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Comunicar, anunciar... Esta é a primeira edição de Nuntiare (pronunciase Nunciare), mais um órgão laboratorial do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Nuntiare será bimestral. Em cada edição abordará um tema específico. Este primeiro número trata da memória de Ponta Grossa. A equipe pesquisou, ouviu estudiosos e pessoas da comunidade, na tentativa de resgatar um pouco da história da cidade e da região dos Campos Gerais. Nuntiare é feita por jovens que estão aprendendo a fazer jornalismo. Portanto, desculpe as falhas mas não deixe de criticar. Queremos produzir uma revista séria, que trate de assuntos realmente importantes. Boa leitura e até a próxima edição.

Conselho Editorial

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Expediente Nuntiare é um órgão laboratorial do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. As matérias desta edição foram feitas pelos estudantes Adriana Savicki, Ana Cláudia Martins, Ana Cristina Bruno de Sousa, Ana Cristina Suzina, Ana Paula Souza, Anderson Gonçalves, Aniela Gisleine, Aparecida dos Santos, Arnaldo Hase, ChristinaRamires, Débora Dias, Débora Lopez, Eberlê Moreira, Fábio Rena Beraldo, Fátima Pires, Giovanna Nascimento, Gustavo Scheffer, Heloísa Inocêncio, Kelly Frizzo, Kristhianne Schomobay, Lílian JulianaKuwano, Lisandréa Costa, Luciane Justus, Marcos Bueno, Maria Angélica Oliveira, Mônica Bockor, Rodolfo Buhrer, Rodrigo Stroka, Rosselane Giordani e Silmara Oliveira. Edição de Fotografia: Marcos Bueno e Giovanna Nascimento. Edição: Ana Cristina Suzina, JacksonBarbosa e Marcos Bueno. Capa: Luciane Silva. Foto da Capa: Arquivo do Foto Bianchi Editoração Eletrônica: Cássia Consul, Henry Milleo, LigianeMalfatti, Luciane Silva e Marcelo Bronosky. Conselho Editorial: Cicélia Pincer, lrvana Chemin Branco, Jackson Barbosa e Sérgio Luiz Gadini. Impressão: Inpag- Indústria Pontagrossense de Artes Gráficas Ltda. Tiragem: 500 exemplares Endereço para correspondência: Praça Santos Andrade, S/N, Centro, CEP 84010-790, Ponta Grossa, Paraná Endereço Eletrônico: deptjorn@uepg.br Telefone para contato: (042) 225-2121, Ramal195

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Economia Tropeirismo ........................................................ 06 Comércio ............................................................ 07 Agricultura. ........................................................ 08 Produção de Cen,eja ......................................... 09 Sociedade Famílias .............................................................. 10 Imigrantes ........................................................... 12 Clubes ................................................................. 13 Religiões.............................................................. 14 Educação Escolas................................................................. 16 Regente Feijó ....................................................... 17 Universidade ........................................................ 17 Patrimônio Histórico Caminhos de Ferro (Capa) ................................... 18 Estação Saudade .................................................. 20 Fascinação por trens.................... .' ....................... 20 Museu Campos Gerais.......................................... 21 Prédios Tombados ................................................. 22 Saúde Santa Casa............................................................. 23 Comunicação Primeiros Jamais ................................................... 24 Artes Pintura.................................................................... 26 Música .................................................................... 28 Teatro .................................................... ·.................. 29 Cinema.................................................................... 30 Literatura................................................................ 31 Esporte Basquete .................................................................. 32

Ano L no L junho de 1998

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Economia TROPEIRISMO

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Levantar antes do sol, cavalgar o dia inteiro e por meses ter o céu como teto, a sela como travesseiro e os campos como morada. Essa era a rotina dos tropeiros, que por mais de 200 anos percorreram os caminhos entre o Sul e o Sudeste do país, negociando gado. O tropeirismo começou no início do século XVII, com o comércio de gado entre Rio Grande do Sul e São Paulo. O transporte dos animais formou caminhos e estradas - a mais importante foi a do Viamão, que ligava as cidades de Vacaria e Viamão, no Rio Grande do Sul, a Sorocaba, em São Paulo. Os tropeiros foram importantes agentes econômicos, vendiam mercadorias entre os grotões do país e transmitiam os acontecimentos políticos e sociais. Outro fator importante ligado aos tropeiros foi a formação de cidades. Ao longo de todo o caminho de Viamão, alguns pontos eram escolhidos para descansar o gado. Nesses locais, devido à movimentação de pessoas e ao comércio de mercadorias e serviços, estalagens e galpões para os tropeiros, surgiram cidades. Ponta Grossa e grande parte da região dos Campos Gerais surgiram assim. A cidade era estrategicamente privilegiada, dona de boas pastagens, ponto de interseção dos dois caminhos mais usados. Não é fácil imaginar a rusticidade da vida dos tropeiros. Mais dificil ainda é imaginar que essa atividade perdurou, sem muitas alerações, até a década de 60. Para se ter uma idéia, basta imaginar tropas passando por uma Ponta Grossa que já tinha estação de trem, lojas e asfalto. Na verdade, as últimas tropas passavam exatamente em frente ao terminal rodoviário central. O tropeirismo moderno tem algumas diferenças de ordem econômica. Diferente do século passado, cuja predominância foi o comércio de gado bovino, durante o século XX era mais frequente o transporte de gado equino e muar. Com o surgimento das estradas de ferro, o transporte ficou mais fácil. Aí os tropeiros deixaram de negociar com apenas um comprador. Geralmente saíam com uma tropa do Rio Grande e vendiam e trocavam animais nas as colônias e fazendas, sem destino muito certo. Dos tropeiros modernos, alguns ainda estão vivos. Um deles é Nelson Bueno Cordeiro (foto aolado), um gaúcho tradicional que acabou se fixando em Ponta Grossa. Com 65 anos e com mais de vinte anos de tropa, Nelson Bueno é dono de um considerável acervo sobre o assunto. Apetrechos de montaria, louças, roupas e ferramentas utilizadas na lida com animais fazem parte de 06

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Economia sua coleção, a mais completa da cidade e que já foi exposta diversas vezes. A última exposição foi no Museu Campos Gerais. Figura conhecida de historiadores, Nelson Cordeiro é apaixonado pela tradição tropeira. Visitar sua casa é como visitar um museu. Além de peças referentes ao tropeirismo, fazem parte de seu acervo máquinas de costura, pratarias, rádios, inúmeros artigos de cozinha, móveis e relógios- sua segunda paixão. Na pequena sala de sua casa, as paredes e móveis estão repletas deles. Para guardar todas essas peças (quase 400), Nelson aluga um depósito e utiliza uma casa do tamanho da que reside. Sobre a tradição tropeira ele fala, entre triste e incorformado, que há muita má vontade por parte da maioria das famílias descendentes de tropeiros da cidade na preservação da história e se questiona porque o assunto, tão ligado à história da cidade, não é estudado nas escolas. Para Nelson, as várias tentativas da prefeitura em organizar eventos sobre o assunto não deram

certo porque falta iniciativa e participação dessas pessoas. Sobre a época das tropas faz um relato é saudoso. Seu Nelson vendia mulas e cavalos do Rio Grande do Sul em Santa Catarina e no Paraná. Segundo ele, a chave do negócio era planejar a tropeada de modo que esta chegasse nos locais no período das colheitas, época em que os colonos tinham mais dinheiro. Assim, a passagem da tropa coincidia com a safra de uva e trigo em Santa Catarina, de batatinha e feijão no Paraná e, por fim, com a safra de banana no litoral. Ele diz que outro grande negócio da época era trocar animais nas colônias. Trocavam animais xucros por mansos e pagavam uma quantia em dinheiro. Posteriormente, esses animais eram vendidos em fazendas de gado ou amansados durante o caminho, em outras colônias. Consequências O tropeirismo, como atividade comercial no Sul do país, foi diminuindo até a extinção, na década de 60, mesma época em que Nelson Cordeiro deixou a lida. A facilidade do transporte

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rodoviário e o desenvolvimento urbano foram fatores determinantes nesse quadro. A dificuldade em encontrar locais apropriados para o descanso de animais e o ritmo acelerado das estradas impossibilitam qualquer tentativa de transportar grandes tropas de animais em longas distâncias. Apesar de pouco perceptíveis, a atividade tropeira deixou reflexos na cultura ponta-grossense. O tropeirismo, mais que simples comércio, tem um legado de tradição que não se modificou muito no decorrer dos anos. Calcado no modo de vida gaúcha, o tropeirismo influenciou grande parte das cidades ao longo do caminho de Viamão. E Ponta Grossa não foge à regra. O cultivo da tradição pode ser percebido nos CTGs, Centros de Tradição Gaúcha espalhados pela cidade. São cerca de dez organizações desse tipo, que . . . ensmam aos ma1s Jovens um pouco do ideal gaúcho.

Adriana Savicki

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Economia

Cidade agro-industrial Situado no segundo planalto paranaense, nos chamados Soja Campos Gerais, uma das ocupações mais antigas do Paraná, Durante alguns anos, o município de Ponta Grossa o município de Ponta Grossa é passagem obrigatória para ostentou o título de grande produtor de soja. Não somente quem vai ao Norte, Oeste, Sudoeste e Sul do estado. Com por sua destacada produção, mas também pela facilidade de caracteristicas de núcleo polarizador, destaca-se nacionalmente escoamento das safras. Além de estar respaldado por um por sua posição :fisica: é o principal entroncamento rodoviário do importante entroncamento rodoviário, das cidades do interior sul do país, e isso proporciona ao município, participação ativa paranaense que possuem uma grande produção agrícola, é a no Corredor de Exportações do Paraná, figurando-se como o que está mais próxima do Porto de Paranaguá. São 209 Km do maior parque agro-industrial paranaense. principal ponto de escoamento de grãos do sul do país. A título de história, os índios foram os primeiros O interesse pela cultura da soja aqueceu a economialocal, agricultores de Ponta Grossa. Logo depois, os brancos, na permitindo a implantação de um cooperativismo atuante, bem maioria fazendeiros paulistas em busca dos pastos naturais, como a vinda de inúmeras firmas nacionaís para a cidade, as fartos nesta região. O atual Distrito de Itaiacoca, por se tratar quaís comercializavam, exportavam e industrializavam o produto. de uma área de mato, foi local preferido para as atividades da Paralelan1ente, desenvolveu-seum amplo mercado de máquinas, lavoura. Dedicavam-se, então, a uma agricultura empírica insunws e prestação de serviços agrícolas. Nesse período, com a tradicional, feita apenas para o custeio das fazendas. Desta introdução das mais diversas indústrias, a região dos Campos forma, brancos e índios praticavam uma cultura de pequena Geraís gozou de um grande desenvolvimento sócio-econômico. escala, apenas para subsistência. Jamais pretenderam alcançar Centenas de novos empregos se abriram e a população, sobretudo outros mercados. Mesmo porque, muitas culturas foram de Ponta Grossa, começava a viver outro ritmo de vida. consideradas antieconômicas, de baixo rendimento e baíxo valor comercial. Na época, as terras do município eram d ta'\:adas como sendo improdutivas, dada a acidez. Somente anos ~ mais tarde, com o avanço da tecnologia agronômica, é que o conceito arespeito das terras ponta-grossenses começariaamudar. Colonos mssos-alemães, poloneses e holandeses, a partir da mesclagem de seus costumes, usos e vivências, também contribuíram e tiveram forte influência no desenvolvimento agrícola dos Campos Gerais. Ainda hoje, através de seus descendentes, muitos dos antigos costumes são preservados. Em meados da década de 60, o Governo Federal, através do Ministério da Agricultura, privilegia a cidade financiando uma Estação Experimental, cujo principal objetivo era desenvolver, em conjunto com os agricultores da região, as melhores técnicas de plantio, adubagem, Plantação nos arredores de Ponta Grossa correção de solo, seleção e distribuição de sementes. Pouco depois, a prefeitura da cidade cria o Porém, com o andar da carruagem, Ponta Grossa Departamento Agrícola Municipal e faz as primeiras começou a ser vítima de um problema que hoje atinge todo o promoções visando o incentivo ao investimento rural. São país. A agricultura é um dos setores mais sacrificados nos tentativas de encorajar os colonos a produzir em escala últimos tempos, dizem os fazendeiros. Espelhando-se em comercial. O que, de uma certa forma, acabou dando certo. números que revelam que nos últimos 27 anos, cerca de 1 Surgiam os "agricultores do asfalto", cidadãos das mais milhão de pequenos proprietários e trabalhadores mrais diferentes camadas da sociedade princesina, que perderam suas terras e empregos no estado do Paraná, começaram a dedicar-se à agricultura em larga escala, queixam-se, principalmente os pequenos proprietários da gerando histórias interessantes, como a que ocorreu com a região, de que "não há recursos para o crédito rural e as Orquestra Sinfônica de Ponta Grossa. Na tentativa de elevadas ta'\:as de juros estão descapitalizando o setor". Diante dessa situação, o município de Ponta Grossa conquistar a independência econômica, dedicou-se a plantação de arroz. O resultado, negativo, não foi de todo não detém mais o título de Capital Mundial da Soja, ostentado, desperdiçado. Além de servir como uma grande lição, fez sobretudo, durante a década de 70. Outras culturas, como a surgir o chamado "arroz sinfônico", fato destacado na do trigo e a do milho, foram introduzidas e agora dividem imprensa nacional e internacional. Hoje, a lembrança de espaço com outras culturas de menor porte. tal tentativa pode ser observada na flâmula da Orquestra, Fábio Rena que carrega simbolica.f!lente um cacho de arroz.

