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Jornal Jovem Barcelense

Edição 0 - SETEMBRO 2013

Centro Hípico utiliza cavalos para reabilitação de doentes Capacidades cognitivas, motoras e sociais são desenvolvidas na relação entre um cavalo e uma pessoa com necessidades especiais. O Centro Hípico Irmão Pedro Coelho tem uma atuação nesta área, da equitação terapêutica, desenvolvendo programas adaptados aos perfis dos doentes que o procuram. O Obli foi saber os benefícios desta relação, assim como os métodos de trabalho deste centro.

Publicação trimestral | Este jornal sai juntamente com a Edição n.º 725 do Barcelos Popular e não pode ser vendido separadamente.

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Jovens e Política: o caso das autárquicas São muitos os jovens portugueses que adotam uma postura desinteressada em relação à política. O Obli procurou, por um lado, saber o que explica esse afastamento e, por outro, perceber quais as estratégias das candidaturas à Câmara Municipal, direcionadas para a juventude.

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EDITORIAL CÍRCULO CATÓLICO DE OPERÁRIOS DE BARCELOS

“De 4 em 4 anos…” De 4 em 4 anos, repete-se por todo o país o frenesim de discussão sobre as nossas cidades. Uma orgia de ideias e projetos surgem de todos quadrantes, sempre com a tela de serem “diferentes” e “inovadores”. Embora, para quem os vê, no global, seja tudo o mesmo. Estas são as primeiras eleições autárquicas em Portugal onde o fenómeno das redes sociais se faz sentir. Qualquer candidatura e candidato tem uma forte presença no facebook/twitter, transportando a discussão de assuntos tão sérios, que definirão o futuro das nossas comunidades, para estes espaços básicos, mas com um enorme impacto. As redes sociais transportam a beleza irónica de qualquer um poder expor a sua opinião, os seus gostos e, até mesmo, os seus sentimentos. Sem moderação, todos dizemos o que pensamos, baseando as nossas palavras em argumentos válidos ou em boatos, na maioria das vezes sem direito ao contraditório. Que impacto terá isto na qualidade da intervenção dos mais jovens em assuntos políticos? Abram uma rede social e julguem. O insulto, o boato e a teoria da conspiração tornaram-se banais. Por outro lado, os movimentos cívicos multiplicam-se; milhares discutem os problemas sociais e expressam o seu repúdio perante injustiças. Noutros continentes, jovens despertam revoluções e caem governos. É nestas redes que se joga muita da opinião criada pelos jovens acerca dos seus líderes, seja através daquilo que os agentes políticos publicam, seja através daquilo que a rede produz pelos seus utilizadores. No essencial, o objetivo é que a informação se torne viral, valendo tudo para atingir esse fim. Não diremos nenhuma novidade ao referirmos que, no geral, os mais jovens não confiam, nem reconhecem legitimidade ao atual sistema político e partidário para liderar os destinos da nossa sociedade. A grande maioria está afastada da tradicional máquina política, encontrando nas redes sociais, blogues de especialidade ou, curiosamente, no humor a alternativa para a sua expressão política. São tempos curiosos estes que vivemos… O Obli, nesta edição, tenta compensar este derrame descontrolado de informação. Interpelou, por isso, as candidaturas à Câmara Municipal sobre três assuntos essenciais à vida dos jovens: cultura, educação e emprego. Fará este artigo a diferença? Leiam… Nós não sabemos.

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CIED BARCELOS: UMA LIGAÇÃO COM A UNIÃO EUROPEIA OU UMA PONTE LEVADIÇA? ANDRÉ SIMÃO: «AQUI QUANDO SE FAZ UMA BANDA, FAZ-SE A SÉRIO»

ARTISTA CONVIDADO

OBOÍSTA NA ORQUESTRA XXI DE BARCELOS PARA ZURIQUE UMINHO E UPORTO PREMEIAM SETE ALUNOS BARCELENSES INVESTIGAÇÃO EM (TEMPOS DE) CRISE? CENTRO HÍPICO UTILIZA CAVALOS PARA REABILITAÇÃO DE DOENTES ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS: POLÍTICAS PARA A JUVENTUDE TEDx BARCELOS

O jornal Obli foi escrito segundo as novas regras do Acordo Ortográfico. As crónicas e artigos de opinião são da responsabilidade dos autores. Este jornal é um suplemento do Barcelos Popular.

Direção Obli Diretor: Joaquim José Gonçalves Diretor adjunto: Ricardo Galiza Editor: Inês Barreto de Faria Diretor Criativo: Sara Silva Redação: Catarina Bessa, Cristina M. Barbosa, Emanuel Boavista, e Pedro Manuel Magalhães. Imagem e Design: Rafael Peixoto e André Vilas Boas Web e Multimédia: Pedro Pontes Fotografia: Ana Teresa Miranda

Colaboradores desta edição: Mário Jorge Silva, Samuel Bastos

Ilustração de capa por João o Cósmico Cartaz por João o Cósmico Tiragem: 10.000 exemplares

Impressão: Celta de Artes Gráficas, S.L., Colón, 30 – Vigo (Pontevedra), Espanha Tel. 0034/986814600. Fax. 0034/986814638. Redação e administração Jornal Obli Barcelos Popular, Avenida João Paulo II, 355 4750-304 Barcelos e-mail: jornal@obli.pt www.obli.pt


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CÍrculo Católico de Operários de Barcelos Dos primórdios aos dias de hoje

A

ntes de serem o que são hoje, os Círculos Católicos sofreram muitas mutações. Umas geradas por factores de ordem social, outras por factores de ordem administrativa, política e económica.

O Círculo Católico de Operários de Barcelos (CCOB) está muito longe de ser um local onde se pregam missas. É, no entanto, um local onde os grupos “Banda do Galo” , “Vozes do Cávado”, “Amigos da Concertina”, “Galo Gaiteiro” e os praticantes de JU-JITSU encontram um abrigo e uma força impulsionadora. É também no CCOB que a maior parte dos concertos em Barcelos acontecem. Desde Outubro de 2012, Alcino Silva é sócio do CCOB e ajuda a dinamizar o bar e o auditório, nos quais muitos dos concertos barcelenses se realizam. As jam sessions são já momentos de culto, em que muitos dos músicos que estão agora na ribalta da música nacional podem ser encontrados em pleno processo criativo, a custo zero. Membros de bandas como Dear Telephone e HHY & The Macumbas são alguns dos exemplos dos que, por puro amor à música, se dedicam à improvisação em grupo e providenciam momentos de pleno prazer aos ouvintes Pelo CCOB, já passaram nomes como Tim Holehouse, Vénus Raiva, Kail, Baoba Stereo Club, Gesso, Super Snail, Bad Pig, Solar Corona, Pet7er Panic, Equations, 10000 Russos,

Indignu, Biarooz, Was an Outsider, Umbilical Nod, Katabatic, Okkur, Unicornibot, Alto!, Black Bombaim, Negra, Nuno Prata, O Bisonte, The Ransack, Revolution Within, Apotheus, Radar Men From the Moon, entre outros. Alcino Silva decidiu investir no empreendimento pois, como músico, sente-se capaz “de dar vida ao espaço”. A iniciativa tem tido bastante adesão por parte do público e dos músicos e algumas produtoras colaboram com o Círculo Católico na produção de eventos: Honeysound, Noir et Blanc e Los Panchitos de Guadalajara são algumas delas. Em relação ao facto de muitos chamarem a Barcelos a “Capital do Rock” Alcino afirma: “Eu só sei que o rock rola em Barcelos e eu ajudo a rolar!”. O facto de um local maioritariamente frequentado por pessoas idosas, em grande parte reformadas, se ter tornado num dos locais de culto para os ouvintes de música, com uma dimensão jovem e alternativa, deve-se, diz Alcino: “aos eventos” e ao seu “sex appeal”. Tojo Rodrigues, baixista dos Black Bombaim, banda barcelense que já tocou no festival Paredes de Coura, no Roadburn e também no CCOB no presente ano, afirma: “Tocar no CCOB foi muito bom, e até que enfim que Barcelos tem um espaço com condições para receber bandas”. Quanto à acústica,


