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Obscenografica artistas OBSCENO

unidos

GRAFICA

artistas unidos pela liberdade de expresรฃo erรณtica


Obscenografica artistas unidos pela liberdade de expressão erótica Artists united for freedom of erotic expression Curador (Curator) Vinni Corrêa


Obscenografica

Artistas unidos pea liberdade de expressão erótica - JAN 2020 Artists united for freeom of erotic expression - JAN 2020 Título (Title): Obscenografica: artistas unidos pela liberdade de expressão erótica (Obscenografica: artists united for freedom of erotic expression) Curador (Curator): Vinni Corrêa Arte da capa (Art book cover): “Lilly” por (by) Penny Hart Capa (Cover): Vinni Corrêa Design gráfico (Graphic design): Danielle V. Cardoso Coordenador de edição (Coordinator of the edition): Vinni Corrêa Produção e realização (Production and realization): Vinni Corrêa Artistas (Artists): Nadia Wamunyu, Frida Castelli, Nayra Martin Reyes, Oliviero Lazzerini, Laurent Benaim, Ruddy Travaglini, Avelar Amorim, Edson Aran, Fabio Baroli, Uarlen Becker, Edite Coelho, Vinni Corrêa, Tchello D’Barros, Diego El Khouri, Leandro Ervilha, Annie Ganzala, Laerte, Carlos Latuff, Bia Leite, Bárbara Macedo, Eduardo Macedo, Glauco Mattoso, Renzo Mora, Waldo Motta, Nani, Nalini Narayan, Nus Passos, Fêre Rocha, Jackeline Romio, Priscila Romio, Ricardo Muniz de Ruiz, Camila Soato, Veronica Stigger, Cairo Trindade, Denizis Trindade, Jorge Ventura, Ana Verana, Vote Nu, Yan Silva e Zé Amorim. @obscenografica © Obscenografica, São Paulo, 2020

Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor All rights reserved.


Agradecimentos

E

ste manifesto existe graças a todos os artistas que cederam suas obras para compor o projeto intitulado Obsceografica. Só tenho a agradecer a todos esses artistas por fazerem parte desta luta.

Um agradecimento carinhoso a Danielle V. Cardoso, amiga que doou seu tempo e disposição para ajudar com a maravilhosa diagramação da revista.

E não poderia ser menos com cada um de vocês que contribuíram de alguma forma, seja compartilhando em suas redes, convencendo os amigos e doando para fazer com que este manifesto seja a voz de vocês também. Só tenho a agradecer. [This manifesto exists thanks to all the artists who gave their works to compose the project entitled Obscenografica. I just have to thank you all for being part of this struggle.

A warm thanks to Danielle V. Cordoso, a friend who gave her time and willingness to help with the wonderful layout of the mgazine.

And it could not be less with each of you who contributed in some way, whether by sharing in your networks, convincing friends and donating to make this manifesto your voice as well. I just have to thank.]

(Acknowledgments)


Sumário (Summary)

8 Manifesto

76 Leandro ERVILHA

12 Nadia WAMUNYU

78 Ani GANZALA

16 Frida CASTELLI

82 LAERTE

20 Nayra Martin REYES

86 Carlos LATUFF

26 Oliviero LAZZERINI

88 Bia LEITE

30 Laurent BENAIM

94 Bárbara MACEDO

38 Ruddy TRAVAGLINI

96 Eduardo MACEDO

40 Avelar AMORIM

98 Glauco MATTOSO

44 Edson ARAN

104 Renzo MORA

46 Fabio BAROLI

106 Waldo MOTTA

52 Uarlen BECKER

112 NANI

54 Edite COELHO

114 Nalini NARAYAN

58 Vinni CORRÊA

128 NUS Passos

66 Tchello D’BARROS

132 Fêre ROCHA

68 Diego EL KHOURI

134 Jackeline ROMIO


140 Ricardo Muniz de RUIZ 142 Camila SOATO 146 Veronica STIGGER 150 Cairo TRINDADE 154 Denizis TRINDADE 156 Jorge VENTURA 160 Ana VERANA 164 VOTE NU 168 Yan SILVA 172 Zร‰ AMORIM

Sumรกrio

136 Pricila ROMIO


Manifesto

Foi um rio que passou em minha vida E meu coração se deixou levar Paulinho da Viola

A arte é a resistência de um rio represado

O

rio desce irreversivelmente... Contudo, não é a corredeira em si que traz medo aos incautos perante as transformações, mas sim, seu obscuro desembocar e a velocidade com que, à deriva, um mar bravio está a engolfá-los após uma asfixiante queda.

O rio desce irreversivelmente desde a cômoda e saudosa manancial dourada, quando era tão somente tradição sob a proteção de represas, rememorada nostalgicamente pelos reacionários, náufragos arrastados pela enxurrada sócio-política-econômica-culturaltecnológica-psicológica que, segundo eles, está a levar-nos ao cataclismo da humanidade. A reação tenta, energicamente, com mais violência que as águas, o retorno à sua nascente ideológica, tal qual peixes em piracema, para desovar seus sonhos sobre o tempo feliz das calmas águas, num tempo bíblico onde: sexo era apenas um dever humano de reprodução, prática exclusiva entre macho e fêmea, mesmo quando feito para o prazer; toda forma de nudez era coberta por falsas escamas; a fêmea era punida se tivesse uma gravidez indesejada ou mesmo se decidisse fazer o que bem entendesse com seu corpo e, como dizem, “mulher que anda de saia curta tá pedindo para ser estuprada”; crianças eram criadas por “pai” e “mãe” e era melhor estarem na rua a serem criadas por pederastas ou bruxas; ocupações, posições e até mesmo as cores eram bem definidas, diferenciando homens de mulheres; a mulher era submissa e tinha o dever de servir como sua propriedade; negros e indígenas sequer possuíam almas. Os reaças fazem a transposição do rio alterando o curso de volta para o leito, um lugar-tempo de quando não haviam sido ainda arrastados pela tromba d’água da história. Nesse movimento retrógrado, lançam tudo e todos às margens para evitar que esses marginais se organizem nas correntes e consigam guiar um rio cujo caminho não se sabe em qual pororoca vai dar. Um rio obsceno, profano, e que, portanto, não pode mais correr senão de volta na história para o lago sagrado. Evitando a foz-apocalipse da qual supõem o destino final desse rio, a reação tomou fôlego, embarreirou córregos, represou os desejos inconscientes da humanidade. Obscenografica surge como um barco desancorado de qualquer ideia-porto, uma embarcação construída com arte, não para dar rumo ao rio, mas para que seja possível navegá-lo, empurrado pelos ventos que sopram nossa sociedade, para que ninguém nade sozinho e acabe por morrer na praia. Que seja possível romper com todos os tabus que impedem esse rio de correr. Esse movimento não é contracorrente. É pois a própria correnteza, que dá forma a história e ruma 8


para um oceano que, embora desconhecido, nos tira da caverna para vermos a estrela da manhã. Este projeto é fruto da represa. Ele só existe porque seu movimento está a ser contido pelo moralismo e pela censura e quer se libertar. O movimento quer ser livre para ser o que quiser ser. Neste barco, trazemos à tona tudo aquilo que querem deixar como lodo até se solidificar e se perder para sempre na obscuridade das profundezas. Mas tudo que é sólido se desmancha, no ar ou no mar, onde quer que haja erosão. O erotismo é tão artifício como qualquer outro que criamos. E aqui representado neste coletivo, faz-se livre e diversificado, plurissexual, plurigênero, pluriétnico; do celibatário ao transante, todos são Obscenografica surge como um barco desancorado de qualquer ideia-porto, uma embarcação construída com arte, não para dar rumo ao rio, mas para que seja possível navegá-lo, empurrado pelos ventos que sopram nossa sociedade, para que ninguém nade sozinho e acabe por morrer na praia. Que seja possível romper com todos os tabus que impedem esse rio de correr. Esse movimento não é contracorrente. É pois a própria correnteza, que dá forma a história e ruma para um oceano que, embora desconhecido, nos tira da caverna para vermos a estrela da manhã. Este projeto é fruto da represa. Ele só existe porque seu movimento está a ser contido pelo moralismo e pela censura e quer se libertar. O movimento quer ser livre para ser o que quiser ser. Neste barco, trazemos à tona tudo aquilo que querem deixar como lodo até se solidificar e se perder para sempre na obscuridade das profundezas. Mas tudo que é sólido se desmancha, no ar ou no mar, onde quer que haja erosão. O erotismo é tão artifício como qualquer outro que criamos. E aqui representado neste coletivo, faz-se livre e diversificado, plurissexual, plurigênero, pluriétnico; do celibatário ao transante, todos são formas livres e aceitas de erotismo. Aqui nos unimos, libertariamente, em resistência, para deixar correr livre a pulsão e fazer o rio descer sem censura, sem repressão, sem neurose. É o oceano desconhecido, o cais absoluto, que buscam as mentes livres; a prisão-aquário, as mentes tacanhas. Talvez o mar traga novos perigos, mas trará também novas aventuras e descobertas. Assim como a loucura de Copérnico levou a astronomia a uma revolução, a arte demonstra que o umbigo não é o centro da sociedade, mas que estamos todos a girar num redemoinho, um imenso turbilhão, em revolução e rotação, a deslocar-nos de nosso porto seguro rumo ao cais absoluto do qual não devemos temer e não podemos escapar – nem devemos. Deixemos os ventos do erótico soprarem e com eles navegarmos pelas águas obscenas do novo mundo. Vinni Corrêa poeta, artista visual e curador do Obscenografica

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Manifesto

It was a river that passed through my life And my heart let itself be carried away Paulinho da Viola

Art is the resistance of a dammed river The river is irreversibly going down... However, it’s not the whitewater itself that brings fear to the unwary in the presence of the transformations. They fear the way the river empties into the obscutiry and the speed with which a wild adrift sea engulfs them after an asphyxiating fall. The river is irreversibly going down from the comfortable longing golden fountainhead, when it was only a tradition under the protection of dams, nostalgically remembered by the reactionary, the shipwrecked dragged by the socio-political-economic-cultural-technological-psychological flood which, according to them, is leading us to the cataclysm of humanity. The reaction tries, energetically, with more violence than the waters, to return to its ideological fountain, like fish in spawning season, to produce their dream eggs on the happy time of the calm waters, in a biblical time where: sex was only a human duty of reproduction, exclusive practice between male and female, even when made for pleasure; every form of nakedness was covered with false scales; the female was punished if she had an unwanted pregnancy or even if she decided to do as she pleased with her body and, as they say, “a woman in short skirts is asking to be raped”; children were raised by their “father” and “mother” and it was better to live in the street than to be raised by pederasts or witches; occupations, positions and even the colors were well defined, differentiating men from women; women were submissive and had a duty to serve as men property; blacks and natives had no souls. Troglodytes transpose the river by altering the course back to the riverbed, a place-time where they had not yet been swept away by the waterspout of history. In this retrograde movement, they throw everything and everyone to the margins to avoid that marginalized organize themselves in the torrents and are able to guide a river we don’t know in what tidal bore it will go. An obscene, profane river, which therefore can no longer down, but upstream back in history to the sacred lake. Avoiding the outfall-apocalypse which they suppose the final destination of this river to be, the reaction took a breath, flooded streams, dammed the unconscious desires of humanity. Obscenografica emerges as a boat with its anchor raised from any idea-port, a craft built with art, not to drive the river, but to be able to navigate it pushed by the winds that blow our society, so that nobody could swim, swim and swim, and die on the beach. It shall be possible to break with all the taboos that prevent this river from running. This movement is not countercurrent. It is the stream itself, which shapes history and leads to an ocean that, though unknown, takes us 10


out of the cave to see the morning star. This project is the fruit of the dam. It only exists because its movement is being restrained by moralism and censorship and wants to break free. The movement wants to be free to be what it wants to be. In this boat we bring out all that they want to leave as sludge until it solidifies and be lost forever in the darkness of the depths. But all that is solid melts into air or sea, wherever there is erosion. Eroticism is as artifice as anything we have created. And here represented in this collective, it becomes free and diversified, plurisexual, plurigender, plurietnic; from celibate to sluts, all are free and accepted forms of eroticism. Here we unite, libertarily, in resistance, to let the drive free and to make the river go down uncensored, without repression, without neurosis. Its the unknown ocean, the absolute quay, that free minds seek; the prison-aquarium is the narrow-minded goal. Perhaps the sea brings new dangers, but it will also bring new adventures and discoveries. Just as the madness of Copernicus has led astronomy to revolution, art shows that the navel is not the center of society, but that we are all turning in a whirlwind, an immense maelstrom, in revolution and rotation, to move us from our safe harbor towards the absolute quay of which we must not fear and can not escape - nor should we. Let the winds of the erotic blow and with them we navigate the obscene waters of the new world.

Vinni CorrĂŞa poet, visual artist, and curator of Obscenografica

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WAMUNYU Nadia

convidada

artista plástica / painter

(convidada especial / special guest)

Nadia WAMUNYU Uma artista visual contemporânea bemsucedida, nascida em Nairobi, Quênia. Ela aspira a ter seu próprio estúdio, aventurar-se em paisagismo e paisagismo e até mesmo experimentar outras formas, por exemplo, retratos, paisagismo, memórias, tráfico de pessoas (mulheres), nudez, feminismo, ambientes, culturas e murais. Ela usa carvão em papel, acrílico sobre tela, tinta, alvejante, café e tintas a óleo para criar minha obra de arte. O universo negligenciou sua audição, mas deulhe visão e mente para trabalhar. Na tenra idade de oito anos, ela percebeu que poderia gravar suas memórias, experiências, gostos e sentimentos através do desenho. Sua arte parece um alívio do estresse da comunicação vocal com a qual ela luta. Ela explica também que não pode deixar de ver os artistas como o terceiro olho da sociedade; “essa habilidade é como passar para uma dimensão especial e única do mundo e da sociedade, que só posso acessar”. A well-established contemporary visual artist born in Nairobi, Kenya . She aspires to have her own studio, venture into garden art and landscaping and even experiment with other forms, i.e. portraits, landscaping, memories, human trafficking (Women’s Right), nudity, feminism, environments, cultures and murals. She uses charcoal on paper, acrylic on canvas, ink, bleach, coffee and oil paints to create my artwork. The universe neglected her hearing but gave her sight and mind to work with. At the tender age of eight she realised she could record her memories, experiences, tastes and feelings through drawing. Her art feels like a relief from the stress of vocal communication that she struggles with. She explain also that can’t help but view artists as the third eye of society; “this skill is like a pass to a special and unique dimension of the world and society, that I only can access”.

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Pose 13


WAMUNYU Nadia

“You are Nothing but a Whore” 14


Rose Period 15


CASTELLI Frida

convidada

ilustradora / illustrator

(convidada especial / special guest)

Frida CASTELLI Ilustradora italiana, convidada especial que aceitou ceder sua obra nesse manifesto pela liberdade artĂ­stica. Italian illustrator, special guest who agreed to give in her work in this manifesto for artistic freedom.

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Lascia che i tuoi baci spieghino all’inverno cosa sono i brividi

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CASTELLI Frida

L’origine del mondo

Manchi

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Ti sposerò ogni giorno

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R E Y E S

Nayra Martin

convidada

Nayra Martin REYES Nasceu em 1979 em Santa Cruz de Tenerife, Ilhas Canárias, Espanha. Atualmente vive e trabalha em Tenerife e Gante (Bélgica). Atua com desenho, pintura, performances e escultura. Born in 1979 in Santa Cruz de Tenerife, Canary Islands, Spain. Currently lives and works in Tenerife and Ghent (Belgium). She works with drawing, painting, performances and sculpture.

artista plástica / painter

(convidada especial / special guest)

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Cunt 000. Hi Honey! 21


REYES Nayra Martin

Cunt 005. Are you Mike Hunt? 22


Cunt 012. We like it Rosy 23


REYES Nayra Martin

Cunt 014. Trust me, we can dance

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Cunt 017. Sappho is playing the ukelele

Cunt 018. Nothing of the sort

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LAZZERINI Oliviero

convidad

artista plástico / painter

(convidada especial / special guest)

Oliviero LAZZERINI Sob o nome de “Artimboldo”, apelido no Instagram, Lazzerini nasceu em 1971 em Piombino, Livorno, Itália e participa dessa antologia como convidado especial. Por motivos de trabalho, desde 2005 vive e trabalha na região italiana de Liguria. É químico por profissão e lida principalmente com pinturas. Desde tempos imemoriais é atraído por tudo que é criação manual. Um artista instintivo e autodidata, suas formas favoritas de expressão artística são pintura, desenho, pastas de modelagem (essencialmente destinadas a criar modelos para pintura) e cerâmica. Sua produção artística é principalmente orientada no campo do erotismo. Under the name of “Artimboldo”, nickname in the Instagram profile, Lazzerini was born in 1971 in Piombino, Livorno, Italy, and colaborate with this anthology as a special guest. For work reasons, since 2005 he lives and works in Liguria. He’s a chemist by profession and he deals mainly with paintings. Since time immemorial he’s attracted by everything that is manual creation. An instinctive and selftaught artist, his favourite forms of artistic expression are painting, drawing and modelling pastes (essentially aimed at creating ad hoc models for painting) and ceramics. His artistic production is mainly oriented in the field of eroticism.

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An imperfect quartet for a perfect trheesome

A great urban love

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LAZZERINI Oliviero

Supermarket

Spending day

Laundry day-the hidden side of things

Let’s party in tribute to the genius of Modigliani

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It could be that when you masturbate, the souls of your dead relatives are watching you

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BENAIM Laurent

convidado

Laurent BENAIM Fotógrafo francês especializado em imagens eróticas cujo foco é permitir que seus modelos tragam à tona seus desejos incomuns. Como um voyeur, assiste e captura a cena interpretada pelos atores amadores. French photographer specializing in erotic images whose focus is to allow his models to bring to light their unusual desires. As a voyeur, he watches and captures the scene played by amateur actors.

fotógrafo / photographer

(convidada especial / special guest)

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BENAIM Laurent

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BENAIM Laurent

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BENAIM Laurent

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TRAVAGLINI Ruddy

onvidad

artista plรกstico / painter

(convidada especial / special guest)

Ruddy TRAVAGLINI Artista plรกstico de Martinica, nas Pequenas Antilhas, regiรฃo do Caribe. Atualmente vive e trabalha em Melbourne, Austrรกlia.

Sky 1

Painter from Martinique, in the Lesser Antilles, Caribbean region. Actually, lives and works in Melboune, Australia.

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Sky 2

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AMORIM Avelar

artista pl

artista plástico painter Nudez 1

Avelar AMORIM Avelar Amorim é artista plástico formado pela Universidade Federal do Piauí e possui especialização em história cultural e mestrado em antropologia. Nasceu em Miguel Alves, Piauí, no ano de 1980. Avelar Amorim is a painter graduated from the Federal University of Piauí and has a specialization in cultural history and a master’s degree in anthropology. He was born in Miguel Alves, Piauí, in the year 1980.

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Nudez 2

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AMORIM Avelar

Nudez 3

Nudez 4

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Nudez 5

Nudez 6

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ARAN Edson

escrito

escritor writer

Edson Aran Edson Aran nasceu em 1963 em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais. Foi jornalista pela Editora Abril e publicou textos e quadrinhos para jornais e revistas como “O Pasquim” e “IstoÉ”. Dirigiu as revistas “Sexy” e “Playboy”. É também roteirista e escritor. Dentre seus livros publicados, destacam-se “Aqui Jaz – o livro dos Epitáfios”, “Conspirações – tudo o que não querem que você saiba”, “O Imbecilismo” e seu mais recente “O Livro das Conspirações”. Edson Aran was born in 1963 in São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais. He was a journalist for Editora Abril and published texts and comics for newspapers and magazines like “O Pasquim” and “IstoÉ”. He directed the magazines “Sexy” and “Playboy”. He is also a screenwriter and writer. Among his published books are “Aqui Jaz – o livro dos Epitáfios,” “Conspirações – tudo o que não querem que você saiba” “Imbecilismo”, and their most recent “O Livro das Conspirações”.

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Chega de conservadorismo kim-kataguirizento! Queremos globeleza pelada de novo! Um tsunami de conservadorismo retrógrado e troglodita toma conta do nosso avançadíssimo Brasil. Primeiro foi o “Queer Museu” do Santander. Agora protestam contra a perfomance de Wagner Schwartz no MAM. No entanto, não é de hoje que as Novas Senhoras de Santana marcham pelas ruas defendendo a caretice e carolice. No carnaval passado, a TV Globo censurou a nudez da Globeleza! O carnaval, nós sabemos, é uma festa chata e triste. Todo ano somos temos de suportar sambas-enredo sobre os gloriosos tupinambás que desceram do espaço exterior. Todo ano temos de aguentar a “galera feliz e suada da comunidade, essa gente humilde que tem só quatro dias de alegria na tela da Globo”. Todo ano temos de assistir aos mesmos destaques batendo em fio de alta tensão para se esborrachar no chão, carro quebrado na concentração, bichas fanhas emplumadas, passistas de pé sangrando, crioulos castigando bumbos e as últimas ararinhas azuis reconfiguradas em “esplendor e glória de Nabudonossor no reino encantado de Maurício de Nassau”.

