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“Arnaldo é a imagem do poeta do século 21. Múltiplo. Move-se com criatividade nos mais diversos veículos e disciplinas. Poesia visual e vocal, letra de música popular e experimental, performance corpo-gestual, instalações. Aprendeu a explorar o grave e o vibrato peculiares de sua voz para lhe dar um caráter especial e único. Além disso, é um generoso companheiro de viagem. Ajudou-me muito

quando eu me iniciava, ainda sem computador pessoal próprio, na linguagem digital — artefinalizou, então, alguns poemas meus e colaborou belamente comigo num trabalho que assinamos juntos — as “iluminações” computadorizadas do meu livro Rimbaud Livre. Acompanho com muito interesse o seu trabalho, que segue, em vôo livre, independente e criativo. Em suma, um artista completo.” Augusto de Campos

Alessandra Santos

Volores min es etus abor sendis asi con rescipiet aut porem que pro eatem. Optatis asperep ernam, num iduntibus ratusanda doluptius, cone volorum ipsunt. Molupis cum acerum ullaboria nis ex eresciamusam ipis alici quo cusdandus, ime officia nobis esecerc hilicid issimus dolo dolore velenimi, occum soluption pedit, to tem fuga. Nem destotae pore nonseque solorenitiis etur? Qui istotae laceper chictat umquate corecto rerfers perum, occullest porum fugiam facepel millabori inuscia pa sequi sum est ium accat laborem rem et dolorendis dolorrum fuga. Nihil minverc idigenem volum harumetur, simus id essincidel int exerferitet et et ent laboriones arum rem ab iunt, aut occuptat fuga. Alis minciment am faccum aut a as nis assequia sum apic tem facillo elenia nis nihilla tquatia tionsed exerrum ne dolupti aut inctia consequame omnisti nvenis expe ped quae nem aut mo dolupid ea doluptur si cuptat aut officium dolut la qui unt

Alessandra Santos

Volores min es etus abor sendis asi con rescipiet aut porem que pro eatem. Optatis asperep ernam, num iduntibus ratusanda doluptius, cone volorum ipsunt. Molupis cum acerum ullaboria nis ex eresciamusam ipis alici quo cusdandus, ime officia nobis esecerc hilicid issimus dolo dolore velenimi, occum soluption pedit, to tem fuga. Nem destotae pore nonseque solorenitiis etur? Qui istotae laceper chictat umquate corecto rerfers perum, occullest porum fugiam facepel millabori inuscia pa sequi sum est ium accat laborem rem et dolorendis dolorrum fuga. Nihil minverc idigenem volum harumetur, simus id essincidel int exerferitet et et ent laboriones arum rem ab iunt, aut occuptat fuga. Alis minciment am faccum aut a as nis assequia sum apic tem facillo elenia nis nihilla tquatia tionsed exerrum ne dolupti aut inctia consequame omnisti nvenis expe ped quae nem aut mo dolupid ea doluptur si cuptat aut officium dolut la qui unt


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Alessandra Santos

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Sumário

Sumário Poética da Deglutição A Antropofagia como método......................28 Contexto histórico..........................34 Poesia concreta e a ­ retomada da ­antropofagia ...........51 Tropicália e a prática da antropofagia..............................59 Reinterpretações da ­antropofagia..............................66

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Agradecimentos...................................6

Apresentação...................................................9 Palavras em Cinco Sentidos........................15

Poética da Percepção Arnaldo antunes e a Poesia.........................74 Rupturas..........................................76 Poesia, tecnologia e interação dos meios.......................82 Interação dos sentidos e formalismo renovado.................85


Poética da Bricolagem Arnaldo Antunes e a Música..................... 150 Música, percepção e política.......152 Música e literatura.......................154 Pós-tropicalismo e punk...............160 Vida urbana e pós-punk ..............164 Palavra cantada............................169

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Conclusão Reciclagens.................................................262 Notas............................................................ 268

Poética da Apropriação Arnaldo Antunes e as Artes Visuais....... 204 Vanguarda.....................................207 Arte conceitual .............................211 Arte performática.........................215 Ideogramas e taxonomia.............218 Videoarte.......................................222 Instalação e intervenção urbana............................................241 Caligrafia, arte gráfica e arte digital..................................249

Referências Bibliográficas.................278 Lista de Figuras.....................................294


Agradecimentos

Agradecimentos Uma das melhores coisas sobre es-

riais e Calvin Caplan pela motivação.

crever um livro é confirmar o quanto

Muito obrigada aos colegas Robert

as pessoas são generosas. Gostaria de

Stam e Christopher Dunn pelo apoio e

agradecer a muitos que me ajudaram

inspiração. Muito obrigada a minhas

durante a preparação da tese que veio

colegas Iliana Alcántar, Jasmina Arso-

a tornar-se este livro, assim como

va e Maite Conde pelas sugestões.

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àqueles que me ajudaram a chegar até

Gostaria de agradecer ao Spanish

aqui. Apesar de não ser possível agra-

and Portuguese Department e ao La-

decer a todos, sou grata por toda aju-

tin American Institute da UCLA por

da recebida, sendo que qualquer erro

financiar minha pesquisa no Brasil; ao

ou falha é minha responsabilidade.

Center for Latin American Studies da

Gostaria de agradecer aos mem-

University of Florida; à University of

bros da minha banca de doutorado

California Office of the President pela

na UCLA, Adriana Bergero, Anthony

bolsa que me permitiu escrever este

Seeger por sua leitura cuidadosa e

trabalho; e ao Humanities College da

comentários, Carlos Quícoli pela boa

University of Utah por me propor-

vontade e Randal Johnson por ser um

cionar uma licença e bolsas que me

orientador tão rigoroso e sábio, por

permitiram finalizar este projeto no

suas inúmeras revisões do meu traba-

Brasil em 2011.

lho e por plantar a semente de Arnaldo Antunes na minha pesquisa. . Gostaria de agradecer pelo apoio a:

Em Los Angeles agradeço a: André Kohler, Antony Mackenzie, Aravier Batiz, Brad Kembel, Claudia

John Dagenais, José Luiz Passos pelas

Latife, Edmir Ferrareze, Gustavo

sugestões, Charles A. Perrone pelas

Brum, James Mathers, Jason Keehn,

referências, André Dick pelos mate-

Jennifer Gully, Lara Iemmi, Lazza-


ro Ferrari, Roberto Ramos e Elena

nia Beatriz por serem tão pacientes

Shtromberg (obrigada pelas referên-

e amáveis e por me ajudarem com

cias de arte). Em Londres agradeço

os materiais necessários para com-

a Eliane Strogurski e Giles Elliott.

pletar este livro. Agradeço muito a

Em Vancouver agradeço a: Kim Be-

Laura Vinci e José Miguel Wisnik

auchesne, Hernan Orgueira, Meliz

pela hospitalidade, apoio e amizade.

