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Conteúdo

“As sementes do desejo e o desejo de semear… ou do sonhar ao fazer!” foram lançados no último Curso de Iniciativas de Transição em Coimbra e encontram-se aqui logo no início desta newsletter!

Curso de Iniciativas de Transição (Coimbra) - Pág. 3 a 6 Festa da Bicicleta - Pág. 7/8

Sementes que transformam-se e procuram construir uma sociedade mais feliz, sustentável e resiliente. E como atingir esse objetivo? Descubram neste número da neswletter uma das propostas da iniciativa de transição de Linda-a-Velha para ser germinar estas sementes, em que com “tão pouco, podemos fazer tanto!”

Bê-a-Bá da Bicicleta - Pág. 9 a 12

E daqui partimos em grande velocidade e super inspirados para a

Terra da Abundância - Pág. 13 a 15

Terra da Abundância da Iniciativa de Transição São Luís, que pro-

Transitar é ir belivando - Pág. 16/17

relação à escassez e à abundância, para vivermos plenamente na

SVE numa Iniciativa de Transição -

dádiva e confiando na vida”.

Pág. 18/19

Andresa Salgueiro e o projecto Believe (que viveu durante 1 ano e

Parceria Local de Telheiras - Pág. 20

11 dias com 1111euros e muitas trocas) lança-nos na pág.12.

Magusto de Telheiras - Pág. 21/22

Espanha e Eslovénia, atualmente a realizar o seu serviço de volunta-

HUB PT no Contexto InternacionalPág. 23 a 26.

cura transformar “as nossas crenças, sentimentos e atitudes em

Confiar na Vida e tomar a decisão de Ser Livre é o desafio que

Quem também trocou de vida foram o Enrico, Lara e Vesna da Itália, riado europeu na Covilhã e a participar na Iniciativa de Transição da Covilhã. E por falar em grandes mudanças... A Parceria Local de Telheiras (que foi apresentada na Newsletter no1) venceu uma candidatura ao programa “Cidadania Ativa” (EEA Grants)! Descubram tudo na pág. 16! Ainda de Telheiras aproveitem para saber um pouco mais do seu magusto comunitário que decorreu em 2013. Mas não é só por cá que acontecem grandes mudanças. O movimento de transição está a crescer pelo mundo todo e preparam-se novas formas de trabalhar em rede a nível internacional. As últimas novidades dos HUBs Nacionais podem ser encontrados na pág. 23. Resta-nos dizer que a próxima Reunião Nacional das Iniciativas de Transição (VIII) está prevista para 24 e 25 de Maio em Portalegre. É importante que pelo menos 1 a 2 membros de cada iniciativa participe neste encontro.

Quem quiser participar no próximo número da newsletter da transição em Portugal, é só escrever até dia 15 de Junho Imagem de Elizabete Agostinho

para: newsletter.trp@gmail.com. Boas leituras!


Curso de Iniciativas de Transição Coimbra, 8, 9 e 10 de Novembro

Sara Rocha e Annelieke van der Sluijs - Coimbra em Transição Site: coimbraemtransicao.wordpress.com / Página FB: facebook.com/pages/Coimbra-em-Transição Email: coimbraemtransicao.geral@gmail.com

As sementes do desejo e o desejo de semear… ou do sonhar ao fazer! Começamos a sonhar com este curso muito antes da sua realização. Há já algum tempo que sentíamos a necessidade de um evento onde, juntos, pudéssemos aprender mais e experienciar o espírito da Transição, desde logo no processo da sua organização e realização. Com o contributo de 3 formadores, 24 participantes, 9 pessoas na equipa de apoio, a presença alegre das crianças e a disponibilização de espaços por outras associações da cidade, o evento tornou-se numa grande “reunião de família”, um solo fértil para as sementes que iriam ser lançadas. Partindo da experiência adquirida ao longo dos últimos meses enquanto iniciativa de Transição, tínhamos já perguntas concretas que se mostraram relevantes para todos, enquanto base para explorar colaborativamente durante os exercícios do curso: Como construir redes de partilha e aprendizagem para criar a cidade em que queremos viver? Como será um lugar onde cada um de nós pode florescer, cumprindo todo o seu potencial humano, e, ao mesmo tempo, viver bem em conjunto? Como agregar e concretizar sonhos comuns para os lugares em que vivemos? Como comunicar e trabalhar em conjunto de forma construtiva e eficiente? O Curso surge então desta vontade: servir como ponto de encontro entre pessoas com diferentes percursos, conhecimentos e experiências, mas com a mesma vontade em aprender, praticar e experienciar abordagens de construção colectiva já utilizadas em iniciativas espalhadas por todo o mundo. Estiveram presentes pessoas de Coimbra, Aveiro, Lisboa, Braga, Porto, Faro, Odemira, Sintra, Torres Novas e Tomar. A partilha das diferentes experiências locais enriqueceu a perspectiva de cada um e ajudou a tornar real o exercício de conceber, planear e realizar acções concretas, para criar maior resiliência em termos de produção de energia e de alimentos, e nas relações económicas e sociais entre os habitantes de um lugar.

Reinventar o 25 de Abril no Ateneu de Coimbra

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O processo de organização do evento Inspirados pelo sucesso do modelo utilizado noutros eventos, usamos a co-responsabilização para a organização do curso: todos contribuíram com alimentos, houve alojamento e pequeno-almoço para os viajantes em casa de membros da CeT e partilha de transportes. Um dos maiores desafios deste curso foi encontrar um local na cidade que fosse adequado, uma vez que a CeT ainda não tem espaços próprios. À falta de um, conseguimos arranjar 3 espaços diferentes: o Ateneu de Coimbra, o Instituto Universitário Justiça e Paz e o Salão Brazil, dois dos quais com quem a CeT já teve colaborações. Três organizações com culturas, percursos e experiências diferenciadas na história e vida actual da cidade de Coimbra. Apesar das dificuldades criadas pela itinerância, a equipa de logística fez um trabalho fantástico no transporte de materiais e refeições, e os participantes do curso ficaram com uma impressão ao vivo do funcionamento itinerante da CeT.

Graças à equipa de apoio e à ajuda de todos os participantes, o curso fluiu em harmonia Os formadores André Vizinho, Amandine Gameiro e Gil Penha-Lopes e a CeT reuniram antes do curso de forma a integrar questões do interesse dos participantes nos exercícios do curso. O Denis Hickel ainda adaptou uma ferramenta que desenvolveu para o seu doutoramento para tornar o processo de aprendizagem individual e colectiva durante o curso mais visível, o mapa de empatia. O sabor dos sítios Na tarde de Sábado, fizemos uma visita guiada pela cidade, enquanto alguns dos elementos do grupo de Coimbra iam contando histórias sobre o percurso da CeT e sobre a cidade. Parámos para beber uma ginginha no Arco de Almedina, encontrámos amigos da Associação Prisma pelas ruas da Baixa e fomos até à Rua Direita (ver o vídeo e/ou visitar-nos para sentir uns cheiros deste espaço). Nesta rua, marcada pelo abandono do espaço, a CeT está a colaborar com a equipa do Plano Municipal para a Igualdade e Cidadania na criação de um espaço de beleza, onde uma pequena horta cresce por entre uma paisagem de cores em mosaicos, de gatos saltadores, de flores dadas e couves encomendadas, de curiosos que espreitam e esperançosos que ficam. Um sítio onde uma chama, uma pequena luz, pode fazer toda a diferença. E não será assim para todos nós?

