Issuu on Google+

flávio braga

Deve me servir de consolo que Jodie Foster e T. S. Eliot também foram vítimas da mesma loucura? Aliás, o tal Eliot eu nem sei quem é. Que uma celebridade hollywoo­ diana como Jodie Foster seja alvo de perseguição amo­ rosa até se entende ou pelo menos se consegue atribuir a uma força maior sobre a cabeça do agressor. Mas eu? O que ela viu em mim?

a História real de uma perseguição amorosa

flávio braga

 

ISBN 978856401363-6

Romance

Flávio Braga, autor de romances, ensaios, tex­ tos teatrais e roteiros de cinema, também atua como jornalista e editor. Possui 18 livros pu­ blicados. Nasceu em São Paulo e vive no Rio de Janeiro há 30 anos.

Stalking poderia ser definido como “um com­ portamento anômalo e extravagante, causado por vários distúrbios psicológicos (narcisismo patológico, pensamentos obsessivos, etc.) nutri­ dos por mecanismos inconscientes como raiva, a­­­­­gressividade, solidão e inaptidão social, poden­ do ser classificado como patologia do apego”, segundo J. Reid Meloy, psicólogo especializado em medicina legal, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia (San Diego) e autor do livro The Psychology of Stalking, Clinical and Forensic Perspective. Mas as causas desse desejo de per­seguir ainda não estão totalmente escla­ recidas. Existem estudos apontando para a in­ c­apacidade de lidar com as perdas da infância e da idade adulta. O que se sabe é que movido pelo desejo de p­­ro­ximidade, um stalker desen­ volve uma h­abilidade i­ncomparável para elabo­ rar estratégias repetidas e indesejáveis só para manter contato. O romance-reportagem de Flá­ vio Braga descreve, com detalhes, um autêntico e impressionante caso de distúrbio do gênero.

9 788564 013636

 Regina Navarro Lins  


A História real de uma perseguição amorosa

proibida reprodução


proibida reprodução


A História real de uma perseguição amorosa

proibida flávio braga reprodução


proibida reprodução


proibida reprodução A história real de uma perseguição amorosa levada às últimas consequências

Flávio Braga Sobre depoimento de Eduardo L. M.


proibida reprodução


Sumário Introdução...................................................11 I Stalking........................................................14 A origem......................................................15 Aline............................................................17 Dispersões praianas......................................18 O custo da emoção.......................................19 Só alegria......................................................21 O teste.........................................................23 A tática.........................................................25 A proposta....................................................27 A revelação...................................................29 O “cafa” que existe em mim.........................30 Um novo approach.......................................31 A sabedoria do clichê....................................33 Percebendo a companhia..............................35 Os loucos perigosos são como nós?...............38 A perturbação evidente.................................40 Luz e breu....................................................42 Aleluia..........................................................44

proibida reprodução


Horrores do duplo........................................46 Um passo da decisão....................................48 As desgraças da sorte....................................50 A opinião do especialista..............................52 Um novo padrão a ser preservado.................54 A experiência................................................56 O contragolpe..............................................58 Sob efeito da ira...........................................60 A calma aparente..........................................61 O inimigo oculto.........................................63 O consolo e o sacrifício................................65 A liberdade vigiada.......................................67

proibida reprodução

II Plano Over...................................................72 O tempo necessário......................................74 Pego de surpresa...........................................76 As portas do desconhecido...........................79 Velhos novatos da orgia................................82 Volta ao lar...................................................85 O suspeito....................................................87 Não ligue, não fale, não ouça........................90 Quase um serial killer...................................93


O demônio apaixonado................................97 A incerteza da vitória..................................100 Medo ........................................................104 Amor?........................................................106 A história do sapo.......................................108 Breve respiração..........................................109 Vem para cá!...............................................111 O horror do desejo.....................................113 Objeto de investigação...............................115 O limite.....................................................117 Novo contragolpe.......................................123 A sutileza de concreto.................................125 Um cara sob medida...................................128 Percepção do engano..................................129 Sedução......................................................133 O dolo de muito amar................................135 O monstro verde........................................138 Vale quanto pesa........................................140 Amigo é para essas coisas............................141 O mar, o mar..............................................143 Em busca da resposta.................................144 Risco de desespero......................................147 O fim do fim..............................................151