Ergin, Maxim Mikhailytchev, Ca-

Agradeço muito a Augusto de Cam-

therine Daniel, Yannis Mitsopoulos,

pos e Gilberto Gil pela inspiração

Jenny Peterson e Torrey Shanks. Em

constante e por terem generosamen-

Salt Lake City agradeço a: Mamiko

te contribuido para este livro. Muito

Suzuki, Thérèse de Raedt e Angela

obrigada a Fernando Laszlo, Márcia

Espinosa. Em Torres agradeço a:

Xavier e Bob Wolfenson por autori-

Jaime Luis Batista, Josiani Nandi,

zarem o uso de suas fotos. Agradeço

Gisele Rodrigues, Sílvia de Matos

muitíssimo a Arnaldo Antunes por

Pereira, Clarissa Munari Raupp e

sua imensa generosidade e ajuda,

Andréa Prates da Cunha. Em São

por me receber no seu arquivo pes-

Paulo agradeço muito a grande fi-

soal, pela autorização para reprodu-

lósofa e escritora Fernanda Carlos

zir seus poemas e imagens, por sua

Borges por sua visão, hospitalidade

inteligência e visão. Agradeço muito

e por toda ajuda durante minha esta-

à equipe editorial: Júlio César Batis-

da. Muito obrigada a Roberto Castro

ta Pires do Rosario, Rhamyra Toledo

Santos Jr. pela hospitalidade e apoio.

e Érica Caneto em especial pelo óti-

Agradeço muito a Lidia Chaib e Sô-

mo trabalho, paciência e dedicação.

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Canibal

Arnaldo Antunes


Agradecimentos

Agradeço a todos da nVersos Edito-

Muito obrigada a meu pai Antonio da

ra: muito obrigada pelo apoio e por

Rosa Santos. Muito obrigada a minha

terem acreditado no meu livro.

mãe, Jovita Esquina, grande escritora,

Agradeço também a todos meus outros amigos não mencionados aqui.

poeta e artista, por ter inspirado em mim uma consciência literária.

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Arnaldo Antunes não precisa

há uma lucidez e uma consciência

de apresentações. Reconhecido por

filosófica e existencial: persistente

sua música, por sua participação

qualidades que não se expressam

na banda Titãs e no projeto musical

facilmente através de palavras ou

Tribalistas, por sua poesia e sua obra

imagens, mas que na obra de Arnaldo

de arte, ele é um artista que continua

se tornam evidentes e até óbvias– daí

instigando a cultura brasileira. Ele é

a estranheza de sua poesia.

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admirado por suas canções populares,

Diante dos universos poéticos

por sua voz e composições únicas

abismais criados, descobertos e

e por sua poesia visual altamente

revelados por Arnaldo, eu apresento

rica em múltiplos significados. A

este livro como uma tentativa de

forte qualidade individual de seu

aproximação crítica à sua obra. Para

estilo dificulta a posição do crítico,

isso, eu uso um conceito, criado por

pois sua obra é mais claramente

alguns artistas vanguardistas há 80

apreciada do que analisada. Uma

anos, conhecido como Antropofagia.

das características implícitas em seu

Este conceito funciona aqui como um

trabalho é a consciência das nuanças

modelo de pensamento e de criação

da comunicação, que nele se revelam

que de nenhum modo tenta restringir

arbitrárias e inventadas. No entanto, a

ou aprisionar a obra de Arnaldo em

obra de Arnaldo não se concentra nas

uma categoria. Sua obra é única,

faltas de comunicação ou de conexão

independente da geografia e da língua

entre a linguagem e a realidade, mas

– neste caso, do Brasil e do português

na irreverente e constante presença da

–, e independente de leituras como a

materialidade da vida. Em sua obra

minha. Por isso, eu ligo a obra dele

Apresentação

Apresentação


Apresentação

à antropofagia de modo conceitual e

primeira mulher presidente do

não linear. Meu propósito é de situar

Brasil, escolheu um quadro de

uma poética que é, de certo modo,

Tarsila do Amaral como destaque

única e incomparável dentro de um

de uma exposição no Palácio do

eixo de tempo, espaço, filosofia e

Planalto logo após a inauguração

postura artística.

de sua presidência. O quadro em

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A antropofagia talvez também não precise de apresentação; porém, por

justamente o Abaporu (1928), peça-

vezes, não é tão claro o que ela significa.

chave na criação e na formulação da

A Semana de Arte Moderna de 1922

Antropofagia. Não bastasse apenas

em São Paulo foi um marco cultural

isto, Dilma declarou também que

no país e levou à criação do conceito

“nosso movimento antropofágico,

da Antropofagia. Artistas como o

[...] é a nossa capacidade de absorver

escritor Oswald de Andrade, autor

o que tem de universal em todas as

do Manifesto antropófago (1928), e a

culturas e metabolizar no particular”

pintora Tarsila do Amaral, artista-chave

(Kato, 2011, p. 24). Portanto, para

da Antropofagia, foram “antropófagos”

entender a obra de Arnaldo Antunes

que hoje fazem parte de um conjunto

através de uma leitura do conceito

de artistas consagrados na cultura

de Antropofagia como faço aqui,

brasileira e em um imaginário popular,

inevitavelmente trago à tona questões

no qual a ideia de um canibalismo

sobre o papel da arte na sociedade,

cultural é reconhecida.

sobre o que significa ser brasileiro,

Para ilustrar este ponto, no ano de 2011, Dilma Rousseff, a

10

questão, não por coincidência, foi

especialmente na era da globalização, e sobre o que significa fazer parte


do mundo atual em um âmbito

convergência com a Antropofagia, com

internacional.

uma história artística antropófaga, do

A semente para este livro começou

Canibal

Arnaldo Antunes

que eu esperava. Por isto, escolhi o

em 1997, quando eu ainda era aluna

trabalho dele como estudo e foco das

de graduação na Universidade da

reinterpretações deste conceito. Este

Califórnia, em Berkeley, nos Estados

livro demonstra como isto se passa.

