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Entre morros e capim

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Manuel Carvalho

MANUEL CARVALHO

Entre Morros e Capim Histรณrias da Guerra Colonial 3


Entre morros e capim

Título:

Entre Morros e Capim (Histórias da Guerra Colonial) Autor:

Manuel Carvalho Capa e pinturas de: Maria João Sousa - MAJAO

Algumas das fotografias foram recolhidas na internet

Reservados todos os direitos de edição e tradução

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Manuel Carvalho

MANUEL CARVALHO

Entre Morros e Capim

Montreal - 2018

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Entre morros e capim

Do autor: Saga - Editora Peregrinação - 1989 Um poeta no Paraíso - Éditions Luso - 1994 Parc du Portugal - Éditions Luso - 1997 À beira-Main - Éditions Luso - 2003 O homem que falava com as flores - Edição do autor-2015 Ti Vida - Edição do autor - 2016 As belas manhãs - Edição do autor - 2017 Antologia Literária - Autores de origem portuguesa (Québec) - UTL - 2018 Co-autor: Rostos, Olhares e Memória - UTL - 2012 Rostos, Olhares e Identidade - A Voz de Portugal - 2013

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Manuel Carvalho

Às vitimas das guerras À Maria João Sousa, pelo encorajamento e apoio

Cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos vêem o que querem, os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas, ainda que sejam de pedra, e altas proas, ainda que sejam de ilusão. José Saramago 7


Entre morros e capim

Manuel Carvalho nasceu em Cicouro, Miranda do Douro. Colares e a Batalha foram lugares que o viram crescer. Viveu grande parte da juventude nos Outeiros da Gândara dos Olivais, nos arredores de Leiria. Fez a guerra colonial em Angola. Correu muitas terras até chegar a Montreal, no Canadá, em 1980, onde exerceu a profissão de designer industrial. Foi dirigente de organismos comunitários tais como o Clube Oriental Português de Montreal e o Círculo Socialista Antero de Quental. Em Montreal, colaborou com os jornais A Voz de Portugal, Lusitano e LusoPresse. Foi director do boletim “O Oriental. Organizou os Jogos Florais Luso-Canadianos, 1993 e 1995. Fundador e um dos coordenadores da Biblioteca José d’Almansor, em Montreal, onde promoveu a realização de concursos literários, publicação de colectâneas literárias e festas culturais. Tem vasta colaboração literária espalhada por diversos jornais e revistas em Portugal e na diáspora. Foi jurado de concursos literários, nomeadamente do Concurso Literário Proverbo (USA). Está incluído ou mencionado nas antologias: “PortugueseCanadians: Diasporic Challenges and Adjustment”, “Writers of Portuguese Diaspora in the United States and Canada” entre outras publicações. É o coordenador da revista on-line "Satúrnia-Letras e Estudos Luso-Canadianos onde tem divulgado dezenas de autores. 8


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Breve introdução histórica

A 19 de Dezembro de 1490, três navios, enviados por Portugal, sob o comando de Gonçalves de Sousa, chegaram ao Reino do Congo (ou Mbanza Kongo), Angola. Nestes navios embarcaram missionários jesuítas, soldados, pedreiros e carpinteiros com o objetivo de evangelizar. Assim sendo, e cumprindo o objetivo dos missionários, o Rei do Congo foi batizado com o nome de D. Afonso I, tendo abdicado do nome Ne Nvemba Nzinga e assim foi acontecendo com os outros reis que o sucederam. O rei D. Afonso I ordenou que fossem queimados todos os locais onde decorriam cultos tradicionais. Instalando a religião católica em Mbanza Kongo, a construção da Catedral de São Salvador, anteriormente chamada de Igreja de Santa Maria, foi ordenada por D. Afonso I a 6 de Maio de 1492. Enquanto decorriam as obras de 6 de Março a 6 Julho de 1492, o espaço foi “vedado” ao olho dos mortais, por isso, quando o rei autorizou o povo a ir ao centro de Mbanza real, onde estava a obra, o povo ficou muito admirado por ver uma bela igreja que ninguém tinha visto anteriormente. Por isso, surgiu a lenda de que Kulumbimbi tinha sido construída de pedra e cal, da noite para o dia. Foi elevada a catedral em 1596. A Catedral de São Salvador do Congo foi arrasada pelo tempo e desapareceram os seus apetrechos. Hoje, restam apenas ruínas. 9


Entre morros e capim O nome São Salvador do Congo apareceu pela primeira vez em cartas enviadas por Álvaro I do Congo ou Álvaro II do Congo, entre os anos de 1568 e 1587. A cidade voltaria a se chamar M'Banza Kongo, após a independência de Angola, em 1975.

Designa-se por Guerra Colonial, Guerra do Ultramar ou Guerra de Libertação (designação mais utilizada pelos africanos), o período de confrontos entre as Forças Armadas Portuguesas e as forças organizadas pelos movimentos de libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, entre 1961 e 1974. Na época, era também referida vulgarmente em Portugal como Guerra de África. A 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de cerca de 200 angolanos, alegadamente ligados ao MPLA, ataca a Casa de Reclusão Militar, em Luanda, a Cadeia da 7ª Esquadra da polícia, a sede dos CTT e a Emissora Nacional de Angola. O objectivo era libertar alguns detidos, mas o ataque seria um fracasso, tendo morrido cinco polícias, um cipaio e um cabo da Casa de Reclusão e 40 dos atacantes, No dia 15 de Março marca o primeiro ataque das forças de Holden Roberto, a UPA, na região Norte de Angola, em particular nas províncias do Uíge e do Zaire. O massacre durou cerca de três dias. Foram chacinadas populações brancas e trabalhadores negros naturais de outras regiões de Angola. As forças da UPA invadiram postos administrativos e fazendas, matando todas as pessoas que encontravam, independentemente de serem brancos, pretos, homens, mulheres ou crianças. Terão morrido mais de 5000 pessoas, das quais 10


Manuel Carvalho um quinto de origem europeia. Os atacantes estavam armados de catanas e canhangulos, e agiam pensando serem invencíveis e imunes às balas dos colonos, que achavam serem feitas de água. Os massacres estenderam-se para sul, para Kwanza-Norte, Luanda e Bengo onde, nesta última província, Nambuangongo foi proclamada a "capital do Estado livre", após ter sido abandonada pelos europeus. A Luanda começaram a chegar milhares de refugiados. A este ataque de grande dimensão, os militares não conseguiram responder com rapidez. Foi a própria população colona, em conjunto com o Governo, que se organizou no imediato para fazer face às ameaças da UPA, através da Organização Provincial de Voluntários da Defesa Civil de Angola. A resposta desta organização foi igualmente violenta, e o alvo foi a população negra que ficou nas aldeias. A 1 de Maio, chega o primeiro contingente militar a Luanda por via marítima, a bordo do paquete Niassa. Seguidamente, partem para a zona Nordeste com o objectivo de cortarem as ligações dos guerrilheiros às suas bases do Congo. Os meses de Maio e Junho marcam a reocupação de diversas posições pelos Batalhões de Caçadores (Damba, Sanza Pombo, São Salvador, Cuimba) e por forças de Fuzileiros (Tomboco). Às difíceis condições do terreno, juntam-se-lhe as acções dos guerrilheiros que cortavam as picadas com árvores e destruíam pontes; um batalhão demorou 18 dias de Luanda a Maquela do Zombo. Finda a primeira fase de reocupação do Norte, é planeada a reconquista dos Dembos e, em particular, de Nambuangongo. Foi desencadeada a “Operação Viriato”. Esta operação 11


Entre morros e capim tinha por objectivo o controlo dos eixos CaxitoNambuangongo e Ponte do Dange, e MuxaluandoNambuangongo, e envolvia dois batalhões de Caçadores e um esquadrão de Cavalaria, apoiados pela artilharia, engenharia e pela Força Aérea. A operação tem início a 10 de Julho e o percurso até Nambuangongo não foi fácil, tendo as tropas portuguesas sofrido diversos ataques da UPA. A 9 de Agosto, o Batalhão de Caçadores 96 é o primeiro a chegar; o Esquadrão de Cavalaria 149 chega no dia seguinte; o Batalhão de Caçadores 114 ficou preso no caminho. Embora a operação tenha sido considerada um sucesso, Nambuangongo já tinha sido abandonada pelos guerrilheiros. O mês de Outubro assinala o controlo das zonas anteriormente abandonadas pelas forças portuguesas. A 3 de Outubro é reocupada a cidade de Caiongo, última povoação controlada pela UPA. (in Wikipédia)

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ApĂłs dez longos dias de viagem, a bordo do navio ImpĂŠrio, desembarcaram em Luanda, a capital de Angola. Acantonados, durante alguns dias no campo militar do Grafanil, para receber armamento e outro material, foram incorporados numa coluna militarizada que os transportou para o seu destino final no norte angolano.

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Norte de Angola onde decorre a acção desta obra

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Principais personagens: Capitão Rosado - Natural das Caldas da Rainha. Formado na Academia Militar. Anteriormente, fizera uma comissão de serviço na Guiné.

Alferes Mendonça - Natural do Porto. Oriundo duma abastada família de empresários do ramo hoteleiro.

Furriel Meneses - Natural de Leiria. Empregado de escritório. Apaixonado pela leitura.

Furriel Máximo - Natural de Viseu. Funcionário público numa repartição de finanças Fernandes - Natural de Tregosa, Barcelos. Marçano numa drogaria. Elemento do Grupo Folclórico de Tregosa.

Pacaça - Natural de Constantim, Miranda do Douro. Camponês.

Malacão - Natural de Almeirim. Criado de lavoura, numa herdade da região.

Pinto - Natural de Seixas, Caminha. Ajudante de carpinteiro.

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Nunes - Natural de Fermentões, Guimarães. Casado. Filho de pequenos agricultores. .Américo - Natural de Atães, Guimarães. Casado. Emigrou para França mas regressou para cumprir o serviço militar.

Mendes - Natural do Barreiro. Torneiro mecânico numa siderurgia. Implicado nas actividade clandestinas dum grupo politico de oposição ao regime.

Barão - Natural de Lisboa. Cedo ficou sem pai. Empregado de mesa, entre outras profissões.

Pereira - Natural de Murça. Servente de pedreiro.

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O furriel Meneses seguia na cabina da berliet, ao lado do condutor. Este, um homenzarrão de meia-idade, rosto de couro velho, lavrado de rugas profundas, era um rosário interminável de recordações empoladas. - Isto não é nada. Colunas eram as de 61, quando a guerra começou. Aquilo sim, era a doer. Emboscada atrás de emboscada. Os gajos atacavam à doida, armados de catanas e canhangulos. Caíam como moscas mas não desistiam, parecia que tinham o diabo no corpo. E as picadas? Era de morrer. Quando chovia mais um bocado já não se podia passar. As viaturas atascavam-se como em manteiga. Era uma loucura para safá-las dali. Horas e horas a trabalhar rijo. Por vez, para avançar meia dúzia de quiilómetros gastava-se um dia inteiro. - Onde vamos pernoitar? - atalhou Meneses. - Se não houver contratempos, chegamos ainda hoje a Ambrizete. E amanhã à Calambata. Vocês vão para um sítio porreiro, não há muita porrada. Mas como eu ia dizendo, naquele tempo é que era. Até tenho saudades, palavra. Não têm conta as colunas que fiz a transportar tropas. Tinha uma camioneta velha mas consegui forrar massa para comprar esta Scania. Saiu-me do pêlo. Meneses, embalado pelo sacolejar da viatura e pela melopeia do condutor, deixou-se resvalar para o poço das suas lucubrações. A voz trocista do Alfredo, lá no escritório da fábrica de plásticos, em Leiria, retinia-lhe nos ouvidos, perfurante:

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Entre morros e capim “Meu caro Pedro, não passas dum teórico, dum revolucionário de café. Irás bater com o costado a Àfrica, como todos nós. O resto são tretas.” Enfurecia-se: “Cala a boca. Foi encavalitados em gajos como tu que os fascistas transformaram o país numa pocilga.” “Balelas, balelas. Não passas dum pequeno-burguês encharcado de fumos revolucionários de pacotilha. Basta uma boa sopradela para essa fumarada desaparecer logo.” Alfredo tinha razão. Ali estava ele, submisso, amestrado, a caminho da guerra, sem tugir nem mugir. - Ao serviço da tropa, já percorri Angola de fio a pavio - continuava o condutor sempre com os olhos cravados na picada. - Uma vez fiz uma coluna para os Dembos. Já deve ter ouvido falar dos Dembos, da conquista da Pedra Verde. Que coluna aquela, meu Deus! Só visto que contado não há palavras. Levámos oito dias para percorrer cinquenta quilómetros. Quer ouvir mais esta?

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Calambata. O aquartelamento encarrapitado lá no alto. A meia encosta, a sanzala. Ao redor, a omnipresença dos morros verdes de capim. Nas vertentes, as manchas escuras e densas da mata. Finalmente, após longa espera, os maçaricos chegaram. À porta de armas, uma enorme bandeirola de pano branco, letras garrafais pintadas em vermelho vivo, fazia as honras da recepção: «A RAZÃO DA VOSSA TRISTEZA É A RAZÃO DA NOSSA ALEGRIA.» Os velhinhos, em polvorosa, rodearam a coluna. Troçam, hílares, do ar aparvalhado dos recém-chegados. - Estes maçaricos ainda cheiram a sal. - Estávamos com medo que se tivessem perdido na picada. - Aqui não podem chamar pela mamã. Mas logo a saudade desponta. Abruptamente, a fachada rude esboroa-se. - Vem alguém de Viana? - De Chaves? - De Leiria? Reencontros. Abraços. Corações a estoirar na boca. Um tropel de emoções a rasgar caminhos largos de ternura, a correr como sombras pela imensidão do capinzal.

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nosso pelotão ficará alojado naquela caserna indicou o alferes Mendonça. - Instalem-se o melhor possível. Dentro de duas horas, o nosso sargento Martins irá proceder à distribuição de lençóis e cobertores. Fernandes carregou a mala às costas e seguiu na direcção apontada pelo alferes. O interior da caserna apresentava um ar caótico. Os beliches descarnados, colchões esventrados, bagagens amontoadas por toda a parte, detritos e papéis pelo chão de terra batida. Alijou a mala e sentou-se na borda de uma cama, a abarcar gradualmente a situação. Maçaricos e velhinhos trocavam galhardetes. - O que me dás em troca deste armário que eu próprio fiz? - Troco esta ração de combate por um maço de cigarros do puto. Quem quer? - O que vale este espelho? Um gajo vê-se poucas vezes ao espelho mas mesmo assim faz jeito. - Não tens nada para trocar? Fernandes ergueu os olhos para o velho. Muito alto, só pele e osso no camuflado a cair aos bocados já sem pitada de cor. Pelos rasgões apareciam retalhos de pele acobreada, e espessos tufos de pelos. No rosto acavalado, coberto de barba duma semana, os olhos eram pestanudos e mansos. - Trocar por quê? - Por um cão. - Um cão?! O velho nem deu pela estupefacção que causara. - Sim, um cão inteligente e bonito. 20


Manuel Carvalho Fernandes não sabia se devia rir ou mandar o outro à merda. - Mas para que diabo quero eu um cão? - Tu nem sabes a companhia que faz um cão. Aqui, neste inferno, a companhia dum cão é uma coisa maravilhosa. Se ficares com o Fantasma, vais ver que não te arrependes. - Não tenho nada para trocar, pá. Vai chatear outro. O grandalhão ficou momentaneamente desorientado, a baloiçar os braços esqueléticos. Mas voltou logo à carga. - Mas não queres ver o cão? Não perdes nada. É um bicho muito fino. - Se é assim tão fino, leva-o contigo. - Levava, levava, mas é muito complicado. É preciso uma data de trapalhadas, documentos, vacinas. Podes crer que o levava, vou ter muitas saudades dele. - A voz estrangulava-se, os olhos humedeciam. - Sem dono, até são capazes de matá-lo. - Deixa lá ficar o cão, homem. Eu trato dele. O velho quase desatou a chorar. A sua manápula esmagava o ombro do maçarico. - Eu sabia, pá. Eu sabia que podia confiar em ti. Nestas coisas, nunca me engano. Vou chamar o Fantasma para que tu o vejas. Em dois saltos, atingiu a porta a enfiou os dedos na boca. O assobio partiu veloz. - Não tarda nada, está aí. Mal tinha acabado de falar, um grande cão, branco e felpudo, irrompeu pela caserna em carreira cega. Atirou as patorras ao peito do dono, a ganir tristemente. A baba escorria entre os dentes brancos e aguçados. - Quieto, Fantasma, quieto. Na caserna elevou-se um coro de protestos. 21


Entre morros e capim - Leva daqui esse hotel de pulgas. - Se ele vem para este lado, dou-lhe um tiro. - É mais burro do que o dono. - Senta-te, Fantasma. O cão obedeceu. A cauda farfalhuda varria o chão, as azeitonas pretas dos olhos pregadas no dono. De quando em quando, lançava um gemido dolorido. - A malta gosta do Fantasma. Estas bocas não são do coração. É bonito, não é? Ficas com ele? - Que remédio! - Trata bem dele, ouviste? Dá-lhe banho uma vez por semana. Não tem uma pulga. Anda mais limpo do que estes gajos todos juntos. - É manso? - É um autêntico cordeiro. Só não gosta dos oficiais. Ele lá terá as suas razões. - Sendo assim, fico mesmo com ele. Já tenho alguém que pensa como eu. - Alçou o indicador para o bicho que o escutava compenetrado, a língua rosada de fora. Toma atenção, pá. Sou o teu novo dono e também não gosto de oficiais. Vamos nos dar às mil maravilhas, não é, pá?

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Costa rodeou uma cama, saltou por cima dum caixote e conseguiu acercar-se do velho de melenas aloiradas. Este, com um joelho sobre a mala a abarrotar, fazia esforços inauditos para fechá-la. O suor corria-lhe pelo rosto e pelas costas. - És o Lopes? - Sou - respondeu o velho, porfiando no esforço. - És tu que fazes tatuagens? - Fazia. Costa vacilou perante a resposta torta. Ficou momentaneamente mudo, como que interessado na tarefa do outro. - Queres que te ajude? Lopes olhou-o desconfiado. - Já agora, dá aqui uma mão - aceitou, por fim. Com certa dificuldade, lá conseguiram fechar a mala. - Tens que atar um cordel à volta, quando não rebenta-te pelo caminho. - Onde é que eu vou desenrascar um cordel - irritouse Lopes. - Alguém tem um cordel a mais? - gritou para a caserna. Não obteve resposta. - Devo ter um em qualquer parte - ofereceu Costa. Lopes tirou o lenço do bolso e passou-o pelo rosto. - Afinal, o que queres, pá? - perguntou, a contragosto. - Queria que me fizesses uma tatuagem. - És parvo ou quê? Achas que estou com pachorra para fazer tatuagens? 23


Entre morros e capim - Era simples. Uma coisa rápida. - Vai dar uma volta, pá. Não tens mais nada em que pensar? Costa não admitia a ideia de perder aquela oportunidade. - Pago-te o que quiseres. - És surdo ou parvo? Vai chatear outro. - O velho arredou-o, com brusquidão. - Sai da frente que vou beber uma cerveja à cantina. Costa seguiu-o parada fora. - Não te custava nada... - Olha o que me havia de tocar prá despedida. - Dou-te cinquenta paus. Dinheiro do puto. Lopes estacou, sob o céu ardente. Fitou o outro, irritado. - És um grande teimoso. Costa ganhou renovadas esperanças. - Aceitas? Uma nota do puto, nova em folha. O velho estava irremediavelmente preso ao chamariz. - Já viste a trabalheira que me vais dar? Sei lá onde meti as agulhas. Tornar a desfazer a mala...! - Eu dou-te uma ajuda. Não tenhas problemas. - És do tipo carraça. Afinal, que tatuagens queres? - Uma coisa simples. Um coração com uns dizeres. - Quais dizeres? Costa enrubesceu. ` “Amo-te, Maria da Luz” - atreveu-se a confessar. Lopes largou a rir. - Só um apaixonado poderia ser tão teimoso. Logo vi. Bom, vamos beber uma cerveja e depois tratamos disso. Tens aí os cinquenta paus?

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O Barão arrumou a mala a um canto, desembaraçou-se das cartucheiras e da G3 e escapuliu-se da balbúrdia da caserna. Entrou na cantina. Conseguiu, à força de cotoveladas, aproximar-se do balcão. A gritaria era ensurdecedora. - Uma cerveja - pediu. O seu camuflado novo em folha contrastava violentamente com os camuflados desbotados e esfarrapados da maioria dos presentes. - Tás com sede, maçarico? - arrotou-lhe na cara um velho de carão avermelhado. - Tá-se a ver, não? O cantineiro não tinha mãos a medir. - Amanhã, não há mama pra ninguém - desabafou, em jeito de vingança. - Vou fazer o balanço e passar a pasta ao maçarico. O Barão agarrou a cerveja de cima do balcão. - Não tens uma chave para abrir isto? - perguntou ao cantineiro. - Para que queres a chave? - riu-se este. Tens a esquina do balcão ou então os dentes. - Estes maçaricos pensam que estão de férias - riram-se, ao redor. O Barão encolheu os ombros, resignado. Seguiu o conselho do cantineiro e a espuma jorrou para o chão. Meteu o gargalo à boca. A cerveja soube-lhe a caldo. - Não há cerveja fresca? Novas risadas. Um velhinho grandalhão arrotou-lhe na cara.

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Entre morros e capim - Se queres cerveja fresca vai à messe dos senhores oficiais ou dos sargentos - aconselhou, irónico. - A esses não falta cerveja fresca. O nosso frigorífico não dá para a primeira rodada, principalmente hoje. - E uns gajos tão sabichões como vocês permitem isso? - Donde és tu, ó vivaço? - perguntou um tipo baixote com um grande colar de missangas ao redor do pescoço bronzeado. - Lisboa - deixou cair displicentemente o Barão. Sabes onde fica? - O Luís? - galhofou uma voz. - Sabe lá onde fica Lisboa. É de trás-do-sol-posto. - És de Lisboa? - Tornou o velhinho grandalhão. Eh, Rijo, chega aqui. O interpelado voltou-se com uma cerveja na mão e um olhar irónico. Tinha cabelo preto, muito bem penteado, um bigode aparado a debruar o lábio cheio. - O que há? - Tens aqui um conterrâneo. - És lisboeta? De que zona? - Alfama. - Eu sou do bairro da Liberdade. - Belo - alegrou-se o Barão. - Não se consegue uma cerveja fresca, pá? Isto sabe a mijo. - Anda daí. A noite caíra abruptamente, percorrida por um bafo escaldante. Na parada, cheia de vozes e sombras, avultavam as silhuetas das viaturas. - Ainda há pouco estava sol e já é de noite - admirou-se o Barão. - Aqui é assim. É a terra do tudo ou nada. - E sempre assim este calor?

