aquele ordenamento de autoridade que quer manter o jovem sob tutela. A escola é exemplo disso: a autonomia coexiste com a incer­ teza de crescer, ser adulto e se inserir na sociedade. Esses dois componentes, in­ segurança e autonomia, caminham jun­tos. Uma das tarefas da educação é ajudar os jovens a elaborar esse mundo pleno de possibilidades, esse é o desafio que a escola está demorando a enfrentar. Instituições hegemônicas de socialização O campo da tecnologia, da internet, en­ tra na lógica do acesso ao conhecimento, que hoje já não é mais propriedade de uma instituição socializadora. Ou seja, há uma concorrência em termo de determinação do que os sujeitos vão ser. E o próprio jovem que vai ser mediador disso, que faz escolhas. Quanto mais consciente suas escolhas ele fizer, melhor para ele, melhor para sua formação. É muito difícil esse campo de educação hoje, as próprias instituições não reco-

Experiência na ocupação A vida na ocupação gera uma outra relação espaço/tempo que é transformadora para quem está lá. Mesmo para quem passou pouco tempo é uma experiência que pode ficar para a vida toda, pode criar uma disposição para o diálogo, para o fazer em conjunto. É inacreditável pensar como a escola organiza seu tempo e seu espaço, cada um sentado atrás do outro, aquela linearidade, professor como centro da fala. De repente as ocupações deslocam o poder e criam uma nova realidade de construção do comum.

“Esses estudantes conseguiram fazer com que a sociedade entendesse a luta pela escola de qualidade.” Estudantes na luta com os professores Os estudantes conseguiram aquilo que os sindicatos dos professores têm muita dificuldade de conseguir, que é adesão da sociedade para a causa da escola pública de qualidade. Esses estudantes conseguiram fazer com que a sociedade entendesse a luta pela escola de qualidade. Isso se expressa na quantidade de pessoas que se apresentaram para dar aulas públicas, doar alimentos pra manter a ocupação. Pais que negociaram com filhos e filhas, principalmente, os dias de ocupação. O número de artistas que se apresentaram para animar as escolas, pra dialogar. professores de universitários oferecendo aulas públicas... Pessoas contra Outras pessoas viram com certa desconfiança a mudança do tempo/espaço da escola, do deslocamento do poder

Espaço público

dentro da escola, e reagiram, reagiram como se os jovens estivessem usurpando um diretor, um poder. Essas pessoas que ficaram radicalmente contra as ocupações foram as primeiras a afirmar que os jovens iam vandalizar as escolas. Isso é uma maneira de desqualificar a ação juvenil. Outra é dizer que eles são tutelados por partidos políticos e que o que eles estão fazendo é um reflexo do que demandaram para eles. Respostas E os jovens deram duas respostas para isso. Uma foi usar a ideia de cuidado da escola como uma mensagem muito clara para a sociedade. A outra foi dar uma resposta muito clara a outro tipo de acusação, a de que os jovens não são autônomos. Os jovens criaram estruturas de organização bastante horizontalizadas, transformaram em prática aquilo que vem sendo crítica das organizações juvenis contemporâneas sobre a ideia de representação, ou seja, horizontalizar significa não delegar a ação para o representante ou não dar um cheque em branco para alguém falar por mim. O que aprendemos com as ocupações Nas escolas em que percebemos que houve compreensão, entendimento e diálogo, as relações podem ser renovadas. As unidades ocupadas trocaram saberes que eram submersos, descobriram os muitos talentos nas escolas, porque estas não se interessam por eles. Redes e mídia É interessante as redes de movimentos que se constituíram. Chile influenciou São Paulo, São Paulo influenciou o Rio, o Rio influenciou o Rio Grande do Sul, e por aí vai. Você tem uma rede de movimentos atuando que assim exerce um contágio muito positivo no ponto de vista de aprendizagem. As novas tecnologias ajudaram muito para isso, em termo de você ter acesso fácil às redes sociais, ao que foi produzido. Não ficar dependendo da grande mídia, porque ela quase sempre tem a reação inicial de obscurecer e depois de tentar criminalizar ou transformar aquilo em algo que atrapalha o cotidiano.

Alunos da PUC se unem às Federais em protesto contra a PEC Não é de hoje que os movimentos estudantis se mobilizam para protestar contra medidas governamentais impopulares. Ir para as ruas ou ocupar a reitoria são ações que os estudantes costumam usar para mostrar insatisfação. Porém, um novo tipo de protesto tem tomado todo o Brasil, iniciado pelos estudantes secundaristas e que ganha força a cada dia nas universidades públicas e privadas. Trata-se das ocupações dos próprios lugares de ensino, como forma não só de protesto, mas também de ressignificação do espaço. As ocupações são horizontais e a gestão é feita totalmente pelos alunos, que

Rosa Miranda, Ocupação Preta, aluna de cinema - a importância da nossa

ocupação é trazer as pessoas fora da universidade para cá como, por exemplo, uma pessoa do Mama África, alunos do coluni, alunos da creche, que fizeram vivência griô. Fizemos o ocupa pretinho, que foi uma atividade com as crianças da creche da UFF, com contação de história de orixá, produção de bonecas abayomi.