Unidos, e estava tentando entrar para

Traçando uma trajetória por meio

um programa de pós-graduação.

da Antropofagia, e de certa forma

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Naquele ano, formulei um projeto

por meio da história das vanguardas

de pesquisa sobre a Antropofagia

artísticas, chego à obra atual de

e sua influência (ou inspiração) na

Arnaldo e a analiso em detalhes em

arte brasileira no resto do século XX.

relação a várias de suas manifestações.

Alguns anos mais tarde, já aluna de

Este livro segue uma linha

doutorado na UCLA, preparando a

transdisciplinar de estudos culturais

proposta de tese, deparei-me com

com análises textuais e não pretende

o trabalho de Arnaldo Antunes. De

ser uma pesquisa de Musicologia,

um ponto de vista pessoal, eu já

História da Arte ou exclusivamente

admirava muito seu trabalho, já que

de Estudos Literários (apesar de

cresci ouvindo a música dos Titãs. No

este ser meu campo primário de

entanto, nunca havia pensado que

pesquisas). Ele é acessível a todos

sua música e poesia tivessem tanto a

que se interessam pela obra de

ver com a Antropofagia. Para minha

Arnaldo Antunes, pela Antropofagia,

surpresa, descobri que o trabalho

pelas vanguardas artísticas ou

de Arnaldo tinha mais pontos de

simplesmente pela cultura brasileira.

11


Apresentação

No momento em que comecei

que a Antropofagia foi explorada por

este estudo, havia no mundo artístico

vários autores e artistas. É importante

e acadêmico um interesse renovado

ressalvar que não foi possível atualizar

pelo conceito da Antropofagia, pois

todas as fontes produzidas sobre este

em 1998 não só a Bienal de Arte de São

tema desde então, pois foi importante

Paulo teve a Antropofagia como tema, uma revista chamada Antropofagia hoje? (editada por João Cezar de Castro Rocha e Jorge Ruffinelli) comemorando os 70 anos do

Manifesto antropófago. Desde então, e desde que eu terminei a primeira fase deste projeto em 2005, muito já foi pesquisado, escrito, discutido e apresentado sobre o assunto. Em 2005 houve em São Paulo um congresso, o Encontro Internacional de Antropofagia, organizado por José Celso Martinez Corrêa e seu Teatro

12

ser seletiva dentro da proliferação

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como nos Estados Unidos foi lançada

acelerada de textos e debates.

É inegável que a Antropofagia

permeia muitas camadas da

cultura brasileira, desde o mundo artístico mais experimental do Teatro Oficina e sua proposta Universidade Antropófaga até o mundo institucional do discurso da presidente Dilma Rousseff, passando ainda por inúmeras vertentes culturais entre estes dois polos. Neste livro, a Antropofagia funciona como uma linha de

Oficina Uzyna Uzona. Em 2011, a

pensamento para um estudo

FLIP (Festa Literária Internacional de

profundo da obra de Arnaldo

Paraty) teve como homenageado o

Antunes. De certa forma, tento

próprio Oswald de Andrade, sendo

demonstrar que o trabalho dele é


tão radical quanto a Antropofagia

inovador e corre riscos artísticos que

um dia foi e ainda o é. A arte de

poucos ousam, sempre almejando

Arnaldo é viva e alerta, lúcida como

uma utopia. Por isto, e por muitos

os vanguardistas foram em sua busca

outros motivos, é que este livro

pela ruptura de formas artísticas

insiste em demonstrar que ele é um

cansadas e antiquadas. Arnaldo é

antropófago do século XXI.

Canibal

Arnaldo Antunes

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Alessandra Santos

13


proibida reprodu��§ĂŁo


Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres. Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil 1924

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem corpo. Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago 1928

Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia?

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Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito [...]? Arnaldo Antunes, 12 Poemas

O Manifesto Antropófago (1928),

Investigo aqui a dinâmica da An-

do escritor modernista e iconoclasta

tropofagia na produção cultural brasi-

Oswald de Andrade, é uma sátira que

leira como um conceito de vanguarda

propõe um canibalismo cultural, su-

que veio a dialogar com a produção

gerindo uma devoração metafórica de

contemporânea como método de crí-

elementos estrangeiros, os quais passa-

tica e de criação. Proponho que este

riam por um processo, juntamente com

conceito veio a ser incorporado no

elementos locais, para produzir uma

popular, especialmente com o sur-

síntese brasileira. Esta pesquisa consis-

gimento dos veículos de cultura de

te em uma investigação das manifesta-

massa, devido a qualidades inerentes

ções recentes do canibalismo cultural,

na premissa do próprio conceito. Ar-

com enfoque especial na obra do po-

gumento que é exatamente devido à

eta, escritor, músico e artista plástico

proposta de apropriação e de métodos

Arnaldo Antunes, nascido em 1960.

críticos e criativos da Antropofagia

cinco sentidos

Palavras em


Introdução

que essa tendência foi dissemina-

quisa linguística e por sua atividade

da em tantos meios diferentes e em

de bricoleur. Antunes é um artista ec-

diversas correntes e esferas da Lite-

lético e prolífico, que é tanto elogiado

ratura e das Artes Brasileiras. Além

quanto criticado por trabalhar em di-

disso, investigo a possibilidade e os

ferentes meios e em esferas diversas.

problemas de um discurso literário e

O alcance da sua habilidade literária é

proibida reprodução

artístico autônomo brasileiro dentro de manifestações contemporâneas,

explorando a disseminação de uma tendência literária, que questiona a

nacionalidade assim como os valores

literários e artísticos, e as implicações literárias e artísticas da produção e do consumo na era da globalização econômica. Assim, esta pesquisa contextualiza as manifestações e os métodos da antropofagia na história literária brasileira chegando até o trabalho

16

vasto e conta com noções de exploração das novas tecnologias e dos novos veículos de comunicação.

