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INTRODUÇÃO Por: Pedro Henrique Elias

O futebol é imprevisível. Às vezes, é irracional. Porém, acima de tudo, é apaixonante. Muito além das quatro linhas, o esporte mais popular do planeta envolve determinação, sonhos, sacrifícios e planejamento. É tradição passada de geração para geração, um movimento repleto de histórias que esperam a chance de serem contadas, ouvidas, lidas, escritas. Nesta grande reportagem, quatro grandes conquistas recentes de clubes do Vale do Paraíba e região Bragantina serão abordadas. Cada história com suas peculiaridades, acasos, alguns até acreditam em sorte. Declarações de pessoas diretamente envolvidas nessas conquistas, revelações inéditas e curiosidades de bastidores. O leitor irá imergir no cenário e conhecer com mais detalhes os motivos de conquistas que ficaram e ficarão marcadas para sempre na linha do tempo desses clubes. 2009: o épico acesso do Esporte Clube Taubaté, quando o clube amargava a quarta divisão do Campeonato Paulista e corria o risco de fechar as portas. Gilsinho, herói do time, não sabia que seu gol foi o que sacramentou o acesso do time. 2017: a versão do primeiro título da história da Academia Desportiva Manthiqueira, no Campeonato Paulista da Segunda Divisão. Os jogadores não recebiam salários, apenas a exposição de jogarem o campeonato. Além disso, há uma cartilha no clube com regras que regem o dia a dia. Uma delas é "malandragem proibida". Bacana, não? Abril de 2018: será contada a história do primeiro título do Sport Club Atibaia, o Campeonato Paulista da Série A3. Um clube emergente, que vem conquistando cada vez mais espaço no estado e tem um projeto ambicioso. A equipe não possui estádio, e sempre joga fora da cidade, mesmo quando é mandante. Agosto de 2018: o acesso da Série C à Série B do Campeonato Brasileiro do Clube Atlético Bragantino. Segundo Marcelo Veiga, treinador que mais vezes comandou o Braga na história do clube, aquela foi a maior emoção que ele já sentiu na sua vida futebolística. O intuito desta grande reportagem é mostrar que, atualmente, a tradição pode até vencer alguns jogos, mas não campeonatos. Se não houver planejamento, de nada adiantará o peso da camisa. Em um mundo cada vez mais dinâmico, o futebol não perde tempo, e os clubes têm de correr para não amargarem o obsoletismo.


2009

O ANO EM QUE O BURRO SE RECUSOU A EMPACAR Por: Pedro Henrique Elias Fundado no dia 1 de novembro de 1914, o Taubaté, um dos clubes mais tradicionais do Vale do Paraíba, esteve perto de fechar as portas alguns anos atrás. Em 2008, o Burro da Central (apelido do time) acabou rebaixado à quarta divisão do Campeonato Paulista, nível mais baixo em que um clube profissional pode chegar no estado de São Paulo. Era o fundo do poço. Sem grande perspectiva, com dívidas muito maiores do que qualquer receita podia dar ao clube naquela situação e sem esperança de dias melhores, o Taubaté disputou a Segundona (como a quarta divisão é conhecida) em 2009, pela primeira vez em sua história. Muitos acreditam que se o acesso não viesse naquela temporada, seria o fim do Taubaté. Porém, o Burro foi à frente e, de maneira épica, conquistou o acesso à Série A3. Histórias vencedoras requerem sempre um herói. Ou heróis. Foi exatamente assim, com a força de muita gente, que o Taubaté mostrou que o impossível era apenas mais uma palavra no dicionário. Apesar da força da união, um nome se destaca nesta história: Gilsinho. Considerado por muitos o maior ídolo da história do Taubaté, o então atacante na época escolheu sair da primeira divisão nacional da China, com uma vida estabilizada e situação financeira infinitamente superior, para a quarta divisão de São Paulo. Ele sabe que foi considerado louco, mas o coração taubateano falou mais alto naquele momento. Em entrevista ao Globoesporte.com, em matéria publicada no dia 14 de dezembro de 2018, Gilsinho explicou como foi tomar aquela decisão. - Foi um ano muito marcante por ter aceitado o desafio de vir jogar no Taubaté numa quarta divisão, deixando propostas melhores. Muitos amigos e familiares me consideraram um maluco de estar aceitando este desafio, mas eu sempre falava para eles que eu só saberia se eu tinha tomado a decisão certa ou errada se

no final desse tudo certo. E a gente conseguiu esse nosso objetivo e, graças a Deus, com muito trabalho e dedicação, no final o resultado veio.

Gilsinho (Crédito: Danilo Sardinha)

Além de todos os problemas, havia, ainda, a desconfiança da torcida. Abalada pelo caos do ano anterior, os torcedores do Burro da Central iniciaram a temporada receosos. Caíque Toledo, hoje com 26 anos e assessor de imprensa do clube, assistiu todos os jogos do Taubaté em 2009 no Joaquinzão, estádio do time. É um cenário de fundo do poço total terra arrasada

Quarta divisão é um negócio que a gente torcedor brinca que não desejaria nem pro rival

é uma situação muito complicada O time veio de dois rebaixamentos seguidos e caiu pra quarta divisão Foi uma situação muito complicada A primeira partida foi diante do Jacareí. O resultado? 1 a 0 para o rival. Apesar da derrota, o time se recuperou na competição, terminando a primeira fase no segundo lugar, com 23 pontos. Na segunda e terceira fase, o Burro da Central novamente obteve sucesso, classificandose, assim, para a quarta e decisiva fase da competição. Naquela altura do campeonato, oito equipes foram divididas em dois grupos. Os dois primeiros colocados de cada chave

conquistavam o acesso. Os times se enfrentavam duas vezes, em jogos em casa e fora, totalizando seis partidas. O Taubaté dividia o Grupo 16, ao lado de Palestra de São Bernardo, Desportivo Brasil e Red Bull Brasil. O bom momento vivido pelo Burro da Central no campeonato deu lugar a um cenário de caos e melancolia. Após quatro rodadas, a equipe somou apenas dois p onto s , v i n ha d e du as d e r rot as consecutivas e Vilson Taddei não era mais treinador do time. Restavam apenas mais duas rodadas, e o acesso já estava praticamente descartado. Naquele momento, surgiu o nome de Paulo César dos Santos, o PC Santos. O exjogador do Taubaté foi contratado para comandar a equipe nas duas últimas rodadas, num clima de terra arrasada. Quando cheguei a direção já tinha abandonado não acreditava mais O grupo de jogadores também já não acreditava mais Durante a semana a gente foi colocando na cabeça dos jogadores que ainda dava tinha um jogo na sexta feira era Palestra x Red Bull que a gente dependia desse resultado O resultado foi de acordo com o que a gente precisava e aí os jogadores se entusiasmaram fizemos um jogo em Porto Feliz muito bom e aí nos deu a condição de brigarmos pelo acesso