se organizam em Grupos de Trabalho, os GTs, cada qual responsável por uma parte da ocupação, como segurança ou comunicação. Na UFF, elas começaram no prédio do Serviço Social, no campus do Gragoatá, e foram se espalhando pela universidade, alcançando outros campi, como o Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS), o Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (ICHF), a Faculdade de Direito e o Instituto de Física, no campus da Praia Vermelha. Segundo dados da União Nacional dos Estudantes (UNE), já são 229 universidades ocupadas com o objetivo de protestar contra a PEC 55, que está trami-

Barbara Barroso Issa Cardozo, Ocupa Física, aluna da Física - a Física é

complicada de ocupar e de se engajar em qualquer movimento social na universidade. Sou nova na faculdade, mas vejo que aqueles que estão há mais tempo nunca se mobilizaram por nenhuma causa. Fizemos a nossa primeira assembleia e não conseguimos quórum. Mas, na segunda, vimos que tínhamos quorum e aí fizemos a ocupação. Apesar das aulas acontecerem normalmente, estamos organizando aulões e debates políticos.

tando no senado com votação marcada para o dia 29 de outubro. A proposta de emenda constitucional prevê o congelamento dos gastos públicos por vinte anos, com correção apenas pela inflação. Emanuela Amaral, estudante de Jornalismo e participante da ocupação do Iacs, acredita que as ocupações dos institutos, em vez da reitoria, não só aproximam os alunos do movimento estudantil, mas também trazem reflexões e reinvenções políticas sobre o espaço ocupado, de como tornar a universidade um espaço feito por e para os estudantes. “A gente dorme na sala que tem aula, pinta nossas paredes e repensa a recria-

Viviane de Azevedo Magalhães, Ocupa IACS, Aluna de Arquivologia - o Iacs

tem particularidades, ele é um Instituto de Artes e Comunicação e nós fazemos muitas aulas públicas e nessas aulas fazemos performances. Já fizemos aula de forró e trabalhamos muito a questão corporal e tentamos juntar o debate político com essas atividades. Temos uma rádio, a Ocupa Som, e estamos construindo um espaço para barrar a PEC e mostra para o governo golpista que estamos aqui.

ção desse espaço de forma muito mais próxima”, conta. Para ela, as ocupações dão força ao movimento e mostram que existe uma grande parcela da população que é contra a PEC e o que ela significa. “A gente ocupa cada cantinho da universidade contra o retrocesso de direitos que essa PEC representa, como projeto do governo Michel Temer para a Educação e outras áreas. Se vai passar ou não, a gente não sabe, mas pelo menos a gente está se mobilizando e daqui pra frente eu acho que esse movimento só vai crescer”. Por Gabriela Balestrero

Luan, Ocupa ICHF, aluno de Filosofia é uma outra relação que a gente tem

com a universidade. Nós estamos aqui convivendo dia-a-dia com os terceirizados, conversando e vendo os problemas que eles enfrentam, dialogando com os professores de igual para igual, preservando o patrimônio da universidade, ganhei outra visão. Me sinto mais integrado. Vejo que o Estado é nosso, apesar de na nossa história o Estado ser construído por um grupo seleto e para um grupo seleto. novembro 2016 - especial

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EDUCAÇÃO

ESCOLA SEM PARTIDO ESCOLA SEM

FUNÇÃO

No ano de 2016 os estudantes secundaristas mostraram que querem fazer parte da política brasileira. Ocupações de escolas aconteceram pelo Brasil e o Rio de Janeiro também foi palco do movimento. Em 23 cidades, quase 70 escolas foram ocupadas. Esse movimento expõe as delicadas relações de poder que permeiam na educação.

Em meio a diversos movimentos de resistência democrática, as ocupações vieram acompanhadas de projetos de lei conservadores que criminalizam a educação

Diversos estudantes fizeram relatos de coerção e opressão. L., 16 anos, ex -aluna do colégio Liceu Nilo Peçanha, que resistiu fortemente à ocupação, diz que sente essa pressão quando é proibida de colar cartazes nas paredes da escola. Além disso, L. ainda conta que muitas vezes é intimidada por algum funcionário do colégio, temendo uma ação dos estudantes. “Quase todo dia vem uma inspetora conversar comigo, tentando se aproximar, falando pra eu não desanimar de vir para as aulas”. Para o professor da Faculdade de Educação da UFF e coordenador do Obser­vatório Jovem do Rio de Janeiro, Paulo Carrano, esses comportamentos intolerantes vêm de pessoas que de cer-

Fotos de Camila Shaw

Por Camila Shaw e Amanda de Oliveira

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Esses projetos [...] acabam negando a liberdade dos professores de ensinar e barrando práticas pedagógicas plurais.

ta maneira são ameaçadas pelo movimento das ocupações. “Essas pessoas viram com certa desconfiança a mudança do tempo/espaço da escola, do deslocamento do poder e reagiram, reagiram como se os jovens estivessem usurpando um direito, um poder”, afirma. Ao mesmo tempo em que as ocupa­ ções explodem, muitos projetos de cu­ nho conservador para a educação são criados e representam um risco ao processo formativo dos estudantes. Interessante perceber que eles se colocam como forma de contenção das ocupações, movimentos de questionamento das estruturas hegemônicas de poder. Exemplos são os projetos de lei do programa Escola Sem Partido, que tramitam na Câmara dos Deputados e outras esferas legislativas, baseados na acusação de que há uma doutrinação moral e ideológica nas escolas brasileiras. Esses projetos, amparados no discurso de defesa de uma educação neutra e da imparcialidade, acabam negando a liberdade dos professores de ensinar e barrando práticas pedagógicas plurais. Dessa maneira, educadores passam a ser vigiados e controlados, visto que as regras estipuladas impõem uma censura e alunos são prejudicados em sua formação crítica, já que perdem o acesso à diversidade de pensamentos. Partindo da mesma lógica, outro projeto de lei ligado à Escola Sem Partido vem sendo discutido em âmbito federal. Este possui um documento intitulado Base Nacional Comum Curri-