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Domingo de manhã: recapitular o primeiro dia com todos no Salão Brazil


As ferramentas de transição: praticar com que mais nos interessa Aprendemos um leque de técnicas de discussão, planeamento e construção colectiva, como o Open Space e o World Café, onde pudemos, de forma muito prática, envolvida e apaixonada, aprender-em-acção. Os temas chave durante as nossas conversas: criação de redes de aprendizagem e partilha; consciencialização de um grupo populacional com fraca/baixa instrução; levar a voz da “cidade” aos centros locais de decisão; primeiros passos da transição e o que já tem sido feito em Portugal; financiamento; interajuda entre iniciatiavas; inclusão; upskilling e voluntariado vs profissionalização.

Viagem no futuro: sonhar e partilhar para mudar as nossas narrativas sobre o que é possível

Dar e receber… reaprender a fazer contas! Nos dias que correm, muitas pessoas procuram novas fontes de conhecimento e experiências, mas com frequência têm dificuldades financeiras em participar nas múltiplas oportunidades de eventos e iniciativas que estão constantemente a surgir. Por outro lado, participar implica muito mais que poder pagar uma inscrição: experimentar, observar, contribuir para um debate com aquele que é o nosso contributo irrepetível, são factores essenciais para aprendermos em conjunto. Queríamos então tentar outras formas de contribuição, que pudessem incluir todos e apelar ao melhor que cada um tem para dar. Assim, inspirados pela experiência de alguns de nós no evento AJUDADA, fizemos uma reflexão no final do curso sobre aquele que tinha sido o valor que cada um pagou pela sua inscrição e aquele que era o sonho de todos os que contribuíram para a realização do evento. Fizemos as contas às horas que todos investiram na preparação (378h), aos bens e serviços disponibilizados e, face àqueles investimentos, convidamos todos a contribuírem com um valor que achassem ser justo ou com trocas. Por exemplo, o vídeo e o cartaz do curso foram feitos em troca de inscrição.

World Café com as delícias dos nossos cozinheiros

Muito para partilhar nos intervalos

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Feitas as contas e os balanços, percebemos agora que orçamentar uma actividade implica muito mais que apresentar um valor em dinheiro. Desde logo, pensar toda a economia que acontece entre um grupo de pessoas e entre este e a sua comunidade. Perceber que existem muitos recursos ocultos na azáfama habitual do quotidiano (os nossos saberes, habilidades, a nossa energia, as nossas decisões, o nosso tempo) que podem, afinal, permitir que algo de bom e inesperado aconteça. A aprendizagem feita a este nível no curso reflectese hoje na forma como estamos a pensar e a procurar construir a sustentabilidade da CeT. Reflexão No caminho incerto que todos temos pela frente, parece certo, sim, que iremos experienciar altos e baixos. Neste fim-de-semana, aprendemos sobre como ultrapassar a flutuação dessas marés nem sempre claras, e reforçar a nossa capacidade colectiva de transformação. Para tal, teremos de nos atrever a sonhar, construindo narrativas positivas sobre o nosso futuro; acreditar que, uma vez juntos, temos o poder de mudar à escala da nossa comunidade; ter a coragem de arriscar para descobrir o que ainda não sabemos, de cometer erros e de aprender com eles; cultivar a confiança entre nós e o apoio mútuo que torna tudo isto possível. Com os corações cheios, regressámos para casa. Deixamos aqui testemunhos sobre como essa nossa convivência está a marcar as vidas dos participantes: ANA CUNHA “Fiquei muito feliz pela oportunidade de poder frequentar esta formação, por estar acompanhada pelos meus colegas de Aveiro em Transição e por conhecer mais pessoal “a transitar.” Sentia que era uma necessidade pessoal e de grupo, poder usufruir e transmitir toda esta energia. Veio estreitar os nossos laços, veio "alinhar-nos" e veio dar-nos ferramentas para sermos mais eficientes, coesos e sonhadores, em conjunto. Conversámos posteriormente sobre a formação e partilhámos com os outros colegas. A nível pessoal e profissional, acrescento que foi igualmente positivo em termos de capacitação em termos de dinâmicas de grupo e comunicação. Se tiverem oportunidade de participar nesta formação, não hesitem! Obrigada Coimbra em Transição pela iniciativa!”

DIANA DIAS “Fui ao curso numa época em que voltei a querer estar activa (...) e então fui numa de conhecer pessoas, e de perceber se faria sentido iniciar ou não um movimento de transição no Porto.. depois do curso, achei que não fazia muito sentido… mas por causa daquele exercício do sonho fiquei mesmo focalizada em concentrar-me no meu sonho mais forte e nunca realizado (que é viver em comunidade intencional!). “

JENNY TAVARES “Sem dúvida o principal contributo, a nível pessoal, foi o alargamento do conceito da palavra "Partilha", agora não é só dar mas também é receber, agradecer e celebrar. Tento no meu dia-a-dia aplicar os conhecimentos que recebi, muitas vezes falho, em outras consigo bons resultados e assim vou crescendo. O nosso grupo de Aveiro em Transição é recente e esta iniciativa nós ajudou a tornar mais palpável o nosso "sonho". Com as ferramentas adquiridas começamos a "partilha", começamos a construir o nosso caminho para a transição. Uma das vossas iniciativas são as "Oficinas de Partilha de Saberes" que continuamos ainda com mais entusiasmo ao descobrir no curso em Coimbra como essa actividade nós fazia manter mais coesos, dentro da diversidade de interesses e necessidades da vossa cidade.”

NATACHA LEITE ”Brevemente posso dizer que tenho estado mais sensibilizada para apreciar e reproduzir pequenos gestos na direção de uma mudança construtiva e tenho tido mais confiança no impacte das minhas escolhas individuais. Deixei de ver a transição como um grande evento que vai acontecer algures no futuro e que tenho de preparar minuciosamente agora, mas mais como um processo feito de pequenas experiências de tentativa-erro que nos impulsionam nessa direção. Depois do curso a palavra "transição" ganhou uma dimensão de diversão que antes não tinha, passou de um dever a algo em que tenho todo o prazer e a colaboração com outros passou a ter um destaque central.