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Economia

erveja de porta em porta

Münchenfest

Em 30 de novembro de 1990 tinha início, em Ponta Grossa, a Foi através de pessoas como o mantido um compromisso para a primeira Munchenfest. A festa é alemão Henrique Thielen que começou fabricação damarcapormais 50 anos. organizada pela prefeitura da cidade a produção cervejeira emPonta Grossa Mesmo depois desse período e ocorre todo ano, entre o final de Thielen sobrevivia vendendo cerveja contratual, a Original foi fabricada, novembro e início de dezembro. A caseira deporta em porta Rapidamente, mas não é a mesma coisa "A Original primeira München trouxe um a procura cresceu. Em 1894 a fábrica do foi uma das melhores do país, mas essa público de 150 mil pessoas. Foram alemão jáproduzia em escala comercial. de hoje parece que não é a mesma consumidos cerca de 128 mil litros "Para distribuir as cervejas, eles coisa", opina Alexandre Bronoski. A de chope escuro. usavam uma carroça enorme, toda respeito da venda da Cervejaria Para a segunda edição da preparada. Os engradados eram Adriática, ele relata que "eramdois Münchenfest, foi adotado o mesmo empilhados, iam até o teto, e na frente concorrentes muito fortes. Um tinha a modelo da primeira edição. Para tal, eram puxados por dois cavalos ára- qualidade, outro a força econômica Tanto construíu-se um local próprio para bes ... ", conta Alexandre Bronoski, 72 que a Antarctica comprou todo o o evento, o Centro de Eventos, que anos. Nascido em ,. . também foi o cenário das outras sete Ponta Grossa, ele ~ . parte da~ ..c: edições da festa. Lá encontram-se presenciOu um palco externo para a realização história das cervejarias [;o:l de shows e um pavilhão para bailes. na região. Seu pai foi 1i Ao redor, estão situadas as funcionário da Adriá- C/ tradicionais "barraquinhas de tica, e ele próprio comida", oferecendo os mais chegou a transportar variados pratos, que vão desde tampas de garrafa para acerveJana salsichas brancas da Bavária cozidas Henrique Thieaté comida japonesa, passando por len enriqueceu rápido. pratos típicos da região. É também Em 1908 fundou a possível presenciar os concursos de Cervejaria Adriática. chope em metro e da rainha da festa. Em 191 Oinaugurava o Cerca de 150 mil pessoas poço artesiano que, estiveram na última edição da durante quase um München. Esta foi a primeira século, forneceria a Münchenfest onde os serviços foram água para a fabricação Alexandre Bronoski.: "Sem dúvida, a Original foi terceirizados, ou seja, a organização da cerveja Original. "É uma das melhores cervejas que já tomei" do evento passou para as mãos de muito provável que um dos segredos da maquinário da fábrica''. uma comissão escolhida especialEm 1946, a Cia. Antarctica Originaleraaáguautilizadadopoço", mente para esse fim. Essa mudança contaAlexandre. Paulista comprou o prédio e as A Original sempre foi uma instalações da cervejaria. Durante ocorreu visando inovar e melhorar marca rodeada de mistérios. meio século a Antarctica produziu os serviços prestados. Mais de 166 Unanimidade entre os especialistas, em larga escala em Ponta Grossa. No mil litros de chope e refrigerantes durante várias décadas foi considerada início dos anos 90, os problemas . foram vendidos. Durante o passar dos anos, a a melhor cerveja do continente.O começaram a aparecer. Devido à segredoresidiamesmonacomposição localização da fábrica, no centro da Münchenfest transformou-se na da bebida. Era uma fórmula própria, cidade, não havia espaço físico para a segunda maior festa nacional nesse conhecida apenas pelos mestres- ampliação da empresa. Além disso, estilo, perdendo ~penas para a cervejeiros. "Essa fórmula é segredo. já estava sendo tudo automatizado. Oktoberfest, de Blumenau - SC. Era feita artesanalmente, coisa que o Parece que os diretores não tinham Hoje, a festa representa, junto com cervejeiro não revelou praninguém", interesse numa fábrica pequena. as ruínas naturais de Vila Velha, um afirma Bronoski. dos maiores atrativos turísticos para Gustavo Ayres Scheffer a região. Após a venda da Adriática, foi

Ponta Grossa (em tradição em cerveja

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Sociedade 'I

Muito se engana quem acredita que a migração é um fenômeno recente · em Ponta Grossa. Os motivos atuais são outros, mas pode-se dizer que a história da cidade se consolidou pela aventura famílias inteiras que buscavam o local ídeal para estabilizar suas vidas. Por escolha ou por acidente, russos, alemães, italianos, paulistas e catarinenses deram um brilho diferente à memória da Princesa dos Campos Gerais. Afamflia Villela, em 1912, no Rio de Janeiro

Quando Pedro Taques aportou no Brasil, por volta de 1500, vindo da Bélgica, certamente não poderia imaginar que seus feitos e os de seus descendentes viessem a se tornar públicos. No entanto, seus tataranetos, espalhados pelo Brasil, podem conhecer um pouco da história de sua família através de "Os ossos do Barão", obra de Jorge Andrade, que virou telenovela, na Globo, em 1973 e, no SBT, em 1997. Em Ponta Grossa, Maria José Taques, 84 anos, mostra orgulhosa a amarelada fotografia, em que aparecem os parentes retratados na novela. Maria José é viúva de Baldomero Bitencourt Taques, bisneto do mais ilustre membro da família que passou por Ponta Grossa, Baldoíno de Almeida Taques. O sobrenome tem registro garantido.pelo prestígio

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sa. As pequenas cidades vizinhas fopolítico de Baldoíno, que foi prefei- ram grandes contribuintes para o deto da cidade, e pelo número de fi- senvolvimento da que se tomou o lhos de Baldomero: depois de fazer centro da região. Baldoíno era granas contas entre os dois casamentos de fazendeiro em Guartelá. Antes de morrer, aos 87 anos, em 1865, do marido, Maria José soma 19. Os Taques são numerosos em pediu para ser sepultado em Ponta Ponta Grossa, mas, seus membros Grossa. Os poucos recursos da épotambém estão presentes em vários ca impediram que a carroça funeral outros lugares. Na cidade vizinha de chegasse a tempo. O túmulo ficou Tibagi, a história registra um fato in- no meio do caminho, em Castro. teressante. AfamíliadeRitaC. Taques Baldomero nasceu em Tibagi recebeu o sobrenome por conta dope- e estudou em Ponta Grossa, quanríodo de escravidão. Os senhores da- . do "o cemitério ficava longe da civam o nome da família aos escravos dade", como ele mesmo contava à que nasciam sob sua tutela. Por cau- esposa, referindo-se ao cemitério sa disso, várias pessoas da região municipaL Criou os filhos em sua partilham de um mesmo sobreno- terra natal e só depois fixou-se na me, sem terem relações consan- princesa dos campos. güíneas. Hoje, a família está espalhaNa verdade, a história dos da pelo BrasiL Cada descendente Taques representa um fynômeno co- foi também em busca da realização mum na colonização de Ponta Gros- de seus sonhos.

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Sociedade obrigação de fazer algo pela comunidade. Tambémnãoaceitava homenagens e placas com seu nome nas obras que realizava, nem presentes. Ele acreditava que o serv1ço era sua função Maria José com seu filho, Urias Taques: como admi"porque mamãe me deu o nome do pai dela, vovô nistrador mulhe deu 200 contos, que foram suficientes para nicipal. Foi comprar uma vaca, que foi o começo da nossa Ernesto Villecriação de gado", diz ele, lembrando-se da infância la que trouxe humilde, quando não tinha sapatos e, às vezes, a luz elétrica para a cidade. chegava a usar os vestidos das irmãs, por causa da O patriescassez de roupas. arca saiu de Florianópolis, com um navio carreTudo começou num gado de aguardente, para o Rio de navio de aguardente Nesta parochia, baptisei o Janeiro. Problemas na viagem fizeinnocente Ernesto· Guimarães ram Bonifácio perder tudo e aportar Vil/ela, filho de Bonifácio José em Paranaguá. Aos 18 anos e sem Villela e da Sra. Placidina Gonçal- nenhum recurso, ele começou a traves. Provavelmente, assim se regis- balhar e juntar economias no litoral trou, conforme os costumes da épo- paranaense. Em 1854, sem condições de ca, o batismo de um dos mais ilusà capital catarinense, Bonivoltar tres prefeitos de Ponta Grossa. fácio veio para Ponta Grossa, onde Nascido a cinco de dezembro instalou uma loja de secos e molhade 1859, nesta cidade, Ernesto Villela elegeu-se prefeito em 1896 e dos, na esquina das atuais ruas Santos Dumont e Dr Colares. A loja permaneceu no cargo por doze anos. Foi o mandato mais longo da Os irmãos Luiz e Augusto Canto g história da cidade. Em descendem de uma das primeiras § 1908, ele passou o posfamílias a chegar a Ponta Grossa.~ to para seu irmão, José O avô, também Augusto Canto, veio ~ Bonifácio. O que chama da Alemanha. Sempre ligado ao ::;s a atenção é a conduta do comércio, o patriarca foi o dono do prefeito Ernesto, capaz de deixar mudo muito primeiro cinema da cidade, chamado político que faz propa"Recreio". Também trabalhou com ganda do bom uso de re- cervejaria, selaria e olaria. Em 1883, cursos. fundou a loja de sementes Segundo uma ediCasa do Canto, que ção de 1984 do Jornal acompanha a família, da Manhã, o prefeito na mesma casa e guardando Ernesto nunca recebeu salário pelo seu trabao mesmo estilo, até hoje. lho, porque sentia-sep.a

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prosperou, transformou-se em firma importadora e exportadora e deu início ao que se tomou um grande patrimônio. Ernesto foi o primogênito de uma família de nove filhos. Fazendeiro de posses, foi ele quem doou o terreno para a instalação do 13° BIB -Batalhão de Infantaria Blindada do Exército. Casou-se duas vezes e é da primeira união que descendem os Villela residentes em Ponta Grossa até hoje. César Ribas Villela foi o único filho do primeiro casamento de Ernesto e teve dois filhos: Cícero e Luiz Ernesto. Luiz Ernesto casou-se com Deise e tiveram quatro filhos. Eles contam que a generosidade de Ernesto ia além das funções políticas. O Clube Pontagrossense tinha uma dívida com a pessoa particular do prefeito, que perdoou a conta porque considerou que a sociedade princesina precisava do clube. Roberto Villela Silva é o primeiro neto de Luiz Ernesto e Deise e é para ele e demais descendentes que a família preserva os registros de sua história. Eles guardam recortes de jornais que contam a trajetória de seu tataravô-prefeito que devolvia cavalos recebidos como presente e fazia uma política diferente da habitual.