PC Santos Crédito Autor

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2009: O ANO EM QUE O BURRO SE RECUSOU A EMPACAR

Após a vitória em sua primeira partida, PC Santos colocou o Taubaté de volta à briga pelo acesso. A última partida seria diante do Palestra de São Bernardo. O time precisava vencer, torcer por uma derrota do Desportivo Brasil e ainda ultrapassar o rival em saldo de gols, que jogaria contra o Red Bull. A expectativa era enorme. Acordei muito confiante A gente sente que tem dia que você está mais ligado Eu acordei muito ligado Senti o grupo todo muito focado Então eu senti uma energia positiva de todo o grupo A gente estava muito confiante sabendo que tínhamos total condição de reverter a situação Tínhamos na cidade também essa esperança essa energia A gente foi muito preparado para a partida - disse Gilsinho. Aliado à última vitória era ir para o estádio e ficar até o final acreditando que ia dar A gente não tinha certeza que o clube iria continuar de portas abertas se não conseguisse subir Estava um medo muito grande de não conseguir e fechar as portas disse Caíque. O jogo era tenso. Valia demais para o Taubaté, por toda sua história e tradição no cenário estadual. Apesar de todo apoio da torcida, o primeiro gol foi do Palestra. Você fica martelando martelando e aos 33 do primeiro tempo a primeira bola que o Palestra foi para o ataque o jogador conseguiu acertar um chute de fora da área sem chance para o nosso goleiro Daí você pensa 'meu Deus e agora ' Você batalha batalha o time bem e no primeiro lance sai o gol Então claro que ali foi uma duchinha de água fria Mas mesmo assim pegamos a bola e continuamos criando disse Gilsinho. O primeiro tempo acabou em 1 a 0 para o rival. O Taubaté estava sendo eliminado. É esse momento que surge o nome de Gilsinho, que já tinha status de ídolo, mas aqueles 45 minutos restantes mudariam a sua história e seu patamar no Taubaté. Foi dele o gol de empate, logo no início do segundo tempo. O Taubaté continuava pressionando, mas o gol da virada não vinha. Até que aos 43 minutos do segundo tempo, o juiz marca pênalti para a equipe. iago Furtuoso bate e marca. Após isto, uma briga generalizada começa, interrompendo a partida. Em meio à confusão, surge uma notícia, dizendo que o Red Bull havia vencido a partida diante do Desportivo por 3 a 1, sendo assim, o Taubaté não precisaria de mais um gol. Porém, a notícia era falsa, o jogo terminou em 2 a 1. O Burro precisava

de mais um gol para conquistar o acesso. A gente ficou com muito medo do juiz parar o jogo ali de não querer voltar e a gente não ter a chance de tentar fazer mais um Todo o cenário em volta antes do gol era de muita apreensão Era muito medo do juiz acabar o jogo - disse Caíque.

carrega com orgulho sua decisão considerada por muitos uma loucura. Vem tudo todas as dificuldades toda aquela junção de emoções que nós passamos durante todo o campeonato no apito final De um objetivo conquistado que não foi fácil Como eu disse no começo eu só saberia se tinha tomado a decisão certa se no final a gente tivesse conquistado o nosso objetivo Hoje eu posso dizer que a partir daquele momento eu tinha certeza Se eu estou falando hoje da maior emoção que eu tenho na minha carreira então valeu muito a pena ter participado daquele desafio e ter conquistado aquele acesso

Caíque Toledo (Crédito: Rogério Marques)

Felizmente, a partida recomeça. O clima é tenso. Alguns torcedores e jogadores acreditam na "fake news" do gol do Red Bull. Gilsinho, inclusive, pede calma ao time e orienta seus companheiros a segurarem o jogo. Para a sorte de todos, Max deu de ombros, e fez a jogada do terceiro gol, que terminou nos pés de Gilsinho. Talvez eu não estaria contando hoje essa história ou talvez nem continuaria no clube se a bola tivesse caído no meu pé ao invés do Max na jogada do gol Sorte que ele não me obedeceu porque quando ele pegou a bola eu falei Max leva para a bandeirinha segura a bola” só que mesmo falando eu acompanhei a jogada Ele é muito rápido fez a jogada deu um tapa na frente e conseguiu cruzar a bola Na minha cabeça não era o gol do acesso aquele Eu fui mais tranquilo do que deveria mas foi até bom disse Gilsinho. Aquele gol entrava na história do clube. Era o renascimento do Taubaté. O juiz apitou, o Burro da Central conquistou o acesso de maneira épica. O Joaquinzão explodia de alegria. O alívio não era só pelo acesso não só por ter saído do fundo do poço mas principalmente pelo clube ter continuado Quando sai o gol é um alívio absurdo disse Caíque. Na beirada do campo você não pensa muito no que está acontecendo fora então a gente se preocupava em fazer o resultado Logicamente que aquele momento foi de êxtase de todo mundo esperando por aquele gol que a gente precisava já que o outro jogo já tinha terminado Então foi um momento de euforia para todos nós Acho que todo mundo que estava envolvido no processo ficou eufórico - disse PC Santos. Após dez anos daquela partida, Gilsinho

Gilsinho (Crédito: Rogério Marques)