Por Sara Rocha e Annelieke van der Sluijs -6-


Festa da Bicicleta Linda-a-Velha, 3 de Novembro de 2013 Por Júlio Santos Publicado em http://biclasblog.blogspot.pt/ e http://transicaolav.blogspot.pt/ Email: transicao.lav@gmail.com

Linda-a-Velha, 03 de Novembro de 2013 Hoje foi o dia da Festa da Bicicleta, uma iniciativa do Movimento de Transição de Linda-a-Velha. Dificilmente poderíamos imaginar que ali, num espaço outrora cinzento e semi-abandonado, iria florescer um jardim de ervas aromáticas, uma ciclooficina comunitária e até uma deliciosa "casa da árvore" para os mais pequenos brincarem. Mas este espaço encantador é apenas um pequeno reflexo do excelente trabalho que esta comunidade vem fazendo! Para saberem mais, cliquem aqui. A construção de uma sociedade mais feliz, sustentável e resiliente é um dos objectivos dos movimentos de transição. Sendo a bicicleta um veículo perfeitamente enquadrado nesse espírito, não espanta que a mesma assuma um papel muito presente nestas iniciativas. Nesta "Festa da Bicicleta" conheci um casal que estava a fazer a manutenção das suas biclas que estão a usar numa viagem à volta do mundo. Saíram da Suíça, há cerca de 2 anos, e pedalaram para leste, passando pela Roménia, Bulgária, Grécia, Turquia, Irão, Índia, E.U.A., Canadá... Inspirador...

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Estava lá também um amolador, com a sua bicicleta, que também despertou o meu interesse. É bom saber que este oficio ainda não morreu!

O ponto alto, foi o espectáculo Kamishibai, uma forma de narração oral, originária do Japão, aqui apresentada por dois palhaços ingleses, que se deslocam numa bicicleta long-tail, que para além de ser o palco para a apresentação dos seus contos, também se transforma num sistema de som com energia eléctrica gerada a pedais. Nice! :) A alegria dos palhaços foi contagiante. Adorei a forma criativa como usavam pequenos objectos e desenhos para conduzir a nossa imaginação. Um exemplo muito giro foi o momento da história em que, para simularem que estavam a soldar uma pequena bicicleta partida, usaram como ferro de soldar um daqueles pauzinhos de fogo-de-artificio, com que habitualmente se enfeitam os bolos de aniversário... :)

Apesar do frio outonal que já espreitava, o ambiente era caloroso e amigável. As castanhas já estavam a ficar prontinhas mas outros compromissos levaram-me a deixar a festa mais cedo... Saí por isso com pena de não poder ficar até ao fim, mas contente com a tarde bem passada e inspirado pelos muitos exemplos de como podemos fazer tanto, com (aparentemente) tão pouco.

Por Júlio Santos - BiclasBlog -8-


Bê-a-Bá da Bicicleta Linda-a-Velha, 30 de Novembro de 2013 Por Gonçalo Pais Site: http://transicaolav.blogspot.pt/ e http://cicloficinalav.blogspot.pt/ Email: transicao.lav@gmail.com

No fim de semana de 30 de Novembro e 1 de Dezembro de 2013 ocorreu em Linda-a-Velha a primeira oficina Bê-a-bá da bicicleta para senhoras.

Foi um sucesso e vai haver repetição mais para a Primavera.

Eram 14h30m e as 5 formandas já tinham as bicicletas estacionadas e estavam prontas para a formação. Entre as formandas estava a Madalena que tem um projeto pessoal nos escuteiros que é até ao fim do ano aprender a andar de bicicleta na via pública. Falou ao seu chefe deste curso e ele incluiu-o nas suas atividades. Afinal a Madalena está a evoluir no sentido de atingir o objectivo a que se propôs. Muito bom!

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Estacionamento composto

Já a dominar

Passámos em revista o bê-a-bá da bicicleta, com um pequeno historial da bicicleta, passámos "revista" por todas as peças e seus nomes e funções. Depois ficámos a perceber um pouco mais de ergonomia, como travar e como funcionam as mudanças.

Aqui foi quando nos apercebemos que ter uma bicicleta citadina com alguma qualidade em vez de btts de supermercado faz TODA a diferença. Na primeira o valor investido tem retorno enquanto que nas últimas o preço baixo torna-se caro pela pouca utilização que uma bicicleta mal feita nos proporciona. Fizemos um intervalozito com direito a chá de cidreira e queques macrobióticos.

A Madalena a aprender como funcionam as mudanças

Acabámos esta primeira fase teórica com alguns exercícios práticos. Verificámos o estado das nossas bicicletas, dos pneus à altura do banco e fizemos alguns exercícios de perícia. Aprendemos a arrancar e parar sem estarmos sentados no banco e a andar enquanto assinalamos a mudança de direcção.

Ansiosas por arrancar

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Que luxo….

… e que bem que soube!!!


Na segunda parte abordámos o código da estrada, o que está em vigor e o que vai entrar em vigor para o ano. Ficámos a saber quais os direitos e os deveres como utilizadores da bicicleta na via pública. Descortinámos alguns mitos urbanos sobre a utilização da bicicleta no dia-a-dia arranjando sempre maneira de contorná-los com criatividade. Falámos de acessórios e componentes das bicicletas urbanas que nos ajudam a tornar a bicicleta um veículo mais utilitário. Assinalámos algumas das manobras menos simpáticas de enfrentar no trânsito e formas de abordá-las com maior segurança.

Antes… sem confiança e com muitos medos

Depois, confiantes e prontas para enfrentar a estrada

No dia seguinte pusemos em prática o que aprendemos na oficina. Juntámos 17 pessoas entre as formandas, amigos, maridos, filhos e amigos do dia-a-dia dos filhos e atravessámos a vila para beber um café e pôr a conversa em dia (um programa simpático para se fazer de bicicleta). Numa conversa inicial, verificámos o estado das bicicletas, planeámos o percurso para evitar grandes desníveis ou vias com mais trânsito e combinámos criar uma massa compacta para que as crianças pedalassem em segurança no seu interior. Tudo aprendido no dia anterior. Partimos da Av. D. Pedro V reclamando o nosso espaço na via para que fossemos visivéis e para que os automobilistas não caissem em tentação de fazer razias. Evitámos a "zona das portas" dos carros estacionados e demos sempre prioridade a peões. Nos semáforos juntávamo-nos para partirmos em grupo. Numa pequena subida em frente à escola do primeiro ciclo Armando Guerreiro o grupo separou-se um pouco por causa das diferentes velocidades praticadas e logo um carro muito "atarefado" quis ultrapassarnos ficando em sarilhos pois mais à frente ficou em contramão sem conseguir voltar à sua mão sem "atropelar" os ciclistas. Foi uma subida que demorou nem um minuto a fazer, mas que mesmo assim causou "stress" num domingo solarengo. Ainda há muito a fazer.

Algumas imagens captadas durante o passeio

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A seguir ao semáforo das vivendas seguimos em direcção ao Pingo Doce e daí à pastelaria Aquarius. Estacionámos as bicicletas em linha e fomos beber o merecido café enquanto as crianças divertiam-se a pedalar no largo em frente. Na vinda o grupo não quis ainda "atacar" a Av. 25 de Abril que é sempre movimentada e onde as velocidades praticadas pelos automobilistas não são nada simpáticas nem dignas de um país europeu. Assim sendo voltámos via Escola de música, praça, usámos umas rampas que servem de atalho para peões e ciclistas, coreto, Rua Tomás Ribeiro, novo atalho a seguir ao Palácio Aciprestes, neste caso uma rampa de terra e estávamos na Rua de Goa, desta vez no Jardim de Infância José Martins para testarmos os trampolins que foram instalados pela associação de pais. Depois de pular, alimentar a bicharada e dar uma olhada à horta do JI voltámos à estrada. Fizémos o semáforo da sony, a Francisco José Vitorino e estávamos de volta à D. Pedro V. Depois de pedalar ainda há forças para pular!