Ana Cristina Suzina

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Sociedade Na lista telefônica de Ponta Grossa, há uma grande variedade de nomes estrangeiros: Holzmann, Lipinski, Zanetti, Nada!. São nomes que têm diferentes origens e uma prova de que a cidade é uma verdadeira miscelânea em termos de formação étnica. Alemães, poloneses, italianos, sírio-libaneses, ucranianos.. foram muitos os imigrantes que chegaram a Ponta Grossa desde o final do século passado. A historiadora Maria Aparecida Gonçalves estudou a fundo a imigração nos Campos Gerais, e esclarece que nenhuma etnia predominou porque os estrangeiros não conseguiram se impôr. "Os imigrantes que vieram para cá eram trabalhadores pobres, sem muitas posses". Os primeiros a chegar foram os chamados russos-alemães, no ano de 1877. Com um contingente de aproximadamente duas mil pessoas, formaram a primeira grande colônia da região, demominada Colônia Otávio. Vale lembrar que um dos marcos do local ainda permanece intacto no distrito de Guaragi: um monumento erguido em homenagem a D. Pedro li, quando o imperador visitou a colônia. No entanto, a iniciativa dos imigranets não foi bemsucedida. Maria Aparecida destaca que isso foi fruto de uma falsa propaganda do Império, que prometia terras férteis, amplas e disponíveis. Já segundo os colonos, o solo era "muito lindo para os olhos, mas só produzia barba de bode". Como as colheitas não tiveram êxito, a solução foi mudar para a cidade. Alguns imigrantes que chegaram • mais tarde preferiram se dedicar ao comércio. Contribuíram para a abertura de um espaço industrial, seguindo idéias modemizadoras que dinamizaram a economia. Os italianos foram os pioneiros na industrialização, com Francisco Matarazzo e bra a fixação ucraniana em Ponta Grossa Eugênio Bocchi. Os sírio-libaneses, por sua vez, destacaram-seno ramo de tecidos e armarinhos. Já os alemães, através da união em grupos de canto, ginástica ou clubes sociais, solidificaram sua posição na sociedade. O exemplo foi seguido pelos demais imigrantes, que também buscaram associações que os representassem. A Sociedade Polonesa Renascença, a União Syria Pontagrossense e a Sociedade Dante Aleghieri são os melhores exemplos dessa iniciativa. Os negros, por serem em pequeno número na região, não têm muito destaque entre as etnias locais. Segundo Maria Aparecida, isto se explica porque "não houve vida econômica baseada no trabalho escravo em Ponta Gros\

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sa. Quando a produção econômica ganhou força no Paraná, o escravismo já estava em desativação, sendo substituído pelo trabalho do imigrante". Costumes que permanecem "O fato de que os imigrantes foram se adaptando aos nossos costumes não quer dizer que eles tenham deixado de cultivar suas tradições", afirma a historiadora. E acrescenta que uma das colônias mais importantes nesse sentido é a ucraniana. De fato, os descendentes de ucranianos que vivem em Ponta Grossa ainda preservam os costumes de origem. NatáliaHuczok, 77, é um exemplo típico de quem mantém sua cultura. Seus pais chegaram ao Brasil em 1922 e se fixaram em Irati, na Colônia Gonçalves Júnior. Dona Natália conta que as famílias pagavam professores para ensinar a gramática ucraniana às crianças. Em 193 9, ela casou com Volodomyr (também filho de ucranianos) e foi para Londrina, e somente em 1950 o casal retomou a Ponta Grossa. · Hoje, Dona Natália mora sozinha, mas mantém a casa toda decorada com os bordados em ponto cruz e seus desenhos típicos coloridos. As pessankas, ovos pintados de maneira artesanal, confeccionados especialmente para a Páscoa, também fazem parte da decoração. Para ela, assim como para todos os ucranianos, o nascimento e a ressurreição de Cristo são grandes comemorações. Afinal de contas, é quando se destacam os rituais, as festas e os pratos típicos preparados de forma toda especial. Todos os domingos, das 19 às 20 horas, Dona Natália apresenta, na Rádio Difusora, o Programa Ucraino-Brasileiro. Nele são mostrados aspectos culturais, tradições e músicas ucranianas. Para Dona Natália, é uma maneira de valorizar os costu-:. mes de seu povo, algo que, na opinião dela, os brasileiros deveriam aprender a fazer. "O povo brasileiro não dá valor à sua cultura. Aqui as pessoas aprendem a dança da garrafa e esquecem o resto".

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Anderson Gonçalves e Mônica Bockor


Sociedade

Clubes tentam perpetuar tradições

segmentação nas atividades profissionais dos sócios provocou a retirada de parte dos integrantes do Germânia. Aqueles que possuíam maior capital se dedicaram ao comércio e à indústria e permaneceram no Germânia. Já os detentores de habilidades técnicas ou específicas, como os latoeiros, os pintores e trabalhadores em geral iniciaram o Clube Princesa Dos Campos, conhecido atualmente como "Verde". Outros Clubes como o Literário, Campos Gerais (um dos primeiros a ser estruturado na cidade) e o Pontagrossense

sócios pudessem participar dos eventos promovidos. Em certa ocasião o Pontagrossense chegou até a transferir, em 1909, o baile comemorativo do aniversário do município, por causa do mau temo. Ao contrário do que muitos pensam, na sociedade pontagrossense a formação de clubes não foi uma iniciativa só dos imigrantes europeus. A pesquisadora Aí da Mansani Lavalli, autora do livro "Germânia Guaíra um século de sociedade na memória de Ponta Grossa", revela que a cidade teve um número significativo de negros,

Ponta Grossa foi um dos primeiros municípios do Praná, e os imigrantes que aqui chegaram encontraram nos clubes uma maneira de manter seus costumes, cultura, valores e alguns aspectos particulares como o idioma. Desde o século XIX a cidade teve vários clubes. Os alemães, por exemplo, .~ fundaram, através de Henrique Thielen, industrial recém-chegado na cidade, o Clube Germânia, atual Guaíra, em 1896. O quadro de. associados era composto por industriais e comerciantes, que promoveram, na época, um impacto modernizador no município. Manter a tradição alemã e Integrantes do Clube Guaíra, numa festa do carnaval de 1938 uma escola que ensinasse a fato refletido na criação dos contavam com pessoas da alta língua de origem aos descendenClubes 13 de Maio e 7 de Setemsociedade, formada por famílias tes dos sócios era um dos princibro. tradicionais descendentes de pais objetivos dos dirigentes do Hoje, Ponta Grossa contigrandes proprietários de terras e Germânia, pois as reuniões eram nua a contar com um grande detentores de altos cargos. feitas somente em alemão, até número de clubes sociais e Apesar de todo o "status social", que o presidente Alberto Thilen, associações étnicas (como os seus integrantes eram obrigados neto de Henrique, decidiu elimiCTGs - Centro de Tradições a enfrentar problemas comuns nar tal obrigatoriedade em 1938. aos demais clubes, como a lama Gaúchas), que tentam preservar Devido a esta particularidade, o as culturas que caracterizam a nas ruas e a falta de iluminação Guaíra mantinha um certo tradição local. adequada em alguns pontos distanciamento dos clubes de região. Mesmo diante destas italianos, poloneses, libaneses e dificuldades, encontrava-se Ana Cristina Bruno brasileiros. e Luciana dos Santos sempre uma forma para que os Mais tarde, uma

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Sociedade

os

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Ponta Grossa abriga seguidores de várias correntes religiosas A história conta que a primeira igreja de Ponta Grossa foi construída em 1729, e era dedicada a Santa Bárbara. Em 1Ode maio de 1926 foi criada a Diocese da região, pela Bula "Quunin dies numerus", do Papa Pio XI. Porém, somente depois de quatro anos é que um bispo foi designado para liderá-la. O escolhido foi Antônio Mazzarotto. Hoje, são 19 paróquias ligadas à Diocese, que congregamais de 800 mil fiéis.

Mosteiro Em 19 81, monges da Ordem de São Bento fundaram em Ponta Grossa a Congregação Beneditina do Brasil. Eles são conhecidos nacionalmente pelos CDs de cantos gregorianos lançados para, segundo alegam, difundir a paz de Deus através da música. "Glorificai" é o último trabalho do grupo.

Presbiterianos e Orientais A primeira Igreja Presbiteriana da cidade foi fundada há mais de 80 anos pelos reverendos George Landes e George Beckerstaph. Atualmente, Ponta Grossa conta com mais três congregações presbiterianas: Hebron, Madureira e Ronda. A igreja Seicho-No-Ie, que é na verdade uma filosofia de vida, atesta a presença dos orientais em Ponta Grossa. São 13 associações que reúnem aproximadamente 100 seguidores.

Muçulmanos O Islamismo chegou à cidade há 80 anos, trazido por Líbaneses e Palestinos. Ao contrário dos conflitos no Oriente Médio, causados pela rigidez do governo Turco da época e pelai Guerra Mundial, eles encontraram no Brasil o que classificaram de "paraíso das Américas". Em Ponta Grossa, a primeira colônia foi a de sírios, há 150 anos. A

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chegada:.c1 deles foi § marcadaril pelafunda- ~ p;., çao do tra- o dicional ·~ Clube Sírio ~ Libanês. Hoje, eles somam mais de mil adeptos. Vários ensinamentos do Alcorão -feito pelo A cidade perdeu profeta Mohamed no final do século VI - foram "adaptados" aos dias atuais. O sheik Nouredinni, explica que estas "adaptações" não representam desrespeito ao Livro Sagrado. Os muçulmanos não têm mesquita na cidade. Mas possuem uma sala reservada às orações. Eles estão investindo na construção de uma sede. Axé No Município, não existem barracões para manifestação do Candomblé. Em compensação a Umbanda é cultuada em mais de mil terreiros, de acordo com levantamento realizado pela Federação Paranaense de Umbanda ao Culto Afro-Brasileiro. Em Ponta Grossa, uma das pessoas que começou a difundir a umbanda foi a Mãe de Santo Maria de Ogum, ou simplesmente Mãe Maria, que há 40 anos foi iniciada no Candomblé, mas hoje "toca" um terreiro de umbanda. Já na entrada de sua casa, notamos que é filha de Santo. A bandeirinha branca asteada em frente ao portão avisa que ali é um templo de Ogum, senhor da guerra, do ferro e do aço. Além de Ogum, Mãe Maria N

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um pouco de sua história

incorpora outras divindades como a Cigana dos Prazeres que a "acompanha" há 20 anos ou o Índio, chefe espiritual do seu terreiro, que há 30 anos está presente em sua vida de umbandista. O templo de Ogum de Mãe Maria pode ser "dividido" em quatro partes principais: a sala de consultas onde ela joga búzios, lê cartas e faz trabalhos espirituais para os freqüentadores que vão em busca dos seus conselhos; a "Lei de Cigano", uma espécie de altar destinado à cigana que Mãe Maria incorpora, cheio de perfumes, colares, espelhos e estátuas; uma sala utilizada pelos os Santos (orixás) para emitirem sua energia e o terreiro propriamente dito, chamado de Elê de Ogum, onde são realizadas as sessões de umbanda. Nas reuniões no terreiro, participam poucos médiuns. Mãe Maria explica que muitas pessoas podem atrapalhar o andamento dos "trabalhos" que são abertos ao público todas as quintas-feiras, às 20 horas, nos fundos da sua casa, no final da rua Engenheiro Schamber.