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Manuel Carvalho - Na época das chuvas é. Quando vier a estação do cacimbo, lá para Março, arrefece um pouco. Continuava a balbúrdia nas casernas, montes de caixotes e malas por todo o lado. - Hoje ninguém vai dormir - prognosticou Rijo. - Quem é capaz? - concordou o Barão. - Nem os que partem nem os que ficam. - Vamos ali, à messe dos sargentos. - Espreitaram pela janela. A confraternização estava no auge, as mesas pejadas de garrafas de cerveja, os cinzeiros a abarrotar de piriscas. Rijo entreabriu a porta. - Psst...psst... Um furriel corpulento aproximou-se, passos incertos, olhos a transbordar de cerveja. - Furriel Gomes, arranje aí duas cervejinhas... - Golpista até ao último minuto, grande Rijo! - Ande lá, faça esse favor cá ao rapaz. Sempre nos demos bem... - Não me atires mais areia prós olhos. Aguenta aí. - Este é dos porreiros - confidenciou Rijo. O furriel voltou com as cervejas. - Tomem lá as meninas. - Obrigadinho, meu furriel. Vai ganhar o céu. - Vai bardamerda. Rijo tornou a cerrar a porta. - Vamos abancar ali no refeitório. Toma lá a tua. Estão quase geladas. Na cozinha, os cozinheiros ultimavam o jantar. Sentaram-se numa das mesas, a saborear a bebida. Somente os mosquitos evolucionavam por ali. - Há aqui mosquitos a dar com um pau - queixou-se o Barão, às palmadas ao pescoço.

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Entre morros e capim - Hoje andam felizes com tanto sangue novo. O nosso já não lhes sabe a nada. O Barão olhou o serrilhado dos morros esbatidos contra o céu para lá do arame farpado. Uma dor arrepanhou-lhe o peito. - Isto vai custar... Rijo deu-lhe uma palmada nas costas. - Não te armes em herói, bebe umas cervejas, arranja uma lavadeira que te lave também os tomates e daqui a dois anos estarei em Lisboa à tua espera. Já acabaste a cerveja? Agora vamos até à messe dos oficiais dar o golpe àqueles mecos.

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Na messe dos sargentos, os furriéis velhinhos tinham instruído os faxinas para que não poupassem os furriéis maçaricos durante o jantar. Com os seus camuflados mais esfarrapados, cigarro ao canto da boca, inspirados pelas avantajadas cervejas já emborcadas no decorrer do dia, os faxinas não se fizeram rogados e massacravam os maçaricos sem dó nem piedade. Entornavam-lhe o molho do guisado sobre as camisas novinhas em folha, davam-lhes encontrões e vigorosas palmadas nas costas que os faziam engasgar de surpresa, tratavam-nos com uma familiaridade que os deixava aturdidos. - Aqui no mato não há postos, somos todos iguais. - Se não estão satisfeitos, levantem o rabinho da cadeira e vão lá dentro à cozinha buscar a comidinha. - O tempo dos escravos já acabou. - É comer e calar. Os velhinhos ajudavam à festa: - Os nossos faxinas estão completamente cacimbados. - Não digam nada senão ainda são capazes de ir buscar a G3 e começar para aí aos tiros. Por fim, Meneses, incapaz de suportar por mais tempo a tortura, atirou o guardanapo sobre a mesa e ergueuse, lívido, a arfar de indignação. - Porra, mas que merda é esta? Logo um mar de braços apaziguantes se ergueu. - Calma, pá, isto era tudo a reinar. Vais ter tempo de te chatear, agora senta-te e como o guisado que não está tão 29


Entre morros e capim mau como isso - riu-se o velho sentado a seu lado. Era um tipo de faces rubicundas e olhos esverdeados. Voltou-se para os para os faxinas: - Acabou a reinação. Ainda rolaram mais algumas gargalhadas mas logo todos se concentraram na refeição, os talheres a retinir nos pratos. - Qual é o teu nome? - tornou o velho - Eu sou o Renato, operacional do 2º pelotão e um dos especialistas de minas e armadilhas. - Eu sou o Meneses. Por sinal, também de minas e armadilhas. Renato pousou-lhe a mão no ombro. Inesperadamente, encostou-lhe a boca à orelha, segredou-lhe: - Queres um conselho? Monta o mínimo de minas operacionais que puderes. Sabes por quê? Quando as temos de desmontar já não sabemos onde estão. Aqui a paisagem muda duma forma assustadora. E geralmente somos nós que levamos com os estilhaços em cima. Os acidentes desse género não têm conta. Não vás na conversa dos altos comandos instalados no ar condicionado em S. Salvador e em Luanda. O que eles querem é encher o peito de condecorações à nossa custa. Mais vida menos vida, para eles não tem importância, é igual ao litro. Meneses leu a franqueza nos olhos esverdeados do velhinho. - Obrigado pelo conselho. - Vai por mim. Mais uma cerveja? Hoje é para beber até cair de cu.

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O capitão Anselmo refastelou-se no sofá. - Que horas são? - perguntou, num bocejo. - Quatro da madrugada - respondeu o capitão Rosado, consultando o relógio. Estavam sós na messe dos oficiais, naquela hora morta. - Bom, agora que concluímos a transferência da Companhia, bem merecemos uma bebida. Aceita, Rosado? - Excelente ideia. - Uísque? - De acordo. Anselmo abandonou a comodidade do sofá e deu a volta ao balcão do bar. Apanhou a garrafa da prateleira e retirou dois copos da copa. - Como? - Com gelo. Anselmo encheu os copos até meio. Abriu o frigorífico e tirou uma cuvete do gelador. - Felizmente que os senhores alferes ainda nos deixaram algum gelo. - Pôs a cuvete debaixo do fio de água da torneira. – Quantos cubos? - Dois, por favor. Ficaram a bebericar de pé, cada qual do seu lado do balcão. ` À terceira golada, Anselmo pousou o copo. - Permite-me alguns conselhos, Rosado? - Até lhos agradeço. - Vamos, então, sentar-nos. 31


Entre morros e capim Acomodaram-se no sofá. - Sabe qual foi o meu maior problema? A disciplina. Não a disciplina dos quartéis da metrópole: formaturas impecáveis, botas engraxadas, cabelo cortado. Aqui é diferente. Não podemos transigir é em aspectos como rondas, reforços, limpeza, entre outras coisas. - Tenho a experiência da Guiné. - Na Guiné é diferente. Como estamos numa zona de passagem, pode-se passar a comissão sem contacto directo com o inimigo e, inevitavelmente, há a tendência para o abandalhamento. É esse abandalhamento que é perigoso. Quando menos se conta, pumba, levamos uma porrada tremenda. Olhe, se quer ter os homens na mão, seja intransigente nos pormenores, faça-os sentir que não podem andar à balda. Eu não permitia troncos nus, exigia que o hastear e arrear da bandeira fossem feitos a horas e a preceito, não prescindia das formaturas antes das refeições. Tudo isto pode parecer irrisório mas, mais lá para a frente, verá como tem importância. Estou a aborrecê-lo? - Nem por sombras, é muito interessante o que está a dizer. O capitão Anselmo sorriu e esticou as pernas. - Eu estou a falar-lhe disto porque teria gostado que o meu antecessor me tivesse alertado também. Ter-me-ia evitado muitos dissabores. Dou-lhe um exemplo: eu vinha cheio de belos planos. Nada de messes, comida igual para todos. Passados oito dias, os soldados já davam palmadas nas costas dos furriéis e dos alferes, pouco faltava para os tratarem por tu. Já não havia ordem que não fosse discutida. Estávamos quase inoperacionais. Vi-me grego. Fui obrigado a tomar medidas radicais. Uma messe para os oficiais, outra para os sargentos, refeitório para o resto da malta. Daí para a frente tudo começou a correr lindamente. Se você falar com o pessoal, todos me consideram um bom tipo. 32


Manuel Carvalho Riu-se. - E sabe porquê? Porque também nunca deixei acabar a cerveja e o tabaco na cantina. Fixe bem este pormenor, não esqueça. - Não esquecerei - riu, por sua vez, Rosado. - Vamos beber outro uísque? É quase manhã, nem vale a pena ir para a cama. - Isso é lá consigo. Pela minha parte, vou ter dois anos para pôr o sono em dia. - Passe cá o copo. Enquanto vertia a bebida, Anselmo mudou subitamente de assunto: - E lá pela metrópole? A malta continua a fazer encontros regularmente? Quando Rosado respondeu, já Anselmo se instalara de novo a seu lado. - Sabe, Anselmo, está cada vez mais generalizada a ideia de que esta guerra não tem solução militar. Os capitães estão fartos de fazer comissões no ultramar, de queimar a juventude longe da família e dos amigos. - Só há uma solução. Todos nós sabemos isso. Anselmo bebeu uma golada sequiosa e olhou o camarada nos olhos. - É preciso derrubar este regime e mudar as regras do jogo. E só nós o poderemos fazer. - Nos encontros, já toda a gente compreendeu isso, poucas vozes discordantes se ouvem. - Se assim é, está para breve o grande dia. Ainda me dá mais vontade de chegar o mais depressa possível a Lisboa. Calaram-se. A noite começava a diluir-se em rápidas pinceladas de luz. Já se ouviam vozes à solta pela parada.

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Entre morros e capim

Após alguns dias de sobreposição, os velhinhos acenaram efusivos adeus e treparam para as viaturas que logo se perderam a roncar picada abaixo, envoltas em nuvens de poeira, com pressa de chegar a Luanda. Ficou um silêncio de confins do mundo. Ao redor, a muralha dos morros, as manchas misteriosas das matas, o azul esbranquiçado do céu. Foi então que o toque do clarim, anunciando o almoço, serpenteou parada além, despertou a bandeira que desfalecera no mastro, ricocheteou nos telhados de zinco das casernas, para logo ser engolido pela bocarra abrasadora do sol a pino. - Toca a formar - gritava o alferes Vasconcelos. Quebrado o torpor, todos se apressaram a entrar nas casernas à procura de pratos e talheres. - Onde raio meti eu o garfo - lamentava-se o Barão, revolvendo o armário. - Sabes lá tu onde cabeça, quanto mais o garfo troçou Américo. Ainda pouco afeitos à nova rotina, iam surgindo aos magotes, assombrados, para a fritadeira da parada, engrossavam lentamente a formatura. Já os faxinas, dirigidos pelo furriel vagomestre Máximo, numa azáfama, colocavam as terrinas da sopa sobre as mesas. - Mande entrar a malta, meu alferes - lamentou-se alguém. - O sol derrete. - Ainda falta gente. O Barão bamboleava-se parada adiante. 34


Manuel Carvalho - Corre, cabrão - gritaram-lhe. - Gajos destes só à porrada. - A tiro. - Tão com pressa de meter o focinho na gamela? perguntou, sarcástico, o Barão, entrando calmamente na cauda da formatura. - A primeira fila pode entrar - ordenou o alferes Vasconcelos. - Em fila indiana, sem abandalhamentos. - Hoje temos feijão-frade com atum ou atum com feijão-frade? - troçou o Barão. - Estás com sorte, Barão - ripostou o alferes -, qualquer dia vais ter feijão-frade com feijão-frade.

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Pereira fazia a distribuição da comida. - Já todos têm ovo? - perguntou. - Eu ainda não - queixou-se o Barão. - Deixa-te de brincadeiras, pá. Põe lá o ovo no prato. Américo olhava abstracto os pedaços rosados de atum encarrapitados no monte de feijões. Num ápice, o Pacaça surripiou-lhe o ovo. - Passem cá os copos pra eu dividir o vinho - ordenou Pereira. Dezenas de olhos seguiam, solenes, a cascata roxa do vinho. - Queres mais vinho, Pacaça? - ofereceu Mendes. Podes ficar com o meu. O Pacaça levantou os olhos do prato, agradecido. - Deixa cá ver, pá. - Os dois copos, atestados lado a lado, encheram-lhe o coração de alegria. - Dizem que este vinho tem uns pozinhos de perlimpimpim para tirar a tesão à malta - insinuou o Barão. - Se tens medo, dá cá o teu. - Furriel Máximo - chamou um cabo na 2ª mesa -, não há mais comida? Não chegou para todos. - Vou saber à cozinha. - Falta um ovo nesta mesa - protestaram lá para o fundo do refeitório. O Fantasma passeava por entre as mesas. - Hoje não levas nada, Fantasma. Nem os cães tragam isto. 36


Manuel Carvalho Na 3ª mesa acendeu-se calorosa discussão por causa do vinho. Houve insultos, histerismos, iam jogando à porrada, mas tudo acabou por se resolver. O furriel vagomestre Máximo, a parlamentar com os cozinheiros nem chegou a intervir. Um faxina trouxe mais feijão para a 2ª mesa. - E atum? - perguntou, candidamente, o cabo. - Atum? Vai pescá-lo. - A tua irmã é que eu pescava. A 1ª mesa terminara a refeição. - Podemos sair? - perguntou Pereira. O furriel Máximo inspeccionou se estava tudo em ordem: os restos nas terrinas, a mesa limpa. - Podem sair. Mendes acendeu um cigarro. - Não vens? - perguntou-lhe Américo. - É só acabar este cigarro. - Fico contigo. Dá cá lume. Ficaram a fumar calmamente, um diante do outro, os cotovelos apoiados na mesa. - Ficam para o jantar? - troçou o faxina que levantava os tabuleiros e as terrinas. - Vai lavar a loiça e não nos chateies - despachou-o Américo. Amontoada à porta de armas, à torreira do sol, a criançada da sanzala esperava pacientemente a chegada do jipe do lixo para depois irem à lixeira recolher as míseras sobras da refeição. - Em que pensas? Mendes apontou o magote das crianças. - Será para isto que andamos para aqui nesta guerra? - Se começas a preocupar-te com essas merdas vais dar em doido ou na cadeia. É perigoso pensar certas coisas, quanto mais dizê-las, bem sabes. O que eu quero é acabar a

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Entre morros e capim comissão. Na minha terra diz-se que na tropa não devemos ser muito espertos nem muito burros. - Vou falar ao capitão - decidiu Mendes. - Os garotos poderiam, pelo menos, vir aqui recolher a comida antes de ser atirada para a lixeira. - Vê lá no que te metes. - O capitão parece-me bom tipo. Levantaram-se. A parada estava branca, a rebentar de tanta luz. Sem vivalma. A bandeira desfalecera no mastro, ansiosa pela brisa da tarde. - Vou falar com o capitão - repetiu Mendes. - E tu? - Vou escrever à família.

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Manuel Carvalho

Mendes entreabriu a porta da messe dos oficiais. A sala estava deserta, envolta numa penumbra fresca. - Queres alguma coisa, pá? Estremeceu chicoteado pela voz inesperada. Semicerrou os olhos e conseguiu focar o vulto do Malacão regaladamente estendido no sofá. - O nosso capitão? - Pode falar comigo que é a mesma coisa. - Deixa-te de parvoíces. Sabes dele ou não? - Tá no gabinete. - Obrigado. Ia cerrar a porta quando Malacão o chamou. - O que há? - Vem cá para te passar uma carta de apresentação. Malacão ria como um perdido até que se engasgou e começou a tossir. - Vê lá, não vomites o osso que os teus donos te deram ao almoço. Malacão, passado o ataque de tosse, veio à porta ripostar: - É melhor comer os ossos dos oficiais do que feijão-frade com atum, meu palerma. Aliviado, tornou a refastelar-se no sofá, a digerir o bife com ovo a cavalo e as duas cervejas geladas do almoço. - Palerma - ainda grunhiu, antes de cerrar os olhos. *** - O meu capitão dá licença? 39


Entre morros e capim `

- Entra. O capitão Rosado olhou-o, intrigado, por detrás da secretária. As bolsas, sob os olhos azuis meio turvos, estavam roxas. “O capitão mama uísque como quem bebe água”, corria pelo aquartelamento.” - Há problemas? - Queria falar pessoalmente com o meu capitão sobre um assunto. - Despacha-te lá, tenho mais que fazer. De pé, decidido, Mendes encarou o superior. - Tenho observado o que se passa e é um crime atirar com tanta comida para o lixo quando na sanzala há crianças a morrer de fome. O capitão espalmou as mãos na secretária e ergueuse, furioso. - Quem és tu para vires para aqui com esses sermões? Estás a armar-te em esperto ou a provocar-me? Estás a chamar-me incompetente? - Longe de mim tal ideia, meu capitão. - O tom de voz era conciliante. - Seria uma obra de caridade ajudar esses infelizes. O capitão deixou-se cair na cadeira. Passou a mão pelo rosto e pelos cabelos. - Isso é outro falar. Vai lá embora que eu vou pensar no assunto. - As crianças poderiam vir ao refeitório recolher as sobras, depois das refeições. - Já compreendi, basta. - Os olhos cansados mediram Mendes de alto a baixo. - Não gostas muito desta guerra, pois não? - Confesso que gosto mais de mulheres. Rosado soltou uma risada, divertido. - Podes ir. Obrigado pela ideia. 40


Manuel Carvalho Mal Mendes partiu, Rosado retirou a garrafa de uísque da gaveta da secretária e sorveu uma longa golada. A ideia do rapaz não lhe desagradava, não tinha nada a perder, antes pelo contrário, seria mais um ponto importante para acrescentar à sua folha de serviço.

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abrões! - Com um piparote bem medido, Américo espalmou o mosquito contra o pescoço. - Já não me lixas mais. Sentia-se chegar ao limite da resistência, os tornozelos e os nós dos dedos dolorosamente inchados de tanta ferroada. Prestes a desatar aos berros. Ao redor do aquartelamento, à volta dos postes de iluminação, os mosquitos saíam da noite em hordas cerradas. "Maldita terra, malditos mosquitos. Não bastava este calor de morrer." Pousou a G3 no parapeito do posto de vigia e pôs-se a espiar o negrume. Múltiplos ruídos, indestrinçáveis, de todos os timbres, elevavam-se para além do anel de luz das lâmpadas da periferia do aquartelamento. Era um bramar soturno, hostil, prenhe de suspeições. Por instantes esqueceu-se dos mosquitos, percorrido por um arrepio. Mas o ressonar dos dois camaradas de posto, mesmo a seus pés, serenou-o. "Se estivesse sozinho morria de cagaço." Olhou o relógio de pulso. Os ponteiros fosforescentes indicavam as três horas da madrugada. Dentro de três quartos de hora despertaria Mendes para o render. Seria a sua vez de ferrar o galho, se fosse capaz. Apetecia-lhe fumar um cigarro mas a imagem ameaçadora do capitão sobrepôs-se ao desejo. Não lhe apetecia mesmo nada apanhar uma porrada e ir parar ao Leste, que era bem pior do que o Norte, segundo diziam. 42


Manuel Carvalho - Sentinela, eh, sentinela! Emaranhado nos seus pensamentos, levou tempo a recompor-se. - Estavas a dormir, logo na primeira noite? Pela voz, reconheceu o furriel Neves. - Aqui no poleiro não dá o sono a ninguém, meu furriel. - Podia passar por aqui um regimento de turras que não davas por nada. Vamos lá a ver se abres mais os olhos. Américo sentiu os passos do furriel perderem-se na noite. Enervado, tornou a olhar o relógio. Estava na hora. Até já passavam cinco minutos. - Acorda, Mendes, está na hora. O camarada soergueu-se da enxerga, estremunhado. - Já? Não me estás a tramar? - Vá, levanta-te. Não acordes o Fernandes. - Logo agora que estava a sonhar com uma miúda muito boa lá da terra. Tens um cigarro? - Cuidado com o capitão! - O capitão que vá bardamerda. Dá cá o cigarro. O clarão do fósforo iluminou dois rostos terrosos. Depois, ficou a ponta vermelha do cigarro a fazer arabescos na noite. - Não te deitas? - Não tenho sono. Fico contigo um bocado. - Saudades? Deixa lá que qualquer dia já chega o correio. Falavam em surdina, para não acordar o Fernandes. Os mosquitos tinham acalmado e para além dos morros começava a assomar o clarão da madrugada. - Sabias que o meu filho fez ontem um ano? - disse Américo, com tremuras na voz. - É verdade, fez ontem um ano que ele nasceu em França.

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Entre morros e capim - Tu estavas na França, não é? Que maluqueira foi essa de voltares para fazer a tropa? - Sei lá! Comecei a pensar que nunca mais poderia regressar a Portugal, que o meu filho nunca poderia conhecer os avós. A mulher também se sentia triste sem a família. Resolvemos regressar. Mas quando acabar esta merda, volto para a França. - Dizes bem, esta merda. - E tu? Podias ter fugido à tropa. Sei que és torneiro, no estrangeiro pagam bem a quem tenha uma profissão. Olha, eu era pau para toda a obra e mesmo assim nunca me faltou trabalho. A solidão da noite era propícia a confidências. Mendes estava tentado a aflorar sua implicação na luta antifascista, as directivas que recebera para não desertar. Foralhe difícil acatar a ordem. “O partido precisa de ti, vais ser incumbido duma missão, ” fora a justificação lacónica que recebera a princípio. Só mais tarde, nas vésperas do embarque fora informado dos detalhes. Tivera uma certa relutância em aceitar mas acabara por se submeter à estrita disciplina que jurara respeitar. Subitamente, um estampido acordou a noite. - Ouviste? - alarmou-se Américo. - Foi no posto número 2. Soou outro tiro, logo seguido duma rajada. O aquartelamento acordou num sobressalto: luzes, vozes alteradas, correrias, o latir do Fantasma. - Será um ataque? - aventou Américo, de dedos crispados na G3. Fernandes despertara. - O que é que a gente vai fazer?- balbuciou. A pergunta fê-los sentir como galinhas engaioladas. - Terá morrido alguém? 44


Manuel Carvalho - E nós aqui sem saber de nada. - Que porra de situação. - Calma - aconselhou Mendes. - Não me parece coisa grave. - Sentinela! - gritaram lá de baixo. - Quem está aí? - perguntaram em coro. - É o furriel Meneses. Estejam tranquilos que ainda não é desta que vão morrer. Foi o parvo do Costa que julgou ter ouvido um ruído estranho e desatou às rajadas como um maricas. Algum javali. - Que cagaço, meu furriel! - Américo soltou uma risada nervosa. - Já pensávamos que os turras tinham atacado. - Ponham-se mas é a pau com os ataques dos mosquitos. - Que susto aquele gajo nos pregou - desabafou Fernandes. - Ia-me borrando todo. - O furriel disse que eram os javalis mas podiam muito bem ter sido os turras. - Nunca se sabe. - Afinal, quem é que está de sentinela? Eu ou vocês? - galhofou Mendes. A parada enchia-se de vida com as primeiras pinceladas da manhã. O 2º pelotão vai sair para a mata - suspirou Fernandes. - Já é de dia. - Graças a Deus - benzeu-se Américo, olhos postos na luminosidade que acobreava o dorso dos morros.”