cular, que já passa pela terceira versão a ser repassada ao Conselho Nacional de Educação e determina o que cada aluno deve aprender durante os anos e o que se espera que eles saibam no final de cada período letivo. Professores contra o Escola Sem Partido e estudantes veem nisso a restrição da pluralidade de ideias e retrocessos em discussões importantes, principalmente nas ligadas à diversidade de gênero, como já aconteceu no Plano Nacional de Educação Esses projetos ganham um ar con­ vin­­ cente por defenderem o discurso da neutralidade e desligamento com par­ tidos políticos. Contudo é preciso se atentar que as propostas acabam fortalecendo uma posição conservadora, pois geram a manutenção do status quo. Esses projetos impedem de forma bem direta a discussão de temas ligados à realidade dos alunos. E coloca a questão da responsabilidade de instituições socializadoras. Paulo Carrano considera que a inter­ net possibilita um amplo acesso ao co­nhecimento, e assim tanto a escola, quan­to a família, trabalho, religião já não detêm o monopólio da formação social dos jovens. Dessa forma é possível perceber que esses projetos se colocam como tentativa de garantir o monopólio dessa formação. Fernando Penna, professor de educação da UFF e coordenador do projeto Professores Contra o Escola Sem Partido, ressalta o debate sobre o “privado” em texto publicado no site da Revista

“O movimento ‘Escola sem partido’ contraria diretamente a Constituição brasileira” de História da Biblioteca Nacional, “Ao tentar tornar a educação uma questão privada, responsabilidade exclusiva das famílias, o movimento ‘Escola sem partido’ contraria diretamente a Constituição brasileira, que em seu artigo 205 afirma: ‘A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da so­ciedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho’.” Apesar de sua inconstitucionalidade o projeto Escola Sem Partido tem ganhado força. Os criadores do movimento disponibilizam o modelo dos PL’s em site on-line. Há diversas outras propostas derivadas desta plataforma em tramitação no país, tanto em nível federal, quanto estadual e municipal. Hoje já existe um projeto sancionado no estado de Alagoas. Além disso, no Rio de Janeiro o debate tem se fortalecido, exemplo disso foi a aprovação do novo Plano de Educação de Niterói, o qual proíbe a discussão de gênero nas escolas do município.

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Imagine

que, num

país ond

sa um cre r a p m a t cas apon

gráfi je ções demo cimento populacional, o governo resolvesse congelar os investimentos em setores-chave, como educação e saúde, por 20 anos, corrigindo os valores apenas pela inflação. Considere, agora, que a estagnação econômica provocada pela retração nos gastos do próprio governo, incluindo a redução no poder de compra dos servidores públicos, ampliasse a demanda por serviços do Estado. e as pro

É POSSÍVEL PREVER UMA RECUPERAÇÃO DA ECONOMIA NUM CENÁRIO COMO ESSE?

Um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) simulou os impactos que

“O que é lamentável, pois as universidades federais se destacam como centros de formação e pesquisa”, avalia o economista. Sicsú reconhece que o país enfrenta um problema fiscal, provocado pela desaceleração do crescimento da economia, a partir de 2014, e a consequente queda na arrecadação do Governo. E lembra que a própria Dilma fez cortes nos gastos sociais, incluindo as verbas para as universidades. Mas considera que este é um problema recente. A questão estrutural do Brasil, que a PEC passa ao largo, é o gasto com pagamento de juros da dívida pública.

A PEC não toca nessa questão, da mesma forma que ignora a distribuição da carga tributária no Brasil. Segundo o ex-diretor do Ipea, há uma injustiça tributária no país. Impostos sobre alimentos, por

ÍNDIA: 1,67%

INDONÉSIA: 2,29%

RÚSSIA: 2,30%

CHINA: 2,71%

A Universidade Federal de Goiás (UFG) divulgou que os recursos para todas as universidades federais diminuiriam em R$ 196,8 bilhões, caso a medida valesse desde 1999. João Sicsú destaca que o prejuízo vai além, com menor oferta de vagas para estudantes nas universidades, o que também influenciaria os concursos para professores, menos verba para bolsas e programas e para a própria manutenção das instituições.

A dívida pública é uma das formas de o Governo se financiar e muitos países têm dívidas superiores à nossa. O problema é o quanto de juros se paga aos rentistas pelos títulos da dívida. Segundo o projeto Orçamento ao seu Alcance, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), em 2015, 59% do orçamento federal foram destinados aos chamados encargos especiais, que englobam dívida pública, ressarcimentos e indenizações (ao lado).