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A única coisa que prestava no meio desse povo que a gente vê na Globo era a gloriosa nudez da Globeleza! Esse poema em forma de mulher começava a sambar depois do reveillon e só parava na quarta-feira de cinzas. Mas o Brasil conservador e reacionário protestou e a TV Globo Golpista, baluarte do comportamento jurássico e kim-kataguirizento, decidiu vestir a Globeleza! Por isso, eu, o intelectual mais progressista desse país atrasado; o poeta concreto Oraldo Grunhevaldo; meu vizinho Irso, o energúmeno; minha empregada Odisséia, ex-Ordinelson e vários outros pensadores desse Brasil lamentável, lançamos hoje o nosso brado alegre e retumbante. #FREEGLOBELEZA #NENHUMANUDEZSERÁCASTIGADA #GLOBELEZAPELADADENOVO Não podemos permitir que as forças do atraso decidam o que nós podemos ver ou assistir. Quem quiser que vá ver homem de pau mole no MAM, nós queremos é mulher de bunda dura na TV. #FREEGLOBELEZA


BAROLI Fábio

artista pl

artista plástico painter

Fábio BAROLI Fábio Baroli é artista plástico natural de Uberaba/MG, nascido em 1981. Participou de diversas exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Recebeu prêmios em salões e instituições de arte como Funarte e Arte Pará. Possui obras no MAN/RJ, MAR/RJ, Museu Nacional de Brasília, dentre outros. Fábio Baroli is a painter from Uberaba/MG, born in 1981. He has participated in several individual and collective exhibitions in Brazil and abroad. He has received awards in salons and art institutions such as Funarte and Arte Pará. He has works at MAN/RJ, MAR/RJ, Museu Nacional de Brasília, among others.

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Autômato (auto-erotismo)


Decapto I

Decapto II

Decapto III

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BAROLI Fรกbio

In Nature #1

Narrativas Privadas #16

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Deturpação venusiana

Em decorrência da Origem

Em decorrência da Origem

Esto és peor (de Cristo à Tepes)

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BAROLI Fรกbio

Narrativas Privadas #19

Sujeito da Transgressรฃo #6

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Narrativas Privadas #13

Narrativas Privadas #14

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BECKER Uarlen

escrito

Uarlen BECKER Uarlen Becker nasceu em 1976, em Salvador, Bahia. É filho de barbeiro e cabeleireira. É formado em Artes cênicas pela UFBA, possui inúmeros trabalhos como ator e diretor. Publicou sete livros entre poesia e contos, além de cerca de 20 textos para teatro, alguns deles montados e adaptados para cinema. Uarlen Becker was born in 1976, in Salvador, Bahia. He is son of a barber and a hairdresser. He graduated in Performing Arts from UFBA and he has numerous works as an actor and director. He published seven books between poetry and short stories, in addition to about 20 texts for theater, some of them mounted and adapted for cinema.

escritor writer

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SUPETÃO Saí de casa atrasado e os colegas não iriam tolerar mais aquele absurdo eu pagaria uma prenda Uma prenda é uma maneira infantil de realizar aqueles castigos É uma brincadeira dos funcionários lá da empresa Uma trovoada e o prenúncio de chuva Estou me benzendo como de costume quando saio de casa como se o senhor estivesse vendo meus movimentos Eu não sei se acredito em nada disso mas a tradição familiar fala mais alto Eu recebera os ensinamentos da mamãe e do papai e da avó paterna que era uma carola de carteirinha Saudades dela mesmo assim Dito e certo começou a chover Peço um taxi e já desço dele correndo e me coloco embaixo de uma marquise O taxista deve ter ficado puto com a corrida tão curta Meu colega agitando os braços, parece meio irritado Corro e imediatamente estamos no hall de entrada do prédio que leva o nome de um pintor francês Ora que porra mais um prédio com nome de estrangeiro eu penso enquanto acompanho o colega que também fugia da chuva Você não vai acreditar na porra que aconteceu A mãe da revisora morreu ficou um clima chato do caralho então o pessoal cancelou a festinha Puta merda é uma merda atrás da outra perdi meu telefone saí na chuva e agora isso Como ela está Estão consolando ela Por isso que todo mundo ligou pra te avisar mas deu caixa o tempo todo Não deu outra Subimos para o apartamento dele para beber alguma coisa e não perder a noite Me jogo no sofá Uma bela vista do apartamento pequenininho Que cerveja amarga é essa pergunto lendo o rótulo Bem encorpada né Muito Uma delícia Agora que dou por nós já estamos na sétima cerveja Eu esparramado no sofá depois de mijar pela terceira vez Cerveja me faz urinar o tempo todo Lava as mãos pelo menos grita ele me sacaneando Estão sempre limpinhas cheira aí eu digo colocando a mão esquerda na cara dele Cheiro de rola ele diz dando risada enquanto lá fora a chuva castiga o centro da cidade e a cidade toda Ele abre um pouco a janela para entrar ar fresco e eu sinto aquele cheiro de maresia Eu penso na colega com a mãe morta Eu tinha comido ela anteontem mas não consegui gozar ela deve ter gozado umas oito vezes mulher é foda Eu prometi a mim mesmo não comer nenhuma colega do trabalho e aquela já era a quinta Elas devem comentar umas com as outras Não é que eu me acho um fodedor profissional ou o pica das galáxias Elas se abrem e eu meto a pica mas não comento com ninguém Você fala assim e eu já fico de pau duro Na empresa tem muita mulher gostosa Eu também fico mas não comenta com ninguém que transei com elas Você é a primeira e única pessoa que sabe Pelo menos de minha parte Fica agora um silêncio Ele pega em meu pau e eu no dele Eu não acredito muito e meu coração parece sair pela boca A cidade deve estar inundada Agora ele chupa meu cu enquanto me punheta Eita porra Ele me beija e eu deixo Ele é hábil em tirar a camisinha e continuar chupando meu pau Enfia dois dedos na minha boca Agora é o pau dele em minha boca Que porra é essa que eu tou fazendo Meu pau baba sem parar Agora que dou por mim de supetão ele enfia em meu cu Lembrei que não consegui gozar com a colega cuja mãe é morta Que dor e Que delícia Estou todo arrepiado Caralho Que porra, na terceira metida bem fundo eu gozo em minha própria barriga Nunca gozei tanto assim Ele goza mordendo meu mamilo direito O que foi que fizemos eu perguntei e ele me disse relaxe Abro os olhos Estou em casa O despertador toca Não sei se irei para o enterro da mãe da colega Fecho os olhos novamente Amanhã será véspera de natal

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COELHO Edite

fotógrafa

fotógrafa photographer

Edite COELHO Nascida em 1965 no distrito de Tebas, em Leopoldina/ MG. Vive no Rio de Janeiro há 18 anos. Na fotografia, atua, efetivamente, há 5 anos, realizando trabalhos diversos e experimentos autorais da poética visual. Born in 1965 in the district of Tebas, in Leopoldina/MG. She lives in Rio de Janeiro for 18 years. In photography, she has been working effectively for 5 years, performing various works and experiments in visual poetics.

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Autorretratro - Parti-Cularidades

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COELHO Edite

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Diálogos íntimos e discretos

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CORRÊA Vinni

artistavisua

artista visual visual artist

Vinni CORRÊA Poeta, artista visual, erotólogo. É pós-graduado em psicanálise e especialista em comunicação. Publicou quatro livros de poesia: “Coma de 4” (2012), “Literatura de Bordel” (2015), “Lunch Box” (2015) e “Sexo a Três” (2018). Criou em 2012 a Fresta Literária – sarrau de poesia erótica. É carioca desde 1981 mas vive há um an em São Paulo. É o idealizador e organizador do projeto Obscenográfica. Poet, visual artist, erotologist. He is a postgraduate in psychoanalysis and a communications specialist. He published four poetry books: “Coma de 4” (2012), “Literatura de Bordel” (2015), “Lunch Box” (2015), and “Sexo a Três” (2018). He created in 2012 “Fresta Literária - sarrau de poesia erótica”, an artistic event about eroticism. He is Carioca since 1981 but has lived in São Paulo for a year. He is the founder and organizer of the Obscenografica project.

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Ceci n’est pas une chatte

Ce n’est pas une banane collée au mur


Homemlets 59


CORRĂŠA Vinni

We have one of your size

Anticomaimpulsiva I - Ad Liquida White Friday

Orgasmpics: feed the fire

Leite de rosas 60


Social media

Falocracia (Phallocracy) - make le penis great again 61


CORRĂŠA Vinni

Goddess’s sacred cycle for harvesting mushroom tea from the collective garden on a patchwork masturbation

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Letras trepadas


equeerparação

Sexo verbal

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woman through the ages

trepar debaixo de um lençol de algodão egípcio me deixa mais Cleópatra

screwing under egyptian cotton makes me more Cleopatra.

me prostrar sobre um altar e me oferecer a beijos gregos me deixa mais Helena

prostrating myself on an altar and offering myself to the Greek kiss makes me more Helen.

mas é ao queimar meu corpo em um ménage francês que fico mais Joana

But burning my body in a French ménage is what makes me more Joan.

Vinni Corrêa

butt fly

Vinni Corrêa

mulher de épocas

mulher de épocas

comunicação

communication

ela é de ralações púbicas eu sou de jorralismo juntamos com um rabalista e com uma pubiscitária tá faltando um fodógrafo

she works in pubic relations I, in joynalism joined the group a tough old broadcaster and an adpervertising now we need a fucktographer

livre arbítrio

free will

um beijo não é roubado quando quem cala consente amor bandido não é pecado se roubo um cabaço inocente

a kiss is not embezzled when one’s silence implies consent in criminal love’s no sin committed if I steal a cherry innocent

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

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rapidinhas (III)

quickie (III)

quando o coração sofre mais que o cu é sinal de que o amor não foi lubrificado o bastante

when the heart suffers more than the ass, that means love was not lubricated enough

tem culpa eu

Assholy

cu é cego, não tem culpa. não tem deuses, não tem templos. não tem razão, não tem dúvida. mas quem dá o seu de exemplo?

ass is blind, it has no clout. no gods, no temples. no awareness, no doubt. but who offers theirs to set an example?

olhos

eyes

onde os olhos são azuis o buraco também é negro

where the eyes are blue the hole is also black

siririca digital

digital finger-job

buceta em tela touch screen

snatch in touch screen

cardápio sauna gay

gay sauna a la carte

no menu men nu a nus o ânus

a menu men nus me nude anus

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

Vinni Corrêa

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D’BARROS Tchello

artistavisua

Tchello D’BARROS Tchello d’Barros é artista multimídia, editor e curador. Sua obra transita pelas linguagens das Artes Visuais, Literatura e Cinema. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Tchello d’Barros is a multimedia artist, publisher and curator. His work goes through the languages of Visual Arts, Literature and Cinema. He lives and works in Rio de Janeiro.

artista visual visual artist

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10 Pubis 67


EL KHOURI Diego

artista pl

artista plástico painter

Diego EL KHOURI Artista plástico, cartunista, caricaturista, desenhista e poeta, Diego El Khouri nasceu Orizona/GO, em 1986. Participou de diversas exposições no Brasil e no exterior. Também colaborou com revistas e fanzines alternativos como a Gatos & Alfaces, do escritor Luiz Carlos Barata Cichetto, e Reboco Caído. Diego El Khouri was born in Orizona / GO in 1986. He has participated in several exhibitions in Brazil and abroad. He also collaborated with alternative magazines and fanzines like Gatos & Alfaces, by writer Luiz Carlos Barata Cichetto, and Reboco Caído.

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Bianca


Fogo

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Mulher nua


EL KHOURI Diego

A maçã infernal do desejo

Antropofagia (da série fetiches)

A música da Morte

Releitura da obra Corpo Inteiro do fotógrafo Leonard Nimoy

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Itensidade na carne (da sĂŠrie fetiches)

Podolatria sĂĄdica (da sĂŠrie fetiches)

Pernas de mulher

Conhece a ti mesmo!

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EL KHOURI Diego

Pornosia

Sem frescura

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Veste, retalho e abrigo

VolĂşpia II

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Tesão, simplesmente tesão...

Tesão, simplesmente tesão... Diego El Khouri

Primeiro é o beijo. A língua enrolada na outra. Depois as mãos unidas acariciando seios, lambuzando corpos, descortinando sexos. Em seguida é a nuca seca pronta pra mordida e a mordida desenhando marcas bem no pescoço, próximo da face. Depois é um tapa, um após o outro. A contração dos músculos; em posição a libido. O fogo e a brasa. O delírio e o orgasmo. A música sendo ditada pelo ritmo dos corpos na cama, os gemidos - as trocas de carinho, a eterna sinfonia dos amantes. O vem e vai de almas e corpos desprendendo do âmago (numa violência quase suicida) um líquido que vomita agonia. Olhos e quadris, prontos para o desejo. Beijo e carinho: o sereno... estrelas, a noite, o luar, o brilho da manhã, o desejo e o orgasmo. Eu e você. Você e eu. Eu e você. Entrelaçados para sempre. Para sempre unidos. Para sempre sozinhos... para sempre... Para sempre com você... eternamente só... (...)

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Vera Fischer

Vera Fischer Diego El Khouri

Vera Fischer sempre será bela mesmo que suas entranhas ardam vinagre e alho com catupiri. Sua beleza é eterna como o vazio. Assim a concebo na minha mente ao lembrar de minha infância quando as escondidas ligava a TV para vê-la pelada na tela. A mais bela das mais belas estilizadas criaturas da mídia. Seios e bunda e elegância. Ser místico de um fascínio imponderável. Com a mão direita no desejo lembro de minha infância horas a fio no banheiro.

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ERVILHA Leandro

artista pl

Leandro ERVILHA Membro da Academia Pan-Americana de Letras e Artes e embaixador da Academia Virtual de Letras, Artes e Cultura da Embaixada da Poesia, Leandro Ervilha, nascido em 1981 no Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta, autor da exposição de pintura erótica Preto no Branco e do livro de poemas Caos Urbano. É idealizador do evento Sarau Poesia & Arte. Member of the Pan American Academy of Letters and Arts and Ambassador of the Virtual Academy of Letters, Arts and Culture of the Poetry Embassy, Leandro Ervilha, born in 1981 in Rio de Janeiro, is a plastic artist and poet, author of the exhibition of erotic painting “Preto no Branco” and the book of poems “Caos Urbano”. He is the founder of Sarau Poesia & Arte (Poetry and Art Slam).

artista plástico painter

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GANZAL A Ani

rafiteira

grafiteira graffiti artist

Ani GANZALA Nascida em Salvador, Bahia, e formada em história, a artista dedica-se ao grafite e à aquarela representando tems relacionados ao feminismo negro e quesões de gênero e LGBT. Annie se intitula como artista ativista afrosapatão. Born in Salvador, Bahia, and graduated in history, the artist is dedicated to graffiti and watercolor, representing themes related to black feminism and gender and LGBT issues. Annie calls herself an afrodyke activist artist.

Sem título

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Eu tenho um lugar no universo

Acaba não mundão

GANZALA Ani

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Sem tĂ­tulo 81


LAERTE

cartunista

cartunista cartoonist

LAERTE

Laerte Coutinho nasceu em 1951, em São Paulo. É uma das mais importantes cartunistas e chargistas do Brasil. Formou-se em comunicação pela Universidade de São Paulo e fundou a “Revista Balão” na década de 70. Colaborou com diversos trabalhos em publicações como “Revista Sibila”, “O Pasquim”, “Veja”, “IstoÉ”, “Folha de São Paulo” e “O Estado de S. Paulo”. Atuou ainda como roteirista para programas televisivos como “TV Pirata” e “Sai de Baixo”. É cofundadora da Associação Brasileira de Transgêneros (ABRAT). Laerte Coutinho was born in 1951, in São Paulo. She is one of the most important cartoonists in Brazil. She graduated in communication from the University of São Paulo and founded the “Revista Balão” in the 70’s. She has collaborated with several works in publications such as “Revista Sibila”, “O Pasquim”, “Veja”, “IstoÉ”, “Folha de São Paulo” and “O Estado de S. Paulo”. She also worked as a screenwriter for TV shows such as “TV Pirata” and “Sai de Baixo”. She is a co-founder of the Brazilian Transgender Association. 82


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LAERTE

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L AT U F F Carlos

cartunista

cartunista cartoonist

Carlos LATUFF Nasceu em 1968, no Rio de Janeiro. É chargista, cartunista e ilustrador desse 1990, e atualmente possui vårios trabalhos feitos em prol da causa palestina e sobre a Primavera à rabe. He was born in 1968, in Rio de Janeiro. He is a cartoonist and illustrator since 1990, and currently has several works done for the Palestinian cause and the Arab Spring.

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Bia

LEITE

convidad

artista plástica painter

Bia LEITE Nascida em Fortaleza em 1990. Bacharel em artes plásticas pela Unb, morou em Brasília de 2010 a 2019. Pesquisa pintura, desenho, gravura, vídeo e cinema. Os temas abordados são a violência, o cotidiano, o afeto da família tlgbqi+. São construídos links entre as partes, já que todo o processo se dá por meio da colagem. A produção em todas as mídias se dá primeiro pela coleção de imagens e depois a realocação delas. Born in Fortaleza in 1990. Bachelor in fine arts at Unb, lived in Brasília from 2010 to 2019. Research painting, drawing, engraving, video and cinema. The topics covered are violence, the daily life, the affection of the tlgbqi+ family. Links are built between the pieces, since the whole process is done through the collage. In all media, production is first performed by the collection of images and then the reallocation of them.

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polanski

dor

pega eu

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LEITE Bia

inacabado2

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my only rope

queer

a linha do horizonte nĂŁo chega como a morte

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inacabado2

casal ori repassem

LEITE Bia

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inacabado

whitebullets

te lamber

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MACEDO Bárbara

ilustradora

ilustradora illustrator

Bárbara MACEDO Artista da imagem. Pesquisa sobre a história, arte e filosofia da América Latina e trabalha con escrita, desenho e performance, sempre norteando seus trabalhos a partir do pensamento decolonial. Também escreve poesias e oferta aulas particulares de desenho em seu ateliê. Criou e organiza o site Desenho Sudaca com o intuito de difundir o pensamento decolonial principalmente através da perspectiva das artes visuais, seja através de seu próprio trabalho ou de pessoas que dialoguem com ele. Image artist. Research in History, Art and Philosophy of Latin America and works with writing, drawing and performance, always guiding her work from decolonial thinking. She also writes poetry and offers private drawing lessons in her studio. She created the Desenho Sudaca website with the intention of spreading the decolonial thinking mainly through the perspective of the visual arts, either through her own work or of people who dialogue with her.

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Rainha de Paus

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MACEDO Eduardo

p o e t

Eduardo MACEDO Bailarino, coreógrafo e poeta. Eduardo Macedo nasceu no Rio de Janeiro, em 1973. É autor do livro “Poemas Quentes”. Participou da antologia “Delícia e Maravilha” e do projeto “Poesia Visual 4”, da Oi Futuro. Dancer, choreographer and poet. Eduardo Macedo was born in Rio de Janeiro in 1973. He is the author of the erotic poetry book “Poemas Quentes”. He participated in the anthology “Delícia e Maravilha” and the “Poesia Visual 4” project of Oi Futuro.

poeta poet

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Ao chegar Gorda sexy

Gorda sexy

Eduardo Macedo

vem cá, minha gordinha deixa eu te fazer carinho te possuir pra depois te comer te abraçar, apertar, espremer assoprar no meio dos teus peitos como naquele filme levantar teu corpo quente com minha brasa mergulhar na tua essência de floral ai meu Deus que loucura! comer essa gorda safada escutar seu gemer bem alto pra depois deitar exausto a seu lado Ao chegar

Eduardo Macedo

todo dia no mesmo horário mesmo vagão lotado esfrego meu pau naquela bunda e ele deixa e ele gosta quando chego em casa bato uma no banheiro e gozo lembrando a sensação do seu corpo e do seu cheiro

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MATTOSO Glauco

escrito

escritor writer

Glauco MATTOSO Poeta, ficcionista, articulista, ensaísta, tradutor e letrista. Nascido Pedro José Ferreira da Silva, em 1951, na cidade de São Paulo, adotou o nome Glauco Mattoso inspirado na doença que o acometeu em sua infância, o glaucoma, bem como por referência ao poeta Gregório de Matos. Nos anos 70 fez parte dos poetas marginais e fez resistência à ditadura militar. Editou o fanzine “Jornal Dobradil”. Colaborou com diversos periódicos, entre eles, “O Pasquim” e “Jornal da Tarde”. É autor de dezenas de livros e foi vencedor do Prêmio Jabuti, junto com Jorge Schwartz, pela tradução de “Fervor de Buenos Aires”, primeiro livro de poesia de Jorge Luis Borges. Poet, fiction writer, writer, essayist, translator and lyricist. Born Pedro José Ferreira da Silva, in 1951, in the city of São Paulo, he adopted the name Glauco Mattoso inspired by the illness that affected him in his childhood, glaucoma, as well as by reference to the poet Gregorio de Matos. In the 70s he was part of the marginal poets and made resistance to the military dictatorship. He has edited the fanzine “Jornal Dobradil”. He collaborated with several periodicals, among them, “O Pasquim” and “Jornal da Tarde”. He is the author of dozens of books and was the winner of the Jabuti Prize, along with Jorge Schwartz, for the translation of “Fervor de Buenos Aires”, Jorge Luis Borges’ first poetry book.