proibida reprodução


proibida reprodução


introdução

O

termo stalking, que significa espreitar furtiva e persecutoriamente, como se faz com a caça, surgiu nos Estados Unidos com o enquadramento criminal desse tipo de atividade. J. Reid Meloy, psicólogo especializado em medicina legal, concluiu que stalking poderia ser definido mais especificamente como “um comportamento anômalo e extravagante, causado por vários distúrbios psicológicos (narcisismo patológico, pensamentos obsessivos etc.), nutridos por mecanismos inconscientes como raiva, agressividade, solidão e inaptidão social, podendo ser classificado como patologia do apego”. O Brasil ainda não possui uma legislação a respeito, mas as vítimas são muitas. Este livro surgiu de meu encontro com uma delas. Trata-se de um homem de classe média, que, na época, estava com 49 anos. Entretanto, as mulheres compõem o maior percentual de pessoas atingidas por stalkers. Após uma longa entrevista, redigi o texto a seguir, utilizando técnicas de jornalismo. Aproveitei também minha experiência como romancista para tornar a reportagem mais

proibida reprodução

11


densa sem, contudo, criar situações. Os fatos por si só são tão patéticos que não se fez necessário usar a imaginação. As identidades de perseguidor e vítima foram preservadas. Ambos estão vivos e moram no Rio de Janeiro.

proibida Flávio Braga reprodução

12


proibida reprodução

I

13


Stalking

D

eve me servir de consolo o fato de que Jodie Foster e T. S. Eliot também foram vítimas da mesma loucura, Flávio? Aliás, o tal Eliot eu nem sei exatamente quem é. Que uma celebridade hollywoodiana como Jodie Foster seja alvo de perseguição amorosa até se entende, ou pelo menos se pode atribuir a obsessão a uma força maior sobre a cabeça do agressor, mas eu? O que ela viu em mim? Uma amiga delirou, argumentando que é um jogo no qual eu faço a minha parte. Que eu a incentivei inconscientemente, sabe como é? Mas isso não explica nada, é só uma especulação a mais. Quando você me convidou para gravar um depoimento, fiquei pensando: o que ganho com isso? Falar sobre o passado opressor, desenterrar essas mágoas profundas, que quase me levaram à loucura, faz sentido? E não cheguei a conclusão nenhuma. Estou aqui porque você ligou de novo, me convenceu e marcou uma hora. Acho que isso faz parte de seu trabalho, não é? Convencer as pessoas a falar de suas desgraças.

proibida reprodução

14


A origem

C

onheci Tânia há muito tempo, vinte e tantos anos atrás, na universidade, nas rodas boêmias de estudantes, mas não aconteceu nada. Ela era muito jovem, logo se casou e teve um bebê, que vi algumas vezes nos bares. Sorríamos um para o outro e eu não imagino que ela me visse como sua futura vítima, nem creio que outros sofressem com ela o que vim a sofrer. Depois, um intervalo de 15 anos. Vivi no exterior, casei e descasei duas vezes, tornei-me pai, ganhei dinheiro e fali. O reencontro foi na praia do Leme, próximo ao apartamento de meu pai, onde morei depois da derrocada financeira. Eu vivia uma fase cínica. Prestava consultoria para dois clientes, bebia muito e queria a festa da existência. Sonhava com namoradas jovens e farras, mas isso se reduzia, na verdade, à vodca nas barracas de praia e aos olhares libidinosos para as meninas, sem consequência maior do que sorrisos condescendentes ou caras feias. Eu era um homem de 40 anos, com barriguinha de chope e aquele olhar brilhante, embora opaco, da terceira dose, sabe? Olhos um tanto vermelhos.

proibida reprodução

15


Guardei na memória o momento. A hora em que fixei as coxas claras de uma adolescente, seu corpo não tão perfeito, ainda de uma menina. Nem sequer pensei, naquele instante, que ela pudesse ceder a uma abordagem erótica de minha parte. Apenas fiquei olhando para ela, sentada sob o guarda-sol. Talvez, no inconsciente, eu a associasse à pessoa que logo voltou da água e sentou a seu lado, mulher de uns 40 anos, um tanto fora do peso, que acabei reconhecendo como Tânia. Ela e a filha em minha praia. Um homem jovem as acompanhava. Era um sábado e entre mim e eles havia, seguramente, duas dezenas de pessoas. Isso me colocava em uma posição privilegiada. Pude observar ambas com calma e avaliar meu interesse erótico sobre cada uma. Eu queria uma amante jovem. Se fosse preciso, poderia noivar e casar. Meu momento era totalmente voltado para o prazer que a vida oferece a um fracassado disposto a tudo. Avaliei o fato de conhecer a mãe de minha futura amada como um bom começo. O diabo deve ter concordado, acenando a cabeça.