04 quisermos ter uma sala ou um técnico em condições, não vamos ter dinheiro para pagar as bandas”, esclarece. José continua, “para nós tem sido difícil lidar com isto, já chegamos ao fundo dos bolsos, mas vale-nos a alegria de, no fim de cada concerto, ver sorrisos de satisfação. Reconforta-nos pensar que quando estivermos nos últimos dias, vamos estar contentes pelo que fizemos e pelo valor que trouxemos para uma cidade, muita gente e muitas bandas, independentemente do dinheiro que tivermos feito com isto, mas é difícil sim”, conclui.

o músico diz ser “bastante razoável, mas o sistema de som precisa de uma remodelação para albergar bandas e um público cada vez mais exigente com a qualidade do som”. Segundo Tojo, “o público de Barcelos é fantástico e conhece bastante música, por isso o seu feedback é bastante importante. É um espaço importante para Barcelos e, com algumas alterações, poderia ser um espaço importante no circuito nacional de bandas.” Tojo afirma ainda que volta ao CCOB sempre que pode para ver concertos e voltaria, com certeza, a tocar lá novamente. Gonçalo Costa, membro da banda punk Repressão Caótica, considera que “o auditório do CCOB é dos poucos, se não o único, espaço fechado em Barcelos acessível à realização de concertos ou outros eventos”. Porque o CCOB apresenta carácter de quase exclusividade, Gonçalo afirma: “é normal que albergue grande parte da cena musical na cidade, e tem feito isso da melhor forma, ao possibilitar a realização de grande número de concertos nos últimos tempos pelo próprio CCOB, pelas pessoas em geral e por promotoras locais”. Promotoras essas nas quais se insere a Noir et Blanc, já mencionada anteriormente e composta por José Roberto Gomes e Luís Masquete. Para José Roberto, a parceria entre a Noir et Blanc e o CCOB é muito produtiva porque “do ponto de vista sociocultural é uma mais valia para a cidade, é uma mais valia para os artistas e público local e é uma mais valia para artistas de fora”. O problema surge do ponto de vista económico, porque quem organiza é, nas palavras de José Roberto “complicado”. O produtor explica que “O produtor explica que “a sala tem boas condições, mas isso tem um preço, e em Barcelos torna-se complicado sustentar tudo ou um técnico em condições, e se

Para José Roberto, promover eventos no CCOB é o “reforçar de uma ideia”, uma vez que este já é um local onde se encontram, diariamente, muitos jovens. “O que a Noir et Blanc tem tentado fazer é trazer pessoas de fora, inclusive de outros concelhos”, refere. E continua: “o CCOB ainda não é de todo um ponto de encontro porque só desde que o Alcino entrou para o bar é que aquilo começou a ganhar mais vida”. O que é realmente curioso é perceber como é que uma iniciativa que teve como objetivo aprofundar a doutrina cristã entre os seus membros, tem de momento uma outra missão, como refere a organização: “apoiar a cultura, execução e divulgação pública da música e do entretenimento, procedendo à sua concretização e promovendo a participação das pessoas em todos os domínios da vida cultural”.


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de Barcelos que teve por fundador e presidente vitalício o barcelense Padre Bonifácio Lamela.

Remontando ao ano de 1904, ano em que os primeiros estatutos do CCOB, fundado em 1903, foram aprovados, este era o que hoje designamos por uma Instituição Particular de Solidariedade Social: prestava apoio aos carenciados, subsidiava os desempregados, promovia conferências sobre diversos temas, tinha em funcionamento uma escola para a instrução básica, um grupo de teatro, uma banda musical e dispunha de um médico, Dr. José Matos Graça, para o atendimento de sócios doentes. O movimento dos Círculos Católicos tinha como líderes o Padre Benevenuto de Sousa e o Padre João Roberto Maciel, impulsionadores do movimento operário católico do Porto e de Braga, respetivamente. É deles o impulso para a criação do Círculo Católico de Operários

Existia, na altura, uma mentalidade monárquica na generalidade dos dirigentes do movimento operário católico. Como organizações católicas que são, os Círculos, após o 5 de Outubro de 1910, com a anunciada ruptura entre o Regime e a Igreja, e a instauração do regime republicano, sofreram, pois, com a instauração da I República Portuguesa: os ideais laicos e anticlericais fizeram-se sentir. Num momento em que a diferença de ideais era evidente, o CCOB viu-se, em Janeiro de 1912, obrigado a hibernar, retomando as atividades em 1915. Os antigos membros do Grupo Dramático 19 de Abril e outros rapazes ligados ao Círculo formaram, então, o Grupo Dramático Mocidade Barcelense, cuja estreia se fez, no dia 21 de Maio de 1916, com um espetáculo em benefício da instalação em Barcelos da Cruz Vermelha. A década de 1920 ficou marcada pela construção da sede social do CCOB, concluída depois em 1927. Porém, ainda antes de 1926 terminar, era estreado o cinema do Círculo Católico de Operários de Barcelos, no qual foram exibidos vários filmes. Com o passar dos anos, as atividades lúdicas, culturais e desportivas prevaleceram sobre as outras. Mas, segundo o atual Presidente do CCOB,

Joaquim Senra de Brito, a missão dos Círculos Católicos (CC) não se modificou: “a missão dos CC era inovadora na sociedade de então, no final do sec. XIX. Os CC eram, na altura, o equivalente às modernas IPSSs”. Segundo o mesmo, “o Catolicismo Social mantém-se presente na atividade das IPSSs, na caridade, nos apoios sociais às famílias carenciadas, crianças e 3.ª idade e nos bancos alimentares”. O CCOB criou um departamento de ação social e encontra-se, de momento, a recolher e armazenar bens para serem depois distribuídos a famílias carenciadas em eventos ainda em preparação. As ferramentas utilizadas para concretizar os objetivos do CCOB são “essencialmente o trabalho voluntário dos dirigentes e sócios”. Desde 2008, início do 1.º mandato do atual Presidente, a procura é a de “abrir a atividade do CCOB à juventude, através da dinamização do auditório com teatro, apoio às bandas emergentes da cidade com concertos, jam sessions” e ainda existe um projeto que visa criar uma escola musical infanto-juvenil para ensinar a tocar diversos instrumentos musicais, conclui Joaquim Senra de Brito. | Catarina Bessa |


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CIED BARCELOS:

uma ligação com a União Europeia ou uma ponte levadiça

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m Barcelos, existe uma ponte que liga a cidade e parte da região Minho à União Europeia. Chama-se Centro de Informação Europe Direct de Barcelos (CIED Barcelos) e quer aproximar os cidadãos a Bruxelas.

É formada por 28 estados-membros e as suas origens remontam ao período pós II Guerra Mundial, à necessidade da unificação dos rivais França e Alemanha. Em 1950, chamava-se Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). Hoje, União Europeia (UE). Se a “Cidadania de União” é um dos pontos do primeiro pilar da União Europeia, a Comissão Europeia quer trabalhar nesse sentido. Várias são as ajudas para os cidadãos europeus. Veja-se, por exemplo, a oferta para questões de educação, cultura e juventude: Comenius, Leonardo da Vinci, Erasmus, Grundtvig, Jean Monnet, Erasmus Mundus, Tempos ou Ações Marie Curie são só alguns dos programas disponíveis. O Centro de Informação Europe Direct de Barcelos (CIED) existe fisicamente no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), desde maio de 2013. O projeto é cofinanciado pelo IPCA e pela UE, que lhe destina entre 15 a 20 mil euros por ano. No entanto, a maior fatia do financiamento – que não foi possível ao Obli precisar - é da responsabilidade do Instituto Politécnico. O CIED assume-se como um ponto de informação europeia e não tem pretensões para ser mais do que isso. O objetivo, segundo Maria Alzira Costa, coordenadora do CIED Barcelos, era transformar este centro “num dos grandes polos de chegada de cidadãos para a procura de informação”, mas a realidade é que “cada vez mais, qualquer cidadão, num telemóvel ou num foto de Inês Barreto de Faria

computador, tem a informação à disposição e somos cada vez menos procurados”. Ainda assim, dados do último Euro barómetro (outubro de 2012) afirmam que “40% dos portugueses querem saber mais sobre os seus direitos na União Europeia” e José Manuel Fernandes, deputado do Parlamento Europeu, assegura que os CIED “são estruturas que assumem um papel fulcral no sucesso do processo de construção europeia, face à sua atividade para manterem viva e ativa a ligação entre os cidadãos e os decisores europeus”.