-----------------Kelly Cristhine Frizzo


c~sas, passaram a ter edifícios

primeit~~s,escolas

As de Ponta Grossa, que :a época ainda era Freguesia, só começaram a surgir a partir de 183 8, ano em que foi concedida autorização pelo Governo. Porém, somente as escolas particulares puderam instalar-se na cidade e, mesmo assim, estas deveriam cumprir certas exigências. Os professores dos estabelecimentos deveriam ser do sexo masculino e, para lecionar, deveriam de prestar exames de suficiência em São Paulo. Um dos regi~tros111ais antigos do funcionat11ento

especialmente construídos para elas e o crescimento das escolas públicas tivera , Wcio. A primeira escola de destaque neste Úculo foi fundada pelas religiosas da Congregaç~o das Servas do Espírito Santo, em 1905. No iníCio~ somente possuíam o curso primário, além de aulas de música, bordados e pintura. Na década de 40 é que foram"instituídos cursos ginasial


Educa~ão

REGENTE FEIJÓ

s la anhã, ''Meu coração batia no ri1mo do Regente". Foi assim que a professora Aida Mansani Lavalle, 61 anos, relembrou seus 25 anos como professora daEscolaEstadual Regente Feijó, a mais tradicional de Ponta Grossa. Fundadaem 1°deabrilde 1927, a escola funcionou como Ginásio até 1939 na rua Doutor Colares, onde fica o Centro de Cultura Mais tarde,jácom 800 alunos matriculados, foi transferida para o imponente prédio - tombado pelo patrimônio histórico num projeto de autoria da professora Aida Lavalle - onde permanece até os dias atuais. Em 21 de fevereiro de 1927, o governador Caetano Munhoz da Rocha assinou o parecer n° 11 que realizava o grande sonho da comunidade ponta-grossense: estava criado um curso secundário na cidade, já que muitos jovens da região e de outras localidades tinham de estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba Logo que anotíciadacriação do novo ginásio foi divulgada, 72 candidatos fizeram inscrição para a primeira série. Destes, somente 65 foram matriculados, pois

os demais acabarm reprovados no exame de admissão. Tradição .regentina Os alunos estudavam em tunnas mistas. Porém, durante os intervalos eles eram separados. Segundo a professora Aida, esse ritual era um símbolo da escola "Pena que não pôde serpreservado,poiseramuito bonito", observa. No pátio havia bancos de cimento, ao longo dos muros da escola, onde os alunos sentavam

Portão central do Regente Feijó

sistênci

1nasa li

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separadamente na hora do recreio. Do lado esquerdo, os meninos e, do direito, as meninas. No Regente Feijó, algumas disciplinas possuíam salas especiais. A de Geografia ostentava enormes mapas nas paredes, que podiam ser observados de perto pelos estudantes. Na sala número 17, de Biologia e História N aturai, havia um armário de vidro com dois esqueletos humanos. Além do material fixado nas paredes das salas de mineralogia, paleontologia e zoologia. A partir da década de 70, o colégio já oferecia ensino de segundo grau. Eram quase 4 mil alunos divididos em turmas masculinas pela manhã, femininas à tarde, e mistas à noite. Nos anos dourados do Regente Feijó, os vestibulandos ponta-grossenses eram muito bem preparados para concorrer a uma vaga na universidade. Segundo um ditado da época, quando surgia em Curitiba algum candidato um comentário pairava no ar: "se é do Regente de Ponta Grossa, já tem lugar garantido".

universid d

Assim como qualquer nova iniciativa, a Universidade Estadual de Ponta Grossa encontrou barreiras para se estabelecer. E não teve o imediato apoio dos diretores das faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, de Farmácia e Odontologia, de Ciências Econômicas e Administração e de Direito. Os dirigentes de tais faculdades relutaram em fundir seus poderes em um conselho central e na figura de um reitor. A comunidade viu a criação da UEPG como um presente do Governo e não como uma conquista importante de Ponta Grossa. "A cidade não tinha noção dos beneficios que ganharia com a implantação da UEPG", afirma o primeiro vice-reitor, Odeni Villaca Mongruel. Nos primeirps oito anos de existência, a

Universidade passou por uma fase de afirmação e, depois, por uma de consolidação. Através de convênios com o Ministério da Educação, passou a investir em programas de extensão. A primeira experiência ocorreu no Distrito de Itaiacoca, onde todos os cursos levavam seus estudantes para exercerem, na prática, as suas funções. A iniciativa repercutiu muito bem e a UEPG ampliou seus convênios com o Ministério, trazendo pela primeira vez à cidade um grupo de 150 estudantes de toda a América Latina. Os estudantes tiveram uma série de dificuldades. Eram claramente discriminados pela população, e não conseguiam sequer alugar moradia. A solução encontrada pela direção da Universidade foi fazer um trabalho de cons".. ;.c.; ;.;ie;.; n; ;.;.t; .; ;iz; ,; ,a;.J. ç.;.;.ão.; ;. .;. . . ._ _ _ _ _ _ __

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Rodolfo Biih.re.r

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Patrimônio Histórico Apita o trem. A população ponta-grossense ouve encantada os seus primeiros ruídos em 1894, mas ainda não imagina as mudanças que aqueles caminhos de ferro vão provocar na região dos Campos Gerais. Inaugurada oficialmente no dia 2 de março, pela Compagnie Generale des Chamins de Fer du Paraná, a ferrovia trouxe projeção política, econômica e social, elevando Ponta Grossa à condição de maior cidade do interior do Paraná, por volta dos anos 30. A linha férrea agilizou o transporte dos produtos exportáveis da região, principalmente mate e madeira, tarefa que antes era executada nos carretões lentos e de baixa capacidade de carga dos colonos russos-alemães. Houve um grande surto de progresso, provocado pela facilidade de fluxo de pessoas e produtos. A população urbana aumentou e a cidade se desenvolveu. Ainda no final do século XIX deu-se início a construção de uma estrutura de apoio para a primeira estação, a Estação Paraná, situada na Rua Benjamin Constant, prevendo que ela não seria suficiente para o fluxo de cargas e passageiros que Ponta Grossa recebia. Em 1900 foi inaugurada na Praça João Pessoa a segunda estação, considerada de primeira classe e, em 1906, foram concluídas as obras do armazém de cargas, destinado a guardar produtos agrícolas e gado. No princípio chegavam a Ponta Grossa apenas os trilhos que faziam a extensão do trecho Paranaguá-Curitiba. Aos poucos a região foi se tomando um entroncamento ferroviário, com a 18

ampliação dos serviços rumo ao Norte, em direção a Itararé e ao Sul, em direção ao Iguaçu. Em 1900 foi concluída a primeira secção Ponta Grossa a Rebouças, com 132 km, prolongada em 1904 até União da Vitória com mais 13 2 km. Próxima estação O trem apita às oito horas da manhã na estação de Curitiba. Aos ......,v .....,... ., põe-se em movimento lenta locomotiva, arrastando carros de passageuos que aos solavancos chegarão

em Ponta Grossa às dezesseis horas. Augusto Carlos De Borra, 70 anos, relembra com detalhes essas viagens quase intermináveis. Ele começou a trabalhar na rede ferroviária aos 14 anos. Foi telegrafista, trabalhou na bilheteria, entregou bagagens, fez controle e despachou trens e conta que foi um grande avanço quando a duração do percurso Curitiba-Ponta Grossa caiu para cinco horas, com a introdução, no Brasil, de trens mais modernos. A ferrovia chegou a empregar dois mil funcionários em Ponta Grossa e atraiu muita gente para a região, que vinha em busca de emprego. Os funcionários, organizados, formaram a Cooperativa Mista 26 de Outubro, um grande complexo que possuía hospital, armazém, fábrica de massas, farmácia, alfaiataria, moagem de café e fábrica de sabão. Seu Augusto lembra o alvoroço em que ficava a cidade no dia do pagamento da ferrovia. "A

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rua dos turcos ficava repleta das mulheres dos ferroviários que saíam para fazer as compras no dia do pagamento dos maridos. Esse era o melhor dia do mês para os comerciantes", conta. Da recreação dos empregados surgiu o Clube Operário Ferroviário, um campo de futebol idealizado pelo chefe das oficinas, Germano Krugger. O campo foi construído num banhado, aterrado com as sucatas de trem. Neste bairro funcionavam as oficinas da rede e, mesmo depois da urbanização, ele continuou sendo chamado de

Celebridades Soa um apito majestoso. É o trem Internacional que chega à cidade, despertando fantasias na população que pára ao longo da linha para ver sua luxuosa estrutura metálica passar. O Internacional fazia o trecho São Paulo-Uruguai e parava em Ponta Grossa por duas horas para o descan-so dos passageiros. Até mesmo os trens mais comuns, nesse período, já possuíam vagões

Locomotiva <8 exposta na :g ~ ·pátio da primeira estação relembra os tempos áureos da ferrovia em Ponta Grossa


Patrimônio de primeira classe, com poltronas estofadas e reversíveis. E era pelo caminho dos trilhos que chegavam aqui as visitas mais célebres que a Princesa dos Campos Gerais recebia. Coincidiu com a inauguração da ferrovia a passagem das tropas de Gumercindo Saraiva - o líder da Revolução Federalista que eclodiu no Rio Grande do Sul em 1893 -por Ponta Grossa. Os "maragatos", como eram

chamados os que se revoltaram contra o governo do Marechal Floriano Peixoto, ficaram acampados no pátio da Estação Paraná. Foi também uma revolução, a de 1930, que trouxe a Ponta Grossa o presidente Getúlio Vargas. A população o recebeu ao longo do percurso da linha férrea, do bairro de Oficinas até a Estação da Praça João Pessoa. Durante essa passagem Ponta Grossa recebeu o título de Capital Cívica do Paraná. Mas os trens de passageiros que por aqui pas-savam não traziam apenas celebridades. Nos cunosos vagõesbagageiros eram trans-

istórico

portadas desde as compras da população e volumes pequenos até galinhas e cachorros. Havia ainda os trens mistos que possuíam vagões de carga e carros de passageiros e os trens de carga, cujo principal volume continua sendo a soja e seus derivados. A tração era feita com locomotivas a vapor, conhecidas por Maria Fumaça. Morador antigo, o

funcionário público aposentado, Walter Schneckenberg, conta que em certos dias os passageiros engoliam fumaça e carvão vindos da casa das máquinas, ao abrir as janelas. Declínio O apito dos trens passou a incomodar. O perímetro urbano de Ponta Grossa cresceu e a estação, situada em pleno centro da cidade, tornou-se um problema por que trancava a Avenida · Vicente Machado, uma das principais artérias da cidade. Em 1970 os trilhos foram retirados e a estrutura transferida para o bairro de Uvaranas, restando apenas os prédios das estações e do armazém de cargas. Nessa época o sistema ferroviário já estava em plena declínio no Brasil. Com o golpe de 64, quando os militares assumiram o poder no Brasil, iniciou-se um processo de abertura para empresas multinacionais, devido à crise porque passava o país. Entre as primeiras fábricas instaladas em território brasileiro destacavamse as de automóveis, trazidas com o objetivo de gerar empregos. Uma exigência

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imediata destas empresas foi a construção de rodovias, processo que aconteceu de forma rápida. A participação do sistema rodoviário no transporte em 1968, já chegava a 71% das cargas e 89% dos passageiros. Em Ponta Grossa, a Cooperativa Mista 26 de Outubro faliu e quase ao mesmo tempo os empregados foram sendo colocados em regime de disponibilidade pelos militares, que contrataram empresas para fazer a conservação da malha ferroviária. Mais tarde a sociedade percebeu a grave distorção que isto significou na estrutura do sistema de transportes brasileiro. Não há estudos que comprovem, mas alguns historiadores sugerem uma relação entre o declínio do sistema ferroviário e o bloqueio do crescimento de Ponta Grossa. Repensando os acontecimentos, Augusto De Bonna ressalta que "o ritmo de desenvolvimento da cidade foi alterado quando o sistema de transporte ferroviário começou a decair, por isso há muito ela deixou de ser a maior cidade do interior do Paraná". Alguns comerciantes e moradores locais queriam transformar os antigos prédios da rede ferroviária, depois que foram desativados os trilhos, em shopping center, terminal de ônibus ou simplesmente demolilos. Mas, graças à insistência dos fundadores do Clube da Maria Fumaça, Eduardo Francisco Machado e José Franéisco Pavelec, as duas estações e o armazém de cargas foram tombados pelo patrimônio histórico em 1990. Lisandréa Costa