- Foi a realização daquilo que eu fui fazer no Taubaté. Eu fui sempre acreditando, muita gente, a maioria das pessoas não acreditavam, mas eu, quando peguei o carro e fui pra Taubaté, eu saí de casa acreditando que iria dar certo. Então foi só a consolidação - PC Santos. Jogadores, treinadores, dirigentes, presidentes. Tudo isto passa dentre de um clube. Porém, quem carrega o time, sofre, se alegra, chora e sorri junto, é o torcedor. Aquele acesso contou com o apoio em massa da torcida do Burro. O autor deste texto não seria louco de terminar esta reportagem de outra maneira. A fala de Caíque resume o que aquele ano de 2009 representa para cada torcedor do Taubaté. O ano em que o clube se recusou a morrer. Essa temporada é o renascimento Essa temporada representou uma retomada de apreço ao Taubaté Muita gente retornou e criou essa geração nova nesta temporada Esse ano serviu como ponto de partida Quando alguém contar a história do Taubaté você tem um milhão de coisas para contar mas 2009 não tem como era muito medo apreensão Depois o alívio o sentimento que tudo deu certo aquilo foi o maior êxtase que muita gente teve com o Taubaté O jeito que tudo aconteceu faz toda a diferença para considerar aquele ano campeonato jogo acesso o mais importante da história do clube


MANTHIQUEIRA

CAMPEÃO MUITO ALÉM DAS QUATRO LINHAS

Por: Pedro Henrique Elias Inovar, em qualquer área da vida, exige esforço e dedicação. No futebol, não é diferente. Porém, a tarefa torna-se ainda mais complicada quando o investimento é escasso. Este é o caso da Academia Desportiva Manthiqueira, clube de Guaratinguetá, fundado em 4 de agosto de 2005, um recém-nascido perto das equipes tradicionais da região. Em 2017, a Laranja Mecânica, como o Manthiqueira é conhecido, em alusão ao apelido da seleção da Holanda na Copa de 1974, conquistou seu primeiro título, o Campeonato Paulista da Segunda Divisão (equivalente à quarta do estado). Primeiramente, é necessário explicar o porquê de o Manthiqueira ser considerado um exemplo de inovação. A equipe é conhecida como o "Time do Fair Play", uma sigla que em tradução literal significa "jogo limpo". Nas instalações do clube existe uma cartilha, idealizada pelo presidente, Dado Oliveira, onde todos os funcionários devem seguir os sete princípios que regem o dia a dia do Manthiqueira. São eles: malandragem proibida; jogo limpo; técnico não deve "cantar jogadas"; religião (todas devem ser respeitadas); sem menosprezo; sistema tático (formação inicial sempre no 4-3-3) e postura do atleta. É obrigatório que todos no clube sigam os princípios. Não há negociação. É possível vencer assim? O Manthiqueira mostrou que sim. Disputando a quarta divisão paulista desde 2011, a Laranja Mecânica não teve sucesso nas seis primeiras participações. Porém, em 2017, ano que completavam-se sete anos na Segundona (como é chamada a quarta divisão), mesmo número de princípios do clube, o tão almejado título, chegou. E não foi nada fácil. Além do Manthiqueira, mais 28 equipes disputavam um lugar ao sol. Quer algo ainda mais surpreendente? Os jogadores contratados não recebiam salários, apenas a exposição de jogarem na quarta divisão do estado.

O filósofo Dado Oliveira, presidente do Manthiqueira, é bem sincero quando perguntado sobre os motivos do sucesso da Laranja Mecância naquela temporada. Na realidade ali foi um ano em que tudo deu certo para o Manthiqueira Não foi feito planejamento nenhum para a gente fazer o que foi feito Tivemos muita sorte porque os atletas que foram chegando foram se encaixando nesse perfil e foi dando liga e isso foi fundamental Eu vou creditar a nossa campanha maravilhosa à questão de muita sorte porque falando com toda a sinceridade não dava para imaginar Tudo deu certo todas as coisas deram certo para o Manthiqueira

Dado Oliveira (Crédito: Filipe Rodrigues)

O treinador daquele time era Luis Felipe, um velho conhecido do clube, que trabalhou nas categorias de base da equipe e assumia o time principal pela primeira vez. Ele endossa as falas de Dado quanto à expectativa do Manthiqueira naquela temporada. Por conhecer o histórico do Manthqueira as características dos jogadores e a realidade financeira do Manthiqueira eu acreditava que pela campanha da primeira fase nós iríamos para a segunda Eu achei que se a gente desse sorte no sorteio eu acreditava que daria para passar da segunda fase pela primeira vez o que já seria uma campanha meio que histórica Um dos principais jogadores daquele time era Luciano Pit, dono da lateral esquerda. O atleta, oriundo de Lorena, tinha 21 anos na época e também destacou que não havia

pressão por título. No começo da pré temporada e a temporada foram bem difíceis A competição toda em si foi bem difícil mas no começo foi muito difícil para nós A gente não tinha muita cobrança a gente se cobrava para fazer um campeonato bom Logo na primeira fase, o Manthiqueira mostrou que poderia surpreender naquele ano. A equipe terminou na segunda colocação do Grupo 4, com 25 pontos e classificou-se à segunda fase do torneio, que reunia os classificados em grupos de quatro times, onde as equipes se enfrentavam em casa e fora e os dois primeiros colocados avançavam. Foi neste momento que a equipe viveu o período mais difícil dentro da competição. Nós vencemos o primeiro jogo da segunda fase contra o José Bonifácio fora de casa e a partir dali o negócio desandou A gente recebeu o Taquaritinga e depois o Primavera em casa e nós perdemos os dois Foi o momento mais difícil pois foi a primeira vez que sofremos na competição A gente praticamente deu adeus ao campeonato ali já não tinha muita esperança – disse o treinador Luis Felipe.

Luis Felipe (Crédito: Danilo Sardinha)

Durante essa semana conturbada, onde o Manthiqueira vinha de duas derrotas seguidas em casa e precisava vencer o Primavera, fora de casa, para ainda continuar vivo na competição, o próprio treinador da equipe confessa que a situação abalou a todos.