Mas qual a finalidade do CIED Barcelos em termos práticos? Maria Alzira Costa explica ao Obli que o CIED é um “veículo que faz chegar as inquietações da população às instituições europeias”: o centro presta informações, aconselhamento e assistência técnica,

respondendo a questões relativas aos direitos dos cidadãos na União Europeia, às prioridades da UE, à legislação europeia e suas políticas, programas e possibilidades de financiamento. A coordenadora do CIED Barcelos exemplifica a atuação do centro com a ajuda que pode prestar a jovens em idade escolar ou a professores responsáveis pelo ensino dos direitos como cidadãos europeus, fornecendo-lhes enquadramento sobre o tema, brochuras ou “acesso imediato à internet para identificação de alguns sites de apoio”. Na busca de emprego, jovens desempregados podem recorrer ao centro, mas Maria Alzira Costa lembra que não existe “uma varinha de condão para encontrar emprego”, pelo que apenas serão dados instrumentos de procura.

Um trabalho ingrato? Ainda a coordenadora explica que não é possível responder cabalmente às questões feitas pelos cidadãos. Isto é, a informação dada refere-se à informação geral da UE e não à informação pormenorizada de cada instituição. Se alguém procura saber qual o reconhecimento académico nalgum estadomembro, terá apenas uma resposta geral, correspondente à norma comunitária, daí Maria Alzira afirmar que, com frequência, quem procura o centro fica “com a sensação de que não foi totalmente esclarecido”. Pode isto provar o “problema de


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Obli - Setembro 2013 foto de Inês Barreto de Faria

comunicação que persiste entre as instituições da UE e os cidadãos dos diferentes estados-membros e suas regiões”, denunciado pelo deputado do Parlamento Europeu, José Manuel Fernandes. A importância de instituições como o CIED, continua o eurodeputado, fixa-se pela inconsciência das “oportunidades que podemos e devemos aproveitar”. “Limitamonos a um mínimo garantido que são os fundos comunitários que estão reservados a Portugal, mas esquecemo-nos dos programas geridos centralmente pela Comissão, desperdiçando recursos que seriam muito importantes para as pessoas e para melhorar as suas competências e condições de vida”, explica. | Inês Barreto de Faria |

Barcelos e o CIED A notoriedade do centro está longe de ser a ideal, em grande parte pelo seu (pouco) tempo de existência. Ainda que “venha, pelo menos uma pessoa, todos os dias”, o centro é mais contactado via telefone ou e-mail, conta Maria Alzira Costa. As dúvidas mais frequentes dizem respeito a emprego, nomeadamente, como procurá-lo noutro estado-membro, quais as oportunidades de emprego para recém-licenciados, qual o reconhecimento das habilitações académicas noutro país ou, ainda, como podem ser reconhecidos em Portugal descontos feitos durante um período de emigração. Até o final do ano, o plano de ação do CIED inclui mais ações para as escolas, reforçando a importância dada à formação dos mais novos e ainda um certame de emprego e empreendedorismo. O CIED Barcelos está aberto de segunda a sexta-feira, das 10h às 13h e das 14h30 às 18h30, nas instalações do IPCA, em Barcelos.

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Obli - Setembro 2013

André Simão «Aqui quando se faz faz-se a sério»

09 Astonishing Urbana Fall, Lalala Ressonance ou, mais recentemente, Dear Telephone são alguns dos projetos de André Simão, um dos nomes mais respeitados da música nacional. Numa altura em que Barcelos é apelidado de capital do rock e onde surgem bandas em quantidades massivas, André coloca um pé no travão e assume que a sua cidade é ainda pouco interessante no que à cultura diz respeito. O baixista de 36 anos, contudo, não tem problemas em afirmar que aqui há mais criatividade num metro quadrado do que em qualquer outro sítio do país.

seja um evento que tenha uma expressão ultra pontual. Para a promoção da cultura na cidade, o Milhões é apenas um evento anual. Se calhar, preferia mais concertos e exposições durante o ano. Mas ouve-se falar de Barcelos durante três dias. O Milhões, como as curtas o são em Vila do Conde, é o embaixador da cidade. foto de Graciela Coelho

§ Recentemente, com os Lalala Ressonance, partilhou o palco com os Black Bombaim no Milhões de Festa, festival decorrido em Barcelos, entre 25 e 28 de julho deste ano. Como correu a experiência de partilhar o palco com músicos tão distintos? Correu bem. Para os Black Bombaim, que têm uma carreira cimentada como trio, com um som fechado em si mesmo - que no caso deles faz todo o sentido - foi uma experiência diferente. No nosso caso, desde a nossa formação, se há coisa que fazemos, é tocarmos com toda a gente. A experiência, que ainda não terminou, foi porreira. Eles têm uma matriz muito fechada, nós somos uma banda mais aberta, de procura. Por isso, este encaixe causou muito mais impacto do que o esperado. Fizemos a coisa em seis

ensaios, com seis temas originais. É algo muito experimental, ruidoso, e que se vai prolongar em mais concertos.

O confronto geracional entre as bandas também ajudou a que a experiência se tornasse ainda mais diferente?

Sim, claro. Isso é muito engraçado, aliás. Eu, por exemplo, dei aulas de baixo ao Tojo quando ele tinha uns 16 anos. Passados anos, estou a tocar com ele. Há ainda a curiosidade em relação à cidade: tenho a certeza que, se não fôssemos todos de Barcelos, esta junção estaria muito longe de acontecer.

Voltando ao Milhões de Festa. O que contribuiu este festival, em Barcelos há 4 anos, para a cidade? Contribuiu em vários aspetos, embora

E precisamente por isso, por ser um evento com a durabilidade de três dias, se as pessoas vêm cá noutra altura do ano e não se passa nada...

Como disse, como alguém que mora aqui, preferia uma programação cultural regular. Mas há que ver aqui pesos e medidas. A cidade evoluiu com o evento. Se no primeiro ano o Milhões era algo novo, algo para os mais novos, agora não. Agora passou para os mais velhos. No primeiro ano, um aldeão via uma gaja com uma saia ou um gajo com crista e achava estranho. Agora não. A cidade já incorporou o Milhões. Vês o Milhões no Jornal de Notícias e no Público. Isto não acontece em mais altura nenhuma do ano no que respeita ao nome da cidade.


10 Então Barcelos está mais aberto culturalmente...

Numa visão mais abrangente, vou dar o meu exemplo de quando fui estudar para o Porto, em 1996. O Porto era uma cidade fria, uma espécie de Cracóvia portuguesa. Ninguém ia a lado nenhum, não havia espaços abertos. Era, na época, muito pior do que Barcelos é atualmente. Entretanto abriu o Rivoli, o Coliseu, o Teatro do Campo Alegre. Não que hoje seja uma cidade brutal, mas há mais oferta. Como também há mais procura: quando antes ia eu e mais alguns marmanjos ligados à arte, a exposições ou a concertos, hoje o público é bem mais heterogéneo. No caso de Barcelos, o público também melhorou, mas a cidade evoluiu pouco culturalmente em relação a cidades vizinhas como Braga ou Viana, que foram Capital da Juventude e tiveram o programa Pólis, respetivamente. Creio que a evolução, em termos gerais, de Portugal nos últimos 20 anos, no que respeita aos hábitos do consumo de cultura, é maior do que a de Barcelos em particular.