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Patrimônio Histórico

Estação Saudade ameaça desabar Dos três prédios da Estação Paraná (tombados em 1990), apenas dois estão restaurados. A antiga estação abriga a Casa da Memória. Também fazem parte dela, o Museu Ferroviário o Clube da Maria Fumaça. O armazém de cargas, depois de quase ser transformado em terminal de ônibus, abriga a Estação Arte, onde crianças desenvolvem trabalhos culturais. Mas a segunda estação, que é carinhosamente chamada de Saudade, desde que foi desativada, em 1970, não recebeu nenhum tipo derestauração. É um verdadeiro cenário de degradação. Lixos, entulhos, vidros quebrados e buracos encobrem um pedaço da história de Ponta Grossa. Em 1996, o deputado federal Roque Zimmermann (PT -PR) conseguiu incluir no orçamento da União uma verba de 600 mil reais para arecuperação da Estação Saudade. A verba foi aprovada, mas acabou perdida no caminho. O Governo Federal afirma que mandou o dinheiro, e o Estadual insiste em dizer que não recebeu. O descaso é total. O secretário municipal de cultura, Weider Barreto Aguiar, garante que existe uma preocupação da prefeitura em restaurar a velha Estação, mas acrescenta que, até o momento, não existe nenhum projeto sendo elaborado. No antigo programa de restauração, ela seria transformada numa biblioteca. Barreto Aguiar alega que a verba para a restauração deve ser conseguida pelos políticos da região junto ao Governo Federal. Sem destino certo, a Estação Saudade continua esquecida e está desabando, como boa parte da história pontagrossense. E a comunidade local vê seu passado ser esmagado aos poucos, por simples descaso.

olecionador de trens A fascinação por trens e tudo que se relaciona a eles rendeu a José Francisco Pavelec o título de maior colecionador da América Latina. Ele conta que sua paixão começou ainda criança. Filho de ferr?viários, ~asceu na cidade de Rebouças, interior do Paraná, e cresceu ouvmdo o apito ~os trens. Optou por uma profissão distante dos trilhos, tomou-se bancáno, mas sua admiração não diminuiu. Em 1986 iniciou seuhobby com a compra de duas locomotivas e dez vagões. Eram as primeiras peças de um vasto acervo. Encontrar algo que não seja relacionado a trens na casa de Pavelec é praticamente impossível. Além de miniaturas de locomotivas raras de todo o mundo, ele possui diversos objetos com motivos d~ tre.m, como almo.fadas, chaveiros, apontadores, telefone, tapetes, toalhas, cnstms, fotos e carm.setas. Também coleciona fitas de áudio e vídeo, cartões, selos, posters, piadas, poesias ... tudo sobre trens. Aposentado há dois anos e ~eio, o colecio?-ador dedica a maior parte de seu tempo ao ferreomo-dehsmo (ferrovia em miniatura).Na ma-quete, o ferreomo-delism~ consegue criar v.ias,}~ontes, estações, túneis, povoados e tudo que existe numa ferrovia. E uma experiência~

fascinante",.§ 1!1 conta Pavelec. ;g Ele adaptou no ~ !"\ espaço dIsponível em seu apartamento, uma maquete de 1,45 x 3,45m, com réplicas de diversas estações ferroviárias brasileiras, compostas por 68 . . . vagões depasPavelec: maior coleciOnador latmo-amencano sageiros e cargueiros locomovendo-se em túneis, cidades e estações iluminadas. Por se preocupar com a preservação e valorização das ferrovias brasileiras, Pavelec é um dos fundadores e vice-presidente do Clube da Maria Fumaça, que foi inaugurado no dia 14 de setembro de 1987, em Curitiba. O clube é uma entidade jurídica que conta com cerca de setenta sócios contribuintes e possui sedes regionais em várias cidades. A entidade encarrega-se de realizar exposições, pesquisas, informativos das ocorrências nas ferrovias e boletins para os sócios. A não preservação da memória ferroviária brasileira é a grande queixa de José Francisco Pavelec. Com a privatização da RFFSA (Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima) o trabalho dos associados do Clube da Maria Fumaça tornou-se mais dificil porque as empresas não tentaram corrigir o processo de deterioração das máquinas e ainda venderam como ferro velho a parte do arsenal que não havia apodrecido. Pavelec lembra que todo esse maquinário poderia estar sendo preservado em algum museu. o

Christina Ramires

Heloisa Inocêncio

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Patrimônio Histórico

A lei 463, de 2 de janeiro de 1921, sancionada pelo prefeito Brasílio Ribas, estabelecia que o imposto anual para automóveis de aluguel era de 50 mil réis, e para "motocyclo ou bycicleta ", 5 mil réis. Carroças de quatro rodas pagavam 1Omil réis. A lei também exigia que o condutor fosse habilitado e que fizesse um exame para demonstrar "conhecer os orgãos do apparelho e a fôrma de manobrar, assim como, pos~uir os requisitos necessarios de prudencia, sangue frio, visão e audição perfeitas". E quem era flagrado guiando sem habilitação pagava multa de 50 mil réis. Já aquele que entregasse o veículo a alguém sem habilitação, ficava responsável por eventuais acidentes e ainda pagava multa de 1 Omil réis. Entre outras coisas, a lei estabelecia o tamanho da placa do "vehiculo" e as cores vermelha para os carros de aluguel, e azul para os particulares. Os "chauffeurs" de praça eram obrigados a usar uniforme e boné. A velocidade máxima permitida era de 30Km/h "em campo raso", e nunca superior a 12Km/h na cidade. Estes dados constam na carteira de habilitação de Jeronymo Carraro, datada de 6 de junho de 1924. O documento faz parte do acervo do Museu dos Campos Gerais. Esse simples documento é capaz provocar uma v1agem no tempo. E o que seria dessa viagem se não fosse o museu ter preservado a carteira? Museu Campos Gerais A efervescência econômica e cultural de Ponta Grossa provocou a criação de várias associações e entidades culturais. A idéia do Museu nasceu em uma das associações, o Centro Cultural Euclides da Cunha. Com um acervo totalmente disperso, a região carecia de um local para I

reumr as peças. No início, o [i próprio Centro ~ serviu de .g depósito para-~ p . os ob~etos, mas ~ não havia espaço para expô-los aopúblico.O acervo foi transferido várias vezes. Com a criação da Universidade Fachada do atual prédio do Museu dos Campos Gerais Estadual de Ponta Grossa, o Departamento de adolescentes. "Depois que se História lutou por um espaço mais consegue trazer as pessoas para dentro do museu, o fascínio do local faz o adequado. Quase quarenta anos separam resto. Dificilmente elas esquecem a a idéia acalentada por menestréis até experiência e quase sempre voltam a assinatura do contrato de comodato com parentes e amigos, e isso é muito em que o governo do Paraná cedeu o gratificante", avalia. O Museu faz parte do Cadastro prédio do antigo Fórum. Era 28 de Geral de Museus Universitários da março de 1983. Hoje, o museu conta com 500 USP (Universidade de São Paulo), é peças em exposição permanente e integrante do Fórum Permanente de um acervo de 5 mil em sua reserva Museus Universitários e é classificado técnica. São documentos como a como um museu eclético pela carteira de Jeronymo Carraro,jomais abrangência do acervo. O prédio, com dezessete e periódicos, instrumentos musicais e utensílios, que contam o cotidiano ambientes, é ideal, mas não conta ainda das fazendas, índios e tropeiros e o com um equipamento de climatização início da urbanização da cidade. Um para a conservar as peças. Um acordo firmado com a Curadoria do verdadeiro retrato da cultura local. Há três anos na direção do Patrimônio Histórico do Paraná museu, Maria Augusta Pereira Jor- prevê uma restauração total do ge trabalha na catalogação, renova- prédio. Em breve, os visitantes contarão com ção de fichários e revitalização do também espaço. Cerca de 80% das peças já computadores conectados a museus estão registradas - um verdadeiro do mundo inteiro. trabalho de formiga já que o museu "Nada mais justo em se recebe doações diárias. "O problema tratando de um dos mais democráticos é que as pessoas confundem o museu espaços de apropriação de conhecicom um depósito de coisas velhas. In- mento. O museu não exige préfelizmente o brasileiro ainda não requisitos, pois deve ser agente aprendeu a ver o museu como um de- produtor, estimulador e criador de positário da representatividade histó- novas formas de comportamento", rica do homem", diz Maria Augusta. argumenta Maria Augusta. O fluxo mensal de público é de de 1200 pessoas, a maioria crianças e Kristhianne Schornobay "'

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Patrimônio Histórico

Perdas danos

Prédio construído na § década de 20, com :::s . f/ orms. e ~~ motzvos detalhes em art ~ nouveau. De proprie- ::S dade de Alberto Thielen, industrial e comerciante da época, a mansão foi vendida à prefeitura de Ponta Grossa em 1968, onde passou a VilaHilda funcionaraBiblioteca Pública Municipal Professor Bruno Enei. Recentemente foi restaurado e ainda mantém grande parte de suas características originais.

Embora grande parte da população ponta-grossense não tenha conhecimento, o município de Ponta Grossa possui um patrimônio histórico protegido por lei. Apesar de não haver nehuma política municipal de preservação, existem cinco prédios sob os cuidados do Estado. No ano de 1990, foram tombados a Mansão Vila Hilda, o prédio da Pró-Reitoria de Extensão da UEPG, o Colégio Estadual Regente Feijó, o Museu dos Campos Gerais e a Estação Paraná Um dos mais importantes e antigos (Complexo Ferroviário de Ponta prédios de Ponta Grossa, foi Grossa). o construído em 1906 pelo imigrante Há outros prédios que 5 . &5""' alemão Guilherme Naumann. Nele merecem fazer parte do patrimônio funcionou, até 1933, uma loja de da cidade. No entanto, a importância 8 ferragens.É famoso pela beleza de deles não está a nível estadual, mas ,~ .: : ; suas linhas arquitetônicas e pelas municipal. Por isto, o estado qualidades de seus detalhes internos transfere a responsabilidade dos e externos. Já abrigou a sede dos locais para a prefeitura. "O problema serviços telegráficos, afarmácia do é que, pela falta de uma política de professor Jayme Gusmann, uma preservação não exite a consciência faculdade de odontologia, o da manutenção dos traços originais Departamento de Estradas de de Ponta Grossa", declara a Rodagem, a sede dos escoteiros de historiadora Márcia Drop a. O prédio Ponta Grossa e a creche Pureza do Centro de Cultura é um exemplo. Ribas. Está sendo restaurado e Não foi tombado pelo Estado porque ' abriga a Pró-Reitoria de Extensão perdeu várias de suas características e Assuntos Culturais da UEPG. Pro ex -originais- internas e externas. De acordo com Márcia Erguido em 1894, o prédio da Dropa, isto acontece porque a Estação Paraná serviu de local §, . :::! população não tem consciência da de embarque de passagezros ~ necessidade de preservação. Para que faziam o trajeto Ponta "'8 ela, as construções antigas não Grossa - Curitiba. Com a ~ atrapalham em nada o desen- criação de uma nova linha para volvimento urbano da cidade. viagens internacionais, entre "Basta ver a capital paranaense, 1899 e 1900 foi construído o onde a prefeitura incentiva a segundo edi.ficio da estação, que preservação. Os prédios não passou a ser considerada de devem ser preservados apenas por primeira classe. Possui uma seu valor arquitetônico, mas diversidade nos elementos também por seu valor de decorativos e conta com mobiidentidade ou de referência", , . . . em madezra . Casa 1iarios orzgznms conclui. maciça. A partir de 1996, começou a.funcionar no local a Estação Paraná, Fátima Pires e Maria A. Oliveira complexo formado pela Estação Saudade e a Casa da Memória. \'

