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Bailarina, coreógrafa e professora. Doutora em Artes pela UNICAMP, Mestre e Pós-graduada em Dança pelo Laban Centre, de Londres.

de sua vida, e inspirado em um trecho da música Diariamente, de Marisa Monte (“para todas as coisas: dicionário/para que fiquem prontas: paciência”), Felipe Bittencourt inventou um projeto de performance por dia e os publicou em seu flickr, até às 10 horas da manhã, durante o período de um ano. Assim como fotogramas de seus dias, cada proposta deixa entrever o estado de espírito do artista, que se nomeia sempre como “o performer”. As propostas às vezes cômicas, outras vezes tristes ou melancólicas, expõem uma variedade de humores que nos faz perceber que o mundo desse pequenino personagem de desenho é muito mais do que ideias artísticas jogadas ao vento. Juliana Moraes

Bailarina, coreógrafa e professora. Doutora em Artes pela UNICAMP, Mestre e Pós-graduada em Dança pelo Laban Centre, de Londres.

ISBN 978856401354-4

9 788564 013544

Felipe Bittencourt

Juliana Moraes

Como resposta criativa a um período conturbado

Performance Diaria

desenho e no texto, cujo quadro Ceci n’est pas une pipe (1929) provavelmente figurou no inconsciente de Felipe até ressurgir, transfigurado, em suas propostas diárias para performances. Felipe Bittencourt criou um projeto inicialmente conceitual em sua seriação e disciplina, mas, ao longo do processo, ele mesmo percebeu que se tratava de um “desafio de tentar poetizar o que machuca ou o que incomoda um pouco, tentar fazer virar um produto poético”. Nós percebemos isso e nos deliciamos com a intimidade que vamos, aos poucos, criando com o personagem e alter-ego do artista. Inicialmente os desenhos eram soltos, mas, por volta do número cem, o artista pregou-os todos na parede e percebeu que, na verdade, eles contavam uma história, o que aproximava deles o processo da estrutura de um livro. Daí seu último projeto ter-se tornado a publicação do diário em papel, para a leitura e apreciação do espectador. A performance número 365 é o próprio livro que você tem agora nas mãos.

Performance Diaria Felipe Bittencourt

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Ao lermos as performances diárias de Felipe Bittencourt, temos o tempo de um ano condensado. Acompanhamos cada proposta e nos aproximamos desse ser que cria ideias gigantescas, mas em escala sempre muito humana: o tempo de suas ações é geralmente o de seu cansaço e os objetos que manipula são, muitas vezes, de sua altura e de seu peso. Se em sua carreira como artista plástico Felipe precisa, quase sempre, modificar seus projetos para o possível de cada situação, seja financeiramente, seja para se adequar ao tempo e ao espaço das instituições, em seu diário ele inventou um espaço de liberdade no qual pôde criar projetos inviáveis. Entretanto, apesar de aparentemente impossíveis, suas propostas já atravessaram o mundo e se concretizaram no Chile e na Dinamarca, em atos espontâneos feitos coletivamente. Ao repensar a performance para além do que se passa ao vivo para o espectador, o artista faz de sua disciplina diária o ato performático, e a comunicação com o espectador se dá pela leitura de suas ideias ou até mesmo pelo desejo de executá-las. Ao longo do ano, seus desenhos e sua letra aprimoraram-se, mas Felipe escolheu manter a integridade de seus desenhos originais, aceitando até mesmo pequenos erros, pois sabe que a maturação da técnica é um traço do tempo no trabalho de qualquer artista. Aqui e ali, encontramos pequenas homenagens aos seus ídolos, tanto ícones da História da Arte como figuras do universo pop, como Marina Abramović, Joseph Beuys, Bruce Nauman, Louise Bourgeois e Tom Hanks. Vemos, também, a homenagem a René Magritte, mestre da ironia no


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Apresentação Antes de tudo, imagine: Todos os dias, de 08 de dezembro de 2010 até 07 de dezembro de 2011, ele colocou-se na situação de, ao acordar, pensar em uma performance artística, desenhá-la e postar o desenho em um blog – desenvolvido especialmente para esse fim – até às 10 horas de cada manhã, o que resultou em uma coletânea de 365 propostas de performances desenhadas. O compromisso declarado pelo artista foi vigiado por pessoas que seguiram o blog diariamente. Este livro apresenta esse processo criativo, disciplinado e divertido do artista, que se inicia na intimidade da sua casa, que se amplia por meio das postagens diárias para os seguidores do blog, e que se conclui na publicação desse livro. Ops... Conclui? Os desenhos estão disponibilizados neste livro para aqueles que queiram realizar as propostas; quando esse processo será concluído? Aliás, algumas dessas propostas e desenhos – enquanto estavam postados no blog – já foram apropriados por outrem, para a surpresa de Felipe. Em uma exposição no SESC Joinville (realização Galeria VK...) – intitulada “Faça algo errado, e diga que fui eu que mandei”, cuja curadoria foi realizada por Kamilla Nunes, alguns desses desenhos foram expostos em uma mesa com proteção de vidro e algumas das propostas de