O professor Sicsú dá outros exemplos da injustiça tributária. A arrecadação com Imposto Ter-

ORÇAMENTO TOTAL FEDERAL 2015 2,89 MILHÕES

conceiI O: é o R Á T I rge da ÁV SUPER mico que su a de nô trad to eco re a en urante t n e a ç d diferen e os gastos íodo. o ir e h o per a é d din a in eterm renç um d ue essa dife os luq o e Sempr isto é, quand stos), ( a ga s iv o it s po eram p u s s erávit. cro de sup e s la a f

PARA ENTENDER

“ECONOMIQUÊS” DÉFICIT PÚBLICO: ocorre quando o valor das despesas de um governo é maior que as suas arrecadações. O valor do déficit público é expresso em percentagem sobre o PIB do país.

SAÚDE: 3,9%

Com o crescimento populacional e o aumento da demanda por serviços públicos, estima-se que haverá não apenas um congelamento, mas efetivamente um corte regressivo do orçamento. Se não há um aumento real no volume de investimentos e mais pessoas precisam de atendimento em hospitais, de moradia, de vagas em universidades e escolas, há, de fato, uma diminuição do gasto per capita nesses setores.

ritorial Rural é mínima em relação ao IPTU, ou seja, há uma seletividade na atribuição de descontos e isenções tributárias, beneficiando, por exemplo, os latifundiários. O Imposto de Renda, que é descontado da folha de fonte: MoneYou pagamento do trabalhador, não tem uma taxa JUROS PELO MUNDO progressiva, na qual os ricos paguem proporcionalmente mais do que os pobres, assim como não há imposto sobre lucros e dividendos no Brasil. Um estudo divulgado pelo Ipea, em 2015, mostrou que se houvesse imposto de 15% sobre lucros e dividendos, seria gerada uma receita adicional de fonte: orcamento.inesc.org.br/2015 R$ 43 bilhões/ano.

helicópteros, jatinhos, iates e lanchas estão isentos de cobrança.

EDUCAÇÃO: 3,97 %

INJUSTIÇA SOCIAL

Além de saúde e educação, setores como assistência social, segurança pública, cultura e moradia popular também serão afetados pela medida, caso seja aprovada pelo Senado. Segundo a Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR SSind), os gastos sociais terão uma queda de 40% com a PEC.

Estudos divulgados por institutos federais, entre outubro e novembro de 2016, avaliaram o prejuízo nas contas caso a PEC já estivesse em vigor. Em um período de 10 anos, a Universidade de Santa Maria (UFSM) receberia R$ 3 bilhões a menos e o orçamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) teria sido reduzido para menos da metade.

da Secretaria do Tesouro Nacional, a dívida pública teve aumento recorde de 21,7%, em 2015, chegando a R$ 2,79 trilhões. Desse valor, R$ 367,6 bilhões foram destinados ao pagamento de juros. Um estudo do economista Jason Vieira, publicado no site MoneYou mostrou que o Brasil tem as maiores taxas de juros reais, ou seja, descontada a inflação, dentre 40 países pesquisados (ao lado).

PREVIDÊNCIA: 18,5%

“O corte de gastos provoca problemas na economia, na sociedade e no governo. Porque a economia para de crescer, as pessoas têm menos serviços e benefícios sociais e a arrecadação do governo cai”, destaca Sicsú.

Banqueiros e rentistas nunca ganharam tanto di- exemplo, têm impactos muito maiores sonheiro como em 2015. De acordo com dados bre a população mais pobre. No entanto,

BRASIL: 6,79%

Para o professor João Sicsú, do Instituto de Economia da UFRJ e ex-diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no entanto, o congelamento não toca nos problemas estruturais da economia brasileira, e ainda agrava o cenário de crise.

a PEC traria, caso fosse implantada há 14 anos, em 2002. A redução no setor de educação seria de 47% e, na saúde, de 27%. Isso significa uma diferença de R$ 295,9 bilhões na saúde e R$ 377,7 bilhões na educação em relação aos investimentos atuais.

ENCARGOS ESPECIAIS 59,5%

Para os defensores da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55, sim. Aprovada na Câmara, em 25 de outubro, como PEC 241, e aguardando votação no Senado, agora como PEC 55, a medida estabelece um teto de gastos primários para o Governo Federal. Vendida como a solução para o descontrole nas contas públicas, segundo a gestão de Michel Temer, considera que problema principal da economia brasileira é o crescimento desses gastos.

iaTAXA SELIC: é a abrev al eci Esp ção de Sistema , dia stó Cu de Liquidação e a tax de a que é um sistem nutilizado pelo Banco Ce o ir fin de tral do Brasil para ís. pa piso dos juros no

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Por Carolina Lopes e Vitória Lopes 6

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MOBILIDADE

EDUCAÇÃO

Experiências inovadoras que fogem do ensino engessado

PEC AMEAÇA

Por Vitória Lopes

Desde 2011, a Mobilidade Acadêmica proporciona a troca de experiências entre os alunos das 57 universidades do país que participam do programa. De acordo com a diretora de divisão de programas especiais (PROGRAD), Dulce Pontes, os números de inscritos não param de crescer. “Nos anos de 2011 e 2012, não havia muita procura porque era um programa novo. Mas agora é possível notar o crescimento. Neste segundo semestre de 2016, aproximadamente 50 alunos se inscreveram”.