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Saúde !f

aridade e 1senco ia, não importa a crença No início do século XX, Ponta Grossa ainda não contava com um hospital destinado às pessoas carentes. O atendimento médico era feito em consultórios particulares e só as famílias abastadas tinham acesso. O hospital da Santa Casa de Misericórdia surge por iniciativadaAssociação das Damas de Caridade, fundada em março de 1902. A associação era filiada à Igreja e arrecadava fundos para a assistência médica, fornecendo remédios, roupas e alimentos aos doentes carentes da cidade. Entre 1902 a 1908, dos 297 doentes atendidos por elas, apenas 3 8 morreram. O movimento para a construção da Santa Casa adquiriu amplitude comunitária. A Prefeitura doou o terreno e o Governo do Estado contribuiu com 1O contos de réis. Houve, na época, uma discussão devido ao receio de alguns imigrantes alemães contribuintes, a maioria luteranos, e alguns residentes locais que pertenciam à Maçonaria, quanto ao caráter religioso do hospital. Eles exigiam da comissão que liderava a construção, que houvesse liberdade nesse sentido, sem assumir esta ou aquela religião. Ao entregar o trabalho de conservação a quatro irmãs de caridade e uma superiora, além da

instalação de uma capela em uma das salas, a situação tornou-se mais delicada. Muitos afirmavam que isso deixava claro a ligação com a Igreja Católica. Foi quando emjaneiro de 1913, o Provedor Amantino Antunes de Almeida e outros membros da direção do hospital fundaram a Irmandade da Misericórdia, que além de assegurar rendimentos estáveis com um número considerável de sócios, publicou, em maio de 1913, no jornal O Progresso, que não existia uma religião oficial na Santa Casa Da esmola ao direito reconhecido Aída Mansani Lavalle, professora do Departamento de Métodos e Técnicas da UEPG, realizou um trabalho de pesquisa, não publicado ainda, entitulado "A doença e a morte nos arquivos da Santa Casa de Misericórdia de Ponta Grossa". Segundo a professora, nessa pesquisa de 6 anos, que levantou dados desde o 1o internamento registrado em fevereiro. de 1913 até 1940, um dos pontos que mais despertou sua atenção foi a condição da mulher naquela época. Nos primeiros anos de funcionamentO do hospital, raramente a mulher procurava pelo atendimento médico. Foi no início dos anos 30 que ela começou a conquistar seu espaço na sociedade. Outro fator era que antes da implantação desse hospital e, mesmo no início, as famílias pobres dependiam da caridade das pessoas para

Entrada principal da Santa Casa \

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receber as-sistência mé-dica. "Os pobres do início deste século eram pobres em todos os sentidos, existia muita miséria, as pessoas não tinham noções de higiene e não tinham acesso à informação como se tem hoje. Naquela época, a saúde não fazia parte da política governamental", explica Aí da. Segundo a professora, apesar das deficiências no sistema de saúde pública atual, existe o direito reconhecido que as pessoas podem brigar por ele. Antes, esse direito dependia da sensibilidade de al6'Uns. "Acredito que ninguém pode ser tão pobre como pessoa para depender da caridade de um atendimento médico. É um direito inerente ao ser humano", conclui. Ponta Grossa, além de seus habitantes, recebia uma quantidade razoavelmente grande de viajantes, oriundos de cidades vizinhas e até mesmo de outros estados. Nos livros de registros de atendimentos da Santa Casa, no período de 1913 a 1940, encontra-se um grande número de pessoas infectadas por doenças venéreas. Existiram casos de crianças com sífilis que chegavam em Ponta Grossa em busca de atendimento. Foram encontrados também registros, de forma direta, de raspagem uterina ou curetagem, talvez ligados a abortos, porém, não constam do diagnóstico. Aparecem ainda registros de tifo, não em caráter epidêmico, mas os casos aumentaram bastante nos anos de 1924e 1925,comavindadesoldados governistas no combate à Coluna Prestes. Segundo um relatório do governo do Estado, Ponta Grossa foi considerada em 1925 como um oásis dentro de um Brasil infectado por doenças que exigiam um saneamento especial.

Luciane Justos

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Comunicação

Um século de informação O trágico fim de um "Comunicam-nos de Iraty sob direção immediata do honrado chefe de família. que no dia 14 do andante, na proprietario Alexis Dolsky". A conceituada firma desta ocasião da partida do trem A partir de 2 de janeiro de J. David Hilgemberg & praça, daquella estação, Clemente 1909, a publicação passou a ser Sucofski, que mostrava signaes de trisemanal. Os leitores recebiam os Filhos, fabricante de banha e perturbação mental desparou jornais às terças, quintas e sábados. compradora de suínos em grande inos-pinadamente na bocca uma Não houve grandes transformações escala destacou para jazer uma arma de fogo num momento dado .visuais ou informacionais. Um dos viagem ao municfpio um de seus servia-se del/a contra a própria serviços mais procurados era o de auxiliares, o Sr. Frederico Jensen, moço criterioso, trabalhador e existencia". Os ponta-grossenses classificados. No dia 24 de dezembro de sobejamente conhecido nesta leram esta notícia no jornal O Progresso, do dia 17 de outubro 1912 foi lançada a última edição cidade. Em cumprimento às ordens de 1908. O jornal, fundado em 27 com o nome O Progresso, que recebidas Frederico de abril de 1906, Jensen deixou Ponta pertencia a Jacob Grossa no dia 8 do Holzmann e foi o corrente, com destiprimeiro veículo no a Monjolinhos. de comunicação Emprehendia do município de assim a viagem, Ponta Grossa. cheio de vida e O informaanimado pela estivo era semanal, perança de bons composto por negocias para a quatro páginas. firma que represenAs notícias eram tava. retiradas de teleSabbado, mais gramas enviados ou menos a meia de Curitiba, Rio Daysi Durski, Otkor Hantz e Iádia Beleski, apresentadores do noite, uma noticia de Janeiro, São programa "Gentilezas Caipira" desesperadora veio Paulo e até mesmo do exterior. Sem muita atração passou a ser Diário dos Campos, sacudir a familia Jensen que visual, apenas algumas fotos em 1°. de janeiro de 1913. Com o dormia tranquilamente. O seu publicitárias, o jornal tinha uma slogan "o jornal de mais rápidas honrado chefe se approximava diagramação confusa, linguagem informações no interior do Estado", numa carroça já sem vida. A dolorosa nova circulou rebuscada, trazendo na mesma foi o primeiro jornal diário do Paraná, celere no bairro da Nova Rússia, página e sem qualquer divisão, mas continuou deficiente no que diz matérias policiais, esportivas, respeito à informação, já que um onde o morto residia, accudindo sociais e uma grande quantidade de grande espaço das suas quatro ao local grande número de pessoas páginas era reservado para· amigas eparentes dasfamílias Jensen artigos publicitários. e Hilgemberg. .. " Alguns anunciantes assíduos publicidade. Em janeiro de 1924, o Diário Em. 15 de dezembro de eram a. Alfaiataria Democrata, a dos Campos lançou o que seria a sua Fábrica Camponeza e o Hotel 1924, a primeira página do Diário Dolsky, com a seguinte campanha: dos Campos trazia, junto com última edição e só voltou a circular no "O Hotel Dolsky em Corityba notas de falecimento, poesias e dia 1°. deabrilde 1956, comum caráter oferece as commodidades para as classificados, uma matéria policial mais informativo e político. Trazia notícias sobre o presidente da República Exmas famílias e Snrs viajantes e no mínimo curiosa: e acon-tecimentos mundiais. Algumas "Assassinato ou suicídio? pessoas de tratamento achando-se \

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Comunicação

Uma história de amor pelo rádio

manchetes chamaram a atenção dos leitores pela seriedade: "Peron põe em execução recursos para perturbar a ordem pública argentina", 23/12/56, "Asforças da ONU chegam a teJTa de Ninguém", 22/11/56, "Budapest isoladadorestodomundd', 13/12/56. Outros jornais contribuíram na história do jornalismo em Ponta Grossa, como o Jornal do Paraná, fundado em 21 de agosto de 1945, oJornaldaManhã, em 4 de julho de 1954, e A Noticia, que circulou de 1a. de agosto de 1978 até 31 de dezembro de 1982.

Rádio também fez história "No ar a PRJ2, Rádio Clube Pontagrossense, a capitania da rede Paranaense de Emissoras". Assim iniciava a programação da primeira rádio de Ponta Grossa, segunda do Paraná e a quarta do Brasil. Criada no dia 21 de janeiro de 1940 pelos pioneiros da radiofonia do Paraná, Abilio Holzmann e Manoel Machuca, com o objetivo de promover a integração regional. Há 58 anos a Rádio Clube Pontagrossense oferece aos seus ouvintes uma programação diversificada com programas musicais, esportivos e jornalísticos transmitidos da cidade para mais de vinte localidades. "A rádio teve uma \'

ótima receptividade desde sua fundação", garante Nilson de Oliveira, uma das principais personalidades do rádio em Ponta Grossa. "No início, quando eram poucas as pessoas que possuíam receptores próprios, auto-falantes eram instalados na Rua XV de Novembro para que o público pudesse ter acesso à programação", conta saudosista Milton Xavier· de Araújo, 62 anos, atualmente programador da Rádio Clube e o radialista mais antigo em atividade no Paraná. O programa mais característico é o Grande Jornal Falado. No ar desde sua fundação, era uma das programações que fazia os pedestres pararem na Rua XV para prestar a atenção nas notícias. "São 48 anos no ar", comemora Milton. Outra base forte da emissora são os programas esportivos que chegaram a transmitir, ao vivo, campeonatos nacionais e internacionais como a Copa do Mundo nos Estados Unidos. A "Ave Maria", apresentada às 18 horas, e a "Alvorada Informativa'', há mais de 30 anos no ar, são também programas de grande audiência.

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VivianeDurski, 80 anos. Uma das mais importantes atrizes do rádio em Ponta Grossa, fala com orgulho da sua vida ao lado do veículo ao qual dedicou 36 anos de trabalho entre rádio-teatro, rádio-novela, produção e locução de programas. "Tudo começou quando eu tinha 16 anos. Fiz um teste de locução, passei e logo fui trabalhar no rádio-teatro. Era tudo muito dificil pela falta de estrutura, mas nós trabalhávamos por idealismo, por gostar mesmo", desabafa Viviane. A atriz, que atuou na lendária novela O Direito de Nascer, conta com invejável bom humor as gafes, equívocos e falhas que ocorriam nos bastidores do rádio. Uma das dificuldades encontradas para se produzir um programa estava relacionada à sonoplastia. "Uma vez precisávamos do som de um gato miando, então uma das atrizes levou ao estúdio um bichano que emitia o tal som, bastando, para isto, um leve apertão. Na hora H, o gato recusouse a cooperar e a própria atriz teve de fazer o "miau". F oi um desastre", relembra Durski. Os programas de rádio em sua fase inicial eram praticamente artesanais. Transmitidos ao vivo, exigiam dos atores muita disciplina e talento. Mas o esforço era compensado pela audiência, que atingia quase 1000/o. Com relação ao rádio de hoje, Viviane demonstra profunda decepção. Segundo ela, os programas estão muito despreocupados, limitados aos diálogos com o ouvinte. "Antes o rádio era mais criativo. Havia a preocupação de se fazer programas diferentes para o público. Até as músicas tinham letras mais expressivas e bonitas", finaliza a

atriz.

Ana Paula de Souza e Silmara Juliana de Oliveira

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Artes

Até oito anos atrás, não havia em Ponta Grossa nenhuma entidade que cadastrasse e organizasse os artistas plásticos. Criou-se então, na gestão do exprefeito Pedro Wosgrau, em 1990, dentro da Secretaria Municipal da Cultura, o Setor de Artes Plásticas, que iniciou um trabalho de cadastramento de pintores, escultores, desenhistas, grafiteiros e chargistas. Neste período, foram registrados 180 artistas, muitos dos quais premiados nacional e internacionalmente, como Almir Correia, vencedor do Festival do Minuto (concurso de vídeos com duração de um minuto, realizado anualmente em São Paulo) com um trabalho de vídeo arte. No ano de 1995, artistas ponta-grossenses organizaram-se e formaram a Associação dos Artistas Plásticos Contemporâneos de Ponta Grossa, com a intenção de valorizar profissionalmente a arte. Ainda em 95, vários outros tipos de manifestações artísticas foram integradas, como música, dança, teatro etc. A definição atual, mais abrangente, é de Associação Pontagrossense de Arte Contemporânea. Atualmente, o presidente da Associação, Emerson Carneiro, luta para que se cronstrua uma nova visão cultural na cidade, pois o que predomina é uma "visão negra, onde não se forma consumidores de arte, mas os desestimula". A solução para este problema poderia sair do próprio meio artístico, já que há na cidade mais de 500 artistas, dos quais pelo menos 1O% podem dar oficinas.