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O hygienico papellão da civilização

Glauco Mattoso

E

m prosa e verso ja insisti no poncto. Si a historia é cyclica e si as hegemonias dictas direitistas e esquerdistas se alternam, ora censurando litteraturas de viez socialista, ora patrulhando as de viez fascista, uma coisa permanesce egualmente reprimida, sejam quaes forem as tendencias dominantes: a pornographia, ou seja, a expressão textual, iconographica ou audiovisual da sexualidade, pouco importando si sophisticada ou vulgarmente considerada. Ora, dahi se deprehende que todo status quo, seja de que lado for, é essencialmente phariseu, uma vez que practica a portas fechadas toda a “putaria” que publicamente condemna e prohibe. Puxando a braza para a minha sardinha, qual seja, a dos fetichistas e sadomasochistas, eu diria que nós, pornographos, somos, ao mesmo tempo, os mais iconoclastas e os mais humanistas, na medida em que não ommittimos nada do que a humanidade seja capaz de practicar. Com a differença de que assumimos o prazer de tudo practicar consensualmente, ao passo que o pharisaismo conservador attribue aos philisteus aquillo que Sansão tambem faria. Para illustrar, ainda que syntheticamente, esta hypocrita convenção civilizatoria, offeresço ao leitor dois excerptos do livro RUDIMENTOS DE SADOMASOCHISMO COMPARADO, exemplificando, à direita e à esquerda, as contradicções do pharisaismo, lembrando que, por mais libertarios que sejamos, alguns tabus seguem quasi intransponiveis, particularmente os de character hygienico. Aos desaccostumados quanto à dialectica mattosiana, ou mesmo quanto à orthographia classica, vale notar que um dos aspectos da minha obra é o “deshumanismo”, no qual a estrategia paradoxal consiste no contraste entre as peores crueldades veridicas (suppostamente ou não) e as melhores hypotheses de opção sexual, onde o SM, simulado ou não, substitue as reaes atrocidades da supposta civilização humana. A opção esthetica e politica pela orthographia etymologica, por sua vez, se explica por si mesma. A comparar e reflectir. /// Em termos de sadomasochismo, a noção de “limite” pactuado pode ultrapassar convenções “civilizadas” de hygiene, nojo ou dignidade humana, levando uma pessoa ao poncto de ter contacto (inclusive oral) com a urina de quem a domina. Mas difficilmente o limite rompe a barreira do asco provocado pelas fezes, seja no mero contacto ou no olfacto (coprophilia), seja no acto extremo da degluttição (coprophagia) -- o que não inhibe o sadico impulso de testar a intransponibilidade dessa barreira. Pelo contrario: para o sadico seria um prazer addicional ver que sua victima faz das tripas coração e leva a cabo o maximo sacrificio de descer abbaixo da linha da repugnancia. Como requincte de tortura, a coprophagia forçada tem sido largamente relatada, no passado e no presente. Relatos e relatorios do typo foram materia-prima para meu conjuncto de sonnettos “Coprophagonia: indigesto cyclo digestivo”. Mas entre os depoimentos que testemunham o rompimento da barreira, contra a vontade da victima, cito,

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para variar, um documento cuja authenticidade foi contestada por ser a fonte um cubano anticastrista chamado Armando Valladares, mas o facto reportado era tão frequente em campos de concentração asiaticos e africanos, que não ha razão para duvidar de sua occorrencia na ilha de Fidel. No livro CONTRA TODA A ESPERANÇA, Valladares narra que “Era o começo dos trabalhos forçados e ainda não tinham tido a idéa de nos mandar trabalhar sem sapatos, mesmo. Pelo menos era o que eu pensava naquella madrugada, quando fomos chamados ao terreo. (...) Mandaram-nos formar filas de dois no fundo. A partir desse instante ja se notava a hostilidade em relação a nós. Começamos a andar na direcção da sahida da prisão; os guardas que nos escoltavam dos dois lados tinham sacado as bayonnetas e agitavam-nas, com gritos e admeaças. Passamos deante das guaritas dos militares, dos edificios da directoria, transpuzemos o alambrado pelo portão principal e viramos à direita, para o leste. A violencia de vez em quando augmentava. A caminhada se tornava difficultosa porque a maioria de nós estava descalça. Espinhos e pedras não nos permittiam um caminhar seguro como o dos guardas que calçavam botas. Naquella zona encontrava-se uma valleta na qual desemboccavam todas as aguas servidas do presidio; (...) La desemboccavam os excrementos de umas oito a nove mil pessoas. O solo era rochoso, com pedras cheias de arestas cortantes (...) Chegamos a uma cerca de arame farpado. Os primeiros que tentaram passar por ella levantando com cuidado os fios de arame, para passar entre elles, appanharam de immediato. Mandaram que saltassem a cerca. Era prohibido passar entre os arames: tinha-se que pullar e cahir do outro lado, de pés descalços sobre as rochas affiadas. (...) Deante de nós estava a valleta de aguas negras e na superficie, fluctuando, ilhotas de excrementos; por cyma delles nuvens de moscas verdes. A fetidez typica de aguas podres, daquelles miasmas asquerosos, enchia o ar. Os cabos, aos empurrões, usando os fuzis, obrigaram-nos a entrar na valleta immunda. Cahi na agua negra, empurrado pelas costas, e não pude evitar que me enchesse a bocca e inundasse os olhos. O pretexto para aquella tortura era que precisavamos limpar o fundo para evitar que o canal entupisse. Em alguns logares a agua battia-nos no peito ou à altura do queixo, dependendo da estatura do preso; o fundo, irregular e com bruscos declives, fazia a gente affundar de repente, quando se pisava em falso. Tinhamos que tirar alguma coisa do fundo, uma pedra, um pouco de lixo, qualquer coisa, nem que fosse um pouco de lodo, e levar à margem, quando então os guardas approveitavam para nos batter com as bayonnetas. Aquelle espectaculo era indescriptivel. Si algum de nós não submergia o sufficiente, era retirado da valleta e surrado. Emquanto estavamos no centro da valleta não era facil então nos attingir com as bayonnetas. Arranjaram umas varas compridas para poderem nos surrar de longe. Outros guardas, desejosos de participar do castigo, attiravam-nos pedras. Mandaram que advançassemos para o trecho mais estreito da valleta. Justamente naquella parte uma camada espessa de excrementos cobria toda a superficie, estancando a agua, que fluia apenas por um pequeno canal. Iamos advançando naquelle mar de merda. Cada vez que mergulhavamos, affastavamos os excrementos com as mãos, para affundar a cabeça. Os cabellos estavam grudados, os ouvidos e os ferimentos dos pés e os das pernas, causados pelas bayonnetas da guarnição, eram como portas abertas para a infecção. Os guardas, embriagados pela morbidez, desfructavam aquella tortura; deleitavam-se ao nos ver affundar a cabeça na agua podre. Não perdiam occasião de espetar com as bayonnetas ou de appoiar o pé na cabeça de um de nós e forçar, a fim de nos obrigar a affundal-a.

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Nada pode ser peor do que isto, pensava eu naquelles instantes angustiosos, emquanto pedia a Deus que me desse forças para resistir. (...) Continuamos por mais umas duas horas enfiados na merda. Voltamos andando. Não me lembro de viagem ou caminhada mais penosa do que essa, nem de regresso mais desejado. Só pensava em tomar um banho e desinfectar os ferimentos; (...) Quando o gruppo de homens alquebrados, arrastando os pés, exhaustos, que formavamos, entrou no terreo, nossos companheiros entoaram a melodia do hymno nacional. (...) A represalia por terem cantado o hymno nacional não se fez esperar: fecharam a agua até o dia seguinte e não pudemos tomar banho.” Exemplifico com o quadro cubano para emphatizar a relativa gradação dum mesmo soffrimento: entre chafurdar no exgotto -- atolado em merda, com agua podre entrando por todos os orificios -- e ser obrigado a comer “apenas” dois ou trez toletes, que “só” sujarão a bocca, o castigado certamente optaria pela segunda hypothese, provando que até mesmo a barreira coprophagica tem suas variaveis condições. Illustro essa relatividade circumstancial com o seguinte caso que vivenciei: ainda nos noventa, logo apoz ter perdido a visão residual, tive opportunidade de massagear os pés dum ex-collega de trabalho, poucos annos mais velho que eu, mas que se apposentara do banco por tempo de serviço e não por invalidez, como foi meu caso. Chamal-o-ei de Zeca Gabeira, por tractar todo mundo como “companheiro”. A coisa começou ao reencontral-o no banco, quando eu ia com o guia pagar comptas: fui perguntado sobre o que andava fazendo para me occupar, e dei trella fallando maravilhas da reflexologia, que Zeca quiz experimentar. Marcamos então um dia para que elle viesse me visitar. Por azar (ou sorte), foi o mesmo dia em que cortaram a agua para um conserto no encanamento de outro apê, e fiquei sem poder dar descarga na privada. Mal chegou, Zeca pediu para usar o banheiro. Expliquei a situação e fallei que ficasse à vontade. Emquanto elle cagava, escutei nitidamente os peidos pipocando como um excappamento desregulado. Alliviado, Zeca sahiu e se accommodou no sofá para que eu lhe relaxasse os pés e demonstrasse meu conhescimento do mappa plantar. No meio da massagem, deixei excappar um peido e, para evitar embaraços, fiz gracejos sobre a flatulencia, brincando que “até peguei gosto em cheirar esse gaz hilariante”, ao que Zeca perdeu qualquer resquicio de pudor e passou a soltar bufa atraz de bufa, rindo a cada reacção facial minha. Approveitei para respirar fundo, sob o pretexto de divertil-o, e com isso appreciei melhor o leve chulé que mal se distinguia, encoberto pelo fedor das ventosidades. Antes de sahir, Zeca ainda pilheriou: “Mas veja la, companheiro! Si você não aguentar um perfuminho mais forte, não levante a tampa da privada antes de dar a descarga, hem?” Typo do adviso dispensavel, pois assim que dispensei o Zeca corri ao banheiro e me adjoelhei deante do vaso antes de erguer a tabua. Acho que os toletes tapavam completamente a agua do fundo, e a fedentina me fez gozar quasi sem necessidade de tocar a bronha. Tenho certeza de que Zeca adivinhou minha phantasia, pois em outra occasião, quando nos encontramos numa churrascada, fez questão de contar varias piadas sobre alguem que comeu merda... Isso demonstra que, mesmo dentro de certos limites, o excremento incrementa o clima numa situação de servidão, ainda que o essencial fique no ar, subentendido. ///

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O prazer voyeurista de “assistir de camarote” a uma sessão de tortura real (ou, simuladamente, a uma scena SM) ja é, ao vivo, sufficientemente orgastico ao publico sadico, mas pode ser reprisado e multiplicado si for registrado photographica ou cinematographicamente. Mais que mil palavras (ou palavrões), a imagem gravada falla por si e documenta agonias de uns e orgasmos de outros -- instantes que, si não podem ser perpetuados, servem ao menos para readvivar a memoria e para despertar o instincto da crueldade em novos adeptos. Pittoresco exemplo desse deleite visual está no costume nazista de photographar e filmar supplicios e massacres de prisioneiros nos campos de concentração. Era commum, nessas occasiões, a presença de adolescentes engajados na Juventude Hitlerista, que, a convite dos guardas, vinham se divertir vendo a morte alheia, provocada e prolongada com todos os requinctes dignos de figurar num album de recordações. Um hespanhol antifranquista, deportado para a Allemanha e internado no campo de Mauthausen, relata nestes termos uma grottesca scena de execução collectiva flagrada pelas cameras dos risonhos moleques: “As auctoridades SS procuravam evitar a todo custo que o typho chegasse a dominar, com todas as suas consequencias, mas a incompetencia dos chefes e a insufficiencia dos serviços de hygiene tornavam muito precario o combatte à epidemia. A situação tornara-se insustentavel; muitos eram os que vinham cahindo sob o peso mortal da malefica peste. O medico-chefe e o inquisidor Hans Grupper, commandante-geral, entenderam-se para mandar realizar a desinfecção total do campo. Todos os prisioneiros foram mettidos numa grande fossa rectangular que os SS utilizavam normalmente como garagem. Por alli passaram, successivamente, milhares de corpos cadavericos. Os prisioneiros eram despidos e entravam na fossa completamente nus. Isto constituiria mais uma experiencia, visando a concretizar novo methodo de exterminio. O espectaculo, sem precedentes nos annaes da historia dos crimes nazistas, enchia de horror todos os que presenciavam mais essa prova. Angustiados, todos se dispunham a esperar a morte. A fossa achava-se rodeada por muralha de pedra de cerca de 3 metros de altura, situada perto da entrada do campo. A operação foi feita de madrugada; os infelizes, tocados como rebanhos de carneiros à hora de sahir do curral, foram despejados naquella fossa. As sentinellas tinham ordens de estabelescer linhas cruzadas de tiro, collocando metralhadoras em todos os canthos, apponctadas em direcção à fossa. Em summa, todas as medidas de segurança haviam sido tomadas. (...) Às seis da manhan, ainda fazia um frio intenso na maldicta fossa. Era mais um tormento a fustigar os corpos eskeleticos dos condemnados. (...) As horas se faziam interminaveis e durante todo esse tempo os prisioneiros tiveram de supportar o duro açoite do frio. (...) Por fim, o sol começou a brilhar no horizonte, e seus raios vieram mitigar o soffrimento daquelles homens, mas à medida que subia nas alturas celestes, seu calor tornou-se muito intenso, transformando-se em um novo tormento. As mumias alli admontoadas não tinham como defender-se dos raios solares que as torravam sem piedade. O contraste entre o frio que accabavam de supportar e o calor desta chuva de fogo, accabava por enlouquescel-os. Os desmaios e as diarrhéas iniciaram seus estragos naquellas victimas. O quadro era de desespero e de horror; os infelizes se moviam e removiam, na van tentativa de excappar às garras da morte. A agonia se appoderou desses desgraçados impedidos de defender-se. A vileza dos componentes dos SS se revelou mais uma vez. Installados no alto da muralha, convidavam al-

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guns jovens nazistas, tambem uniformizados, a presenciar aquelle quadro infame, onde os martyres desfallesciam sobre seus proprios excrementos, vencidos pelo calor que os devorava. Os nazistas se divertiam, tirando photographias. O sarcasmo parescia não ter limites; divertiam-se contemplando os agonizantes que estrebuchavam em sua hora derradeira, naquella fossa immunda. Os barbaros componentes das forças SS inspiraram-se nesse horror, descobrindo, assim, novo methodo de exterminio, que incorporariam ao seu catalogo de processos de eliminação. (...) Naquelle dia, o intenso frio das primeiras horas da manhan, seguido pelo insupportavel calor mais tarde, provocou maior numero de mortos do que um dia de trabalho ‘normal’ nos diversos commandos. O martyrio parescia não ter fim e se prolongou até o pôr-do-sol. (...) Os condemnados, exmagados pelo intenso calor, a fome e a sede, dirigiam seus olhares de odio aos carrascos. Entre estes havia delinquentes communs, verdadeiros monstros, gente do ‘bas-fond’; alguns exhibiam suas tattuagens, monogrammas, symbolos, serpentes pintadas ao redor do tronco. Formavam uma das imagens mais sinistras do campo, somente comparavel à densa fumaça que sahia das chaminés dos fornos crematorios.” Isso demonstra que a actual demanda por “snuff movies” (filmes detalhando torturas e execuções barbaras) não é la tão recente, e que não basta presenciar uma agonia: é preciso exhibir uma prova de que o privilegiado espectador esteve la, curtindo a coisa ao vivo e em cores. Illustro essa mania de “archivar” o soffrimento alheio com o seguinte caso que vivenciei: depois que o sadico Xisto me levou a seu clube para servir de massagista aos frequentadores, fui contactado por outro dominador (que chamarei de Zebedeu), interessado em ver um cego posando para sua camera profissional. Por telephone, Zebedeu me explicava que eu seria clicado nas situações mais comicas e vergonhosas. Combinado que eu me prestaria ao papel de palhaço esculachado, veiu elle me buscar e levou-me a seu estudio. A especialidade de Zebedeu era capturar, em close, cada momento e cada movimento dum rosto humano deante do excremento humano -- instantaneos que ganhariam maior valor caso o rosto fosse dum cego, com as reacções de repulsa e nausea accentuadas pelo “panico” das sensações olfactivas e gustativas, allarmadas na falta do choque visual deante do troço recemcagado. Despido e manietado, fui collocado de cara para o prato contendo um tolete em forma de kibbe e, passo a passo, ia sendo “dirigido” emquanto escutava os disparos da machina. Photogramma por photogramma, minha bocca foi vista, crispada, approximando-se do cagalhão, abrindo-se para mordel-o, projectando a lingua para erguel-o na poncta, arreganhando os dentes que prendiam um naco semimastigado, até que, no final da sequencia, o prato era lambido para não restar siquer o caldo que excorria do cocô. O facto de que aquellas fezes paresciam feitas duma mixtura doce (contendo provavelmente chocolate e caramello) em nada prejudicaria a impressão de quem fosse ver, mais tarde, as photos, até porque minha expressão de repugnancia era authentica, desconfiado que fiquei si no meio da mixtura haveria qualquer dosagem de verdadeiros excrementos. Quanto a isso, Zebedeu jamais me deu garantias... A conclusão de que, nesse typo de registro, a verosimilhança falla mais alto que a propria veracidade, vem corroborar o interesse voyeurístico dessa modalidade de arte “expressionista” -- ja que a expressão facial do cego parescia mais que convincente. Mais recentemente, compuz, a proposito da cobaya dum photographo, o cyclo “Sobre um ensaio sobre a cegueira”, reproduzido ainda no poema heroicomico “Glaucomatopéa”.

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MORA Renzo

Roteirist

Renzo MORA Renzo Mora é escritor, roteirista e crítico de cinema, além de colaborador de revistas como “Playboy”, “Vip” e “Cult”. Publicou os livros “Cinema Falado”, “Sinatra – O Homem e a Música”, “Fica Frio – Uma Breve História do Cool” e “Frank, Dean & Sammy: 3 homens e nenhum segredo”. Nasceu em São Paulo, em 1962. Renzo Mora is a writer, screenwriter and film critic, as well as collaborator of magazines like “Playboy”, “Vip” and “Cult”. He has published the books “Cinema Falado”, “Sinatra – O Homem e a Música”, “Fica Frio – Uma Breve História do Cool”, and “Frank, Dean & Sammy: 3 homens e nenhum segredo”. He was born in São Paulo in 1962.

roteirista screenwriter

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Razões para ter orgulho de ser heterossexual Vamos levar em consideração o seguinte: 1 – Os gays se divertem muito mais que os hetéros 2 – Suas festas são muito melhores que as dos hetéros 3 – As amigas mais gostosas dos gays tiram a roupa na frente deles. Algumas inclusive consideram um raro (e põe raro nisso) privilégio “convertê-los” 4 – As músicas deles são muito melhores que as dos hetéros 5 – Os artistas do time deles incluem Leonardo da Vinci, Michelangelo, Cole Porter, Oscar Wilde, Truman Capote… Os nossos incluem cantores de sertanejo universitário e funkeiros 6 – Eles têm uma vida sexual muito mais ativa e diversificada que a dos héteros 7 – Eles são trendsetters por excelência. Tudo que é moda, eles descobriram antes e legitimaram para os hetéros 8 – Eles passam dos 40 anos sem a barriga de chopp abjeta dos hetéros 9 – Eles irritam uma gentalha desprezível como Malafaia, Feliciano, Eduardo Cunha, etc. 10 – Eles se vestem espetacularmente bem. Você usa ternos cinzas da Garbo, daqueles que vêm com dois pares de calça acompanhando o paletó.

