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20.abr.2012

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SUBURBANOS DA VIDA REAL A novela diรกria dos personagens da nossa Avenida Brasil

por Andrei Andrade 16


Muito antes de a Rede Globo ter a sua, Caxias do Sul deu vida a uma simpática Avenida Brasil. Feita de histórias que não viram novela – apesar do mérito – e são escritas sem compromisso com o Ibope. Um lugar onde os moradores também vivem seus dramas, amores e comédias, silenciosamente – ou nem tanto. A Avenida Brasil caxiense fica no bairro Jardim América, e começa no morro que dá fim à Rua Vereador Mário Pezzi. É uma ladeira em forma de S, que sobe e desce até ser cortada pela Rua Bahia, depois de cruzar com Chile e Uruguai. Na área quase inteiramente residencial, o comércio fica por conta de um bar, um mini-mercado e uma loja de compressores de ar, e uma pensão representa discretamente o setor de serviços. O trecho inicial ajuda a simbolizar as diferentes classes sociais que habitam a avenida. O morro separa o núcleo pobre do núcleo rico: moradias simples e às vezes improvisadas no começo dão lugar a casas de alvenaria bem desenhadas conforme a subida aumenta. E quando se chega no alto, uma descida ladeada por casa simples segue até o fim da rua. Nas casas mais sofisticadas, onde se privilegia a segurança dada por cercas elétricas, muros altos e placas que identificam a proteção de empresas especializadas, os moradores preferem não receber visitas de desconhecidos. O que não deixa de ser compreensível. Porém, onde a vida é mais simples, as portas estão abertas e a conversa flui naturalmente. As reservas são só na hora de tirar fotos. Mas até a timidez de quem não se acha bonito o bastan-

te para aparecer na revista logo desaparece, conforme o papo se desenrola. Quando chegamos à casa da empregada doméstica Elizete Camargo, de 49 anos, era a hora de Vale a pena ver de novo. Chocolate com Pimenta é só a primeira novela do dia para a diarista, que também não perde Maria do Bairro, em reprise no SBT, e todas as da Globo. A preferida é a das sete, Cheias de Charme, quando ela consegue ver um pouco de si em Taís Araújo, Leandra Leal e Isabelle Drummond, as “empreguetes” que protagonizam a trama. Curiosamente, a que leva o nome da sua rua é a que menos gosta. Bem informada, prefere a que virá substituir Avenida Brasil. “Vai se chamar São Jorge, e acho que vai ser melhor. Porque é da Glória Perez”, analisa. Mas as novelas são apenas uma parte da rotina de Elizete. Todas as manhãs, ela faz a limpeza de uma casa no bairro Panazzolo, e às segundas-feiras ainda trabalha na casa de outra família, no Centro. Divide o teto e o aluguel, de R$ 250, com o filho, Nereu, de 25 anos. Ele trabalha como segurança em um supermercado e, por não ser afeito às baladas e não se envolver com “porcarias”, é o orgulho da mãe. Ela só não entende como o filho atura ouvir músicas tão “barulhentas”, como descreve o material que tem em mãos: DVDs do Metallica e do AC/DC, retirados da es-

tante. Elizete prefere um pagodinho. Caminhando pelas calçadas estreitas da Avenida Brasil, chama a atenção a quantidade de cães que guardam as casas, muitas delas com placas que avisam a presença dos animais – tem até um alerta para a presença de cão “viralata & neurótico”. Quase no fim da rua, avistamos um boxer vestido com uma camisa de flanela de gosto duvidoso, que tira toda a imponência do animal (até o primeiro latido). É ele quem avisa a dona, a metalúrgica aposentada Ana Zanon, de 64 anos, sobre a presença da reportagem em frente ao portão. Moradora da avenida há 11 anos, Ana está com medo do avanço da construção civil na vizinhança. A cada terreno vendido, vê a possibilidade de que um prédio possa deixar a sua casa escondida do sol. Ela diz já ter recebido proposta de dois apartamentos em troca da casa, mas nem abriu negociações. Está satisfeita com a vida que leva, frequentando a academia duas vezes por semana e presenteando os vizinhos com as bergamotas, laranjas e abacates que colhe da sua horta ou do terreno ao lado – com a devida autorização do proprietário, que mora em Porto Alegre. A casa de Ana tem dois andares. Ela ocupa o térreo e deixa o primeiro andar para o filho e a nora. Vivem todos juntos e em harmonia, mas o casal já tem 29.JUN.2012

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A última curva antes de entrar no núcleo rico da Avenida Brasil |

Paulo PAsa/O Caxiense

mudança em vista. Adquiriu recentemente um apartamento em um prédio não muito distante, possível de avistar do portão de Ana. Mas a aposentada não perderá toda a companhia. Frederico, o cão, fica. Relação não tão confortável entre sogra e nora viveu Daiane Gonçalves, de 29 anos, que há mais ou menos 7 anos mora em uma das últimas casas da avenida. Mudou-se para morar com o marido, na casa da sogra. De tanto ouvir resmungo, resolveram juntar suas coisas e mudar para uma casa só deles. No mesmo terreno da sogra. De qualquer forma, o tempo já amenizou os conflitos e a convivência agora é saudável. Problema mesmo, hoje em dia, só a vizinha fofoqueira. Segundo Daiane, a moradora da casa que ela aponta, distante uns 200 metros, adora cuidar dos filhos dos outros moradores. Chega a abordar as crianças na rua para saber o que eles comem e o que vestem. “Esses dias ela perguntou pra minha menina mais velha em que loja eu comprava roupa pra ela. Mandei dizer que no Centro está cheio de lojas para ela procurar”, conta. Saindo de uma casa de dois andares, cercada por um muro alto, dois jovens engravatados e usando sobretudos seguem tranquilamente rua acima. É a