Mas qual a razão para que não haja mais eventos culturais na cidade? Opção política ou das promotoras?

Toda a gente tem o discurso, na sua pequena cidade, de que aqui não se passa nada. Não apenas em Barcelos. A verdade é que Barcelos é uma cidade pequena que não tem escala para um certo tipo de coisas. Eu, como barcelense, aceito que o preço por ter uma determinada proximidade entre os sítios, como ir a pé para o emprego, seja ter de ir ver um concerto a Braga ou ao Porto. Não há necessidade de alimentar Barcelos como uma cidade culturalmente regular. Mas o certo é que houve, em tempos, com o Subscuta, uma prova que uma agenda regular traz pessoas a Barcelos.

Barcelos é habitualmente apelidada de ‘capital do rock’ pela quantidade industrial de bandas que têm vindo a surgir na última década. É um cognome que acenta bem à cidade?

Essa coisa da capital é, quanto mim, muito redutor. Há tempos, na Zoom, vi o “Meio Metro de Pedra” (n.d.r documentário sobre a contracultura rock n’ roll em Portugal) e no fim do filme, houve um espaço pergunta/resposta e alguém questionou o realizador o porquê da cena de Barcelos não estar no filme. Ele, que é da Marinha Grande, respondeu: ‘’não coloquei a cena de Barcelos da mesma forma que não coloquei a cena de Marinha Grande’’. A minha reação a esta afirmação foi tentar perceber a cena que existe na Marinha Grande... nenhuma!! Isto para explicar que todos vivemos em bolhas e é necessário sair delas. E nós, sendo de Barcelos, não nos podemos classificar capital do que quer que seja. Mas é impossível desmentir isto: de facto, existem aqui mais bandas de qualidade por metro quadrado do que na generalidade das cidades.

E como surgiram tantas bandas de qualidade e de forma tão repentina?

Surgiram sobretudo por causa de dois projetos, um dos quais eu fiz parte: os The Astonishing Urbana Fall e os Kafka. Essas duas bandas começaram rapidamente a ter alguma atenção mediática. Nos anos 90, o projeto onde colaborei - The Astonishing Urbana Fall apareceu na capa do Blitz, na época, o jornal com maior expressão a nível musical. Eu, na altura, com 18 anos, quando agarro no jornal e vejo a minha cara com os meus amiguinhos na capa do Blitz fiquei: “o que é isto, meu?”. Corremos inúmeros palcos com uma banda com uma direção experimental, com uma linguagem ultra louca e descontrolada. Com os Kafka aconteceu o mesmo. E depois, ao fim de 10 anos, num processo natural, onde houve declínio de ambos os projetos, surgem os Green Machine, que pegaram na herança de Barcelos como Seattle portuguesa que havíamos alcançado. Sozinhos, os Green Machine carregaram durante algum tempo o nome da cidade e influenciaram de sobremaneira as bandas atuais, mais rock e menos experimentais e loucas que os Urbana Fall e os Kafka. Agora, chegamos ao ponto onde as duas gerações estão no ativo. Aqui, quando se faz uma banda, faz-se a sério.

Em entrevista recente, ao Made in Portugal, disse que a música portuguesa estava a ‘’perder a inocência’’. Qual foi o real valor desta afirmação?

Disse isso porque há 20 anos ninguém sabia como se alugava palcos, como se colocavam as barracas de cerveja, como, por exemplo, se pedia para ir tocar. Não sabias quanto custavas! A inocência era tal que, se fores ver um vídeo dos Mão Morta, nos anos 80, não reconheces a marca das guitarras. Não há ali nenhuma Fender ou Gibson. Tudo podia acontecer. Estavas a tocar num festival, o PA rebentava e era algo normal. Hoje, se isso acontece, cai o carmo e a trindade. Hoje em dia, uma banda, quando lança um disco, já tem tudo preparado: o teaser, as entrevistas, os press releases. Chegamos a uma era global, onde tudo se partilha e consome na Internet, e perdeu-se um pouco aquela magia que eu, sinceramente, apreciava mais.

Na sequência do que disse sobre a partilha e o consumo na Internet, como músico, é contra os downloads ilegais?

Depende do artista, claro. Se o artista acha que deve disponibilizar, tudo bem. Se não, ninguém tem o direito de piratear. Antes, tinha uma opinião um pouco forte em relação a este ponto. Considerava que, se te deste ao trabalho de editar um disco, de fazer uma capa, de distribuíres, não se devia copiar na internet. Um disco é um objeto que sintetiza o teu trabalho e se não o queres dar, estás no teu direito. No entanto, agora, cada vez mais, um disco é para colecionadores. São, aliás, muitas as bandas que partilham o disco online e depois lançam a edição em vinil. É algo incontrolável, sem regras. O que já considero menos interessante são aqueles major chico-espertos tipo Radiohead. Decidem oferecer o álbum online, mas apenas porque podem. No meu caso, os últimos três albúns disponibilizei na internet mas em streaming, não para download.


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foto de José Caldeira

O André está envolvido em vários projetos e já tocou em inúmeros festivais. Há pouco tempo, tocou no Optimus Alive e no Optimus Primavera Sound com os Dear Telephone. Como foi tocar em festivais de dimensão tão grande com um público tão heterogéneo?

Por norma, não gosto de tocar em festivais. Sempre gostei mais de salas íntimas. Por outro lado, os festivais têm algo interessante que é o convívio entre as bandas. É fixe tocares no Primavera e ficares à conversa com o gajo dos Blur ou dos Swans.

Mas há sempre aquele festivaleiro que não conhece o seu projeto e chega a casa e ouve. O festival é uma boa forma de descoberta.

Sim, claro que sim. Já toquei em vários festivais e tem esse lado porreiro. Mas mais por teres o nome do cartaz, que é visto por uma data de gente. A generalidade das pessoas não vai trocar o banho no rio para ver o teu concerto às 6 da tarde. Se estiveres num auditório com 100 pessoas, sabes que estão ali para te ouvir, só vais tocar tu. Artisticamente, isso é muito mais interessante.

Para concluir, uma questão cliché. Qual o momento que mais o marcou desde que iniciou os primeiros acordes?

foto de Tatiana Coelho

Tenho vários. Há momentos fabulosos em estúdio, em palco. Ainda ontem tive uma experiência fantástica: um elemento dos Tuxedomoon, uma banda que adoro, mora no Porto e um amigo meu, guitarrista de jazz, quis fazer um encontro entre nós os três. Peguei no baixo, cheguei à casa do meu amigo, já lá estava o gajo dos Tuxedomoon e tocamos três horas consecutivas. De repente, percebi-me que tinha tocado três horas com um gajo que era, e é, um ídolo para mim. No entanto, o momento que mais me influenciou para me cimentar como músico, aconteceu há já algum tempo. Frequentava uma escola de música e o dono da mesma, de nome Tomané, tinha um baixo que era bastante melhor do que qualquer um em que eu já tinha tocado. Ano após ano, chateava o gajo para tocar no baixo. Até que, um dia, ele diz-me que tem uma doença terminal e oferece-me o baixo. Eu nem tinha muita confiança com ele e nem lhe perguntei o porquê de tal presente. Hoje é o baixo com que toco. No cinto, ainda tem lá escrito ‘’Tomané’’. Aquilo deu-me a certeza de que vou fazer isto, de tocar, sempre. | Pedro Manuel Magalhães |


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PERFIL DO ARTISTA BIOCRIATIVO §

JOÃO, O CÓSMICO Em pequeno era o João Tiago. Hoje, mais crescido, apresenta-se como João, o Cósmico. Nasceu em Barcelos, a 1 de fevereiro de 1992 e é o ilustrador convidado desta edição. Depois de terminar o curso de Artes Gráficas na Escola de Tecnologia e Gestão de Barcelos (ETG), começou a trabalhar como desenhador gráfico na P&R Têxteis, empresa barcelense. Sem espaço para a criatividade no trabalho, é em casa que se “vinga”. A ilustração é o escape para explorar o que sempre gostou de fazer: desenhar. Ilustra por hobbie, pois “Barcelos está com o mercado da ilustração saturado”, conta. Quando se fala em influências, João é claro: são “pessoas de cá”, especialmente o Joel Torres. Tem “uma linha muito própria e o que ele faz em software – Photoshop – é muito, muito bom. E falar com ele também me ajuda”. De fora, fala-nos sobre a admiração que tem pelo francês McBess. Padroniza o seu trabalho pelo uso de “caras em todas as ilustrações”, mas “sem narizes, há sempre um elemento a substituir”. Há também “coisas abertas, cabeças a expelir coisas”. Sem planos concretos para o futuro, o ilustrador remata com a vontade de se tornar ilustrador profissional. Vê o trabalho do João, o Cósmico em: https://www.facebook.com/cosmicojoao.