Neste livro, argumento que, mes-

mo sendo um artista visionário em muitos campos, sua permeabilidade encontra um precursor na antropofagia. Deste modo, examino a confluência de diversos campos de produção artística (vanguarda, erudito e popular) como uma solução

de Antunes, argumentando que sua

ao paradoxo social do Brasil. Além

obra representa uma reinterpretação

disso, examino como Antunes apli-

da antropofagia precisamente porque

ca novas tecnologias, versatilidade,

ela converge a literatura em relação às

recursos, consciência crítica e apro-

outras artes por meio de uma intersec-

priações artísticas em uma sociedade

ção de gêneros e meios, por sua pes-

economicamente globalizada.


diferentes linguagens artísticas (Pinto,

Esquema de pesquisa

1998, p. 43). Durante o período da vanguarda

Canibal

Arnaldo Antunes

Neste contexto, exploro a dinâmica

artística, um grupo de modernistas

da antropofagia, abordando-a não só

brasileiros catalisou o conceito da an-

como um conceito da vanguarda mo-

tropofagia, o qual serviu de modelo

dernista, mas como um método crítico,

crítico e criativo para buscar novos

como um processo criativo e como

modos de articulação da cultura bra-

um possível elemento constitutivo do

sileira e novos meios de inserção do

discurso de brasilidade. Neste senti-

Brasil na cultura ocidental cosmo-

do, questiono a possibilidade de um

polita e tecnológica. Neste sentido, a

discurso literário e artístico brasileiro

antropofagia foi uma forma de digerir

autônomo, e também questiono a pos-

ideias europeias e de afirmar a identi-

sibilidade da permanência da antropo-

dade brasileira em um cenário urbano

fagia como conceito e artefato cultural,

em crescimento. Desde então, esse

analisando os aspectos da cultura nos

conceito de apropriação crítica veio

quais tal o conceito permanece ativo.

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a ser disseminado e popularizado,

Entretanto, é crucial notar que esta

sendo abordado como um discurso

pesquisa não vê a antropofagia como

de brasilidade e chegando até a ser

um conceito exaustivo no estudo da

considerado um topos que serviria

cultura brasileira, pois ela depende

para articular a cultura da virada do

do momento de vanguarda histórico

século XXI, por ser descentrada, esva-

e de suas consequentes reinterpreta-

ziada de um discurso dominante, por

ções. Além disso, os artistas e obras

reconhecer o outro, e por canibalizar

em questão em grande parte vêm da

17


Introdução

cidade de São Paulo, ou seja, de um

com outros âmbitos da literatura e

centro urbano, industrial e cosmopo-

cultura brasileira. Desse modo, não foi

lita, o qual não representa de modo

plausível acercar a pletora de tendên-

algum o Brasil em sua totalidade e

cias e possibilidades que a produção

em suas variações culturais e sociais.

literária brasileira oferece ou discutir

Neste sentido, a intenção aqui não

certos gêneros específicos, tal como o

é de abordar a produção cultural

romance brasileiro ou a poesia no Bra-

brasileira contemporânea em termos

sil, por exemplo. Neste sentido, este

globais ou em todas as suas dimen-

estudo busca estabelecer conexões

sões, mas se limita a manifestações

com uma vanguarda artística, exami-

diretamente relacionadas ao conceito

nando possibilidades de reinvenção

da antropofagia, especialmente aque-

da postura vanguardista na arte con-

las que são pertinentes ao estudo do

temporânea. Por essa razão, abordo a

trabalho de Antunes.

antropofagia dentro de uma tendência

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18

Este enfoque na especificidade

vanguardista de contestação dos valo-

antropofágica, em como este conceito

res vigentes, de exploração formal, de

foi disseminado e reinterpretado, não

interesse político e, acima de tudo, do

significa declarar que essa tendência

seu potencial satírico e suas técnicas

é precedente na produção cultural

lúdicas. Esta pesquisa investiga a pos-

brasileira. Por motivos práticos (tais

sibilidade de uma corrente vanguar-

como focalizar o assunto), não foi pos-

dista na arte contemporânea, especial-

sível desenvolver uma pesquisa rela-

mente em uma era na qual afiliações

cional que comparasse a antropofagia

artísticas são questionáveis.


e, mais tarde, como colônia cultural e

Problemática

econômica dos Estados Unidos, tem Neste projeto, analiso o conceito da

Canibal

Arnaldo Antunes

sido crucial na produção artística e

antropofagia em relação à produção

cultural do país. Assim, a crítica consi-

cultural brasileira partindo do princí-

dera a literatura brasileira em relação à

pio de que a Literatura é um sistema

história literária nacional e ao contexto

de obras ligadas por denominadores

internacional. Portanto, na história li-

comuns, dentro dos quais certos ele-

terária brasileira, há uma tensão entre

mentos de natureza social e psíquica

a ruptura com as tendências artísticas

de uma civilização podem ser reco-

dominadoras e a absorção delas. Uma

nhecidos (Candido, 1975, p. 23). Na

das primeiras manifestações culturais

crítica literária brasileira, há uma forte

de ruptura com as formas e ideolo-

tendência de abordar o papel da Lite-

gias colonizadoras ocorreu durante

ratura na construção da nacionalidade

o modernismo brasileiro, ao mesmo

em relação às influências externas, às

tempo em que certas formas estéticas e

questões de cópia e originalidade, à

técnicas estrangeiras também estavam

dialética do contexto nacional de país

sendo absorvidas pela cultura local

periférico e subdesenvolvido e à dialé-

(Schwarz, 1978).