Daqui despedimo-nos e cada um foi para sua casa com vontade de repetir esta e outras voltas muuuitas mais vezes!

Na primavera há mais...

Por Gonçalo Pais - 12 -


Terra da Abundância Escrito por Rita Alegria, Armanda Gonçalves, Patrícia Caldeira e Manel Alves. Ilustração por Manel Alves. Site: Email: maoazul@gmail.com

O que dá sentido à minha vida? A que é que eu aspiro? O que é que eu realmente necessito? Que abundância quero viver na minha vida?

Quais são os meus dons? Como posso servir a minha comunidade? O que eu posso oferecer? Que abundância tenho dentro de mim?

Na Terra da Abundância é um colectivo de animação sócio-cultural criado há um ano que actua sobretudo entre as localidades da Aldeia das Amoreiras, Colos, Relíquias e São Luis, no concelho de Odemira. Temos em comum um desejo de fazer uma vida simples e em cooperação, de retorno à terra. Acreditamos que é possível viver em abundância no meio rural e que é essencial transformamos as nossas crenças, sentimentos, atitudes e acções para vivermos plenamente em gratidão e confiança na vida. Há quem viva numa comunidade intencional ou numa aldeia; há quem escolha estar isolada num monte. Inserimo-nos num grupo regional mais alargado de trabalho pioneiro na construção dos alicerces de um outro mundo possível, aqui onde vivemos, de cuidado pelas pessoas e pela natureza. Algumas pessoas têm empregos, outras fazem trabalhos sazonais e poucas se sentem totalmente à vontade com o dinheiro. E muitas forçaramse a sair daqui por falta de sustento. Assumimos o grande desafio de contribuir para a transformação de um paradigma de escassez para um de abundância, ao nível pessoal e colectivo, no plano espiritual e material. E isto implica toda uma transformação interna e social.

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Este projecto começou a partir de uma iniciativa do Centro de Convergência para uma moeda social local, que tinha por objectivo intensificar o fluxo de energia entre nós e promover o reconhecimento da abundância, bem como diversificar as formas de troca. Logo se entendeu que, antes de mais, era necessário considerar um círculo de partilha emocional, sobre os medos e as crenças associadas à abundância e à escassez. A questão do dinheiro é extremamente sensível e mexe com muitos medos internos, com raivas, rejeições e ambições, sentimentos de pobreza, vergonha de ser rica, insegurança de mostrar os seus talentos, desconhecimento sobre os seus dons... Toca em todo o sistema de crenças do capitalismo, no qual fomos educadas, e na forma como nos posicionamos na vida. Isto é, na dependência entre o que posso ser, fazer e ter, caso tenho acesso ou não ao dinheiro. Reconhecemos como tudo isto se encontra de forma inconsciente e por isso longe do alcance da transformação.

Aparição da Deusa da Abundância

Por outro lado, sentimos necessidade de conhecer melhor o actual sistema financeiro e económico e estudar possíveis alternativas, sem partir do princípio que a moeda social é a única possibilidade. Queremos responder a perguntas como “O que é a economia? Para que necessitamos dela?”, “De onde vem o dinheiro? Como funciona? Precisamos dele tal como é?”, “O que são os juros? São justos?”, “O que são os bancos?”, “Uma moeda social é legal?”, “Como dar valor a produtos e serviços num sistema alternativo?”, “Como utilizamos os recursos naturais?”, “O que significa desenvolvimento?”, “Podemos ser auto-suficientes nas necessidades básicas ao nível regional, nacional, ibérico?”, “Quais são as necessidades básicas do ser humano?” Começámos com a Armanda, a Alegria, a Patricia e o Manel; uns meses mais tarde juntaram-se a Isabel, a Ana e a Lucie. A partir da nossa convivência nos encontros regulares, e principalmente através das partilhas emocionais que abrem cada reunião, o talento criativo e artístico de cada membro foi-se desvendando em grupo.

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Pretendemos facilitar a consciencialização das populações locais para: o valor da vida rural; os próprios talentos e capacidades; a confiança em si e na vida; a gratidão pelo que existe aqui e agora; as emoções associadas ao dinheiro; a economia actual e uma economia solidária e sustentável; a criação de riqueza localmente. Esforçamo-nos para que toda a acção seja documentada e transparente de modo a facilitar o treino de outras pessoas que queiram animar a malta noutros lugares e multiplicar a mensagem de que: há suficiente para toda a gente; a vida apoia-nos; todas as pessoas têm valor. Olhando o ano que passou, foram feitos muitos encontros de organização de acções. Criámos performances como a Aparição da Deusa da Abundância, que respondeu ao apelo de uma manifestação surpresa, onde convidámos os participantes a soltar os medos, frustrações e raivas perante o actual paradigma económico. A Mãe Abundância presenteou-nos com a sua inspiração e com sementes em São Luís, na Associação Toca da Zorra. Mais tarde, durante o mercado local da Festa da Semente, na Aldeia das Amoreiras, voltámos às bolotas de sobreiro no Enterro do Multibanco, uma performance instalação com um multibanco especial, informando os utentes que “Os seus medos não lhe permitem aceder à sua abundância”. Com a possibilidade de os depositar, podíamos receber uma bolota em troca. Era a Caixa Geral da Abundância, com sucursais em cada coração.

Adaptação da Letra "O que faz falta" do Zeca

Quanto à restante produção, organizámos uma sessão de dinâmicas de grupo com expressão teatral e corporal, Os Escassos Anónimos, convidando a um círculo de partilha que se inicia com a frase “Olá, chamo-me tal e sou viciada na escassez”. Desenvolvemos também Os Piratas Económicos, um jogo de caça ao tesouro para crianças. Ambas iniciativas preparadas especialmente para a Ajudada de Portalegre. Para este evento realizámos também um filme de animação, “Marionetas em Ajudada”, cujos diálogos se baseiam no que recolhemos durante o processo de partilha emocional do grupo. Durante o inverno a nossa actividade hibernou, como é natural. Com o despertar da Primavera novas ideias sementes começam a querer germinar. Ainda caminhamos na busca da nossa visão e no desenho do projecto. Fala-se em obra colectiva, banda desenhada e filmes de animação, acçõesrelâmpago em eventos públicos locais, momentos corais popular-ó-revolucionário e um jogo de animação de papéis em vida real, com intenções políticas.