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performance foram realizadas, como “Self Tédio”, “Tudo é Relacionável”, “Técnica de Azar” e “Tango”. Em uma exposição no Chile, cuja curadoria foi de Paula Borghi, a performance que sugeria cobrir uma casa velha com post-its foi realizada por estudantes de Artes Plásticas. E com esses desenhos Felipe foi selecionado para a residência artística da Red Bull House of Art, em São Paulo, em 2011, sendo que alguns deles foram expostos no final da mostra. Ainda existiram situações inesperadas, fora do propósito artístico, tal quando duas mulheres solicitaram uma cópia do desenho da série “Armadilha para Príncipes”, que brinca com repertório iconográfico de contos de fadas, para presentear os seus companheiros no Dia dos Namorados. Então, ao longo desse ano de desenhos e de postagens, muitas coisas ocorreram e aconteceram. A ocorrência pode ser testemunhada sem comprometer a testemunha. Um acontecimento compromete a testemunha, que tece uma relação que interfere no curso habitual do destino. Ele interrompe a previsibilidade transformando todos os envolvidos, criando um entrelaçado novo, interferindo nas tramas com as quais estamos envolvidos. Ao postar diariamente, o trabalho de Felipe ocorre. Mas quando o desenho é encontrado por pessoas diversas que se apropriam dele, tecendo situações novas, o trabalho se transforma em um acontecimento.

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Felipe chama esse trabalho de Performance Diária. A palavra performance, do francês, deriva do prefixo per, que dá a ideia de plenitude; e do verbo formare, que significa “dar forma”. A palavra performance  remete à plenitude de formar, ou a formar plenamente, no sentido de tornar real. As palavras têm um poder performativo na medida em que com elas criamos categorias que organizam o mundo de determinada forma, classificando, hierarquizando, separando, juntando. O corpo também tem um poder performativo, porque não tem forma definida e porque nossas ações e percepções são organizadas para tornarem reais determinadas formas de convívio. Desse ponto de vista, o conceito de performance  remete às ações que são treinadas para serem vistas, para formarem plenamente uma realidade reconhecível para um observador: para serem representadas. Na arte, o termo  performance vem designando uma variedade de práticas artísticas interessadas em lidar com o modo como o corpo forma determinadas realidades perceptivas e comportamentais. Desse modo, podemos entender que a arte da performance implica uma abordagem crítica sobre alguns estados sociais e culturais da performatividade do corpo, capaz de trazê-los à consciência: para serem apresentados. Representamos continuamente, no dia a dia, uma série de ações que não dizem respeito exatamente às nossas idiossincrasias pessoais, mas aos papéis que nos cabem dentro das instituições sociais. A repetição, na medida em que forma uma

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realidade habitual, leva-nos a acreditar que a realidade que ela forma é natural, não que é formada. No entanto, hoje vivemos mudanças sociais tão grandes que hábitos anteriormente instituídos estão sendo desestabilizados. Não foi à toa que, no contexto dessas mudanças iniciadas no século XX, alguns artistas deram início a trabalhos com o propósito de produzir mudanças nos hábitos naturalizados, revelando neles um caráter cultural e social, e de estimular a criatividade para novas formas de ação, de percepção e de convívio, ou seja, para situações criadas pela experiência do improviso, a partir de alguns parâmetros colocados pelo artista, envolvendo, muitas vezes, a participação do público. Nesse trabalho, Felipe representa o hábito de postar até às 10 horas da manhã e apresenta, a cada nova postagem, uma ideia nova como imaginação compartilhada. Ele se coloca nas polaridades extremas do hábito e da novidade. Ambas são realizadas para o outro: o outro que o vigiava no blog para cobrar a postagem até a hora predeterminada – afinal, somos todos vigiados na medida em que assumimos compromissos – e o outro  que, independentemente do horário imposto pelo compromisso, buscava nas postagens e nos desenhos uma interação lúdica e uma inspiração – afinal, também estabelecemos relações dispostas ao diálogo criativo. Para o artista, essas postagens diárias, de segunda a segunda, impuseram a experiência de se colocar na situação-limite de, ou estando em sua própria casa ou na casa de amigos, ou viajando, ou tendo dormido cedo ou tarde, ou estando doente ou