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tica interna das obras produzidas tanto

O movimento antropofágico pro-

nacionalmente como internacional-

moveu uma ruptura com valores

mente (Candido, 1987; Schwarz, 1987).

patriarcais e arcaicos e com normas e

A posição do Brasil, primeiro como

regras literárias antigas e repressoras.

colônia de Portugal, depois como co-

Dentro dessa proposta de ruptura,

lônia cultural e econômica da Europa

encontravam-se a procura de uma

19


Introdução

nova linguagem, o ajuste da expres-

Porém, vários críticos acreditam

são à sensibilidade da época, a crítica

que o modelo antropofágico é um

da “literatura pela literatura”, a revol-

elemento constante na produção lite-

ta contra o realismo do século XIX, o

rária brasileira, mesmo anteriormen-

uso consciente da literatura como ins-

te ao modernismo (Campos, 1981;

trumento social e a defesa de um esta-

Candido, 1970; Helena, 1982), e que,

tuto específico da linguagem poética

ao transferir as técnicas e tradições

(Nunes, 1979, p. 23). Além disso, a

artísticas europeias para o Brasil, os

antropofagia é consciente da situação

escritores locais transformaram-nas

de dependência cultural brasileira

em produtos brasileiros. Portanto,

(em termos estéticos, ideológicos,

nesta linha crítica, a antropofagia é

econômicos e políticos), no sentido

um projeto estético-cultural de de-

de que ela também promovia a ab-

glutição das influências poético-ideo-

sorção de certas técnicas e ideologias

lógicas estrangeiras, incorporando-as

às novas formas brasileiras. Em um

criticamente às matrizes nacionais

tom paródico, Andrade propõe a

para constituir um discurso literário

“deglutição” de elementos estrangei-

de dicção autonomamente brasileira

ros universais (ocidentais europeus),

(Helena, 1982).

proibida reprodução

20

quer sejam técnicos ou conceituais, os

Nesse sentido, a premissa da

quais seriam processados juntamente

antropofagia permeia alguns pro-

com elementos locais para produzi-

dutos que constituem uma busca

rem um resultado artístico e crítico

da brasilidade, isto é, a presença de

sintetizador, um amálgama genuina-

elementos descritivos locais como

mente brasileiro.

traço diferencial e critério de valor


(Candido, 1975, p. 28). Assim, esse

e artistas brasileiros a aceitam dentro

conceito é um esforço consciente ou

da sua produção e análise cultural e

inconsciente do artista a uma mani-

a absorvem, a antropofagia passa a

festação marcada por traços carac-

fazer parte da tradição literária e crí-

teristicamente brasileiros, ou uma

tica brasileira. Portanto, meu estudo

procura por eles, que paradoxalmen-

aborda o conceito vis-à-vis a multipli-

te podem ser também compostos

cidade dos meios, dos procedimentos

por elementos estrangeiros. Ou seja,

e das formas de enfrentar a questão

a antropofagia oferece uma nova

da novidade perante a tradição (An-

leitura dos códigos sociais (e artís-

tunes, 2000, p. 96).

Canibal

Arnaldo Antunes

proibida reprodução

ticos) impostos pelo colonizador e

Os estudos da antropofagia ante-

um novo processo criativo de digerir

riores situaram o conceito dentro do

tais códigos a partir dessa leitura.

movimento modernista ou aborda-

Além disso, a antropofagia passou

ram-no como elemento formativo da

a ser um conceito canonizado, tor-

literatura brasileira. Apesar de não

nando-se, assim, tanto uma tradição

necessariamente contestar essas pers-

como uma ruptura. A antropofagia

pectivas, pretendo levantar questões

como conceito surgiu em um movi-

quanto à relevância de um conceito

mento crítico de “independência” e

crítico ligado a indagações sobre a

rompimento com as velhas formas

brasilidade. Minha intenção é de

poéticas e ideológicas, e nesse senti-

questionar a problemática da busca

do foi um conceito de ruptura com o

pela autonomia da produção cultural

passado e com as normas vigentes.

brasileira, especificamente em relação

No entanto, uma vez que os críticos

à validação do papel do artista e do

21


Introdução

intelectual na sociedade. Partindo da

a realidade do povo brasileiro? Quais

discrepância entre a produção cultu-

as possibilidades da arte crítica oswal-

ral brasileira (do seu potencial dialé-

diana atingir um público consumidor

tico em relação à produção ocidental

na era contemporânea? Há uma pos-

dominante e do desejo de inserção no

sibilidade de vanguarda no momento

panorama de âmbito internacional) e

artístico atual? E, finalmente, como a

a realidade social brasileira, este es-

arte de Arnaldo Antunes enquadra-se

tudo pretende abranger os paradoxos

em um contexto de reinterpretações

do artista e do crítico brasileiros em

antropofágicas?

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termos de forma, conceito e apropriações. Ou seja, levando em considera-

ção a desigualdade social, como se encaixam o conceito e o método crítico

22

Objetivos

Partindo dos pressupostos de

da antropofagia no contexto social

coletividade da antropofagia e da

brasileiro? Qual a importância de

sua premissa de inserção do Bra-

um posicionamento “antropofágico”

sil na história do desenvolvimento

diante da radicalidade do conceito?

mundial, em termos marxistas de

Como as modificações, adaptações

totalidade sócio-histórica (Larsen,

e reinterpretações da antropofagia

1990; Nunes, 1970; Schwarz, 1978), a

refletem uma contextualização histó-

antropofagia oswaldiana encara as

rica e social? Como o modelo antro-

contradições da sociedade e almeja

pofágico pode promover ou oferecer

uma síntese utópica, a qual ultrapas-

uma mediação entre a discrepância

saria o patriarcalismo repressor, ado-

da realidade do crítico/intelectual e

tando, porém, os recursos técnicos


alcançados. Em A Crise da Filosofia

da desigualdade) e a síntese seria o

Messiânica (escrito em 1950; Andra-

homem natural tecnizado (e lúdi-

de, 1990), Oswald de Andrade argu-

co, que valoriza a justiça social e a

menta que o “matriarcado” da antro-

arte). Nesse sentido, a proposta da

pofagia quer acabar com as classes e

antropofagia satiricamente revisa o

com o patriarcado – e, portanto, com

aparato opressor na sociedade, ofere-

as classificações taxionômicas da

cendo uma recuperação dos valores

lógica e da linguagem patriarcal – e

“matriarcais” do afeto, da alteridade,

com a submissão às regras e às nor-

da criatividade, da distribuição mais

mas (leia-se: às normas opressoras e

justa dos bens e da reavaliação dos

à subjugação); quer recuperar o lúdi-

valores impostos pelo patriarcado.

co, o irônico e o crítico, e o prazer do

Ou seja, a antropofagia não recu-

corpo; e quer acabar com a ideologia

sa a técnica, mas sim o mecanismo

da “filosofia messiânica”, a qual

opressor promovido pela sociedade

justifica as injustiças sociais em prol

tecnocrata. Portanto, proponho uma

de uma “nova vida” após a morte e

análise de reinterpretações contem-

assegura o domínio de uma classe

porâneas da antropofagia como uma

sobre outra, assim como o poder do

recuperação dessa proposta.