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O furriel Meneses decidiu fazer um diário. Inspirado, escrevinhou o prólogo duma assentada. Não gostou do resultado e encafuou as folhas na mala. “Tresanda a pieguice de pacotilha”, reconheceu, o que não impedia que, nos momentos de maior tédio ou acabrunhamento, desse consigo a relê-lo com certo prazer: “Algures um aquartelamento perdido entre morros. Desterrados e perdidos os rapazes que por lá queimam as verduras da mocidade. Calor sufocante, hordas de mosquitos, paludismo, saudades, hepatites, fístulas, minas, emboscadas, sugam o viço, matam a alma. Resta uma vontade louca de beber, de anestesiar, até só restar o caos, a ausência de sentimentos e emoções. Outros evadem-se escrevendo febris e intermináveis missivas que, as mais das vezes, não chegam a enviar a ninguém. Folhas amarelecidas de papel, onde se vazou uma alma, amachucadas a um canto ou batidas pelo vento para o oceano ondulante do capinzal. A chuva ou o sol acabarão por pulverizar aqueles dilacerantes apelos mudos. Ninguém acabará por irmanar-se na dor com o solitário desgraçado. Outros evadem-se no jogo. Petrificados, a fronte perlada de suor, as mãos pegajosas arremessando, com fúria vã, as cartas. Noites a fio. A mente reduzida a um caos de mãos, cartas, moedas. Moedas, cartas, mãos. Monossílabos entremeados com o silêncio opressivo. Garrafas de cerveja que se esvaziam com avidez. 46


Manuel Carvalho Há os que vão à sanzala. Vão ter com as lavadeiras. Nem assim esquecerão. Sairão das cubatas frustrados, acabrunhados. Mas insistirão, sempre, sempre. Há também os que choram na solidão da noite, sufocando os soluços com a almofada, para os camaradas não ouvirem, não troçarem. Porque a troça é outra forma de evasão, De manhã, os olhos vermelhos, orlados de profundas olheiras violáceas.”

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A granada miou sobre as cabeças como um gato assanhado e foi explodir a cinquenta metros de distância. Todos se acachaparam no capim. - Merda! Estamos a ser atacados à morteirada pelo 2º pelotão - gritou o alferes Mendonça. - Cardoso, comunica com o quartel, pelo amor de Deus, esses cabrões ainda são capazes de matar alguém. Mal acabara de falar quando uma outra granada explodiu mais perto. Todos se tinham erguido e, aos saltos, braços agitados, acenavam para o morro onde sabiam estar instalado o 2º pelotão que fazia a segurança à coluna de reabastecimento dos aquartelamentos que deveria passar nesse dia. Em vão, outra granada começou a miar fazendo deitar todos por terra. - Porra! - continuou a vociferar o alferes. - Furriel Meneses, pegue na sua secção e vá lá acima ter com eles. Meneses e a sua secção, esgueirando-se por uma pequena depressão onde em tempos correra um riacho, já tinham deixado o vale onde se encontrava o seu pelotão e, começaram a subir, penosamente, a corta-mato, o morro, alimentados pelos insultos que vomitavam. - Só mesmo coisa do militarista do alferes Silva. - Filhos da puta. - Cabrões. - Se fosse marrar com os cornos na puta da mãe dele.

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Manuel Carvalho Quando esfalfados, alagados em suor, retalhados pelas folhas aceradas do capim, chegaram ao cimo do morro, Meneses explodiu: - Foda-se, alferes Silva, pensa que isto é o Vietnam? Surpreendido pela inesperada aparição, o alferes, lívido, emaranhava-se em explicações: - Eh, pá, a culpa não é minha. Perguntei para o quartel se andava gente nossa lá em baixo e eles disseram que não, só podiam ser turras. - Turras, o caralho. Se não fossem tão aselhas na pontaria, podia ter morrido muita gente. - Meneses começava a serenar. - Podia ter sido menos precipitado. - Porra, já lhe disse que a culpa não foi minha. Acalmados os ânimos, a secção recém-chegada, ainda com os bofes na boca, abrigava-se nas escassas sombras do morro. Uma mensagem do aquartelamento informou que não houvera feridos no 1º pelotão. Ouviram-se suspiros de alívio. - Dêem água a estes homens - ordenou o alferes. Bem merecem. - Era melhor umas cervejas - galhofou o Barão. Eles que mandem um helicóptero com umas grades de cerveja.

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Noite de Consoada. Pouco passava das dez horas da noite e na caserna do 1º pelotão já se bebera até chegar como o dedo. Fernandes sacou do realejo e largou a tocar modinhas do Minho. Todos se puseram a dançar, os dorsos nus cheios de reflexos acobreados. - Puxa pela garganta, Fernandes. Mostra a esta malta quem são os nortenhos - gritou o Pacaça. Levou uma cuca à boca e a maçã-de-adão começou a subir e a descer no pescoço de touro. - Cinco segundos, hem! Quem é capaz de fazer este tempo? Alguém tem peneiras? - desafiou ao redor, de olhos envinagrados. Mas ninguém lhe ligou. Dançava-se e bebia-se por entre guinchos ululantes. O odor dos corpos suados misturava-se com o cheiro azedo da cerveja entornada. O Pacaça agarrou outra cerveja e recomeçou a sua corrida contra o tempo: um.. . dois. . . três... quatro segundos. Ufano, os olhos negros incendiados, desafiava a malta. - Hei-de chegar aos três segundos ainda esta noite taramelava, numa dança de ébrio. O Barão começou a cantar: «Estou farto deles, E o pelotão acompanhou-o em coro: «Da chicalhada, 50


Manuel Carvalho Esses pançudos, Que não fazem nada». Américo segurou Mendes por um pulso. - Quero-te mostrar uma coisa - ciciou-lhe ao ouvido. Nos olhos já lhe bailavam meia dúzia de cucas. - Anda daí. A malta continuava a cantar: «Vai prá mata Ó meu malandro. Por tua causa É qu’eu aqui ando». Mendes acabou de beber a cerveja e deixou-se conduzir. Américo tirou a mala de debaixo da cama e abriu-a. - Olha! Tá lindo, não tá? Mendes pegou na fotografia. O rosto traquinas do filho do Américo fê-lo engolir em seco. - Tá lindo, não tá? - insistia a voz cheia de lágrimas do Américo. «Abre a cantina, Ó cantineiro, Anda co’a malta Caga no Primeiro». - Quando penso que hoje é noite de consoada! - soluçava Américo. Fernandes estava fantástico nessa noite, quase fazia o realejo falar. Os corpos contorciam-se, alucinados, ululantes. O Barão saltou para cima duma cama: - Meus senhores, vamos beber em honra da malta que está nos postos de sentinela esta noite. 51


Entre morros e capim Foi então que uma ideia genial chispou naquele mar de álcool. - E se lhes fôssemos levar uma pinga? - acrescentou uma voz. Como que por magia, uma garrafa de bagaço nasceu das mãos do Pacaça. - Em frente, marche! - comandou o Barão. À aproximação daquele mar proceloso, as sentinelas gritavam, alarmadas: - Quem vem lá? - É o pai Natal que te traz um presente - respondialhes o pelotão. E sem tempo para uma resposta, a garrafa de bagaço começava a gorgolejar garganta abaixo dos felizes contemplados.

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Manuel Carvalho

O Pacaça esqueceu-se que era um grande bebedor. Já nem mesmo uma boa partida de lerpa o fazia esquecer a imensidão exasperante dos dias. - É um caso perdido - comentava, descorçoado, o Barão. - Eu que tinha tantas esperanças neste rapaz! O Pacaça sorria, o carão inundado por um fogaréu que lhe crescia nas entranhas. Impreterivelmente, todas as noites, antes de se escapulir do quartel para a cubata de Maria, passava pela cozinha para arrebanhar os restos do jantar. - Lá vem o rapa-tachos - galhofavam os cozinheiros. Quando havia faltas, chegava ao ponto de repartir com a rapariga a sua ração. Estirado no catre, qual ritual, gostava de vê-la comer, silenciosa, cheia de olhares idólatras. No final, olhos semicerrados, o rosto crispado de desejo, chamava-a: - Anda cá. Naquela noite, Maria estava a tratar-lhe um pé que o andava a afligir. - O que tu tem é matacanha. A raparinha foi buscar uma agulha e, com mil cuidados para que a bolsa de ovos não se rompesse, esgaravatou-lhe a região do dedo grande onde a pulga se alojara. - Dói - queixou-se o rapaz. Sem palavras, Maria acabou de lhe fazer o tratamento, apanhou um punhado de cinzas do lume e espalhou uma fina camada sobre a ferida. 53


Entre morros e capim Aliviado, o Pacaça puxou-a para si mas não lhe achou o ardor habitual. Estranhou-a. O olhar turvou-se-lhe ciumento. - O que tens? - Nada - respondeu Maria, abraçando-o. O Pacaça repeliu-a com brutalidade. - O que tens? - repetiu, sondando-lhe os olhos baixos. - Andas com outro? - Tenho um filho na barriga - anunciou, com simplicidade, Maria. - Um filho!? - gritou o Pacaça, sentando-se de repelão no catre. - Meu!? Apanhou as calças e vestiu-as atabalhoadamente. Sentia o estômago às reviravoltas como quando estava com a ressaca. Maria continuava sentada na beira do catre, esfíngica estátua de ébano. O Pacaça calçou as botas e pegou na camisa. - Um filho!? *** Velou noite fora. “Um filho!?”. Era algo de insólito que se incrustara, subrepticiamente, no seu mundo simples e que, à traição, o socara no estômago, como um copo de bagaço em jejum. Ouvia o ressonar dos camaradas. A lua ocupou, gorda e enfarinhada, o rectângulo da janela, pincelando a oca a caserna. Depois, tranquilamente, desapareceu. “Que diabo posso fazer? Levar o garoto comigo? Abandoná-lo?” A esta última alternativa o coração confrangeu-selhe. Na sanzala, em todas as sanzalas por onde passava, as crianças mulatas constrangiam-no. “Eh, filho duma lata de conserva!” 54


Manuel Carvalho “Eh, café com leite!” Nunca deixara de repreender os camaradas, quando estes troçavam dos garotos. Certa vez ia jogando à porrada com o Barão. Não tinha estômago para ouvir aquelas coisas. “Iria o seu filho ser um dia alvo de troças idênticas?” Sentia-se acalorado. Com os pés. atirou o lençol para o fundo da cama, indiferente aos mosquitos. “E se ficasse em Angola?” Arrepiou-se e cobriu-se de novo com o lençol. Na sanzala, os galos já cantavam. Cores acobreadas assomavam sobre os morros. Em breve despontaria a alba. Passou ao de leve pelo sono. Um sono prenhe de pesadelos e de reviravoltas na cama. A uma reviravolta maior a espertina regressou. Contou os meses pelos dedos. “No fim da comissão já o miúdo teria um ano. Já lhe chamaria pai.” A ideia de ficar, qual monstro libidinoso, enroscouse-lhe no cérebro. “E por que não? Já ouvira dizer que davam terras lá para o sul. Não tinha medo ao trabalho. Afinal, se regressasse, não teria também que ir cavar o seu pão na Alemanha ou na França? Pelo menos em Angola compreendia as pessoas, falava-se língua de gente. Por que não? Ficar com a criança, com Maria”. O Pacaça sorriu e fechou os olhos, apaziguado. Não tardou a adormecer. Pela janela já escorria uma claridade diáfana.

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Entre morros e capim

Quando o seu pelotão estava de serviço ao aquartelamento, Costa adorava ser escalado para ir buscar lenha. De todos os serviços rotineiros, acarretar água, descascar batatas, servir às mesas no refeitório, postos de sentinela, limpeza, hastear e arrear da bandeira, aquela era a tarefa que mais prazer lhe dava. Cortar árvores com a motoserra incutia-lhe uma sensação de força e poder, a sua destreza suscitava a admiração dos camaradas. De caminho para o local do corte das árvores, passavam sempre por uma antiga sanzala e era um fartar de laranjas, mangas e bananas. Os vestígios da sanzala eram cada vez mais imperceptíveis, restavam esparsos montículos de adobos, o capim, voraz, imperioso, a reapossar-se daquele lugar. Só algumas árvores frutíferas teimavam em resistir à invasão, a testemunhar que a vida e os sonhos dos homens tinham andado à solta por ali antes que fossem varridos pela gadanha da loucura. Sonhador, olhos aguados, Costa gostava de imaginar que os animais e aves com que, por vezes, por ali se deparavam e que se escapuliam mal pressentiam a chegada dos homens, eram as almas reencarnadas dos antigos habitantes. - Estão a ver aquela gazela que ali vai? Deve ser uma criança que por aqui andou e que regressa sempre ao lugar onde nasceu. Os camaradas, mais boçais, troçavam. - Ó Costa, tás a ficar mesmo cacimbado. 56


Manuel Carvalho Mas a verdade é que ninguém ousava alçar a arma e visar os bichos. O furriel Meneses aproveitava a ocasião para falar do que acontecera nos primeiros tempos da guerra, do vendaval que varrera o norte angolano, das chacinas, da destruição de fazendas e sanzalas, da fuga aterrorizada dos nativos para o país vizinho, o Congo, do deserto humano em que se transformara aquela vasta região. - Eu não dizia? - tornava Costa. - As almas dos mortos devem andar a vaguear por aqui, podem muito bem ter penetrado nos corpos dos animais selvagens. Corvos crocitavam, a reforçar as palavras do rapaz que parecia entrar em transe. Apesar do calor, um calafrio percorria os corpos suados. Nem mesmo o Barão se atrevia a atirar um dos seus gracejos. Alguns, mais impressionáveis, crédulos, chegavam a tirar os quicos da cabeça. - Deixem-se de parvoíces e toca mas é a cortar lenha - comandava o alferes Mendonça. - Querem lá ver que o meu pelotão se transformou num bando de beatas! Tu, Costa, davas era para padre, com essas falinhas mansas.

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Entre morros e capim

A mensagem, captada pelo pessoal do posto de transmissões, propalou-se rapidamente pelo aquartelamento: "Caiu uma catrefada de turras nas armadilhas do trilho Luvo." As casernas esvaziaram-se e a parada encheu-se de frenesim. Os cozinheiros largaram os tachos e correram a engrossar os magotes efervescentes. O pessoal da limpeza desenvencilhou-se das vassouras e embicou direito ao posto de transmissões. Para aumentar a balbúrdia, o jipe da água com o autotanque a reboque irrompeu pela parada a grande velocidade, quase cilindrando um dos grupos. - Querem trancar o jipe? - refilou o condutor, envolto numa nuvem de poeira. O furriel mecânico Reis apercebeu-se do incidente e saiu disparado da messe dos sargentos, de rosto apopléctico por quatro ou cinco nocais. - O que há? - Estes gajos atravessaram-se diante do jipe - desculpou-se o condutor. - Quantas vezes já te disseram para andares mais devagar dentro do aquartelamento? - gritou o furriel, assanhado. O condutor achou por bem bater em retirada e o jipe começou a rastejar, de rabo entre as pernas, para a cozinha. Só então o furriel Reis abarcou a amplidão da agitação reinante. - Passa-se alguma coisa? - perguntou, ao redor. 58


Manuel Carvalho - Parece que caiu um exército de turras nas nossas armadilhas - respondeu-lhe o básico Malacão, feliz por esclarecer um furriel. - Foi o pelotão do alferes Coelho que os encontrou. *** O furriel Meneses estava estendido na cama, embrenhado na leitura duma revista quando se levantou a balbúrdia. Depois, ouviu o derrapar do jipe. ''São os fângios do Reis” pensou, mas como a agitação persistia pousou a revista e foi abrir a porta. - O que há? - perguntou ao Reis que regressava agitadíssimo à messe. - Caíram uns gajos nas armadilhas do Luvo. - Nossos?! - Turras, parvo. Meneses começou a ver tudo à roda. Parada, homens, casernas, céu, bandeira, num turbilhão alucinante. Encostou-se à parede para não cair. - Sentes-te mal, pá? - assustou-se Reis. Lentamente, tudo foi reocupando o seu devido lugar. Ficou só o coração a estraçalhar o peito. - Queres um copo de água? Meneses abanou a cabeça. - Não, obrigado. Já estou bem. - Devias ir medir a tensão, aconselhou Reis. Deves andar a precisar duns copos. Anda daí. - Vai tu. Já estou bem. Reis ainda duvidava. - Vê lá se te dói alguma coisa. Meneses reentrou na camarata. Atirou-se para cima da cama. “Caídos nas armadilhas que ele e o alferes Vasconcelos tinham montado.”

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Entre morros e capim Vozes, saídas das próprias entranhas esmagavamlhe as têmporas. “Assassino... Assassino...” Afundou a cara na almofada, as mãos crispadas nos ferros da cama. Um rugido animal subiu-lhe à garganta. As lágrimas saltaram, por fim, a ferver, rosto abaixo.

Mina num trilho

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Manuel Carvalho

Pairava no ar um pesado cheiro a represálias desde a hora em que o capitão mandara reunir a Companhia. - Meus senhores, muita atenção - advertira, com ar circunspecto. - Doravante, temos de redobrar a vigilância e a nossa atenção. A experiência diz-me que o inimigo vai querer vingar as baixas que lhes infligimos. Portanto, olhos bem abertos. Nada de abandalhamentos, por favor. Por estes dias, ficam suspensas as idas à sanzala, até ver no que isto dá. Regressaram às casernas curvados ao peso do perigo eminente. Américo apertou a fotografia do filho contra o peito. - Que porra…- gemeu. - Aqueles turras são uns parvos - proferiu, ao lado dele, Pereira. - Foram logo dar de trombas nas armadilhas. - E, agora, nós é que vamos pagá-las. - tornou a gemer Américo, com outra olhadela húmida ao retrato. - Aceitam-se apostas para um jogo - bradou o Barão, postado no meio da caserna. O pessoal voltou-se, desconfiado. - Mais alguma das tuas - resmungou Fernandes, afagando a cabeça do Fantasma que fechara os olhos deliciado. - É a sério, é um jogo bastante excitante. Aproximem-se, meus senhores, meus senhores - trombeteou, de braço erguido. - Aceitam-se palpites. - Vinte paus a aposta. Qual de nós irá ser o primeiro a lerpar? 61


Entre morros e capim Uma bota voou-lhe ao encontro da cabeça. Lesto, baixou-se e a bota foi esborrachar-se contra a parede. Assobios encheram a caserna, fizeram o Fantasma desatar a ladrar. - Não querem? Pior para vocês - concluiu o Barão, esgueirando-se porta fora. - O que pensas disto tudo? - perguntou Fernandes ao Mendes. Este, deitado de costas no beliche, as mãos sob a nuca, limitou-se a franzir o nariz. - Achas que o capitão estava a falar a sério ou era só para nos acagaçar? - Nunca ouviste falar que quem paga as medalhas deles somos nós, a arraia-miúda? Fernandes engoliu em seco, sentou-se na cama e arrepelou os cabelos. - Não animas nada a malta. Nunca mais te pergunto nada. - E após breves instantes: - Não tenho medo de morrer mas não posso é pensar em ficar aleijado para o resto da vida. Como aconteceu a um gajo lá da terra, ficou sem uma perna e deram-lhe uma pensão de miséria. Pereira, que os escutava, pegou na moldura com as suas madrinhas de guerra e desatou a beijá-la sofregamente. -Não me vai calhar a mim, aposto. Não posso morrer sem beijar as minhas queridas. O Pacaça estendeu uma folha de jornal no chão e começou a desmontar a G3, peça por peça. “Tens que estar operacional, minha linda, para o que der e vier. Só tu me poderás salvar a pele. Mas como é que poderei passar sem ver a Maria?” Costa tirou um aerograma e a esferográfica da mala e começou a escrever à mulher: “Querida Maria da Luz, 62


Manuel Carvalho Acabo de regressar duma operação que foi um sucesso. Matámos seis turras. Não te quero mentir mas só à minha conta devem ter sido três. Já me consideram um herói e consta que me vão dar uma medalha…”

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Entre morros e capim

Na messe dos oficiais, a digestão do jantar estava demorada. Malacão sentia-se ferver por dentro. Combinara com o Pinto ir à sanzala e a oficialada não dava sinais de se apressar, pregados às cadeiras, a palrar pelos cotovelos. - Serve-nos o café, Malacão - ordenou o capitão Rosado. - Inesperadamente, teve um ataque de generosidade: - Vai ao meu quarto e trás a garrafa de napoleão que lá tenho aberta, estás a ouvir? - Ena! - exclamou, atónito, o alferes Silva. - Perdeu a cabeça? - É para não me chamarem sovina, pelas costas. - Deviam ser duas garrafas - insinuou o alferes Vasconcelos. - Uma em exclusivo para mim. Afinal, não sou eu o herói? Digam lá quem é que mandou armar as armadilhas para os patos? Já pensou em me propor para uma condecoração, capitão Rosado? Ou quer os louros só para si? O capitão estava capaz de encaixar tudo e mais alguma coisa. - Pela minha parte, enchia-lhe o peito de medalhas replicou, sorridente. - Só que não o vejo com arcabouço para tanto peso. Nesse instante, Malacão chegou com a bandeja dos cafés e a garrafa. - Ainda precisam de mim? - perguntou, esperançoso, colocando tudo sobre uma mesa. - Já te queres pirar? - carregou o sobrolho o capitão.

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Manuel Carvalho Malacão bateu as pálpebras, impregnado de ingenuidade. - Eu, meu capitão!? - exclamou, magoado. Os seus olhitos amarelados escorriam mel. - Tenho de ir à sanzala saber se as lavadeiras já têm pronta a roupa dos senhores oficiais. É por isso que estou tão apressado. - Ah, grande Cheveik! - gargalhou o alferes Vasconcelos, sorvendo o café. - És impagável. És o melhor faxina do mundo. - Vai lá, salafrário - assentiu o capitão. Malacão pisgou-se lestamente, não sem antes envolver a garrafa num olhar amoroso. “Logo, no regresso, vou-te dar uma arrombadela. Contando que estes filhos da puta não a espremam até à última gota. Capazes disso são eles.”