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MANTHIQUEIRA: CAMPEÃO MUITO ALÉM DAS QUATRO LINHAS

Foi muito difícil Confesso que tive dificuldades em motiva los mas o futebol tem umas coisas que você não explica Nós fomos para a Indaiatuba enfrentar o Primavera A gente precisava ganhar o jogo mas não tínhamos nem elenco e nem condição moral para vencer o jogo a gente ia precisar buscar na vontade e contar um pouquinho com a sorte A situação já não era das mais favoráveis, porém, após uma baixa na comissão técnica, Dado, presidente do time, foi para a partida como roupeiro. O cenário parecia perfeito para um fim melancólico, mas o futebol é um esporte apaixonante muito por causa de sua imprevisibilidade. O Dado presidente foi roupeiro nesse jogo porque o roupeiro não pôde viajar Era dado certo que o Manthiqueira ia para Indaiatuba para se despedir do campeonato Quem achava que poderia acontecer alguma coisa era a comissão técnica e os próprios atletas Foi um jogo onde o Primavera foi muito superior a gente o nosso goleiro pegou até pensamento e no finalzinho do jogo em uma bola parada a gente fez um gol de cabeça e ganhamos de um a zero – disse Luis. O treinador considera este jogo, este momento da competição, como o mais importante para a arrancada rumo ao título. Essa foi a primeira vez que o Manthiqueira jogou mais preocupado em defender do que atacar O vestiário depois desse jogo estava uma alegria contagiante uma energia incrível Esse foi o momento que falei opa Se a gente ganhou esse jogo eu acho que dá” Após esta partida, o Manthiqueira conseguiu o empate diante do Taquaritinga e venceu o José Bonifácio na última rodada. O clube, pela primeira vez, estava classificado à fase de mata-mata da Segundona. A campanha já era histórica. Nas quartas de final, o adversário era o Osvaldo Cruz. Foram duas partidas difíceis, dois jogos terminados em 1 a 0 para cada lado. O Manthiqueira seguiu na competição por ter feito uma campanha melhor e tinha a vantagem em caso de empate. A semifinal foi diante do União Futebol Clube, de Mogi das Cruzes A equipe surpreendeu e classificou-se na primeira colocação de seu grupo na segunda fase. Já nas quartas de final, eliminou o São José EC, um dos favoritos ao título naquela temporada. O adversário impunha respeito. A primeira partida acabou em 0 a 0. A decisão ficou para Guaratinguetá.

No jogo do acesso eu particularmente estava tranquilo A gente teve uma palestra na sexta feira e a palestra foi motivadora para nós foi com um árbitro da Federação Paulista e CBF Ele passou confiança para nós e nesse jogo eu fui o capitão fiquei muito confiante – disse Luciano Pit, capitão do Manthiqueira no segundo jogo.

Luciano Pit (Crédito: Autor)

A torcida compareceu, o clima era de festa, porém, o primeiro tempo terminou em 1 a 0 para o União. O sonho do acesso estava em risco. Ao final da primeira etapa, a equipe desceu para o vestiário eliminada. Eles desceram ao vestiário sabendo que era para a gente estar ganhando o jogo e a gente estava perdendo Eles já desceram pensando vamos empatar Vamos subir lá e fazer o nosso A gente prometeu que nós só entraríamos de novo naquele vestiário com o acesso garantido E o segundo tempo foi um atropelo Foi um sonho realizado e ninguém conseguia se conter de alegria O Manthiqueira não só virou o jogo, como venceu a partida por 3 a 1 e carimbou o acesso para a Série A3. Além disso, garantiu uma vaga na final da competição. Um time que entrou no campeonato sem salários conseguiu o que parecia impossível. Quando o juiz apitou eu falei 'conseguimos graças a Deus' Fiquei muito feliz passamos as nossas dificuldades mas a gente sabia que Deus os nossos familiares e entre nós a gente confiava um no outro Foi uma emoção muito grande fiquei muito feliz minha família toda estava no estádio Até hoje eu lembro vai ficar marcado pro resto da minha vida – disse Luciano Pit. A gente não esperava subir Ter conseguido o acesso era algo que ninguém imaginava Ter conseguido o acesso depois de estar praticamente fora do campeonato ninguém imaginava Naquele momento eu desabei no campo de emoção Eu não sabia onde eu estava não sabia se chorava ria abraçava a

família ou os jogadores - disse Luis. Apesar do êxtase, a competição não havia terminado, ainda era necessário disputar a final do campeonato. O adversário era o EC São Bernardo, que tinha um ataque poderoso com 40 gols na Segundona. A primeira partida, no campo do rival, terminou em 1 a 1. Novamente a decisão ficou para Guaratinguetá. Com mais de 5 mil pessoas no estádio Dario Rodrigues Leite, aquele 30 de setembro de 2017 ficará marcado para sempre na história do Manthiqueira. Quando é para ser é para ser A gente foi pra jogar o jogo sem compromisso Aí em uns dez minutos já estava 2 a 0 pra gente Depois o São Bernardo fez um gol e complicou um pouco mas também durou dez minutos e a gente colocou a cabeça no lugar de novo e venceu sem sustos – disse Luis. Campeão. O Manthiqueira era campeão do Campeonato Paulista da Segunda Divisão. Um time que prezava pelo jogo limpo, futebol ofensivo e avesso à malandragem. O projeto de Dado Oliveira finalmente havia conhecido o sucesso. Em tom de desabafo, ele relembra a conquista do título. Foi aquela coisa que a gente não sabia o que fazia porque sinceramente a gente não estava acreditando naquilo que aconteceu era muito difícil mesmo Foi uma obra divina sempre agradeço muito a Deus Foi aquela alegria imensa um êxtase total porque o Manthiqueira é um time muito simples muito humilde é um time que não tem condições de fazer grandes contratações Então dentro da nossa humildade você ganhar um título e ser campeão é algo extraordinário

Isso mexe porque é o sonho Quando você consegue conquistar um título desse jeito aí não tem jeito É possível fazer futebol bem feito É possível fazer as coisas com amor Dois anos após a conquista, o treinador Luis, agora longe do Manthiqueira, analisa com mais calma aquela temporada e os motivos do sucesso da Laranja Mecânica. - Nesse ano nada ia tirar isso da gente era pra ser desse jeito Tudo conspirou a favor Eu já conhecia o time de outras épocas e esse não era nem de perto o time mais talentoso técnico ou promissor Mas os outros não tiveram a metade do sucesso que esse teve