O programa oferece em média 40 vagas por semestre, distribuídas para alunos que chegam à universidade e os que partem da UFF em direção a outros estados. Dulce lista como dificuldade para ocupar efetivamente a vaga a sincronia dos calendários acadêmicos da IF receptora, greves, não cumprimento dos prazos estabelecidos e desistências. Apesar das ressalvas, os universitários que ingressam possuem rendimento satisfatório e muitas vezes, acabam permanecendo por mais um semestre. Ainda de acordo com a diretora, os estados com maior presença na UFF este semestre são o Ceará, notadamente na área de cinema, Brasília e Mato Grosso. Um exemplo é o estudante de publicidade, Matheus Moraes, que veio de Cuiabá (MT). “Escolhi o curso de publicidade pelo interesse na área de criação e design. Infelizmente, a UFMT prioriza o ensino teórico, voltado ao magistério e que não conta com disciplinas optativas de artes/criação, e os cursos de design oferecidos em Cuiabá são caros. Vi na mobilidade a oportunidade de cursar estas disciplinas e ampliar meu conhecimento na área que me interessa sem ter um gasto muito grande”, explica sua escolha pela universidade. Questionado sobre as dificuldades de morar sozinho em outra cidade, Matheus foi categórico: o preço do aluguel em Niterói. O valor da bolsa é de R$ 600, o que muitas vezes já é gasto integralmente com o aluguel. Por isso Moraes dá dicas para os que pretendem se aventurar pela mobilidade. “Analise a instituição que gostaria de ir, procure cuidadosamente um lugar pra morar antes e, se

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possível, o visite. Tente não vir sozinho, pois o começo em outra cidade é solitário, e tenha consciência que a bolsa é apenas um auxílio, é preciso vir preparado pra investir no processo”. Além da Mobilidade Nacional, existe também a Mobilidade Internacional, que oferta oportunidades de estudo no exterior. Apesar das notáveis diferenças culturais e da língua, a aluna de Comunicação Social, Joana Neves, que é de Setúbal, Portugal, também concorda quanto à dificuldade de encontrar moradia e do preço exorbitante do aluguel. O processo para encontrar uma república foi facilitado pelo Programa de Apadrinhamento do Intercambista – PAI, uma atividade voluntária que visa à integração dos alunos estrangeiros com os alunos da UFF para promover uma experiência cultural mutua. Acerca de suas impressões, Joana elogia o ensino da UFF e faz recomendações aos futuros colegas. "Tenho gostado muito, as aulas são boas e acho que o nível de ensino aqui é muito bom, bem parecido com o que eu tinha em Portugal. E tem uma coisa mui­to boa que é o bandejão por 0,70 centavos. Isso dá 0,20 cêntimos em Portugal e com esse valor não se come em lugar nenhum por lá!”. Além da bolsa que a mobilidade oferece, os alunos podem fazer uso dos programas estudantis como o restaurante universitário, bolsas de assistência, Acolhimento Estudantil e as moradias estudantis. PEC 241 e cortes de orçamento Aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados, a PEC 241 é uma proposta de emenda constitucional que congela as despe-

sas do Governo Federal por até 20 anos. Por consequência, esse congelamento atingirá setores como saúde e educação. Em uma publicação recente, o Ministério da Educação (MEC) divulgou corte no orçamento de 2017 de recursos em investimento, ou seja, em obras e recursos de capital, das universidades e institutos federais. Em razão da votação da PEC e da defesa das 30 horas de trabalho, os técnicos e servidores da UFF deflagraram greve em 24 de outubro, paralisando inclusive os serviços do programa estudantil mais utilizado: o bandejão. Além dos alunos em mobilidade enfrentarem mais esta dificuldade, o próprio programa em si será prejudicado com o andamento da proposta de emenda. Dulce Pontes já alegou que cortes de orçamento afetaram as vagas de mobilidade, que passarão a decair com o passar dos anos.

Por Carolina Lopes

Aos quatro anos aprendem algumas letrinhas, aos seis são alfabetizados, aos sete entram para o cursinho de inglês, aos 12 são fluentes, aos 15 já precisam pensar sobre qual carreira seguir, aos 17 escolhem a profissão. Aos 22 estão formados, aos 24 pós-graduados e aos 30 se decepcionam com a carreira e apostam tudo no sonho antigo. Histórias que estão se tornando comuns na geração atual. Que destino foi dado à educação? A pressão para o sucesso profissional é muito grande. Jovens são, cada vez mais cedo, influenciados a escolherem suas profissões. Histórias de adolescentes que estudaram nove horas por dia e passaram para a faculdade chovem nos jornais em época de vestibular. Porém, que essa cobrança e modelo de ensino conteudista começam já na Educação Infantil, que vem sofrendo com as consequências da pressão por um ensino de qualidade. Mas, qualidade não é sinônimo de conteúdo massivo, de horas sentado em uma carteira, de livros, apostilas e páginas de dever de casa que não acabam nunca. Em 2014, a Prefeitura do Rio de Janeiro lançou uma peça publicitária que reflete justamente esse ensino massivo. O anúncio do programa Fábrica de Escolas do Amanhã e mostra crianças sentadas em carteiras que estão em cima de uma linha de produção e diz: “Nossa linha de produção é simples: construímos escolas, formamos cidadãos e criamos futuros”. O modelo fordista faz produtos iguais, com funcionários com um conhecimento muito específico e