Lavadeiras 65


Entre morros e capim

A coluna chegou cedo a S. Salvador, mal passava das dez horas da manhã. - Meus senhores, regressamos à Calambata às quatro horas da tarde. Às três e meia quero-vos a todos em cima das viaturas. Aviso-vos de que se causarem problemas não terei contemplações com ninguém. Alferes Mendonça, já montou o sistema de segurança às viaturas? - Já sim, meu capitão. Ficam dois homens de guarda, rendidos de hora a hora. - Óptimo. Ah, outra coisa, sempre de quicos na cabeça e camisa abotoada. O nosso comandante do sector não perdoa. Já muito menino apanhou uma porrada das grossas por muito menos. Também estou a ver alguns de vocês com os camuflados muito rasgados. Vejam lá se, pelo menos quando vêm a S. Salvador, remendam as roupas. Não quero que considerem o pessoal da Calambata um bando de maltrapilhos. Podem destroçar. E juízo! S. Salvador era pouco mais do que a rua principal. Nela se congregava toda a vida da cidade: estabelecimentos comerciais, cafés, cinema, correios, serviços administrativos, umas tantas ou quantas vivendas. Ao redor, os aquartelamentos, a pista de aviação e a sanzala. E, como um anel estrangulador, para não esquecer a guerra, arame farpado e postos de sentinela. Do passado histórico apenas restavam as ruínas da catedral mandada construir pouco tempo depois da chegada dos portugueses. **** 66


Manuel Carvalho O pessoal dispersou rapidamente. Alguns apressaram o passo, logo direitos aos cafés onde os esperava o mergulho num mar de cerveja gelada. Outros, olhar transtornado, encaminharam-se, furtivos, para o local, numa rua mais disfarçada, onde lhe constava ter chegado uma puta branca vinda de Luanda. *** Costa não perdeu tempo e entrou rapidamente na Foto Cinderela. - As fotografias do furriel Reis já estão prontas? disparou. O fotógrafo levantou a cabeça calva, do jornal. Tinha faces cavadas e amareladas pelos trópicos e uns olhos azuis amargurados. - Da Calambata. - Ah, já me lembro. Tirou da prateleira um envelope. - Foi ele que o mandou cá vir buscá-las? - Foi sim. Aqui tem um bilhete. Costa tirou o papel do bolso da camisa. - Veja. O homem fez um gesto de enfado e ignorou o bilhete. - Tudo bem. Costa, mal se apanhou na rua, abriu o envelope e pôs-se a folhear as fotografias. Riu-se, baboso, quando encontrou a que procurava. Ficara porreiro, com a jibóia que o Pacaça matara, enrolada à volta do pescoço. Grande fotografia aquela! Iria fazer pelo menos cinco cópias para enviar para Portugal. Aquela já iria direitinha numa carta para a Maria da Luz. A caminho dos Correios, a passo estugado, ia mastigando a prosa que acompanharia o retrato. Talvez assim: “Aqui te envio a fotografia da jibóia que matei à catanada 67


Entre morros e capim numa operação. Estava de sentinela durante a noite e pressenti-a quando ela se preparava para atacar a tenda de três camaradas. Se não tivesse agido rapidamente não sei o que teria acontecido. Nem quero pensar nisso. Uma menina destas quando se enrosca num um homem já não há nada a fazer. É trigo limpo, os ossinhos todos partidos...” *** - Não sejas parvo, Meneses. Deixa de te massacrar com esses pensamentos mórbidos. Ganhas alguma coisa com isso? Já passaram três semanas e tu continuas a insistir na mesma merda. - Não somos máquinas. Não se desligam os pensamentos com um simples carregar num botão. A verdade é que fui eu que montei aquelas armadilhas, Ceifei quatro vidas. - E tu a teimar - riu o furriel Neves. - Pára de alombar com a responsabilidade dos outros. Se não fosses tu a montar as armadilhas seria outro qualquer. Foste um mero executante. Meneses meteu a caneca à boca e esvaziou-a duma golada. Fez uma careta e ficou a olhar as reverberações do vidro. Depois, estendeu o olhar pelo café a abarrotar de camuflados poeirentos. - Se um dia a guerra acabar, estes comerciantes estão liquidados. Lá se vai o rico negócio. - A guerra foi a melhor coisa lhes podia ter calhado como presente no sapatinho. Enchem-se à grande - comentou Neves. - Vê lá tu se eles se preocupam que morra gente. Até lhes convém. Meneses admirava o camarada, a sua forma directa de enfrentar as situações. - Gostava de saber encarar as coisas da forma pragmática como tu o fazes. Tudo seria mais simples. 68


Manuel Carvalho - Tenho que te dar uma lições - Neves soltou uma gargalhada - Olha, mas já que os meus conselhos não apagam o fogo que tens aí na alma, mais uma caneca irá dar melhor resultado, disso tenho a certeza. Vamos a elas. *** Nunes, geralmente refugiado no seu casulo, era um rapaz inquieto desde a hora em que observara o velhinho a fazer a tatuagem ao Costa. Os seus olhos enormes e pachorrentos, quase bovinos, ficaram fascinados com a destreza como o vira manejar as agulhas embebidas em tinta que meticulosamente davam forma às letras que iam alastrando pelo antebraço do Costa. Com o correr dos dias, lentamente, um projecto começou a forjar-se na sua mente. Chegara a hora de o concretizar. Sem demoras, penetrou na penumbra da Casa Verde, junto à pista de aviação, que lhe constara estar recheada de tudo, desde um simples par de atacadores até aos mais sofisticados apetrechos fotográficos. Logo um solícito caixeiro o abordou. - Em que posso servi-lo? Nunes explicou-lhe, num jato, ao que vinha. - Pois, caro amigo, não podia vir bater a melhor porta. - A boca do homem rasgou-se num sorriso a toda a largura. Passou a mão bem tratada pelos cabelos negros acamados por espessa camada de brilhantina. - Temos tudo o que precisa. Agulhas, tintas, desenhos de todo o tipo, livros informativos, não nos falta nada para fazer de si um artista de primeira. E sem mais delongas, perante os olhos arregalados do cliente, encheu o balcão com toda uma panóplia de material que ia retirando das prateleiras.

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Entre morros e capim - Eu não lhe dizia? - Os olhitos negros do homem brilhavam de auto-satisfação. - Nesta casa pode encontrar tudo o que lhe faz falta, é este o nosso lema. Agora é só escolher o que quer levar. Nunes saiu do armazém com um volumoso embrulho que logo intrigou Costa que saía dos Correios. - Eh, Nunes, que grandes compras! O que levas aí? Nunes soltou uma gargalhada. - Tens tempo de saber. Já alguma vez viste um artista? Aqui tens um à tua frente. E sem mais conversa, voltou costas ao camarada que o ficou a olhar perplexo. “Este gajo ainda está mais cacimbado do que eu” *** Pereira e Fernandes fumegavam. De sentinela às viaturas da coluna, não paravam de consultar o relógio, à espera que o Barão e o Nunes os rendessem. - Eles não aparecem, pá. Já lá vai meia hora e nada desanimou Fernandes. - Quando cá chegarem, parto-lhes a fuça - decidiu Pereira. Estavam entre os rodados da berliet, fugidos à canícula. O Fantasma, lá mais para debaixo da carroçaria, parecia morto, de barriga para o ar. - O Barão está a precisar duma lição - continuou Pereira. - Sabiam muito bem que nos deviam render ao meiodia. - Não pensaram mais nisso. - Parto-lhes a cara, ai parto, parto! - Como sempre, instalados como príncipes - sobressaltou-os a voz do Barão. - Sabes que horas são? - gritou Pereira, saltando do abrigo. 70


Manuel Carvalho - Meio-dia, nem isso. - Meio-dia e meia. Meia hora aqui a secar, à espera dos meninos. - continuou a gritar Pereira, crescendo para o Barão. - E o que pensas que andei a fazer nesta meia hora? - gritou também o Barão, sem mostrar medo. Pereira ficou meio aturdido. - Diz lá, diz lá - inquiriu, já quebrado. - A tratar da tua vida - fulminou-o o Barão. Pereira tirou o quico e coçou a cabeça. - A tratar da minha vida? Essa é boa. - Sim, brutamontes, a tratar da tua vida. E, ainda por cima, sou recebido desta maneira. Ora toma lá Barão, para não te armares em parvo. - Ó Barão, compreende… - Eu a pensar para os meus botões: lá na Calambata, a malta já não vai à sanzala há que tempos, anda tudo esfomeado. Tenho que desenrascar o pessoal, e sou recebido quase à porrada. - Compreende, Barão… - Caso encerrado, por esta vez - cortou o Barão. – Não tornes a armar-te em carapau de corrida e escuta bem, tu também, Fernandes. Estão aí duas brancas de Luanda, mas aquilo é uma concorrência doida. Vocês vão pelas traseiras e batem duas vezes à porta que elas abrem logo. Eu e o Nunes fizemos o mesmo. Foi um gajo porreiro do M’Pozo que nos ensinou o truque. Paga-se mais dez paus mas é outro tratamento. Pereira nem sabia o que dizer. - Ó Barão, és um santo. Mais logo, conta com uma caneca de cerveja.

Ruínas da catedral de S. Salvador

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Entre morros e capim

Os três unimogs voavam na picada. O capitão andava sempre a martelar na mesma tecla: nada de velocidade excessiva, nunca perder de vista a viatura da retaguarda. Mas qual quê, o acelerador era para ir pisado, desdenhavam os condutores. Principalmente nestes regressos de S. Salvador, com a cerveja num reboliço nos estômagos. A secção do furriel Neves viajava na viatura da retaguarda, a comer com a poeira toda em cima. - Afasta-te mais - gritou o furriel Neves ao condutor. - O quê? - Afasta-te por causa do pó - repetiu o furriel. O condutor rodou a cabeça para gritar. - O nosso capitão não gosta disso - relembrou mas desacelerando de imediato. - O nosso capitão que vá ter um menino - gracejou o cabo Madeira. - Se precisarmos de ajuda, mandas logo um verylight, não é verdade, ó Madeira? Deve ser para o que essa merda serve. O cabo Madeira acusou mais uma vez o toque. Era o seu ponto fraco. Enquanto a outra malta empunhava as esbeltas G3, ele andava sempre com o morteiro às costas, além das munições que lhe vergavam a espinha. - Vai-te foder, só espero que nunca precisem de mim. - Távamos bem tramados. - Pacaças! - gritou Costa, alçando o braço. 72


Manuel Carvalho - Pára, pára - gritou o furriel Neves, às sapatadas às costas do condutor. O unimog, com os travões a fundo, arrastou-se na picada, até se imobilizar. - Onde estão? - Ali, ali - apontava Costa, vermelho de excitação. - Não vejo nada. - Ali, ali, junto às árvores. - Já vejo...já! - Porra, ainda não vejo nada... - Grande cegueta... - Já vejo...já vejo. Encavalitavam-se nos bancos, aos empurrões. Pouco a pouco, todos foram avistando as duas pacaças. Pastavam, pachorrentas, a cerca de duzentos metros da picada, num vale de capim rasteiro e verdejante.. - Vão três gajos comigo - ordenou o furriel Neves, saltando lesto do unimog. - E a coluna? – inquietou-se o condutor. - Que esperem. **** O capitão, que viajava no unimog do meio, ao lado do transmissões, regulava laboriosamente a distância entre as viaturas. - Mais depressa. - Mais devagar. - Façam sinal à viatura da frente para abrandar. - Transmissões, comunica a nossa posição para a Companhia. -Eh pá, põe a arma em cima dos joelhos, pensas que isso é um cajado? Numa curva, perdeu de vista a viatura da retaguarda. Esperou pela recta seguinte para ver se a avistava, mas nada. Eclipsara-se. 73


Entre morros e capim - Façam sinal à viatura da frente para parar. Nos primeiros tempos da comissão fazia logo o pessoal descer das viaturas para o capim. Era uma estopada fazer uma coluna com ele. Presentemente, já estava um pouco mais razoável. - Onde se terão metido? - Devem-se ter atrasado, por causa do pó - opinou o alferes Mendonça. Têm muito medo do pó, esses meninos. Quando chegar a época do cacimbo é que vão saber o que é comer pó. Já comunicaste com a Companhia? - perguntou ao operador de transmissões. - Não respondem. - Patrão fora, dia santo na loja. - Vamos ver o que se passa? - sugeriu o alferes Mendonça, já apreensivo. Um tiro, logo seguido por um cacharolete deles, ecoou pelos morros. Depois, mais um tiro solitário e o silêncio. - Vamos voltar atrás - ordenou o capitão. Os unimogs roncaram nervosos na manobra. O Fantasma levantou a cabeça e latiu, inquieto, de orelhas espetadas. - Mais depressa. Cobriram seguramente dois quilómetros de picada sem encontrar vivalma. - Vamos voltar, não podem estar mais para trás disse o capitão, com voz insegura. A estupefacção pincelava todos os rostos. Ninguém se atrevia a aventar qualquer explicação. - Inverter a marcha - ordenou o capitão. Os unimogs tornaram a roncar. Todos se seguravam com força aos bancos, para não serem cuspidos.

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Manuel Carvalho Fernandes deu um pontapé ao Fantasma, que não parava de latir. O cão ganiu dolorido e enfiou-se debaixo dos bancos, junto ao caixote das fitas de balas da metralhadora. - Parece bruxedo - exclamou, banzado, Fernandes. Os unimogs voavam, de prego a fundo. Um quilómetro a frente, Mendes, que seguia no primeiro unimog, ao lado do condutor, julgou aperceber-se de qualquer coisa estranha mais à frente. Soergueu-se no banco, para fixar melhor, e só teve tempo de soltar um grito de alerta: - Trava! O condutor esmagou o travão e a viatura foi da rastos uma dúzia de metros. Imobilizou-se, por fim, a dois dedos travessos do unimog desaparecido que, vindo do capim, reentrava tranquilamente na picada. Logo depois, surgiu o unimog do capitão também na eminência de se enfeixar nos outros. Ficou atravessado na picada, num arremedo de pião. Os insultos choveram de todo o lado. - Cabrões! - Iam-nos matando a todos. - Bando de inconscientes. - Filhos da puta. O capitão saltou do unimog e correu, a espumar, para os prevaricadores. - Quem comanda esta viatura? - disparou. - Eu - respondeu o furriel Neves, calmamente. - Você vai ter de achar uma boa explicação, caso contrário vou tramá-lo, sem dó nem piedade. O pessoal já descobrira a pacaça morta em cima da viatura. A excitação era uma onda avassalante.

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Entre morros e capim - Fizeram parar a coluna por causa duma pacaça? continuou, encolerizado, o capitão. - É o cúmulo da bandalheira. Alferes Mendonça, é esta a disciplina do seu grupo? O capitão cedo se apercebeu que estava a falar para o boneco. Em catadupa, contavam-se detalhes da caçada. - Caiu que nem um tordo! Tenho a certeza que foi o meu tiro. - Deixa-te de bazófias. Toda a gente viu que foi o meu. - A bala no coração é minha, apostava a vida. - A outra também levou chumbo. - Vai morrer lá mais à frente. - Grande bicho. Custou a subi-la para o unimog. - O nosso furriel vagomestre Máximo é que vai gostar de toda estas carne. - Todos para as viaturas. No aquartelamento tratamos do caso - concluiu, impotente, o capitão, com a voz já amolecido pela certeza dumas boas arrobas de carne fresca.

Pacaça

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Manuel Carvalho

Américo pensava no filho quando a explosão o atirou ao ar. Caiu de costas na cama fofa do capim. Por um bom lapso de tempo não conseguiu raciocinar, os ouvidos numa zoada tremenda. Gradualmente, foi recuperando a lucidez. “Meu Deus! O que teria sido? Meus Deus, meu Deus, devo estar ferido. Será grave?” Vozes alvoroçadas subiam ao redor. “Meu filho, nunca mais te torno a ver”. Após mais uns minutos de imobilidade, apercebeuse que não sentia dores. Ousou mexer um pé, depois o outro, as mãos, o pescoço, o suor a cegá-lo. Sentou-se. “Meu Deus, estou vivo”. Pôs-se de pé. A zoada nos ouvidos parou. Finalmente, compreendeu que não estava ferido. Na picada sobrepunham-se ordens, gritos, correrias. “Foi uma mina, foi uma mina. Onde estará a minha G3? Se o capitão me apanha sem a arma dá-me uma descasca.” Reentrou na picada. - Há feridos? Ninguém lhe respondeu. O capitão, na berma da picada, acocorado sobre o rádio de transmissões, comunicava com a Companhia, numa voz despropositadamente alta. O Barão fumava um cigarro, com a G3 a servir de cajado. O enfermeiro punha um penso na testa do Costa. - Estou muito ferido? - perguntou este, pálido como um cadáver. 77


Entre morros e capim - Nem deita sangue. Feriste-te numa folha de capim. - Qual folha de capim, qual carapuça, isto foi um estilhaço, bem senti. O unimog atingido afocinhara, com os pneus da frente rebentados. Um cheiro intenso a borracha queimada pairava no ar. - Vem já aí o 2° pelotão socorrer-nos - anunciou o capitão, largando o rádio. - Alferes Mendonça, mande já os homens sair da picada e monte a segurança. Que bandalheira é esta? Só então Fernandes sentiu a falta do Fantasma. - O Fantasma? Onde tá o Fantasma? - Cagou-se todo com o medo e cavou por esses morros acima - troçou o Barão. Fernandes emitiu um assobio e esperou. Nada, do Fantasma nem sombras. - O Fantasma tá aqui. Em cima do unimog. Fernandes correu para a viatura danificada. Um grande novelo, branco e peludo, jazia sob os bancos. O animal não se moveu. - Fantasma! - tornou o dono, a voz sumir-se. Pegou-lhe por uma pata inerte e puxou-o. Estava morto. Um estilhaço perdido fizera um rombo na caixa da viatura e perfurara-lhe o peito, ao nível do coração. Fernandes continuou a puxar e o corpo tombou na picada com um baque surdo. Uma roseta de sangue alastrava pelo peito do cadáver, humedecia a terra esfarelada. Mendes pousou a mão no ombro do Fernandes. - Tem calma. - O que há aí? - interpelou-os o capitão. - Não ouviram as ordens? - O Fantasma morreu - disse Mendes. - Atirem-no para o capim. Antes o cão do que um homem. Mexam-se. 78


Manuel Carvalho - Ficaste viúvo, Fernandes - troçou o Barão. Surdo a tudo, Fernandes debruçara-se sobre o corpo do animal, os lábios agitados numa prece.

Patrulha do exército português

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Entre morros e capim

A

corda, Mendes, acorda! Vindo de muito longe, uma voz agreste, misturada com o ruído da chuva e o ressonar da caserna, martelavalhe o cérebro. - Acorda, pel’amor de Deus. Voltou-se para o outro lado e meteu a cabeça debaixo da almofada. - Acorda, acorda! Só quando se sentiu violentamente sacudido é que emergiu do sono, atarantado. - Acorda, Mendes! Finalmente, reconheceu a voz do Américo. Uma voz trémula, cheia de maus presságios. - Deixa-me dormir, pá. Vai chatear outro. - Mendes, vem depressa. É o Fernandes. Sentou-se na cama, num repente, assaltado por negros pressentimentos. Na escuridão, adivinhou o rosto transtornado do Américo, cheirou a tragédia. - O que foi? - O Fernandes está doido, quer matar o capitão. - O que é feito dele? - Sei lá! Levou a G3. Está perdido de bêbado. - Grande maluco. Às apalpadelas, enfiou as calças e calçou as botas. - Vamos depressa. A parada era um mar de lama. Na messe dos sargentos ainda havia luz. Deviam estar a jogar póquer ou simplesmente a embebedar-se. 80


Manuel Carvalho Agachados, encharcados até aos ossos pela chuva que tombava em catadupa, rodearam o pavilhão da enfermaria, cosidos à parede. A correr, atravessaram o descampado até ao edifício dos oficiais. A violência da chuva fazia-os bailar. Américo perdeu uma bota e ficou a praguejar, ao pé-coxinho, até que lá conseguiu encontrá-la. Quando a enfiou no pé, a lama espichou por todos os lados. Do quarto do capitão não se soltava o mínimo sinal. Devia estar a dormir a sono solto. - Onde estará metido o gajo? - Vamos pelas traseiras - opinou Américo. Tornearam o edifício. Finalmente, avistaram o vulto do Fernandes, espalmado contra a parede, junto à janela do quarto do capitão. - O que fazes aqui, pá? - interpelou-o Mendes, em surdina. - Girem - ordenou Fernandes. - Separava-os uma distância de três metros. - Vai-te deitar, Fernandes - gemeu Américo. - Desapareçam! Mendes fez menção de avançar. Fernandes deu um salto felino para o lado e alçou a arma. - Se dás mais um passo, estoiro-te os miolos. - Não te desgraces - implorou Américo. - Vão - se embora, isto não é da vossa conta. - Nós somos teus amigos, só queremos o teu bem continuou Américo. Subitamente, deixou de chover. Ficaram as cascatas de água a jorrar dos telhados. - O capitão não é o culpado da morte do Fantasma insistiu Américo. - Não teve nenhum respeito pela sua morte. Vai pagar por isso. 81


Entre morros e capim - Estás a ver mal as coisas. Mendes avançou mais um passo. Já distinguia, com nitidez, o vulto transtornado do Fernandes. - Nem mais um passo. Fernandes fez um gesto brusco e desequilibrou-se. Mendes não perdeu a oportunidade e atirou-se. Gritou de dor quando o ombro chocou contra a coronha da G3. Mesmo assim conseguiu filar a camisa do outro. - Vou-te matar, maldito - rosnou Fernandes. Rolaram na lama. Mendes sentia o hálito azedo do Fernandes escaldar-lhe o rosto. O ombro doía-lhe terrivelmente e já lhe faltavam as forças para afastar as mãos que, como víboras, lhe buscavam o pescoço. Nos baldões da luta, Fernandes escarranchara-se-lhe em cima. Mendes estrebuchou, tentava desalojar o adversário mas a lama não o deixava aplicar toda a sua força. A tenaz, à volta do pescoço, apertava cada vez mais. Subitamente, as mãos afrouxaram a pressão. Depois, Fernandes caiu para o lado, como um gemido débil. - Estás bem? Mendes abriu os olhos e compreendeu. Américo ainda conservava na mão o toro de madeira com que derrubara o Fernandes. - Levanta-te, este brutamontes quase te ia asfixiando. No quarto do capitão acendeu-se a luz. - Estamos perdidos - gaguejou Américo. Mendes reagiu imediatamente, não havia tempo a perder. - Vamos embora daqui. Vamos carregar o gajo. Não te esqueças da G3. Pega-lhe pelos ombros que eu pego pelos pés. Já se ouviam passos no quarto. - Rápido! 82


Manuel Carvalho Fernandes, coberto de lama era uma autêntica enguia. Aos tropeções, lá o foram arrastando. Mal tinham dobrado a esquina, a janela abriu-se e a voz do capitão esbofeteou-os. - Quem está aí? Está aí alguém? Os segundos escorriam como horas. Finalmente, sentiram o ruído da janela a fechar-se. Deixaram o corpo tombar como um saco e, amparados à parede, escorregaram até ao chão. A água da chuva já não jorrava dos telhados e as estrelas brilhavam. Uma paz cálida cobria tudo. - Que grande sarilho. - Mendes sorriu. - Quem é que depois iria tocar realejo nas nossas farras?

