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SAINDO DA BOLHA DO CAPÃO PARA O MUNDO

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Show do bom, na periferia A banda que nasceu na Zona Sul de São Paulo enfrenta até hoje as mesmas dificuldades que o grupo de rap Slim Rimografia tinha quando começou. “Música também é trampo, se você não tiver história e talento, não sobrevive no meio”, afirma o baterista Márcio Teixeira. A história deles começou em 2001 com a união de amigos de longa data. Como estavam sempre envolvidos nos bastidores da música, tiveram a idéia de se juntar sob o nome de Usina Reggae, palavras escolhidas para relacionar o que eram: uma fábrica de ritmos ambulante dentro de uma vida operária. Afinal, na falta de grana, cantor vira motorista, baterista vira produtor e o tecladista ajudante de palco. Há menos tempo no cenário musical, os reggaereios ainda passam por um bocado para tentar viver da música. “Já chegamos a fazer shows com instrumentos emprestados e presenciamos invasões policiais violentas”, afirma o baterista Edson Reghetti, 38 anos. O que não os desanima, pois sabem que a recompensa aparece cedo ou tarde. Usina dividiu o palco com grandes nomes do reggae como Groudation, Cidade Negra, Tribo de Jah e Natiruts. “É muito louco você gostar e admirar o trabalho de alguém e do nada se ver ali no palco, do lado dele, cantando de igual para igual. Aí vemos que o sonho vale”, diz Márcio. E o sucesso? Ainda é o de menos. O grupo trabalha junto para levar a cultura do reggae para sua comunidade. No ano passado, criaram uma banda de maracatu composta por jovens da ONG Serviço Social Bom Jesus e do projeto na favela Paranapanema. “Toda primeira sexta-feira do mês montamos um palco na beira da avenida M’ Boi Mirim e tocamos de graça. O espaço é aberto e as bandas podem divulgar o seu trabalho”, relata o tecladista Macarrão. O reconhecimento, dizem eles, vem aos poucos. “O que rola é uma troca, as rádios divulgam o nosso trabalho e quando montam um show, tocamos para eles de graça”, declara Edson. Por falta de ajuda financeira estão com o próximo CD guardado na gaveta, só que o sonho de viver da música apenas começou. comédia de garagem Leandro Álvaro, de 22 anos, sempre sonhou em ter uma guitarra. Trabalhou durante meses e economizou dinheiro para comprá-la, mesmo sem saber tocar. Fez algumas aulas quando dava, pediu ajuda e dicas para um amigo que manjava tocar, comprava revistas de música e até convenceu a namorada a montar uma banda. O tipo de música? Rock, claro. Ketilly Pereira, 17 anos, - a namorada - comprou a ideia e resolveu economizar também para ter sua bateria (no meio tempo foi aprendendo a tocá-la). Chamou o irmão Alex Santos, 18 anos, que, por conseqüência, chamou o amigo Francisco Fernandes, também de 18 anos, e assim nasceu a Mundanos-09, no final do ano passado. (O 09 é para diferenciá-los da banda de mesmo nome. E o número? Bem, o número é a soma de cáries na boca dos quatro). Os moradores de Santa Margarida, periferia de São Paulo,

dão duro durante a semana – Leandro e Francisco no telemarketing, Ketilly nos eventos e Alex, correndo atrás de um emprego – para dar duro também nos finais de semana, quando ensaiam na sala do guitarrista. Mesmo com a bagunça, apoio não falta. “Eles têm futuro. Querem mostrar a música para os jovens se divertirem. Acho a iniciativa muito boa’’, diz Dona Bia, mãe de Leandro. As letras são deles e a inspiração é 100% brasileira. “A gente gosta de idiotice, quer tirar um barato das coisas, das pessoas. É como Mamonas Assassinas e Ultraje a Rigor. Já tentamos fazer letras românticas, mas não dá, só gostamos de falar besteira mesmo”, afirma Leandro. A brincadeira, no entanto, fica séria quando o assunto é futuro. Tocar na periferia não é fácil, pois quase sempre o dinheiro é o maior impecilho para dar certo. “Se eu fosse filho do Caetano Veloso, com certeza não estaria aqui. Estaria gravando discos, fazendo cilpes na MTV e ganhando rios de grana’’, fala Leandro com convicção. Apesar das dificuldades, os Mundanos-09 pretendem lançar seu CD até o final deste ano. “Queremos juntar uma grana, procurar uma gravadora boa e deixar nosso som com qualidade gringa. Não queremos tocar numa fita cassete”, completa.

Mundanos-09: cáries nos dentes, inspiração na comédia, Mamonas e Ultraje. Ah, e sim, no rock clássico também.

Zzine #0  
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Uma revista feita por jovens do Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, para jovens de outras periferias do mundo. Sua edição zero foi produzi...

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