Esta é a nossa expressão artística para potenciar a participação e a mudança social. Isso sempre em conjunto com a partilha emocional, a investigação sobre a economia actual e possíveis alternativas. Sabemos que este é um projecto ambicioso e queremos caminhar com a consciência de cada passo. Ainda estamos a experimentar ideias, explorar as possibilidades e a reflectir as práticas. Apesar da leitura deste artigo poder indicar ideias claras e uma acção organizada, ainda nos sentimos no turbilhão do caos inicial da formação do cosmos. Há um sistema individualista, competitivo, repressor e de escassez entranhado em cada pessoa, em nossas estruturas mentais e emocionais... como é que a gente se emancipa de nós mesmas? Pensamos que o Teatro do Oprimido e o Teatro Playback nos pode ajudar. Estamos neste momento a pensar duas oficinas para potenciar os nossos talentos trágico-cómicos. Inspirando a transição, tanto interior como exterior, para uma economia solidária.

Por Rita Alegria, Armanda Gonçalves, Patrícia Caldeira e Manel Alves - 15 -


Transição é ir belivando Por Andresa Salgueiro Mentora do projeto Believe in Portugal Site: vivoatroca.blogspot.com * andresasalgueiro.weebly.com * www.believeinportugal.info Email: believeinportugal@gmail.com

O projecto Believe iniciou com o meu desafio pessoal que durante 1 ano, 11 dias, 11 horas e 1 minuto decidi viver com 1111€ e com muitas trocas. Estando efectiva num emprego pouco enriquecedor e desafiante, senti a necessidade de despedir-se e mudar de vida, com o desejo de me sentir uma pessoa mais saudável, sustentável, ecológica e poupada, logo, mais humana e mais feliz. Finalizei o meu projecto, gastando 969€ e após esse tempo, continuei a viver de trocas, agora já com alguns “empregos” que por troca de algumas horas de trabalho me facultam serviços e/ou produtos. Das minhas necessidades diárias, de comida, telecomunicações, entre outras, a verdadeira troca que fui alterando, foi a troca de mentalidade. Ao nível da comida, durante o ano dos 1111€ troquei restos do refeitório de uma escola ou produtos fora da validade por trabalhos manuais ou explicações, contudo, actualmente trabalho à troca de comida, num supermercado biológico e tenho uma horta perto de casa. Actualmente, faço trocas com a CP – Caminhos de Ferro Portugueses, sendo que há troca de algumas horas de trabalho, ajudando os turistas a comprar os bilhetes de comboio, sou paga com o passe para me deslocar na zona de Lisboa. No entanto, as trocas mais importantes nesta minha vida, foram trocar uma vida controlada por uma agenda com compromissos e eventos por uma agenda livre e vazia, que se vai preenchendo dia-a-dia consoante as boleias que consigo ou o passe de comboio que tenho. A troca de ter uma vida cheia de compras, necessidades “fingidas” e supérfluas, como roupa, bijuteria, maquilhagem, por uma vida mais ecológica, verdadeira e genuína, onde me mantenho com a mesma roupa durante o ano, cozendo e voltando a cozer as peças que se vão estragando, ou trocando roupa com amigas e deixando de usar maquilhagem diariamente. A troca de pagar a mensalidade fixa no ginásio, por passeios ao ar livre com a minha cadela. Aprendi por fim a andar de bicicleta para que, um dia mais tarde, consiga deslocar-me com mais facilidade. A troca de um emprego burocrático por um trabalho desafiante e motivador, de trocar as voltas ao mundo e inspirar cada vez mais pessoas a trocar. Ou seja, troquei uma vida cinzenta, sem sentido, para uma vida azul com foco.

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No percurso das minhas mudanças diárias, decidi viver em 11 comunidades durante 1 semana, em modelo de wooffing. Visitei diversas comunidades, tais como: Tamera, Aldeia das Amoreiras, Cidadela Arco-íris, Awakened Life Project, Ilha Paraíso, Família One Love Family, entre outras. Depois de todas estas alterações e caminho para a transição, iniciei assim, o projecto social denominado de Believe in Portugal, ajudando desta forma, a inspirar e a ajudar outras pessoas a contrariar a crise, de uma forma mais criativa e poupada, mas ao mesmo tempo mais saudável e ecológica, tendo por base os valores: altruísmo, confiança e partilha. O projecto Believe in Portugal, iniciado num grupo de trocas do facebook, com mais de 13500 membros, deu origem a 40 feiras de trocas, abrangendo 8 distritos um pouco por todo o Portugal, em Lisboa, Porto, Coimbra, Setúbal, Faro, Leiria, Santarém e Madeira. Durante o meu projecto pessoal abri uma loja de trocas, durante 11 dias, na Lxfactory, intitulada Be shop, que deu origem no ano de 2013, a uma Be Shop fixa, no Business Center, da Torre Arnado, em Coimbra, aberta há quase um ano. Como projectos futuros, neste momento estou a coordenar um projecto de uma casa de trocas, intitulada Be kyosk, com a parceria da Câmara de Torres Vedras, onde se dinamizará alojamento, cafetaria, loja, galeria e eventos, tudo à troca, sem a utilização de dinheiro. Outros projectos desafiantes são sem dúvida: a reabilitação de um carro a hidrogéneo, que servirá para dar boleias à troca em Portugal; um livro baseado no meu blog, que será trocado e não vendido e também, um programa de televisão, com convidados belivadores que fui conhecendo ao longo desta minha vida de trocas, na TVL – Televisão de Lisboa, intitulado “Trocar as voltas à crise”. Não é díficil trocar de vida! Difícil é tomar a decisão de se ser livre... o resto é apenas usufruir a liberdade do vôo. Eu troquei a minha vida e sou cada vez mais livre, quer trocar também a sua? Por Andresa Salgueiro - 17 -


Nossa Integração na vida da Covilhã Serviço de Voluntariado Europeu numa Iniciativa de Transição em Portugal

Enrico Chiari, Lara Andrès e Vesna Puh – Covilhã em Transição Site: covilhaemtransicao.wordpress.com Email: covilhaemtransicao@gmail.com

Somos três jovens que estamos a fazer o Serviço voluntário Europeu na Covilhã. Somos Enrico da Itália, Lara de Espanha e Vesna da Eslovénia. A nossa experiência começou em Setembro quando chegamos a Covilhã e infelizmente só faltam quatro meses para o fim do projecto. Somos voluntários na organização OUSEM - Outstanding Solutions for EMpowerment, e o nosso projecto consiste em aprender/aplicar permacultura e participar num movimento de transição. Nós começámos a participar na T sem darmos conta. Uma semana depois da chegada à Covilhã participamos na nossa primeira ajudada. Fomos a uma quinta onde conhecemos muitas pessoas que agora já são nossos amigos. É interessante que estamos temporalmente num país estrangeiro a participar numa iniciativa de transição onde temos que relacionar com as pessoas numa língua que não é nossa. Quando chegamos à Covilhã nenhum de nós falava português e para podermos assistir às reuniões tivemos que aprender a falar bem português. Depois de um mês e meio da nossa estadia em Portugal já pudemos assistir ao nosso primeiro encontro. A partir deste momento a transição começou a fazer parte do nosso »dia-a-dia«. Participamos em diferentes eventos, conhecemos mais e mais pessoas e começamos novos projectos. Do evento Troca de sementes na Escola Secundária Frei Heitor Pinto (ESFHP) nasceu o projecto Transição e Permacultura na ESFHP. Trabalhamos com a turma dos alunos de curso/programa Gestão ambiental. Com os alunos recuperamos a horta e a estufa pouco utilizadas, criamos um herbário das árvores do jardim da escola e estamos a preparar um dia de celebração para toda a escola.