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MANTHIQUEIRA: CAMPEÃO MUITO ALÉM DAS QUATRO LINHAS

Esse tinha o mesmo pensamento a mesma ideia o mesmo propósito no mesmo lugar Além disso a comissão técnica disposta a fazer tudo pelos jogadores O presidente que deu carta branca para a gente trabalhar Tudo conspirou a favor Nada iria tirar o título da gente só que só conseguimos enxergar isso depois que ganhamos Dado Oliveira continua na presidência do Manthiqueira. Ele ainda se emociona ao relembrar do título daquela temporada. É uma coisa indescritível porque eu sou um apaixonado por futebol É uma sensação tão agradável que se a gente pudesse parar o tempo ali seria o ideal A minha vida se confunde muito com a Academia Desportiva Manthiqueira Quando as pessoas falam do Manthiqueira elas lembram de mim e quando falam comigo lembram de um time de futebol que é o Manthiqueira Ganhar um campeonato, por si só, já é um feito memorável. Porém, vencer da maneira que o Manthiqueira venceu, com quase nenhum recurso, acreditando em uma filosofia que nenhuma equipe acredita, é de se exaltar ainda mais. O Manthiqueira, com toda certeza, é um clube muito especial, que não teve medo de inovar e esperou, num mundo onde o imediatismo comanda. Que bom seria se o futebol tivesse um pouco mais de Academia Desportiva Manthiqueira.

Manthiqueira comemorando título inédico. (Crédito: Rodrigo Corsi/FPF/powered by Canon)


BRAGANTINO QUANDO A TRADIÇÃO ANDA JUNTO AO PLANEJAMENTO

Por: Pedro Henrique Elias Uma das equipes mais tradicionais do interior do estado de São Paulo, o Bragantino é um dos poucos clubes de fora da capital que já venceu um Campeonato Paulista da primeira divisão, lá em 1990. Ao longo dos anos, o time vem se mantendo entre a Série A1 e a Série A2 do estadual. Já nacionalmente, o Braga teve uma importante conquista no ano de 2018. Disputando a Série C do Campeonato Brasileiro, a equipe comandada por Marcelo Veiga conquistou o acesso à Série B com muita luta e desbancando rivais com maior poder financeiro, tais como Náutico e Santa Cruz. O nome de Marcelo Veiga não pode ser ignorado nesta campanha. Ele é o treinador com o maior número de partidas à frente do Massa Bruta (apelido do Bragantino) na história do clube. São 516 jogos pelo Braga. Em entrevista ao globoesporte.com, divulgada no dia 19 de dezembro de 2018, Veiga classificou a partida diante do Náutico, de Recife, que culminou no acesso do Braga à Série B, como a mais importante de sua carreira profissional como treinador. Eu escolhi esse dia porque para mim marcou bastante As outras lógico que marcaram demais principalmente o título brasileiro Mas já vinha num processo de eu estar aprendendo e buscando aquilo que era importante não só para a minha carreira mas também para o clube Mas esse jogo essa decisão com o Náutico eu achei importante pelo meu retorno ao Bragantino Peguei o time quase na Série D do ano passado Para mim foi um momento muito importante no meu retorno ao Bragantino Porém, para entender melhor o sucesso do Bragantino no ano de 2018, é preciso voltar a 2017. A equipe disputava a Série C do Campeonato Brasileiro e corria enorme risco de ser rebaixada à Série D. Marcelo Veiga foi contratado para comandar o time nas últimas três rodadas com a missão de salvar o Massa Bruta da degola. E assim o fez. O Bragantino escapou do

rebaixamento e manteve-se na Série C.

Marcelo Veiga (Crédito: Danilo Sardinha)

Após o término da competição, era preciso traçar um planejamento para 2018, com o intuito de um ano muito melhor do que o trágico 2017. Porém, como tornar uma equipe que brigou para não ser rebaixada em um time competitivo? É neste momento que entra a figura de Clayton Vieira, diretor de futebol do Bragantino, responsável pela montagem do elenco de 2018. Ele explica que quando fizeram o planejamento, a ideia não era começar tudo do zero, mesmo com os maus resultados no Brasileiro de 2017. Praticamente nós não mudamos metade da equipe nós seguramos uma base e fizemos um excelente Paulistão Eu já vinha de uma sequência Eu montei o time da Série A2 de 2017 A gente conseguiu o acesso da Série A2 do Paulistão A partir daí fomos mantendo uma base Sempre procurando manter esse equilíbrio na questão orçamentária pés no chão e contratando jogador que se enquadrava neste perfil que a gente procurava Como citado por Clayton, o Paulistão de 2018 teve um grande peso para o sucesso do Bragantino. A equipe classificou-se à fase mata-mata após terminar na viceliderança do Grupo 1, com 17 pontos. Acabou sendo eliminada nas quartas de final, contra o Corinthians, que viria a ser o campeão daquele ano, após vencer a primeira partida por 3 a 2, mas ser derrotado no jogo de volta por 2 a 0. Para Guilherme Mattis, capitão daquela equipe e um dos grandes ídolos da história recente

do Bragantino, o bom desempenho no estadual foi fundamental para a confiança da equipe. O Paulistão foi importante para dar confiança Já tínhamos uma base uma espinha dorsal e isso facilitou muito para fazermos uma boa campanha na Série C aquilo foi uma resposta para quem duvidava pela campanha da Série C de um ano antes Com o término do estadual, o foco estava totalmente voltado à Série C. O Braga nem pensava em repetir a má campanha da temporada anterior. O goleiro Alex Alves, um dos principais responsáveis pelo bom desempenho defensivo do Bragantino, destacou o início positivo da equipe na competição como fundamental para a sequência do campeonato. Com a permanência da maioria dos jogadores do Paulista para a Série C iniciamos o campeonato bem e a confiança estava muito em alta Então tínhamos certeza dos nossos objetivos traçados que iria dar certo O rendimento do Bragantino no ano de 2018 surpreendeu não apenas pela entrega dos jogadores dentro de campo, mas fora dele o clube tinha de se virar para conseguir manter a boa administração mesmo com poucos recursos, como revela Clayton. Com certeza era o clube com a folha salarial mais baixa do Paulistão e uma das mais baixas da Série C Elenco bem enxuto mesmo num todo mesmo tanto a parte administrativa departamento de futebol tudo bem enxuto bem simples mesmo E deu certo O Bragantino conseguiu a classificação às quartas de final da Série C após terminar a primeira fase na quarta colocação do Grupo B, com 29 pontos. Conforme previsto no regulamento, o quarto colocado do Grupo B enfrentaria o primeiro colocado do Grupo A.