Remake

Holy Shit

Beyond Theory

João, O Cósmico

IAMYOU

E do Joel Torres em: http://cargocollective.com/joeltorres

| Inês Barreto de Faria |

Ash on their foreheads


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OBOÍSTA

Na Orquestra XXI

S

Barcelenses Pelo Mundo

Constituição –, alguma vez alguém colocaria esta hipótese? Os suíços veem a Música como algo essencial para o desenvolvimento humano, coletivo e imaginativo, sobretudo dos mais jovens. Podemos, a título de exemplo, ver o desenvolvimento social que tem o “El Sistema”, na Venezuela, através da integração dos jovens na música. Na Suíça, o que mais me fascina é a organização, rigor e eficácia das escolas, trabalho, serviços públicos (por exemplo, transportes públicos, correios, finanças etc.). A informalidade entre as pessoas (professores, diretores, colegas) também é bastante comum, ao contrário do que acontece em Portugal. Existe ainda um enorme cuidado com a alimentação, prática de desporto e muita proximidade e respeito pela agricultura, animais e natureza. Zurique e Genebra estão nas primeiras cinco cidades com melhor qualidade de vida do Mundo. É natural que sinta algumas diferenças em relação Portugal, como também sinto falta de muitas coisas a Portugal sobretudo o contacto imediato com as pessoas, a comida e o nosso clima. Mas, no essencial, quando todas as coisas, que são fundamentais para uma boa qualidade de vida, funcionam perfeitamente, a única coisa que falta mesmo é a família, que infelizmente não pode estar comigo a tempo inteiro. Convido os portugueses, particularmente os barcelenses, a visitarem Zurique e, para quem quiser ouvir ópera, posso sempre conseguir bilhetes. Espero ver-vos pela Helvética.

air de Portugal sempre foi um objetivo que tinha desde a minha juventude. Quando estudava em Braga, no conservatório, os professores e a minha família incentivaram-me a ir estudar para o estrangeiro. Para mim, sempre foi um sonho conhecer professores e escolas de grande prestígio, porque sabia que isso poderia ajudar-me a evoluir muito mais. Então, aos dezanove anos, fui para a Universidade das artes de Zurique na Suíça de 2006 a 2011 onde concluí os meus estudos (Licenciatura e Mestrado). Paralelamente, integrei a Academia da Orquestra da Ópera de Zurique, durante dois anos, de 2010 a 2012. Essa experiência preparou-me para a conquista da entrada na “Karajan Akademie der Berliner Phlilharmonker”. Duas semanas depois de ter ganho esse concurso, ganhei um outro para um emprego a tempo inteiro na Ópera de Zurique como oboísta solista, lugar esse que ocupo atualmente. Durante o meu percurso artístico, participei em vários concursos e integrei diferentes Orquestras de Jovens, experiências que me levaram a pisar as salas de concerto mais famosas de toda a Europa, China e Japão. Vivo desde 2006 em Zurique e, como agora tenho o meu emprego nesta cidade maravilhosa, penso ficar por cá bastantes anos. A Suíça tem uma cultura bastante distinta da de Portugal, nomeadamente no que diz respeito às Artes. Gostava de referir que a Suíça integrou, há já muito pouco tempo, a Música na sua Constituição. Numa época em que, em Portugal, se fala de uma reforma do Estado – talvez de uma atualização da nossa

Samuel Bastos – Músico (Oboísta) | www.samuelbastos.com | foto de Mário Jorge Silva

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Universidade do Minho e do Porto §

PREMEIAM SETE ALUNOS BARCELENSES

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Universidade do Minho e a Universidade do Porto distinguiram, só este ano, sete estudantes do concelho de Barcelos pelo seu percurso escolar. Premiados por mérito académico ou pela distinção na entrada no respetivo curso, estes alunos, para além do reconhecimento,

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receberam o valor das propinas anuais. O Obli falou com dois dos alunos premiados, um de cada instituição, para compreender como são os métodos de trabalho e se é possível conciliar uma “média de excelência” com atividades extra. Apesar das restantes universidades do país terem sido contactadas, não se obteve qualquer informação.

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‘Não sou um aluno marrão’

Luís Perestrelo foi um dos quatro melhores alunos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). O jovem de Vila Boa terminou o primeiro ano do Mestrado Integrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores com uma média de 18,2 valores, o que o levou a ser reconhecido pela instituição. Não se considera um estudante ‘marrão’ e diz que o segredo está no seu método de estudo e no gosto que se tem pela matéria o que se está a estudar. Luís Perestrelo, de 19 anos, ganhou o valor de um ano de propinas e diz ser uma motivação para atingir outros galardões. O futuro engenheiro barcelense foi convidado pela direção da faculdade onde estuda para ser colaborador no ‘consultório FEUP’, onde esclarece dúvidas aos colegas. Luís Perestrelo pertence ainda à tuna universitária, mas confessa que é “difícil conciliar” com o estudo devido aos ensaios e atuações do grupo.

‘Sou autodisciplinada e aplicada’

Sara Gomes, estudante da Licenciatura em Optometria e Ciências da Visão, foi reconhecida pela Universidade do Minho pelo seu percurso no ensino secundário. A academia minhota premiou a jovem de Rio Covo Santa Eugénia por ser a aluna a entrar com melhor média no curso escolhido como primeira opção. A aluna que entrou na universidade com 16,3 valores caracterizase como “autodisciplinada” e “aplicada” no estudo. Sara Gomes que diz ‘não gostar de estar parada’ é ainda voluntária num grupo cristão e catequista. Também já pertenceu ao grupo de jovens da sua freguesia, mas o tempo que lhe ocupava levou-a a ter de o abandonar. A jovem de 19 anos sente-se, com este prémio, reconhecida pelo seu trabalho e garante que a vontade e gosto de aprender com alguma disciplina à mistura são o segredo para se alcançar o sucesso. | Emanuel Boavista |


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INVESTIGAÇÃO em (tempos de) crise? §