No movimento há diferentes grupos de trabalho que correspondem aos objectivos práticos que queremos conseguir. Actualmente existe o grupos do cinema, troca de sementes, ajudada, reabilitação dos espaços urbanos, reflorestação, moedas locais, biblioteca, educação alternativa e transição interior. Cada um de nós está mais implicado nos grupos que lhe interessam:

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»Quando vi a Serra de Estrela queimada, depois do incêndio em Agosto, decidi participar no grupo de reflorestação. Com os colegas primeiro falamos do que seria preciso fazer e dentro de pouco já estava a recolher bolotas e a preparar um viveiro de carvalhos. Participei em varias campanhas de reflorestação, também em Plantar Portugal 2013, onde conheci outras pessoas que consideram as florestas essenciais para um ecossistema são. Conheci um grupo de jovens que chama-se Tribo de Estrela com a mesma preocupação e juntos já plantamos um impressionante número das bolotas; muitas estão espalhadas pela serra e quase mil estão a crescer num viveiro. Através destas actividades conheci muitos lugares bonitos de Serra de Estrela, pessoas da Covilhã que partilham os mesmos interesses e até já fui cantar as janeiras na Boidobra!« Vesna »O grupo de reabilitação dos espaços urbanos consiste em a recuperação de alguns lugares da Covilhã que estão velhos, sujos ou estragados pelo tempo e desuso. Com este grupo é que conhecemos o projecto New Hand Lab, um colectivo de vários desenhadores e artistas que agora trabalham numa antiga fábrica de lanifícios da cidade. Desta forma também conhecemos um pouco da historia da cidade e sua evolução. Actualmente estamos a trabalhar na reabilitação das escadas da Trapa que antigamente eram muito utilizadas pelos trabalhadores das fabricas que ficavam perto. O nosso projecto é fazer um vídeo documental deste lugar misturando a memória histórica da cidade e a realidade actual do lugar. Além disso também vamos fazer uma intervenção mural para que o lugar fique mais lindo. Em maio tem de estar tudo pronto, porque é então que vamos fazer uma celebração para toda a Covilhã. Acho que todos estos projectos são uma excelente oportunidade para conhecer melhor a cidade e também os seus moradores.« Lara O efeito positivo da transição no quotidiano reside no nosso entusiasmo e na nossa vontade de partilhar o que aprendemos e o que fazemos na iniciativa “Covilhã em Transição”. Falamos disso sobretudo com os nossos colegas de casa e não é muito difícil porque vivemos numa casa de estudantes e somos 21 pessoas! Como a sala de estar da casa é bastante grande, organizamos lá sessões do cinema: fizemos uma lista de filmes e documentários sobre comunidades em transição, permacultura, moedas locais, mudanças climáticas, etc. e convidamos algumas pessoas. Normalmente, depois de cada filme fazemos um debate sobre este para partilhar opiniões e sensações. Temos certeza que esta é uma óptima oportunidade de aprendizagem agradável, onde podermos reflectir com consciência sobre os vários problemas, sabendo que isso é só o primeiro passo. Ao chegar não conhecíamos o país nem Covilhã. Agora falamos muito bem a língua e sentimos que nós formamos a parte da cidade. »Antes de vir em Portugal não sabia o que è a Transição e não fazia ideia de como fosse possível começar um processo de desenvolvimento dessa. Agora sei que è possível, porque nós estamos a fazer isso! E não exagero quando digo que para mim isso foi como uma iluminação. Mas o sentimento mais forte que tenho não é esta iluminação…o sentimento mais forte é a vontade de começar um projecto similar na minha comunidade, em Itália. Este é o meu desafio social para o futuro.« Enrico

Por Enrico Chiari, Lara Andrès e Vesna Puh - 19 -


Parceria Local de Telheiras financiada pelo programa Cidadania Ativa/EEA Grants

Filipe Matos e Luís Pereira - Associação Viver Telheiras Site: www.vivertelheiras.pt Email: geral@vivertelheiras.pt

Boas notícias: a Parceria Local de Telheiras (que apresentámos na Newsletter nº1) venceu uma candidatura ao programa “Cidadania Ativa”! Este programa é promovido a nível nacional pela Fundação Calouste Gulbenkian, gerindo fundos da EEA Grants que reúne financiamento da Islândia, Noruega e Liechtenstein para fortalecimento da sociedade civil portuguesa e o progresso da justiça social, da defesa dos valores democráticos e do desenvolvimento sustentável.

Com este financiamento vamos conseguir garantir uma pessoa a trabalhar a tempo inteiro neste projecto durante 2014 e ajudar a nível financeiro a realização das reuniões entre parceiros, a realização de eventos conjuntos (como o Festival de Telheiras e o Magusto) e a aquisição de equipamentos e materiais para uso comum. Como escrevemos no artigo “Da ITT ao CCT: mudam-se as siglas, mudam-se as estratégias”, na Newsletter nº1, sentimos que tínhamos de caminhar no sentido de ter uma estrutura permanente a trabalhar neste projecto, ou as dinâmicas começadas com a ITT, e as novas que queríamos implementar, perder-se-iam completamente. E este foi um óptimo passo nesse sentido! E já que falamos da Parceria Local, aqui ficam as novidades desde a Newsletter nº1: tivemos reuniões de Parceria em Setembro (preparação do Magusto), Novembro (avaliação da Parceria em 2013 e planeamento de actividades para 2014) e Janeiro (apresentação de instituições e projectos, Desfile de Carnaval, Festival de Telheiras e resultados da avaliação) e organizámos o Magusto de Telheiras (ver outro artigo). No dia 28 de Fevereiro vai ser o Desfile de Carnaval da Escola Primária, com actividades planeadas por outros parceiros, e estamos já a preparar o Festival de Telheiras deste ano!

Por Filipe Matos e Luís Pereira - 20 -


Magusto de Telheiras Filipe Matos e Luís Pereira - Associação Viver Telheiras Site: www.vivertelheiras.pt Email: geral@vivertelheiras.pt

Em 2013 Telheiras voltou a ter um Magusto comunitário! Depois do Festival de Telheiras, em Junho de 2013 (que partilhámos convosco na Newsletter nº2), várias entidades do bairro juntaram-se para organizar o Magusto de Telheiras. A Associação Viver Telheiras, a Associação de Residentes de Telheiras, o Centro Comunitário de Telheiras, a Re-food, a Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa e o Parque Hortícola planearam uma tarde de convívio, em que participaram também outras entidades convidadas. Mote: “Viver um bairro também é celebrar o nosso espaço com os vizinhos, os amigos e a família. Ruas e passeios onde andamos todos os dias, a maior parte das vezes sem pararmos para aproveitar tudo aquilo que o sítio onde vivemos tem para nos oferecer.”

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Ou seja, estarmos juntos, convivermos, conhecermos os vizinhos, passarmos uma bela tarde a comer castanhas e beber jeropiga, enquanto conhecemos as entidades do bairro e algumas das suas actividades.