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BRAGANTINO: QUANDO A TRADIÇÃO ANDA JUNTO AO PLANEJAMENTO

Naquela ocasião, o adversário seria o Náutico, que vinha de dez jogos consecutivos sem derrota. Quem vencesse as quartas de final, conquistava uma das quatro vagas para a Série B do ano seguinte. Ou seja, aquela partida tinha o peso do ano inteiro. Aquele jogo valia o acesso do Bragantino. Franco favorito, o Náutico estava badalado pela imprensa esportiva. Muitos já davam como certa a classificação do Timbu às semifinais. Esta atmosfera serviu como motivação aos jogadores do Bragantino, conta Guilherme Mattis. O Veiga tentou blindar a gente de tudo claro que rede social a gente acabava vendo Muitas coisas foram ditas Mas futebol é dentro de campo Quando jogamos o primeiro jogo em Bragança quando eles foram acordar já estava 2 a 0 voltamos no segundo tempo e fizemos 3 a 0 aí administramos e acabamos tomando um gol no final mas sabíamos que a gente tinha uma vantagem importante pro jogo seguinte

Guilherme Mattis (Crédito: Rafael Moreira)

O Bragantino não só venceu por 3 a 1 a primeira partida, como fez uma de suas melhores apresentações naquele ano. Todo o favoritismo do Náutico foi ignorado pelo Massa Bruta. Porém, apesar da bela vantagem, ainda faltavam mais 90 minutos, agora no campo do adversário, na Arena Pernambuco. Marcelo Veiga, treinador do time, conta como foi feito o planejamento para o jogo decisivo. A gente chegou dois dias antes para uma preparação que era um jogo decisivo porque a gente sabia da necessidade de estar lá e estar bem concentrado então a ansiedade ela bateu de uma maneira muito diferente especial que eu nunca tinha sentido Durante a semana eu tive uma conversa com o grupo tentando fazer com que eles entendessem da importância que era o resultado que nós conquistamos aqui Eles já vinham de dez resultados positivos de invencibilidade uma recuperação boa Eu conhecia muito bem o elenco do Náutico mas a gente sabia da dificuldade que ia encontrar lá do ambiente que a gente ia encontrar

Na semana do segundo jogo, Marcelo Veiga preparou um café da manhã diferente, com a presença dos familiares dos jogadores. Aquele momento serviu para motivar os atletas do elenco a se lembrarem por quem eles estavam jogando. Já na chegada em Recife, Veiga também revelou que a torcida do Náutico madrugou em frente ao hotel do Bragantino, soltando rojões para atrapalhar o sono dos jogadores na noite que antecedia ao jogo. Só a primeira ideia foi bem-sucedida no final. No início da partida, o clima estava favorável ao Náutico. A Arena contava com 27.469 torcedores, que empurravam o Timbu (apelido do Náutico) em busca do acesso. A pressão era enorme pelo primeiro gol. Porém, quem marcou foi o Bragantino, aos 32 minutos do primeiro, com Matheus Peixoto. A situação estava favorável ao Braga. Na volta para o segundo tempo, o cenário se repetia, com o Bragantino se segurando na defesa, e o Náutico fazendo o que podia para furar o bloqueio do adversário. Até que aos 22 minutos, o lance capital da partida. O árbitro Wagner do Nascimento Magalhães assinalou pênalti de Adenilson por tocar com a mão na bola. Era a chance que o Náutico precisava. O que marcou mesmo pra mim foi o jogo de volta contra o Náutico que o Alex pegou um pênalti O Alex pegou um pênalti que ali foi um lance fundamental Se eles tivessem feito o gol a pressão seria enorme e eles poderiam inverter o placar – disse Clayton. Existem momentos dentro de campo na nossa carreira que a gente sabe o que vai acontecer Quando o Alex pegou o pênalti estava 1 a 0 para nós e ali eu já o abracei e falei já era ninguém mais tira esse acesso” Ali eu já sabia que era só esperar o tempo passar que a gente não iria tomar os gols – disse Guilherme Mattis. Aquele momento do pênalti foi num momento do jogo onde o Marcelo já tinha feito duas substituições a gente ganhava o jogo de 1 a 0 e eu perguntei para o árbitro quanto tempo tinha porque eu achava que já estava no final Ele falou está com 25 minutos aí eu falei nossa Se tomar o gol agora vai incendiar O Wallace Pernambucano pegou a bola e a gente sempre tem esse trabalho de estudar os batedores Ele tinha grande probabilidade de bater no canto de confiança dele Eu esperei deu tudo certo – disse Alex Alves, o autor da defesa do pênalti. Após o pênalti perdido, o Náutico ainda tentou reagir, e chegou a fazer um gol, aos

Alex Alves Crédito Rafael Moreira

38 minutos, mas já não havia tempo para mais nada. Final de jogo, 1 a 1 na Arena Pernambuco e Bragantino com o acesso garantido à Série B. Marcelo Veiga lembra do momento em que o juiz apitou o fim da partida. Nessa hora você acredita que não vem nada na cabeça É uma coisa incrível A gente se abraçou ali depois eu fui comemorar com os atletas foi uma cosia muito doida Deu vontade de chorar deu vontade de dar risada

Cara é uma emoção que eu nunca tinha sentido em nenhuma dessas outras decisões que eu tive com o Bragantino

Nem quando eu fui campeão eu senti isso Alex Alves, herói do jogo, também relembrou o momento após o final do jogo. Depois que o juiz apitou e acabou o jogo foi só alegria Aquele peso nas costas sai aquela ansiedade aquele momento que você lutou lá atrás no início e conseguiu o objetivo o trabalho árduo que foi feito e tudo que foi traçado foi conquistado É maravilhoso Foi muito bacana um momento que marca muito na nossa carreira O diretor de futebol, Clayton Vieira, resumiu o sucesso do Braga naquela temporada, enumerando os motivos daquele acesso. Acho que planejou para subir Nenhum clube sobe do nada Lógico que você tem que ter um pouco de sorte futebol tem a sorte sim mas a sorte é aliada à competência Desde o final de 2016 foi feito um planejamento para a gente ter um acesso tanto no Paulistão quanto na Série C a gente foi plantando construindo um esqueleto de time deu certo O Bragantino serve de exemplo mostrando que, mesmo com tradição, uma equipe precisa de muito mais para obter sucesso. Sem planejamento, estrutura e trabalho sério, a história e peso da camisa não são suficientes para gerar resultados positivos. A conquista do acesso é um exemplo claro que para vencer, é preciso planejar.