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dupla de mórmons Elder Walton e Elder de Jesus. Mas não, eles não são xarás. Elder é o primeiro nome assumido pelos missionários e significa ancião. Os nomes verdadeiros dos rapazes são Jeff e Washington, respectivamente. Estão há 4 meses em Caxias difundindo e tentando atrair novos seguidores para a religião. A missão dura dois anos. Como eles não recebem salário, tiveram que economizar para conseguir se manter durante o tempo de dedicação exclusiva a Deus. O brasileiro que tem o nome da capital americana trabalhava em uma panificadora. O americano em um supermercado. Na Avenida Brasil, que eles não sabiam ser nome de novela, conseguiram agendar dois batizados e fazer mais algumas orações. Para eles, agendar o batismo não é difícil. O problema é que muitos mudam de ideia e não aparecem, para decepção da dupla. “É que o inimigo também trabalha bastante”, lamenta o brasileiro, incomodado com presença do mal, seu mais forte concorrente. “As pessoas parecem não conviver muito, não se conhecer. Talvez porque trabalhem demais”, observa o americano, falando bom português. Quem já não trabalha tanto, porque a idade começa a impôr algumas restrições, é uma das moradoras mais antigas

“É que o inimigo também trabalha bastante”, lamenta o missionário mórmon Elder de Jesus, sobre os obstáculos – forças do mal que atuam sobre a Avenida Brasil e qualquer outro lugar – que encontra no trabalho de porta em porta em busca de fiéis


da rua, a funcionária pública aposentada Nadir da Luz. Ela tem 68 anos e viveu 66 na Avenida Brasil, em uma casa de tijolos que foi erguida bem pequena, mas que aumentou um bocado com o passar dos anos, de puxadinho em puxadinho. Com o calor do fogão a lenha esquentando a sala, ela lembra sem muita saudade do tempo em que era só mato, e que para lavar roupa precisava percorrer um longo caminho morro acima até um riacho que não existe mais. Hoje em dia, cozinhar para filhos, netos e sobrinhos que nem sempre avisam quando vão chegar é o maior prazer da dona Nadir, que gosta de ver cheia de gente a casa que divide com o marido, Luiz. Satisfeita com o cotidiano na avenida, a única queixa é quando algum vizinho deixa lixo em frente à sua casa. “É normal vir gurizinho lá de cima deixando lixo aqui, depois do caminhão já ter passado. Só mando levar de volta”, conta a aposentada, que incrementa a renda com serviços de doméstica diarista. É pela boa convivência entre os vizinhos, especialmente os mais antigos,

que descobrimos que dona Nadir é tia do treinador Celso Roth, atualmente do Cruzeiro, de Belo Horizonte. Quem conta que ela é irmã da mãe do extécnico de Grêmio e Inter é o construtor Hamilton da Silva, de 60 anos, que mora algumas casas abaixo. Na casa que divide com a esposa e o cachorro Tobi, que sai correndo cada vez que o dono o convida para tomar banho, seu Hamilton conta que a população da Avenida Brasil passou a aumentar significativamente a partir dos anos 70, após o governador Ildo Meneghetti ter doado alguns terrenos para habitação. Hamilton é natural de Bom Jesus, mas veio para Caxias ainda pequeno e cresceu na Avenida Brasil. Guarda boas recordações da infância, principalmente de quando subia o morro com os amigos para jogar futebol no campinho (que já não existe mais) ou para ver as brigas no “Buraco Quente”, como era conhecida uma vila próxima. “Naquela época, vivia por lá o bandido Antério, que era criador de cavalos e tinha até um ajudante parecido com o Saci-pererê. Todo mundo tinha medo do facão dele. Menos o cara que

matou ele com uma tijolada”, lembra, divertindo-se com a história. Pai de dois filhos e avô de 3 netos, Hamilton é um senhor caseiro. Visita pouco os vizinhos “para evitar fofocas”. Bem humorado, conta que o único vizinho chato é o da casa ao lado, que torce para o Caxias e corneteia sempre que o Juventude, clube do coração de Hamilton, é derrotado. Mas é claro que é brincadeira. Os dois são amigos e as cornetas são devidamente respondidas a cada derrota do Caxias. Não só Hamilton, mas todos os moradores que abriram as portas para a reportagem concordam que a vida é de paz na Avenida Brasil. Há poucos roubos, poucas brigas e pouco barulho, apesar da proximidade com áreas não tão recomendáveis para o passeio a céu aberto, especialmente à noite. Essa é a tranquilidade de quem apresenta o cenário a quem passa na rua. Na intimidade não há censura. É nos caminhos intransitáveis para os estranhos – entre uma casa e outra, boatos e verdades, lembranças e fofocas – que as histórias de novela esperam para ser escritas.

Elizete Camargo |

Ana Zanon |

Nadir da Luz |

Hamilton da Silva | Arte sobre fotos de Paulo Pasa/O Caxiense 29.JUN.2012

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Avenida Brasil - Suburbanos da vida real  

Reportagem sobre os habitantes da Avenida Brasil caxiense, publicada no período em que a novela homônima, exibida pela Rede Globo, fazia bas...

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