Foi uma óptima tarde, em que sentimos um bairro vivo, num ambiente muito acolhedor e familiar, com pessoas dos 8 meses aos 80 anos, que ali estiveram pelo prazer de estar. A repetir em 2014, sem dúvida!

Para além de estar guardado num lugar especial das nossas memórias, o Magusto ficou registado em dois vídeos: um que resume as várias actividades e toda a animação (http://www.youtube.com/watch? v=Gs6CC2ilpis) e outro com reportagens (http://www.youtube.com/watch?v=itLf5KgfCl0). Vejam também o rescaldo no nosso site: http://vivertelheiras.pt/magusto-2013/

Por Filipe Matos e Luís Pereira - 22 -


Hub Nacional no contexto internacional Annelieke van der Sluijs (Coimbra em Transição) Luís Gonçalves (Portalegre em Transição)

O que significa ser uma iniciativa de transição no contexto internacional? O Movimento de Transição está a crescer em todo o mundo. Neste momento, existem mais de 1100 iniciativas registadas em mais de 43 países. Desde o ano passado, os Hubs Nacionais estão a ganhar o seu lugar na estrutura de organização e decisão da Transition Network (TN), a organização “mãe” inglesa do movimento. Qual o benefício duma interligação internacional mais íntima? O que podemos fazer em Portugal para beneficiar do que acontece em outros lados do mundo, ao mesmo tempo partilhando as nossas experiências, contribuindo para o crescimento do movimento em todo o lado? Os nossos representantes na Rede dos Hubs Nacionais, contam sobre o que está a acontecer de modo a “preparar os solos” para um debate sobre a nossa interligação no VIII Encontro das Iniciativas de Transição nos dias (23), 24 e 25 de Maio em Portalegre.

A transição acontece em todo o lado, com identidades únicas A TN está num processo de reorganização profunda para dar resposta ao crescimento e internacionalização do Movimento da Transição. Com a emergência de iniciativas em todos os cantinhos do mundo, e cada vez mais iniciativas do mesmo país, surge a necessidade de dar espaço às particularidades nacionais, constantemente na procura do que nos une e como beneficiar dum bom funcionamento em rede. Em Setembro de 2013 teve lugar o segundo Encontro Internacional da Rede dos Hubs Nacionais em Lyon, onde o Luís Gonçalves representou o nosso país (ver relatório na 2ª Newsletter). Falou-se na forma em que a TN pode formalizar as suas ligações com os diversos Hubs Nacionais. Esta formalização concretiza-se perante a assinatura de um “Memorandum of Understanding - MoU” (Memorando de Entendimento). O desenvolvimento da relação entre a TN e os Hubs Nacionais é um processo em movimento constante. Durante o Encontro de Lyon, foram formados 4 grupos de trabalho para abordar as questões mais urgentes, bem como para se obter uma colaboração fértil. Um dos passos considerados mais relevantes em todo o processo da adaptação vai em breve acontecer na estrutura executiva da TN: a integração de um(a) representante dos hubs, o/a “Guardiã(o) da Perspectiva Internacional” no Conselho de Administração. É uma resposta directa a um pedido dos hubs à TN. Pela primeira vez o círculo Inglês vai abrir-se a outros países! Queremos dar-vos uma impressão do propósito e dos conteúdos do MoU e dos objectivos dos Grupos de Trabalho dos Hubs Nacionais. Propomos que cada iniciativa interessada numa ligação (inter)nacional faça uma reflexão sobre como funcionar no movimento internacional de Transição e quais as suas prioridades em termos das funções do Hub Nacional. - 23 -


Memorandum of Understanding: o que é, e porque é importante para Portugal o assinar? No Movimento de Transição queremos trabalhar de forma distribuída, colaborativa e auto-reguladora. Não queremos centralizar a mais, nem perder o sentido de ligação. Juntar as condições para funcionar de forma orgânica e transformadora requer um cuidado e consciência de todos os envolvidos. Os Hubs Nacionais são pensados como elo de ligação entre as iniciativas locais num país e o resto do movimento, com a Rede dos Hubs Nacionais como “coração” onde tudo se cruza. O Memorandum of Understanding tem como objectivo definir os objectivos e responsabilidades desta forma de colaboração pretendida. Sabendo que muitos dos países ainda não têm Hubs Nacionais, ou ainda com pouca estrutura, este documento inclui também uma descrição sobre como a TN pode apoiar a maturação faseada. A relação entre a TN e os Hubs Nacionais tem vários objectivos: a. Apoiar de forma ótima a emergência do movimento de Transição no país do Hub, e o desenvolvimento do próprio Hub; b. Fortalecer e desenvolver, através da partilha de sucessos, erros e experiências, a abordagem geral da Transição; c. Delegar ao Hub Nacional as 5 missões mais centrais da Transição (inspirar, encorajar, ligar, apoiar e treinar comunidades quando estas estão a considerar, adotar e implementar novas Iniciativas de Transição ao nível nacional) e, em simultâneo, continuar uma relação mutuamente apoiante com a TN. Os Hubs, na sua colaboração com a TN têm as seguintes funções: a. Funcionar como “coração” para o Movimento de Transição no seu país, possibilitando comunicação, partilha de ideias, experiências e modelos práticos entre Iniciativas de Transição, seja local, regional ou nacional; b. Ajudar a TN no seu objectivo estratégico de delegar responsabilidades, poderes e tomada de decisão ao nível mais local possível, o Hub Nacional a agir em nome da TN no seu país; c. Juntos com a TN e outros Hubs Nacionais modelar e desenvolver os elementos chave da Transição (propósito, princípios, ingredientes). Sentimos que existem várias razões pelas quais é importante para Portugal assinar o Memorandum of Understanding: a. A situação portuguesa tem particularidades diferentes do contexto inglês. Com a assinatura do MoU ganhamos autonomia para adaptar a nossa abordagem ao contexto português; b. A interligação com a rede internacional dá-nos oportunidade de expandir e aprofundar o nosso desenvolvimento. É uma inspiração ligar com pessoas e iniciativas em todo o mundo e ver que todos estes passos pequenos têm muito significado visto no seu conjunto. Ajuda-nos ainda a integrar a perspectiva global nas nossas acções locais; c. O Movimento de Transição é cada vez mais uma referência internacional. Estão a nascer oportunidades interessantes de colaboração e financiamento para levar os nossos projectos para frente. Neste contexto, gostaríamos de juntar um grupo para preparar o nosso percurso de maturação para tornarnos Parceiro “adulto”. Os 3 passos definidos pela TN: 1. Exploração: avaliar em que fase o Hub Nacional se encontra, como ela representa as iniciativas existentes e quais as capacidades das pessoas envolvidas nela para acompanhar o processo de maturação; 2. Fundação: Formalização do Hub Nacional como entidade jurídica, assumir o papel de inspirar e encorajar, começar a dar formação em coordenação com Transition Training (Formação da Transição), comunicação bimensal sobre o progresso. Tradução e publicação dos documentos principais sobre a Transição. O Hub Nacional torna-se ponto de contacto principal para “mullers” do seu país; 3. Parceiro “adulto”: Responsabilidade para todas as missões chave: inspirar, encorajar, apoiar, ligar, formar, colaborando com a TN a desenvolver e partilhar ideias que apoiam objectivos partilhados. Todas as responsabilidades em relação ao acompanhamento das Iniciativas para tornar-se oficial e a formação são transferidos para o Hub Nacional. A TN continua por enquanto responsável pela formação dos formadores. - 24 -