nada além dele. É assim que o ensino deve ser idealizado? Engessado, com crianças que pensam de maneira igual, estudando sempre os mesmos conteúdos e fazendo parte de uma fábrica de formação de alunos? A livre experimentação, o brincar, a imaginação e até o ócio são de extrema importância. Desde cedo, as crianças já estão matriculadas em cursinhos, têm diversas atividades durante o dia; mas e o tempo para ser criança? Muitas experiências surgem de um momento em que simplesmente não se faz nada. O próprio brincar também possui seus objetivos, é brincando que a criança desenvolve habilidades, procura soluções para problemas e desperta a criatividade, originando muitos aprendizados. Para uma matéria do site da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), a coordenadora do Congresso Nacional Primeira Infância – Pelo Direito de Brincar (realizado este ano), Cinthia Magda Ariosi destacou que “a criança não brinca mais, para poder fazer atividades, em nome da escolarização precoce”. Janaina Pereira Duarte, vice-coordenadora do evento, disse que a quantidade de atividades nos cadernos e o tempo em que as crianças ficam sentadas em suas cadeiras “provocou um grito de alerta dos professores”. É possível Uma proposta de educação lúdica e participativa pode parecer algo utópico, porém pedagogias alternativas como a Construtivista, Montessoriana, Waldorf, Logosófica - todas elas nada têm em comum com a escola tra dicional - mos-

tram que é possível. Marcia Righetti, diretora da escola Aldeia Montessori, no Rio de Janeiro, diz que a valorização da infância é importante e é preciso “trazer coisas significativas para o aprendizado, de acordo com o que a criança possa entender e construir”. Righetti destaca que o problema da educação tradicional é ensinar o que não se quer aprender e não cultivar a curiosidade. “Isso faz a criança não gostar de aprender, e como consequência, aprender é chato”, afirma. Segundo ela, a criança já busca o conhecimento com autonomia e independência; “tem isso dentro dela, a gente que não a deixa usar. Em vez de empoderar, fragiliza”. Fernanda Cerqueira estudou na Aldeia e conta que o ensino a ajudou a ser uma pessoa mais reflexiva e questionadora e, ainda, estimulou a descoberta de talentos como a música, escrita e leitura. Fernanda acredita que a valorização da infância “ajuda a construir um ser mais consciente, crítico e aberto para as questões da vida”. Para a estudante de Letras, o problema do ensino tradicional é a transmissão de conhecimento do professor para os alunos, que não participam do processo. “Acredito que existam alternativas mais didáticas e coerentes para que o ensino não seja visto como uma obrigação, mas sim como algo que faça sentido, que desperte a curiosidade em aprender”, destaca. Mas, e o ensino público? Já é difícil implementá-lo com sucesso, ainda mais com cortes na educação e sucateamento dos serviços públicos no Brasil. Porém, existem escolas que fogem do padrão

atual e conquistam seus alunos. Uma delas fica no Rio de Janeiro, no Engenho de Dentro, a Escola Municipal Bolívar (Ensino Fundamental do 7º ao 9º ano), que faz parte do programa Ginásio Carioca, implantado em 2011 pela Secretaria Municipal de Educação. Nas escolas do programa, os professores têm dedicação exclusiva, o que muda a relação deles com os alunos. Existem matérias eletivas, trazendo “o universo do desejo para dentro do conhecimento, porque o currículo escolar é muito formalizado”, como explica a coordenadora pedagógica da Escola Bolívar, Jurany Maria Miguel. Os alunos sentam em círculos, favorecendo o trabalho em grupo, e são estimulados a terem um projeto de vida, com metas e sonhos. O objetivo é fazê-los gostar do estudo e se interessar pela escola. Outra iniciativa inovadora no Brasil é o Projeto Âncora, em São Paulo, que existe há 20 anos como ONG. Desde 2012, se transformou em escola de tempo integral. O Âncora não tem turmas, séries ou aulas e, sim, núcleos de aprendizagem: iniciação, desenvolvimento e aprofundamento, que não possuem um tempo certo de permanência. Cinco valores são seguidos na escola: respeito, solidariedade, responsabilidade, afetividade e honestidade. Os alunos fazem seu planejamento diário e um roteiro de estudos quinzenal, ambos avaliados pelo tutor, valorizando a autonomia e participação do aluno. Além disso, todos tomam decisões coletivas e diversas oficinas são oferecidas, como circo, marcenaria, teatro e skate.

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Crise política brasileira

Reformas, representatividade, As eleições de 2014 representaram a maior fragmentação do parlamento brasileiro desde a redemocratização do país: 28 partidos políticos foram contemplados com pelo menos uma cadeira na Câmara dos Deputados. Essa diluição representativa é um reflexo da falta de identificação ideológica que os partidos políticos possuem em relação ao público. A relevância demográfica dos “sem partido”, que ganharam força nas manifestações de junho de 2013, já sinalizava esse fenômeno e era um indicativo do que aconteceria nas votações do ano seguinte. Na época, parte daqueles que foram para as ruas demonstraram insatisfações comuns e populares, mas uma constante nos protestos era o apartidarismo. Aos gritos de “abaixa a bandeira”, militantes partidários eram inibidos de exercer com liberdade sua participação em um movimento que se dizia democrático. Os números comprovaram a insatisfação com os partidos. De acordo com pesquisa realizada pelo Ibope em oito capitais brasileiras, ainda em 2013, 96% dos manifestantes não tinham afiliação partidária, e 89% diziam não se sentir representados por legenda nenhuma.