Você está condenado a uma vida sem cor, sem entretenimento, sem diversão e alinhado com o pior que a religião tem a oferecer. Existe opção? Não. Como no filme de Woody Allen, “A Rosa Púrpura do Cairo”, em dado momento dizem ao personagem que saltou das telas “Não dá para aprender a ser real. É como querer aprender a ser anão” Você não pode aprender a ser gay. É uma armadilha aborrecida que a evolução colocou em seu caminho para assegurar a perpetuação da espécie. Abrir mão de todas as vantagens de ser gay – e tudo isso sabendo que a maior parte das mulheres interessantes (a única parte boa da heterossexualidade) vai passar a vida te ignorando – é um gesto de coragem e de estoicismo (a doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 a.C.), e desenvolvida por várias gerações de filósofos, que se caracteriza por uma ética que prega a extirpação das paixões e a aceitação resignada do destino). Ou seja, você leva uma vidinha chata pra cacete e os gays – ao contrário das Testemunhas de Jeová e dos vendedores de Herbalife – não estão recrutando e nem cogitam te aceitar no time deles.

11 – A parada deles é um acontecimento. A nossa é um desfilezinho ridículo e ainda cercado de crentes por todos os lados.

Ainda assim, vá às paradas do orgulho heterossexual. Elas são patéticas, mas é melhor que rever pela 15ª. vez as reprises dos filmes do Chuck Norris.

Se, diante de tudo isso, você permanece heterossexual, tenha orgulho.

E, cá entre nós, tua reação diante do Chuck Norris sem camisa já está dando pinta.

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Precisamos falar sobre Davi Sereio

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sereismo é uma nova tendência e está aquecendo a economia, dando milhões de empregos no desanimado mercado brasileiro – não apenas para os sereios e sereias, mas também para aqueles que vivem de ceder o rabo para os mesmos (e, por ceder o rabo, entenda-se confeccionar a cobiçada peça).

Davi Sereio enfrenta o preconceito de duas classes que deveríamos julgar extintas face às primeiras luzes do século XXI: O das pessoas que acreditam em diferenças essenciais de gênero e o das pessoas que – creiam, elas ainda existem – não acreditam em sereias.

Esta tendência irreversível enfrenta, entretanto, um velho problema, que julgávamos ultrapassado. O preconceito de gênero. É o drama enfrentado por Davi Moreira, de 22 anos, que ganha a vida com sua longa cauda e se considera, orgulhoso, o primeiro “sereio” brasileiro.

Quanto a Davi Sereio, a República dos Bananas manifesta nosso mais completo e incondicional apoio. O rabo de sereio é de Davi e ele faz do rabo o uso que quiser. Pode ceder, emprestar e até enfeitar os nossos mares azuis, assim como as baleias, os golfinhos, as trutas e os bilhões de coliformes fecais que adornam a Baía da Guanabara.

É uma questão ultrapassada dizer que há empregos “exclusivos” para homens. Já há mulheres caminhoneiras, mecânicas de automóveis e até mesmo travestis (não me perguntem como eu sei disso – é uma história muito complicada e que pode depor contra minha honra imaculada e masculinidade – MAS É VERDADE, juro. Este aprendizado foi muito traumático e estou orgulhoso de poder compartilhar esta história com nossos milhões de leitores em todo o mundo).

Chega de preconceito. Não jogamos pedras em Louis Armstrong quando ele foi o primeiro homem a pisar na lua (ou tocar jazz, sei lá, uma porra dessas). Por que devemos hostilizar Davi Sereio, que só quer abanar seu vasto rabo contra as ondas do mar? Levy Fidelix se manifestou dizendo que rabo de sereia não se reproduz. Bem, Levy, rabo de pavão também não e nem por isso o consideramos atentatório à moral e aos bons costumes. Chega de negar o sereismo. Chega de negar o rabo.

Há até mesmo mulheres maquiadoras – embora seu desempenho seja, obviamente, uma piada diante do trabalho dos homens que exercem a mesma função.

Chega de hostilizar Davi Sereio, o homem que está abrindo o mercado de trabalho para 50% da população do planeta.

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Entenda a “No Pussy” Generation

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lint Eastwood, que sabe e viu tudo, que encarnou nosso ideal de macho, chamou a geração atual de pussy generation. E não no bom sentido (de apreço por pussy). Uma geração de mariquinhas, isso é o que ele quis dizer. Com bom (ou mau) humor, foi na clássica coluna da Esquire magazine, “O Sentido da Vida”. Ele disse “Não sei quando começou a geração dos mariquinhas. Talvez tenha sido no momento em que as pessoas começaram a se perguntar sobre o sentido da vida”. E isso foi muito antes de pesquisas mostrarem que os Millennials – a geração de pessoas nascidas na década de 1990 – eram o grupo mais sexualmente inativo desde a época da Grande Depressão. Os jovens de hoje não estão tendo tantas relações sexuais quanto os de gerações anteriores, apesar da ampla disponibilidade de aplicativos e sites de namoro e da maior aceitação sobre o sexo antes do casamento, disseram pesquisadores em 2016 – bem depois da declaração de Eastwood.

televisiva, Corrado “Junior” Soprano, foi sacaneado por seus pares mafiosos por se dedicar à prática, que reduziria sua masculinidade por servir às mulheres. E também porque no código da Máfia, que inclui largos períodos cercado de machos na cadeia, havia uma sugestão pairando no ar de que quem serve às moças oralmente pode fazê-lo nos companheiros de cela (Quando a psiquiatra de Tony Soprano, a Doutora Melfi, fala disso em uma sessão com Tony Soprano ele a interrompe com a habitual falta de sensibilidade, mostrando que a médica tocou um nervo sensível). Ou seja, havia um arcabouço ideológico em rejeitar a arte. Era ridículo, mas havia um sentimento de redução de status associado a servir às moças. Passada essa fase burra e preconceituosa, os garotos na faixa dos 20 anos tornam a ignorar a prática, desta vez não por razões ideológicas, mas por preguiça, desapreço por essa parte da anatomia.

“A única outra geração que mostrou uma taxa mais alta de inatividade sexual foi a dos nascidos na década de 1920”, afirma o estudo, realizado por pesquisadores da Universidade Atlântica da Flórida e publicado na revista científica Archives of Sexual Behavior.

Uma garotada que não cai de boca nas moças, que ignora as delícias sensoriais de tocar as garotas como um instrumento, apreciando os sons que gera e todo o universo de delícias envolvido na arte, acaba se desinteressando por todo o complemento.

Como explicar isso? Bem, minha tese é muito diferente da de Eastwood (embora o bom senso recomende confiar mais no veterano cineasta do que em mim):

O veterano ator pornô e herói americano Ron Jeremy disse certa vez que, antes dos remédios para disfunção erétil, sua fórmula infalível para encher de sangue o seu afamado membro era justamente degustar uma moça. E quem entende mais do assunto que o encantador Ron?

Foi quando a garotada se desinteressou pela arte do cunnilingus. Por nojinho, preguiça, por preferir jogar vídeo game, por preferir assistir passivamente a coisa em sites pornô – seja lá por que diabos de razão – a garotada não cai mais de boca nas moças. Houve gente como Elvis Presley que não fazia isso “porque era coisa de gente preta” (a revelação foi feita por ninguém menos que a deliciosa Cybill Shepherd, a gata do seriado “A Gata e o Rato” e estrela de “Taxi Driver”). O velho patriarca da família Soprano, na série

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Talvez a arte do cunnilingus venha a morrer com nossa geração. O futuro do planeta será ainda mais triste do que imaginamos. O mundo não terminará nem com um bang nem com um gemido, como já foi dito. Terminará justamente com a falta de gemidos.


M O T TA Waldo

p o e t

poeta poet

Waldo MOTTA Nasceu em Coroa da Onça, no município de São Mateus/ES, em 1959. Poeta, ator, tradutor, ensaísta, numerólogo, entre outras coisas. Fez parte do movimento marginal brasileiro entre as décadas de 80 e 90. Sua obra poética, a partir do livro Bundo, mescla erotismo e misticismo envolvendo assuntos esotéricos, cabalísticos, de numerologia e religiões indígenas e africanas. Publicou diversos livros, entre eles: “Os Anjos Proscritos e Outros Poemas”, “Eis o Homem”, “Poiezen”, “Bundo e Outros Poemas”, “Transpaixão” e “Terra Sem Mal”. Waldo Motta was born in Coroa da Onça, in the city of São Mateus/ES, in 1959. Poet, actor, translator, essayist, numerologist, among other things. He was part of the Brazilian Marginal movement between the 80s and 90s. His poetic work mixes eroticism and mysticism involving esoteric, cabalistic, numerological, and indigenous and African religions. He published several books, among them: “Os Anjos Proscritos e Outros Poemas”, “Eis O Homem”, “Poiezen”, “Bundo e Outros Poemas”, “Transpaixão” and “Terra Sem Mal”.

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Pegação sagrada

Pegação sagrada Waldo Motta

Põe tua mão aqui debaixo de minha coxa, onde Abrahão pediu que um servo o tocasse, em nome do Deus dos deuses, Senhor dos Céus e da Terra, onde o anjo do Senhor tocou o relutante Jacob, que assim se transformou em Israel, que lembrou da sagrada aliança em seu leito de morte, onde pediu ao mais amado filho que o tocasse no mesmo lugar sagrado e consagrado.

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Os sexos de Deus Waldo Motta

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ive uma revelação, certa vez, que até hoje não consigo discernir se foi em estado de sono ou vigília. Nela, ouvi uma voz me dizer que “Deus é dois que é um”. Em seguida, olhei para o chão, e nele vi escritas três letras do alfabeto hebraico, YHW, que estão presentes no famigerado nome de Deus, YHWH, onde a letra H aparece duplicada. Qual a razão de esta letra aparecer duplicada no nome dito sagrado? É o que tentaremos descobrir nos parágrafos seguintes. Uma das primeiras coisas a serem lembradas é que, em hebraico, palavras com a letra H no final costumam ser substantivos femininos. É lugar comum entre autores que tratam de temas cabalistas a ideia de que o nome divino de 4 letras simboliza a união do homem ou falo ( Y ) com a mulher (HWH), responsável pela geração dos seres, isto é, a vida. Faz sentido, pois o nome de Deus, YHWH, está associado ao verbo ser e estar, e o próprio Deus teria dito de si: eu sou o que é, o que era, o que será. Por outro lado, acredito que o nome divino não represente apenas o casal homem e mulher e o sexo convencional, obrigatório, com fins reprodutivos. Penso que inclui também homossexuais, homens e mulheres, erotismo, prazer, alegria. Ademais, a letra H duplicada, pode indicar dois seres iguais (H, H), do mesmo sexo, homossexuais, machos ou fêmeas, ligados e unidos pelo amor. A letra H vale 5, e simboliza erotismo, prazer, alegria, entre outras coisas. Em longos anos de prática de numerologia, fiz mapas para vários amigos e amigas homossexuais. E sempre encontrei os números 4 e 8 em lugares relevantes nesses mapas. Para mim, o fato de o nome divino ter 4 letras e somar 26, que reduz a 8, diz muito sobre o sexo dos anjos... Anjo tem sexo? Ahahahaha! Voltemos à revelação. Eu só vi três letras, YHW, faltava uma, a letra final, H, que designa substantivos femininos. Tema para muita pesquisa e conjetura. As letras que vi somam 21. Escarafunchando o mistério, recorro ao Tarô, cujas 22 cartas principais, arcanos maiores, estão relacionadas às 22 letras do alfabeto hebraico. E a carta 21, chamada o Mundo, simboliza uma totalidade, uma realização plena, uma obra completa, sendo representada por um ser andrógino. Ora, no próprio nome YHWH é possível encontrar sugestões homoeróticas, masculinas e femininas, conforme o meu método hermenêutico. Considerando o simbolismo das letras, assim podemos ler o nome divino: Y = divindade H = homem ou mulher

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W = união, ligação, amor H = homem ou mulher Em outras palavras: Deus, divindade ( Y ) = homem + mulher (H+H); homem+homem (H+H); mulher+mulher (H+H). Ou seja: a união, o amor (W) entre dois iguais (H+H) geram a Divindade ( Y ). Enfim, o amor! Ai, que delícia! Tem mais: a letra Y, ou seja, a Divindade, também simboliza o dedo indicador e o falo. E a leitura do nome sagrado pode ser: o falo ou dedo ( Y ) promove a união, ligação (W) entre H (homem ou mulher) e H (homem ou mulher). Em abono à conjetura sobre a bissexualidade de H, lembro que esta letra é artigo masculino e feminino, e o número 5, que a representa, é um dos números andróginos, por ser a soma do 2 feminino com o 3 masculino. Existem muitas leituras para o tetragrama YHWH. Podem me chamar de tendencioso, ou achar que puxo a brasa para a minha sardinha, mas eu prefiro a leitura homoerótica, bissexual, por ser recorrente e coerente com muitos outros estudos cabalísticos que realizei. Para radicalizar, isto é, ir à raiz da questão, tenho em meus arquivos umas trocentas comprovações, digo, pesquisas bíblicas, cabalísticas, que falam de erotismo e prazer anal, massagem, louvor e veneração ao ânus, como o lugar por excelência de tudo que concerne ao sagrado. Tão sério e profundo é o assunto que encontrei em outro nome divino, ELoHYM, e na palavra MaShYaH (Messias), em hebraico, recorrendo aos meus próprios métodos cabalísticos, alusões metafóricas e literais ao lugar sagrado – o buzanfã, o fiofó, o oritimbó, sempre ele. Espero que estas breves linhas permitam entender por que razão o sagrado foi definido como algo separado, isolado, proibido, intocável -- exceto por eleitos. O sagrado está vinculado ao osso sacro, cóccix, nádegas e ânus – parte dos animais reservada a Deus nos holocaustos. Entretanto, algumas passagens bíblicas insinuam que alguns queridinhos de Deus têm o privilégio de tocar o lugar sagrado e até desfrutar de suas delícias paradisíacas, obviamente eróticas. Harold Bloom declarou que a Cabala encerra uma teologia erótica, um misticismo sexual, mas eu ouso corrigi-lo e dizer que, no fundo, lá no fundo, trata-se de uma teologia homoerótica ou misticismo homossexual.

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NANI

cartunista

NANI Cartunista, escritor e roteirista. Nasceu em Esmeraldas/ MG, em 1951. Foi redator do programa de humor do Chico Anysio e colaborou com a edição brasileira da “Revista Mad”. Cartoonist, writer and screenwriter. He was born in Esmeraldas/MG in 1951. He was editor of Chico Anysio’s humor program and collaborated with the Brazilian edition of “Mad Magazine”.

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NARAYAN Nalini

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Nalini NARAYAN Escritora indo-brasileira especializada em literatura erótica e formada em letras greco-latinas e filosofia. É modelo e atriz. É conhecida como “Musa da Orgia” por relatar suas aventuras sexuais em seus livros. Indo-Brazilian writer specialized in erotic literature. Studied greco-latin literature and philosophy. She is a model and an actress also. She is known as “Muse of Orgy” for reporting her sexual adventures in her books.

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Noite Paulistana

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deio o natal e suas luzes exageradas. A fumaça no céu de São Paulo não dissipou meus pensamentos a respeito de Narciso, o belo ator. Nós nos conhecemos na putaria organizada pela incestuosa prima dele, Musa, de quem sou amiga. Vibrei com a possibilidade de viver algo que só sabia possível no cinema. O desafio era me despir dos preconceitos e partir para algo novo. Só o tinha visto uma vez, o corpo musculoso me chamara atenção. Combinei com sua prima, então, que iríamos, qualquer dia, a um motel, nós três mais um amigo deles, Lucius, “bem charmoso”, me garantira ela. Não creio que houvesse nada de especial naquele convite. Suspeitei que não fosse a primeira vez que fizessem esse tipo de festinha. Eu saíra havia pouco tempo do Rio de Janeiro, na intenção de escrever, conhecer pessoas e viver experiências diferentes. Pouco antes de o pai morrer, eu já andava insone, perturbada pelas exigências da mãe, a maior das tiranas, maldizendo, fofocando. Nós, os filhos, fantoches girando em torno das amarguras dela. Teatro de marionetes. Os irmãos ficando velhos e eu florescendo a cada dia. Exausta de todo aquele peso de crítica e desilusão que me cercava. Não queria desperdiçar minha vida com picuinhas: quem tem o emprego melhor, a casa mais bem decorada, o casamento mais bege. Tudo ficou confuso dentro de mim. Era um sim e era um não. O sangue fervia, a juventude pulsava, a cabeça explodia em beijos desvairados que eu queria tornar reais. Sonhava com uma vida boa cheia de riso. Festas, brilho, arte, amor. Grandes ideais. E, talvez, toda minha história anterior de confinamento na biblioteca de casa, de amor aos livros, justificasse que eu quisesse agora partir andarilha pelo mundo em busca da minha natureza selvagem. Era preciso contrariar todas as regras, que tudo fosse pro caralho. ***

A

fachada do sobrado de esquina no bairro do Itaim não dava a real dimensão do imóvel. Tanto em termos de espaço como de arquitetura. Narciso herdara do pai o casarão com quartos mais que suficientes para hospedar a prima em suas idas e vindas a São Paulo. Musa, o marido e os dois filhos pequenos moravam no

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interior. Ela gostava de abastecer o closet com as últimas novidades da capital. Nunca entendi minha amizade com ela. Talvez fosse só o desejo de conhecer alguém diferente de mim. Engraçadas aquelas missões à cidade grande somente para causar inveja nas amigas interioranas. Sapatos, roupas, maquiagens, perfumes e muitas joias. Achava todos aqueles excessos divertidos, mas grotescos. Sentada no balanço do pátio interno da casa, esperava Musa sair do banho quando a visão de Narciso, aquele monte de músculos arrastando dois cachorros me surpreendeu. O branco deu um pulo na minha direção, o outro, preto, abanava o rabo. – Não precisa ter medo. São grandes, mas são mansos. Arrisquei um carinho nos bichos antes de Narciso levá-los para passear. Achei engraçado aquele jeito despretensioso de se apresentar. O fortão boa-praça, o sorriso franco igual ao de Musa. Ela me dissera que o primo, ator, passava por um período de depressão pela escolha profissional que fizera. Em todo caso, achei-o bem normal, não aparentava viver nenhuma crise, mas com atores nunca se sabe... Os cachorros eram a cara do dono. Dualidade das máscaras comédia e tragédia? O branco tinha a língua gelatinosa saltada, fuça debochada; o outro, afiados caninos, cara de lobo. – Romeu e Julieta – ele apontou respectivamente para o branco e a preta. Pelo visto, eu me enganei quanto às referências do rapaz, era romântico. O contraponto masculino e feminino, reforçado pelas cores branca e preta revelava muito sobre ele. Parecia um bom sinal, mas talvez não. Por que será que a Musa resolvera nos juntar? Intencionava se livrar do primo meloso empurrando-o para mim? Nenhuma de nós estava a fim de reviver dramas antigos. A proposta era bem outra. Fiquei com receio de me meter com um tipo rancoroso que não aguentasse a afirmação de mulheres em busca de prazer, alguns homens tendem a achar que só eles deveriam estar à procura de sexo. Em todo caso, não custava arriscar... ***


E

nquanto Musa demorava no banheiro, tratei de bisbilhotar uma inusitada cozinha americana. O que chamava atenção eram os inúmeros potes, enormes, verdadeiros tambores coloridos de suplementos vitamínicos. Coerente.