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Entre morros e capim

Era uma hora morta no refeitório. Terminado o almoço, as crianças da sanzala também já tinham partido com as suas latas cheias com os sobejos da refeição. Somente por ali ficara Nunes, em concentrada leitura. - Eh, Nunes, andas a estudar para doutor? - troçou o Barão, de passagem para a cantina, esticando o pescoço para o livro que Nunes pousara sobre a mesa. Nunes cobriu a capa com as mãos quando o pressentiu. - Mostra lá isso que andas a ler - insistiu o Barão, atiçado. - Até do teu grande amigo Barão guardas segredos? Nunes acabou por ceder e retirar as mãos, os seus olhos bovinos ergueram-se do livro. - Vais ser o primeiro a saber. Este livro é um manual de instruções. Ando a aprender como fazer tatuagens. O Barão ficou boquiaberto, incapaz de soltar uma das suas chalaças. - Ó Nunes, com esta é que tu me apanhaste, bem apanhado, não contava com isso vindo de ti. Nunes já não o ouvia. Mergulhado de novo no livro, folheava amorosamente as páginas coloridas repletas de imagens com os mais variados temas: animais, aves, pessoas, paisagens, um nunca mais acabar de desafios à imaginação. - Alto, aí! Pára, não avances mais - deteve-o o Barão, entusiasmado.- É essa gaja nua que tu me vais tatuar

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Manuel Carvalho nas costas. Mas só quando estiveres bem treinado, já sabes que com o Barão, as coisas têm de ser perfeitas. Nunes resplandecia, acariciava a lombada do livro. - Ó Barão, vais ver como irá sair uma obra perfeita. Olha que eu na escola tinha muito jeito para o desenho. O Barão ainda tinha reticências. - Acredito em ti mas será só quando ensaiares os teus conhecimentos aí numa boa dúzia de cobaias. Quando eu verificar que estás preparado, logo te direi. E já agora, veio-me à cabeça uma grande ideia: que tal montarmos um negócio? Vamos encher esta malta da tatuagens e nós vamos ficar ricos enquanto o diabo esfrega um olho. Tu tratas de fazer as tatuagens e eu trato da gestão. Mas agora vamos até ali à cantina beber uma cerveja. Pagas tu. Não podes estar sempre agarrado aos livros. Ainda dás em chalupa.

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Entre morros e capim

O furriel vagomestre Máximo estava quase a rebentar pelas costuras. Farto de ouvir críticas sobre a qualidade do rancho. Farto das piadas parvas dos camaradas na messe. Farto de passar os dias enclausurado no arame farpado do quartel. Cada vez mais esmorecido, cravava o olhar sedento de liberdade na vastidão dos morros azulados que rodeiam o aquartelamento. Invejava a azáfama das partidas e chegadas dos grupos de combate, sempre com peripécias novas para contar. Até que certa manhã, num repente, uma ideia luminosa faiscou-lhe na cabeça. . Apanhou o capitão bem humorado na messe e explicou-lhe o seu plano de sair à caça à noite. - O meu capitão já avaliou o suplemento de carne que iremos conseguir para melhorar o rancho? O capitão passava a mão pela testa, indeciso. Por fim, cravou um olhar ainda relutante no subordinado mas o assentimento acabou por lhe cair dos lábios: - Lá me convenceu mas não descurem a segurança. Leva sempre, no mínimo, dez homens consigo. Máximo rejuvenesceu, perdeu o ar acabrunhado que já despertava a troça no aquartelamento, ganhou novas cores, nova vida. Com a promessa dumas cervejas, uma ou duas noites por semana facilmente encontrava voluntários para o acompanharem. Manejado com mão de mestre pelo Pacaça, que se tornara imprescindível nas sortidas, o facho de luz do faro86


Manuel Carvalho lim, impiedoso, varria o capinzal, até esbarrar com um par de olhos coruscantes. Num sinal pré-combinado, Máximo dava uma palmada nas costas do condutor que detinha, de imediato, o unimog. O par de olhos continuava lá, encandeado, subjugado pela destreza do Pacaça. Máximo sentia o dedo a formigar quando o curvava para o gatilho. Era um ritual quase litúrgico. O disparo rasgava a noite como um orgasmo incandescente. Desciam, velozes, da viatura. Geralmente era uma gazela que tombava, por vez um burro do mato ou até mesmo um javali. Chegavam ao aquartelamento envoltos numa aura de triunfo. Máximo irrompia, com a G3 ao ombro, messe adentro. - Desta vez foi um elefante? - troçava Reis. - Pinto, abre-me aí uma cerveja que venho a morrer de sede. - Olhava os camaradas do alto da sua petulância.Se não fosse eu, esta malta morria à fome.

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Entre morros e capim

Estava uma noite negra como poucas. - Bela noite para ir à caça - comentou o furriel Máximo. - Estão prontos? - Em cima do unimog que já roncava, ansioso, os voluntários do costume assentiram. - Pacaça, o farolim está funcional? Vamos. O uminog passou pela porta de armas, fez-se à picada. Prontamente, as luzes da periferia do aquartelamento foram engolidas pela escuridão. - Apaga os faróis. O Pacaça acendeu o farolim que logo, guloso, se pôs a vasculhar o capinzal em rajadas rápidas de luz. O unimog deslizava lentamente, como uma cobra matreira no encalce da sua presa. Um quilómetro mais à frente, subitamente, o condutor meteu os travões a fundo. - O que foi?- perguntou Máximo, intrigado. - Chiu, meu furriel, é uma manada de elefantes. O Pacaça apagou rapidamente o farolim. Todos arregalavam os olhos, tentando perfurar o negrume da noite. Aos poucos, fora reconhecendo os vultos enormes dos paquidermes que atravessavam a picada dez metros adiante. A manada engrossava, já rodeava o unimog, casca de noz a afundar-se naquele mar imenso e ondulante. Costa sentia os dentes a ranger como castanholas. “Nossa Senhora de Fátima nos acuda…”- Era uma reza interior que nem lhe chegava a aflorar os lábios. “Prometo ir a pé a Fátima, mal chegue a Portugal.” 88


Manuel Carvalho Os vultos quase roçavam a caixa do unimog, enormes como montanhas, as trombas resfolegantes alçavam-se à altura das caras dos homens, os berros estridentes que soltavam estrugiam por todo o lado. Após uma eternidade de dez minutos, o bramido dos animais foi-se diluindo, a restolhada cada vez mais distante. A manada, indiferente à presença humana, afastava-se paulatinamente. Até a noite parecia mais clara. - Escapámos de boa - respirou fundo o furriel Máximo. - Tão cedo não me torne a falar de caçadas - desabafou o Pacaça. - Toca a andar para o quartel - ordenou Máximo. Para susto já nos chega. Hoje podem beber o que quiserem, à minha conta. *** Mal chegaram ao aquartelamento, Costa não perdeu tempo, a esferográfica, inspirada, a deslisar sobre o papel: “Maria da Luz, Esta noite, só não matei um elefante porque o furriel Máximo não me deixou atirar, tinha-o mesmo na mira da G3, era trigo limpo…”

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Entre morros e capim

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- oão Moreira. - Pronto! - Carlos Afonso. - Estou aqui. Empoleirado numa mesa do refeitório, qual deus louco, o cabo-cripto Ruivo semeia, às mãos-cheias, a alegria e a tristeza, as lágrimas e os risos. - Pedro Antunes. - Eu... - José Fernandes. - Dá cá. Mãos nervosas como gadanhas. Dedos hirtos que se engalfinham nas cartas e aerogramas. Ruivo era o tipo mais importante da Companhia. Ou, pelo menos, assim o cria. Era ele que estava incumbido da distribuição do correio que o avião trazia duas vezes por semana de S.Salvador, juntamente com os frescos. O avião chegava geralmente por volta das onze horas da manhã e rasava duas ou três vezes o aquartelamento, com as goelas abertas, a dar tempo que se montasse a segurança à pista. Enquanto o furriel vagomestre Máximo procedia à conferência da carne e do peixe, o Ruivo recebia das mãos do piloto o saco do correio. Aquele saco era um coração gigantesco, palpitante, poderoso. O principal sustentáculo da Companhia. Mais do que as G3 e a cerveja, as metralhadoras e os cigarros, os morteiros e as negras da sanzala. 90


Manuel Carvalho - Hoje pesa - dizia invariavelmente o piloto. - Deve vir cheio de cornos – gracejava, por sua vez, Ruivo. Concluída a transacção do correio e dos frescos, a D.O. começava a deslizar pela pista e dentro em pouco não era mais do que um mosquito zumbidor rumo a S. Salvador. O pessoal da segurança saía do capim e saltava lesto para o unimog que arrancava de prego a fundo para o caldeirão ao rubro do aquartelamento. - Américo Pereira. - Aqui. - Carlos Marecos. - Viva! Restam três cartas. As unhas cravam-se nas palmas das mãos. Os rostos contorcem-se em esgares doloridos. Ruivo passeia um sorriso displicente por aquele mar de olhos esgrouviados e acaricia o magro monte de correspondência que resta com artifícios de amante sabido. - Despacha-te... pá! - Calminha..., tens tempo de saber que o teu filho já chama pai a outro. - Vai gozar com a tua avó. O litúrgico deu lugar ao burlesco. Ruivo procura escamotear o tempo, prolongar o seu reinado. - Daqui a nada tás a apanhar um borracho nos óculos. Atingido o ponto crítico de ruptura. Era perigoso ir mais além na troça. - José Mendonça. - Até que enfim. - Pedro Moreira. - Uf...! - Manuel Augusto. 91


Entre morros e capim - Mas... não há mais nada...? - pergunta uma voz incrédula. - Nada mais. Começa a procurar outra que essa já te pôs os cornos. Há rostos lívidos de angústia, sorrisos rasgados de orelha a orelhas, dorsos quebrados de solidão, olhos refulgentes de alegria. “Sou o tipo mais importante da Companhia” - conclui, mais uma vez, Ruivo.

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Manuel Carvalho

Pereira contemplava, baboso, a fotografia da oitava madrinha de guerra, acabada de chegar. - Para que queres mais uma madrinha? - estranhou Mendes. - Dizias que era uma para cada dia da semana e, que eu saiba, a semana só tem sete dias. Pereira beijou o retrato, regalado. - Sempre é bom ter uma suplente - esclareceu. - Supõe tu que uma delas morre. Ficava descalço. - Tás mesmo cacimbado. *** Costa recebera carta do irmão. Ficou inquieto, vagamente perturbado. O irmão não era homem para lhe escrever só por escrever. Alguma coisa séria seria. Sentou-se no beliche e rasgou o envelope, ansioso. Mal leu as primeiras frase, as mãos começaram a tremerlhe, os olhos a saltar as linhas, cegos de lágrimas: “Querido irmão, peço a Deus que te encontres de boa saúde, nessas terras do diabo. Resolvi escrever-te para te contar certas coisas tristes que por cá se passam, pois é melhor ser alguém da família a a contar-to do que um estranho. A tua mulher, a Maria da Luz, não se tem portado nada bem. Anda de cabeça perdida desde o teu embarque, metida com um gajo casado, lá na fábrica”. Amarfalhou a carta, o peito esmagado por uma mão enorme que apertava, apertava, a cabeça a chocalhar, tudo a girar em turbilhão. Tombou na cama e enterrou a cabeça na 93


Entre morros e capim almofada, numa quietude de morto. A carta soltou-se dos dedos enferrujados. *** O Barão lerpara mais uma vez. Com um cigarro nos lábios, deambulava pela caserna, envenenado. - Eh, Pereira, essa madrinha de guerra tem cara de bota da tropa. - Ó Américo, o teu filho já chama pai a outro? Ao rés da cama do Costa, a carta amarrotada despertou-lhe a atenção. Deu uma olhadela intrigada ao Costa, que continuava imóvel, e agachou-se para apanhá-la. Afastou-se um pouco, por precaução, e alisou meticulosamente a folha antes de a começar a ler. Um sorriso sardónico atravessou-lhe a cara de orelha a orelha, os olhos a saltarem das órbitas, os lábios a enrolarem gulosamente as palavras. Deu dois saltos para o meio da caserna. - Prestem atenção, meus senhores - bradou como um arauto. – Tenho a honra de vos anunciar que o nosso querido pelotão tem mais um cornudo nas suas fileiras. Prestem atenção, por favor: querido irmão, peço a Deus que te encontres...Aiiii! O uivo medonho do Barão rasgou os ouvidos atentos do pelotão, ribombou pelo telhado de zinco, rastejou parada fora, sobressaltou as sentinelas nos postos de vigilância. Com o Costas às cavalitas, caiu de joelhos, a grunhir como um porco na matança. A carta planou por instantes e aterrou suavemente na cama do Fernandes. - Ai que ele mata-me..ai...ai...acudam-me. Costa não deixava a presa, os dentes bem cravados no pescoço do adversário. - Ai Jesus - gemia o Barão, lavado em lágrimas -, este gajo mata-me. Ai..ai...

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Manuel Carvalho Ninguém dava mostras de intervir, as gargalhadas a estoirar por todos os cantos, até que, por fim, Mendes pôs cobro ao espectáculo: - Deixa-o, Costa! Larga o gajo. Costa rilhou os dentes com um rugido feroz e, por fim, soltou a presa. Mudo, correu para a cama e voltou à letargia anterior. Barão gemia lastimosamente, agarrado ao pescoço. Mendes ajudou-o a erguer-se e arrancou-lhe a camisa. A mordidela saltou, sanguinolenta. - Isto está feio, vai já à enfermaria. - Tás tramado, pá. O Costa tá com a raiva. E as gargalhadas tornaram a rebolar caserna fora.

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Entre morros e capim

Desde a morte do Fantasma, Fernandes nunca mais olhara para o realejo enterrado no fundo da mala. Os camaradas bem o desafiavam: - Fernandes, toca aí umas modinhas para animar a malta. - Vá lá, a malta já está com saudades de te ouvir. Nem respondia, pregava o olhar na fotografia do Fantasma colada na parede, ao lado da cama, e os olhos enchiam-se-lhe de lágrimas. Então das noites nem era bom falar, intermináveis, medonhas. Estendia a mão no escuro e a falta do contacto morno do animal, habitualmente deitado no chão, ao lado da cama, era insuportável, dolorosa. Eram estes pensamentos acabrunhantes que nessa manhã, após a distribuição do correio, mais uma vez o afligiam quando o Malacão entrou na caserna. - Fernandes, o capitão quer ver-te. Levanta os ossos aí da cama e vai já ao gabinete dele. *** - Entra, Fernandes, tenho aqui uma encomenda para ti - recebeu-o o capitão Rosado, num tom de voz jovial, pouco habitual. - Adivinha lá o que é. - Rapidamente, agachou-se e retirou de debaixo da secretária uma caixa de madeira que colocou em cima da secretária. - Chegou esta manhã na avioneta, de S. Salvador. Nem imaginas o trabalho que isto me deu, devia estar maluco para me meter numa aventura desta. Abre lá a portinhola. Fernandes, perplexo, estava especado frente à secretária, sem saber o que fazer. 96


Manuel Carvalho - Abre lá, rapaz, despacha-te. Quando o cachorrito, branco e felpudo, lhe saltou para os braços, o gabinete começou a girar à sua volta. Um nó ferrou-lhe as garras na garganta, quase que o sufucou. - Quando crescer, nem o vais distinguir do Fantasma. - continuou o capitão, divertido com a reacção que despertara .- Estás contente? Leva lá o bicho e vai apresentá-lo aos teus camaradas. **** Nessa tarde, a música do realejo voltou a ecoar pelos recantos da caserna. - Fantasma- dizia Fernandes-, hoje é um dos dias mais felizes da minha vida. - Apontava a fotografia pespegada na parede. - Conheces aquele cão? És tu, numa vida anterior. O cachorrito varria o chão da caserna com a cauda farfalhuda e pregava os botões negros dos olhos no dono que, para regalo do pessoal, em transe, pensamentos a desfilar em tropel, continuava a arrancar das entranhas do realejo as mais belas melodias que a memória guardara.

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Entre morros e capim

Na cantina o ar estava irrespirável, saturado de fumo e do cheiro espesso dos corpos transpirados. A cerveja escorria em catadupa pelas gargantas sequiosas. Os rostos brilhavam, acobreados. Falava-se de futebol, madrinhas de guerra, farrapos de conversas à solta, numa cacofonia ensurdecedora. A um canto, isolados, o Barão e Pereira travavam profunda conversa. - Queres ou não alinhar? - insistia o Barão. Pereira, testa retalhada de rugas reticentes, afagava as faces rosadas. - Não sei o que te diga, Barão. Não sei, pá. - Não sejas maricas. Bem sabes que com o Barão nunca há problemas. - E batendo no peito: - Este quando as faz é pela certa. - Eu sei, eu sei. O Barão jogou a última cartada: - Ainda estás com hesitações? Quando planeei isto, pensei logo em ti. Em ti e no Pacaça, mas esse barrasco agora passa a vida atrás das pretas, é um caso perdido. Ainda cheguei a penser no Fernandes mas esse ainda é pior, agora é um escravo do cachorro que o capitão lhe ofereceu. Vocês são os únicos gajos fixes da malta. Só com vocês é que eu alinharia nestas coisas. Pereira estava desarmado, até sentia uma ponta de comoção a apertar-lhe a garganta. - Pronto, tá combinado.

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Manuel Carvalho O Barão puxou do maço de cigarros. Ofereceu um ao camarada e estalou outro nos lábios. Com um gesto afectado, acendeu o isqueiro prateado. - Tás a viver à grande. O Barão sopesou, negligentemente, o isqueiro. - Nada de especial. - E num tom de voz desprendido: - Oferta duma miúda. Os olhos do Pereira reluziram, excitados. - Ó Barão, caralho, tu és uma máquina. Não compreendo como consegues essas coisas. O Barão atirou-lhe uma baforada para a cara. - Neste mundo, o que interessa é muita lábia e descaramento. Basta um gajo dizer a uma miúda que precisa dela, para ela nunca mais o largar. Esta já me anda a aborrecer, escreve-me cartas quase todos os dias. Se eu fosse chulo, dava-me tudo o que eu quizesse. E se tem grana, a miúda. O pai é peixe gordo. Lembra-me para eu te mostrar as cartas dela. Papel cor-de-rosa, perfumado. Pereira sorvia-lhe as palavras. - Rica!? - exclamou. E com a gula atiçada: - Não casas com ela? O Barão deu uma gargalhada divertida. - És taradinho? Pensas que eu me ia amarrar para toda a vida? Pereira ficou vermelho como um tomate. - Cada qual tem o seu modo de pensar. Eu, em chegando à terra, é logo. Arranjo uma rapariga da terra e não perco tempo. - Tens as tuas madrinhas de guerra. E as pretas… - Qual pretas! Não há nada como um pedaço de carne branca. Olha que uma boa mulatinha também não é de deitar fora. - Vamos beber mais uma cerveja - alvitrou Pereira. 99


Entre morros e capim Eh, Chico, tira aí duas nocais prá gente, das fresquinhas. - As fresquinhas já voaram todas. - replicou o cantineiro. - Têm muita sorte em ainda haver das normais. - Estes saloios não sabem o que é cortesia - rosnou o Barão. - Quando, na vida civil, fores para meu porteiro hásde lamber-me as botas. O cantineiro cacarejou. As banhas da barriga tremiam-lhe sob a camisa ensopada em suor. - Barão és aqui na tropa. Na vida civil eras um pelintra, andavas a pedir esmola. - A pedir esmola anda o corno do teu pai.

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Desde que tomara a sua resolução, o Pacaça era um homem tranquilo. Nos momentos de maior intimidade, acariciava o ventre sedoso de Maria, punha-se a sonhar. - Sabes, Maria, quando o nosso filho nascer, iremos os três a Portugal, à minha aldeia Iremos apresentá-lo aos meus pais. Irão ficar muito contentes por conhecer o neto. Como quase sempre, Maria não respondia. Aninhava-se contra o rapaz, gostava de sentir o seu cheiro, de escutar a voz cantante que lhe falava dum mundo tão longínquo, quase irreal, quase impossível. Naquela noite, o Pacaça estreitou-a ainda com mais força. Quero que o nosso filho se chame Manuel. É o nome do meu pai. Quando lhe escrever já lho vou dizer. Irá ficar muito orgulhoso. O Pacaça já estava a ver o pai, na sua velha aldeia, lá no planalto mirandês, a receber o aerograma, a correr para que o senhor Praça lho lesse, com lágrimas de alegria a saltarem-lhe cara abaixo. “Bamos tener mais un mirandés na família, carai“seria só o que conseguiria dizer. O Pacaça soergueu-se no catre quando ouviu uma restolhada. Intrigado, foi espreitar à porta da cubata. Mesmo no escuro, não tardou a reconhecer os vultos agachados do Barão e do Pereira. “O que andarão estes dois melros por aqui a fazer? “ Vestiu os calções e foi-lhes no encalço. Não levou muito tempo a adivinhar quais eram os seus intentos quan101


Entre morros e capim do os viu encaminhados para o galinheiro. Saltou-lhes à frente. - Boa noite, meus senhores. - És tu, Pacaça? - suspirou de alívio o Barão quando o reconheceu. - Espetaste-nos cá um cagaço. Não fales alto e junta-te à malta se quiseres comer uma boa petiscada. O Pacaça barrou-lhe o caminho. - Têm um minuto para desaparecer. - Oh, Pacaça, endoideceste? - alarmou-se Pereira. - Desapareçam. Já ladravam cães. Vultos começavam a sair das cubatas. Vencidos, os salteadores deram meia volta e regressaram, com o rabo entre as pernas, ao aquartelamento. Pelo caminho, o Barão rosnava ameaças. - Esse traidor vai pagá-las. - Olha, Barão, deixa lá. Foi melhor assim, até acho que o Pacaça nos salvou duma grande alhada. O Pacaça regressou aos braços de Maria, invadido por estranha emoção que sentia dificuldade em arrumar na cabeça. “Esta também é a minha gente”- era a definição mais aproximativa que lhe atravessava o espírito.

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Das mãos do Nunes começaram a jorrar enxurradas de obras cada vez mais ousadas. À medida que a sua técnica se apurava, já se arrojava a combinar cores, a transformar figuras, o seu imaginário a irromper indomável à tona do maravilhoso mundo da criatividade. A princípio, limitara-se a tatuar uns corações, alguns mapas, datas, frases impregnadas de saudade: amor de pai e mãe; sangue suor e lágrimas; Angola, por ti lutei. Coisas simplórias. Mas quase sem se aperceber da transformação, a sua criatividade transbordou, os corpos dos camaradas transformaram-se em telas onde derramava, profusamente, tudo o que lhe escaldava a mente e que saltava cá para fora em impulsos indomáveis. Quando alguém, surpreendido pelas tatuagens cada vez mais extravagantes, punha em dúvida o seu talento, saía fora dos eixos, os seus olhos bovinos perdiam a mansidão, eram faróis coruscantes a dardejar fúrias incontroladas. - Cambada de cretinos, de ignorantes, nem sequer sabem reconhecer o talento dum artista. Deixou crescer uma barbicha que lhe dava um ar excêntrico a condizer com a nova fosforescência dos olhos. - Vocês sabem como são os artistas - desculpava-lhe os excessos o Barão, arrebanhando as notas das mãos dos clientes que cada vez acorriam em maior número a submeter-se aos arrebatamentos do Nunes.