ATIBAIA

A SURPRESA QUE VEM SE TORNANDO REALIDADE NA REGIÃO Por: Pedro Henrique Elias

Ambicioso. Não há adjetivo melhor para descrever o Sport Club Atibaia. Fundado no dia 12 de dezembro de 2005, a equipe da região bragantina vem crescendo ao longo dos últimos anos e aparece como uma das gratas surpresas entre os clubes da região, com perspectiva de figurar entre os principais campeonatos do estado e do Brasil. Em 2018, o esforço deu resultado, e o Falcão (apelido do clube) sagrou-se campeão do Campeonato Paulista Série A3, primeiro título da história do clube, destaque nesta reportagem. O At i b a i a d i s p u t a c o mp e t i ç õ e s profissionais desde 2010. Como qualquer equipe profissional do estado, começou na quarta divisão do Campeonato Paulista (também conhecida como Segundona). Por lá ficou durante cinco anos, quando em 2014 conquistou o acesso, ficando com o vice-campeonato daquele ano e subindo para a Série A3 (equivalente à terceira divisão). Mas o destino reservava algo ainda maior ao Atibaia. Foi em 2018, após quatro anos na série A3, que o primeiro título da história do clube chegou. Este título é ainda mais simbólico pois, em 2015, o Atibaia conseguiu o acesso da Série A3 à Série A2, porém, como a cidade não tinha um estádio que atendesse às normas da Federação Paulista de Futebol, o Falcão não pôde subir de divisão naquela temporada. Em 2018, o clube se movimentou nos bastidores para evitar um possível repeteco de 2015. Desta vez, com o regulamento embaixo do braço, o Atibaia garantiu seu lugar na Série A2 pois mudou sua cidade sede para Americana, algo permitido, desde que o clube comprovasse que o estádio da cidade de Atibaia (Salvador Russani) estivesse em reformas, mas com o prazo de dois anos para o fim das obras e seu retorno à cidade sede. Numa campanha de 24 jogos, o Atibaia provou, também em números, o porquê de

ter levado o caneco para casa. Foram 16 vitórias, cinco empates e apenas três derrotas durante toda a competição. Leo Silvério, gerente de futebol da equipe naquele ano, crê que o início muito antecipado da pré-temporada foi fundamental para o clube. A gente teve uma felicidade de começar com um tempo de antecedência muito bom Trouxemos o Betão Alcântara treinador na ocasião e na segunda quinzena de outubro a gente já começou a trabalhar Isso fez com que a gente conseguisse colocar nossos jogadores em forma mais rápido deixasse eles mais prontos pra competição Quando iniciou a competição em janeiro a gente já estava atingindo o 100%

Leonardo Silvério (Crédito: Autor)

Betão Alcântara, citado por Léo, foi o treinador escolhido para assumir o Atibaia. Anunciado em 19 de setembro de 2017, o treinador comandou a equipe durante toda a pré-temporada e acredita que os amistosos contra as grandes equipes foram fundamentais para a confiança do elenco. Começamos o campeonato já com ritmo de jogo Tivemos muitos amistosos sete ou oito No Atibaia tivemos essa possibilidade talvez pela proximidade da capital conseguimos fazer jogos com equipes de Série A1 Série A2 com o Palmeiras Iniciamos bem a competição Tivemos uma performance muito equilibrada um ou outro jogo que

tropeçamos só Foi uma campanha irretocável No desenrolar da competição, o Atibaia já mostrava que seria um dos favoritos ao título. Nas oito primeiras partidas, foram seis vitórias, um empate e uma derrota. Camisa 10 e craque do time, Danilo Santana relembra um momento importante do clube durante a primeira fase. Acho que as viradas de jogo que ninguém acreditava Contra o Mogi Mirim a gente estava perdendo por 3 a 1 o jogo faltavam seis minutos para acabar e conseguimos fazer três gols e virar para 4 a 3 foi algo que ninguém imaginava Também contra o Desportivo Brasil a gente estava perdendo por 4 a 1 e conseguimos empatar por 4 a 4 Foram duas partidas que marcaram pela dificuldade e pelo poder de reação que a equipe teve Esta partida diante do Desportivo Brasil, inclusive, é considerada o divisor de águas para o treinador Betão. O jogo era válido pela 15ª rodada da primeira fase, e o Atibaia vinha de cinco jogos consecutivos sem perder. Eles abriram 3 a 0 com 15 minutos foi uma coisa inexplicável Fizemos nosso gol no finalzinho do primeiro tempo Voltamos para o segundo tempo e já tomamos o quarto gol com cinco minutos Na parada técnica eu chamei os jogadores e falei ou a gente enfia a bunda lá atrás para não tomar mais ou nós vamos sair pra jogar para buscar o resultado” e os caras falaram pra gente sair pra jogar e aconteceu o empate de 4 a 4 Ali eu vi realmente que o nosso time era o bam bam bam” da competição Não tive dúvidas disso