Prosseguindo minha investigação, abri a portinha que me parecia do lavabo. Vassouras, rodos e outros materiais de limpeza caíram com estardalhaço em cima de mais latas de vitaminas. Uma delas se abriu esparramando o conteúdo no piso frio com o bilhete amarelado em letra de forma: “VL dia 3, 14h00.” Sem identificação nem assinatura. Na matemática, o três vírgula catorze, número pi, é irracional e resulta da divisão da circunferência pelo diâmetro do círculo, a forma perfeita. Seria um enigma? Lá estava eu juntando, atrapalhada, tampas e cilindros, quando Musa me chamou, tinha acabado de falar com Lucius: – Está tudo certo para esta noite. – E o seu primo? – Não esquenta. Na hora, ele vai – abriu o guarda-roupa, mostrou-me os vestidos. – O preto ou o amarelo? – Amarelo... radiante, como você. Ela estava sempre pedindo minha opinião sobre roupas. A gente havia se conhecido em uma loja chique da Oscar Freire. Eu entrara por curiosidade. Estava tomando meu cafezinho de cortesia, sendo paparicada por uma gerente perua, quando, tempestiva, Musa saiu da cabine com o esvoaçante vestido. Sentimos uma empatia imediata, elogiei, ela me reconheceu de um antigo anúncio de revista – Sim, sim, fui modelo comercial na adolescência. Ela pediu ajuda com o zíper emperrado, prontamente atendi e, a pretexto de ajeitar a frente do tomara que caia, passeei com meus dedos nos bicos duros dos seios dela que apenas sorriu de leve e ainda me agradeceu. Desde então, eu virara sua consultora informal nos assuntos de moda. Dali, emendamos o papo por outras lojas e cafés da famosa rua. Musa me contou tudo sobre sua vida. Não tinha muitas amigas. O marido, advogado, era amigo da família. Ele a conhecera, a engravidara e a salvara da casa do pai viúvo afundado em dívidas de jogo. Foram morar no interior e, depois do nascimento do segundo

filho, resolveram o problema do tédio que a pequena cidade lhes causara com viagens ao exterior, cruzeiros românticos, shows de rock, rodeios, ginástica e, finalmente, frequentando clubes de swing em São Paulo. ***

M

usa deixara o chuveiro ligado, distraída com Lucius ao telefone e, agora, entrava no banho finalmente. Mas desconfiei que reservara esse momento para se exibir especialmente para mim. Lavou os cabelos com cuidado como nos comerciais de televisão, passeou com o sabonete líquido por todo o corpo. Abriu as pernas languidamente e fez um desenho com a lâmina: pentelhos escuros que contrastavam com os longos cabelos pintados de loiro, imitando cometa, última moda. Continuei imperturbável na minha avaliação de mim mesma no espelho que desembacei. Penteei devagar as sobrancelhas, experimentei cores de maquiagem que combinassem com meu estilo, olhos cheios de lápis preto. Encontrei, na gaveta, entre os pincéis e escovinhas um copo plástico usado pelos filhos dela para fazer bolhinhas de sabão. Ela me disse, debaixo do jato, esfregando a bucha, que pensara em jogar fora o brinquedo, mas resolvera guardá-lo para mim, pois escritores devem ter alma de criança. Não entendi bem, mas deixei o copinho separado em cima da pia. Sem que ela pedisse, eu me ofereci para ajudá-la com o óleo nas costas. – O que aconteceu no Rio? Não esperava essa pergunta. Queria manter o alto-astral, respondi brevemente: – Família enchendo o saco, mãe não me deixando em paz um segundo. Arranjou como plateia uma legião de pessoas, entre vizinhos e parentes, empregados, motorista, governanta, desencavou até os filhos do primeiro casamento, meus irmãos que nem me conheciam, inventou doença, religião, até que, com a morte de papai, não houve saída a não ser aceitar que moro longe. Sou caçula, filha única dele, já viu... Acabei repetindo a história do meu pai que saiu da Índia para ter liberdade, mas casou aqui no Brasil com a pessoa errada. Viveu uma chatice ainda maior. Musa me escutava atenta. Continuei sem saber se estava falando demais. – As mulheres têm uma grande capacidade de aniquilar a possibilidade de vida criativa das outras. Minhas

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irmã, sobrinha, cunhada logo se juntaram na patacoada contra mim. O irmão, alheio, chapado. O pai, fraco, bebendo para aguentar mais um tanto de frustração. Ia ficar perto por que razão? A amargura da mulherada de cara limpa é pior que o inferno, os homens pelo menos tem a decência de se mancarem. Acredito que faça mal viver recebendo críticas e negatividades desse nível. Meus amigos posso encontrar sempre. Enfim, para existir de forma mais interessante, vim para cá. Ela sorriu docemente e me confortou: – Por essas mesmas coisas, saí de Brasília, parte da família é de lá e eu quis proteger meu casamento. Mas tenho a impressão de que de nada adiantou, pois, depois de tanto esforço para ficar com meu marido, não consigo nem curtir. Percebo, hoje, que ele era qualquer um, não era o grande amor... Queria que Lucius fosse meu amante fixo aqui em São Paulo – ela disse melancólica. – E o Narciso não conta? Ah, vai dizer que nunca rolou nada entre vocês? – eu a esfregava com vigor. – Xi... meu marido não pode nem sonhar que já tenha acontecido alguma coisa entre nós. No nosso acordo, cabe um casinho ou outro, nada fixo, nada sério. – O Lucius, então, é um desses casinhos? – Não, não. Esse é homem para casar, você vai ver. Desligou o chuveiro e manteve-se frente a frente comigo como se esperasse que eu continuasse a untá-la. Olhei para a boceta dela, examinando bem de perto, atenta como astrônomo a observar o cosmos pelo telescópio e vi direitinho um cometa. Apelo direto: coma e meta. Dei uma risada sacana. ***

M

usa mostrou algumas fotos antigas de Lucius, olhos amarelos bem vivos e o debochado sorriso de coringa, com Narciso mostrando a língua, na festa de casamento dela. Fiquei pensativa lembrando-me de tudo que deixara no Rio, da possibilidade de uma vida mais enquadrada, do noivo que abandonara, da casa dos pais, da biblioteca de 12 mil livros da família. Mas não era isso que eu queria. Planejei a viagem em segredo, sem polêmicas. Não falava com ninguém da família por medo de ser convencida a ficar. Medo de me contaminar novamente. Aí veio a morte do pai que me impulsionou mais ainda para fora. Ele era o elo final. De todos os presentes que me deu, a herança,

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que foi o último, me possibilitaria dedicação exclusiva à arte. Imóveis comerciais. A mãe jamais entenderia minha opção e já mexera os pauzinhos para tentar me privar de parte do legado. O que ela sequer conseguia vislumbrar é que eu não queria nada. Queria somente paz para escrever. No fundo, quando parti, não tinha a menor esperança de que alguém, um dia, entendesse meus motivos e me amasse do jeito que sou. ***

F

ui apresentada ao tal amigo Lucius em uma balada pré-natalina. De fato, simpatizei com ele, italianão típico, claramente generoso, pagou-nos vários drinques. O cavalheirismo natural dos paulistanos era surpreendente para mim, carioca acostumada a ter que dividir conta. Galanteador, também, esforçou-se para conquistar nossas risadas. Noitada sem mulheres gargalhando não é noitada! – Garotas, aguardem por mim. A área VIP nos espera! Musa, Narciso e eu nos entreolhamos curiosos. Lá se foi Lucius. Minha amiga ainda gritou: – Na área VIP é o dobro! – Estou sem grana, acho que não vai rolar. – Narciso falou, esquivando-se num canto. Continuei quieta, bebericando e observando. Musa tentava dissuadir o primo, que fez menção de ir embora. Eu queria muito acreditar que tinha valido a pena o esforço que fizera ao sair do Rio. Não via muitas chances com o brutamontes bonitão que estava sério, apático. Era um momento em que tudo parecia desconectado e fora do tom, como se tocasse uma valsa triste dentro de mim. Sentia-me só. Por mais que a superação de todas as dificuldades iniciais indicasse a possibilidade de vitória como escritora, naquele instante, foi como se um sopro espectral me acompanhasse, desde a morte do pai, desde o exato momento em que saí de casa na tentativa de abandonar a teoria e provocar novas sensações no meu corpo. Mas era eu quem passaria o natal mais triste do mundo e só. Lucius voltou eufórico, exibia a pulseira que dava acesso à cobiçada área para “pessoas muito importantes”. – Vamos lá, pessoal. Está liberado. Botei nossos nomes na lista. – Como assim? Você pagou para todo mundo? – perguntou Musa com uma risada alcoolizada.


– Nem precisou... Vice-presidente de multinacional tem suas vantagens... – Jura? O Narciso nem me falou nada. Achei que você trabalhasse com o seu pai. Lucius gargalhou ruidosamente. – Mas eu continuo trabalhando com o meu pai – mostrou o elegante cartão de falso vice, a marca d'água em alto relevo, o brasão com letras góticas douradas sobre o fundo preto apresentavam: Lucius Ferdinando II. – Impressionante o que se consegue com um pouco de habilidade e cara de pau. Anotem: eu tenho sempre uma carta na manga! Fomos, então, sem Narciso, que havia sumido. Vai ver não gostou de o amigo ter lhe roubado a cena... Pior para ele, perdeu a melhor parte da noite. Só o prazer de termos invadido o território selecionado, burlando o esquema, fez-nos entrar no clima de vitória quase infantil. Olhar do alto as pessoas se amontoando indefinidas e sem individualidade dava a sensação de que julgávamos e não éramos julgados a menos que nos fizéssemos ver na bancada do mezanino. Entre modelos internacionais, alguns atores famosos, anônimos lindos, Lucius foi tratado como príncipe. Eu e Musa, presumi, éramos suas consortes. Na imaginação, eu via uma fileira de homens nus apresentando as armas indefectivelmente duras, enquanto as belas mulheres se apresentavam como novas possibilidades no jogo da sedução. Havia uma aura de liberdade inexplicável que nos circundava. Reparei que os dentes de minha amiga estavam mais brancos do que nunca, o vestido amarelo realçava a maquiagem em tons de terra. Eu me mantinha fiel ao estilo tomboy, vestida como um menino, colete, a pequena gravata e os cabelos presos no rabo-de-cavalo. De alguma maneira, eu combinava com essas pessoas que conhecia havia pouco tempo. Parecia que todos nós tínhamos algo em comum, mesmo sem ter. Como se existisse uma linguagem sem palavras, uma energia sem definição que nos unia, um esforço coletivo para que a noite fosse escandalosamente bem-sucedida. Lucius e Musa se beijaram. Ele, sorriso abobalhado, entusiasmadíssimo e um tanto afoito, se aproximou de mim e me puxou para junto deles. Não era bem isso que eu esperava para essa noite, mas Narciso se perdera de nós... A proximidade com o casal me animou. É muito ruim se sentir desprezada. Podia não ser uma rejeição a

mim... só que o sumiço do primo me fizera desconfiar que ele fosse apaixonado por Musa. Aquela aparente indiferença, o clima de permissividade talvez escondesse, no fundo, o sentimento não declarado. Fiquei desconfortável com esse pensamento, não me agradava ficar de espectadora da paixão não assumida dos primos. Beijei Lucius. – Você tem cara de colegial – ele sussurrou no meu ouvido. – Você é linda. Musa me falou que entende de moda, é modelo? Musa protestou. – Ei, assim vou ficar com ciúmes! – Não se preocupe. Você continua sendo a personagem principal da história – eu disse com sorriso maroto. Lucius continuou nos abraçando, deslumbrado. Quanto mais próximos ficávamos mais bonito me parecia, as bochechas faziam covinhas, quando sorria, um detalhe que lhe dava pureza quase infantil. O que, pela foto, parecera um sorriso debochado, era, agora, enternecedor. Estar perto dele fazia com que nos sentíssemos melhores, mais femininas. Confesso que, por um momento, cheguei a achá-lo lindo. Dançamos encaixadas, uma em cada perna dele. Ele beijou uma depois a outra, nos apertando contra si e os peitinhos das duas quase se encontravam. Biquinho contra biquinho. Como era alto, abaixou-se um pouco para nos pressionar mais por baixo. No embalo da música, rebolávamos nas pernas dele. – Garotas, desse jeito, vou gozar aqui mesmo. Vocês não bebem nada? Cadê o chato do Narciso? Vou te contar, Musa... o seu primo é um estraga prazer. Eu me empenhando para gente entrar de graça e o cara some? Pedimos um drinque Mix-de-flores. O nome da bebida logo me atraiu por trazer contida a palavra deflorar. O início do turbilhão. Mistura deflores. Revirão que deflora, desvirgina. Se restara alguma parte virgem na minha alma, era imperativo que eu fosse componente ativo da mudança do meu destino. Aquela outra palavra que se aplica perfeitamente ao sentimento que toda nova experiência traz. Lucius foi chamar o garçom. O celular já começava a incomodar na calça. Avistei a bolsa da Musa em cima da mesa reservada para nós. Bolsa de grife. Ela tinha coleção de falsas marcas, compradas na 25 de Março, rua que eu ainda não visitara. Abri a bolsinha e enfiei o aparelho.

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Sem aviso, minha amiga me agarrou por trás. Sacou o anel-porta-veneno, abriu-o e exibiu o comprimido translúcido que dividiu e depositou na minha boca. Dançamos abraçadas. Enquanto a olhava rindo eufórica, eu, no íntimo, me perguntava por que ela estava ali. Eu não tinha ninguém, nem o que preservar. Talvez ela também se sentisse assim... senão, qual a razão para se dividir entre dois mundos tão diversos? O batidão cada vez mais forte na cabeça e, de repente, Musa me deu um beijo na boca sem se importar com quem estava olhando. A galera em torno aplaudiu. Dois rapazes aproximaram-se assobiando. Um deles, um tipo abichalhado, vestido de rosa, microfone na lapela, fazia a coluna social da casa, o outro tirava fotos. Nós nos juntamos a eles. Musa sussurrou no meu ouvido: – Você é a melhor amiga que tenho. Dali a pouco, já me vi com o rapaz que parecia gay e, sem entender bem, percebi que um terceiro de longe nos olhava de cara feia. Continuei na maior inocência enroscada ao pescoço do estranho que, entre gargalhadas, falou que o amigo estava com raiva, pois “Todos querem te comer!” Achei tudo muito engraçado. Ele continuou: – Pediu que eu lhe apresentasse a ele, mas também quero você para mim. Seu modelito arrasou, gata. Súbito, Musa me puxou para junto de si e novamente nos abraçamos numa dança sensual. O auxiliar tirou fotos nossas e sumiu. Ela falou algo ao meu ouvido que não entendi e me lambeu a orelha. Repetiu o que disse com mímica. “Brinca mais” ou “Brincadeira” sei lá. E, já que ela queria brincar, provoquei-a com um esconde-esconde na pista. Um carrossel de olhos e bocas me disputava com Musa, mãos me alisavam no escuro. Todos queriam fazer parte da brincadeira. Corri entre os vãos que se formaram na pequena área VIP. Mulheres derramavam bebida nos vestidos, alguns homens não entendiam, os que entendiam se juntavam ao grupo de perseguidores. Doce volta à infância. Quem estava atrás de quem? Eu, um sol brilhando na noite. Mais estelar que celebridades, atrizes, jogadores de futebol, milionários, filhos de políticos, empresários. Olhando o mundo com olhos de criança, virgem, tudo pela primeira vez. Despertando atração. O ritmo da música psicodélica aumentou até se transformar num barulho contínuo tribal. Gotículas d'água borrifadas de ventiladores no teto junto ao ar-

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-condicionado gelado se assemelhavam a partículas de neve caindo sobre nossas cabeças. A iluminação azulada incidindo sobre a chuva fina, visão idealizada por um diretor sensível. Senti-me imersa em beleza radiante, como se um furioso fluxo emanasse do meu ser criando uma maré arrastando todos em torno. Redemoinho que convertia desejos, toque, tesão para a escritora renovada, inocente, anja da palavra. Formaram um círculo em volta de mim. Parede humana me prendendo. Eu queria dançar. Som cósmico. Abri passagem beijando um a um. No telão, nossa foto: risonhas e entrelaçadas, eu com cara espevitada de menina e ela cheia de curvas, com a legenda “Sereias.” Enxerguei Musa, fui ao encontro dela perto da bola giratória espelhada, me perdi no globo que girava veloz; dos pequenos espelhos em mosaico saiam luzes cortantes. Ela inverteu o jogo, correu em minha direção e me agarrou pelo rabo-de-cavalo. Em seguida, me levou para o banheiro feminino. Acho que, desde o começo da nossa amizade, era esse o momento que ela esperava. ***

T

rancadas na cabine do banheiro eu e Musa nos beijamos, senti nojo do hálito de bebida dela, e não entendi por que me joguei mais ainda naquele beijo. Ela me disse que faria qualquer coisa que eu pedisse, tapei-lhe a boca com força. Aquela promessa de submissão me irritou. Borrei a maquiagem das faces dela que começou a chorar. Segurei-a pelos cabelos, aos poucos, fui descendo com as mãos até o pescoço que simulei estrangular, desci mais, apalpando-lhe por debaixo do vestido, os joelhos, as coxas, a bunda firme. Ela estava sem calcinha. Alisei bastante a pombinha. Encostei rapidamente meus dedos no clitóris mínimo dela. Ela me implorou que continuasse, a respiração ofegante. O barulho do entra e sai no banheiro, a risadinha das mulheres fofocando a excitou mais. Fiel à minha atitude anterior, ordenei que ficasse em silêncio. Mantive o movimento rápido e preciso até perceber que tinha gozado. O corpo inteiro tremeu até relaxar. Chupei o meu dedo para sentir o gosto dela. Chamei-a de putinha e dei-lhe leves tapas no rosto. Ri. – Não gozo com pau – ela disse, acariciando-me os cabelos.


Ri mais ainda. Eu me senti a dona do pedaço. Superior a qualquer homem. Ela saiu cambaleante, se apoiando em mim. Para falar a verdade, achei um pouco exagerada a afirmação, mas também não achei impossível que ela nunca tenha tido orgasmo com o marido. Com papel molhado limpou a maquiagem borrada, tirou as pesadas argolas de ouro. – Queria levar você comigo para o interior... Eu a observava, sentada no divã perto da porta. Os pés inchados do salto alto. – Meu marido vai adorar você. – Pelo jeito, você quer me fazer entrar na sua família de qualquer maneira – eu disse rindo. – Não seria perfeito? – Divide os amantes comigo e agora me oferece até o oficial, não tem medo de um deles se apaixonar? – perguntei num tom de falsa repreensão. – Impossível não se apaixonar, não é? Musa foi tão direta que baixei os olhos. Ela continuou me encarando. Sem saber o que fazer, levantei-me sem graça, fui até ela. Cheguei a tentar formular uma frase do tipo: “Obrigada por me acolher”, mas não falei nada. Assertiva, ela se mostrava decidida a me conquistar. Encostou a testa na minha. Quase nos beijamos quando entrou um grupo animado. Uma das meninas, suadíssima, lavou os pulsos na pia. As outras queriam espaço para ajudá-la. Pressão baixa. Era hora de sair dali. Enfiei o salto. Musa me ajudou com a fivela que não fechava. – Agora, você está bem preparadinha. Eles nem vão ter trabalho, é só meter. Sempre que precisar estou ao seu dispor – disse, enquanto ela ajeitava minha gravatinha. Fomos abraçadas ao encontro dos rapazes. Senti alguém nos observando na escuridão, olhei para os lados, não vi nada. Na área VIP, Lucius reapareceu trazendo Narciso. Eufóricos, só falavam em sair da boate. ***

N

o caminho para nossa celebração particular, paramos na farmácia. Camisinhas. Mais adiante, no posto de gasolina, um inusitado Papai Noel nos vendeu algumas bebidas. Acho que o que me unia a essa galera era o fato de que eu queria desesperadamente

ser jovem para sempre, assim como eles, precisava do lirismo, da irresponsabilidade de uma noite de excessos. No carro, Lucius ao volante, dirigia com displicência. Adrenalina. Beijava Musa, aumentava o som, nos olhava no banco de trás, uivava. Eu e Narciso parecíamos namorados. Protetor, agia como quem seduzia uma criança, abraçava-me forte. Com o vento batendo nos cabelos, eu abria a boca ao máximo para deixar o ar virulento de São Paulo entrar em mim enquanto o motorista me observava pelo retrovisor. Mas eu não me intimidei. Ansiava para que as antigas palavras se desprendessem e, agora, entrasse o novo, cheio de revolta e juventude. Era o meu momento. Como se o foco do mundo e as câmeras estivessem voltados na minha direção. Sentia-me livre e anônima para fazer qualquer coisa. O esforço interno para encarar outra realidade poluída de ruídos que a biblioteca não permitia não seria indício de que a minha paixão pela literatura existia ainda pulsante no espírito? Talvez, eu só buscasse uma renovação das minhas concepções artísticas. Mas se fazia importante negar o antigo, o passado, a vida no Rio. A morte de tudo que eu conhecia era precisamente o que eu desejava. A cerimônia do adeus ao pai me veio com força total. Eu sozinha jogando arroz sobre ele. Cerimônia hindu. E aquele monte de gente que não estava entendendo nada. O corpo cadavérico, gelado, murcho, roxo na minha frente. Os cumprimentos idiotas, pêsames. Frases sem sentido. Cremação. “Tem gente que só aparece quando o pior já aconteceu... só na família encontramos paz, em consonância com ela somos felizes, fora dela só existe o caos!” Os parentes contra mim mais ainda, porque tratei logo de confirmar o que todos já sabiam: estava indo embora. E era como se eu morresse também ali junto ao pai. O melhor de mim morria, a parte mais inocente e infantil. Perdia-me nos beijos exagerados do ator. O brilho dos letreiros luminosos incidindo sobre a face dele formava letras distorcidas. Era um belo homem. O sorriso perfeito, dentes brancos alinhados com uma pequena irregularidade nos caninos davam-lhe um charme a mais. O rosto oval contornado pelo queixo quadrado devia fazer sucesso com as mulheres. – Você é tão frágil, menininha – disse com sua voz grave, pousando com firmeza minha mão sobre sua perna grossa. Passeei de leve com os dedos por cima