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Entre morros e capim A afluência engrossou a tal ponto que o capitão Rosado teve de pôr cobro ao exagero: - O máximo que eu permito são duas tatuagens por pessoa. Tu, Nunes, ficas responsável pelo cumprimento desta regra. Nunes, que, cada vez mais delirante, sonhava tatuar todos aqueles corpos da cabeça aos pés, deitou-lhe um olhar turvo. “Ninguém compreende os artistas”- abanava a cabeça, desolado. Ele, que era quase abstémio, passou a beber desregradamente, acossado por sede inextinguível. - Os verdadeiros artistas são todos assim - justificava-o o Barão. - Quanto mais bêbado está, melhor trabalha.

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A canícula calcinava. A luz crua do dia reverberava no capim, feria os olhos. A patrulha serpenteava morro acima. Penosa ascensão. Por vezes, o capim, grosso como canas, encobria os homens e só se ouvia o espadanar da catana rasgando caminho. Chegados ao alto do morro, toucado por árvores raquíticas, o alferes Mendonça deu voz de descanso. Os homens, arfantes, olhos congestionados, cegos pelo suor, desenvencilharam-se das mochilas e estenderam-se sobre o capim aqui mais ralo. - Vamos almoçar aqui. Passem a palavra. - Um rumor de regozijo percorreu o grupo. Todos procuraram as magras sombras. As rações de combate surgiam do fundo das mochilas. - Quem quer trocar lata de sardinhas? - perguntou o Barão, abrindo o saco. - Vai chatear a tua avó, cabrão - respondeu uma voz agreste. - Duas latas de sardinhas por uma de chouriço - reforçou o Barão. - Passa cá - aceitou o Pacaça. - Quando chegar a Portugal, nunca mais quero ouvir falar de conservas - lamuriou-se outro. - Cala a cloaca! Na tua terra só comias bolota - troçou o Barão. - Vamos lá calar - admoestou o furriel Neves. - Isto não é um bordel. 105


Entre morros e capim - Antes fosse - suspirou Pereira. - Cardoso! - chamou o alferes. - Diga, meu alferes. - Quando acabares de comer, comunica com o aquartelamento. - Ok, meu alferes. - Pede que mandem um helicóptero com duas grades de cerveja fresquinha... - E umas garotas... - Leão...leão...águia chama. Leão...leão...águia chama. Diga se me ouve. Escuto. - Estão a dormir a sesta. - Leão...leão... À medida que iam acabando a refeição, cada qual se estendia para o seu lado, a cavaquear e a fumar. - ...Águia chama. Diga se me ouve. Escuto. - Deixa lá, Cardoso. Tornas a chamar mais tarde decidiu o alferes. - Como queira. O alferes encostou-se a uma árvore e pôs-se a estudar a carta topográfica. As vespas zumbiam, em nuvem, ao redor das latas vazias. Uma águia planava lá no alto. O Barão acercou-se dum grupo onde se encontrava o Pacaça. - Quem tem um cigarro? - Já andas na crava, Barão? - troçou o Pacaça estendendo-lhe o maço. - Vai bardamerda. Quantos cigarros já me fumaste? O Barão tirou um cigarro que acendeu prontamente. Soprou uma fumaça e deixou-se cair sobre o capim. - Porca de vida. - Cinco minutos para preparar - bradou o alferes.

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Manuel Carvalho - Quem é que teria inventado a guerra? - filosofou uma voz aborrecida. De má vontade, puseram-se a apertar as bocas dos sacos e a afivelar as cartucheiras. Sacos às costas, as G3 no ombro, davam as últimas fumaças. - 1ª secção à frente - ordenou o alferes. Começaram a descer o morro. A meia encosta principiava a mata que debruava o rio, segundo a carta e as contas do alferes. Em breve, o calor ficou para trás, sob o tecto verde. Era uma transição brusca, de quem passa subitamente do inferno para o céu. A princípio, foi preciso cortar algumas lianas mas logo o caminho ficou desimpedido, as árvores mais espaçadas, o chão atapetado de folhas mortas. Alguns rasgos no tecto verde entremostravam o céu azul, puro, distante. Pairava no ar um ténue cheiro a matéria em decomposição. O rio corria turvo, largo. Na outra margem, a mata era densa, insondável. *** E subitamente o ataque. -Ui - berrou Costa, contorcendo-se numa acrobacia frenética. Não houve tempo para compreender a situação. Alguém pisara um ninho de formigas quissongo. Em poucos segundos, o grupo de combate ficou destroçado. Mochilas, armas, cantis, cartucheiras, roupas, corpos nus nas mais grotescas posições, um alarido que alarmava a passarada empoleirada nos ramos das árvores. As quissongo, enfurecidas, trepavam pernas acima, ferravam as mandibulas vorazes nos testículos, nas barrigas, nos peitos, nos braços, em tudo o que era carne mole. Findo o ataque, só se ouviam gemidos, lamentos. 107


Entre morros e capim - Toca a vestir e a apanhar os equipamentos, cambada de maricas - vociferava o alferes Mendonça. - Pensam que isto é um espectáculo de striptease? Aqui não há gajas para vos admirar. - Estou todo mordido - gemia Costa. - Devem-me ter devorado mais de um quilo de carne. - A parte de que elas mais gostam para espetar a ferroada é nos tomates - soprava o Pacaça, enfurecido, a acariciar as partes. - Lá vais estar tu mais de uma semana sem poder montar a Maria - troçou o Barão, arrancando uma última cabeça de formiga que lhe enterra as mandíbulas num braço. - Deviam era ter-te cravado as pinças na língua rosnou o Pacaça. - Toca a andar - ordenou o alferes. - Avança, Pacaça. *** Seguiam ao longo do rio, sem pressas. Por vezes era preciso transpor um ou outro riacho que vinha desaguar no rio e aproveitavam para atestar os cantis e para refrescar os rostos. À cabeça da coluna, o Pacaça, de catana em punho, por desenfado, cortava uma ou outra liana mais atrevida que tombava das árvores. Sentia-se a rebentar de energia, a passada larga. - Mais devagar, Pacaça - implorou Nunes. O Pacaça deitou-lhe uma mirada trocista e abrandou o passo. - Isto não é para artistas, é para homens com eles no sítio. Inclinou-se para a frente para vencer uma pequena elevação. Ao chegar ao alto, arregalou os olhos, boquiaberto. Lançou-se imediatamente ao chão. Bateu com o queixo 108


Manuel Carvalho no manobrador da G3 e engoliu a dor. Sentiu a restolhada do pelotão imitando-o. O alferes Mendonça rastejou até junto dele. - O que há? - Veja. Lá à frente, numa clareira mais folgada, sob o cerrado tecto das copas de árvores de grande porte, amontoavam-se meia dúzia de palhotas. Ao redor, uma pequena plantação de mandioca e de tomates. Não se vislumbrava vivalma, num silêncio sem pássaros. A separá-los, por entre juncos, corria um ribeiro tranquilo a caminho do rio. O furriel Meneses juntou-se-lhes. - Há problemas? O alferes limitou-se a esticar o queixo. - Não se vê ninguém, o que vamos fazer? - ciciou Meneses. - Por precaução, o melhor é uma secção ir fazer o envolvimento - decidiu o alferes. Não estejam os gajos emboscados do outro lado. Nós ficamos a protegê-los. Avance com a sua secção. Meneses retrocedeu até junto dos seus homens. Uma mescla de ansiedade e curiosidade saltava de todas as caras. - Há um acampamento ali à frente. Parece abandonado mas, por questão de segurança, a nossa secção vai inspecionar o terreno. Os homens do furriel Neves tomaram posição, cosidos às irregularidades do terreno, as armas apontadas ao acampamento. - Preparados? Vamos! - ordenou Meneses. Correram agachados, ziguezagueantes, por entre as árvores, os dedos colados aos gatilhos. Ao chegarem ao regato, hesitaram, agacharam-se nos juncos.

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Entre morros e capim - Vamos atravessar por equipas. Primeiro a tua, Nunes - comandou Meneses. Os homens entraram na água, resolutos. A meio do leito, a água dava-lhe pelos joelhos. Costa escorregou numa pedra, deu três ou quatro passos em falso e foi-se esborrachar contra as costas graníticas do Pacaça. - Queres uma bóia, pá? - troçou este. Chegados à outra margem, espalharam-se, cosidos às árvores. Nunes fez sinal à outra equipa para avançar. A pequena plantação de tomateiros estendia-se até às palhotas, vinte passos adiante. Tudo estava calmo, num sereno contraste de luz e sombras. Os tomates avermelhavam na ramagem verde. Para a esquerda, as folhas serrilhadas do mandiocal vergavam-se frescas para o chão. Por um rasgão no tecto vegetal, o sol jorrava poalhas de ouro na prata do ribeiro. - Como isto é tranquilo - embebeceu-se Américo, a arma apontada ao bojo da mata. *** Passaram as palhotas a pente fino. - Deserto! - desabafou, desapontado, o alferes Mendonça que chegara com os restantes homens do pelotão. A tensão acumulada começou a esboroar-se e as conversas irromperam em balbúrdia. - Calados! - bradou o alferes. - Furriel Neves, espalhe os homens. - O que vos parece isto? - perguntou, dirigindo-se aos furriéis. - Parece-me que isto é um acampamento de passagem - disse Neves. - Estava abandonado quando chegámos, não há indícios de fuga precipitada. Não há pegadas frescas. - Acampamento de passagem? - estranhou Meneses.

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Manuel Carvalho - Uma espécie de estalagem a meio da viagem esclareceu Neves. - Descansam aqui e prosseguem a viagem. Mendonça levantou os olhos para o tecto vegetal. - Os aviões podem passar por aqui milhares de vezes que não topam nada - observou. Costa aproximou-se, esbaforido. - Meu alferes, descobrimos um trilho. - Vamos ver. Atravessaram, a correr, a lavra de tomates que se esparramavam em manchas sanguinolentas. - Veja, veja! - dizia Costa, agitado. Na verdade, um trilho bastante batido, saía da mata para o capinzal. - Isto deve levar a algum lado - entusiasmou-se o alferes. - Barão, Fernandes, deitem fogo às palhotas. Rápido, vamos prosseguir. - Vai ser um espectáculo em grande - rejubilou o Barão. - Vai dar para assar sardinhas como na noite de S. António. - Qual é o seu plano? - desconfiou o furriel Neves. Devíamos comunicar com a Companhia e explicar o que se está a passar. - Quem é o comandante do pelotão? Eu ou vocês? Havia um brilho estranho nos olhos do alferes. Neves voltou-lhe as costas, desabridamente. As chamas irrompiam, vermelhas, tentaculares, num estrelejar de ramos e folhas secas. Envoltos na fumarada, archotes em punho, o Barão e Fernandes saltavam de palhota em palhota. - Quem quer estrelar ovos? - ouvia-se a voz do Barão. - Saiam daí, seus burros - gritou-lhes o furriel Meneses -, ainda acabam feitos frangos de churrasco. 111


Entre morros e capim Os incendiários emergiram do braseiro, chamuscados, a tossicar. Quem não tem fósforos pode aproveitar para acender o cigarro - ainda teve forças para pilheriar o Barão. Primeira secção à frente. Vamos seguir o trilho gritou Mendonça. - Avança, rebenta-minas - troçou o Barão. *** Pacaça investiu trilho fora. Sentia-se estuante de força. A balançar contra a coxa, o cantil atestado de água fresca, redobrava-lhe o vigor. A meio da coluna, atrás do transmissões, Américo cismava na quezília do alferes Mendonça com o furriel Neves. Dava razão ao furriel. Era, na verdade, um suicídio seguir o trilho. Lá mais para diante, a luz intensa indicava que em breve sairiam da mata para o inferno do capinzal. Foi quando a explosão estrugiu os ares. O Barão sentiu um bafo quente aflorar-lhe o rosto e qualquer coisa, talvez um seixo, bateu-lhe no peito. Atirou-se ao chão como os demais. Lá à frente reinava a confusão. - Enfermeiro! Ó Grilo! - gritavam. Américo levantou-se e correu para a cabeça do pelotão. Um pouco ao lado, o buraco da mina anti-pessoal ainda fumegava. Grilo chegou nesse instante. - Afastem-se! Deixem o rapaz respirar - ordenou, abrindo rapidamente a mala dos medicamentos. O alferes Mendonça, olhar aparvalhado, começou a dar ordens, como pedradas: - Vocês dois, montem a segurança ali à frente. Toca a dispersar, grande corja. Aqui não há maricas. - É grave? - perguntou Américo ao enfermeiro. O Pacaça gemia, desfalecido. 112


Manuel Carvalho - Se é grave? Tem os pés esfacelados. Vou-lhe fazer torniquetes para estancar a o sangue. Segurem-me aqui no frasco do soro. Neves voltou-se resoluto para o alferes. - Peça imediatamente a evacuação do rapaz. Não há tempo a perder. - Antes que o alferes ripostasse, ordenou: O Cardoso que venha imediatamente aqui. Cardoso acorreu, meio desequilibrado pelo sacolejar do rádio. Ajoelhou-se e alijou o aparelho do ombro. Mendonça sentiu que o comando lhe estava a escorregar das mãos. Ia repor tudo nos eixos, relembrar a hierarquia mas o olhar feroz do furriel Neves secou-lhe as ordens na garganta. - Certo - concordou. - Contacte a Companhia, Cardoso. - Leão...leão...diga se me ouve, escuto. - Que tal está ele? - voltou a interrogar Américo. Grilo abanou a cabeça, descoroçoado. - Tá a perder muito sangue. Vai ser difícil estancálo. - Leão...leão...águia chama. - Vais aguentar, não é Pacaça? - encorajou Américo. O ferido sorriu, lívido. - Não me dói muito...é grave? - Qual quê! Estás para lavar e durar. Pacaça cerrou os olhos, inane. - Aqui não consigo apanhar a Companhia - queixouse Cardoso. - Tenho que sair da mata. Mendonça aquiesceu com um aceno de cabeça. - Meneses, acompanhe o Cardoso com a sua secção.- Rascunhou a mensagem codificada numa ponta de papel. - Rápido. ***

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Entre morros e capim - Consegui - rejubilou Cardoso, limpando com as costas da mão o suor que o cegava - Atenção, leão, tenho uma mensagem urgente. Mandem cerveja, temos sede. Na mata, Grilo afagava a cabeleira empapada em suor do Pacaça. - Aguenta, rapaz, aguenta... Apertou os torniquetes e passou uma gaze embebida em água pelos lábios ressequidos do ferido. - Põe o frasco do soro mais alto, cabrão - gritou para Costa. Américo tirou a faca-de-mato da bainha e pôs-se a rasgar a casca duma árvore. Rasgões profundos e longos por onde escorria uma seiva escura. Como sangue. Estremeceu e embainhou a faca, com dedos trémulos. O alferes Mendonça passeava para trás e para diante. O olhar do furriel Neves perseguia-o, feroz. - Então? - perguntou, detendo-se junto do ferido. - Está com o pulso muito fraco - murmurou Grilo. - Mantém-no vivo, homem. Faz o impossível. A restolhada da secção do furriel Meneses sobressaltou-os. - Vão enviar um helicóptero - anunciou o furriel Meneses com uma pincelada de esperança na cara. - Vamos sair da mata - comandou o alferes. Improvisem uma maca para o ferido. - Já não é preciso, meu alferes - soluçou Grilo. - Já não é preciso. Mendonça ficou boquiaberto, um braço petrificado no ar. - Cabrões, apareçam - ululou Américo. - Alçou a G3 e despejou-a, de rajada, para o ventre da mata. - Covardes! Venham lutar cara a cara. A baba escorria-lhe pelos cantos da boca contorcida. A mata uivou ferida de mil ecos. Esvaziado o carrega114


Manuel Carvalho dor, atirou a arma contra uma árvore e lançou-se ao chão com um urro feroz. Ninguém se mexia. Como se a vida tivesse petrificado naquele recanto do mundo. Por fim, o Barão enfrentou a morbidez do instante: - Merda, somos algumas crianças? Parece que nem os temos no sítio.

Grupo de combate

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Entre morros e capim

O Barão deixou o pessoal de boca aberta quando no regresso de mais uma coluna a S. Salvador se começou a pavonear pelo aquartelamento com uma sofisticada máquina fotográfica a tiracolo. - Isto é o último modelo - explicava. - Japonesa, uma categoria. E, eufórico, máquina alçada, metralhava tudo e todos, de manhã à noite. Nunes começava a andar preocupado, até as tatuagens já não se saíam tão inspiradas. Certa manhã, apanhouo a fotografar a bandeira hasteada na parada e abordou-o: - Ouve lá, ó Barão, qual é a situação do dinheiro das tatuagens, nunca mais apresentaste contas. O Barão apontou-lhe a máquina fotográfica aos olhos. - Nem posso acreditar, estás a duvidar de mim? - Não é isso, Barão… - Eu compreendi muito bem, não confias no teu sócio. Pois fica sabendo que o nosso dinheiro está muito bem guardado no banco em S. Salvador. A render bons juros. Esta máquina comprei-a com a massa que a minha namorada me enviou de Portugal, ou pensaste que foi com o nosso dinheiro? A cara do Barão pingava tanta sinceridade que Nunes se arrependeu logo das suas dúvidas. - Desculpa lá, Barão, mas não estava a duvidar da tua honestidade. O Barão passou-lhe um braço pelo ombro. 116


Manuel Carvalho - Estás perdoado, continua a trabalhar como até aqui e irás ver que no fim da comissão teremos uma boa maquia para repartir pelos dois. Apaziguados, caminhavam em direcção à cantina. - Olha, Nunes, ainda não to tinha dito mas, já agora ficas a saber, tenho andado a pensar que, no regresso a Portugal poderíamos abrir, com o nosso dinheiro, uma loja de tatuagens. É uma coisa que começa a estar na moda e que poderá dar muito milho. Diz lá se o teu sócio não é um génio!

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Entre morros e capim

Malacão entrou no gabinete do capitão para dar a habitual sacudidela à poeira. - Dá licença, meu capitão? Sentado à secretária, o capitão Rosado não despregou os olhos da fotografia que segurava na ponta dos dedos. - Entra. Espicaçado pela curiosidade, Malacão rodeou, dissimuladamente, a secretária. O rosto bonito da mulher incendiou-lhe os olhos de gato com o cio. - Malacão! - Diga, meu capitão. - Esta semana vais fazer uma limpeza geral ao meu quarto. Uma limpeza esmerada, ouviste? - Os olhos dos dois homens continuavam pregados no rosto fresco do retrato. - Na próxima semana a minha mulher chega à Calambata e quero tudo a brilhar. Estás a ouvir? - Sim, meu capitão - assentiu Malacão sem mexer um músculo do rosto afilado. Só os olhitos faiscavam. *** Irrompeu na cantina, sem fôlego. - O que vens aqui cheirar, pá? - estranhou o Chico cantineiro. Tens a cerveja fresca que queres lá na messe. - Mete a tua cerveja no cu - ripostou Malacão escostando as costas arfantes ao balcão. Espraiou o olhar pela malta que beberricava, amorfa, as nocais e as cucas meio chocas. Tudo malta que lerpara. Aqueles que tinham rece118


Manuel Carvalho bido correio estavam a estas horas nas casernas, cada qual no seu casulo, a ler e a reler os aerogramas. - Quem não recebeu carta não precisa de ficar com essa cara de batata esborrachada - mofou. - Tenho notícias frescas, muito melhores do que as da santa terrinha. Até vão saltar. Só vos peço cuidado para não furarem o tecto com os cornos. - Não tarda nada tás com uma garrafa na fuça ameaçou um tipo do 4º pelotão. - Então segurem-se com força. Prá semana vamos ter a visita duma senhora branca, de carne e osso, boa com’o milho. Num repente, Malacão viu-se envolvido por uma dúzia de caras atónitas. - Ah, conta...conta. - Diz, pá, diz...ui…, se tás a reinar rebento-te a mona. - Poça! Isto é melhor do que receber dez cartas. Chico meteu uma cerveja gelada nas mãos do Malacão. - Bebe, bebe que bem mereces. - Deixem-me ganhar fôlego - pediu Malacão, saboreando a cerveja. - Todo eu tremo. - Não é para menos. Uma branquinha! Ui, Jesus! Malacão pousou a cerveja no balcão e desafiou: - Adivinhem quem é! - Mau! A malta conhece-a? - Não me digas que é a Flora, aquela valente puta velha de S. Salvador? - Essa já aviou cem batalhões. - Com aquele bandulho já deve ter feito para cima de mil abortos. - Qual Flora! Frio, muito frio. - Deixa-te de rodeios e diz lá quem é. 119


Entre morros e capim Malacão tornou a pegar na cerveja. Bebeu uma valente golada e varreu as caras com os olhitos amarelados a transbordar de lascívia. - Meus senhores, brevemente teremos cá, na Calambata, a mulher do capitão. O grupo ficou de olhos arregalados, os pedregulhos das palavras atravessados nas gargantas, incapazes de sair. - A...a…. Malacão acabou de sorver a cerveja antes de atirar para o ar mais um punhado de detalhes. - O capitão mandou limpar o quarto, a preceito, para quando ela chegar. Disse-me: quero tudo a brilhar. - E és tu que vais fazer a cama todos os dias? - Pois. - Vais mexer nos lençóis onde ela se deitou? - Vê-la descascada... - Até talvez te peça para lhe esfregar as costas depois do banho...essas senhoras são assim... Malacão crescia como um deus. - Que sorte! - Nem me obriguem a pensar nessas coisas, até se me turva a vista. Chico saiu de trás do balcão e esgueirou-se para a porta, a mão na algibeira. - Eh, onde vais Chico? Uma onda de risadas acompanhou-o até à porta. - Mais um aborto, eh, Chico!