Canibal

Arnaldo Antunes

proibida reprodução

Estado (Nunes, 1979, p. 63). Nessa

Assim sendo, este livro sugere

proposta dialética de restauração

que a obra de Antunes e sua explo-

tecnizada e lúdica da cultura antro-

ração multimídia se relacionam com

pofágica, a tese é o homem natural,

a antropofagia, no sentido de que ela

a antítese é o homem civilizado

explora a interação dos códigos senso-

(propagador das normas opressoras

riais, os quais, dentro de um mundo

23


Introdução

tecnológico, nos remetem a um estado

temente do projeto de interação da

no qual a arte servia a várias funções

tradição (antropofágica, de ruptura)

na sociedade (Mcluhan, 1962). Além

na novidade e no momento histórico.

disso, proponho que a facilidade com

Assim, na minha análise textual da

a qual a arte de Antunes transpõe di-

obra de Antunes, traçarei um paralelo

ferentes gêneros, meios e tendências

da sua arte com a antropofagia no senti-

artísticas demonstra que ele, por meio

do de que há: 1) uma retomada das pro-

da sua arte, é um possível represen-

postas de Andrade, da poesia concreta

tante do “homem natural tecnizado”.

e da Tropicália em termos de poética,

A proposta artística e crítica de An-

conceitos e execução; 2) uma absorção e

tunes é experimental e reivindica um

apropriação da tecnologia e da criação

rompimento com os valores e códigos

intersemiótica, valorizando a simulta-

ultrapassados, estando ao mesmo

neidade dos sentidos; 3) um posicio-

tempo sempre consciente do contexto

namento da poesia e da arte brasileira

social brasileiro. Além disso, a pro-

diante do subdesenvolvimento do país

posta poética de Antunes é lúdica e

e do contexto que dificulta a produção

inclusiva da exploração das percep-

artística; 4) uma exploração de soluções

ções sensoriais do público, mais uma

para os paradoxos da produção artística

vez ecoando a proposta “matriarcal”

brasileira ao unir o popular (música)

de Oswald. Antunes também partici-

com o erudito (poesia experimental) e

pa de um veio artístico iniciado pelos

trabalhar em vários registros; e 5) uma

poetas concretistas, não só na sua

consciência crítica (e absorção artística)

produção artística, como também na

da sociedade de consumo e dos meios

sua crítica. Sua arte participa constan-

de comunicação de massa.

proibida reprodução

24


Ao analisar a transposição histórica

Metodologia

da antropofagia, é importante abordar Os textos primários desta pesquisa

Canibal

Arnaldo Antunes

o impacto da cultura de massa e da

fazem parte do trabalho de Antunes

sociedade de consumo na produção

produzido até agora. A teoria vem

artística (Benjamin). Questões quanto

da obra crítica e artística de Oswald

às minúcias do espaço cultural peran-

de Andrade, assim como da teoria da

te a crítica contemporânea partem de

poesia concreta (Campos, A; Campos,

observações da antropofagia como

H; Pignatari). Para estabelecer uma

um modelo de inserção da crítica bra-

perspectiva rigorosa, minha proposta

sileira na crítica ocidental (Santiago).

de estudo baseia-se no método crítico

Além disso, este estudo segue uma

de Antonio Candido, cuja contex-

linha dentro da tradição crítica que

tualização mantém uma mediação

aborda a cultura como manifestação

entre a literatura e a sociedade. Na

da sociedade (Johnson, Larsen) e que

mesma linha, utilizo a teoria crítica

insere valores antes desacreditados,

de Fredric Jameson, a qual promove

como a cultura popular, como parte

o uso de mediações para construir

atuante na cultura (Wisnik, Hollanda).

proibida reprodução

um mapeamento cultural e histórico

O teor interdisciplinar desta pes-

complexo e não reducionista. Nesta

quisa parte não só do fato de que o

pesquisa, tento esboçar uma linha da

projeto vanguardista da antropofagia

teoria crítica que questiona a estética

promovia a intersecção de meios artís-

frente à sociedade brasileira e suas

ticos, mas especialmente pelo trabalho

desigualdades (Schwarz), assim como

de Antunes ser interdisciplinar. No

as repercussões de meios globais em

entanto, os capítulos que discutem a

uma produção cultural local (Ortiz).

obra de Antunes foram divididos de

25


Introdução

acordo com gênero (poesia, música

seus pressupostos e uma contextuali-

e artes plásticas), não com a intenção

zação dos elementos relevantes, pas-

de dispensar a transdisciplinaridade.

sando por algumas retomadas e rein-

Pelo contrário, esse foi simplesmente

terpretações da antropofagia, especi-

um recurso para facilitar a discussão

ficamente pela poesia concreta e pela

e a análise, sempre mantendo a finali-

Tropicália. O segundo capítulo tem a

dade de destacar como esses gêneros

poesia de Antunes como ponto focal,

se intercalam na sua obra e de res-

analisando-a em termos de percepção,

saltar os pontos de convergência – o

estranhamento, objetivismo, simulta-

próprio Antunes afirma que o trânsito

neidade e de como ela representa um

entre gêneros não ignora a adequação

formalismo renovado. O terceiro capí-

ao meio e que “cada meio tem caracte-

tulo aborda a música de Antunes em

rísticas de tratamento e de linguagem

termos das confluências da música e

próprias” (Weinschelbaum). A inten-

da literatura no Brasil e das suas pre-

ção aqui é de destacar a continuidade

ocupações políticas. O quarto capítulo

conceitual de tendências artísticas

trata das artes visuais de Antunes em

aparentemente distintas e como elas

várias das suas manifestações – vídeo,

se mesclam no trabalho de Antunes,

instalação, caligrafia e arte digital – e

que é, acima de tudo, uma pesquisa

de como seu formalismo conceitual

sobre a linguagem.