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do pau dele. – Não faz assim que eu fico louco, linda – ele me apertou. – Engraçado, acho minha magreza tão feia, você é forte, grande. Aliás, sua prima falou que você é todo grande – rimos juntos. – Nunca acredite, se lhe disserem que tamanho não é documento. Lucius, olhos vermelho-sangue, dirigia loucamente pelas ruas. Não respeitava semáforo, quase entrou na contramão, errou o caminho. Mais adrenalina. No último cruzamento, segundo ele, um dos mais perigosos da cidade (referia-se à violência ou ao perigo no tráfego?), meteu essa: – Morro de medo desse cruzamento. É por isso que passo correndo por aqui! – Deu uma risada exagerada, fechou os olhos e foi a toda velocidade. – Cuidado! Temos que chegar vivos para acontecer alguma coisa! – gritou Musa. – Tem um carro atrás! – Prima, você tem mais pílulas na bolsa? É melhor jogar fora por que se for polícia não dá flagrante. – Tomamos a última, fique tranquilo. Depois da curva mais adiante, o discreto letreiro do motel. Eu e Narciso nos abaixamos no banco de trás. Escondidos? ***

Q

uando chegamos ao local, começamos a festinha com som jazzy, gosto de Lucius. O quarto branco tinha alguns espelhos e, ao fundo, vidros que nos separavam das áreas reservadas da banheira, sauna, chuveiro. Lembrava algo de nave espacial. Sob aquelas luzes intergalácticas, todos nós brilhávamos. Ensaiei deslumbramento, pulei na cama. Lençóis macios. Sabia que jamais esqueceriam aquela imagem: meus longos cabelos de medusa. Ria, ria muito. Lucius e Narciso se entreolharam encantados com minha inocência construída. Musa correu para o banheiro e voltou inteiramente nua. Ela que tinha algumas discretas cicatrizes, fruto de operações plásticas, exibia os fartos seios. E, é claro, senti certo orgulho quando o priminho tirou lentamente a minha roupa e pude exibir com satisfação formas naturais sem artifício. O corpo longo e o pau cogumeludo de Lucius faziam um contraponto visual com a silhueta musculosa e o pau torto de Narciso. A minha amiga, que ainda amamentava o filho caçula, apertava os seios cheios, en-

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quanto nos posicionávamos embaixo do filete que espirrava dos bicos, a cascata abençoada do sagrado leite materno. Sim, aquela era a musa que me alimentaria na jornada voluntária por espaços escuros e paredes de concreto da cidade cinza. Não queria mais a proximidade do mar e da beleza. Ergueria minhas construções sensitivas sob a brisa fétida das margens do Tietê. A promessa da transa lésbica era sensual, mas delicada demais para mim, estava ansiosa para brincar com os meninos. O primo, nervoso, beijou Musa. Lucius aproximou-se de mim. Não sabia bem o que fazer. O corpo dele, apesar de fora de forma, era atraente, masculino, a bunda bem desenhada. Puta tentação roubá-lo da minha amiga. O proibido aumenta a paixão. Eu me perguntava o que buscava nesse território perigoso de promiscuidade. Sempre tem um ponto onde é possível cortar o desejo. Mas ninguém ali tinha a menor intenção de parar. O gozo é a ligação que temos com o indizível, a nossa própria natureza indomada. Eu desejava mais do que tudo me aproximar da minha verdade. Os músculos de Narciso já não impressionavam, o que valia era o único músculo sobre o qual ele não tinha controle, ou pelo menos parecia não ter. A princípio apresentou-se retesado, mas com o desenrolar do processo voltara para o estado de repouso. Enquanto o do amigo crescia mais e mais, apresentando a tora clara, vitoriosa, majestosamente apontada para o alto. Musa vendo o primo se afundar, sugeriu que o chupássemos alternadamente. Ora ela, ora eu. Mas a minha cara de impaciência piorou a situação, então me cedeu Lucius. Queria me agradar, acho. Ele, nem pestanejou, jogou-se por cima de mim. Era muito excitante aquela sensação de tê-lo bem encostado nos meus seios, se esfregando todo, me beijando em adoração. Desceu até embaixo, passou pelo umbigo, ficou pertinho da minha bocetinha, paralisado. A calcinha molhada. Vendo-me arfando, rasgou as laterais da tanguinha, deu uma risada de hiena, meteu com força, de uma vez. Foi tão violento que me senti desvirginada, deflorada. Variou o movimento. Alternou os lados em que a pélvis me pressionava mais. Mas parecia não ter coordenação. Musa e Narciso se engataram num meia-nove, o primo completamente broxa. Perdi a concentração. Como se me tivessem partido ao meio. Duas pessoas em mim. Esforcei-me para me conectar. Eu e eu. O coração batendo forte. A gota de suor pingou dos cabelos de Lucius no meio da minha testa. Ele não parou


como se soubesse que eu estava me transformando em duas, prestes a explodir. Enquanto Musa se esmerava para fazer o pau do primo subir, a música se desenrolava loucamente. Trompetes e gritos estridentes saiam das caixas de som. O primo suava. Por um momento, pareceu-me aterrorizado com a situação. Quanto mais se tornava impossível a foda dos primos, mais excitados eu e Lucius ficamos. Por bênção divina, éramos nós os escolhidos para sermos reverenciados como deuses do sexo. Êxtase. Meu gozo, soco no estômago, bofetada em todo mundo. Confesso que dei uma exagerada no gemido para provocar. Em seguida, era ele quem entrava em frenesi. Cogumelo nuclear. O cara urrou tão alto que Musa olhou para mim chocada. O olhar indignado. Não entendi se tinha ciúmes dele ou de mim. Não me levou de isca? Então, agora, teria que assumir isso até o fim! Mudei de posição, me ofereci de quatro, rebolei mais ainda no pau, ri gostoso na cara dela. Narciso estarrecido, o piu-piu molinho. Lucius não se cansava. Meus cabelos, juba de leoa. Suprema rainha. Estonteante. Louca. Mesmo que a vida real fosse uma merda, ali, eu era a rainha da noite. Não tinha pra ninguém. Os três eram peças de um gigantesco quebra-cabeças particular. O rei, a rainha, a dama de companhia (meu disfarce) e o bobo da corte (o ator). Pinos de boliche que derrubei, fácil, fácil. Eu queria possuir todos eles. ***

E

, agora, era a vez de Narciso que veio sem o menor jeito comigo. Eu estava sem paciência para aquela chupação preliminar, mas ele queria demonstrar que era habilidoso com a língua. Enquanto Musa ficava com o resto do que sobrara do nosso reizinho, sugeri ao primo que mergulhássemos na banheira. Ele topou, carregou-me no colo até a água quente. Tentou erotizar a situação com lambidas na nuca, mas definitivamente não era o seu dia, o pau ficou ereto por uns poucos instantes, só que eu não estava nem aí. Lucius era um macho melhor. O ator se esforçava para criar clima de namoro, uma falsa naturalidade que me irritou. Agarrei-o por trás e toquei uma punhetinha para ele ficar feliz. Narciso me pediu que parasse, pois temia ejaculação precoce. – É que misturei bebida com... outras coisas... para tomar coragem...

Acho que era o cara errado para participar de uma suruba. Muito inseguro, personalidade sensível. Talvez precisasse de intimidade, Romeu trágico. Ficamos abraçados em silêncio. Mantive o corpo relaxado dentro da água quente. Estiquei as pernas, espreguicei-me. Ele me massageou os pés. Tocou dedo por dedo, estalou um a um, ensaboou cuidadoso e em seguida molhou-os na água. A questão da minha vida era como me transformaria mais e mais? Como me enxergaria parecida com a imagem interna que fazia de mim mesma? Meu sonho era tudo que importava. Não descartava criar uma história a dois, mas que fosse diferente das dramáticas histórias clássicas, do começo ao fim e, principalmente, com um cara que enxergasse poesia no sexo, mesmo dentro de um jogo perigoso. A moça presa na biblioteca desmanchava-se dando lugar a uma mulher segura. Vi-me despudoradamente sexy. Flagrei-me completamente apaixonada por mim, respeitando minha vontade, materializando amores sexuais. Alma e corpo, para sempre juntos, como Romeu e Julieta, dentro de mim. Narciso certamente se intimidara com toda essa exposição. Suspeito que se ofenderia se percebesse, em qualquer garota (por mais santinha que fosse), um olhar de desejo. Ele buscava ternura e afeto e o sexo se apresentava como entrave. Por que não era corajoso e admitia de uma vez que não topava o que Musa propôs? Tampouco, para mim, serviria o papel feminino da moça tímida que é forçada a abrir as pernas por um objetivo maior de casamento, só para satisfazer o ego dele. – Que tal um pouco de água fria? Estou com calor... – sugeri. Ele prontamente atendeu meu pedido. Bateu fome, mas tive preguiça só de pensar no que escolher para comer. O brilho difuso das luzes de camarim em torno do espelho da pia, luzes de natal, formava arcos de raios violetas fluorescentes de tonalidades azuladas que lembravam uma névoa de aurora boreal. Sobre a bancada, a toalha com as iniciais VL, logotipo do nome do motel, Via Láctea. ***

Q

uando voltamos para o quarto, senti a maior inveja, Musa e Lucius se divertiam. Ele, bem potente, tomara algum medicamento? Ao contrário, Narciso continuava alheio, com dificuldade de concentração. Beijava

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meus pés numa tentativa desesperada de se excitar aos sons dos ais e uis da prima dando a xota freneticamente.

– Adoro mulher intelectual!

Eu podia imaginar o tamanho do desconforto dele, antes predileto e agora veículo para Musa chegar a Lucius, o melhor amigo. O bilhetinho que encontrei na cozinha denunciava que eles mantinham encontros nesse mesmo motel. Sabia que atuara recentemente em longa-metragem, mas sua atuação tivera pouca repercussão. Imaginei que lhe restaria, pelo menos, a alternativa de se gabar por ser uma estrela desconhecida, mas ainda assim uma estrela:

– Gostei, gostei.

– Vai, me conta, você atuou em um filme, fez papel de policial, não é? Ele estava perdido e derrotado. Tentou novamente um sexo oral sem sucesso, eu já perdera o interesse. Preferi assistir ao desempenho da minha amiga e do seu generoso safadão que a essa altura já estava humilhando o amigo astro... Cansado de meter, o casal perguntou se eu queria me juntar. Musa não demonstrava ciúmes, depois de dar para Lucius (rei supremo da noite), retomara o reinado, voltara ao posto de rainha da fodelância. Nós nos beijamos a três. Narciso se incluiu nesse beijo mágico. ***

A

sacanagem continuou, para espanto do primo que já estava crente que algum lirismo tivesse se instaurado. Musa ficou de quatro. Enfiei-me com o rosto embaixo dela, enquanto Lucius continuava o vaivém. Eu estava numa posição privilegiada, pois via tudo como se enxergasse por uma lupa, um microscópio. O clitóris dela pedia por um toque da minha língua inquieta. Lá fui eu dar uma ajudinha. Encostando e desencostando. Já a ouvia em agonia querendo mais, se ajeitando, tentando ir ao meu encontro. De vez em quando, o saco dele batia balançando na minha testa. – Estou de cara para o cometa! – eu dava petelecos de leve no desenho pubiano dela. – O pau dele é tão grande que pressiona o grelinho para fora... uma delícia. Ele é mesmo homem para casar! Musa gargalhava. – Não falei, amiga? – Musa, essa sua amiga só tem carinha de ninfeta, mas de santa não tem nada – Lucius falou bombeando mais. – Ela é maravilhosa, minha namoradinha. Ela é uma intelectual e ainda por cima carioca! Quero casar com ela também – ela disse.

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– Gostou dela, Lucius, gostou? – Cuidado que vou ficar com ciúmes de novo. Narciso não sabia onde se esconder, andando pelo quarto como se procurasse algo. – Daqui a pouco vou para dentro do rabo do cometa. Eu, Lucius Ferdinando, rei das garotas – ele disse metendo o dedo no cu dela. – Ui! O que vossa majestade pedir é lei! – Então, arrebita mais, gostosinha, arrebita mais. Ela empinou. Eu ainda provoquei, arreganhei a xoxota e chamei: – Vem, Narciso, vem. Nós três, em sintonia, ríamos alto. Narciso, torturado, assistindo, devia estar mais e mais oprimido. Mas a situação dele realmente piorou quando Musa cavalgou encapetada. Com as mãos nas nádegas dela, eu a abria mais, enquanto brincava com a linguinha ali como quem não quer nada. Em clímax, ela me deu uma bocetada com tanta força que me engasguei, fiquei sem ar. Senti que desmaiava. ***

V

ertigem. De repente, lá estava eu com a cara dentro da privada vomitando. Nem olhei para eles que deviam estar assustados com o líquido verde que saía de mim. Bílis. Quase não comera durante o dia, sem falar no comprimido... ***

L

ucius entrou no banheiro, enquanto eu tomava uma chuveirada para me limpar do vômito e melhorar meu estado geral. Febril. Fiquei observando através do vidro, ele ainda estava de meias que tirou com cuidado. Lavou os pés na pia. Mas somente quando limpei o vidro embaçado é que pude ver com horror que num dos pés ele trazia grafada uma aberração. Somente dois dedos que se assemelhavam ao formato de uma pata de bode. Comecei a tremer e acho que meu coração bateu tão forte que Lucius notou meu terror e veio rápido em minha direção. Numa sucessão de imagens entrecortadas, ele apareceu na minha frente. Eu não sabia o que fazer.


Não permiti que encostasse em mim. Evitei olhar diretamente nos olhos dele, pois algo me dizia para não me conectar. Mas estranhamente aquela voz linear, pausada, lenta foi exercendo poder hipnótico sobre mim. – Respire, calma. – Lucius! – Musa chamava-o do quarto. Eu e Lucius nos olhamos e uma atração inevitável nos tomou. Os primos eram uns chatos. Ou talvez não fosse isso. Ele era um completo desconhecido, objeto de desejo da minha amiga e, sem dúvida, tinha talento para o sexo. Grudamos um no outro e nos beijamos com tanta paixão que eu até perdi o ar. Queria dar de novo para ele ali mesmo. Mas não queria contato com aquele pé. As extremidades dele eram muito estranhas, o membro também. – Lucius! – era ela gritando. – Já vou. Agimos rápido. Mergulhamos de novo no dentro-e-fora. Ele me segurava pelos cabelos, completamente animalizado. Eu me entreguei àquela dança como se estivesse sob um encanto sensual. Confesso que um instinto de fêmea que vence a outra me dominou. Além do mais, feriu-me feito lâmina a frase dela que me objetificava sutilmente: “Ela é uma intelectual” e, por isso, meu valor seria evidente para paulistanos sem cultura. “Ela é carioca”, uma ave rara, iguaria de primeira. Cara a cara com ele, que se apoiou na privada, eu me esmerei na ginástica com força nas pernas. “Intelectual também transa.” Deixei o chuveiro ligado para ninguém desconfiar. – Você é tudo de que eu preciso, muito, muito feminina. – Lucius! Era Musa novamente. Ele levantou o quadril devagar, me segurou para que eu o recebesse de pernas abertas, sem esforço. Até que tinha fôlego para quem aparentava estar fora de forma. – Vou trocar de CD! – Pode mudar! – ele respondeu e foi metendo devagar para não fazer barulho. – Assim está machucando? Quer que eu continue? – sussurrou. Fiz que sim com a cabeça. Lucius veio bem jeitoso. Pressionava o pau cabeçudo até deslizar inteiro atingindo-me por dentro. Ponto g. Senti muito prazer. Tinha tanta virilidade que, se quisesse, poderia meter para sangrar (pelo menos, tinha novos matizes sinis-

tros), mas demonstrou querer me satisfazer e isso me excitou ainda mais. Seríamos pegos? Do jeito que sou, até se nos flagrassem seria perdoada por essa pequena traição. Sou convencida? Peguei a mulher, o amante, o primo. Daqui a pouco, rodava o marido, a empregada. – Você é um gostosão, sabia? Gosto do seu punhal. – Tesuda, apertadinha, morna. Vem com esses peitinhos na minha cara, vem. Era perfeitamente audível dali a música que tocava no quarto e lembro que ela mudou a faixa. Os sons passaram a ser indistinguíveis, uma voz monstruosa e aveludada recitava o que me pareceu ser um poema lido de trás para frente. Liturgia de Satã. Lux perpetua. Auteprep xul. Versos monótonos que Lucius me disse serem trechos de uma obra escrita em língua morta. A partir de certo ponto, não tenho na memória o que aconteceu. Só me recordo da agonia daquele êxtase diabólico. Trombeta dos anjos caídos. – Ah... – gemi. Ele me tapou a boca com as mãos. Eu, absorvida naquela onda sem fim, retesada em convulsões vaginais. Apertei-o quase até deixá-lo capado. Não havia espaço dentro de mim para nenhum temor. Tudo para encontrar o gozo secreto, maior de todos. Aquele pênis expandia feito uma bomba no meu útero. – Vem, goza baixinho, linda, assim, gostoso. Quando voltei da letargia, a atmosfera revelava-se absolutamente normal. Lucius sorria para mim se ajeitando, limpando o pau. Olhei em torno, o banheiro, tudo estava no lugar, o lixo com embalagens de camisinhas usadas, papel higiênico, chinelos do motel. Nítida minha imagem no espelho. Eu, dentro do chuveiro. Longos cabelos negros encobrindo os seios. Vênus, a deusa do amor, em pé dentro da concha, surgida das espumas do mar carioca diretamente para a noite paulistana. E ele quem era? O capeta? Suspeitei que eu só estivesse doidona, me acalmei. Ele disse que jamais me faria mal algum e pediu que eu não contasse sobre o pé, tinha vergonha do problema de nascença. ***

N

ovamente de meias, Lucius me carregou no colo até o quarto, não dava sinais daquela anomalia, nem mesmo mancava. Sinalizou que Musa cuidasse de mim. Ela interrompeu o cafuné que fazia nos cabelos de Narciso. Na cama, ela me tomou nos braços como quem nina bebê. Reconheci aqueles estranhos como

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família. Representavam a mãe, o pai, o filho. Eu, o espírito santo? Por um instante, no colo da minha amiga, esqueci os medos, o mundo lá fora, o passado, os problemas, o Rio de Janeiro, a solidão dentro do peito. Procurei de olhos fechados o refúgio entre os seios dela. Ofereceu-me o mamilo

nada saiu como esperávamos, chegamos a frequentar terapia de casal, mas a melhor maneira de a gente se relacionar foi assim. Não queremos destruir a família que construímos, então, vamos levando nossos namoricos sem prejudicar as crianças.

– Vou roubar o leitinho das crianças – eu disse, tentando fazer graça.

– Na realidade, ainda sinto que estou me descobrindo e confesso que te achei uma pessoa interessante – ela respirou fundo. – Eu pago sua passagem, não tem que se preocupar com nada. Depois, você volta quando quiser. A gente anda de bicicleta, faz uns passeios ecológicos, piquenique com as crianças. O que acha?

Suguei o mais forte que pude, como se fosse minha última chance de vida, de ter o alimento mais precioso. Ignorei o gosto estranho. Encolhida como um feto, desconectei-me do que acontecia em torno, dos rapazes. Fui tomada por uma emoção tão intensa que tive vontade de chorar. Musa me envolveu com carinho ainda maior. Não há noite mais acolhedora do que a noite de São Paulo. Narciso e Lucius aninharam-se por trás dela e de mim. No espelho do teto, parecíamos quatro fetos amontoados, desprotegidos. Eu me percebi a mais forte, alimentada pela luz perpétua do conhecimento. Era como se visse as almas deles totalmente famintas e sem energia suficiente para buscar comida. À minha distração com o quadro, fui atacada simultaneamente pelos três. Devorada. A artista oferece-se em sacrifício, os braços abertos, crucificada, mártir da literatura. Línguas me lambe-lambiam. Letras despencavam sobre mim. Lucius, então, tomou a iniciativa: subjugou Musa em um jogo menos ortodoxo, enquanto ela se rendia ao mundo que se lhe abrira entre as minhas pernas. Para Narciso, meus peitinhos de ninfa. ***

Q

uando voltamos à realidade, véspera de natal, Musa tinha que pegar o primeiro voo para o interior. Marido e filhos esperavam por ela, dona-de-casa respeitável. Lucius ia levá-la ao aeroporto. O frio da alta madrugada trouxe-me nostalgia daquelas pessoas. A partir dali, cada um seguiria o seu caminho, mesmo que nos reencontrássemos em nova oportunidade, o charme e a empolgação daquele momento já teriam se dissolvido. Realizamos nossa fantasia. Próximas aventuras estavam por vir. – Apareça lá em casa. Assim, você conhece os pimpolhos, os amores da minha vida – ela abriu o camafeu em forma de coração com a foto dos meninos. – Sabe... o casamento, tanto para mim quanto para meu marido, não correspondeu às nossas expectativas,

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– Sei como é... – falei, esperando que continuasse.