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Manuel Carvalho

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into-me o culpado da morte do rapaz. Foi um capricho meu, uma birra de criança. É uma loucura rematada seguir um trilho do inimigo, até os manuais de instrução mais rascas dizem isso. Não chego a perceber o que me passou pela cabeça. - Esquece - atalhou Vasconcelos, pegando na ballantines e tornando a encher os copos. Já passava da meia-noite e o aquartelamento mergulhara em pesado silêncio. Só estavam os dois alferes na messe. O capitão recolhera cedo ao seu quarto. O alferes Coelho andava no mato. E o alferes Silva estava acamado com um forte ataque de paludismo. Com o uísque a roer as inibições, Mendonça experimentava um desejo galopante de desabafar, de desenterrar fantasmas. - Até ando com medo de me deitar. Na escuridão começo a pensar no rapaz, a bombardear-me com perguntas. - Já te passou pela cabeça que também me posso pôr as mesmíssimas perguntas? - Não percebo. - Os gajos das armadilhas. - Isso é outra história. Morreram quatro gajos, é verdade. Mas eram inimigos. Além disso, nunca os viste nem mais gordos nem mais magros. Nunca lidaste com eles, nunca lhes falaste. É como ler no jornal a notícia da morte duma centena de pessoas num cataclismo qualquer. Não nos afecta praticamente nada. O meu problema é dife121


Entre morros e capim rente. Eu conhecia o Pacaça, tinha-o como um excelente rapaz, era uma força da natureza. Não preciso esforçar-me muito para reconstruir a sua imagem, salta-me aos olhos. E isso dói. Não percebo como procedi daquela maneira. Havia qualquer coisa maligna a empurrar-me. O próprio furriel Neves estranhou a minha atitude e eu, sem lhe der ouvidos, cheguei até a irritar-me com as suas reticências. Nem tenho coragem de enfrentar o pelotão. Todos me consideram o culpado. Sinto os olhos cheios de rancor daquela malta a rasgar-me cá por dentro. A nossa relação futura nunca mais será a mesma. Tudo será diferente doravante. Mendonça calou-se. Encostou a nuca à parede e fechou os olhos. - Passo horas seguidas a tentar interpretar a minha reacção - prosseguiu. - Era óbvio que aquela decisão era uma loucura e eu não vi, estava cego. Vasconcelos desabotoou a camisa, acalorado, acariciou o estômago. Um sorriso perverso alongou-lhe o bigode. - Queres que te faça o diagnóstico? Mendonça continuava encostado à parede, agora com os olhos fixos no tecto. - Mais uma brincadeira das tuas? Mas diz lá. - Há quanto tempo não estás com uma mulher? Mendonça endireitou-se, irritado. - A que propósito vem isso? - Na mouche! - A palmada na mesa fez saltar os copos. - Aí está a causa de toda essa impulsividade. - Qual causa? Vasconcelos bebeu o uísque dum trago e afagou o bigode antes de cravar o olhar trocista no outro. - Perturbações psíquicas causadas pela ausência prolongada de relações sexuais. Terapêutica: uma hora na palhota duma preta. 122


Manuel Carvalho - Queres acabar com a brincadeira? Vasconcelos soltou uma gargalhada. Deu mais uma palmada na mesa que fez tilintar os copos. - Acertei mesmo no alvo, certo? Mendonça levantou-se com brusquidão. - Se preferes continuar nesses termos, vou-me deitar. Não estou para te aturar. - Eu não digo? Como explicas essa irritação crónica? - Queres conversar a sério ou não? Mendonça tinha-se levantado, crispado. - Senta-te, estava a reinar. Ainda não acabámos o uísque. Mendonça acedeu. Reatou a conversa. - Vou alterar as minhas férias. Quero gozá-las o mais depressa possível. Em Lisboa, longe disto tudo, talvez me consiga reencontrar. - Fazes bem, quando regressares já muita água terá corrido. Esta solidão, no meio de muita gente, é terrível, deixa as pessoas confrontadas com as suas contradições. Põe a nu a pergunta crucial: o que fazemos aqui? Faz-nos compreender o absurdo desta guerra. Inesperadamente, Vasconcelos desistiu de encher os copos. - Vou-me deitar. Não bebo mais. Merda pró uísque. - Eu vou fazer a ronda - disse Mendonça com voz tremida. O facto não passou despercebido ao outro. - Problemas? - Não...não é nada. Vai lá deitar-te. Vasconcelos insistiu: - Queres que te acompanhe? Mendonça enrubesceu, a boca arrepelada num tique. - Se queres... 123


Entre morros e capim - Se começas a recear os teus homens dessa maneira, estás liquidado. Mendonça enterrou a cara nas mãos. - O que queres que faça? É superior às minhas forças. Quando me aproximo dos postos de sentinela estou sempre à espera dum tiro. Não consigo controlar-me. Começo a pensar: esta malta odeia-me, à mínima oportunidade espetam-me um tiro. Não consigo arrancar esta obsessão da cabeça. - Que porra esta! Estou a ver que nem a terapia da preta te pode valer. Estás fodido, metido numa grande alhada.

Posto de sentinela

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Manuel Carvalho

A noite estava carregada de nuvens negras e pesadas prestes a rebentar. De tempos a tempos, ouvia-se o ribombar dum trovão lá longe. Relâmpagos recortavam contra o horizonte as silhuetas das casernas. O calor, carregado de humidade, asfixiava, punha as têmporas a latejar. Mendonça saiu do quarto furtivamente. Passou rente à messe dos sargentos, rodeou o edifício da enfermaria esbatido contra o céu de chumbo como um pagode e aproximou-se do posto de sentinela. - Sentinela - chamou. Lá do alto, chegou-lhe um arrastar de pés pouco apressados. - Ei! Quem vem lá? É o alferes Mendonça. É para te avisar que vou à sanzala. - Compreendido. Não há problemas. Mendonça enrubesceu no escuro. Deplorou o tom cúmplice que a voz do soldado velava. - Vou falar com o soba. - Comigo não há problemas - retorquiu, embrulhada numa pequena risada, a voz lá do alto. Sentiu-se impotente para ripostar. Embrenhou-se na noite. Mais do que uma vez teve a tentação de retroceder para o quartel que, envolto pela iluminação periférica, era rutilante jóia engastada na noite. Reminiscências fustigavam-no: farrapos de juras de fidelidade feitas à namorada, estilhaços de normas morais que pertenciam a outro mundo, tão distante e brumoso. 125


Entre morros e capim ` Entrou na sanzala. Novelos de fumo subiam dos telhados. Sombras, vozes, percorriam a noite. Um cão pôsse a ladrar. Procurou a cubata de Ana. Uma pálida claridade coava-se pelas frinchas da porta desconjuntada. Hesitou. Coseu-se à parede. O ridículo da situação incutiu-lhe coragem. Tamborilou na porta. - Quem é? - Alferes Mendonça. O vestido escarlate de Ana recortou-se no umbral. ` - Posso entrar? O assentimento veio mudo. Um candeeiro a petróleo bruxuleava, cobrindo de sombras as paredes descarnadas de adobes. Mendonça sentou-se no catre, na rigidez do colchão de capim. No chão, de terra batida, ainda fumegavam uns restos de lume. A um canto um monte de camuflados sujos à espera dos braços da lavadeira. - Vim-te fazer uma visita. Senta-te junto a mim. Ana obedeceu às ordens do alferes, com um olhar manso. O vestido subiu mostrando as coxas fortes e jovens. A mão do rapaz acariciou a coxa, tacteou o ventre, subiu ao encontro dos seios. - Despe-te. O corpo nu da rapariga era uma estátua esculpida em ébano. Mendonça despiu-se rapidamente e estendeu-se ao lado dela. Foi quando a imagem do Pacaça se entrepôs. - Veste-te! Um esgar de contrariedade arrepelou o rosto de Ana. Enfiou o vestido com mal contida irritação. - O nosso alferes tá a brincar. - Se eu te explicasse não compreenderias.

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Manuel Carvalho Mendonça vestiu as calças. Sacou da carteira e tirou uma nota. - Toma! - Não quero. - Não precisas de dinheiro? Amuada, Ana não respondeu. Sentou-se na cama. De pé, Mendonça passeou o olhar pela miséria que o rodeava. Pousou-o no vulto silencioso da lavadeira. - Ouve, Ana, gostas de cá estar? - Não, na nossa terra, era melhor. Por que nos trouxeram para aqui? Mendonça pensou, constrangido, em toda aquela gente arrancada brutalmente às suas terras ancestrais e espalhada, como gado, pelas diferentes sanzalas: Calambata, Madimba, Tamboco, Cuimba... Sob o pretexto de os furtar à influência dos movimentos independentistas. - É a guerra, Ana. - Nós não fizemos mal a ninguém. - Aqui estão protegidos dos terroristas. Logo se arrependeu de ter proferido tais palavras capciosas. Com certeza Ana tinha amigos, familiares, talvez o noivo entre os guerrilheiros. Era ridículo falar-lhe em protecção, em terroristas. Olhou-a nos olhos e, pela primeira vez, viu um estendal de privações a bailarem-lhe nos olhos. Atirou a nota para cima da cama. - Sabes, Ana, no fundo, embora não pareça, estamos no mesmo barco. Um barco em risco de ir ao fundo. Com a diferença de que eu viajo nos camarotes e tu no porão. No regresso ao quartel, indiferente ao dilúvio que o fustigava, a decisão estava tomada. Já não regressaria das férias. A fuga para França, os caminhos do exílio esperavam-no de braços abertos.

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Entre morros e capim

Pinto mastigava, lugubremente, o guisado. Nos últimos tempos, a alegria de viver parecia abandoná-lo. Já nem mesmo o privilégio de ser faxina na messe dos sargentos lhe levantava a moral. A cerveja sabia-lhe a mijo e os bifes a sola. Estava no ponto de invejar os operacionais. Pelo menos esses andavam no mato, visitavam outros aquartelamentos. Desopilavam. E ele? Era como se estivesse numa prisão. Os dias eram intermináveis e das noites nem era bom falar. - Tás cacimbado de todo - atiçava-o Malacão. “Não posso continuar assim” - resmungou, afastando da frente o prato quase intacto. Descascou uma manga e enterrou os dentes na polpa resinosa. Os fios enredaram-selhe nos dentes. Chateado, atirou o fruto para o balde do lixo. Com a ponta da faca, pôs-se a palitar os dentes. O monte de loiça suja atulhava o lava-loiça. “O Malacão não pense que vou lavar esta tralha sozinho.” Na verdade, nos últimos dias, mal acabava de servir o almoço aos oficiais, o Malacão eclipsava-se sem comer nada. Só reaparecia passado um bom pedaço, silencioso, esbranquiçado, com um apetite voraz como nunca tivera. Atirava-se à comida a ponto de rapar o fundo aos tachos. Para o obrigar a levantar da cadeira e colaborar na lavagem da loiça era um castigo. Só à força de palavrões. “Andará o gajo a pirar-se para a sanzala? Mas assim à luz do dia?”

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Manuel Carvalho Nesse instante, Malacão entrou sorrateiro como uma sombra. Agarrou o tacho e vazou o guisado para o prato. Começo a engolir fartas colheradas. A maça-de-adão subia e descia vertiginosamente. - Queres que vá à cozinha buscar outra tachada? troçou Pinto, começando a lavar a loiça. Malacão nem levantou os olhos do prato. - Outra tachada? - repetiu. Depois compreendeu: Vai pró caralho. Continuou a devorar o guisado. - Estou à tua espera para lavar a loiça. - As cadelas apressadas parem os filhos mortos ou malucos. - A tua mãe devia ser das apressadas. - Já tu não tens problemas desses, foste feito dum monte de merda. Pinto alvejou-lhe a cabeça com o esfregão. Malacão esquivou-se e o projéctil esparramou-se contra a parede. - Cegueta. Pinto bufava, congestionado. - Tás a ficar cacimbado de todo - comentou Malacão com um olhar compreensivo, sem deixar de mastigar. Tens falta de uma coisa que eu cá sei. - Se és tão esperto, diz lá o que é? - Chicha. - E tu, não tens? - Eu? Eu...pois claro...ou julgas que sou de pau? - Onde costumas ir à hora à hora do almoço, mal sais da messe? - não deixou arrefecer Pinto, com um ar velhaco no carão bonacheirão. Malacão encolheu-se como um coelho bravo. Suspendeu a colher entre o prato e a boca aberta. - Que paleio é esse?

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Entre morros e capim Pinto compreendeu que jogara uma cartada certeira e abocanhou logo a oportunidade. - Sei tudo - martelou. - Tudo...o quê? - Tudo. A colher regressou cheia ao prato. - Tudo!- repetiu Pinto. - A gaja é mesmo boa - confessou Malacão. Pinto teve a percepção de que estava no limiar duma descoberta mirabolante. Enxugou as mãos e sentou-se defronte do camarada. - Conta lá. - E tão branquinha! O sangue tingiu o rosto redondo do Pinto. - Tu...tu andas a comer a mulher do capitão!? Só então Malacão compreendeu que caíra numa esparrela. - Não sabes de nada - gritou, furioso. - Estiveste a tirar nabos da púcara.Vai lá lavar a loiça e deixa-me em paz. Pinto regressou ao lava-loiça, cabisbaixo. Os olhos matreiros do Malacão perseguiam-no. - Se continuares a lavar a loiça sozinho, talvez um dia destes te conte tudo. Já agora, traz-me um café e um conhaque.

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Manuel Carvalho

T

raz-me uma cerveja, Pinto - berrou o furriel Magalhães. - Há mais arroz? - perguntou o sargento Martins. - Não há, não, meu sargento. - E na cozinha? - insistiu o sargento. - Eu queria trazer mais, mas o cozinheiro não deixou - explicou Pinto. - Só quando chegar o 3º pelotão da Madimba é que sabem se sobra. - Ó Máximo, você está a cortar a ração? - Só assim é que ele pode comprar um carro quando chegar à metrópole - espicaçou o furriel Reis. O furriel Máximo ficava fulo com estes apartes. O suor borbotava-lhe na fronte e os olhos verdes agitavam-se nos óculos de míope. Ripostou com voz trémula: - O que me consta é que tu tens intenção de levar um unimog. Os unimogs estão sempre avariados porque estão a desaparecer peças constantemente. - Mais vale isso do que matar a malta à fome. - Lá isso é verdade - corroborou o furriel Magalhães. - Olha quem fala. Ainda esta manhã não havia nenhum rádio operacional para o 3º pelotão sair - intrometeuse o furriel Pinho. A discussão generalizou-se a toda a messe. Mais uma vez, a eterna guerra entre operacionais e especialistas. Gritava-se e gesticulava-se, o que deu tempo para o Pinto emborcar uma cerveja.

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Entre morros e capim - Vocês, os operacionais só servem para andar com a mochila às costas – gritava, exaltado, o furriel Reis. - Cala-te, rodinhas. És mecânico porque tiveste uma cunha maior do que uma berliet. Nunca tinhas visto um motor na tua vida. Vocês são todos meninos das cunhas. - E vocês nem essa esperteza tiveram - saltou o furriel enfermeiro Ribeiro. - Deus me livre de um dia cair doente. Este seringas era carniceiro na vida civil. Pinto já não estava a gostar nada da brincadeira. Aproveitara para dar uma espreitadela à messe dos oficiais e estes estavam prestes a terminar a refeição. A mulher do capitão até já pedira o café. “Mau, mau, se estes gajos não se largam, tou tramado”, cogitava, apreensivo, vendo a discussão cada vez mais acesa. Logo agora que, vencendo medos e fantasmas, decidira avançar com o arrojado plano de apanhar o Malacão e a mulher do capitão em flagrante delito. Quando já via tudo perdido, Malacão veio em seu socorro. Avançou messe adentro em passo desenvolto, com o ar circunspecto que sempre afivelava em tais circunstâncias. - Meus senhores - bradou. - O nosso capitão pede o favor de fazerem menos barulho. - Vêm? - exasperou-se o sargento Martins. - Estão sempre a dar oportunidades aos oficiais de nos pregarem raspanetes. - Eles que vão à merda - resmungou o furriel Máximo, ainda exaltado. - Ouvir raspanetes de garotos - lamentava-se o sargento. - Tenho filhos mais velhos do que eles. Malacão piscou um olho divertido ao Pinto.

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Manuel Carvalho “Nem sabes o que te espera, grande sacana” - sorriu este. - Então pensavas que era só para ti.”

Aquartelamento da Calambata

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Entre morros e capim

Teresa despira-se e aprontava-se para se refugiarna frescura dos lençóis. Habitualmente, aproveitava aquela paz depois do almoço, enquanto o marido e os alferes ficavam na messe a beber e a fumar, para saborear uma boa hora de repouso. Aquela incursão no teatro da guerra, que a princípio tanto a excitara, estava a tornar-se fastidiosa. O único atractivo que ainda perdurava naquela aventura era o prazer de ser o centro das atenções, de se sentir cobiçada por dezenas de olhos esfomeados. “Isto é um campo de concentração”- desabafava para o marido. “Eu bem te avisei. Mas não me deste ouvidos.” “ Sou caprichosa, bem sabes.” “Foi isso que me atraiu em ti.” Sorriu à evocação do galanteio do marido quando, repentinamente, a porta se escancarou e um soldado com o quico enterrado até aos olhos esgazeados e o pénis enorme a irromper da braguilha aberta, investiu quarto adentro. - Ei, o que é isto? - exclamou, assustada, cobrindo a nudez com o lençol. Pinto estacou como um boi na arena. Resfolegava, desorientado, alagado em suor, o sexo a murchar miseravelmente até só restar um apêndice que baloiçava flácido entre as pernas. - Quem é o senhor? - tornou Ana, já mais recomposta.

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Manuel Carvalho Pinto soltou um urro de animal ferido de morte e fugiu, tombando, na carreira cega, uma cadeira que se lhe atravessou no caminho. *** Empoleirado na sanita, recomposto da estupefacção inicial, Malacão estava prestes a rebentar de riso. Pulmões em brasa, as lágrimas saltavam-lhe dos olhos em catadupa. “Ai que eu rebento, ai que eu rebento” “Por fim, a gargalhada explodiu em ondas fragorosas que lhe deixaram as pernas a tremer como vimes. Pelo orifício, que abrira na parede entre a casa de banho e o quarto do capitão, por onde todos os dias espreitava a mulher, assistira, do princípio ao fim, ao monumental espectáculo do Pinto. Indefeso, foi submerso por nova avalanche de hilaridade. “Ai que eu rebento, ai que eu rebento.” No quarto, atónita, assustada, Teresa vestiu-se apressadamente e correu a refugiar-se na messe onde os oficiais travavam animada partida de póquer.

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Entre morros e capim

Formada na parada, a Companhia derretia sob a explosão do sol a pino. Tudo era branco, duma brancura que entrava pelos olhos e fritava os miolos. - Que será desta vez? - interrogavam-se todos. Coisa boa não é. O sol mordia as costas e o suor encharcava as camisas. Os alferes e os furriéis passeavam frente à formatura, com caras de caso. Até o sargento Martins levantara o nariz dos calhamaços da contabilidade e seguia o decorrer dos acontecimentos encostado à ombreira da porta da secretaria. Só o alferes Vasconcelos é que arvorava um sorriso trocista, francamente divertido com o espectáculo. Centenas de olhos permaneciam cravados na porta do gabinete do capitão, ansiosos por vê-lo surgir. - Tá a fazer render o peixe - murmuraram na última fila. - Silêncio - berrou o alferes Silva. - Este chicalhão também tá a precisar dum aperto rosnou uma voz. Contudo, a expectativa suplantava todos os rancores. Para o capitão ter mandado formar a companhia, o caso devia ser grave. Ninguém escapara, desde os cozinheiros aos enfermeiros, passando pelos básicos e faxinas. Somente as sentinelas permaneciam nos postos. Quando todos já começavam a desesperar, o capitão, irrompeu do gabinete em passo marcial. Sob a boina, apercebia-se o rosto severo, impenetrável. 136


Manuel Carvalho - Atenção, Companhia, senti..do - rugiu o alferes Silva. - Mande descansar - sibilou o capitão. - Companhia, descan..sar! À vontade. O capitão postou-se frente aos homens, verrumando-os um a um. - Meus senhores, a primeira coisa a dizer é que me sinto profundamente magoado. Há entre vós gente que não soube merecer a confiança que vos concedi. É a pior ofensa que me podiam ter feito. A Companhia não piava, esquecida a voracidade do sol. O capitão deu dois ou três passos, rodou nos tacões e prosseguiu a sua diatribe: - Ontem, alguém se introduziu nas instalações dos oficiais com ignóbeis intuitos. - Alçou o dedo - Quero o culpado. Terá este a hombridade de dar um passo em frente? Quem foi? Ninguém se moveu. Os olhos do capitão passeavam, perfurantes, pelos rostos congestionados. - Ninguém se apresenta? Pensei que estava a lidar com homens mas enganei-me. Já que é assim, ficam desde já suspensas as colunas a S. Salvador e proibidas as visitas à sanzala. E a ração de cerveja será cortada para metade. Até ao fim da comissão, se for preciso. Podem estar certos de que o culpado não irá escapar. Mande destroçar, alferes Silva. - Ai, Jesus - gemeu Malacão. Apesar do calor, os dentes do Pinto batiam como castanholas. - Atenção, Companhia, direita...er - grasnou o alferes. - Destro...çar.

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Entre morros e capim

A malta ficou surpreendida com a inesperada aparição do alferes Mendonça na caserna. - Boa noite. Ninguém se mexeu, os corpos petrificados, as conversas adiadas nos lábios. Mendonça aventurou-se até ao meio da caserna, vigiado por olhares de soslaio. Largou em chorrilho as palavras estudadas: - Como devem saber, parto em breve para férias. Não quero partir sem vos dar uma explicação, esclarecer certas coisas. - As palavras pareciam esmagar-se contra os rostos sombrios, precocemente adultos. - Quero, em primeiro lugar, dizer-vos que lamento tanto ou mais do que vocês a morte do...vosso camarada...do Pacaça. - Lamentar não chega - ripostou Mendes, logo coadjuvado por um murmúrio cavo. Mendonça atirou-se com sofreguidão àquela brecha: - Como vos queria dizer, não me limito a lamentar. Sei que não poderei restituir a vida ao vosso camarada mas irei fazer os possíveis por atenuar o meu erro. Era isto que vos queria dizer. - Fazer o quê? - insistiu Mendes. Já havia rostos interessados, olhares abertos. - Mal chegue à metrópole, irei procurar de imediato os pais dele. Sei que vivem com dificuldades mas a minha família é, felizmente, bastante abastada e poderá apoiá-los nesta situação tão difícil. Mendonça olhou ao redor, com os olhos marejados. 138


Manuel Carvalho - Talvez vos custe a a acreditar mas tenho-vos em grande estima. Foi no vosso convívio que compreendi muitas coisas. Recebi grandes lições. Nunca, nunca mais poderei esquecer o tempo que passámos juntos. Brevemente compreenderão melhor o sentido das minhas palavras. Fernandes saiu do seu canto com uma garrafa na mão. - É bagaceira do Minho. Beba que é de estalo. Mendonça abraçou-o. - Obrigado. Obrigado por tudo. - Eh, meu alferes, não beba tudo, deixe uma pinga prá malta - alarmou-se o Barão, saltando da cama. E logo a caserna explodiu em algazarra.