Nós encontramo-nos na fase 2. Do nosso ponto de vista, o processo de maturação do Hub Nacional coaduna com a necessidade sentida por grande parte das Iniciativas portuguesas em intensificar a partilha e a colaboração ao nível regional/nacional. Fazendo isto em contexto internacional abre mais oportunidades para sinergias: cada Hub Nacional faz o esforço a “destilar” momentos de aprendizagem, exemplos inspiradores, processos e ferramentas apoiantes. A interacção com pessoas “mergulhadas” em iniciativas de Transição é mutuamente enriquecedora.

Grupos de trabalho dos Hubs Nacionais: criar uma base para co-criação e partilha Foram identificadas 4 áreas de interesse principal para um bom funcionamento da Rede dos Hubs Nacionais. Quem está a par dos desenvolvimentos do Hub Nacional em Portugal, vai ver que quase todos estes assuntos também têm relevância na relação entre o Hub Nacional e as iniciativas locais! Os grupos definidos: WG Family (Família): Este grupo dedica-se ao “coração” da nossa interligação, a forma e a qualidade das conexões e encontros que nos fazem sentir que somos uma grande família. Os temas principais neste momento: (a) Qual a estrutura que nos apoia a conectar? (b) Proposta para Encontros Regionais (aqui, uma “região” é um conjunto de países com proximidade ;-)) (c) Monitorizar sucesso das conexões e encontros. WG Sructure and Decision-making (Estrutura e tomada de decisões): Ainda não está completamente claro qual a função de um Hub Nacional, e quais as estruturas de organização e processos de decisão que apoiam um bom funcionamento da interacção. Os assuntos urgentes deste grupo: (a) O que é um Hub? (b) Guardiã(o) da perspectiva internacional (qual a função desta pessoa que irá representar os Hubs Nacionais no Conselho de Administração da TN?) (c) Como fazer decisões? WG Funding (Financiamento): Este grupo está a explorar possibilidades para financiamento que ultrapassam o nível nacional. As prioridades neste momento: (a) Criar uma base de dados para fundos com significado internacional (b) Explorar oportunidades para financiamento com necessidade de acção colaborativa entre os Hubs. WG Comms/Info (Comunicações e informação): Para beneficiar das experiências e materiais desenvolvidos em outros lugares, precisamos de uma estrutura potente de comunicação. Este grupo tem como tarefas principais (a) Determinar plataforma de colaboração (necessidades, opções, selecção, implementação) (b) Identificar e priorizar materiais da TN para internacionalização.

Um exemplo sobre o funcionamento de um grupo de trabalho Para dar-vos uma impressão do funcionamento dos grupos e o prazer da participação, segue aqui um resumo da reunião skype de 2 horas do Working Group Structure and Decision-making que decorreu no dia 11 de Março em que a Annelieke participou. Os assuntos da reunião: (1) Apresentação do primeiro esboço da proposta “Como fazer decisões? (2) Processo de nominação e votação do/a Guardiã(o) da perspectiva internacional no Conselho de Administração da TN e (3) Apresentação do primeiro esboço da proposta “O que é um Hub Nacional”? A reunião tinha 12 participantes representando 8 Hubs Nacionais e a TN. Havia uma facilitadora da reunião (a “nossa” Filipa Pimentel ;-)), um guardião do tempo, uma guardiã do “coração” e uma pessoa a tomar notas. Tivemos todos acesso aos documentos via Google Docs. As propostas eram já bem elaboradas e comentadas online antes da reunião. Havia uma volta de esclarecimento e apreciação depois de cada apresentação. - 25 -


Depois da proposta sobre a tomada de decisões ainda fizemos um ensaio ao vivo do método para votações online. Foi também decidido que o método, melhorado com as recomendações que surgiram do ensaio, vai ser testado em contexto real no processo da eleição do/a guardiã(o) da perspectiva internacional. Finalizámos na hora marcada, com todos os assuntos tratados de forma satisfatória. Reflexão pessoal da Annelieke depois da reunião: “Andei toda contente depois da reunião: aprendi bué em termos de dinâmica de grupo, conteúdos e aplicação de técnicas de facilitação. E ri-me bastante, saí energizada. Percebi ainda mais profundamente como estamos a fazer a mesma coisa ao nível internacional, nacional e local. Com a minha participação nos três níveis em simultâneo, começo a funcionar como “hub” eu própria, facilitando o fluxo de informação e capacitação, assim enriquecendo e acelerando o poder transformacional do nosso movimento.” Cada país está representado com max. de duas pessoas na Rede dos Hubs Nacionais. Nos Grupos de Trabalho da Rede podem participar outros representantes dos países com iniciativas de transição. Neste momento, o Luís está a participar activamente no WG Structure and Decision-making e a Annelieke no WG Family. Fazemos turmas como observadores nos outros grupos, para poder transmitir-vos o que está a acontecer.

Um sonho…. partilhado??

Por Anneleike van der Sluijs e Luís Gonçalves - 26 -


PRÓXIMO ENCONTRO NACIONAL DE TRANSIÇÃO

PRÓXIMO NÚMERO

Será no segundo trimestre de 2014 que se vai rea-

da transição em Portugal no Verão, pelo que soli-

lizar o próximo encontro nacional de Transição,

citamos que enviem os vossos artigos até dia 15

de 25 a 27 de Abril. Este encontro de trabalho

de Junho. Sugerimos que os textos não excedam

terá como foco a continuidade dos trabalhos que

as 400 palavras (1 página A4), que incluam para

já iniciados e reatados em Linda-a-Velha no pas-

além do nome do autor, a referência da iniciativa

sado mês de Setembro.

de transição, email de contacto, blog/site. Solici-

Este encontro realiza-se em Portalegre, cidade que acolheu o encontro internacional “Ajudada”. É importante a representatividade das várias iniciativas para que se possa ir dando os passos tão

Gostaríamos de lançar o número 4 da newsletter

tamos que enviem 2 a 4 imagens por cada artigo. Enviar o material para: newsletter.trp@gmail.com.

desejados.

NOTA FINAL

Em breve haverá mais notícias, estejam atentos!

A todos os que incentivaram e contribuíram para este terceiro número da Newsletter Transição em Portugal um MUITO OBRIGADA!!!

NEWSLETTER TRANSIÇÃO EM PORTUGAL (NTRP) newsletter.trp@gmail.com Margarida Sousa (Covilhã em Transição) Fernando Oliveira (Linda-a-Velha em Transição) Ilustração da Capa Pedro Leão (Iniciativa de Transição da Madeira)

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Newsletter 3 (03 2014)