explora o aspecto performático, assim

proibida reprodução

Este livro é dividido em quatro

26

como taxonomias, materiais e proces-

capítulos. O primeiro apresenta uma

so. É importante ressaltar a artificia-

exposição histórica da antropofagia,

lidade dessa divisão de capítulos, no

traçando um esboço do conceito e

sentido de que o objetivo principal


é enfatizar a coerência conceitual do

na atualidade globalizada. Também

trabalho de Antunes.

quero oferecer uma análise do im-

Em suma, com este estudo, espero

Canibal

Arnaldo Antunes

pacto ideológico de tais interações

ampliar a perspectiva da herança e

culturais, proporcionando uma pes-

das inovações proporcionadas pela

quisa que questione as hierarquias e

antropofagia na literatura e nas artes

as estruturas sociais e artísticas. Além

brasileiras em termos de produção e

disso, pretendo marcar o princípio

consumo. Pretendo levantar questões

de uma investigação de nível acadê-

sobre o estudo desse conceito em re-

mico da obra de um artista cuja arte

lação à cultura brasileira, assim como

prolífica tem muito a oferecer, tanto

analisar a dinâmica das produções

ao público quanto aos estudantes da

locais em relação às mudanças sociais

literatura e cultura brasileiras. Espero

e econômicas internacionais. Gostaria

que este livro ofereça uma nova visão

também de oferecer uma visão crítica

para as discussões sobre a arte peran-

das repercussões da presença de cer-

te a brasilidade (ou sobre a arte em

tas influências estrangeiras no Brasil e

oposição a essa noção) e sobre a inter-

da relevância e problemática de discu-

nacionalização da produção cultural

tir a arte em termos de nacionalidade

perante a tecnologia.

proibida reprodução

27


deglutição

Poética da

A antropofagia como método proibida reprodução

1


proibida reprodução


Está cada vez mais se evidenciando que a Antropofagia é a terapêutica social do mundo moderno. Oswald de Andrade

A ideologia não é algo que informa ou investe na produção simbólica; pois o próprio ato estético é ideológico e a produção da forma estética ou narrativa deve ser vista como um ato ideológico em si, com a função de inventar soluções imaginárias ou

proibida reprodução

formais para irreconciliáveis contradições sociais1. Fredric Jameson

A imagem do canibal é um símbolo

é relativo2. Desde então, na cultura

do que há de menos “civilizado” para

ocidental, na antropologia, nas artes e

os europeus. O canibalismo represen-

na crítica cultural, a figura do canibal

ta um dos maiores tabus na história

já foi usada inúmeras vezes e teve um

da civilização ocidental: a irraciona-

papel crucial, quer seja como símbolo,

lidade bestial devoradora. O canibal,

metáfora ou alegoria.

portanto, pode ser um símbolo daqui-

No Brasil, a imagem do canibal

lo que conquistamos racionalmente,

tem sido importante. De acordo com

do poder de diferenciação entre os

alguns críticos, o elemento do caniba-

códigos culturais. Montaigne foi um

lismo cultural existe na sua produção

dos primeiros a criticar os valores

literária e artística desde o início da

ocidentais em relação ao “selvagem”,

produção cultural feita no Brasil no

usando a imagem do canibal para co-

Barroco. O fato do Brasil ter sido uma

mentar sobre sua própria cultura, de-

colônia que não só copiava formas

clarando que o conceito de civilização

mas também posições colocou a na-


Arnaldo Antunes ção já desde seu início em um lugar delicado quanto à sua identidade. Como escreveu Pedro Lyra: A colonização se torna mais grave quando essa dependência [cultural] extrapola do domínio das formas para o domínio dos posicionamentos: no lugar de simplesmente reproduzir modelos, reproduzem-se atitudes. Se essas atitudes são aquelas ditadas por um dominador não apenas cultural mas também econômico e político, o resultado é simplesmente a desfiguração completa de um povo como nação. (Lyra, 1982, p. 11)

texto europeu, não para uma mecânica e comprometedora “adaptação” ao clima nacional, mas para uma apropriação de táticas sorvidas na própria fonte da dominação e, assim armado, poder combatê-la e superá-la. (Lyra, 1982, p. 11)

proibida reprodução

Dentro dessa abordagem, diante do posicionamento basicamente europeu, a cultura brasileira partiu de pastiches assimiladores para uma solução mais evidente na produção cultural do país do que conceitualmente formulada: A contrapartida abrasileirizante desses fatos seria uma deglutição da influência estrangeira: a devoração do

De fato, muitos críticos (incluindo

Antonio Candido, Haroldo de Campos e Lúcia Helena) acreditam que a cultura do Brasil manifestou-se dessa forma, “deglutindo” a cultura europeia e adaptando-a à cultura local. Oswald de Andrade expressou tal ocorrência como conceito no início do século XX no Manifesto Antropófago (1928), revelando padrões culturais “sob a denominação de antropofagia”, sintetizando um projeto estético-cultural: a busca de deglutir as influências poético-ideológicas europeias, incorporando-as criticamente às matrizes nacionais por meio da paródia, para, desse modo, constituir

31


Poética da deglutição

1

um discurso literário de dicção autonomamente brasileira, imune aos sectarismos e ufanismos. (Helena, 1982 , p. 20)

Desde então, uma vez expressa em

se conceito na década de 1920 até hoje, a antropofagia tem sido difundida, explorada, apropriada, interpretada e cooptada em grande parte da produção cultural brasileira. Mesmo em uma

forma de manifesto, a antropofagia

época na qual noções de nacionalidade

passou a ser não só uma tendência

são questionadas e debatidas – e até

cultural/literária latente desde a épo-

mesmo consideradas nulas dentro

ca colonial, mas também se tornou

de uma economia global, de acordos

um elemento a ser observado e utili-

internacionais de mercado livre, de

zado como conceito para a produção

uma linguagem tecnológica cada vez

literária, artística e crítica brasileira.

mais homogeneizante e de uma inter-

Mais tarde, o mesmo modelo veio a

penetração artística e cultural cada vez

ser usado e comparado com outras

maior –, certas qualidades culturais,

tendências no desenvolvimento cul-

ou certas interpretações e processos

tural do país.

locais da realidade, são definidas e es-

proibida reprodução

Partindo desse princípio, há um

32

tabelecidas na especificidade do Brasil.

perigo de generalização e de simplifi-

O próprio Manifesto Antropófago de

cação ao dizer que a antropofagia pe-

Oswald de Andrade já propôs que “Só

netra, direta ou indiretamente, toda a

a antropofagia nos une. Socialmente.

produção literária e artística brasileira.