– Parece muito bom. Fizemos uma pausa. Nós nos olhamos em silêncio. Era uma bela mulher. Um tanto aburguesada, mas ainda assim uma bela mulher. Ela parecia inconformada em me perder de vista: – Gosta de cavalos? Ah, esqueço que você é uma garota litorânea... – Gosto de cavalos desde criança. A família criava animais de grande porte, o pai era habilidoso com os números, investiu bem o dinheiro. – Sério? Então, fica combinado, marcamos um passeio a cavalo e não se fala mais nisso. Minha escritora aristocrática, de casta nobre. – Deve ficar linda de cavaleira. Já vejo você montando peladinha. Mal podia acreditar que ainda tinha energia para mandar uma dessa. Ela sorriu ligeiramente e me segurou os ombros. Correspondi com sorriso faceiro, olhar baixo, para, em seguida, encará-la diretamente. Falseada timidez. Estava caindo de charme. Exalando sexo. – Foi muito gostoso – ela disse. Lucius veio nos apressar. Musa manteve-se altiva e confiante. – Boa sorte com o livro. Despedimo-nos com abraço emocionado e um demorado beijo de língua que Lucius reclamou não ter recebido. Aproximei-me do carro. Inclinei-me na janela para falar com ele. – Eu adorava aquela calcinha de rendinha... – Ligue para mim, que eu rasgo todas elas – sussurrou.


Com a permissão de Musa, beijei-o. A situação toda era muito instigante. Ele saltou do veículo, me agarrou num beijão. Caprichou em meter a língua ao máximo. Puxou-me para si com tanta segurança que me entreguei como num bailado, inclinou o corpo sobre o meu até quase alcançarmos o chão. Parecia um menino com seu lindo sorriso de covinhas. Beijei-o mais ainda. Ninguém queria se largar. A essa altura não sabia mais quem estava seduzindo quem. ***

C

onfirmando a visível conexão comigo, após o nosso gozo explosivo e o segredo compartilhado, Lucius fez questão de me deixar o cartão com seu contato verdadeiro dizendo: “Não ligue para a pata do diabo, ligue para mim!” O primo me levou ao sobrado. Pensei que seria uma boa dormir enroscadinha com alguém. Sozinhos, parecíamos íntimos e apaixonados. Faz de conta digno de atores histriônicos?

N

arciso, inconformado, insistiu nas investidas que, educadamente, recusei. Cansada, com sono. Vi que seria impossível dormirmos juntos. Sugeri quartos separados. Ele, porém, inquieto, fazia barulhos pela casa. Precisava provar que era macho. Não ia sossegar. Dei. Comeu mal. O corpo duro o desfavorecia, não tinha gingado. Prejudicado por um desempenho forçado, preocupado com poses que admirava pelo espelhado do armário lateral. Impotente toda vida. – Deve ser o antidepressivo...

Lá fomos de novo ao sexo oral. Veio uma língua de lagarto ao meu encontro, já me fechava temerosa. Eu o orientava para cá e ele ia para lá. Comédia pastelão. Que tormento! – Está doendo desse jeito... Ele se esforçou para melhorar, mas era ruim demais. De lado, assim meio confuso, alcancei um gozozinho burocrático. – Foi bom?

– Vai escrever sobre essa noite? – perguntou. Musa devia tê-lo alertado a respeito da minha intenção de escrever uma odisseia sexual, espiritual e política em São Paulo. – Talvez – eu disse, sem querer me comprometer. – A noite não acabou, ainda temos tempo. Não quero que diga por aí que não dou conta – ele levava isso muito a sério. – Imagine. Por que eu faria isso? Essa noite é nosso segredo, juro – dei-lhe uma piscadela. Nas paredes, inúmeras fotos antigas dele, dentre elas um pôster: capitão do time de futebol americano. Ele se orgulhava do intercâmbio de um ano nos Estados Unidos. Caixas de antidepressivos na mesa de cabeceira. Vasta coleção de DVDs. Observei que ele guardava sobre a estante um crânio de plástico, homenagem ao Hamlet que fizera nos tempos de escola. Segurei o brinquedo pensando na vida. Eu era afinal uma página em branco pronta a ser desenhada por qualquer palavra, sem restrições. No entanto, apesar de ter vivido essa primeira aventura, mais do que nunca, me sentia o próprio príncipe dinamarquês, incompreendido, solitário, triste. Sem laços de verdade com ninguém e o fantasma do pai como única memória. – Então, vamos dormir assim sem mais? Preferia outra coisa... – ele se insinuou. ***

– Foi – falei sem muita convicção. Não pensei que ele fosse acreditar tanto. Imediatamente, acendeu o cigarro fazendo pose para uma câmera inexistente. Intencionava reforçar para mim outra imagem que não a do motel? Agora, não era mais o garoto cuja sensibilidade fora ferida pela zona que eu, Musa e Lucius protagonizamos. Declamou a fala decorada: – Veja bem, querida, acabei de terminar um namoro e não estou em momento bom para me envolver... Como eu mantivesse o semblante impassível, ele continuou seu monólogo esclarecedor. – Não quero que você se machuque esperando mais dessa noite. A princípio achei que era piada. “Moço, nós acabamos de sair de um troca-troca!” Ri, ele se manteve sério. Para que fui elogiar! Minha demagogia tinha de ser punida mesmo... Dei um longo e entediado suspiro. Antecipei que o dia seguinte seria de constrangimento ainda maior com ele, provavelmente, mantendo o personagem. Como eu responderia a isso? Além de louco era mesmo galã, devia ter um séquito de admiradoras adolescentes. E falava agora como astro que tenta se livrar da fã histérica: – Não aconteceu nada entre nós... Na ponta da língua para dizer: “Cresça na cabeça de cima e na de baixo.” Achei melhor ficar quieta. Pior se ele não entendesse e eu tivesse que explicar. E se eu peidasse

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na cara dele? Segurei a vontade de rir. Fingi que dormia. Sem plateia, o show iria acabar. Mas ele ameaçou me sacudir! Não aguentei e dei uma gargalhada. Ele não achou graça. O riso o incomodava, levaria aquela representação até as últimas horas da noite. Não queria ser um perdedor de jeito nenhum. “Sim, Narciso, eu também só olho para mim mesma, somos iguais, a diferença é que de vez em quando sinto curiosidade pelos outros.” – Minha linda, você entendeu que não aconteceu nada entre nós? – Entendi. Só estou tentando dormir um pouco antes de ir embora – aí me controlei, mas não aguentei por muito tempo. – Se vier o Lucius de brinde, eu aceito. A resposta saiu clara, seca, definitiva, sem nenhuma emoção. Com essa minha deixa, calou a boca finalmente. Nem olhei para a cara dele, devia estar ferido de morte... Por que alguns caras têm tanta dificuldade em assumir que são conservadores até o último fio de cabelo e que acham inadmissível tanta liberdade? Ele não podia ficar para trás na roda dos amigos liberados, ainda mais sendo ator. Senão, qual o sentido de se violentar e se forçar a dar uma de bonzão? Fiquei inquieta, desconfortável em estar ali. Talvez ele fosse só um artista frustrado, talvez fosse um bom rapaz, mas não me despertou simpatia para além da beleza física. Esse ideal de comportamento masculino sem senso de humor não me satisfaz. Um saco essa formatação escrota que não se permite nada. Não se permite broxar, nem rir de si mesmo. Demorei a pegar no sono. ***

N

o dia seguinte, acordei exausta, os lábios da vulva inchados de tanto sexo. Narciso também reclamou de dores genitais, o pau ralado... Ralado de quê? Nem comentei para não correr o risco de ridicularizá-lo de novo: é nisso que dá querer meter meia-bomba só para dizer que meteu. Trouxe-me café na cama. Nem sei por quê, fez questão de me envolver nos seus braços, acariciou-me o rosto, os cílios. Ele acordara extremamente afetuoso. Não sei quanto tempo ficamos assim. Cogitei até lhe dar uma segunda chance em homenagem a esse carinho. Mas, só de me lembrar daquelas frases feitas, daquela atuação canastrona de canalha, a vaidade escancarada sem pudor, desanimei. Acho que o ouvi balbuciar que eu ficasse mais um pouco. Eu queria dar o fora dali, não me agradava levar essa foda mal dada adiante, nem aplaudir nem vaiar um pavão bipolar.

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Inventei compromisso urgente, não podia me atrasar e, afinal, estava hospedada na cidade havia pouco tempo, fácil me perder nas ruas de São Paulo. A expressão do rosto dele mudou bruscamente. Provavelmente percebeu que era desculpa. Ator rápido, passou do trágico à máscara descontraída. Esboçou um leve “que pena”. Continuou me tratando bem. Mas o fato é que eu tinha certeza de que estava anulada qualquer possibilidade de romance. ***

Q

uando estava indo embora, em meio à algazarra dos cachorros, avistei sobre o balanço do pátio interno o copinho dos meninos, cheio de sabão, com o bilhete de Musa para mim: “Lembre-se de ser criança!” Aviso para que eu abandonasse certezas e adquirisse novo olhar. Esquecer a rigidez de qualquer padrão de relacionamento seria ótimo. Procuraria ser mais leve, me aventurar sem esperar resultados. Eu, a escritora. Eu, a página em branco. Fazer amigos seria minha maior conquista. E não é a amizade o mais belo tipo de amor? Pessoas por quem optei por estar junto e não imposição de laços de sangue, esse o tesouro que eu buscaria. Procuraria observar os outros sem julgamentos. E nem o pé esquerdo de Lucius me chocaria. Ao contrário, encararia os aparentes defeitos como oportunidades de superações pessoais. O natal seria a comemoração do meu renascimento. Olhei o céu de um azul brilhante pela abertura no telhado. Nenhuma palavra má, nenhuma maldição em mim. Nem mesmo o eco das vozes dos irmãos me acusando sob o comando da mãe. Uma grande bobagem, tudo uma grande bobagem encenada por eles. O passado não me impediria de viver a vida cercada de alegria e luz. Eu, a artista, a heroína, a mente combativa que semeia amor. Sabia que estava no meu caminho, sem olhar para trás, sem dar bola para rótulos, clichês, estigmas que tentassem grudar em mim. O vento fraco levou o bilhete para perto dos amores-perfeitos despontando no canto com pedrinhas brancas e uma fonte. A comida dos cachorros separada em lados opostos, mas, apesar desse cuidado do dono, os bichos se divertiam roubando a comida um do outro. O balanço vazio. Para que me arriscar no engarrafamento da manhã? Esperaria Narciso e nos tornaríamos velhos-bons-amigos. Sentei-me na tábua, dei o impulso e, sem pressa, soprei algumas bolhinhas que se espalharam no ar com o balançar do brinquedo.


NUS Passos

grafiteira

grafiteira graffiti artist

NUS Passos

Assinatura da grafiteira, rabisqueira e ilustradora paranaense Vanusa Passos. Atualmente vive em Campinas/SP. Signature of the graffiti artist, scribbler and illustrator from Parana, Vanusa Passos. Currently lives in Campinas/ SP.

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NUS Passos

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ROCHA Fêre

p o e t

Fêre ROCHA Fêre Rocha nasceu em 1984, em Lages/SC. Jornalista, escreve no “Blog da Fêre” e tem parcerias musicais em Floripa e Sampa. “Cotidiano Horizonte” é seu primeiro livro publicado. Ama pássaros, não sabe desenhar. É coeditora da Libertinagem, revista online de arte e literatura. Fêre Rocha was born in 1984, in Lages/SC. Journalist, writes in “Blog da Fêre”. She has musical partnerships in Florianópolis and São Paulo. “Cotidiano Horizonte” is her first published book. She loves birds, she can not draw. She is co-editor of Libertinagem, an online magazine of art and literature.

poeta poet

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Tátil

Fêre Rocha

menina que decidam que passem que legislem menina sobre o que é teu e te forma do até onde, ou quanto, ou com quantos

Vê se se toca! se toca menina vai, e toca e esquece o que disseram outros dos pecados tantos menina vê que bobeira e as outras coisas menina esquece todas as baboseiras

Por isso se toca mulher pra saber bem e melhor e saber onde e como ou quando, talvez quantos.

Quando quiser puder ou na telha der se toca e se de algum não quiser toque afasta, não faça pouco importa menina ouça bem só garanta que você antes faça que você antes saiba e satisfaça que você bem antes encontre

Dieta

Fêre Rocha

toda mastigada de horas compensadas em alimentos que damos são o troco das dentadas porque não gritamos não brincamos nem dançamos não gozamos não gozamos

Mas não permita nem hoje ou adiante que te digam

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ROMIO Jackeline

artista pl

artista plástico painter

Jackeline ROMIO Nascida na periferia de São Paulo, em 1981, Jackeline Romio é doutora e mestre em demografia pela Unicamp e graduada em letras pela USP. Desenvolve pesquisas sobre a violência e a relação entre as opressões raciais, de gênero, sexo e de classe social; escritora de artigos científicos sobre os temas feminicídio, epistemologia feminista, mortalidade feminina, saúde, e indicadores sociais da violência contra as mulheres. Desenvolve a mais de 15 anos ativismo feminista negro pelo fim da violência contra mulheres. Nas artes plásticas se dedica à pintura naif em tela, graffiti e murais, além de participação na promoção da literatura feminista negra e erótica. Born in the ghetto of São Paulo in 1981, Jackeline Romio is a doctor and a master in demography by Unicamp and a graduate in languages and literatures from USP. Develops research on violence and the relationship between racial, gender, sex and social class oppression; writer of scientific articles on feminicide, feminist epistemology, female mortality, health, and social indicators of violence against women. She has been developing for more than 15 years black feminist activism for ending violence against women. In the plastic arts she is dedicated to naive painting on canvas, graffiti and murals, besides participation in the promotion of black and erotic feminist literature.

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ROMIO Priscila

p o e t

Priscila ROMIO Escritora e poeta de São Paulo. É integrante do Coletivo Louva Deusas. Writer and poet from São Paulo. She is a member of the Coletivo Louva Deusas, an artistic feminist group.

poeta poet

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O que vestir hoje?

O que vestir hoje? Priscila Romio

Vesti algumas sensações Entre bocas e vozes roucas Me despi de saudades guardadas E algumas vezes cuspi presenças salgadas Que batiam no céu da minha boca Vesti dedos dentro e fora mim Bem melhores que rolas Vesti o despeito e despi o desejo sentindo o calor do leito Comi muitas rolas: PP, P, M, G e GG E as que voam no céu em bando Eram rolinhas loucas Umas batendo nas outras

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B a c i a Pontilhados

Pontilhados Priscila Romio

Entre as linhas de um amor pontilhado Respirei no curto espaรงo Desloque-me para a margem Com passos pesados Distribui o peso entre os joelhos A cabeรงa levada pela liberdade Afundei na margem Como era leve este amor Em baixo dos pontos deste rio

Bacia

Priscila Romio

Abusava de formas finas e firmes Batia a roupa no alto e sempre gemia Jogava a roupa para cima e estremecia Barriga molhada e sempre fria Dona da casa sempre sorria

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e

Pele

Priscila Romio

Águas vivas me deram o toque da vida em despedida Coloquei entre uma pele adormecida novas feridas

l

Desobedeci minha necessidade de acordar velhas armaduras doloridas As línguas que passavam abrindo vastos vasos de anseios passados Hoje só adormecem com uma boa bebida

e

Descompassos firmes sem muitos espaços repedidos no espaço Desconheço o sabor de um sexo mais amargo quando adormeço no começo Respiro sem desespero já imagino a boca demente em captação de segredos

P

As marcas sem sinais não me acostumo com meios termos deste sexo que nunca mais será voraz

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R UIZ Ricardo

p o e t

poeta poet

Ricardo RUIZ Ricardo Muniz de Ruiz, vulgo Ricardo Ruim. Também conhecido pela alcunha Ricardinho das Candongas. É carioca e rubro-negro. Notório meliante da causa poética, como réu confesso, é admirador do sexo oposto. Não é politicamente correto. Anarquista graças a deus. Capaz de cometer grandes atentados à gramática. Frequentador de festas e frestas. Foi condenado por subverter a sintaxe. Vive na clandestinidade das alcovas e antros de perdição. Se você denunciá-lo às autoridades competentes não vai receber um centavo, pois não vale absolutamente nada! Ricardo Muniz de Ruiz, aka Ricardo “Ruins”. Ricardo Bad. Also known by the nickname Ricardinho das Candongas. He is carioca and “red-and-black fan”. A notorious wrongdoer of the poetic cause, as a confessing defendant he is an adorer of the opposite sex. He isn’t politically correct. Anarchist thanks God. Able to commit major attacks on grammar. Attendee of parties and pastries. Condemned by subverting the syntax: he lives in the clandestinity of the alcoves and dens of doom. If you report him to the competent authorities you will not receive a penny because he is worthless!

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INVERNO.NA.ALMA

INVERNO.NA.ALMA Ricardo Ruiz

“e a branda crica nacarada e lisa em pingos verte alvo licor desfeito” - Manuel du Bocage Nasci em plaga tropical

Leva mais tempo para engrenar. É verdade !

Não tenho resistência ao inverno, mesmo com dois cobertores

Mas, quando passa a quarta marcha chega aos 140 brincando Com a velocidade que o moleque ergue a montanha Ao mirar a menina que passa de bikini

Esse frio polar irrita minha pele Essa invasão glacial me leva a sonhar Com uma boceta rasgada que me deixe de pau duro Rápido como um piscar de olhos Daquelas que não precisam fazer nada para provocar uma ereção

E na textura da malha, permite observar todas as saliencias Que ela mostra sem a menor cerimônia Ah ! Minha Lobinha !

Bela Bailarina

Você sabe que falo de você

Não desprezo vossa beleza nem vossa boceta

Sabe o que sonho com meu falo fazer

Tampouco o charme e o rebolado cativante

Percebe que quero o sabor

É que Meu Pau sabe o que quer, não posso enganá-lo

De todos seus líquidos escorrendo pelos canais

Oferecendo-lhe belas imagens ou paisagens

Com os quais minha língua já se fartou

Ele anseia por aquela expertise matreira, sorrateira Que finge que é beira, mas no fundo, lá no fundo Possui a chama equatorial amazônica

Vaginais, orais e espirituais Com a felicidade do menino que chupa manga Ah ! Manga Rosa ! Ativa. Sativa Mais que canábica, canibal, caniboa. Antropofágica !

Me aquece sem que eu precise fazer absolutamente nada

Me come pelas beiradas

Apenas usufruir o prazer que a ondulação na elevação de meu caralho produz

Lambe o prato devagarzinho

Depois, quando não sobra mais nada Prolongando o uso desavergonhado dos sentidos - “ ... vai com tal ânsia trabalhando

Ele é meio gastinho, é vero !

Que os homens é que vem a ser fodidos. “

Porém, ainda gostoso, guloso, corajoso Vou mais longe, ouso chamá-lo cabacinho Pois nunca viu aquele comprimido azulzinho

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SOATO Camila

convidad

artista plástica painter

Camila SOATO Nascida em Brasília, em 1985, atualmente vive em Planaltina/GO. É formada em artes plásticas. Seu trabalho é permeado por situações bizarras. Expõe trabalhos em galerias de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Foi vencedora do Prêmio PIPA em 2013. Born in Brasília in 1985, she currently lives in Planaltina/ GO. She is graduated in plastic arts. Her work is permeated by bizarre situations. She exhibits works in galleries of Brasília, São Paulo and Rio de Janeiro. She won the PIPA Prize in 2013.

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CrĂŠdito Zipper Galeria

Ocupar e resistir 1

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Imundas e abençoadas 4

Crédito Zipper Galeria

Crédito Zipper Galeria

SOATO Camila

Em terra de bebum álcool em gel é patê

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Crédito Zipper Galeria

Dialogismos mixurucas nº60

Crédito Zipper Galeria

Crédito Zipper Galeria

Courbet sem courbet Homerus brutus 3

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STIGGER Veronica

escritor

escritora writer

Veronica STIGGER Escritora, professora e curadora independente, nasceu em 1973 na cidade de Porto Alegre/RS. Vive em São Paulo desde 2001. Publicou os livros “O Trágico e Outras Comédias”, “Gran Cabaret Demenzial”, “Os Anões”, “Dora e o Sol”, “Massamorda”, “Delírio de Damasco”, “Minha Novela”, “Opisanie Swiata”, “Onde a cabeça bebe água” (em co-autoria com Eduardo Viveiros de Castro), “Nenhum nome é verdade”, “Sul” e o recente “Sombrio ermo turvo”. Foi vencedora em importantes premiações como Prêmio Jabuti, Prêmio Açorianos e Prêmio Machado de Assis. Writer, teacher and independent curator, was born in 1973 in the city of Porto Alegre/RS. She has lived in São Paulo since 2001. She published the books ““O Trágico e Outras Comédias”, “Gran Cabaret Demenzial”, “Os Anões”, “Dora e o Sol”, “Massamorda”, “Delírio de Damasco”, “Minha Novela”, “Opisanie Swiata”, “Onde a cabeça bebe água” (in co-authoring with Eduardo Viveiros de Castro), “Sul”, and the recent “Sombrio ermo turvo”. She won important awards such as the Jabuti Prize, the Açorianos Prize and the Machado de Assis Prize.