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Embora as manifestações tenham começado por iniciativa do Movimento Passe Livre (MPL), só 14% dos entrevistados faziam parte de algum sindicato, entidade de classe ou estudantil. Para o professor de Ciências Políticas da UFF Marcus Ianoni, a crise se expressa na queda da confiança dos cidadãos nas instituições eleitorais e partidárias, no não comparecimento às urnas, na não filiação a partidos políticos e, recentemente, no surgimento de alguns “movimentos-partidos“ tentando renovar a política, como é o caso do Podemos, na Espanha.

cio: o Arena, partido do governo militar, se consolidou no PDS, enquanto as inúmeras vertentes dentro do MDB, único partido em oposição ao Arena, deram origem ao PMDB, com outros integrantes e ideias se espalhando por PT, PDT e PTB. Porém, segundo Ianoni, apesar da liberdade partidária que proporcionou essa proliferação de legendas, a maioria desses partidos já não tinha programas ou projetos definidos e passaram a funcionar como grupos de interesses para favorecer causas mais privadas do que públicas.

Apesar da crise de representatividade política ser um fenômeno mundial, ela tem algumas características próprias ao Brasil. Para entender essas especificidades, é necessário observar como se deu a origem do sistema representativo vigente no país. Durante o período da ditadura, havia apenas dois partidos políticos: o Arena, da base do governo, e o MDB, de oposição. O bipartidarismo foi abandonado nos anos 80, com o processo de redemocratização do país.

Um exemplo disso é a fragmentação partidária resultante das eleições de 2014 e suas consequências. A votação possibilitou a ascensão e subsequente predominância da bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), o que configurou um retrocesso na pluralidade e no debate sobre as problemáticas sociais e democráticas do país. Avanços em discussões ambientais, de minorias, e até o laicismo do Estado ficaram ameaçados desde o último pleito.

Desde então, as legendas começaram a se multiplicar, fragilizando os posicionamentos ideológicos desde o iní-

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A estagnação ideológica é fator fundamental para o distanciamento entre sociedade e classe política. A maior parte das legendas permanece liderada pelos mesmos caciques que as formaram, distanciando-as das novas problemáticas enfrentadas pelo país, e consequentemente, dos eleitores. Dos 549 parlamentares do Congresso Nacional, 271 começaram a carreira política durante ou antes do governo FHC, quase metade dos congressistas.

“A reforma política é necessária, mas muito difícil, pois as regras atuais favorecem os que se beneficiam delas”. Marcus Ianoni A mensagem é clara: os partidos precisam se reciclar para alcançar o público. Mas será que os partidos entendem, ou mesmo desejam essa aproximação? O clima de despolitização não é interessante para o poder estabelecido?

partidos e novos caminhos Apesar dessa aproximação se mostrar fundamental, uma reforma que proporcione essa e outras mudanças se mostra distante. “A reforma política é necessária, mas muito difícil, pois as regras atuais favorecem os que se beneficiam delas”. Ianoni ressaltou que, embora os esforços de movimentos sociais terem conquistado resultados, como o fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais, ainda não houve acordo para mudar o sistema eleitoral de lista aberta, por exemplo. “Esse modelo incentiva o individualismo de candidatos e de políticos, em detrimento de uma relação política entre eleitor e partido. O eleitor não vota em partidos (para as eleições proporcionais), ele vota em candidatos”, disse o professor. Como explicado por ele, outro elemento que distancia o público do funcionamento da política é o nosso sistema eleitoral. O presidencialismo de coalizão gera confusão na cabeça do eleitor, e transforma os partidos em uma sopa de letrinhas, em vez de separá-los pela variedade de ideias. Nesse modelo, os acordos e alianças entre forças políticas com o objetivo de chegar ao poder geram algumas anomalias, como

a aliança entre PT, um partido de centro -esquerda, com partidos conservadores, como PP, PRB, PR e o próprio PMDB. Tudo em nome da “governabilidade”.

Nove em cada dez entrevistados disseram que o jovem pode mudar o mundo. Esse processo dilui a já escassa ideologia partidária, o que origina dissidências, por sua vez dando origem a novos partidos. Mas até que ponto as novas legendas conseguem trazer algo novo para modificar o atual quadro de crise? Atualmente, existem 35 partidos no Brasil reconhecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número elevado de organizações partidárias torna quase impossível o exercício do governo sem a formação de coalizões. A variedade de partidos, e até o sistema de coalizões, poderiam trazer benefícios para a política nacional. Em tese, um quadro partidário pluralizado estaria apto a oferecer representações de todas as correntes ideológicas presentes na sociedade, mas na verdade, o que de fato há é uma disputa pelo

poder esvaziada de discussões importantes. Ocorre então uma política fisiológica de troca de favores e benefícios privados; e clientelista, de proteção em troca de apoio político. Já os sistema de coalizões poderia ser interessante dentro do contexto de um pacto, que levasse em conta o interesse da população sobre o dos parti-

dos. Dessa forma, dentro do presidencialismo de coalizão, seria possível uma união de ideologias com toda a população como beneficiada, mediante negociação entre os partidos. O problema é que um partido não necessariamente coloca a população em primeiro lugar, exceto na contagem de votos. Além disso, esse sistema é dependente da capacidade de negociação de suas partes, principalmente do líder da chapa.