Economicamente. Filosoficamente”

No entanto, pode-se dizer com segu-

(Andrade, 1990, p. 47). Esse aforismo,

rança, apesar da complexidade, que,

assim como o projeto da antropofagia

desde os princípios da elaboração des-

como um todo, já foi discutido e ana-


Arnaldo Antunes lisado inúmeras vezes, considerando

integrantes da produção cultural bra-

que o manifesto tem hoje mais de 80

sileira vis-à-vis a presença constante

anos e que o conceito já foi completa-

de elementos culturais estrangeiros.

mente validado e institucionalmente

Desse modo, questiono a possibilida-

oficializado dentro da cultura brasi-

de de que esse conceito nunca esteve

leira. Portanto, é importante salientar

inerte, mas que continua vivo e ativo

alguns aspectos da proliferação de

na cultura brasileira desde sua con-

proibida reprodução

análises e críticas da antropofagia.

Para o crítico Antonio Candido,

é difícil dizer no que consiste exatamente a antropofagia, que Oswald nunca formulou, embora tenha deixado elementos suficientes para vermos embaixo dos aforismos alguns princípios virtuais, que a integraram numa linha constante da literatura brasileira desde a colônia: a descrição do choque de culturas. (Candido, 1970, p. 84-85)

Portanto, além de abordar a an-

ceitualização e que tem passado por reinterpretações não só na literatura, mas também em diversos campos da produção artística brasileira.

Nesse sentido, a antropofagia como conceito crítico, artístico e filosófico teve um impacto dentro da produção cultural brasileira, servindo como modelo para diversas produções que partiram de esferas e polos distintos, por exemplo, da vanguarda até a cultura popular, do underground até a cultura

tropofagia como conceito, seguindo a

de massa; e a disseminação impar-

linha de pensamento de Antonio Can-

cial desse conceito (quanto aos níveis

dido, será partindo desses “princípios

socioeconômicos do público e às dis-

virtuais” que a antropofagia será es-

tinções culturais da arte) partiram da

tudada aqui como um dos elementos

força geradora do próprio conceito.

33


Poética da deglutição

1

Ou seja, a manifestação da antropo-

proporciona uma flexibilidade capaz

fagia e a declaração “só me interessa

de atingir diversos campos artísticos.

o que não é meu” (Andrade, 1990, p. 47), apesar de ter sido promovida na vanguarda modernista, implicitamente trouxe no seu desenvolvimento

Contexto Histórico Não cabe a esse estudo proporcio-

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elementos que instigaram uma qua-

nar uma lista completa das origens4 do

lidade inerente da produção cultural

Manifesto Antropófago, nem de traçar

brasileira (a absorção, a apropriação, a

uma história do modernismo5 bra-

transformação de elementos externos

sileiro ou das produções artísticas e

combinados com internos) que são pa-

literárias daquela época, mas sim situ-

radoxalmente mutáveis . Isso implica

ar alguns dos seus conceitos básicos,

que, dentro do próprio conceito da

como a ruptura, a recusa aos valores

antropofagia como tal, há uma quali-

vigentes, a devoração, a produção e o

dade transitória que valoriza o proces-

consumo, a recuperação do valor das

so artístico e crítico e a conscientiza-

artes nacionais, o humor e a transfor-

ção desse processo, o qual, apesar de

mação artística.

3

34

ter sido conceitualizado e explorado

Entretanto, antes de discutirmos

pelos artistas modernistas, é mutável

esses conceitos, é importante esboçar

por estar constantemente aberto a

um breve fundo histórico da antro-

transformações vindas de elementos

pofagia como movimento que nasce

exteriores e da contribuição pessoal e

dentro de uma vertente modernista,

local do artista já promulgadas dentro

a qual utilizava imagens de devo-

do próprio conceito ou tendência. Isso

ração e às vezes do canibal como


Arnaldo Antunes analogia artística e filosófica6. O perí-

das oligarquias e as falsas promessas

odo modernista caracterizou-se por

para a classe trabalhadora, a década

uma renovação de valores artísticos

de 1920 viu muita repressão. Também

e culturais diante de um mundo em

houve o surgimento do Partido Co-

crise. No panorama do período após

munista, constituindo uma das “prin-

a Primeira Guerra Mundial, viviam-

cipais forças políticas e ideológicas

-se (pelo menos nos países avançados)

formadas no período anterior à Revo-

as inovações tecnológicas, as inven-

lução de 1930” (Lopez, 2000, p. 51). Os

ções, a indústria automobilística, o

valores dessa época eram conflitantes,

cinema, o movimento pela liberação

no sentido de que ainda havia um

das mulheres, a chamada revolução

conservadorismo e um tradicionalis-

sexual da década de 1920, as crises

mo (agrários) que conviviam com o

econômicas, o interesse pelas novas

liberalismo e o reformismo da nova

religiões, o radicalismo e as inovações

sociedade urbana.

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artísticas, especialmente as rupturas

Diante desse pano de fundo, surge

e experimentos formais, assim como

um grupo de artistas e intelectuais

a abstração e as crises econômicas no

que, com a intenção de renovar as ar-

final da década de 1920. No Brasil, a

tes no Brasil, organizaram a Semana

industrialização também teve um im-

da Arte Moderna em 19227. Essa exibi-

pacto enorme e as camadas operárias

ção envolvia “artes plásticas, concer-

urbanas aumentaram consideravel-

tos, leituras de poesia e prosa e confe-

mente. A urbanização e a imigração

rências sobre a teoria estética moder-

trouxeram um foco às cidades de São

na” (Johnson, 1982, p. 46), e, apesar de

Paulo e do Rio de Janeiro. Com a crise

não ter tido uma proposta política e

35


Arnaldo Canibal Antunes