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e um lado, queixas: redução do financiamento da investigação, que se traduz, por exemplo, em menos bolsas de investigação, de doutoramento e de pós-doutoramento. Do lado do presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Miguel Seabra, a garantia de que o investimento em ciência, apesar da crise, é muito significativo. O Obli ouviu a opinião de três jovens investigadores barcelenses – Ana Ferraz, Hugo Sousa e Renata Gomes – e ficou a saber o que pensam a respeito do (des)investimento na ciência e investigação. Em contexto de crise, os cortes são, regra geral, a opção mais fácil. As políticas de austeridade e consequentes cortes no investimento na ciência e investigação têm levado a geração mais qualificada de sempre a abandonar o país. A ideia, que parece ser consensual, pode significar um retrocesso em relação ao patamar onde o trabalho continuado dos últimos anos colocou Portugal. Mesmo assim, numa altura de contenção e cortes, há quem desenvolva trabalhos com mérito reconhecido, não só em Portugal mas também no estrangeiro. Fora do país há pelo menos 15 anos, Renata Gomes faz investigação há sete. A trabalhar na área de medicina cardiovascular e regeneração cardíaca, a investigadora barcelense foi reconhecida, em 2012, pelo Parlamento Britânico. Apesar de simbólico, Renata Gomes admite que o prémio foi “muito importante”, na medida em que o governo reconheceu o papel essencial dos cientistas: “deu-nos acesso a grupos de trabalho políticos, nos quais podemos sensibilizar os políticos para que tomem decisões adequadas à realidade do dia a dia dos cientistas”, explica. Sensibilizar os decisores para a relevância da ciência e da investigação é um passo importante. Hugo Sousa entende que importa “reconhecer que os avanços científicos

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«O sistema de investimento na ciência e apoio aos cientistas precisa de ser revisto e remodelado em Portugal»

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irão contribuir em muito para um mundo melhor”. “Temos de apostar na formação de jovens, dar-lhes as ferramentas para que não se percam oportunidades de melhorar o nosso futuro”, sugere o investigador, coordenador do Grupo de Investigação em Oncologia Molecular do Centro de Investigação do IPO Porto.

final da competição, na Rússia, Ana Ferraz – que faz investigação na área das tecnologias aplicadas à saúde e biologia, desde 2007/2008 – recebeu convites de colaboração com outra universidade e houve inclusivamente quem quisesse apoiar o projeto “For a Better World”. A investigadora barcelense reconhece as vantagens que surgem com as portas que se abrem – porque “por vezes é necessário certos apoios para os trabalhos avançarem”, lembra –, mas, caso possa, pretende continuar a desenvolver o seu trabalho em Portugal. Ana Ferraz diz ainda não ter sentido diretamente os cortes, embora

Investimento em Ciência e Investigação Há a ideia de que, no estrangeiro, os cientistas são mais apoiados do que em Portugal. Hugo Sousa lembra, porém, que têm surgido condições para que os investigadores do nosso país possam equiparar o seu financiamento ao mesmo nível daquele que existe noutros locais do mundo. Lembra inclusivamente que “o European Research Council, através do Parlamento Europeu e dos seus programas de financiamento, tem distribuído muitos milhões para apoio a projetos de investigação sólidos”. O importante, considera, “é manter os olhos abertos e aproveitar todas as janelas de oportunidades”. É precisamente para não perder oportunidades que alguns investigadores optam por desenvolver o seu trabalho no estrangeiro. Na bagagem, levam vasto conhecimento, ideias, projetos. Procuram o apoio e o reconhecimento que, muitas vezes, só obtêm fora de portas. Hugo Sousa não tem dúvidas: “Sempre fomos muito bons a formar pessoas e as qualidades dos nossos investigadores são extremamente bem reconhecidas por todo o mundo”. Ana Ferraz é o exemplo mais recente. Em julho deste ano, a jovem investigadora venceu o Microsoft Imagine Cup 2013, na categoria de cidadania. Na

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compre do seu bolso o material de que necessita. Hugo Sousa prevê que as consequências da política de cortes possam ser “muito graves a curto prazo”, levando ao encerramento de linhas de investigação e à perda de jovens investigadores. Para combater esse desaproveitamento do potencial nacional, sugere Hugo Sousa, deve apostar-se de forma mais integrada e determinada na formação científica. A ideia é partilhada por Renata Gomes: “O sistema de investimento na ciência e apoio aos cientistas precisa de ser revisto e remodelado em Portugal”. | Cristina M. Barbosa |


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Centro Hípico utiliza cavalos para reabilitação de doentes

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equitação com fins terapêuticos trouxe um novo conceito de reabilitação, colocando o animal com um papel importante da terapia. Através da interação entre o cavalo e o paciente são trabalhadas, conforme as necessidades, as capacidades cognitivas, motoras e psicossociais. O Centro Hípico Irmão Pedro Coelho (CHIPC), em Areias de Vilar, é um dos espaços que desenvolve, há quatro anos, estes programas terapêuticos. O coordenador, Bruno Barros, explica que os resultados que se obtiveram nos pacientes que estão a ser acompanhados desde a abertura estão mais ligados à valência social, nomeadamente a questões relacionadas essencialmente com a afetividade, a socialização, a autonomia e a comunicação. Atualmente o CHIPC tem sessões terapêuticas com 95 pacientes. Uma grande parte, 75, são utentes da Casa de Saúde de São José, com quem o centro tem uma grande ligação, e os restantes recorrem particularmente a este programa. Bruno Barros fez os cálculos e, em média, são feitas por mês 400 sessões. O processo inicia-se com a autorização médica, que despista qualquer contraindicação, para depois ser efetuado um diagnóstico, pela equipa terapêutica, que leva à definição do perfil do utente e ao planeamento do programa.

Da relação entre uma pessoa com necessidades especiais e um cavalo podem surgir grandes evoluções no que respeita à reabilitação motora, cognitiva e sobretudo social.


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Centro Hípico surge em 2009 As primeiras experiências surgiram em 2007, mas o Centro Hípico Irmão Pedro Coelho só nasceu em 2009. Este centro tem atividade, para além da reabilitação, no sector do desporto, do turismo e lazer e ainda na organização de eventos desportivos. Neste último, destaca-se a competição internacional que ocorreu entre os dias 12 e 15 de Setembro, onde estiveram representadas cerca de 10 nacionalidades.

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Programas adaptados

Como cada patologia tem a sua especificidade, o CHIPC criou três programas em que cada um tem uma área de incidência. O programa ‘Cinco Sentidos’, desenhado para os doentes que sofrem de paralisia cerebral, tem como objetivo retirar contributos de reabilitação neuromotora, isto é, a integração sensorial e respostas adaptativas. Esta valência da hipoterapia não tem uma ação direta do praticante sobre o cavalo devido às limitações que os utentes deste programa apresentam. O programa ‘Arco-Íris’ tem uma vocação para o autismo. De acordo com o perfil dos participantes, é traçado um plano que combine as várias atividades que o utente é capaz de realizar, o denominado método combinado. Um terceiro programa é direcionado para os participantes que não têm problemas ao nível motor. A equitação terapêutica tem o objetivo de atuar em áreas especificas como a educacional, psicológica ou cognitiva. Esta é a valência que pressupões ação intencional e direcionada entre cavalo e cavaleiro.

Equitação terapêutica: porquê?

O coordenador do programa de equitação terapêutica, Bruno Barros, refere que há um conjunto de itens que justifica o sucesso desta forma de reabilitação. De acordo com o responsável, no que respeita ao participante a capacidade de relacionamento é maior com os animais do que com humanos. Por outro lado, os animais têm uma estatuto submisso que beneficia o processo e os cavalos, em particular, têm uma capacidade de comunicação que articula e interage com sentimentos, acções e emoções do ser humano. Também os benefícios motores, sociais e cognitivos da interacção entre o cavalo e o participante tem uma transferência visível para a vida diária dos mesmos.

“Cavalos têm de ter características especiais”

Os animais selecionados requerem um conjunto de “características especiais”, explica Bruno Barros, que passam pelas influências hormonais, pelo estatura, que preferencialmente não deve ser muito grande, pela capacidade de andar simetricamente e, finalmente e mais importante, pelo carácter calmo e de fácil maneio. | Emanuel Boavista |

fotos de Ana Teresa Miranda


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Eleições autárquicas: Políticas para a juventude

stamos a pouco mais de uma semana das eleições autárquicas. É habitual referir-se o descrédito da juventude nas estruturas partidárias, bem como um afastamento em relação à política (ver artigo “Jovens e Política: uma relação complicada”). Também por isso, o Obli procurou esclarecer, junto das candidaturas à

Câmara Municipal, as estratégias direcionadas para a juventude. Questionámos, então, as candidaturas em relação a três áreas, estruturantes na vida de um jovem e que desempenham um papel importante na emancipação dos mesmos – educação, emprego e cultura –, atendendo a que, muitas vezes, são as mais afetadas pela crise.