proibida reprodução

16


Aline

A

ntes de atravessar a barreira de corpos seminus e abordar a menina com a desculpa de cumprimentar sua possível mãe, bebi outra vodca em três viradas. O calor e o efeito do álcool me encheram de coragem e zarpei balouçante entre guarda-sóis coloridos até a barraca onde elas estavam. Acocorado, fixei meu olhar sobre a garota, diretamente. Um daqueles olhares que, se tivesse garganta, diria: quero você, menina, e estou disposto a tudo. Mas, em uma interferência estudada, apenas perguntei se ela era filha de Tânia. Observe-se que a própria estava ao lado. A graça e beleza da menina eram a da outra naqueles dias... Só então levantei a cabeça e sorri para a futura caçadora. Ela não achou nenhuma graça da abordagem, porque isso claramente a desqualificava em relação à garota e porque, notei, ela não me reconhecia. Parte de meus cabelos havia caído e meu corpo se avolumara, assim como o dela. Os instantes pesavam e eu me arriscava a perder o impacto da surpresa. Anunciei ser o Edu, da arquitetura, sorri ainda mais largamente e emendei perguntando se a garota era filha dela. Respondeu que era a caçula.

proibida reprodução

17


Dispersões praianas

E

mbora não me interessasse em absoluto falar sobre o passado ou conhecer detalhes do presente dela, ficamos por ali. Descrevi minhas últimas décadas em duas ou três frases pouco esclarecedoras, mas insinuantes, e a conversa caiu no mais completo desinteresse. Em certo momento, Aline estava ao meu lado, de pé, com grãos de areia grudados nas coxas, e vi marquinhas vermelhas em alguns pontos de sua pele. Sem qualquer intenção erótica, mas totalmente encantado, passei a mão sobre sua perna, livrando-a das pedrinhas. Ela olhou e sorriu. Foi como se um anjo anunciasse minha redenção. Estremeci de volúpia. Esse instante específico coincidiu com Tânia e seu amigo Gino indo para o mar. Avancei, quis saber onde estudava e suas pretensões na vida e recebi a auspiciosa notícia de que nem sequer tinha namorado. Soube também que o acompanhante era um amigo e que moravam ali mesmo, no Leme. Mundo pequeno.

proibida reprodução

18


O custo da emoção

E

mbalado nos sorrisos de Aline e nas vodcas do barraqueiro, sucumbi à tentação de aumentar meu c­ acife, ­­­ convidando-as para almoçar na pizzaria em frente. Haviam depositado uma mixaria em minha conta no dia anterior e o talão de cheques estava intacto. Sentamos na Avenida Atlântica e bebemos chopes e Cocas. Foi quando descobri que Aline tinha apenas 16 anos e queria ser atriz. Tânia planejava que a filha estudasse na famosa Escola de Teatro Laranjeiras. Dei força, achei ótimo, enquanto imaginava Aline casada comigo. Com minha idade, ela teria um marido de 74 anos. Achei razoável. Ofereci sobremesa e, em uma súbita troca de olhares, percebi que Tânia me analisava. Notara a atenção que eu dispensava à sua jovem filha? Trocamos reminiscências por insistência dela. Nossas turmas eram diferentes, na verdade. Eu era da Arquitetura e ela, de Letras. Perguntou minha idade e observou que o pai da menina era dois anos mais moço. Tomei aquilo como uma advertência sobre minhas intenções, mas não me reprimi. Informei que uma amiga conhecia

proibida reprodução

19


um produtor de teatro infantil que poderia ajudar em um futuro próximo. Nós nos separamos, trocando telefones e endereços, e ficou combinada a próxima praia, no feriado da sexta. Em casa, papai chamou minha atenção quanto ao hálito. Eu cheirava a álcool. Mamãe balançou a cabeça.

proibida reprodução

20


Stalking: A história real de uma perseguição amorosa