Pesquisa da SNJ revela dados importantes A Pesquisa Agenda Juventude Brasil de 2013, realizada pela SNJ com apoio da Unesco Brasil, buscou analisar o perfil e opinião dos jovens brasileiros naquele ano sobre vários aspectos, inclusive na política. Ela mostrou que o distanciamento da juventude dos partidos não significa desinteresse político. 54% dos ouvidos consideram a política “muito importante” e nove em cada dez entrevistados disseram que o jovem pode mudar o mundo. Ao serem perguntados como podem ou devem atuar, a maioria afirmou que a participação em associações e coletivos ou ações políticas diretas, realizadas na rua, têm mais efeito do que o envolvimento com partidos políticos. Essa opção ficou em terceiro lugar, empatada com o ativismo na internet. Por fim, 88% dos jovens afirmou que nunca faria parte de uma sigla política. Por Felipe Gelani

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programação

debate a cobertura da imprensa

terça, 29 de novembro 16h Abertura 16h30 às 18h30 A cobertura do impeachment

Por Luísa Verçosa, Fabrycio Azevedo e Edson Gonçalves

O longo processo que acarretou no impeachment de Dilma Rousseff também trouxe à tona uma importante questão: qual o papel da imprensa no cenário político atual? Para debater este e outros assuntos, o auditório InterArtes, do Instituto de Arte e Comunicação Social da UFF, recebe a 12ª edição do seminário Controversas. Coordenado pela professora Larissa Morais, do Departamento de Comunicação Social, o evento reunirá profissionais do mercado jornalístico, docentes e estudantes para discutir a influência da mídia no desenrolar dos fatos que levaram à queda da presidente e à posse de Michel Temer.

Para a professora aposentada do curso de Comunicação Social, Sylvia Moretzsohn, que será uma das mediadoras do debate, a vilanização de Dilma começou antes mesmo de sua entrada no cenário político. O principal alvo na verdade era o Partido dos Trabalhadores. “O processo de transformação do PT no inimigo começa no Mensalão, sem dúvida nenhuma. A maneira como isso foi coberto é muito significativa. Pudemos ver a articulação entre mídia e judiciário”, analisa Moretzsohn. Ex-aluno da UFF e repórter do jornal O Dia, Caio Barbosa, que também integra a mesa de abertura, entende que a imprensa deve se comprometer com a influência que exerce sob a sociedade. “Acho que a jornalismo, de uma forma geral, cumpre - ou deveria cumprir - um papel social importante, desde que exercido com responsabilidade. A partir do momento em que isto não acontece, como na maioria das vezes, é a sociedade que sai prejudica-

da. A democracia sai prejudicada”, analisa.

Cid Benjamin (jornalista, professor, ex-exilado), Gilberto Scofield (ex-O Globo, hoje em empresa de Comunicação) Caio Barbosa (O Dia)

Barbosa reconhece que em muitos momentos os limites entre cobertura jornalística e formação da opinião pública foram desrespeitados. “Não é preciso um aprofundado estudo de mídia para perceber que, de maneira geral, extrapolamos o nosso papel. Basta apenas um pouco de bom senso”, complementa. Destaca, ainda, a dificuldade que o profissional enfrenta na cobertura de eventos importantes, como os recentes episódios políticos. “Como repórter de um jornal popular, voltado mais para a política fluminense, com pouco acesso ao eixo Brasília-Curitiba, não foi tarefa fácil. Mas ninguém nunca me disse que seria”.

Mediação Sylvia Moretzsohn

18h30 às 19h Coffee break 19h às 21h30 Imagens do impeachment Renato Aroeira (caricaturista) Lula Marques (fotógrafo, via skype) André Dahmer (cartunista) Mediação Clarissa Gonzalez e Ildo Nascimento

quarta, 30 de novembro 116h Abertura: Blog e crise política

Além dos debates sobre a cobertura do impeachment e a produção de imagens sobre o evento, este último sob a responsabilidade dos professores Clarissa Gonzalez e Ildo Nascimento, haverá uma mesa especial para analisar a crise na educação, com a presença do professor Paulo Carrano, do Instituto de Educação da UFF.

Fernando Brito (Tijolaço) conversa com Sylvia Moretzsohn

17h00 às 18h30 Educação em crise Diogo Salles (Professores Contra o Escola sem Partido) Paulo Carrano (professor UFF) Mediação João Batista de Abreu

A novidade na organização, deste ano, fica por conta da participação dos alunos do Curso de Comunicação Social como mediadores da mesa Prata da Casa, que reúne ex-alunos, e encerra o evento. Os estudantes Gabriela Antunes e Wladimir Lênin conduzirão as discussões. Confira a programação completa no quadro ao lado.

18h30 às 19h Coffee break 19h Entrega do Prêmio Controversas 19h15 às 21h30 Prata da casa

Márcio Cajé André Coelho (CBN) Manu Mayrink (MPB FM + blog) Jupy Jr. (prefeitura de Mangaratiba) Mariana Pitasse (Brasil de Fato) Carolina Araujo (BRMalls) Mediação Gabriela Antunes e Wladimir Lênin

SALA INTERARTES

Rua Prof. Lara Vilela, 126 São Domingos - Niterói

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especial - novembro 2016

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE ARTE E COMUNICAÇÃO SOCIAL

Casarão Especial - novembro 2016  

Edição especial do Casarão, diante de duas bandeiras, que preocupam educadores e conectam jovens universitários e secundaristas de norte a s...

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