Betão Reprodução

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ATIBAIA: A SURPRESA QUE VEM SE TORNANDO REALIDADE NA REGIÃO

Ao final da primeira fase, o Atibaia classificou-se na terceira colocação, com 40 pontos, mesmo número do segundo colocado, Capivariano, e quatro pontos abaixo da líder, Portuguesa Santista. A partir dali, o campeonato seria decidido no estilo mata-mata: um jogo em casa e outro no campo do adversário. Nas quartas de final, a partida era diante do Noroeste. A gente estava bem confiante pela campanha que a gente tinha feito por ter sido a melhor campanha da história do Atibaia A gente sabia que se continuasse pés no chão que nem a gente estava com certeza a gente conseguiria o nosso objetivo que era o acesso – disse Danilo Santana. A primeira partida terminou em 0 a 0, em Bauru. Já no segundo e decisivo jogo, melhor para o Falcão, que venceu por 1 a 0 e carimbou a vaga para a semifinal. O confronto que valia o acesso era diante do Capivariano, um dos melhores times da competição que contava com o melhor ataque do campeonato. Muitos poderiam considerar como um jogo tenso. Porém, Leonardo Silvério revela que havia uma estratégia elaborada para a partida, onde a comissão tinha plena convicção que seria bem-sucedida. Eles fizeram uma campanha muito boa mas e r a m u m t i m e q u e j o g av a m u i t o ofensivamente dava muito espaço pelo lado direito Naquele jogo contra o Capivariano eu e o Betão conversamos muito durante a semana pra jogar nas costas do lateral direito e nós dois falamos que iríamos ganhar o jogo por 3 a 0 Falamos 'vamos matar lá fazer uns 3 logo jogar armadinho nas costas do lateral deles e aproveitar esse momento' Soberano. Este foi o Atibaia jogando em Capivari. A equipe derrotou o rival por 3 a 1, praticamente liquidando o confronto. Para conseguir se classificar, o Capivariano precisava vencer por três gols ou mais a partida de volta, na casa do Atibaia. Isto não aconteceu. O Atibaia venceu novamente o rival, desta vez por 3 a 2, e confirmou de maneira tranquila o tão sonhado acesso. - A emoção é muito grande.

Só quem teve um acesso sabe a dimensão que é você tirar um caminhão das costas Você começa um trabalho, e há a cobrança em cima de resultados, em cima de conquistas, e não é fácil, o dia a dia não é fácil, é lidar com jogador que não está jogando e está insatisfeito, lidar com pessoas que trabalham no clube e que às vezes não remam pro mesmo lado. É muita coisa – disse Betão.

A gente só começa a pensar em tudo o que passou a felicidade de que tudo valeu a pena A felicidade foi imensa porque a gente tinha um objetivo que foi alcançado Ainda mais o Atibaia que pode passar 100 anos a gente estará marcado na história por ter alcançado o acesso e o título nunca será apagado da história do clube e nem na minha carreira – afirmou Danilo Santana.

Danilo Santana (Crédito: Gustavo Muniz)

O acesso estava carimbado, mas ainda restava a final, diante da Portuguesa Santista, que foi a líder da primeira fase da competição. Na semana do jogo final, os representantes das duas equipes se encontraram na Federação Paulista, e o clima esquentou, como revela Leonardo Silvério. Quando nós fomos fazer a final contra a Portuguesa Santista o presidente da Portuguesa propôs jogar na Vila Belmiro na cidade de Santos sede da Portuguesa Santista eles queriam fazer lá porque a festa seria mais bonita Isso aí mexeu com a gente nosso presidente respondeu se vocês tivessem feito os gols que vocês perderam vocês poderiam jogar onde quisessem mas agora vocês vão ter que jogar na nossa casa” aí a gente entrou meio mordido A partida foi realizada no estádio Nabi Abi Chedid, do Bragantino, em Bragança Paulista. O Atibaia podia contar com o apoio da torcida, já que durante a competição, mandou seus jogos em Indaiatuba, a 94km de distância de Atibaia, e Bragança Paulista é a cidade vizinha do Falcão. Os ânimos estavam quentes, porém a responsabilidade era menor, já que o acesso estava garantido. Estava tranquilo demais Eu falei para os jogadores que o jogo do ano era o do acesso A final é a cereja do bolo O foco nosso era o acesso O título é muito simbólico – disse Betão. O Atibaia jogava com a vantagem do empate, já que na fase mata-mata os pontos se acumularam, e a equipe ultrapassou a

Portuguesa Santista na classificação geral. A partida foi intensa, como era previsto. O Atibaia abriu o placar no final do primeiro tempo, com Mascote. Já no início da segunda etapa, a Portuguesa empatou o jogo, com Diego. Porém, no fim do jogo, Jackson Five marcou para o Falcão, sacramentando o Atibaia como o campeão da Série A3 de 2018. A gente não sabia se pulava se agradecia se corria se chorava de alegria Como eu falei o campeonato em si não é vencido só nas partidas é muito antes É todo o planejamento todo o sacrifício os treinamentos o que você abre mão para poder alcançar Passa um filme na cabeça porque isso é a coroação é a premiação de um sacrifício que você teve que fazer lá atrás Esse foi o meu primeiro título Foi algo que ficou marcado a felicidade é imensa é algo que a gente não consegue descrever – disse Danilo Santana. Esta foi a primeira conquista da história do Sport Club Atibaia. O que chama atenção nesta campanha foi o planejamento. O time iniciou a preparação muito antes dos rivais. Além disto, existem outros fatores que devem ser exaltados. Primeiro um trabalho com antecedência o presidente nos deixou iniciar o trabalho Segundo a montagem da comissão técnica que foi com profissionais excelentes na ocasião Foi um trabalho em equipe muito bom Um time estruturado todas as condições de trabalho foram dadas pra gente Isso fez com que a gente chegasse ao título da competição cada um teve sua parcela de contribuição pro título da competição – disse Léo Silvério. Foi muito merecido um dos títulos que mais comemorei É como você ver um filho nascer Ele nasce você cria depois ele casa e vai embora No Atibaia foi a mesma coisa Eu vi aquele time nascer nós fizemos toda a preparação desde o início mesmo Você ver no final tudo aquilo que você fez dar certo é um motivo de muito orgulho e muita alegria – concluiu Betão. Ambicioso. O adjetivo que iniciou o texto é o mesmo que o termina. O Atibaia provou a quem quisesse ver e duvidar que tradição não vence os jogos. Planejamento, sim. Mesmo enfrentando equipes tradicionais no cenário estadual, o Falcão sobrou no campeonato. Esta foi a primeira conquista, e deve servir como exemplo para os velhos cartolas dos clubes maiores que acreditam que apenas o peso da camisa é o suficiente. O futebol é dinâmico, e nisto, o Atibaia nada de braçadas.


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Futebol: renascimento, sorte, planejamento e ambição  

Quatro grandes conquistas recentes de times do Vale do Paraíba e região bragantina contadas de maneira inédita.

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