§ 1. Que propostas têm para combater o desemprego jovem? 2. Que medidas pretendem implementar com vista a apoiar os estudantes do concelho e procurar, de certo modo, contrariar o abandono escolar (ensino obrigatório e universitário)? 3. Que tipo de iniciativas concretas importa desenvolver na área cultural? É no domínio do empreendedorismo local que mais podemos fazer pelos jovens, razão pela qual temos lançado um conjunto de atividades capazes de promover o talento dos barcelenses.

Partido Socialista (PS) – 1.º Candidato à Câmara Municipal: Miguel Costa Gomes 1. Nos últimos quatro anos, têm sido feitos investimentos que se traduziram na criação de dezenas de novos postos de trabalho, a maior parte dos quais para jovens. Quando assumimos a gestão municipal, reduzimos as taxas municipais, para as famílias e para as empresas, no sentido de aliviar a brutal carga fiscal imposta pelo atual Governo e incentivar a criação de emprego.

2. No momento difícil por que passa o país, temos de estar atentos às situações de maior fragilidade social. Não por acaso, temos vindo a adotar medidas com o objetivo de apoiar os mais desfavorecidos, como, por exemplo, a distribuição de pequenos-almoços gratuitos no 1.º Ciclo, a cedência gratuita de manuais escolares, a atribuição de bolsas aos alunos do ensino superior, entre outras. O combate ao abandono escolar também se faz com uma oferta educativa à medida das necessidades e da realidade do concelho, apostando no ensino profissional. 3. Importa transformar o Museu da Olaria de Barcelos no único Museu Nacional da Olaria do país. E importa, em período de fortes constrangimentos económicofinanceiros, manter a qualidade de eventos como a Festa da Cruzes, a Mostra de Artesanato ou a Feira do Livro. Por fim, importa fazer da Torre Medieval um ponto de passagem obrigatório para os turistas que visitam a região e do Teatro Gil Vicente uma casa de cultura por excelência.

Coligação Somos Barcelos (PSD, CDS-PP e PPM) – 1.º Candidato à Câmara Municipal: Domingos Araújo 1. O apoio à juventude é para a coligação Somos Barcelos uma prioridade. Neste domínio, o combate ao desemprego é essencial, promovendo-se o estímulo a projetos empreendedores de jovens, com apoio logístico às iniciativas.Criar um gabinete de apoio ao ensino secundário, que crie outras saídas profissionais. Promover Concursos de Ideias sobre empreendedorismo e a criação de um Banco de Ideias. Realizar feiras de emprego. Promover estágios profissionais, em Portugal e no estrangeiro, para potenciar a modernização do comércio e aumentar o emprego.


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2. A coligação Somos Barcelos vai fortalecer o Apoio Social utilizando os meios possíveis (refeições, transportes, material escolar, bolsas de mérito para responder às necessidades dos alunos carenciados). Desenvolver uma rede de parcerias que realizem atividades complementares que desenvolvam sinergias para combater o abandono e o insucesso escolar. Apostar na diferenciação do processo educativo e desenhar programas de formação. Reconhecimento integrado dos melhores alunos através de prémios de mérito municipal. 3. Vamos recuperar as oficinas municipais para criar um Centro Cultural da Juventude. Neste espaço serão criados laboratórios de ideias, espaços para grupos de teatro, dança, estúdios de ensaio e gravação para as bandas. Reforçar a itinerância de exposições das coleções das várias unidades museológicas existentes do Concelho. Promover os Artistas Barcelenses, dando oportunidades a novos talentos, atribuindo bolsas de apoio a jovens artistas, ainda em início de carreira. Dinamizar a atual estrutura da Casa da Juventude.

conhecimento, a reflexão, a inquietação que a criação artística nos traz são negados, ou são só para os escolhidos, somos menos capazes de crescer como povo, somos menos competentes como pessoas, temos menos futuro como país e como cidade. Por isso, compete ao poder autárquico conceber princípios estratégicos de desenvolvimento de uma política cultural à escala local que de forma sistemática e sustentada aposte num projeto centrado em distintas valências e responsabilidades de ação [...]

Barcelos (MIB) – 1.º Candidato à Câmara Municipal: Manuel Marinho

Coligação Democrática Unitária (CDU) – 1.º Candidato à Câmara Municipal: Mário Figueiredo

BE

Bloco de Esquerda (BE) – 1.º Candidato à Câmara Municipal: José Maria Cardoso 1. Sendo o desemprego um problema nacional e não local, compete às autarquias reagir por antecipação criando condições de resposta aos problemas emergentes. Deve ser elaborado, em conformidade com o diagnóstico específico do concelho, um programa de ação que promova o desenvolvimento em área de criação de emprego. Por exemplo relacionado com o Emprego Social de assistência aos mais carenciados e à terceira idade, Emprego de inclusão para jovens em processos de reintegração social, ou para jovens portadores de deficiência. [...] 2. Nenhum concelho se moderniza e engrandece quando o abandono escolar aumenta. Em Barcelos o problema é evidente e tem proporções preocupantes. No imediato é preciso criar uma equipa multidisciplinar que elabore um diagnóstico económico-social do concelho que seja capaz de identificar as situações de carência, os casos de pobreza e as discriminações realmente existentes. Em função desses elementos criar um plano de intervenção que responda efetivamente aos problemas detetados. [...] 3. Quando a cultura é um privilégio raro a democracia não existe. Quando o

Movimento Independente por

1. A situação económica do país e as competências autárquicas limitadas seria demagogia prometer a criação significativa de emprego jovem. 1ª A luta contra a política de direita responsável pela destruição de postos de trabalho, pela precariedade e o desenvolvimento da política esquerda pelo fomento da produção nacional, pela valorização do trabalho. 2ª A cooperação com instituições Barcelenses (IPCA, ACIB) que permita vencer barreiras, agilizando a colocação de jovens no mercado de trabalho. 2. A defesa da escola universal, pública e gratuita. Combater o encerramento de escolas e defesa de melhores condições escolares: dizer não! Ao aumento do número de alunos por sala, à falta de professores e de funcionários; exigir aquecimento nas escolas. Alargar e reforçar o apoio social de bolsas de estudo. Gratuitidade dos manuais escolares e promoção da sua troca. Reforçar o apoio à alimentação nas escolas para alunos com sinais de pobreza e fome. Alargar a atribuição do passe escolar. 3. Apoio às associações e movimentos culturais quer financeiro, quer na divulgação e promoção da atividade desenvolvida. Criação de eventos culturais com a participação efetiva dos jovens e das associações culturais. Fomentar a magia das artes nas escolas e espaços públicos. Apoio financeiro e promocional aos jovens criadores das mais diversas artes. Disponibilização de espaços que garantam a democratização do acesso à cultura, quer do ponto de vista da produção cultural, quer da sua fruição.