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Entre morros e capim

Para espanto geral, Pinto passou a usar óculos de sol e deixou crescer um bigode que lhe dava um ar façanhudo que desvirtuava completamente a sua índole de pacato aldeão minhoto. - Mas, ó Pinto, até de noite? - estranhavam. Pinto desfazia-se em explicações emaranhadas, evocava a sua galopante alergia à luz, à mais ténue claridade. - Andas a treinar para toupeira? - ria Malacão. - És o culpado de tudo - enfurecia-se Pinto. - Nunca mais te hei-de perdoar. - Deixa lá que ela já vai embora dentro de dias. acalmava-o Malacão. - Pelo que oiço lá na messe, só olhou para a tua ferramenta, fez-lhe um grande elogio. Não tenhas medo que não te poderá reconhecer, a não ser que nos mandem a todos baixar as calças. Logo uma gargalhada irreprimível o sacudia de alto a baixo e lhe enchia os olhos de lágrimas. Pinto ficava com ganas de se engalfinhar nele mas logo o medo de dar nas vistas reprimia o impulso. Aconchegava os óculos no nariz e rosnava por baixo do bigode: - Ainda mas hás-de pagar. Malacão fazia-lhe peito, destemido, ameaçador. - Queres que dê com a língua nos dentes? Já te esqueceste que é por tua causa que a malta não pode ir à sanzala nem a S. Salvador? Que é por tua causa que andamos todos com as mãos gastas de tanto esfregar o pau? - Fala mais baixo - assustava-se Pinto. - Olha que te podem ouvir. Sempre fomos amigos. 140


Manuel Carvalho Apaziguados, lá iam beber mais uma cerveja que, alternada e judiciosamente, carregavam nas contas dos sargentos e dos oficiais. - A gaja é mesmo boa - suspirava Malacão. Pinto acariciava o bigode, sonhador e, sem palavras para exprimir o que lhe lavrava a alma, deixava a cerveja escorrer garganta abaixo a apagar o fogo que lhe devorava as tripas. *** Teresa nunca mais pudera esquecer a cena da intrusão do soldado no quarto. Imagem pegajosa, que se agarrava às paredes dos seus pensamentos, obsessiva. A evocação daquele pénis tumefacto, enorme, no mais profundo dos seus sonhos punha-lhe o sexo a latejar. “Deve ser desde maldito calor” - justificava-se. Constava que o ardor dos trópicos assanhava os sentidos. Daí para a frente, começou a farejar como um perdigueiro. Até que, de exclusão em exclusão, facilmente chegou à identificação que buscava. “ Deves estar maluca” - chicoteava-se, quando examinava, de soslaio, a figura solerte do Pinto. Mas a verdade é que a imagem daquele pénis alçado como um barrote continuava a torturá-la. Num dia de maior desvario, decidiu-se: - Em acabando de lavar a loiça, vais ter ao meu quarto. Não precisas de bater à porta, é só entrar. Pinto sentiu uns lábios escaldantes queimarem-lhe a orelha. Um copo estilhaçou-se no lava-loiça. - Mas… - É uma ordem… Quando se voltou já só viu a mancha azulada dum vestido esvoaçante a escapulir-se da cozinha. Uma onda de

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Entre morros e capim perfume pairava no ar. O inconfundível perfume da mulher do capitão. Cortou-se a apanhar os pedaços de vidro do copo. Um fio de sangue correu pelo lava-loiça. “Nossa Senhora me ajude.” Esticou o pescoço para a sala da messe. A digerir o almoço, o capitão e os restantes oficiais encharcavam-se de conhaque, esparramados pelos sofás. As ventoinhas do tecto rodavam a toda a velocidade sem conseguir dissipar o calor insuportável. “Nossa Senhora me ajude. O que quererá ela de mim?” Ainda pensou em ir pedir ajuda ao Malacão mas logo afastou a ideia, nem pensar, o cabrão ainda era capaz de o tramar com alguma das suas diabruras. *** Teresa estava nua sobre a cama., paciente, olhos fechados, um ténue sorriso a bailar nos lábios, à espera da sua presa. Quando pressentiu a presença do rapaz, permaneceu imóvel. - Despe-te. - Mas… - Despe-te, não ouviste? Continuava de olhos cerrados. E após alguns instantes: - Já estás nu? E como não obtivesse resposta, repetiu: - Já estás nu? Quando abriu os olhos, Pinto continuava vestido, plantado no meio do quarto apavorado, submerso num mar de lividez dos pés à cabeça, os olhos pregados naquele corpo escultural quase sobrenatural. Ficou contrariada. Sentou-se na borda da cama. 142


Manuel Carvalho - Anda cá, aproxima-te. Quando o teve ao alcance, desapertou-lhe bruscamente o cinto dos calções que tombaram pernas abaixo e desceu-lhe as cuecas de rapelão. O pénis do Pinto refugiara-se, amedrontado, na mata densa dos pintelhos. Com afinco, a gadanha dos dedos esgaravatou, rebuscou, acariciou, trouxe o desertor à luz do dia. O seu afincado labor começou, finalmente, a dar resultados visíveis, Teresa cravou as unhas nas nádegas do rapaz e, num sacão, puxando-o para si, enterrou-lhe a cara entre as virilhas. Incendiado pelo braseiro daquela boca escaldante a sugá-lo, Pinto sentiu o sexo crescer incontrolavelmente, como um animal feroz que tivesse finalmente vida própria, independente da sua vontade. Teresa sorriu, agora sim, aquele era o instrumento que a fizera delirar nos seus sonhos mais fantasistas. - Assim está melhor, vá lá, eu não mordo. Deitara-se costas na cama, as pernas pendentes, a vulva escancarada. Pinto resfolegava, transformara-se num toiro furioso, à solta pelos lameiros verdejantes do seu Minho. Sem mais delongas, caiu sobre ela, esmagou-lhe os seios com as manápulas rudes e cobriu-a selvaticamente. Por entre rugidos, explodiram num orgasmo que os atirou para os espaços siderais. Ficaram deitados, de costas, a resfolegar, num mar de transpiração. Quando retomou fôlego, a voz, agora agreste, da mulher chicoteou o rapaz prestes a adormecer. - Veste-te e desaparece, não te quero ver mais à minha frente. E ai de ti se deres com a língua nos dentes, nunca mais tornas a Portugal. *** 143


Entre morros e capim Empoleirado no seu poiso habitual, Malacão assistira a tudo. Vezes sem conta estivera prestes a estatelar-se da sanita abaixo tais eram os espasmos que o acometiam. Mordia as mãos para não se denunciar. “Este cabrão, este cabrão…” Quando Pinto desarvorou do quarto, Teresa cobrirase com o lençol e adormecera de imediato. Aquele silêncio quase fúnebre, assustava-o. “Aquele cabrão, aquele cabrão…” Alvoroçado, correu para a messe e foi esbarrar com um Pinto de cabeça pendente, sentado numa cadeira da cozinha a sorver uma cuca. - Estás com sede, meu cabrão. Pinto olhou-o, tresloucado. - Sou um desgraçado. Estou perdido. Ajuda-me, Malacão. Era tal o mar de pavor que lhe escorria dos olhos que Malacão não teve coragem de tocar no assunto que lhe escaldava a língua. - Acalma-te e bebe mais uma cerveja. Ficaram para ali, de cerveja na mão, a alma esfarrapada, cilindrados pelo peso dos acontecimentos que os ultrapassavam, como dois náufragos sem terra à vista.

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Manuel Carvalho

A coluna serpenteava picada fora, envolta num manto de poeira acastanhado, aproximava-se duma curva acentuada onde a mata cerrada se vinha debruçar sobre a picada. E de súbito, um matraquear infernal rasgou o silêncio, assustou os três ou quatro burros do mato que pastavam mais à frente e que partiram num trote atropelado. Os unimogs detiveram-se de travões a fundo. Todos saltaram, rapidamente, para o capinzal. Numa resposta imediata à emboscada, o eco das rajadas das G3 ribombou pelas quebradas dos morros, esventrou a paz da mata donde partira o ataque. Tal como começara, tudo terminou repentinamente. Por algum tempo, ainda se ouviram vozes dispersas, cada vez mais embrenhadas no refúgio da mata. O grupo atacante retirava com celeridade. Uma calmaria espessa reapossou-se da paisagem. Vultos espectrais, de camuflados esfarrapados e empoeirados, começaram a saltar do capinzal para a picada. Os furriéis tentavam reorganizar o grupo, apaziguar os ânimos. - Calma, já passou. - Está tudo bem? - Alguém está ferido? - Não falta ninguém? - Meu alferes, comunico com o quartel? - gritou o radio-telegrafista Cardoso. Não obteve resposta. - Meu alferes? 145


Entre morros e capim Os olhares inquietaram-se, rebuscaram por todo o lado. Acendeu-se um mau pressentimento nos rostos. Tombado sobre um dos bancos do unimog, o corpo do alferes jazia sem vida, um fio de sangue escorria-lhe da fronte, misturava-se com a espesso camada de pó que lhe cobria a cara. - Meu alferes! Está a ouvir-me? - alarmou-se o furriel Meneses, trepando para o unimog e amparando-lhe a cabeça. Ao redor, as garras da tragédia ferraram-se nas gargantas. Subiram soluços dos peitos mais sensíveis. Escancaram-se as bocas, rangeram dentes, crisparam-se os dedos nos gatilhos das G3. - Cardoso, comunique para o aquartelamento que o alferes Mendonça morreu - ordenou o furriel Neves, num fio de voz que se elevou, ténue, volátil, na calmaria da tarde.

Patrulha 146


Manuel Carvalho

Mendes irrompeu cubata adentro como um furação. Num movimento rápido, agarrou o rapaz pelas costas e encostou-lhe a lâmina da faca-de-mato à garganta. - Cabrão, vou-te sangrar como a um porco. - Calma, calma, deixe-me falar. Afonso era o professor da sanzala. Era um rapaz mulato de olhos meigos e palavras mansas, sempre com um sorriso nos lábios. Mendes atirou-o contra a mesa desconjuntada pejada de livros que se espalharam pelo chão. Apontou um banco. - Senta-te - ordenou. - Vocês atraiçoaram-me, não cumpriram o nosso pacto. - Eu sei, mas a culpa não foi minha. - Sabes muito bem que o acordo era eu informar-vos das operações programadas pela Companhia e vocês, em contrapartida, não nos atacavam. Era muito claro. Afonso suspirou. - Estou desolado, acredite. Nos últimos tempos houve muitas alterações na cúpula do nosso movimento. Há quem queira alterar, radicalmente, a estratégia operacional. Querem abrir uma nova frente de operações e esta região deixou de ser considerada uma zona de passagem onde não convinha haver confrontos com as forças portuguesas. O facto de terem caído alguns elementos nas vossas armadilhas veio reforçar a posição deles. - Eu informei-te da localização das armadilhas.

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Entre morros e capim - Certo, mas aquele grupo vinha dos Dembos, de regresso à base no Congo, não estava informado. - Se havia mudanças, podias ter-me alertado. - Só recentemente soube disto. Nunca imaginei até que ponto as coisas tinham evoluído, como se tinha alterado a correlação de forças. A grupo que, há cerca de um mês, vocês quase interceptaram, já obedecia às novas directivas, foram eles que vos prepararam esta emboscada. Os olhos do rapaz continuavam serenos, a voz continuava mansa. - Não sabe como lamento. Pode ficar descansado que nunca revelei a identidade do meu informador. Eu voume embora daqui, já não tenho condições para continuar, fui desacreditado, quebraram o compromisso que assumi consigo. Acredite que não estava ao corrente dos planos da emboscada, nem tinha sido informado da infiltração deste grupo. Escorria tanta franqueza dos olhos de Afonso que Mendes pousou a faca sobre a mesa. Apoiou as costas na parede de adobe. - Acredito em ti. - Pode acreditar, sou homem de palavra. - Quando partes? - Esta noite. Só levo saudades das crianças. Mais nada me prende aqui. Quanto a nós, não temos nada de que nos recriminar, evitámos muitos confrontos. Quantas vidas salvámos? Olharam-se no fundo dos olhos. Aqueles meses, à beira do precipício, tinham tecido sólidos laços entre os dois rapazes. - Dá cá um abraço. Caíram nos braços um do outro. - Foda-se a vida.

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Manuel Carvalho - Um dia tudo será diferente, amigo Mendes. Estas tragédias não terão mais razão de existir, temos de acreditar. É preciso acreditar num mundo melhor. Sem se aperceber, era a primeira vez que Afonso tratava Mendes com tamanha familiaridade. Tornaram a abraçar-se. A sanzala mergulhava rapidamente num emaranhado de sombras. Os morros que ainda se recortavam no céu, pincelados pelos últimos raios de luz, diluiam-se velozmente. Lá no alto, o aquartelamento, iluminado pelas luzes amareladas da periferia, parecia suspendo do céu.

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Entre morros e capim

Alguma coisa se quebrara no cerne das certezas coriáceas de Mendes. Desde a fuga de Afonso, ficara com o espírito alvoroçado, consumido por espinhoso dilema . Até ali vivera em paz com a sua consciência, considerava-se o guardião da segurança dos seus companheiros e, obedecendo às directivas recebidas, o contacto que logo à chegada à Calambata estabelecera com o professor Afonso, fora a sequência lógica da sua forma de pensar. Era uma forma, coerente com os seus ideais, de prosseguir a luta pela paz e pela justiça em que se comprometera. Mas agora que tudo se subvertera, que as pedras do tabuleiro tinham mudado de posição, sentia que ocultar do comando as informações a que tivera acesso não era de forma alguma justificável. Se acontecesse alguma desgraça, se morressem camaradas seus por ocultar a informação que Afonso lhe dera, não se iria perdoar. - Eh, Mendes, andas doente? - estranhava-o Américo. - Se precisares de desabafar alguma coisa, conta comigo. - Não te preocupes. Nessa manhã, depois de mais uma noite em claro, roído pela insónia, tomou a resolução que compreendia não poder adiar por mais tempo. Em passo estugado, dirigiu-se para o gabinete do capitão. - Vens refilar por causa da comida para as crianças? O rosto de Mendes estava granítico, os olhos metálicos, a voz de aço.

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Manuel Carvalho - Preciso de lhe revelar uma coisa - despejou sem mais preâmbulos. - Não me pergunte como o soube porque não lho vou dizer, nem que me arranque o coração, mas isto é muito importante. Refugiado atrás da secretária, o capitão Rosado franziu a testa. - Mau, não me venhas estragar o dia. Problemas já eu tenho de sobra. - Lamento, meu capitão, mas tenho de o informar duma situação muito grave. Esta zona deixou de ser considerada de passagem pelo inimigo, foi aberta uma nova frente de combate. Nos olhos azulados do capitão acenderam-se laivos de suspeição. Decorreram longos segundos embaraçantes em que os dois homens se mediram intensamente. - Como é que tiveste acesso a essa informação? Viram-te há dias a falar com o professor da sanzala…sabias que ele desapareceu? Mendes retraiu-se, cerrou os punhos até sentir a articulações a estalar. O capitão esboçou um gesto conciliatório. - Senta-te. Não me interessa saber. Mas, para teu sossego, se prometeres guardar segredo, vou-te dar uma informação mais actualizada. - Prometo. - Seja lá donde te chegou essa informação, já vens atrasado. Nós temos informadores no Congo, estamos ao corrente de muita coisa. De facto, houve uma luta pelo poder por lá, houve, temporariamente, alguma convulsão mas, graças a Deus, as ideias precedentes acabaram por prevalecer, aquilo acabou por acalmar. O grupo que nos fez a emboscada já regressou à base. Isto irá continuar a ser uma zona de passagem e, como sabes, nestas circunstâncias o

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Entre morros e capim inimigo evita todos os confrontos com as nossas tropas. Tudo voltou à normalidade. O capitão tirou a garrafa de uísque da gaveta do armário. Encheu um copo. - Nem sei porque estou a falar disto contigo, não devia fazê-lo, isto é matéria altamente confidencial. - Enborcou o uísque dum trago. - Olha, não te quero ouvir mais e estou-me nas tintas para saber qual foi a fonte das tuas informações. Se foi esse professoreco ou não…não importa. O que eu te garanto é que falares a alguém da conversa que tivemos hoje, estás tramado comigo. Vai-te embora! Se eu fosse um bom oficial, com eles no sítio, prendia-te imediatamente, instaurava-te um processo disciplinar. Mas ainda vou pensar no assunto. Em todo o caso, daqui para a frente estás proibido de ir à sanzala. Rua! Mendes atravessou a parada a passos largos. Estava certo que o capitão não iria proceder contra ele, para mais não desconfiando da gravidade do que acontecera ao longo de todos aqueles meses. Desde a conversa anterior sobre as crianças instalara-se uma mútua empatia, uma perceptível cúmplicidade. Olhava a azáfama rotineira dos camaradas dispersos pelo aquartelamento e sentia-se um homem novo, igual a todos eles, liberto do peso que quase o destruíra. - Finalmente, estás com boa cara - alegrou-se Américo quando o viu entrar na caserna. - Não é uma boa cara, é uma cara nova. Anda daí, vamos ali à cantina beber uma cerveja. A meio da segunda cerveja: - Américo, já alguma vez tiveste a sensação de viver numa prisão e, subitamente, todas as portas se abrirem? - Sim, em França, nos primeiros tempos quando cheguei e não sabia falar a língua.

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Manuel Carvalho - Pois, Américo, é um homem diferente que tens diante de ti, um homem que recuperou a sua liberdade. À terceira cerveja, o Barão acercou-se, a farejar. - Barão, meu amigo - acolheu-o Mendes. - Nunca caias na esparrela de te deixar aprisionar por ideais, dogmas e até mesmo paixões. A liberdade é o bem mais precioso dos homens. O Barão acentou-lhe uma palmada no cachaço. - Tu já estás é com os copos. Deixa-te de filosofadas e paga é aqui uma cerveja ao teu grande amigo Barão que ainda andava na barriga da mãe e já sabia essa lengalenga toda.

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Entre morros e capim

Meneses reencontrou a paz de espírito da forma mais inesperada. Enternecido, observava as duas fileiras de carapinhas postadas à sua frente e os olhos brilhantes que o fitavam, em idolatria, e sentia o coração num alvoroço. Era quase inacreditável como ainda não tinham decorrido duas semanas desde que o capitão o chamara ao seu gabinete. - Sente-se, Meneses. - O capitão Rosado esfregava energicamente as mãos. Pigarreara para aclarar a voz e sem mais preâmbulos: - Eu sei que as mortes do Pacaça e agora do alferes Mendonça o abalaram muito. Aliás, como a todos nós. São tragédias que deixam marcas profundas. Mas é preciso, seguir em frente, a vida continua. Chamei-o aqui porque quero confiar-lhe uma missão, sei, pelo que conheço de si, que é a pessoa indicada, por isso a minha escolha recaiu na sua pessoa. A garotada da sanzala ficou sem professor, o que tinham desapareceu, deve ter sido aliciado pelos turras e deu à sola. Estava a pensar em si para lhes dar umas lições, aqui no refeitório, depois do almoço, nos dias em que estiver disponível, é claro. O que pensa da ideia? Aceitara, entusiasmara-se, os seus pensamentos incendiaram-se. Bastara-lhe um quadro negro de ardósia onde escrever, umas resmas de papel e um punhado de lápis para que o projecto ganhasse asas coloridas.

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Manuel Carvalho Lá no fundo do peito, como uma carícia, uma voz retemperadora segredava-lhe que fora preciso dar a volta à vida para chegar ali, para que aquela missão que agora tinha a cargo lhe revelasse que afinal tudo tem sentido quando se está atento e se sabe decifrar os sinais que vão surgindo. ”Até nos pântanos mais putrefactos podem nascer flores”, lera em qualquer parte. - Vamos lá ler o que está escrito no quadro. - Calambata - soletraram as crianças, em coro. - Se continuarem aplicados, amanhã ofereço um pacote de bolachas a cada um. Combinado? Até amanhã. Risos infantis e cristalinos encheram o refeitório de vida, rasgaram janelas, abriram brechas de luz. À sua volta, o mundo reorganizava-se, as peças começavam a encaixar-se umas nas outras. “Foi preciso vir a este lugar tão remoto para me reencontrar e descobrir a minha vocação. Foi preciso cruzar o oceano, perder camaradas, atravessar períodos depressivos, vencer impulsos suicidários, transpor tantas barreiras. Como a vida é surpreendente e cheia de enigmas.”

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Entre morros e capim

Para alívio do Pinto, Teresa, horrorizada com a morte do alferes Mendonça, partiu, apressadamente, para Luanda, num táxi-aéreo. À última hora, teve um inesperado companheiro de viagem: o Barão, a contas com uma hepatite virulenta que o deitou por terra e exigiu o seu internamento hospitalar urgente. - Tens que nos dizer como se arranja isso, ó Barão despediam-se os camaradas. Pela primeira vez, desde que se conheciam, o Barão não tinha forças para ripostar. Limitava-se a um simulacro de sorriso amarelado. - E o nosso dinheiro, das tatuagens? - ainda se atreveu a perguntar Nunes. - Ó Nunes, achas que é o momento oportuno para falar dessas ninharias? Não vês que estou quase a morrer? No dia seguinte, inesperadamente, num acesso de brandura, o capitão Rosado levantou o racionamento da cerveja e a proibição de irem à sanzala. A Companhia reencontrou rapidamente a rotina habitual: patrulhas, bebedeiras, caçadas, paludismo, saudades, solidão. Os dias as esgotarem-se lentamente na clepsidra daquele tempo suspenso. A época do cacimbo estava à porta. Mais clemente o calor e amansadas as chuvas, os morros começavam a amarelecer, à espera das queimadas que incendiavam as longas noites estreladas dos trópicos.

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Manuel Carvalho Pelas contas do calendário, ainda faltava mais de um ano para o fim da comissão de serviço mas o imprevisto aconteceu e tudo se alterou em turbilhão. Por culpa dos acontecimentos ocorridos no dia 25 de Abril de 1974, lá longe, no Puto.

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Manuel Carvalho

Glossário Puto - Portugal Cuca - Cerveja de fabrico angolano Nocal - Cerveja de fabrico angolano Cacimbado - Afectado psicologicamente Paus – Escudos (moeda corrente em Portugal Velhos (Velhinhos) - militares a terminar a comissão de serviço Maçarico - Militares acabados de chegar G3 – Espingarda automática usada pelo exército português Unimog -Veículo de transporte militar Berliet - Veículo de transporte Aerograma - Correspondência de porte gratuito

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Entre morros e capim

Nota: Esta é uma obra de ficção. A Calambata desta história é um lugar, algures perdido no norte angolano, recriado pelo imaginário do autor. Qualquer semelhança com pessoas, situações ou factos reais é mera coincidência.

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Profile for Manuel  Carvalho

Entre Morros e Capim  

Romance que tem como tema a guerra colonial (Angola)

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Romance que tem como tema a guerra colonial (Angola)

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