Eles seriam enviados a Curitiba para fazer cursos de aperfeiçoamento, que pagariam ministrando oficinas aqui em Ponta Grossa. Assim como acontece em projetos esportivos, a arte também poderia ser encarada como um instrumento para reabilitação social, democratizando e ensinando a consumir cultura. Mas falta apoio político. "Não sei se as pessoas não têm idéias ou não têm vontade de fazer", ressalta Emerson. Para aumentar a área de exposições e ateliês, foi inaugu- harmônicas de sentimentos que rada, em setembro de 1996, a transformam-se em paisagens, em Estação Arte. Ângela Pilatti, Chefe tonalidades emocionais que do Setor de Artes Plásticas, diz que despertam as mais variadas sensaa Estação é um espaço de ções. " Assim é a sensação de quem exposição e criação. Todos os observa a arte contemporânea de artistas cadastrados têm o direito cunho abstrato, esta que lida com de expor suas obras na gal~ria da sentimentos e emoções", considera o artista plástico Celso Pereira. Estação durante um mês. Celso começou a lidar com Ainda entre os espaços públicos, há o Centro de Cultura, artes há sete anos atrás, por conta mantido pela prefeitura e pela Pró- própria. Aprendeu a exteriorizar seus Reitoria de Extensão da sentimentos através de pinturas, na Universidade Estadual de Ponta maioria abstratas. Com sensibilidade Grossa. Os espaços particulares, e inspiração desenvolveu várias como o Banco do Brasil e a Caixa obras, aperfeiçoando cada vez mais Econômica Federal têm uma agenda sua técnica que demostrava em própria e cobram do artista 1O% do trabalhos feitos com tinta a óleo ou valor de cada obra vendida durante pigmentos naturais, material a exposição. Já a Agência Central orgânico, areia, pedra, cerâmica e dos Correios cede espaço aos artistas· papel machê. em troca de uma obra, organizando No ano de 1990, Celso e mais quinzenalmente as exposições. cinco artistas plásticos ( Carlos Ribeiro, Haroldo Manosso Filho, Sensibilidade Leonardo Oberg, Stephen Watkins Com muita criatividade e e Antônio Nildo Silva) juntaram-se imaginação, a alma sensível que e formaram o Grupo Sem Critério. habita o corpo do artista consegue Celso diz que a idéia era trabalhar ilustrar cadências melodiosas e com várias manifestações artísticas.

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Artes

Retratos de tranqüilidade

Haroldo Manosso e Celso Pereira permaneceram no Grupo e, a partir de 1996, começaram a trabalhar em parceria, produzindo um vídeo arte - em conjunto com o poeta Beto Carlinhos e a cineasta Silvana Carona- no fmal do mesmo ano. Tendo a finalidade de mostrar a importância de alguns prédios - que antes faziam parte da paisagem ponta-grossense como simples construções do ano de 1930- e que agora, patrimônios históricos tombados, servem também de espaço para exposições e divulgação da arte produzida na cidade, afirma Celso. "Até um tempo atrás não havia tanto espaço para exposições e a· receptividade não era a esperada, mas com o passar do tempo as pessoas vêm se habituando a ir às exposições, a observar obras e a freqüentar ambientes do meio artístico em geral", comenta. No entanto, ele complementa que a arte figurativa, como natureza morta e paisagens, tem maior aceitação. \

O ponta-grossense Horst Schenepper consegue realizar a façanha de viver da arte. Horst define-se como um artista acadêmico-paisagista e, mesmo tendo desenvolvido e aperfeiçoado sua pintura ao longo dos anos, segue o mesmo estilo. "Em Ponta Grossa há lugar para mais artistas, basta perseverar e conquistar seu espaço", aftrma ele, com a convicção de quem passou quase 50 anos pintando na cidade. Mas, segundo avalia, ainda falta algo de muito importante: o intercâmbio de artistas. "Trazer exposições de artistas de fora para cá e levar os nossos para expor em outras cidades é a melhor forma de despertar o gosto dos pontagrossenses por arte e divulgar os artistas locais". Até mesmo Femando Henrique Cardoso e JaimeLemerpossuem obras de Horst Schnepper. E que todas as autoridades que visitam Ponta Grossa são presenteadas, pela prefeitura, com obras do artista. Dos trabalhos que realiza, 30% são levados para outros países, seja através de turistas ou de ex-moradores que visitam a cidade. Horst Schnepper, reconhecido e homenageado, pode ser considerado a representação viva da pintura em telas emPontaGrossa. Começou cedo, aos oito anos de idade. Trocou as brincadeiras de criança pela arte, e com ela fez sua vida...

A força dos Sentidos na Criação A criatividade de um artista está diretamente ligada à sua liberdade. Por isso, em 1874 artistas franceses revolucionaram o modo de pensar a arte: nascia o Impressionismo. A partir do surgimento desta vertente, os artistas abandonaram os ateliês e pasaram a trabalhar ao ar livre. Mesmo assim, até hoje as pessoas ainda não aprenderam a observar e compreender a pintura impressionista. Um retrato deste pensamento pode ser visto em Ponta Grossa, pois o artista Plácido Fagundes, um dos mais

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premiados da região, vende seus trabalhos mais fora do que na cidade. Ele diz que as pessoas preferem quadros acadêmicos (figurativos), que possuem traços definidos e semelhantes àfotografia, a quadros impresionistas, estes muito mais ligados à emoção. O reconhecimento maior vem por parte da critica. Prova disso é que inúmeras de suas telas foram apontadas como grande expressão do Impressionismo. Além dos oitos prêmios obtidos no Salão Copel de Artes Plásticas, do primeiro lugar no concurso de logomarca do Sistema Metereológico do Paraná, Plácido elaborou diversos cartazes e capas de livros. O nome do artista está presente nas principais galerias de Ponta Grossa, Curitiba, Morretes e São Paulo. Além de impressionista, Plácido também é considerado expressionista. Seu lado expressionista pode ser comprovado pelo painel "A Restauração da terra começa com a alma do homem", pintado no ano de 1992. Desde 1980, quando começou a pintar, em Morretes, já produziu mais de 500 obras. Para ele, a mais importante é a tela " Efeito do Inverno", na vertente impressionista. Com o movimento de um lutador de esgrima, abusando da quantidade de tintas e da força de suas cores, o artista ambientaliza-se e começa a criar tonalidades que expressam emoções codificadas em imagens retorcidas pelo movimentos dos sentidos. Para gerar todo esse universo, o artista busca ambientes como paisagens de inverno, queimadas e edificações antigas. Plácido conta que em uma de suas expedições, quando pintavauma casa que seria demolida, conseguiu intervir na situação. A proprietária resolveu restaurá-la depois de vê-la pintada. Rosselane Giordani e Débora Lopez

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Artes 111

SI Estrangeiros do velho mundo, principalmente os russosalemães, influenciaram de várias formas a cidade de Ponta Grossa. Na música, a influência soou durante muitos anos. Em 1874, surge a Banda de "Seu Camargo", o primeiro movimento artístico da cidade, liderado pelo tabelião Joaquim José de Camargo. Com a morte do líder, em 1878, a banda é desmembrada. Mais tarde, o filho de Camargo reativa o grupo. Ao mesmo tempo, um ex-integrante da banda, José Vieira de Godoy, cria a filarmônica "Lyra dos Campos". Resultado: rivalidade entre as duas bandas. Outros grupos musicais foram criados e desfeitos, sempre num clima de rivalidade. Mas o Lyra dos Campos foi uma das filarmônicas que resistiu, e resistiu com bravura. Hoje, com 48 músicos e ainda enfrentando problemas, a Lyra continua a colecionar prêmios. Ganhou por duas vezes o Concurso Nacional de Bandas e, num festival realizado em Tibagi, é tetracampeã. Mantida pela prefeitura, tem um repertório de 400 músicas. Além das bandas filarmônicas, Ponta Grossa também abriu espaço para os corais, que permanecem até hoje. Eles estão por todas as partes, na maioria das escolas públicas e privadas e em várias associações. A Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), por exemplo, conta com quatro corais (infanto-juvenil, gru-po

juvenil, o 0 ç.l.., coral de ê3 adultos e o iZ ·s coral dos~ acadêmicos) .S abertos à~ comunidade. Uma vez por ano, no mês de julho, os corais acontece O EnTrinta músicas concorreram no último FUC contra de Corais Adultos. Em outubro, é a festival como o FUC não deixa vez das crianças e adolescentes, no de ser um incentivo, masestá Encontro de Corais Infanto- faltando estrutura e qualidade Juvenis. A Cantata de Natal sonora. Na avaliação dele, o também é famosa. Na do ano Festival deve ser repensado, para passado, no parque ambieltal da ficar melhor. Segundo comenta, cidade, 250 crianças se apresen- "para ser bom músico é preciso taram para um público de 4.500 ter simplicidade, porque a música é simples. Para ser instrumentista, pessoas. é importante ter o domínio da Menestréis "Somos os faunos, os me- técnica a tal ponto que não nestréis, nas ruas, bares, bordéis, precise lembrar mais dela." Falta incentivo meio crianças e marginais, queruO FUC é aberto a todos os bins e elementais. Somos sim bruxos, os magos do som pelo gêneros musicais. A cada edição, ar". Este é o refrão da música perto de 150 músicas são inscriMenestréis, de Cláudo Chaves, tas. Este ano, 30 foram selecioque exalta a própria música e o nadas e participaram do festival. artista. Foi a vencedora do O coordenador do evento, GilFestival Universitário da Canção berto Zardo, admite que as (FUC/9 5), promovido pela críticas de Cláudio Chaves e de UEPG. Chaves é o compositor outros músicos são procedentes. ponta-grossense mais premiado. Ele diz que, se falta incentivos, é Dos 40 festivas que participou porque falta organização e profisno Brasil, faturou oito primeiros sionalismo por parte dos órgãos lugares. Só no FUC, venceu três que administram a cultura. vezes. Para Cláudio Chaves, que Lilian Juliana tem 80 músicas compostas, um

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Artes

r I O início parecia promissor ... Já em 1880, na cidade de Ponta Grossa, existiam alguns grupos amadores de teatro que encenavam dramas e comédias. As apresentações aconteciam em salas particulares ou em galpões que também serviam para bailes carnavalescos. Um tempo depois foi construído o teatro Sant' ana, que rui com um vendaval em 1882, sendo reconstruído somente em 1887. Hoje, mais de um século depois, há apenas um teatro na cidade e um monte de -velhos - problemas. Um deles é a falta de apoio. Para Cirilo Barbisan, diretor de teatro, talvez com as novas leis de incentivo à cultura as empresas passem a apoiar as produções locais e "tornem gosto pela coisa". Outro agravante é a ausência de profissionais e de profissionalismo. Cirilo diz que em um grupo de sete atores, dois, no máximo, têm formação teatral ou longa experiência profissional. A

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maior parte da equipe é composta por pessoas que não dispõem de tempo integral para a arte. A participação de Ponta Grossa no Fenata (Festival Nacional de Teatro Amador, promovido pela UEPG) comprova todas as teses da falta de profissionais mencionadas por diretores de teatro da cidade. Geralmente, quem participa é o Grupo de Teatro Universitário (GTU), considerado fraco se comparado com os de fora. Não há outras equipes com estrutura para montar urna peça que atenda aos requisitos mínimos exigidos por um festival nacional. Um terceiro problema que ajuda a manter o teatro pontagrossense no fundo do poço: a arte não faz parte do cotidiano da maioria da sociedade. No Festival Nacional de Teatro Amador, por exemplo, o público é fonnado basicamente por estudantes universitários. Mas o número de

O Auto da Compadecida, peça montada pelo Grupo Maracatú I'

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n espectadores poderia ser bem maior, diz Gilberto Zardo, chefe da Divisão de Cultura da UEPG. "É preciso trabalhar muito o público, as pessoas preferem ficar em casa, talvez pelo clima gelado da cidade durante a maior parte do ano", diz Zardo. Alternativas Apesar dos problemas, há esforços isolados em prol do teatro.É o caso do grupo Ação Teatro de Ponta Grossa, que surgiu há 22 anos e investe na formação de platéias. O principal objetivo é atrair um público que nunca foi ao teatro e torná-lo crítico e constante. A idéia parece complicada mas, na prática, mostra que envolver as crianças não é tarefa impossível. Antes de assistir a uma das peças , os alunos recebem informações sobre o o projeto do Ação, resumo sobre o autor e a peça encenada, opiniões de críticos, textos a respeito das dificuldades na montagem do espetáculo, dicas sobre o que observar no espetáculo e sugestões para trabalhos depois da apresentação. Os alunos também encenam trechos da peça em sala de aula para saber como é estar em um palco. Com isto, os organizadores do projeto esperam "despertar a cufiosidade do aluno, que pode analisar criticamente o que foi trabalhado antes da peça e a maneira que foi desenvolvida a encenação", conta Cirilo Barbisan, diretor do projeto.