1. Executaremos um estudo exaustivo das reais necessidades das várias áreas profissionais no tecido empresarial do concelho, de modo a orientar os jovens que enveredam pela via profissionalizante e também as empresas de formação. Promoveremos um programa de apoio ao empreendedorismo jovem, através da criação de um incubadora de micro-empresas, que elimine os custos de contexto nos primeiros 2 anos de actividade, beneficiando também da isenção de todas as taxas e impostos municipais. 2. Elaboraremos um estudo rigoroso que determine as causas do abandono escolar. Entretanto, no ensino obrigatório, alargaremos a distribuição gratuita dos manuais escolares até ao 12’ ano, mas só aos alunos carenciados. Proporcionaremos o pequeno almoço e almoço à população escolar que careça deste apoio. Reforçaremos as actividades extracurriculares, nomeadamente no inglês, nas artes e no desporto. Alargaremos a atribuição de bolsas de estudo aos estudantes universitários de modo a abranger também os mestrados. 3. - Um evento anual de artes plásticas destinado a novos artistas. Pretende-se que Barcelos passe a ser visto como o palco para o lançamento de novos valores. - O Teatro Gil Vicente será usado pelos agentes culturais do concelho que o ocuparão rotativamente, garantindo a sua abertura todos os fins-de-semana de forma economicamente sustentável. - Uso do espaço público para eventos musicais de qualidade. Desses destacam-se o monumento a D. António Barroso, e a encosta da frente ribeirinha. | Redação |

NR: Para garantir alguma igualdade, foi solicitado às candidaturas que as respostas não ultrapassassem determinado limite de caracteres. O Obli considerou, ainda assim, uma margem a ter em conta. Quando ultrapassada, a marca “[…]” dá conta desse excesso e de uma resposta que não foi devidamente concluída. As respostas são apresentadas pela mesma ordem com que foram recebidas.


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Jovens e Política: uma relação complicada Por não se sentirem representados pelos partidos ou com eles identificados ou, simplesmente, porque tendem a acomodarse, são muitos os jovens portugueses que adotam uma postura desinteressada em relação à política. Como aproximar a política dos jovens? Como promover uma participação mais ativa e crítica? A pouco tempo das eleições autárquicas, tentamos, então, perceber o que tem descredibilizado a política junto dos jovens e como inverter a situação.

O

s jovens portugueses, à semelhança dos restantes jovens europeus, votam cada vez menos. Esta é uma das conclusões do Eurobarómetro “Juventude Europeia: Participação na Vida Democrática”, divulgado pela Comissão Europeia, em maio deste ano, que parece reforçar a ideia de que os jovens portugueses vivem um pouco alheados da política. Para o professor de Ciência Política da Universidade do Minho, José Palmeira, o alheamento não é solução para nada. É, antes, “um sinal de que algo está mal, mas não será suficiente para inverter a situação”.

O académico considera, no entanto, que os jovens “não estão desinteressados na política, mas sim nesta política, muito assente numa partidocracia”. O afastamento dos jovens portugueses em relação à participação política vê-se, em grande medida, através da ida às urnas. José Palmeira atenta, porém, que a participação política não pode resumir-se a eleições nem à participação em organizações partidárias. “O movimento associativo ou as redes sociais podem também constituir formas de participação política, quer coletiva quer individualmente”, atenta. Ainda assim, o afastamento das formas tradicionais de

fazer política – com reflexos na participação eleitoral – deve-se, entende José Palmeira, a um “comportamento, seletivo e fechado, dos partidos”, razão pela qual urge que estes se abram à sociedade, “sob o risco de caírem na irrelevância política”. Já a inversão da situação atual depende de ambos, jovens e partidos políticos: “os primeiros porque com o seu empreendedorismo político podem inverter a atual lógica dos partidos; e estes porque só mudarão de hábitos quando virem o eleitorado virar-lhe as costas e fugir”, explica o professor de Ciência Política.

MINI-INQUÉRITO 1. Vais votar nas eleições autárquicas, em setembro? Porquê? 2. Entendes que os partidos se preocupam com aquelas que são as reais preocupações dos jovens? O Obli procurou saber o que pensam alguns jovens barcelenses a respeito da política. Ouvimos três deles. Todos veem o ir às urnas como um ato de cidadania. Apesar disso, revelam algum descrédito em relação aos partidos políticos. DR

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Nuno Bessa

Marta Silva

Patrick Sousa

25 anos

23 anos

24 anos

1. Vou. Acho que faz parte do papel do cidadão, através do voto, mostrar as suas ideias e do que considera estar bem e mal. 2. Sou um bocado pessimista neste aspeto, mas quero acreditar que a maioria dos políticos está para ajudar e quer fazer o melhor para as pessoas. No entanto, também acho que a classe política serve os seus próprios interesses, melhorar a sua própria vida. Creio que existe um pouco dos dois lados.

1. Sim, vou votar, porque considero que a opinião de todos é importante e só assim será possível envolvermo-nos de forma direta no futuro do nosso país. 2. Sinceramente, considero que nesta fase nos consideram um pouco descartáveis, envolvendo-os pouco na atividade política.

1. Claro! Votar é um direito e um dever de todos. 2. Os partidos não se preocupam. Há anos que têm organizações políticas de jovens com o objetivo de estar junto dos mesmo, a verdade é que são “escolas políticas”, onde os jovens aprendem a ser “políticos de café”, porque só sabem criticar a oposição, negativamente. | Cristina M. Barbosa |


TEDx Barcelos

| Joaquim José Gonçalves |

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29 de junho, um sábado abafador na Escola Secundária Alcaides de Faria, curiosos todos caminham para o auditório onde um cenário nos remete para um ambiente cinematográfico anos 60. É neste ambiente que, sob o tema CRI(SE) ATIVIDADE é lançada uma questão a uma plateia atenta: “Será a Criatividade uma fórmula de solução para a Crise?” Numa altura em que a crise é a palavra de ordem, com principal impacto na mente dos mais jovens, o tema proposto para a segunda edição do TEDx Barcelos teve o objetivo de confrontar dois conceitos: crise e criatividade. O interesse pelo discurso em torno da Criatividade, e das várias áreas que lhe estão associadas, fez da edição deste ano o lugar ideal para discutir novas ideias, conceitos e alternativas para contornar os problemas inerentes à época em que vivemos. O conceito TEDx desperta a discussão da sociedade através de exemplos pessoais, trazendo oradores com interessantes percursos de vida e que atingiram os seus objectivos pessoais. Desde artistas, como o caso da estilista barcelense Carla Pontes, passando por organizadores de eventos como João Carvalho, a fundadores de ideias de negócio inovadoras como é o caso de Afonso Santos. No fundo, o TEDx Barcelos é iniciativa, através da qual se pretende inspirar a plateia, mostrar que é possível fazer a diferença, ser distinto. Ressalvando que não é seguindo modelos de sucesso que seremos felizes, mas sim criando com audácia o nosso caminho. Será esta atitude a forma de acabar com a crise, mais do que económica, cultural?

CRI(SE)ATIVIDADE A CRIATIVIDADE COMO SOLUÇÃO PARA A CRISE A propósito do TEDx Barcelos Quando juntamos, num mesmo tacho, a cultura, a informação, a inquietude e a celebração do diálogo, e deixamos tudo a marinar durante cerca de três meses com umas pitadas de “sal-vação nacional” por cima, o mais certo é que acabemos com o caldo entornado. Desta degustação cultural sobrou, até hoje, apenas ruído. Mesmo que alguém, da mesma colheita, tenha resolvido colocar conservantes. OBLIgado. Apraz-me dizer que, depois de um dia “amarelo” em 2012, com a casa cheia, o TEDx Barcelos voltou, este ano, à escola, mostrando que tinha a lição bem estudada. Didático, construtivo, estimulante, entre outros epítetos - que não estariam certamente desajustados - este evento divulgou, num registo atual e coletivo, a comunhão de encontros entre a crise e a criatividade. Juntas, sem espaços. No final, a criatividade assumiu-se como o caminho para a descoberta de uma potencialidade ainda pouco explorada: a geração de uma ideia. Numa época de crise e de carência de metanarrativas, o ato criativo assumiu-se, neste encontro, como uma necessidade, busca, jogo, e encontro entre espaços e tempos diversos. Memória, identidade, história, reprodução, sombra ou PUB

espaço, constituíram-se como manifestações da criatividade em múltiplos campos de atuação. Foi um dia em cheio, que não vou mais esvaziar. Ainda assim, tenho que assinalar, ao terminar, que em 2013, TEDx Barcelos é um nome que já acarreta elogio. Elogio omisso: TEDx Barcelos é um autêntico TEDx Barcelos.

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| José M. Pinto | Arquiteto, barcelense, 25 anos


Obli setembro 2013