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O ex-puto Veronica Stigger

E

star aqui novamente, depois de tanto tempo, me fez lembrar do cheiro forte do chá de hortelã que vinha da cozinha. Este era o anúncio de que havia chegado a hora de nos reunirmos em torno de minha avó para ouvirmos suas histórias enquanto saboreávamos o chá e nos empanturrávamos de bolo de laranja. Mal sentíamos o cheiro da bebida, eu, meus dois irmãos mais novos e nossos primos abandonávamos nossos brinquedos e brincadeiras no quintal e corríamos para sala. Sentávamos nas muitas almofadas coloridas – que, na época, nos pareciam enormes e, hoje, vejo o quão pequenas são –, em volta da grande poltrona estampada com flores do campo em tons amarelo e rosa. Nós éramos os primeiros a chegar na sala. Nossas mães, com as cestas de costura e tricô nas mãos, apareciam em seguida, sempre falando e rindo entre elas. Acomodavam-se nos sofás, atrás das nossas almofadas, e esperavam. Depois que as mães também se instalavam em seus lugares, como se estivesse cumprindo um ritual a governanta Palmira – uma mulher de seus quarenta anos, que ainda guardava um pouco da beleza clássica de sua juventude – saía da cozinha trazendo, na bandeja de prata coberta por um pano de crochê vermelho, o bule, as xícaras, os pratinhos e o bolo delicioso. Dispunha o jogo de chá na mesa de centro, entre as nossas almofadas e o sofá onde estavam nossas mães. Feito isto, Palmira se encostava na parede que separava a sala da cozinha, unia as mãos nas costas e esperava. Esperávamos todos. Recordo do silêncio em que nos achávamos quando nossa avó – uma senhora franzina, distinta, de cabelos brancos e olhar sereno – descia as escadas que levavam aos quartos e tomava seu lugar na poltrona, seu trono. Ajeitava o coque, colocava seus óculos de aro dourado, alisava sua chemisiere e servia-se de chá e bolo. Servíamo-nos todos. Depois do primeiro gole e de uma mordida no doce, nossa avó começava a contar suas histórias. Na verdade, ela contava sempre a mesma. A narrativa começava e se desenrolava invariavelmente do mesmo modo, com as mesmas palavras, as mesmas ênfases, as mesmas pausas, as mesmas incoerências, mas nunca nos cansávamos da história contada, parecia que ficávamos cada vez mais encantados. Era a história de Tarcísio. Dizia minha avó que Tarcísio era um tio-avô seu, irmão de sua avó, nossa tataravó, que vivera há muito tempo, naquela mesma casa onde nos achávamos. Quando as xícaras paravam de bater nos pires, nossa avó principiava seu relato: “Tarcísio era uma pessoa maravilhosa. Sempre vestido com terno, gravata borboleta e cartola, não interessava aonde fosse, estava normalmente de bom humor, ia a missa todo domingo de manhã, ajudava os amigos e conhecidos, dava dinheiro aos pobres e à igreja, recolhia cachorrinhos e gatos feridos da rua, tratava-os, alimentava-os e acabava adotando-os. Era uma alma admirável, conseguia fazer com que aqueles que andavam amargurados fizessem as pazes com a vida. Tarcísio não fumava, não bebia, não jogava. Ele só tinha um vício: gostava de dar o rabo.

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“Ah!” – minha avó suspirava. “Aquela pobre criatura de Deus quase pôs toda sua fortuna a perder por causa de homens, jovens em especial, é claro. Vagava pelas ruas durante a noite atrás de alguém que pudesse lhe satisfazer na cama. Magrinho, de estatura baixa e bigodão, Tarcísio procurava homens que eram o seu oposto: fortes, altos, musculosos. Gostava que lhe botassem cinta-liga e botas de cano alto. Sentia muito prazer quando lhe amarravam na cama, de quatro, e lhe penetravam o cu, primeiro devagarinho, depois acelerado. Ele gemia tão alto que, vez por outra, algum vizinho batia aqui para reclamar. E assim Tarcísio, gentil-homem, foi se viciando no sexo homoerótico. Passavam-se os anos, e Tarcísio torrava cada vez mais seus tostões com rapazotes. Um dia, entretanto, para a felicidade da família, que não agüentava mais testemunhar aquele desperdício de dinheiro, Tarcísio descobriu que era capaz de chupar o próprio pau. E o melhor da história é que, com esta nova prática – muito mais satisfatória que dar o rabo –, sentia um prazer dobrado e absolutamente superior: podia chupar e ser chupado ao mesmo tempo. “Ah!” – suspirava novamente minha avó, desta vez, com um sorriso no rosto. “Que alívio não sentiram todos quando, no domingo, após a missa, durante o almoço da família, Tarcísio anunciou que tinha conseguido, na noite anterior, totalmente sem querer, chupar a cabeça de seu pau. Nós o aplaudimos e brindamos à nova descoberta. E que descoberta! Graças a isso, Tarcísio deixou de ser puto. Não queria mais saber dos garotões, até porque, reclamava ele, estes não sabiam tomar um pau na boca sem morder. A partir de então, podia muito bem chupar-se sozinho. E Tarcísio obtinha um prazer imenso com esta prática. Como vivia de rendas, Tarcísio podia se dar o luxo de passar o tempo todo em casa, na sua cama, a lambuzar o seu pau. “Ah!” – suspirava ainda uma última vez a minha avó. “O problema é que Tarcísio, depois de ter se aperfeiçoado no autoblowjob, começou a se entediar daquilo tudo. Sentiu um pouco de saudade dos meninos, mas, graças ao bom Deus, não se entregou à tentação de retornar ao seu vício. Incentivado por todos nós, ele procurou formas alternativas para encontrar o prazer. Como presente de aniversário, seus pais inscreveram-no em aulas de contorcionismo. Acreditavam que, quanto mais Tarcísio se dobrasse, mais fundo ele poderia ir e, talvez, mais feliz ele ficaria. Foi uma tentativa salutar, mas não de todo eficaz. Tarcísio tinha ânsias de vômito se tentava engolir seu pau da cabeça até a base. “Ah!” – enfatizava minha avó sem suspirar. “Mas Tarcísio era uma pessoa de imaginação larga. Quando percebeu que encostava facilmente o pau no peito, teve uma idéia: comprou um par de seios fartos. A possibilidade de esfregar o pau entre os peitões falsos lhe trouxe de volta a sua joie de vivre” – minha avó adorava expressões em francês. “A

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auto-espanhola foi uma revelação para Tarcísio. Agora, ele se ocupava em friccionar o pau entre os seios e esporrear na sua própria cara. Um dia, descobriu que tomar porra era gostoso. Então, ejaculava na sua boca e bebia o que conseguia apanhar de seu esperma. Com os avanços da ciência, botou seios próprios e seguiu com sua prática. No fim, já não andava vestido de terno, gravata borboleta e cartola...” Quando chegava neste ponto da história, minha avó silenciava. Testa franzida, olhava por cima de todos nós, para um ponto fixo ao longe. E assim permanecia por alguns minutos, antes de arrematar: “Bom, no fim das contas, Tarcísio viveu feliz para sempre”. Sorri com a lembrança daqueles dias, da minha avó, do chá de hortelã, da história que contava com tanto gosto. Sentei-me na poltrona estampada, e olhei para o mesmo ponto ao longe. “Ainda bem que você chegou” – a voz de um dos meus primos interrompeu minhas recordações. “Estávamos lhe esperando. Queríamos muito que você nos ajudasse com os preparativos para o enterro.” Armando, este era o nome de meu primo, conduziu-me escada acima em direção ao quarto da minha avó. Lá, meus outros primos, meus irmãos e nossas mães circundavam a enorme cama de casal. No meio dela, repousava um senhor nu, pequeno, magro e de seios murchos.

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TRINDADE Cairo

p o e t

poeta poet

Cairo TRINDADE Cairo de Assis Trindade nasceu em Porto Alegre em 1948 e mudou-se para o Rio de Janeiro em 1968. Foi um dos fundadores do Movimento de Arte Pornô, um coletivo transgressivo e de vanguarda cujo empenho foi o de criticar o moralismo da ditadura militar no Brasil usando a pornografia tanto como forma de resistência política como uma forma de expressão poética. A partir de então ficou conhecido como Príncipe Pornô. Com sua esposa Denizis Trindade, forma a Dupla do Prazer. Cairo é poeta, contista, crônista, dramaturgo, performista, ator e consultor literário. Publicou livros de poesia (“PoetAstro”, “Saca na Geral”, “Liberatura”, “Poematemagia” e “Poesya, que porra é essa?”); obras de dramaturgia (“Verbenas de Seda” e “Raízes e Asas”); além de várias antlogias, como a “Antolorgia: Arte Pornô”. Cairo de Assis Trindade was born in Porto Alegre in 1948 and moved to Rio de Janeiro in 1968. He was one of the founders of the Porn Art Movement, a transgressive and avant-garde collective whose commitment was to criticize the moralism of the military dictatorship in Brazil using pornography as both a form of political resistance and a form of poetic expression. So he became known as Prince Porn. With his wife Denizis Trindade, they form the Couple of Pleasure. Cairo is a poet, short story, chronicler, dramaturge, performer, actor and literary advisor. He has published books of poetry (“PoetAstro”, “Saca na Geral”, “Liberatura”, “Poematemagia” and “Poesya, que porra é essa?”); plays works (“Verbenas de Seda” and “Raízes e Asas”); besides several anthologies, like the “Antolorgia: Arte Pornô”.

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Scanned by CamScanner

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Pr o l e t a r a d o

Proletarado Cairo trindade

dรก duro vive duro e de pau duro duro na queda inda goza: "melhor viver de pau duro na dureza i dando duro do que nascer bunda-mole viver em cima do muro e acabar dedo-duro

Hay-kayrus

servindo a qualquer DITADURA".

HAY-KAYRUS Cairo trindade

Como dizer quem come, se, quando nos amamos, temos a mesma fome?

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TRINDADE Denizis

p o e t

poeta poet

Denizis TRINDADE Poeta, atriz, performista, facilitadora de biodanza. Conhecida como Princesa do Pornô e a Musa do Gozo, participou do Movimento da Arte Pornô nos anos 80 junto com Cairo Trindade, seu esposo, com quem realizou a famosa passeata nudista em Ipanema no ano de 82 intitulada Topless Literário e com quem forma também a Dupla do Prazer. Tem diversos poemas publicados em revistas, jornais e antologias, assim como tem três livros editados: “Sessão Cabacinho”, “Book New Look” e “Mulheres em Transe”, este com co-autoria de Kyvia Rodrigues. Nasceu em Porto Alegre, mas vive no Rio de Janeiro desde o final dos anos 60. Poet, actress, performer, biodanza facilitator. Aka Porn Princess and Muse of Delight, she participated in the Porn Art Movement in the 1980s along with Cairo Trindade, her husband, with whom she held the famous nudist parade in Ipanema in the year 82 entitled Topless Literary and with whom she also formed the Couple of Pleasure. She has several poems published in magazines, newspapers and anthologies, as well as two edited books: “Sessão Cabacinho”, “Book New Look”, and “Mulheres em Transe” co-authored by Kyvia Rodrigues. She was born in Porto Alegre, but has lived in Rio de Janeiro since the late 1960s.

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Hipocrisia

Hipocrisia denizis Trindade

sou casta minha mão me basta

Repressão

Repressão denizis Trindade

pivô do divã

Amor livre

Amor livre denizis Trindade

cada um faz o que quer com homem ou com mulher

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VENTURA Jorge

p o e t

poeta poet

Jorge VENTURA Carioca, nascido em 1962. Escritor, ator, editor, jornalista e publicitário. Há 20 anos participa dos principais saraus e movimentos culturais do Rio de Janeiro. Presidente da Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro (APPERJ), membro da União Brasileira de Escritores (UBE) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Lançou 7 livros solo. Tem poemas publicados em antologias e coletâneas brasileiras e internacionais. Carioca, born in 1962. Writer, actor, editor, journalist and publicist. For 20 years he has been participating in the main poetry soirée and cultural movements in Rio de Janeiro. President of the Professional Association of Poets in the State of Rio de Janeiro (APPERJ), member of the Brazilian Union of Writers (UBE), and one of the members of the Poesia Simplesmente group. He has released 7 solo books and poems published in Brazilian and international anthologies and collections.

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Pecado

Jorge Ventura

Na ânsia de pecar, perdeu o juízo e invadiu o paraíso. Desesperado, derrubou o portal, matou a cobra e mostrou o pau! Mordeu todas as maçãs, mascou todas as ervas, pensou ter comido a Eva. Ah, pecador! Morreu na tentação, fruto da imaginação.

Ivone

Jorge Ventura

Em vez de cabelo, implante Em vez de semblante, plástica Em vez de olhos, lentes Em vez de dentes, postiços Em vez de seios, prótese Em vez de barriga, nem hipótese Em vez de bunda, silicone Em vez de Ivone, um clone 157


Custo x Benefício Jorge Ventura

Então eu disse: – Quero teu amor como ônus. Ela entendeu ânus e me deu de bôus.

Cunilíngua Poética Jorge Ventura

tensos dedos frenéticos... a língua lambe

a boceta:

a nudez da alma à flor da carne palavras se apertam,

entre coxas pétalas

talo úmido de tesão falo de cravos e rosas

pólen nas bocas

do tremor de púbis-terra

os versos brotam ao gozo do poeta

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Palco de Eros

Palco de Eros Jorge Ventura

Pausas e poses luz da ribalta cores seda do púbis gregos e negros tônus e dorsos olhos alma de Eros atos tão vastos corpos de astros divas seio da noite falos bem raros boca de cena falas ponta da língua belas e feras palco de mitos onde mais poesia?

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VERANA Ana

artistavisua

artista plástica painter

Ana VERANA Ana Verana é graduada em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA. Reside em Salvador/BA desde 2003 quando deixou a cidadezinha em que cresceu, na região do recôncavo baiano para ir estudar na capital. Tem como norte de suas criações uma investigação a respeito da vazão do irracional através da sexualidade, oferecendo em suas aquarelas um passeio pelo universo da fantasia “do outro”. A artista participa de exposições desde 2007. Recebeu Menção Especial e foi premiada nos Salões Regionais de Artes Visuais da Bahia. Expôs em mostras no MAM-BA e na “III Bienal da Bahia - É Tudo Nordeste?”, assim como em diveras outras exposições coletivas. Ana Verana is graduated in Visual Arts from the School of Fine Arts at UFBA. She has lived in Salvador/BA since 2003, when she left the small town she grew up in, in the region of the Bahian recôncavo to study in the capital. Her creations are oriented to an investigation into the flow of the irrational through sexuality, offering in his watercolors a tour of the fantasy universe “of the other.” The artist has participated in exhibitions since 2007. She received Special Mention and was awarded at the Regional Visual Arts Salons of Bahia. She exhibited at MAM-BA and “III Bahia Biennial - É Tudo Nordeste?”. As well as several other group exhibitios. 160


Do Altar Das DelĂ­cias

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VERANA Ana

Se for vontade 2

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Se for vontade

Uma cena, um afeto predominante

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VOTE NU

performista

performista performist

VOTE NU Uma oficina de nudismo, ou melhor, um espaço onde todos estão convidados a estarem nus sem qualquer ilegalidade, um espaço para a nudez ser ocupação e resistência. Projeto idealizado por Natasha de Albuquerquer e iniciado em Brasília cuja proposta é um ato político, social e libidinal caracterizado pela campanha “Vote Nu” espalhando cartazes, adesivos, camisetas e afins, promovendo o desnudamento corporal, mental e político. A nudist workshop, or rather a space where everyone is invited to be naked without any illegality, a space for nudity to be occupation and resistance. This project was conceived by Natasha de Albuquerquer and started in Brasília, whose proposal is a political, social and libidinal act characterized by the “Vote Nu” (“Vote Naked”) campaign, spreading posters, stickers, t-shirts etc. promoting corporal, mental and political denudation.

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VOTE

NU 1 65


Oficina de nudismo, proposta por Natasha de Albuquerque. Foto: Bruno Corte Leal. Exposição “Transitório Permanente”. Galeria Elefante. Brasília, 2016.

VOTE NU

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Oficina de nudismo

A

oficina de nudismo não é necessariamente uma oficina, mas um convite a estar nu. Todos os eleitores podem participar, desnudar-se socialmente, politicamente; podem espalhar os cartazes disponíveis no link abaixo e postar a #votenu. Esta proposta visa insistir na propagação da frase “VOTE NU” como uma campanha política a favor da nudez, da liberdade, do desnudamento político e social. Vote nu pela cidade, vote nu pela arte, vote nu pelo reconhecimento de seu próprio corpo. Para isto, estão sendo espalhados cartazes nas ruas, nos banheiros, nos museus, nas galerias, nos lugares de liberdade e nas redes sociais. Esta campanha já alcançou eleitores do Distrito Federal, do Goiás, Amapá e São Paulo. Quer que chegue na sua cidade? Para se votar nu, procura-se testar os limites dos espaços por meio de diálogos e mani-festa-ações. O voto é uma questão de posicionamento, mas não é necessário um posicionamento que já exista. Busque por novas corporeidades e uma política sem vestes. Somos corpos livres e a nossa nudez não precisa de contexto, mas sim de votos nus. NÃO SE COM-ROUPA!

Perca seu limite, suas roupas e participe desta campanha. Os cartazes estão disponíveis no link: https://natashadealbuquerque.hotglue.me/?votenu/ intagram: @votenu Por Natasha de Albuquerque

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SILVA Yan

convidada

Yan SILVA Desenhista entre uma aula e outra ou nas horas vagas em casa quando rabisca as almas nuas de seres complexos. Luiz Yan Raoil da Silva nasceu em Braganรงa, no estado do Parรก, em 1997. ร‰ estudante de pedagogia. Designer between one class and another or in the spare time at home when he scribbles the naked souls of complex beings. Luiz Yan Raoil da Silva was born in Braganรงa, in the state of Parรก, in 1997. He is a student of pedagogy.

ilustrador illustrator

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Red 169


S I LV A Yan

(sem tĂ­tulo)

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entre o espelho e vocĂŞ 171


ZÉ AMORIM

p o e t

ZÉ AMORIM Um dos fundadores do Movimento Pornaso pelo qual lançou livro homônimo ao lado de Diego Moreira, com prefácio assinado por Glauco Mattoso. O movimento surgiu em 2010 como um resgate da literatura pornográfica. Poeta, José Luiz Amorim nasceu em Florianópolis/SC no ano de 1985 e é formado em letras na Universidade Federal de Santa Catarina. One of the founders of the Movement Pornaso for which he launched a namesake book in partnership with Diego Moreira, with a preface signed by Glauco Mattoso. The movement emerged in 2010 as a rescue of pornographic literature. Poet, José Luiz Amorim was born in Florianópolis/SC in 1985 and is graduated in languages and literature at the Federal University of Santa Catarina.

poeta poet

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Zé Amorim

Para Catulus

O que é sexo anal? É colocar uma vela No bolo fecal.

Vibração

Vibração

EscatulógicoParaCatulus

Escatulógico

Zé Amorim

Depois de tantos uis E tantos ais, Ela pôs meu diapasão na boca E afinou suas cordas vocais.

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O pau-brasil Para Oswald de Andrade

O pau-brasil Zé Amorim

Para Oswald de Andrade

O Brasil é um país Um tanto descomunal, Pois não é que o mundo todo Queria abrasado pau? Que aqui por essa estância Foi um pau em abundância. Vou mostrar o pau-brasil Este pau não tem pentelho Mas tem o cerne vermelho E feito um pau que pinta Esse pau deu muita tinta. Porque pelo mundo todo Pau-brasil foi almejado, Por ser uma tora dura, Ainda hoje ele perdura Qual portentoso lenhado. Seja com ou sem raiz, No clandestino mercado, Foi o pau mais cobiçado De todo o nosso país.

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OBSCENO artistas unidos pela liberdade de expr


ressรฃo erรณtica GRAFICA


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Obscenografica Issue 1 - JAN 2020  

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