Lilian Juliana Kuwano

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Artes A história do cinema em Ponta Grossa começa em 1906 com a inauguração do Cine-teatro Recreio, que reunia tanto as apresentações de teatro quanto as projeções de filmes, como a maioria das casas de espetáculos da época. Em 1911 acontece a inauguração daquela que foi considerada, até a década de cinquenta, a casa de espetáculo mais freqüentada da cidade, chegando a exibir 297 películas só em 1940. O Recreio também entrou para a história por ter sido - em 1931 - o primeiro cinema sonoro do Paraná e ter possibilitando uma cultura de vanguarda em Ponta Grossa. A programação dos cine-teatros nas décadas de 20, 30, 40 foi intensa, e a participação do público bastante expressiVa. O rumo desta história começa a mudar em 1967, quando a empresa catarinense Arco Íris compra, de Jorge Azuz, três salas de cinema: o Cine Império, considerado um dos mais antigos da cidade; o Ópera, que funcionou até 1997; e o Inajá, o único que conseguiu sobreviver e que continua a pertencer ao grupo Arco Íris.

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Movido a carvão

Desde que foi inaugurado, em 1966, o Inajá não teve seus equipamentos substituídos, ou seja, a qualidade de som e imagem continua a mesma há 32 anos. O Inajá possui uma tela, um aparelho de som (amplificador), dois projetores movidos a carvão e 1200 cadeiras e exibe filmes da Fax, Columbia, Vip e da W arner. Entretanto, os lançamentos não acompanham as estréias nacionais, pois os filmes demoram a chegar d~vido ao pequeno número de cópias que a Arco Iris recebe. Se a distribuidora possui poucas cópias, manda direto para as salas dos grandes centros. A quantidade de filmes depende do público. Se o filme tiver boa repercussão, fica até um mês em cartaz, como já aconteceu com Ghost e Parque dos Dinossauros. Mas em geral a programação muda semanalmente. Entretanto, não existe um levantamento da média de público por mês. Estes são alguns fatores que acabam prejudicando o funcionamento do cmema na cidade e, consequentemente, empurram os ponta30

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grossenses para Curitiba, onde encontram melhor qualidade e maiores opções. Para afastar o ponta-grossense do cinema, ainda existe um aumento no número de locadoras da cidade, que, segundo uma pesquisq realizada por estudantes de Jornalismo, em 1996, passou de quatro para 100, num prazo de apenas dez anos. Uma outra pesquisa, também de 1996, mostrou que 40% das pessoas entrevistadas preferem as fitas de vídeo, contra 15% que priorizam ir ao cinema. Um importante fator faz a diferença: além do enorme número de opções que as locadoras oferecem - uma das pioneiras da cidade possui um acervo de 15 mil fitas para mais de 10 mil associados-, o prazo para que um lançamento chegue nas pratileiras é de, no máximo, 6 meses. Apesar disso, ainda resta uma esperança, pois cresce a expectativa diante da possibilidade da construção de um shopping center em Ponta Grossa, cujos inverstidores prometem reservar um espaço para três salas de cinema. O problema é que a inauguração do tal shopping está prevista para o ano que yem. Será que o último representante da sétima arte em Ponta Grossa, o Cine Inajá, resistirá há esses nove meses de gestação?

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Aniela Gisleine de Almeida


Artes

A literatura ponta-grossense é rica em conteúdo e diversidade. São poetas, escritores, contistas, estudiosos de literartura e artes, trovadores e cronistas. Quase todos já publicaram obras em meios renomados, e a maioria já conquistou grandes prêmios. Alguns se destacaram até no exterior. É o caso da escritora Leonilda Hilgemberg Justus. Ela pertence a 55 entidades culturais brasileiras e a 7 do exterior, tem trabalhos publicados e traduzidos para o inglês, francês e coreano. Mesmo assim, é ironicamen-

coluna literária Hipocrene, que sai no Jornal da Manhã. Eno Teodoro Wanke, poeta, pesquisador, biógrafo e ensaísta literário, é outro artista de destaque nacional. É parte ativa do movimento literário em torno da Trova (Trovismo ), do qual é historiador e um dos principais teóricos. É também presidente da Federação Brasileira de Entidades Trovistas, a Febet. Outros grandes nomes da literatura ponta-grossense são Sonia Maria Ditzel Martelo e Amália Max. A primeira recebeu - em 1986 -o diploma "Amigo da Cultura", outorgado pelo Conselho Editorial da Revista Brasília; ganhou (em 1993) o primeiro lugar no concurso Canto de Amor à Terra Natal, da Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro; e a Comenda JK do Mérito Feminino Ordem Internacional das Ciências, das Artes, das Letras e da Cultura, em Brasília, também em 1993. A se-

te desconhecida por grande parte da população da cidade. Entre os livros que publicou, merecem destaque "Versos para Você", de 1981, "Naquelas Horas ... ", de 1986 e "Ponte Terra Infinito", de 1988. Leonilda é responsável pela

deixar de falar dos que aqui deixaram contribuições significativas para a literatura. Um exemplo é o professor Paris Michaele, falecido em 1977, que fez poesias em inglês, francês, latim e tupi-guarani. Deu aulas e publicou um livro didático de nhengatu, o tupi-moderno. Atualmente existe uma biblioteca e um Centro de Cultura com o seu nome. Ribas Silveira, também já falecido, deixou 11 obras, dentre elas, a Terra dos Pinheirais e Poemas Paranistas, publicados em 1943. Além dos literários pontagrossenses de nascimento, há aqueles adotados pela cidade. O Centro Cultural Prof. Paris Michaele reuniu há dois anos grandes nomes na "Antologia de Prosadores e Poetas Pontagrossenses", que traz as melhores obras produzidas em Ponta Grossa. Citando alguns: Adilson Reis dos Santos, com os poemas "O Passara e o Poeta", "Canto ao Colibri", "Agenda" e "No Espelho"; Anita

gunda, Amália Max, tem trabalhos em contos e trovas que podem ser encontrados em algumas antologias e coletâneas, como Gente Nossa- Haikais, Mulher Poesia Hoje, Anuário dos Poetas do Brasil e Encontro 5.

Thomaz Folmann, com "Trovas"; Augusto Canto Junior, com "Reminiscências" e "Dr. Francisco Burzio"; Reinaldo Carneiro, com "Verdade e Mentira", "Inocência" e o "Verbo no Tempo".

Resgatando a memória literária de Ponta Grossa não se pode

Débora Dias e Eberlê Moreira

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Esporte

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A trajetória de Mair Facci confunde-se com a própria história do basquete de Ponta Grossa, que ele ajudou a projetar nacionalmente.

Facci sempre foi um armador ágil

A década de 1950 é um marco esportivo em Ponta Grossa. O basquete, que já vem de resultados expressivos no Estado, começa a ampliar seus horizontes e tentar um reconhecimento maior. Para isso, era necessário manter a base vitoriosa e reforçá-la com talentos de fora que, mais do que tudo, servissem de espelho para os "pratas da casa". Assim pensavam os senhores João Ricardo Boreal du Verneau e Irineu Santos, homens apaixonados pelo esporte e responsáveis pelo time. Um desses jovens talentos, Mair Facci, veio de Catanduva, estado de São Pau,lo. Contava 23

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anos e chegou a Ponta Grossa em 1950, mesma época em que Barros Júnior, jogador contratado junto à cidade de São José dos Campos, se apresentava à equipe. Armador ágil e inteligente, não precisou de muito tempo para se fixar como titular, cestinha do time e, já no ano seguinte, levar Ponta Grossa a um vice-campeonato nos Jogos Abertos do Interior de São Paulo, em que participava como convidada. Ainda em 51, a cidade foi a base da seleção paranaense que disputou o Brasileiro de Seleções, em Santa Catarina, e ficou com o terceiro lugar, firmando-se como mais uma força do basquete

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nacional. Tantos resultados expressivos renderam a ele, Mair Facci, sua primeira oonvocação para a seleção brasileira, que iria disputar o Sul-americano de Novos de Mendoza, na Argentina, e sagrar-se campeã. De volta a Ponta Grossa e saudado pela torcida local, Mair sabia que o trabalho estava apenas começando. Dentro de campo transmitia segurança e a precoce experiência que adquiria para os companheiros de time, entre eles Barrinhos, Monta, Azar, Zanetti, Durval, Schaia e Elias. Não demorou para que, em 1.952, viesse a consagração ·através d~ conquista do Torneio Interclubes


Esporte de Poços de Caldas, que contoucom as principais equipes nacionais da época. O título serviu para consolidar a cidade, mais do que nunca, como grande força do cenário brasileiro. Mas 52 era o ano das Olimpíadas de Helsinque. Preocupada em contar com o suprasumo do basquete brasileiro no evento, a comissão técnica préconvocou 48 jogadores para as chamadas seletivas. Destes, apenas, 12 iriam à Finlândia. Contando com o apoio de jogadores mais experientes, que inclusive haviam conquistado a medalha de bronze na Olimpíada anterior, Mair consegue não só uma vaga entre os seleciondos, mas entre os titulares que voltariam ao Brasil com o 6° lugar na bagagem. Mais uma vez, Mair é aclamado na volta a Ponta Grossa. No ano seguinte, o "Gato" (como era conhecido graças a uma agilidade que o permitia, com 1,81m, enterrar a bola na cesta com as duas mãos) consegue trazer o título do Sul-americano do Uruguai, com o Brasil, e ainda faturar uma medalha de ouro como o jogador mais eficiente em todos os setores. Enquanto isso, em Ponta Grossa, os companheiros de time eram servidos de bandeja pela sua mão certeira e, assim, continuavam a trazer bons resultados para a cidade. No Campeonato Mundial de Seleções, no Rio de Janeiro, o ano de 1.954 marca a inauguração do ginásio do Maracanãzinho. Com uma campanha regular e jogos dramáticos, decididos nos últimos segundos, o Brasil chegava à reta :finalpara enfrentar os norte-americanos. A seleção que contava com os lendários Bill Russel, de 2,14m, e Chamberlain, 2, 16m, que figuram entre os dez melhores jogadores de todos os tempos

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trajetória A carreira de Mair Facci na seleção brasileira terminou em 1.957, após sua participação nas Olimpíadas de Melbourne, Austrália, um ano antes, oportunidade em que o Brasil ficou em 5° lugar. Sem suporte financeiro para continuar vestindo a camisa que mais amava, já que, na época, recebia apenas uma ajuda de custo, o ''Gangster'' (apelido que ganhou graças à sua aparência, que lembra os mafiosos italianos) resolve abandoná-la e cuidar da esposa e dos três filhos. Em Ponta Um veterano nas quadras Grossa, Mairtrabalhava na prefeiture continuava jogando no time da cidade, que o título dos Jogos Abertos de conseguia seus últimos resultados Arapongas, ao lado de seus já expressivos nacionalmente e sucessores. Terminar a carreira continuava mantendo a hegemonia no profissional não foi tão dificil quanto o dia em que Mair parar de jogar Paraná. Em 1.960, resolve partir para basquete. Aos 71 anos, ele é um dos umanovaexperiência Aceitao convite poucos representantes pontada cidade de Santa Maria, no Rio grossenses nos campeonatos nacionais Grande do Sul, e atuando como técnico de veteranos que se realizam e jogador conquista o tricampeonato anualmente pelo Brasil. Eventos que, gaúcho e deixa montada a base de um paraMair, significam muito mais do time que ainda viria a ter proje- que a chance de vencer, mas a ção nacional. Cinco anos mais possibilidade de rever os amigos e as tarde e de volta a Ponta Grossa, o jornadas que fizeram a história do "Gangster" resolveu terminar a basquete brasileiro;....--,--..,..,.~=--Arnaldo Hase carreira na equipe que o projetou com

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Nuntiare - 1ª Edição (1998)  

Ano I, Nº 1 - junho de 1998 Nos trilhos da história

Nuntiare - 1ª Edição (1998)  

Ano I, Nº 1 - junho de 1998 Nos trilhos da história

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