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fatigado, cumprir o hábito estabelecido – e que estava sendo vigiado. Mas não ficou por aqui: submeteu o hábito à novidade. Seja a novidade apresentada nos desenhos, seja aquela que não havia programado: “desenhar todos os dias estabeleceu um certo cronograma emocional. Nos períodos de tempo pude perceber estados emocionais diferentes, onde apareciam uma série de ideias depressivas ou bobas, alegres, nervosas, que marcavam meu estado diário”, disse Felipe. Então, também podemos dizer que Felipe viveu em 2011 a experiência dos extremos da eternidade e do momento. O que muda no momento forma o tempo. O que se repete invariavelmente forma a eternidade. A repetição que forma a eternidade leva a crer que o que se repete é a própria natureza das coisas, a eternidade representada e reconhecida mais uma vez. Felipe criou uma situação artística que trata da linha frágil sobre a qual todos nós andamos diariamente. Este trabalho extremamente abstrato – na medida em que essa dinâmica é exposta sem tocar nos conteúdos nos quais está envolvida na lida do dia a dia – suscita algumas questões: no cotidiano colocamos nossa atenção sobre aquilo que se repete ou sobre aquilo que se transforma? Como negociamos a relação entre o conhecido e o desconhecido, tanto na percepção de nós mesmos como na percepção dos outros? Protegemo-nos defendendo a eternidade do mundo habitual, circunscrito às nossas rotinas? Ou protegemo-nos rejeitando todo compromisso em prol da mudança vertiginosa? Como saber quando mudar e quando resistir? Quais relações de poder

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estão implicadas na permanência e na mudança nossa de cada dia? Somos capazes de perceber que vivemos nessa situação extrema em cada um dos nossos dias? Prossigamos, pois ainda precisamos tratar da questão que norteou o trabalho de Felipe, segundo ele mesmo: “Como performar sem estar, de fato, presente?”. Para tratá-la, precisamos falar do corpo. Não exclusivamente do corpo de Felipe, que, evidentemente, se colocou nessa situação. Aconteceu mais do que isso. Foram, e continuam sendo, tramados relacionamentos entre corpos nesse processo, mesmo que mediados pela tecnologia. Felipe postava para ser visto. Algumas pessoas impuseram a si mesmas o hábito de vigiá-lo. Outras pessoas acessaram o blog propondo desdobramentos, realizando as ideias fora do blog, de maneiras diversas. Os desenhos chegaram até esse livro, que mobilizou, e que continuará mobilizando, vários corpos. Que corpo foi esse que interagiu por meio do blog e que continuará interagindo por meio desse livro? Certamente não é aquele corpo cuja presença é garantida pela ocupação do espaço físico, aquele corpo que termina na visibilidade do contorno da pele. O corpo que interagiu é o corpo cuja intenção é força projetada no mundo e que exerce influência, percorrendo tanto o espaço físico como o espaço virtual. Suas postagens influenciaram ações, mobilizaram-nas, assim como ele foi mobilizado pelas intenções daqueles que interagiram com ele, de um modo ou de outro. Podemos,

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então, dizer que esse processo formou um corpo coletivo, um trans-corpo tramado de intenções. E não é assim na nossa vida? Sim. E Felipe traz a nós tudo isso com qualidades, talvez, das mais preciosas: a graça e o humor. Graça tem a ver com gratuidade, algo que recebemos sem que tenha sido negociado. A generosidade, a gratidão e a alegria. O humor é a estratégia de que usamos para diminuir o impacto das grandezas da vida, de destituir delas o poder e a limitação impostas. O humor das situações propostas pelos desenhos é uma graça.

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Fernanda Carlos Borges Filósofa interdisciplinar, Mestre em Ciências da Motricidade, Doutora em Comunicação e Semiótica, Pós-doutora em Artes. Pesquisadora do corpo e da arte da performance.


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Performance Diaria

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proibida reprodução Nota do Editor Os textos que descrevem as performances, escritos de próprio punho pelo artista, foram conservados sem nenhum tipo de correção a fim de que a integridade da obra seja mantida tal qual como foi concebida.


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